29513-108183-1-PB

download 29513-108183-1-PB

of 12

description

183-1-PB

Transcript of 29513-108183-1-PB

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    5

    SIMPSIO Avaliao e Perspectivas do Governo Lula

    Macroeconomia da Estagnao Brasileira

    Luis Carlos Bresser-Pereira*

    Agradeo a Universidade Federal do Paran pelo convite para participar deste

    seminrio. sempre muito bom voltar aqui por que percebo que a Universidade Federal do

    Paran est formando um grupo de economistas importantes que esto estudando a

    macroeconomia do desenvolvimento brasileiro e, isso uma contribuio para o nosso pas.

    Quando o Jos Lus1 teve a idia para este seminrio, ele colocou como ttulo

    Macroeconomia da Estagnao que o ttulo do livro que eu acabei de escrever, j est

    com o editor e dentro de dois meses depois do carnaval j estar publicado. E neste livro

    o problema que eu coloco exatamente o problema do seminrio: por que o Brasil est quase

    estagnado? No est estagnado, mas quase estagnado, devido a taxas absolutamente

    insatisfatrias do PIB per capita, nos ltimos vinte e cinco, vinte e seis anos. Ou melhor, a

    minha pergunta um pouco mais especfica, a minha pergunta : por que o Brasil est

    crescendo to pouco nos ltimos doze anos? Porque o subttulo do livro A crtica da

    ortodoxia convencional no Brasil ps-1994.

    Por que 1994? Porque em 1994 o Brasil criou o Plano Real, e com o Plano Real ns

    conseguimos afinal neutralizar a alta inflao uma inflao de nvel altssimo de mais de

    20% ao ms (naquela poca ao ms e no ao ano). Com isso ento, o Brasil esteve quase

    estagnado entre 1980 - quando comea a crise - at 1994 porque tinha uma alta inflao.

    Tinha uma alta inflao porque teve uma alta dvida externa, porque teve um modelo de

    substituio de importaes esgotado e uma srie de coisas desse tipo. Mas sobre estes

    assuntos, eu e outros economistas brasileiros escrevemos, eu escrevi pelo menos dois livros

    sobre a crise do Estado brasileiro.

    Agora, quando chegamos em 1994 afinal, conseguimos colocar em prtica toda

    teoria que ns havamos desenvolvido no Brasil, por economistas brasileiros. Afinal

    conseguimos neutralizar a inrcia inflacionria e esta foi uma teoria desenvolvida por

    Transcrio da palestra Macroeconomia da Estagnao Brasileira realizada no dia 22 de novembro de 2006 no Auditrio de Cincias Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Paran (UFPR). * Ex-Ministro da Fazenda. Professor da Escola de Economia de So Paulo da Fundao Getlio Vargas (FGV-SP). 1 Referncia ao Prof. Dr. Jos Luis Oreiro (UFPR).

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    6

    economistas brasileiros, a teoria da inflao inercial que vocs devem aprender em seus

    cursos.

    Agora, em seguida, era razovel se esperar que o Brasil crescesse fortemente, e eu

    tambm acreditei que o Brasil ia crescer, todo mundo acreditou, os estrangeiros acreditaram.

    Havia um novo governo - do qual eu participei e tenho orgulho de ter participado - e este

    governo acreditou, e enfim...ento se perguntou como que ns vamos crescer? E vieram

    uma srie de conceitos...e infelizmente a partir deste momento, ao invs de ns termos feito o

    que tnhamos feito at o Plano Real, que era trabalhar com a prpria cabea, e usando a

    prpria cabea resolver os nossos problemas: como a inflao inercial que o Fundo

    Monetrio Internacional, o Banco Mundial, o Tesouro Americano, os americanos, os

    franceses, os alemes, os japoneses no sabiam nada, ns que sabamos! Fomos ns no

    somente que desenvolvemos a teoria deste tipo de inflao, como tambm fomos ns que

    desenvolvemos, a forma de neutralizar este tipo de inflao, o que foi feito atravs da URV,

    em 1994. Mas ao invs de fazer isto, ns resolvemos que estava na hora de ouvir os conceitos

    do norte2, e o resultado que isso no gerou crescimento algum.

    O Brasil, nesses ltimos doze anos, apesar de ter tido uma enorme entrada de

    investimentos diretos estrangeiros (principalmente nos primeiros seis anos), de muitos

    investimentos externos e de muitas reformas, de muitos ajustes e crescimento nenhum. E a

    questo , por que? Eu poderia responder para vocs imediatamente que o problema est na

    poltica macroeconmica; mas eu queria dar a vocs uma viso um pouco mais geral. Porque

    fundamental que lembrarmos, que ns vivemos na era da globalizao; quer dizer, o Brasil

    um pas dentro da globalizao ou do capitalismo global.

    Mas o que a globalizao? A globalizao , digamos, o estgio atual do

    capitalismo; o momento em que est o sistema econmico hoje, que foi fruto de uma

    revoluo capitalista inicialmente na Inglaterra, depois na Frana, nos Estados Unidos, na

    Blgica, na Europa. Esta revoluo capitalista vai mudar todo o mundo e no final do sculo

    XX ou no comeo do sculo XXI, ns chegamos ao auge do sistema capitalista e essa era do

    capitalismo que ns vivemos chamada de globalizao - ou capitalismo global.

    Ento ns temos isso e, interessante que podemos dizer que esta fase do

    capitalismo global o estgio que comea basicamente em 1980; e basicamente em 1980, por

    coincidncia, ns vamos ver (no apenas por coincidncia) que o Brasil parou de crescer. Em

    2 Referncia s polticas macroeconmicas ortodoxas ditadas pelos economistas norte-americanos.

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    7

    compensao enxergamos que isso aconteceu com o Brasil e com todos os outros pases em

    desenvolvimento. Falso! No um pouco falso, absolutamente falso. Exatamente em 1980,

    ou 78, 79 a China, por exemplo, comea a crescer e at hoje cresce a uma taxa de 9,5% ao ano

    (tirando o perfil da populao) cresce a mais de 8% ao ano, em termos per capita. O Brasil

    desde ento cresce a menos de 1% ao ano; para ter uma idia, a ndia no cresce a 8% per

    capita, mas cresce a 7% per capita; os outros pases asiticos dinmicos crescem a 5%, 6% per

    capita, e ns a menos de um. Ento parece que a globalizao para eles foi tima e para ns foi

    pssima; e ns aqui, observem, no apenas Brasil, e sim Amrica Latina. Toda a Amrica

    Latina, exceto o Chile, cresceu muito pouco; o Chile cresceu bem, mas muito menos que os

    pases asiticos...mas por que isto? O que est havendo de errado?

    Neste livro, na introduo do livro, eu fao uma pergunta a mim mesmo. Eu

    pergunto: se eu tivesse que dar apenas uma resposta de por que o Brasil est quase estagnado,

    ento eu daria uma resposta poltica e uma resposta econmica. E a resposta poltica que eu

    tenho a dar a seguinte: o Brasil est quase estagnado porque perdeu a idia de nao. E

    depois eu dou a resposta econmica: porque decidiu crescer com poupana externa, perdeu o

    controle de sua taxa de cmbio e deixou que os juros ficassem escandalosamente altos (mas

    na hora de dar a resposta escolhi cmbio e no juros).

    Mas com a globalizao, professor Bresser, os Estados nacionais perderam

    importncia, perderam autonomia e perderam importncia! Pelo menos isso que eu ouo

    todo dia nos jornais, isso que eu ouo l do norte - do norte rico, prspero, sbio, do

    pensamento hegemnico que vem dos Estados Unidos, da Inglaterra, Frana, Alemanha, do

    Japo, da Sucia (porque no?) - esto sempre dizendo que com a globalizao que os

    Estados nacionais se tornaram todos interdependentes, e perderam autonomia e perdendo

    autonomia perderam relevncia. E agora ns vivemos num mundo sem fronteiras. E nesse

    mundo sem fronteiras ento, executivos maravilhosos de empresas multinacionais,

    executivos maravilhosos de organizaes internacionais como o Fundo Monetrio

    Internacional, o Banco Mundial, a OMC, etc. orientam os estilos do mundo de forma a

    torn-los mais racionais, mais democrticos, mais lgicos e mais repletos.

    isso que ouvimos, isso que lemos nos jornais, isso que o Thomas Friedman

    escreve nos livros e no New York Times, esse o pensamento hegemnico. Ento no

    verdade isso? Veja, deixe-me explicar para vocs o seguinte raciocnio: a globalizao envolve

    a abertura de todos os mercados, isso significa que envolve uma competio muito maior a

    nvel mundial. Mas competio entre quem? Competio entre as empresas! Tudo bem, sem

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    8

    dvida, competio entre as empresas. Mas s? No. Competio entre as empresas e

    competio entre os Estados-Nao. Toda a lgica do capitalismo global a lgica da

    competio no apenas entre as empresas, mas a lgica da competio entre os Estados-

    Nao (dos pases) a nvel mundial.

    O Brasil, em 1950, era um pas fechado que competia muito pouco

    internacionalmente e que produzia tudo internamente. O Brasil hoje, no comeo do sculo

    XXI, um pas que compete com o mundo inteiro. No compete apenas com a Argentina ou

    com os Estados Unidos ou Uruguai; compete com os Estados Unidos, Rssia, Frana,

    compete com a China. Compete com quase todo o mundo! E se no for bom na competio,

    porque toda a lgica do capitalismo a de competio, ento se voc entrou no sistema

    capitalista voc tem que competir. E se voc quer ter os padres de vida, etc...voc tem que

    participar desta competio. A idia de ficar fora, de voltar a se fechar loucura completa,

    invivel.

    Ento, por que nos tornamos um dos finalistas dependentes? Porque passamos a

    competir muito mais e todos os Estados-Nao passaram a competir muito mais. Competir

    para ver quem tem mais taxas de crescimento econmico (nisso ns somos um horror). E

    voc compete apoiando as suas empresas o que fazem os Estados nacionais em todo o

    mundo. O Brasil, inclusive, de vez em quando faz isto. Mas o caso dos Estados Unidos, da

    Frana, Japo, Rssia, Alemanha, etc.

    Agora, se assim, ento de fato tm razo os globalistas que afirmam que a

    interdependncia aumentou muito. Mas se esta interdependncia resultou numa competio

    muito maior entre os Estados-Nao, qual a concluso que eu chego sobre a relevncia do

    carter estratgico dos Estados-Nao? Aumentou ou diminuiu? claro que aumentou

    muito! Os Estados-Nao so muito mais relevantes nas estratgias nacionais de

    desenvolvimento; so muito mais importantes do que eram no passado. No passado, a nao

    era relevante para fazer guerra ou para se defender contra imprios que poderiam fazer guerra

    contra voc. Hoje a guerra entre grandes Estados-Nao diminuiu muito, graas a Deus. Mas

    a competio se tornou muito mais forte e os Estados-Nao tm a capacidade de elaborar

    suas prprias estratgias nacionais de desenvolvimento.

    E foi isto que o Brasil fez de forma extraordinria entre 1930 a 1980. Por que fez

    isto? Porque tinha uma estratgia nacional de desenvolvimento. Quer dizer, a partir da

    Revoluo de 1930 e com a liderana de Getlio Vargas, vai se formar no Brasil um grande

    acordo nacional envolvendo empresrios, trabalhadores, tcnicos do governo e esse grande

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    9

    acordo nacional que vai promover a industrializao no Brasil, inicialmente atravs de uma

    estratgia substitutiva de importaes que no comeo estava perfeitamente correta voc

    tinha uma indstria infante - e isso ento, promoveu um enorme desenvolvimento no Brasil.

    Essa estratgia no estava funcionando no final dos anos 70. Veio a crise da dvida externa.

    Durante dez anos ns ficamos numa crise - que era a crise da dvida externa e a crise do

    modelo anterior - e a partir de 1990 ns nos rendemos ao norte. E desde ento passamos a

    adotar as estratgias, exceto no caso do Plano Real, que foi uma estratgia nossa; que por

    acaso, foi a nica coisa boa que foi feita, nica exagero, foi a principal coisa boa que foi

    feita; no resto, fomos absolutamente incapazes de voltar a ter uma estratgia nacional de

    desenvolvimento. E portanto, no crescemos.

    Quer dizer, no h nada mais importante no Brasil, hoje, do que reconstruir a nao

    brasileira. O Brasil era uma nao entre 1930 e 1970 porque havia uma razovel coalizo na

    sua sociedade. Com o Golpe Militar de 1964 essa coalizo diminuiu, mas depois dela, os

    empresrios, os tcnicos do governo e os militares conseguiram fazer uma unio, incluindo os

    trabalhadores e amplos setores da classe mdia, mas enfim, continuaram uma estratgia

    nacional de desenvolvimento. No entanto, desde 1980 e, principalmente, desde 1990, no

    temos nada. O que ns temos a ortodoxia convencional ou, se vocs preferem, o Consenso

    de Washington, mas eu prefiro falar em ortodoxia convencional.

    O que a ortodoxia convencional? A ortodoxia convencional o conjunto de

    diagnsticos, conselhos e presses que os pases ricos fazem aos pases em

    desenvolvimento. a estratgia que nos oferecem gratuitamente, mas se no aceitamos eles

    nos pressionam para aceitar. O que curioso, pois se de graa, se to bom para ns, no

    precisavam pressionar (mas nos pressionam). O que ns estamos aceitando desde os anos 90

    so os preceitos da ortodoxia convencional do Fundo Monetrio Internacional e do Banco

    Mundial, com os seus principais instrumentos - e tambm, um pouco a OMC ( importante

    pra eles tambm).

    Eu costumo fazer uma comparao: vocs sabem que fui Diretor do Grupo Po de

    Acar (no sou mais), mas vamos supor que eu fosse ainda. E que o Po de Acar estava

    com alguns problemas: as vendas no estavam to boas como precisvamos, o lucro no

    estava to bom como precisvamos, etc... e ento tive uma idia luminosa. Eu chegava para os

    meus colegas, diretores da empresa e dizia tenho uma idia!. A idia a seguinte: ns

    podamos ir a Paris, pedir uma audincia com o pessoal do Wal-Mart ou do Carrefour e eles

    nos contariam direitinho o que temos que fazer aqui no Po de Acar. Fazemos tudo o que

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    10

    eles mandarem e pronto, est resolvido o assunto! O que vocs acham que eles fariam

    comigo? Me demitiriam! E fariam muito bem em me demitir.

    isso que ns brasileiros fazemos. Vamos para Nova York, Washington,

    perguntamos direitinho aos nossos concorrentes, o que devemos fazer e depois fazemos

    direitinho o que eles mandaram fazer. Ou ento mandamos os nossos alunos mais brilhantes

    para estudarem nas universidades americanas para aprenderem direitinho o que deve ser feito,

    e depois voltam aqui para fazer. exatamente isso que acontece. Ento, a questo

    fundamental: ou ns voltamos a pensar com a nossa prpria cabea, ou voltamos a ter uma

    nao em termos de uma estratgia nacional de desenvolvimento que realmente seja nossa.

    Mas ento vem a seguinte pergunta: existe alternativa? Veja, uma coisa fundamental

    do pensamento hegemnico, que por definio, o nico racional, o nico inteligente, o

    nico competente, o nico abrangente, o nico que vale. Tudo aquilo que no for do

    pensamento hegemnico falso, populismo, nacionalismo, atraso. Ento se voc tem

    algumas idias que so assim parecidas com a minha, vocs so uns atrasados. So populistas.

    Porque o pensamento nico e hegemnico assim nos diz. Acontece que, evidentemente, isto

    simplesmente uma forma natural pela qual todo o pensamento hegemnico sempre se

    manifestou. Mais amplamente, a forma pela qual os pases ricos sempre procuraram

    chutar a escada e neutralizar o crescimento dos pases que vem atrs. E o Brasil no foi a

    primeira vtima.

    Quero dizer, o Brasil foi, logo em 1808 na abertura dos portos, vtima da Inglaterra.

    Mas em 1808 a Inglaterra estava realmente preocupada em chutar a escada e neutralizar o

    crescimento dos Estados Unidos. Eles aconselhavam insistentemente os americanos a

    abrirem todos os seus portos, no criarem nenhuma proteo s industriais, nada, porque isso

    era contra toda a lgica, o bom senso, a racionalidade, a lei das vantagens comparativas do

    comrcio internacional. S que l tinha um sujeito chamado Alexander Hamilton, que foi um

    grande poltico, um grande ministro da fazenda. Montou toda a estrutura americana na base

    da proteo que s acabou no sculo XX. Ele no deixou o pensamento hegemnico ingls,

    naquela poca, os dominar.

    Ento, a alternativa existe. E quem inventou a alternativa foi o professor Bresser?

    Nada disso! A alternativa existe e ns mostramos isso nos 50 anos anteriores, entre 1930 e

    1980. Mas depois de 1980, quem mostrou que esta alternativa existe foram outros pases.

    Alguns que j vinham mostrando antes, como a Coria, Taiwan, Hong Kong, Cingapura,

    Malsia, Indonsia. Ou outros que passaram a mostrar isso a partir de 1980 como a China, ou

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    11

    a partir de 1985, 90 como a ndia. E que crescem extraordinariamente. Ah, mas eles fazem

    tudo que os americanos e franceses mandam. Fazem nada! Veja: todos eles esto fazendo sua

    revoluo capitalista, isso fundamental. A prpria Unio Sovitica, num momento em que

    se imaginou que iria fazer um sistema socialista ou comunista, afinal, o que eles fizeram foi

    uma revoluo do capitalismo tambm. E a China est fazendo a sua revoluo capitalista,

    claro. Mas eles fazem a sua revoluo capitalista de acordo com as suas estratgias, de acordo

    com seu molde e no de acordo com o dito, muito diferente.

    Agora, qual essa alternativa? Mas no existe alternativa! Aqui eles repetem isso o

    dia inteiro. Apesar de vermos os outros fazerem, aqui se repete o tempo todo que no h

    alternativa. Veja: uma questo fundamental vocs pensarem numa mudana que houve aqui

    no Brasil nos ltimos anos, porque quando comeou este processo de rendio, quem

    naturalmente reagiu mais fortemente, antecipadamente, a isso foram os empresrios, os

    empresrios industriais. A catstrofe da rendio foi com o Governo Collor em 1990; em

    1988 os trinta maiores empresrios industriais brasileiros se reuniram e constituram o IEDI3,

    que um instituto importante que at hoje existe. Agora, o que o IEDI em 1988 passou a

    dizer; com a globalizao, com a abertura comercial que estava comeando a acontecer, foi o

    seguinte: Olha, ns somos contra a abertura comercial...e entendemos que para o Brasil

    crescer ele precisa ter uma poltica industrial. Estava resolvido o assunto. Ento vinha mais

    um que tentava se eleger e dizia: Alm disso, preciso aumentar a demanda agregada e,

    portanto, preciso que o Estado gaste mais. Eram as trs coisas que o outro lado dizia o

    contrrio: poltica industrial no era importante, a abertura comercial necessria e que o

    ajuste fiscal fundamental.

    Se voc viesse me perguntar, se eu tivesse que decidir entre estes dois grupos; entre

    quem dizia que a soluo era uma poltica industrial, fechamento da economia e mais gasto

    pblico (um dficit pblico via demanda) ou quem dizia menos dficit pblico, mais abertura

    comercial e que a poltica industrial no era importante. Eu, tragicamente, ficaria com a

    ortodoxia convencional. O nosso pessoal estava atrasado, estava fora do tempo.

    Agora, se vocs perguntarem o que aconteceu nos ltimos cinco anos, seis anos,

    vocs podem avaliar o discurso do IEDI - que o discurso no s dos empresrios, no s

    do IEDI, mas da FIEP e da confederao nacional da indstria, etc. esse discurso mudou

    enormemente. Ningum mais fala contra a abertura comercial, a poltica industrial ficou

    3 Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    12

    secundria, ningum mais fala em expandir a demanda atravs do dficit pblico. E todo

    mundo comeou fazer a crtica da poltica macroeconmica que est a. E todo mundo

    comeou fazer a crtica fundamentalmente em trs coisas que so variveis macroeconmicas:

    taxa de juros, taxa de cmbio e ajuste fiscal.

    O que eu digo essencialmente em meu livro, que a grande diferena entre a

    ortodoxia convencional (que dominante ainda) e a proposta novo-desenvolvimentista que

    ns estamos defendendo, que o Jos Lus est defendendo, que vrias pessoas esto

    defendendo no Brasil. Quer dizer, digamos que a ortodoxia convencional queira juros altos,

    cmbio valorizado, crescimento com poupana externa e cmbio baixo, quer ajuste fiscal

    frouxo. Ns queremos juros baixos, cmbio alto e competitivo, crescimento com poupana

    interna e, portanto, um ajuste fiscal mais duro.

    At recentemente, eu acreditava, eu concordava com o pessoal da ortodoxia

    convencional em relao ao problema fiscal. Em relao aos juros e ao cmbio eu sabia que a

    diferena era total, mas em relao ao ajuste fiscal eu achava que ns estvamos juntos na

    necessidade de ajuste fiscal. Mas recentemente eu pensei melhor, analisei mais a realidade e

    cheguei concluso que estamos rigorosamente frouxos no ajuste fiscal.

    Na verdade, falam o tempo todo que o problema do Brasil deriva da falta de ajuste

    fiscal, que os juros esto altos pela falta de ajuste fiscal, que o cmbio baixo por causa da

    falta de ajuste fiscal. O Brasil no cresce por causa do ajuste fiscal. Como que eu posso

    resolver isso? Mas acho que uma afirmao que eu posso demonstrar quase que como dois

    mais dois so quatro. Veja: h nove anos, a ortodoxia convencional - em pleno acordo com

    o Fundo Monetrio Internacional, o Banco Mundial, o Ministrio da Fazenda, o Banco

    Central, os rentistas brasileiros, o setor financeiro brasileiro, as multinacionais, a coalizo

    poltica que est por trs da estagnao brasileira (existe uma coalizo poltica) - disseram que

    ns no estvamos fazendo uma poltica fiscal ajustada. Isso aconteceu na crise de 1998. E

    estabeleceram uma meta fiscal: 3,5% de supervit primrio. Quatro anos depois, aumentaram

    para 4,25%. Assim, h oito anos que o Brasil atinge, rigorosamente, a meta com sobra. Se

    voc definiu uma meta, atinge a meta (fiscal) e depois diz que todo o problema do Brasil

    fiscal: voc no est interessado em meta nenhuma. mais ou menos assim: imaginem que eu

    fosse ao mdico, h nove anos, e falasse para o mdico me examinar. Ele poderia dizer:

    Olha, voc est com um problema srio! Voc fuma? Eu digo: Fumo. Nove anos depois

    eu volto, tendo atingindo plenamente todas as minhas metas (de acordo com a minha viso).

    Ento eu chego para o mdico e explico que est tudo bem comigo. Ele me examina e diz:

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    13

    Voc piorou muito! O que aconteceu, voc no cortou o fumo? Doutor, eu diminui de

    dois para um mao, eu no queria parar de fumar.

    o mesmo caso! Sem ajuste fiscal voc no resolve os problemas brasileiros. Mas

    ento tem outro argumento: faa o ajuste fiscal primeiro e depois voc vai resolver o

    problema dos juros. E depois voc vai resolver o problema do cmbio.

    O Mario Henrique Simonsen, que foi um grande economista brasileiro, disse certa

    vez, se referindo a alguma coisa na economia brasileira: Isso uma jabuticaba! Quando ele

    dizia jabuticaba, estava se referindo a uma fruta, uma rvore muito especfica do Brasil.

    possvel que outro pas tambm tenha, mas algo muito especfico do Brasil. Pois bem, a taxa

    de juros, a taxa bsica de juros que ns temos no Brasil uma jabuticaba. S o Brasil tem.

    Exceto na Turquia, mas at na Turquia, a taxa de juros muito mais baixa que a nossa; nos

    demais pases a taxa de juros muito menor. O Brasil o campeo absoluto.

    Por que essa taxa de juros to alta assim? Veja: a taxa de juros alta porque no

    tem ajuste fiscal, porque a dvida pblica do Brasil muito alta, e isso faz com que voc tenha

    essa taxa de juros to elevada. Ora, se discriminar os dados a respeito da relao dvida

    pblica/PIB dos pases do mundo, vai ver que o Brasil tem uma relao dvida/PIB alta (50%

    alta). Mas tem pases com uma relao dvida/PIB muito mais alta do que isso. No Japo

    120%, na Itlia est em torno de 100%. Ento, simplesmente dizer que a relao dvida

    pblica muito alta, no d!

    O dficit pblico muito alto no Brasil! Mas o dficit pblico est em torno de 3%

    ( um dficit pblico alto), mas no um absurdo. Tem pas com um dficit pblico bem

    maior que o nosso. Ento, no parece que seja isso.

    Ento, por que existe uma questo de ajuste fiscal importante a ser feita no Brasil, se

    o problema fiscal no to grave? No to grave, mas eu tenho uma medida que sugiro a

    vocs olharem sobre ajuste fiscal, que a relao juros pagos pelo Estado em relao ao PIB.

    Ento, ao fazer essa conta, voc ver que o Brasil absoluto campeo. Absoluto. Depois vem

    a Turquia e os outros vem l pra baixo em relao aos juros pagos. Agora, por qu? No

    porque o gasto pblico seja excessivo, no porque a dvida pblica est muito alta, mas

    porque a taxa de juros altssima. Ento, a causa do desajuste fiscal a taxa de juros; e eu

    estou dizendo que a causa da taxa de juros alta a falta de ajuste fiscal. algo meio

    complicado.

    Ento para voc resolver o problema voc primeiro tem que fazer o ajuste fiscal

    mantendo essa taxa de juros boa que est a para depois poder baixar os juros. Olha, a minha

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    14

    experincia, quero dizer, eu tive experincia no s na vida pblica, mas principalmente na

    vida privada como administrador, e eu lembro bem que eu j dizia naquela poca (anos 70),

    que havia um princpio fundamental com o qual eu estava em desacordo. um princpio que

    uma espcie de provrbio: No ponha o carro na frente dos bois. Se voc for um bom

    administrador de empresas, do Estado, da vida pblica, da vida privada, etc. voc no tem

    dvida que, s vezes, tem que colocar o carro na frente dos bois. Essa histria de primeiro

    fazer uma coisa para depois fazer outra uma forma de no fazer nada! Voc tem que fazer

    tudo junto. E s vezes um vai frente do outro; todo um processo dinmico em que voc

    vai levando as coisas tem uma certa lgica neste processo.

    Quer dizer, por que eu vou reduzir os juros depois? Eu vou reduzir os juros

    juntamente com a reduo da despesa pblica - fazer ambas as coisas juntas. No h nenhuma

    razo para fazer coisas separadas, impossvel porque voc fica por a enxugando gelo.

    Mas veja: ser que possvel baixar os juros? Durante anos diziam que os juros eram

    altos no Brasil porque o risco-Brasil muito alto. Bom, ns mostramos (h cinco anos) que

    isto era falso. Mas naquela poca ns voltamos porque no havia correlao entre juros e

    risco-pas de vrios pases. Agora o panorama mudou: alm de continuar a no haver esta

    correlao, h um fato novo. O fato novo que o risco-Brasil, quer dizer, a taxa de juros que

    sai do risco-Brasil hoje est em torno de 5% e a taxa de juros que o governo brasileiro paga

    em emprstimos internos est em torno de 12% reais. O risco-Brasil uma medida de taxa de

    juros de longo prazo que o Brasil devia pagar. Bom, a taxa de juros alta no Brasil

    principalmente porque no h interesse em baix-la; porque existem muitas pessoas que

    ganham muito dinheiro com ela. Porque o que o Estado brasileiro est pagando 150, 160, 170

    bilhes de reais todo ano de juros. Ns estamos gastando o dobro com juros do que gastamos

    em toda educao (da primria a universitria) do Brasil. Ns gastamos com juros mais do

    que gastamos com toda a sade pblica brasileira. um escndalo! uma captura do Estado

    pelos rentistas que est sendo transferido em juros e do setor financeiro que recebe

    comisses dos rentistas.

    Essa taxa de juros muito alta est relacionada com uma taxa de cmbio muito baixa.

    Com as crises ela sobe, como subiu em 2002, mais depois baixou, e ento j estava uma taxa

    de cmbio escandalosa. Por que isso? Primeiro, porque uma taxa de juros alta pe uma taxa

    de cmbio para baixo, isso um motivo; segundo, porque voc quer crescer com poupana

    externa e quando se cresce com poupana externa sua taxa de juros se valoriza. E afinal, a

    taxa de juros dos preos macroeconmicos que so a taxa de cmbio, taxa de juros, taxa de

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    15

    inflao, taxa de salrios e taxa de lucro, que so os cincos preos macroeconmicos. Desses

    cinco preos macroeconmicos, o mais estratgico, o mais perigoso, o mais violento a curto

    prazo a taxa de cmbio.

    O mais importante livro escrito sobre a economia brasileira at hoje, que o livro do

    Celso Furtado - Formao Econmica do Brasil - vocs podem ver que quando o Celso

    Furtado faz a anlise histrica do Brasil est sempre usando a taxa de cmbio. A taxa de

    cmbio, uma taxa de cmbio valorizada, no apenas leva voc crise - crise do balano de

    pagamentos que tivemos duas: uma em 1998 e outra em 2002 e vrios pases aceitaram a

    estratgia de crescer com poupana externa. Mas tambm a taxa de cmbio valorizada alm de

    levar crise, leva a uma fragilizao financeira internacional. Ento voc fica frgil

    financeiramente e fica obrigado a fazer a poltica do confidence building, ou seja, fazer tudo

    aquilo que nossos credores de Washington dizem para fazer para se ter crdito. Mas antes

    disso, ainda, voc procurar crescer com poupana externa te leva a apreciar o cmbio, e com a

    apreciao do cmbio ento voc tem um aumento do consumo interno, e grande parte

    daquilo que voc pensava que ia ser investimento, na verdade, vira consumo.

    Foi o que aconteceu no Brasil nos anos 90. Nos anos 90, o Brasil foi o pas que mais

    recebia investimentos estrangeiros no mundo. O Brasil chegou a ter um dficit em conta

    corrente de quase 5% do PIB. Portanto, recebia nos anos de 1998 e 1999, 5% do PIB de

    recursos externos. Ento, o que seria razovel, o que estava pressuposto para as pessoas que

    estavam defendendo a estratgia de desenvolvimento por poupana externa? Que o Brasil

    neste perodo aumentaria sua taxa de investimento de 17%, mais cinco, 22%. Ento,

    aumentou 0,5%, no chegou a um. Todo o resto foi para o consumo. Porque valorizou o

    cmbio. Porque cmbio valorizado um desgraa para um pas. Esses pases asiticos s

    crescem porque administram suas taxas de cmbio e impedem que ela se valorize e, portanto,

    eles crescem com despoupana externa e no com popana externa. Esta uma estratgia

    fundamental. Qual a estratgia fundamental para o desenvolvimento de um pas hoje? ter

    um cmbio competitivo.

    Porque ainda nossos empresrios, nossos trabalhadores, nossos sindicatos a poltica

    industrial secundria; ajuda, porm secundria.

    Enfim, a alternativa existe. Eu acho que o debate econmico melhorou muito nesses

    ltimos anos. Eu acho que existe uma chance de o Brasil mudar. Se ns vamos ter coragem

    de mudar, no sei. Se este governo vai ser capaz, vai ter coragem de mudar, no sei. Mas que

  • __________________________________________________________________ Economia & Tecnologia - Ano 02, Vol. 07 Out./Dez. de 2006

    16

    era muito compreensvel que o Brasil tenha adotado as polticas que adotou entre 1990 e

    1995, mas que em 2006, 2007 ele continua a adotar essas polticas, a meu ver um engano!

    Muito Obrigado!