Apostilafruticultura 130326144050-phpapp01

232
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA NATUREZA Rio Branco – Acre 2012 FRUTICULTURA TROPICAL Profº. Sebastião Elviro de Araújo Neto

Transcript of Apostilafruticultura 130326144050-phpapp01

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA NATUREZA

Rio Branco – Acre 2012

FRUTICULTURA TROPICAL

Profº. Sebastião Elviro de Araújo Neto

SUMÁRIO 1. IMPORTÂNCIA DA FRUTICULTURA BRASILEIRA .......................................................... 3

1.1 - Aspectos econômicos e sociais .......................................................................................... 3

1.2 - Exportações brasileiras de frutas .................................................................................... 4

1.3 - Em busca da auto-suficiência ........................................................................................... 5

1.4 - Desperdiço de frutas no Brasil ......................................................................................... 5

1.5 - Consumo Per Capta de frutas .......................................................................................... 6

1.6 - Principais países produtores de frutas ............................................................................ 6

1.7 Pólos frutícolas do Brasil .................................................................................................... 7

1.8 Divisão das plantas frutíferas quanto ao clima .......................................................... 7

1.9 - Aspectos sociais ................................................................................................................. 8

1.10 - Aspectos nutracêuticos ................................................................................................... 8

1.11 Função medicinal das frutas ........................................................................................... 16

1.12 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 18

2. PANORAMA ATUAL E POTENCIAL DA FRUTICULTURA ACREANA ........................ 20

2.1 Fruticultura na Amazônia ................................................................................................ 20

2.2 Aspectos Gerais do Estado do Acre ................................................................................. 20

2.3 Principais fruteiras cultivadas no Acre ........................................................................... 20

2.4 Frutas potenciais ............................................................................................................... 24

2.5 Fruticultura nos Sistemas Agroflorestais-SAFs ............................................................. 25

2.6 Tecnificação dos pomares ................................................................................................. 25

2.7 Agroindústria ..................................................................................................................... 26

2.8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 26

3. SISTEMAS DE PRODUÇÃO NA FRUTICULTURA ............................................................ 28

4. PROPAGAÇÃO DE PLANTAS FRUTÍFERAS ..................................................................... 39

4.1 - Propagação por semente ................................................................................................. 39

4.2. Propagação assexuada ..................................................................................................... 45

4.3. Métodos de propagação vegetativa ................................................................................. 48

4.5 Matrizes copa e porta-enxertos ........................................................................................ 69

4.6 Referências ......................................................................................................................... 70

5. VIVEIROS ................................................................................................................................ 71

5.1 Tipos ................................................................................................................................... 71

5.2 Localização ......................................................................................................................... 72

5.3 Dimensionamento .............................................................................................................. 73

5.4 Instalações .......................................................................................................................... 73

5.5 Formação da muda ............................................................................................................ 74

5.6 Substratos e recipientes .................................................................................................... 75

5.7 Recipientes ......................................................................................................................... 79

5.8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 80

6. PLANEJAMENTO E IMPLANTAÇÃO DE POMAR ............................................................ 82

6.1 –Planejamento do pomar .................................................................................................. 82

6.2 – Talhões ............................................................................................................................. 82

6.3 - Sistema de Plantio ........................................................................................................... 84

6.4 - Marcação das Covas ....................................................................................................... 85

6.5 - Preparo do solo ................................................................................................................ 86

6.6 - Abertura e preparo das covas ........................................................................................ 86

6.7 - Plantio .............................................................................................................................. 87

6.8 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 88

7. PODA DAS PLANTAS FRUTIFERAS ................................................................................... 90

7.1 Princípios fisiológicos que regem a poda ......................................................................... 90

3

7.2 Poda e condução de frutíferas .......................................................................................... 92

7.3 Tipos de poda ..................................................................................................................... 93

7.4 REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 97

8. FLORESCIMENTO E FRUTIFICAÇÃO ................................................................................ 98

8.1 Fatores internos que afetam a frutificação ..................................................................... 98

8.2 Fatores externos que afetam a frutificação ................................................................... 102

8.3 Efeito hormonal na frutificação ..................................................................................... 105

8.4 Referências ....................................................................................................................... 105

9. COLHEITA E PÓS-COLHEITA DE FRUTOS ..................................................................... 106

9. 1 Definição de Fruto e Fruta ............................................................................................ 106

9.2 Fisiologia do desenvolvimento dos frutos ...................................................................... 106

9.3 Tipos de colheita .............................................................................................................. 111

9.4 Estádio de maturação ...................................................................................................... 113

9.5 Pré-resfriamento .............................................................................................................. 114

9.6 Higiene do campo e aspectos fitossanitários ................................................................. 115

9.7 Sistema de armazenamento ............................................................................................ 118

9.8 Padronização e classificação ........................................................................................... 121

9.9 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 122

10 CULTURA DO AÇAIZEIRO ................................................................................................ 124

10.1. Produção brasileira de açaí ......................................................................................... 124

10.2 Produtividade ................................................................................................................ 124

10.3 Origem, Dispersão e Botânica ...................................................................................... 125

10.4 Período de produção ..................................................................................................... 127

10.5 Ecofisiologia ................................................................................................................... 128

10.6 Melhoramento Genético ............................................................................................... 129

10.7 Cultivares ....................................................................................................................... 130

10.8 Propagação ..................................................................................................................... 131

10.9 Nutrição mineral ........................................................................................................... 132

10.10 Manejo agronômico ..................................................................................................... 133

10.11 Pragas ........................................................................................................................... 134

10.12 Doenças ......................................................................................................................... 134

10.13 Colheita e Pós-colheita ................................................................................................ 134

10.14 Pós-colheita .................................................................................................................. 135

10.15 Mercado e Comercialização ....................................................................................... 138

10.16 Coeficiente técnico ....................................................................................................... 140

10.17 Referências ................................................................................................................... 140

11 CULTURA DO CUPUAÇUZEIRO ...................................................................................... 142

11.1 Aspectos Sócio-Econômicos .......................................................................................... 143

11.2. Origem, Dispersão, Botânica e Ecologia .................................................................... 144

11.3 Ecofisiologia ................................................................................................................... 144

11.4 Melhoramento Genético ............................................................................................... 145

11.5 Cultivares ....................................................................................................................... 151

11.6 Propagação ..................................................................................................................... 151

11.7 Nutrição mineral ........................................................................................................... 151

11.8 Manejo agronômico ....................................................................................................... 152

11.9 Pragas do cupuaçuzeiro ................................................................................................ 154

11.10 Doenças do cupuaçuzeiro ............................................................................................ 155

11.11 Colheita e beneficiamento ........................................................................................... 158

11.12 Mercado e Comercialização ....................................................................................... 159

11.13 Coeficiente técnico ....................................................................................................... 159

4

11.14 Referências ................................................................................................................... 160

12. CULTURA DO MARACUJAZEIRO .................................................................................. 162

12.1 Aspectos socioeconômicos ............................................................................................. 162

12.2 - Produção Brasileira .................................................................................................... 162

12.3 Origem, Dispersão e Botânica ...................................................................................... 163

12.4 Ecofisiologia ................................................................................................................... 164

12.5 genéticA do maracujazeiro ........................................................................................... 164

12.6 Melhoramento Genético do Maracujazeiro ................................................................ 166

12.7 Cultivares ....................................................................................................................... 167

12.8 Propagação ..................................................................................................................... 169

12.9 Solos e Nutrição Mineral .............................................................................................. 172

12.10 Manejo agronômico ..................................................................................................... 173

12.11 Pragas ........................................................................................................................... 177

12.12 Doenças ......................................................................................................................... 180

12.13 Colheita e Pós-colheita ................................................................................................ 182

12.14 Mercado e Comercialização ....................................................................................... 185

Custo de produção e rendimento econômico ...................................................................... 186

12.15 Coeficiente técnico para implantação de 1 hectare de maracujá (espaçamento 3,0 x

3,0m) ....................................................................................................................................... 187

12.16 Referências ................................................................................................................... 190

13 CULTURA DO ABACAXIZEIRO ....................................................................................... 195

14 CULTURA DO MAMOEIRO ............................................................................................... 210

Importância da fruticultura brasileira

3

1. IMPORTÂNCIA DA FRUTICULTURA

BRASILEIRA

O Brasil por possui uma extensa área

territorial, com 8.500.000 km2 encontra-se uma

grande variação climática e seus microclimas que

possibilitam o cultivo econômico da maioria das

fruteiras, que torna o país o terceiro produtor mundial

de frutas, atrás apenas da China e Índia, primeiro e

segundo maiores produtores, respectivamente. Aliado

ao volume de produção, a geração de renda e

emprego, o consumo interno de frutas, torna a

fruticultura um ramo econômico que promove

desenvolvimento social no país.

Além do valor da produção, a fruticultura faz

parte de rotas turísticas, como os vinhedos do sul do

pais, incorporando recursos econômicos e sociais

importante para odesenvolvimento dessas regiões,

especificamente do campo, com maior agregação de

valor, diversificação de produtos e serviços.

1.1 - Aspectos econômicos e sociais

A cadeia produtiva das frutas no campo,

abrange 2,5 milhões de hectares, gera 6 milhões de

empregos diretos ou seja, 27% do total da mão-de-

obra agrícola ocupada no campo. Este setor demanda

mão-de-obra intensiva, fixando o homem no campo.

Apesar do baixo retorno econômico nos

primeiros anos do pomar, durante a frutificação de

muitas espécies, há redução da mão de obra e do

custo de produção, podendo garantir renda na

agricultura familiar, principalamente em propriedades

com pouca mão-de-obra ou mão de obra de idosos.

Em se tratando de empresas rurais, é possível

alcançar um faturamento bruto de R$1.000 a

R$20.000 por hectare. Além disso, para cada 10.000

dólares investidos em fruticultura, geram-se 3

empregos diretos permanentes e dois empregos

indiretos. O valor bruto da produção de frutas em

2009 situou-se em 17,5 bilhões de reais.

As principais frutíferas cultivadas no Brasil

são: laranja, banana, abacaxi, melancia, coco,

mamão, uva, maçã, manga, tangerina, limão,

maracujá, melão, goiaba, pêssego, Caqui, abacate,

figo, pêra dentre outras (Quasdro 1). Outras frutas

regionais “raras” (exóticas e nativas) possuem alto

potencial de mercado, incluindo acerola, atemoya,

açaí, cupuaçú, bacuri, marolo, pinha, castanhas, cajá,

ceriguela, mangaba, sapoti, graviola, envira-cajú e

outras que necessitam ser estudadas (Alves et al.,

2008, Farias, 2009).

Dessas frutas, a laranja, representam 42,9% do

total da produção de frutas brasileria, seguida da

banana com 16,5% da produtção, por isso, seu

comportamento tem influência muito forte nos

números gerais. E elas registraram desempenho bem

diferenciado de 2004 para 2005.

Atualmente, o Brasil é o maior produtor de

laranja e o segundo produtor mundial de banana,

atrás apenas da Índia.

No Brasil, o estado de São Paulo se destaca na

produção de frutas, principalmente pela alta produção

de citros e exportação de suco de laranja concentrado e

congelado (SLCC), colocando o Brasil como o maior

produtor mundial de citros e maior exportador do

SLCC. Além disso, destaca-se também pela grande

variedade de espécies frutíferas cultivadas em cada um

de seus microclimas. Aliado a outros fatores, o alto

índice tecnológico nos pomares paulistas, contribui

para a boa produtividade alcançada.

Quadro 1.1 Produção, produtividade e área cultivada

das principais espécies cultivadas no Brasil em 2009.

A maioria da produção brasileira é destinada

ao consumo interno, tanto ao natural quanto

processada na forma de doces, geléias, sucos, vinhos

e outros. Pois o terceiro maior produtor de frutas não

é um dos principais exportadores, em 2009, exportou

apenas 1,8% da produção. Porém, apesar de não

aumentar o saldo na balança comercial brasileira com

as exportações, o consumo interno pode reduzir a

importação pelo consumo das frutas brasileiras e com

isso, melhorar a saúde da população que se

consientiza cada vez mais da importancial alimentar

das frutas na saúde humana.

O principal motivo da baixa exportação de

frutas pelo Brasil é a baixa qualidade das frutas,

infraestrutura deficiente e principalmente os

embargos econômicos e sanitários impostos pelos

países importadores.

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 4

1.2 - Exportações brasileiras de frutas

As frutas brasileiras, aos poucos, vão

ganhando o mercado mundial e abrindo espaço para

transformar o Brasil em um grande exportador,

criando novas oportunidades de negócio para os

agricultores brasileiros em um empreendimento com

alta rentabilidade. No total, a receita com as

exportações brasileiras de frutas cresce

constantemente e atinge seus 609 milhores de reais

em 2010 (Figura 1.1).

A colheita mundial de frutas, no entanto, é de

540 milhões de toneladas, correspondendo ao

montante de US$ 162 bilhões, em valor comercial. A

China, sozinha, é responsável por 157.716 milhões de

toneladas (Quadro 1.2). Embora o País constitua um

grande produtor, a participação do Brasil nos

negócios mundiais de frutas é pequena, representando

1,6% em divisas e 2,3% em volume. A Nação situa-

se em 20º lugar entre os exportadores.

Quadro 1.2 Produção dos principais países produtores

de frutas.

País Produção (t) 2004

China 157.716.081

Índia 54.581.900

Brasil 39.112.663

Estados Unidos 32.523.920

Itália 18.091.800

México 16.863.506

Turquia 16.305.750

Irã 15.139.110

França 11.764.270

Fone: FAO/DATAFRUTA-IBRAF.

Esse mercado movimenta US$21 bilhões por

ano. Mas as vendas brasileiras vêm crescendo, tendo

aumentado em torno de 200% nos últimos seis anos.

Em 2007, a receita com o comércio de frutas ao

exterior foi de US$ 642.743 milhões.

A valorização do real em relação ao dólar foi o

principal obstáculo para um melhor comportamento

das vendas brasileiras de frutas a outros países.

Analisando o caso da maçã: muitas empresas

exportaram porque havia contrato firmado e também

para não perder o cliente, pois o preço da espécie no

mercado externo não compensava. A queda da maçã

foi de 36,91% em valor e de 35,1% em volume em

2005, no comparativo com o ano anterior, quando ela

fora a grande estrela.

Outra fruta que teve redução acentuada – de

58,34% em valor e de 65,99% em volume – nas

exportações de 2005 foi a laranja. Além do dólar

baixo, a doença conhecida como pinta-preta

dificultou as remessas para o exterior. “Todos os

contêineres eram verificados e, se fosse constatado

qualquer indício, a firma era riscada do rol dos

exportadores por parte da Europa”, assinala o gerente

de Exportação do IBRAF. Em razão disso, muitas

empresas nem chegaram a abrir seus packing-houses.

0

100000

200000

300000

400000

500000

600000

700000

800000

900000

1000000

1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2009 2010

US$

t

Figura 1.1 – Evolução das exportações brasileiras de

frutas frescas 1998-2010 (IBRAF, 2012).

Quadro 1.3 Exportação brasileira de frutas em 2009.

Frutas Valor

(US$)

Quantidade

(kg)

Uva 136.648.806 60.805.185

Melão 121.969.814 177.828.525

Manga 119.929.762 124.694.284

Maçã 55.365.805 90.839.409

Banana 45.389.163 139.553.134

Limão 50.693.603 63.060.909

Mamão 35.121.752 27.057.332

Laranja 16.276.736 37.821.810

Abacaxi 998.318 1.889.842

Melancia 12.356.105 28.261.716

Figo 7.310.886 1.446.458

Tangerina 1.850.034 1.977.479

Goiaba 326.364 147.348

Coco 121.240 407.737

Outras frutas 1.931.663 815.874

Outros citrus 4.978 4.51941.117

Total Frutas Frescas 609.612.136 759.420.595 Fonte: SECEX/IBRAF em 03/12/2012

Mesmo com esses problemas, e com todas as

exigências comerciais e sanitárias dos países

importadores, o Brasil continua com sua imagem

fortalecida como grande fornecedor mundial, pois

ocupa o terceiro lugar nas exportações de manga

(com 111 mil toneladas), depois de México (212 mil)

e Índia (156 mil), em números da safra 2004. O País

fica em quinto lugar nas exportações de melão, atrás

da Espanha, Costa Rica, Estados Unidos e Honduras.

A banana, que representa o maior volume de vendas

por parte do Brasil (188,087 mil toneladas em 2004),

torna o País o 15º exportador, sendo as primeiras

posições ocupadas por Equador, Costa Rica,

Filipinas, Colômbia e Guatemala. No coco, os

brasileiros ocupam o 20º lugar; na maçã e na laranja,

o 12º; e na uva, o 18º.

Além de ter havido crescimento nas

exportações brasileiras nos últimos anos, com a

conquista de novos mercados na Ásia e no Oriente

Médio, um ponto fundamental é que as importações

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 5

de frutas foram acentuadamente reduzidas. Elas têm

se limitado a alguns períodos do ano em que ainda

não se registra produção interna ou a alguns tipos

específicos. As mais importadas são pêra, maçã,

ameixa, kiwi, cereja e nectarina. Em 2005, segundo

dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e

do Ibraf, as importações brasileiras chegaram a

224,494 mil toneladas em volume e a US$ 125,634

milhões em valor.

Os maiores compradores são os países baixos

(Holanda), com 32% do volume exportado, seguido

pelo Reino Unido, com 18%, este, desde a década de

90 vem se constituindo como o principal mercado

para as frutas brasileiras.

Também no Mercosul está crescendo o

mercado para a fruticultura nacional, sendo a

Argentina responsável por 12% das nossas

exportações e o Uruguai por outros 6%. Além disso,

o Brasil exporta para Estados Unidos, Portugal,

Bélgica, Finlândia e Emirados Árabes Unidos.

Apenas para fazer uma comparação, o Chile

que é um dos maiores exportadores de frutas ao

natural, exporta cerca de US$1,6bilhão,

aproximadamente o mesmo valor que rende a

exportação do suco de laranja brasileiro, exportação

de fruta na forma de suco e com valor agregado nas

grandes industrias paulistas.

Além dos US$ 643 milhões, o Brasil exportou

em frutas processadas, o equivalente a US$ 2.7 bi.

1.3 - Em busca da auto-suficiência

Mesmo sendo o terceiro maior produtor

mundial de frutas, o Brasil, país de dimensões

continentais, encontra dificuldade em atender ao seu

mercado interno e precisa importar para suprir sua

demanda de consumo. Mas, nos últimos anos,

observa-se um crescente aumento nas exportações e

diminuição na importação de frutas (Figura 1.2).

Os problemas para este atendimento vão desde

aspectos culturais, precariedade de logística, falta de

planejamento e integração dos mercados regionais,

até as dificuldades econômicas da maioria da

população. Atualmente, o mercado interno segue a

tendência mundial de aumento do consumo de frutas

frescas, dentro dos princípios difundidos de melhoria

da qualidade de vida e cuidados com a saúde.

Portanto, além de exportar para o mercado

internacional, o Brasil precisará aprender a exportar

para ele mesmo, qualificando a produção, a

distribuição e a comercialização.

Contudo, a cadeia produtiva da fruticultura é a

área que mais cresce dentro do agronegócio brasileiro

e deverá alcançar um patamar de grande exportador.

Todos os estados da federação acordaram para

uma realidade: a fruticultura gera dinheiro, o País tem

potencial para produzir muito e com qualidade, há

um mercado com alta demanda e em crescimento.

Quadro 1.4. Importação brasileira de frutas em 2009.

Frutas Valor

(US$/mil)

Quantidade

(tonelada)

Pêra 161.974.250 189.840.518

Maçâ 60.046.723 76.879.090

Ameixa 32.417.159 24.278.543

Quiwi 21.867.849 20.596.664

Uva 36.074.860 24.794.695

Ameixas 32.417.159 24.278.543

Pêssegos 13.322.481 11.074.033

Nectarinas 13.221.893 10.421.857

Laranjas 4.841.635 6.002.603

Tangerinas 2.960.118 3.438.598

Total Outras Frutas 367.491.907 374.037.298 Fonte: SECEX/DECEX/MDIC;DECOM/SPC/MAPA

Os investimentos realizados nos pólos de

fruticultura irrigada no Nordeste, no sudeste do País e

no Sul estão se consolidando porque há um grande

retorno econômico e social nesta atividade. Para cada

hectare de pomar é gerada uma renda de

aproximadamente R$ 15 mil. Isso que dizer que,

dentro da agricultura, o segmento frutícola está entre

os principais geradores de renda, de empregos e de

desenvolvimento rural.

Fatores que incentivam a produção

1. Geração de empregos no campo e na cidade

2. Renda de R$ 1 mil a R$ 25 mil por hectare

3. Sustentabilidade da produção

4. Disponibilidade de recurso

5. Grande demanda no mercado interno

6. Grande demanda no mercado internacional

7. Incentivo às exportações

Exemplos de rentabilidade

Cada hectare de vinho gera: Renda/hectare/ano: R$ 20 mil de dinheiro novo

circulando na região produtora

Renda com industrialização

Mais R$ 20 mil (R$ 40 mil/ha/ano) Cada hectare de vinhedo oferece

1 emprego direto, a permanência de uma família no

campo e 2 empregos indiretos

1.4 - Desperdiço de frutas no Brasil

O Brasil acumula prejuízos de milhões de

dólares todos os anos na produção e processamento

de frutas. As perdas variam de 30% a 60% do total

produzido nos pomares brasileiros, dependendo da

espécie e do estágio em que a fruta é descartada pelo

mercado.

As perdas começam na lavoura e terminam nas

gôndolas dos supermercados. Antes disso, passa pela

embalagem inadequada, o transporte indevido,

manejo equivocado e estocagem errada. As perdas na

lavoura ocorrem por desconhecimento do produtor,

que adota manejo inadequado do pomar e usa

variedades não-adaptadas. Além disso, há os fatores

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 6

climáticos que podem influenciar, como tempestades,

ventos, geadas, excesso hídrico ou estiagens.

A utilização de embalagens inadequadas

também é fator de prejuízos à produção nacional de

frutas. No Brasil é costume utilizar caixas de madeira

estreitas, impróprias para acondicionar o produto.

Isso aperta as frutas, machuca e ainda provoca

contaminações pelo uso contínuo sem os cuidados de

higiene necessários. Por isso é necessária a

adequação das embalagens.

Outro ponto fraco do processo pós-colheita da

fruticultura brasileira é o transporte, que deveria ser

feito em caminhões refrigerados e já com as frutas

embaladas. Normalmente a operação é realizada em

caminhões comuns cobertos com lonas.

E na comercialização, pelo falta de um bom

sistema de informações para viabilizar o

planejamento da produção, medida que é rotineira na

Europa e nos Estados Unidos. Com informações de

mercado, o produtor poderia se planejar para produzir

exatamente o volume de frutas que terá demanda.

1.5 - Consumo Per Capta de frutas

O consumo per capta brasileiro é praticamente

a metade em relação à Itália, Espanha e Alemanha e

bem abaixo de outros países (Quadro1.4). Vários

fatores estão relacionados a este fato:

O brasileiro ainda não tem consciência da

importância das frutas na alimentação.

O baixo índice tecnologia empregada na

fruticultura brasileira causa preços elevados das

frutas, além da baixa renda per capta do brasileiro.

O consumo de frutas nativas, como açaí,

jabuticaba, cajá, jaca, cupuaçu, graviola e outras não

entram na estatística do consumo per capta brasileiro.

O consumo de frutas do quintal também não

entra nas estatísticas.

Quadro 1.5 Consumo Per Capta de frutas em alguns

países.

País Consumo (Kg / ano)

Alemanha 112,00

Reino Unido 68,50

França 91,40

Itália 114,80

Países Baixos 90,80

Espanha 120,10

EUA 67,40

Canadá 81,10

Japão 61,80

Brasil 57,00

De Angelis (2001) afirma que a educação

nutricional ao longo da vida é uma necessidade para

melhorar as condições nutricionais.

1.6 - Principais países produtores de frutas

A China foi o maior produtor mundial de

frutas no ano de 2002, com a quantidade de

133.077.000 toneladas e destacando-se como grande

produtora mundial de melancia, maçã, melão e pêra.

A Índia foi o segundo produtor mundial neste

mesmo ano quando registrou a quantidade de

58.970.000 de toneladas e sendo um grande produtor

de banana, manga e coco.

Quadro 1.6 Produção mundial de frutas em 2004. (mil toneladas)

Mundo China Índia Brasil USA Filipinas Indonésia Itália México Espanha Turquia

Total 503.278.149 157.716 54.582 39.113 32.524 18.092 16.864

Melancia 94.938.957 68.300.000 255.000 622.060 1.669.940 107.056 - 500.000 970.055 764.600 4.300.00

Banana 71.343.413 6.420.000 16.820.000 6.602.750 10.000 5.638.060 4.393.685 400 2.026.610 412.700 110.000

Uva 66.569.761 5.527.500 1.200.000 1.278.885 5.418.160 120 - 8.691.970 456.638 7.147.600 3.600.000

Laranja 62.814.424 1.977.575 3.100.000 18.256.500 11.729.900 28.700 871.610 2.064.099 3.969.810 2.883.400 1.280.000

Maçã 61.919.060 22.163.000 1.470.000 977.863 4.571.440 - - 2.069.243 503.000 603.000 2.300.000

Melão 27.703.132 14.338.00 645.000 180.000 1.150.440 19.000 - 608.200 590.000 1.102.400 1.700.000

Manga 26.573.579 3.582.000 10.800.000 850.000 2.800 967.535 1.006.006 - 1.503.010 - -

Tangerina 22.942.253 10.556.000 - 1.270.000 492.600 55.500 - 576.446 360.000 2.368.700 565.00

Abacaxi 15.288.018 1.420.000 1.300.000 1.435.190 270.000 1.759,290 463.063 - 720.900 - -

Limão 12.338.795 611.300 1.420.000 1.000.000 732.000 52.000 - 564.794 1.824.890 908.700 535.000

Mamão 6.708.551 161.000 700.000 1.650.000 16.240 131.869 - - 955.694 - -

Abacate 3.078.111 84.000 - 175.000 200.000 - 177.263 - 1.040.390 75.699 370

Fonte: FAO (2005).

O Brasil está classificado em terceiro lugar

com a quantidade de 39.113.000 toneladas, sendo um

grande produtor de laranja, banana, coco e mamão.

Depois em quarto lugar aparece os Estados

Unidos como grande produtor mundial de laranja,

uva, maça e pomelo, a Itália em quinto lugar

destacando-se como produtora de uva, maçã e

pêssego. O México em sexto lugar como grande

produtor de manga, citros, melão e outras frutas

tropicais.

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 7

1.7 Pólos frutícolas do Brasil

Existem hoje no Brasil 30 pólos de

fruticultura, espalhados de norte a sul e abrangendo

mais de 50 municípios.

O Pólo Assu/Mossoró, no Rio Grande do

Norte, que se tornou a maior região produtora de

melão do País, e o Pólo Petrolina/Juazeiro, que já

conta com mais de 100 mil hectares irrigados,

exportando manga, banana, coco, uva, goiaba e

pinha, e garantindo emprego a 4000 mil pessoas em

áreas do semi-árido da Bahia e Pernambuco, são

exemplos de sucesso.

Outro que vem crescendo e que é um dos mais

avançados na produção de frutas para exportação é o

Pólo Baixo Jaguaribe, no Ceará, que já conta com 52

mil hectares irrigados.

Também o Pólo de desenvolvimento Norte de

Minas/MG merece ser citado por sua importância na

produção frutícola que atingiu, em 1999, 264.050

toneladas de banana, limão, manga, uva, coco e

mamão.

Não pode ser esquecido o Pólo de São Paulo,

um dos primeiros a surgir no País e que hoje sofre a

concorrência do Nordeste nas exportações, mas que

ainda é o grande fornecedor do mercado interno de

frutas frescas, o primeiro nas exportações de citros e

suco de laranja e tem forte presença em banana,

manga, goiaba, uva de mesa e outras. São Paulo

exportou, em 2001, 194.660 toneladas de frutas, com

destaque para laranja (139.553 t), tangerina (17.250

t), limão (12.498 t), banana (9.695 t), mamão (4.808

t), abacaxi (2.560 t), manga (1.996 t), melão (1.783),

uva (1.436 t) e outras, representando um faturamento

de US$ 50,1 milhões.

Há ainda o pólo do Rio Grande do Sul,

tradicional produtor de uva para produção de vinho e

de pêssego para a industria e de mesa. Além disso, na

região de Vacaria, nos Campos de Cima da Serra,

florescem os pomares de maçã, dando ao Estado o

segundo lugar nas exportações dessa fruta, depois de

Santa Catarina, onde as macieiras se estendem pelos

municípios de Fraiburgo e São Joaquim.

Figura 1.1 – Localização do pólos frutícolas do

Brasil.

1.8 Divisão das plantas frutíferas quanto ao

clima

Quanto às exigências de clima, as plantas

podem dividir-se em plantas de clima temperado,

subtropical e tropical.

Plantas de clima temperado

Essas plantas podem ser sub divididas, em

muito exigentes e pouco exigentes em frio.

Dentro de uma mesma espécie, encontramos

variedades que se acomodam a essa exigência, como

o pessegueiro, a macieira, a pereira, a ameixeira, a

pecã, o caqui. Existem variedades que produzem

satisfatoriamente em regiões de inverno brando, ao

passo que outras exigem inverno longo e rigoroso

para frutificar economicamente, que dure de dois a

três meses, com temperatura de 0ºC, podendo atingir,

no verão, de 30 a 40ºC.

As espécies de clima temperado podem

desenvolver a frutificação na área subtropical e

mesmo na tropical, desde que o repouso hibernal seja

substituído por período seco que impeça a vegetação,

porém as plantas de clima tropical e subtropical

dificilmente encontram condições para prosperar nas

zonas temperadas.

A área de distribuição favorável para as

espécies frutíferas de clima temperado concentra-se

no sul do Estado de São Paulo até o Rio Grande do

Sul. Encontram-se, entretanto, dispersas pelo país,

regiões microclimáticas, como a serra da

Mantiqueira, a serra dos Cristais e regiões do interior

e do norte do Brasil, que compensam a latitude com a

altitude, oferecendo também microclimas favoráveis.

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 8

Plantas de clima subtropical e tropical

Os vegetais tropicais e subtropicais encontram,

a partir do centro do Estado de São Paulo até o

Amazonas, condições ecológicas para o seu

desenvolvimento, com exceção das regiões

montanhosas, onde a queda de temperatura oferece

microclima favorável às culturas temperadas.

Pelos conhecimentos adquiridos sobre espécies

de clima temperado, subtropical e tropical, e

conhecendo-se as condições ecológicas de cada

região, podem-se estabelecer pomares comerciais

com grande probabilidade de êxito.

Assim, as culturas de abacaxi, anona, banana,

coco-da-bahía, mamão, manga, tâmara, citros, abacate,

goiaba, jabuticaba encontrariam condições ecológicas

das mais favoráveis a partir da parte central do Estado

de São Paulo até o norte, incluindo as regiões central e

nordeste, que se enquadram dentro de clima

subtropical e tropical. As espécies de clima temperado,

entretanto, como ameixeira, figueira, macieira,

oliveira, pecã, pessegueiro, pereira e videira,

encontrariam condições mais satisfatórias do sul do

Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul.

1.9 - Aspectos sociais

Os 6 milhões de empregos gerados nos 2,5

milhões de hectares de fruticultura é em grande parte

por causa do baixo investimento necessário para a

geração de emprego, pois, para cada 10.000 dólares

investidos em fruticultura, geram-se 3 empregos

diretos permanentes e dois empregos indiretos. Visto

por outro ângulo, 2,5 milhões hectares com frutas no

Brasil significam 6 milhões de empregos diretos (2 a

5 pessoas por hectare).

220000

145000

10000091000

66000

37000

6000 2500

Química

Metalúrgica

PecuáriaAutomobilísmo

Turismo

Agricultura

Fruticultura

Investimento médio para gerar um emprego (US$)

Figura 1.2 - Investimento médio para gerar um

emprego em algumas atividades industriais, turismo e

agropecuárias.

Um exemplo de geração de emprego é o caso

da atemóia no Estado de São Paulo. Segundo estudos

de Mello et al., (2004), a atemóia assim como outras

frutíferas, é grande absorvedora de mão-de-obra,

requer cuidados agronômicos sistemáticos cerca de

1.153 horas/ha/ano, enquanto que as culturas anuais

em sistemas de produção de alta tecnologia geram

apenas entre 2 a 40 horas/ha (Mello et al., 2000).

A alta geração de emprego ocorre por se tratar

de cultivo extensivo e intensivo, exigindo a presença

constante de mão-de-obra.

Por isso, existe atualmente grandes incentivos

à projetos de irrigação, principalmente por ser umas

das atividades agrícolas que exige pouco recursos

para gerar empregos.

1.10 - Aspectos nutracêuticos

A estimativa dos órgãos governamentais é que

70% das mortes de brasileiros ocorreram por motivo

de doenças crônicas. Aproximadamente 35% dos

casos de câncer no mundo tem como causa principal

uma alimentação desequilibrada.

Os alimentos vegetais, em geral, são alimentos

indispensáveis e mais importantes para a vida. Eles

são fontes principais de minerais, vitaminas, fibras,

açúcar, além de proteínas e gorduras, em menor

quantidade, substâncias essenciais para todo o

funcionamento do organismo. Os vegetais contém,

também, substâncias protetoras e curativas, com ação

anti-infecciosa, anti-inflamatória, anti-parasitária,

anti-reumática, anti-hipertensiva, diurética, laxativa,

desintoxicante e vitalizadora de todo organismo. São

alimentos equilibrados e determinam uma perfeita

saciedade do apetite, impedindo o comer excessivo, a

busca constante por comidas, portanto, evitam e

curam a obesidade.

1.10.1 Comportamento alimentar do homem

Uma grande parte de nossa população passa

fome, no sentido de escassez ou de impossibilidade

de adquirir os alimentos fundamentais, outra parte

gasta-se além do necessário em sistemas alimentares

de verdadeiras manias (De Angelis, 2001).

Mas, para os que comem, “comer não é

apenas uma questão de matar a fome” (Burgierman,

2002).

A decisão sobre que comida colocar no prato

tem implicações econômicas, ambientais, éticas,

culturais, fisiológicas, históricas, religiosas e etc.

Assim, os lactovegetarianos comem ovos, leite e

derivados, por não “resultarem” do sofrimento animal

ou por não conter toxinas produzidas antes da morte

animal; os vegans acreditam na liberdade total dos

animais e não se alimentam de produtos de origem

animal e deveriam fotografar apenas com máquinas

digitais, devido os filmes das máquinas analógicas

conterem uma gelatina retirada da canela da vaca; os

frugivoristas não só rejeitam carne como evitam

machucar ou matar vegetais. Por isso, comem apenas

aquilo que as plantas “querem” que seja comido:

frutas, castanhas e sementes, consideram o consumo

de folhas, caules e raízes uma violência.

Mas afinal, o homem é onívoro ou frugívoro?

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 9

Baubach, (1992) cita o Dr. Friedman, que

afirma ser o homem um frugívoro, não só pela forma

e disposição do seu sistema dentário, mas, também,

pela constituição dos órgãos digestivos, e muitos

afirmam que é erro considerarmo-nos onívoros.

Portanto, acredita-se que as frutas são

alimentos naturais do homem, mineralizantes por

excelência, e é nesta fonte pura e não nos cadáveres

que se deve apoiar-se para a reparação das forças do

organismo.

1.10.2 Valor nutritivo das frutas

É possível o homem alimentar-se apenas de frutas?

Nas frutas tem-se os princípios necessários

para atender as necessidades vitais dos humanos

(Quadro 1.7).

O tamarindo, as uvas, a banana, o açaí e

outros, fornecem os carboidratos; o coco, as

castanha-da-amazônia1 e castanha-de-caju, sementes

de baru e outras, fornecem gorduras e proteínas. As

frutas também suprem com os mais variados sais

minerais, vitaminas, fermentos, água (com o selo da

vida) e fibras. Com regime exclusivo de frutas, o

homem pode viver em bom estado de saúde, mas é

preciso individualiza-lo devidamente (Quadro 1.8).

Quadro 1.7 – Composição química em 100g de

algumas frutas.

Frutas Kcal

Vit.A

(µg)

Vit.B1

(µg)

Vit.B2

(µg)

Vit.B3

(mg)

Vit.C

(mg)

Ca P Fe

(mg)

Prot

(%)

Abacate 162 20 70 100 0,80 10,2 13 47 0,70 1,3

Açaí 247 150 360 10 0,40 5,0 118 0,5 2,00 3,5

Ameixa 54 200 120 150 0,37 6,8 11 16 0,36 0,6

Banana 89 10 92 103 0,82 17,3 15 26 0,20 1,3

Caqui 87 250 30 45 0,80 17,1 4 42 0,41 0,8

Caju 37 16 58 50 2,56 200,0 50 18 1,00 0,8

Castanha 700 7 1094 118 7,71 10,3 172 746 5,00 17,0

Coco seco 619 0 60 40 0,50 1,6 108 209 4,80 5,0

Goiaba 43 245 190 154 1,20 45,6 17 30 0,70 1,0

Laranja 43 14 40 21 0,19 40,9 45 28 0,20 0,9

Limão 28 2,5 55 60 0,31 30,2 41 15 0,70 0,8

Maracujá 90 70 150 100 1,51 15,6 13 17 1,60 1,8

Manga 64 220 51 56 0,51 43,0 21 17 0,78 0,6

Coca-cola 39 0 0 0 0 0 2 1 0 0

Fonte: Franco, 1992; Aguiar et al., 1980; Donadio et al., 2002.

Na alimentação dos frugivoristas e dos vegans,

deve haver um cuidado especial quanto ao

suprimento de vitamina B12, pois estas não contem

nos vegetais, é sintetizada por bactérias de solo,

consumidas pelos animais durante o pastejo e

encontrada nas carnes dos mesmos. Porém, pode ser

encontrada facilmente em alimentos enriquecidos,

1 Castanha-da-Amazônia é o termo que respeitosamente

emprego para a Castanha-do-Pará, que não é apenas do

Pará, ou Castanha-do-Brasil, que não é apenas do Brasil,

mas, a Bertholletia excelsa é da Amazônia Real, inclusive

da Bolívia, Peru, Colômbia, Guianas, Suriname e

Venezuela.

como alguns biscoitos. A vitamina B12 pode está

presente em alguns pró-bióticos, como o Kefir,

colônia de microrganismos lácticos.

Um outro cuidado no balanceamento da dieta

dos vegetarianos é o iodo. Um trabalho de

investigação constatou que a população vegetariana

(sem consumo de qualquer alimento de origem

animal), a ingestão média de iodo foi abaixo de 100

g/dia, enquanto as recomendações são de 150

g/dia (De Angelis, 2001).

Um outro problema sério na alimentação dos

vegetarianos é a pouca concentração de ferro nos

vegetais ao contrário das carnes e víceras. Mas, a

ingestão diárias de diversas frutas, hortaliças e outros

vegetais, garante a necessidade diária de ferro. A

goiaba é um dos frutos mais completos, em termos de

balanço nutricional, mas possui baixo teor de Fe. No

geral, não existe um fruto ideal que possa servir

como única fonte de alimento vegetal, mas que a

alimentação deve ser feita de uma “salada” de frutas,

ou seja, uma alimentação com vários tipos de frutas e

de preferência respeitando a sazonalidade regional.

As castanhas, a exemplo a castanha-da-

amazônia, pode suprir a necessidade diária de

proteínas e cálcio, este último é encontrado em maior

concentração que no leite de vaca, o leite de vaca e

seus derivados, por ter também elevado teor de

cálcio, leva os nutricionistas convencionais a

recomendarem este alimento, porém, esquecem de

que o leite, muito importante para os mamíferos

jovens, pode trazer problemas para a saúde humana,

principalmente pela contaminação por doenças dos

animais, muitas vezes mal tratados.

Em natureza, não se observa mamíferos

adultos mamando em suas genitoras, será que o

homem adulto poderia alimentar-se de leite natural?

Quadro 1.8 – Necessidade diária de um homem

adulto e elementos consumidos em 1,6 kg de frutas,

castanhas e sementes.

Necessidade

diária

Consumo 1,6 kg de frutas e

castanhas

Energia Kcal >2600 3075 50 g de cada fruta

Castanha-da-

Amazônia, Castanha-de-Caju, Amêndoa,

Burití, Pinhão,

Bacurí. 100g de cada fruta

Caju,açaí, manga,

maracujá, biribá, jenipapo, baru,

goiaba.

150 g de cada fruta laranja, abacate

200 g de banana

Proteína (g) 56 83

Fibra (g) 20 - 35 92

Cálcio (mg) 800 733

Ferro (mg) 10 41

Fósforo (mg) 800 1650

Vit. A (g) 1000 1200

Vit. B1 (g) 1400 2940

Vit.B2 (g) 1700 1620

Vit. B3 (mg) 18 22

Vit. C (mg) 60 560

Fonte: Franco, 1992; Aguiar et al., 1980, Donadio et

al., 2002.

Um concorrente direto na comercialização das

frutas é o refrigerante, um produto artificial, sem

nenhum valor nutricional, intoxica e desmineraliza o

organismo. Têm muita caloria inútil e engorda. O

"diet", com menos calorias, é artificial e tóxico. Ao

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 10

contrário das frutas, não contém vitaminas, proteínas,

sais minerais (raro poucas exceções) e contém

corantes e acidulantes, tóxicos ao organismo. Além

de não respeitar o próprio corpo ao beber um

refrigerante multinacional, que tem inclusive

incentivos fiscais (não oferecido às industrias

nacionais de refrigerante), paga-se aos estrangeiros e

desempregam-se brasileiros nos campos de produção

de frutas, café e chás.

Fibras dietéticas

Além dos carboidratos, proteínas, vitaminas e

sais minerais, as frutas têm um outro componente

muito importante na nutrição humana, as fibras.

Atualmente as fibras deixam de exercer apenas a

função digestiva muito preconizada no passado e

passa a ocupar o lugar que lhe corresponde dentro do

arsenal terapêutico atual, ganhando um novo

conceito: o de “fibra dietética”.

As características físico-químicas,

concernentes à solubilidade, viscosidade,

geleificação, capacidade de incorporar substâncias

moleculares ou minerais, determinarão as

diferenciações entre fibras.

As fibras classificam em fibras solúveis em

água (pectinas, gomas, mucilagens, hemicelulose B)

e Insolúveis em água (celulose, lignina e

hemicelulose A). E ainda tem algumas substâncias

que participam do grupo das “fibras dietéticas” por

sua similaridade (amido resistente,

frutooligossacarídeos, açúcares não-absorvidos e

inulina).

A fibra dietética passa através do intestino, no

qual desenvolve sua capacidade de hidratação e

fixação, interferindo na absorção de substâncias

orgânicas e inorgânicas como segue:

Proteínas, carboidratos e lipídios – são os

primeiros nutrientes a serem hidrolisados no intestino

delgado para serem absorvidos. Como a ação das

fibras solúveis, principalmente das gomas, pectinas e

mucilagens, estas substâncias terão sua absorção

retardada e algumas vezes sua excreção ligeiramente

aumentada. As perdas de proteínas, carboidratos e

gorduras nas fezes não são importantes do ponto de

vista nutricional, mas são, sem dúvida, relevantes

para o controle de algumas doenças como os diabetes

e as coronariopatias.

Sais biliares – a lignina, as gomas, pectinas

e mucilagens são capazes de seqüestrar os sais

biliares, permitindo sua eliminação nas fezes, o que

tem grande importância na prevenção de tumores, já

que determinadas cepas de bactérias, particularmente

a Clostridium putrificans, têm capacidade de

sintetizar cancerígenos utilizando-se dos ácidos

biliares e colesterol como substrato.

A absorção de gorduras torna-se diminuída,

pela impossibilidade de não serem emulsionadas e

nem transportadas na mucosa intestinal.

Os ácidos biliares são derivados do colesterol

e sintetizados no fígado. Se mais componentes de bile

são eliminados do corpo, mais estes deverão ser

sintetizados para fazer a bile normal. Este processo

acaba gastando mais colesterol (substrato), reduzindo

assim o colesterol circulante (De Angelis, 2001).

Vitaminas e minerais – está comprovado

que a lignina, as hemiceluloses ácidas, as pectinas e

algumas gomas são capazes de fixar determinados

minerais, como cálcio, fósforo, zinco, magnésio e

ferro, e algumas vitaminas podem ter alterado sua

absorção. Esses efeitos, que, à primeira vista,

poderiam ser prejudiciais, na prática não constituem

problema quando a ingestão de fibras dietética é

moderada, ou seja, dentro das recomendações

nutricionais. Pode se observar balanço negativo de

cálcio, magnésio, fósforo, ferro e zinco em grandes

consumidores de pão integral. Essas alterações

subclínicas desapareceram quando se aumenta o

consumo de pão branco. Indivíduos que ingerem

menos que 50g de fibras ao dia, não estão expostos a

nenhum desequilíbrio nutricional.

As fibras dietéticas chegam ao intestino grosso

de forma inalterada e, ao contrario do que ocorre no

intestino delgado, as bactérias do cólon, com suas

numerosas enzimas de grande atividade metabólica,

podem digerir as fibras em maior ou menor grau,

dependendo de sua composição química e estrutura.

As moléculas complexas são desdobradas a

hexoses, pentoses e álcoois, que já podem ser

absorvidos pelo intestino, servindo de substrato a

outras colônias bacterianas, que, por sua vez, as

degradam em ácido lático, água, dióxido de carbono,

hidrogênio, metano e ácidos graxos de cadeia curta

(acetato, propionato e butirato), com produção de

energia. A produção e ação metabólica desses ácidos

graxos têm sido o principal foco de investigação atual

sobre fibras, pois podem se constituir de importante

substrato energético, serem utilizados pelo fígado

para gliconeogênese, além de exercerem ação

antitumoral.

Por outro lado, é sabido que uma dieta pobre

em fibras pode ocasionar mudanças na microbiota e

converter os lactobacilos habituais do cólon em

bacterióides capazes de desdobrar os ácidos biliares

em compostos cancinogênicos.

Carboidratos -

As frutas são ótimas fontes de carboidratos e

açúcar simples. Os carboidratos são recomendados

como o principal nutriente da composição das

pirâmides alimentares, mas podem se tornarem

vilões, como nos EUA, por exemplo, causando

obesidade, hipoglicemia e diabetes.

Não basta apenas consumir carboidratos, é

preciso que esse carboidrato esteja nas frutas,

hortaliças e nos cereais integrais. Sua energia é

liberada durante um período mais longo e contínuo,

ao contrário dos curtos derrames de energia do açúcar

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 11

simples. Apesar de não serem considerados como

complexos de carboidratos, os açúcares simples

encontrados nas frutas estão misturados com

vitaminas, sais minerais e fibras. É nisso em que

diferem do açúcar branco, refinado, que é usado em

altas concentrações associados com muitos alimentos

ruins, repletos de “calorias vazias” (Blauer, 2004). As

fibras contidas nesses alimentos retardam a absorção

de glicose, permitindo que as pessoas se sintam

alimentadas por mais tempo. Isto também impede as

oscilações da insulina, que sobe violentamente com a

ingestão de açúcares de tudo que se transforma

imediatamente em açúcar no organismo, como o pão

branco e a batata.

Os minerais das frutas

Os minerais das frutas são minerais quelantes,

diferente dos minerais sintéticos, porque o organismo

reconhece e usa mais facilmente, é por isso que uma

dieta rica em minerais orgânicos, é de fácil

assimilação e ajuda a garantir que o organismo

receba todos os minerais importantes de que precisa.

Os minerais das frutas e sucos naturais ajudam

a manter alta a energia do corpo, os nervos calmos,

os dentes, os ossos e as unhas. Além disso, mantêm o

sangue limpo e seu pH equilibrado. E fazem isso

neutralizando os resíduos ácidos e alcalinos, ou seja,

resíduos da digestão e do metabolismo humano.

Em adição a essas funções gerais, cada mineral

tem uma função específica. As funções específicas de

vários dos mais importantes minerais existentes nas

frutas estão relacionados abaixo.

O potássio é o mineral responsável pelo

equilíbrio eletroquímico dos tecidos do coração e de

outros músculos. O ferro é um componente das

células vermelhas do sangue, que transporta o

oxigênio para os pulmões e ajuda os alvéolos na

respiração. O fósforo é essencial para o bom

funcionamento do cérebro e dos nervos.

O cálcio mantém o equilíbrio ácido/alcalino do

sangue e fortalece os ossos. O enxofre ajuda o

cérebro e os nervos a funcionarem; e é o depurador

do organismo. O iodo alimenta a glândula tireóide,

que controla o metabolismo. O magnésio ajuda o

relaxamento muscular, a sintetização das proteínas, a

produção de energia e é um laxante natural.

O manganês é necessário para o

funcionamento cerebral. O selênio funciona em

conjunto com a vitamina E para evitar a oxidação dos

ácidos graxos. O sódio com o potássio, o cálcio e o

magnésio, agem na neutralização de ácidos, mantém

a integridade das células e conserva a energia

eletromagnética dos tecidos.

1.10.3 Fitoquímicos ou alimentos funcionais

Apesar da conexão entre dieta e saúde ser

reconhecida há muito tempo, à medida que

caminhamos para o século XXI, descobrimos cada

vez mais sobre como a dieta pode prevenir doenças.

O tema nutrição é o ponto alto na relação entre dieta

e doenças crônicas como obesidade, doenças

cardíacas e câncer. Em outras palavras, estamos

caminhando para promoção da saúde, longevidade e

qualidade de vida.

Por ser um tema “recente” e despertar

interesses diversos, recebem também, diversas

terminologias. Os mais usuais são alimentos

funcionais, fitoquímicos ou compostos bioativos e

também nutracêutico, estudado pela “medicina

ortomolecular", que consiste no combate aos

"radicais livres" através de substâncias

"antioxidantes", representadas principalmente pelas

vitaminas e pelos minerais.

Lajolo define os nutracêuticos como:

“Alimento semelhante em aparência ao alimento

convencional, consumido como parte da dieta usual,

capaz de produzir demonstrados efeitos metabólicos ou

fisiológicos úteis na manutenção de uma saúde física e

mental, podendo auxiliar na redução do risco de

doenças crônico-degenerativas, além de manter suas

funções nutricionais” (Lajolo, 2001).

Estudos epidemiológicos, por exemplo, têm

associado a dieta rica em vegetais ao uso da soja,

com uma menor incidência de osteoporose e câncer

de mama na mulher. A dieta mediterrânea, rica em

frutas e vegetais, óleo de oliva e carboidratos, leva a

níveis de colesterol elevados, mas não correlacionado

a um maior número de mortes por enfarto.

1.10.4 - Fome oculta

“Os fitoquímicos defendem as células do

corpo, as quais estão constantemente sofrendo

ataques, seja do meio ambiente, da alimentação

inadequada ou da própria genética”. A essa

necessidade do organismo em receber proteção

contra doenças por meio dos fitoquímicos. É uma

fome que não se percebe, mas de algo de que o corpo

precisa (De Ângelis, 1999).

Estudos epidemiológicos têm confirmado essa

tendência que indica déficit do consumo de ácidos

graxos polinsaturados, proteínas de alto valor biológico,

vitaminas, cálcio, ferro, iodo, flúor, selênio e zinco. Este

estado nutricional carente tem originado elevadas

incidências de doenças crônico degenerativas, dentre

elas, doenças cardiovasculares, câncer, hipertensão,

diabetes, obesidade, entre outras. A fome oculta é uma

fome universal, que agrava principalmente os habitantes

de países desenvolvidos. Segundo dados da OMS

mostram que essas doenças são responsáveis por 70% a

80% da mortalidade nos países desenvolvidos e cerca de

40% naqueles em desenvolvimento.

1.10.5 Antioxidantes

Oxidação em sistemas biológicos

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 12

A oxidação nos sistemas biológicos ocorre

devido à ação dos radicais livres no organismo. Estas

moléculas têm um elétron isolado, livre para se ligar

a qualquer outro elétron, e por isso são extremamente

reativas. Elas podem ser geradas por fontes

endógenas ou exógenas. Por fontes endógenas,

originam-se de processos biológicos que

normalmente ocorrem no organismo, tais como:

redução de flavinas e tióis; resultado da atividade de

oxidases, cicloxigenases, lipoxigenases,

desidrogenases e peroxidases; presença de metais de

transição no interior da célula e de sistemas de

transporte de elétrons.

Esta geração de radicais livres envolve várias

organelas celulares, como mitocôndrias, lisossomos,

peroxissomos, núcleo, retículo endoplasmático e

membranas. As fontes exógenas geradoras de radicais

livres incluem tabaco, poluição do ar, solventes

orgânicos, anestésicos, pesticidas e radiações.

Nos processos biológicos há formação de uma

variedade de radicais livres. São eles:

- Radicais do oxigênio ou espécies reativas do

oxigênio íon superóxido (O2 -*)

Hidroxila (OH·); Peróxido de hidrogênio (H2O2);

Alcoxila (RO*); Peroxila (ROO*); Peridroxila

(HOO*); Oxigênio sinlete (1O2);

- Complexos de Metais de Transição

Fe+3

/Fe+2

; Cu+2

/Cu+

- Radicais de Carbono

Triclorometil (CCl3*);

- Radicais de Enxofre

Tiol (RS·)

- Radicais de Nitrogênio

Fenildiazina (C6H5N = N·)

Óxido nítrico (NO*)

Estes radicais irão causar alterações nas

células, agindo diretamente sobre alguns

componentes celulares. Os ácidos graxos

polinsaturados das membranas, por exemplo, são

muito vulneráveis ao ataque de radicais livres.

Estas moléculas desencadeiam reações de

oxidação nos ácidos graxos da membrana

lipoprotéica, denominadas de peroxidação lipídica,

que afetarão a integridade estrutural e funcional da

membrana celular, alterando sua fluidez e

permeabilidade. Além disso, os produtos da oxidação

dos lipídios da membrana podem causar alterações

em certas funções celulares. Os radicais livres podem

provocar também modificações nas proteínas

celulares, resultando em sua fragmentação, cross

linking, agregação e, em certos casos, ativação ou

inativação de certas enzimas devido à reação dos

radicais livres com aminoácidos constituintes da

cadeia polipeptídica. A reação de radicais livres com

ácidos nucléicos também foi observada, gerando

mudanças em moléculas de DNA e acarretando certas

aberrações cromossômicas. Além destes efeitos

indiretos, há a ação tóxica resultante de altas

concentrações de íon superóxido e peróxido de

hidrogênio na célula.

Compostos antioxidantes

Os processos oxidativos podem ser evitados

através da modificação das condições ambientais ou

pela utilização de substâncias antioxidantes com a

propriedade de impedir ou diminuir o

desencadeamento das reações oxidativas.

Os antioxidantes são capazes de inibir a

oxidação de diversos substratos, de moléculas

simples a polímeros e biossistemas complexos, por

meio de dois mecanismos: o primeiro envolve a

inibição da formação de radicais livres que

possibilitam a etapa de iniciação; o segundo abrange

a eliminação de radicais importantes na etapa de

propagação, como alcoxila e peroxila, através da

doação de átomos de hidrogênio a estas moléculas,

interrompendo a reação em cadeia.

Sabe-se que, por um lado, as vitaminas C, E e

os carotenóides funcionam como antioxidantes em

sistemas biológicos, e por outro, o processo

carcinogênico é caracterizado por um estado

oxidativo crônico, especialmente na etapa de

promoção. Além disso, a fase de iniciação está

associada com dano irreversível no material genético

da célula, muitas vezes devido ao ataque de radicais

livres. Desse modo, os nutrientes antioxidantes

poderiam reduzir o risco de câncer inibindo danos

oxidativos no DNA, sendo, portanto considerados

como agentes potencialmente quimiopreventivos

(Silva e Naves, 2001).

Outras doenças degenerativas do

envelhecimento, incluindo câncer, doenças

cardiovasculares e cataratas são prevenidas ou

retardadas no início, por esses três antioxidantes

(vitamina C, vitamina E e carotenóides).

Para se ter uma idéia sobre a oxidação natural

no organismo, “o DNA em cada célula do corpo

recebe aproximadamente 10.000 ataques oxidativos

por dia” (Ames et al., 1993).

• Carotenóides

Os carotenóides compreendem um grande

número de compostos, muitos dos quais com

atividade biológica. Alguns, como o -caroteno, são

pró-vitaminas A (transforma-se em vitamina A no

organismo). Outros como o licopeno não são

precursores de vitamina A, mas agem no organismo

como antioxidantes, na eliminação de espécies ativas

de oxigênio, formadas ou não no nosso organismo.

Ao contrário de muitas vitaminas, a

biodisponibilidade de carotenóides é aumentada com

o aquecimento dos alimentos, como no

processamento do tomate ou da goiaba, por exemplo.

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 13

• Vitamina C

O termo vitamina C é uma denominação

genérica para todos os compostos que apresentam

atividade biológica do ácido ascórbico. Dentre eles, o

ácido ascórbico é o mais largamente encontrado nos

alimentos e possui maior poder antioxidantes

encontrado nos alimentos e possui maior poder

antioxidante. Os possíveis efeitos anticarcinogênicos

da vitamina C estão relacionados com sua habilidade

em detoxicar substâncias carcinogênicas e suas

atividades antioxidantes. Além disso, tem-se

constatado que a vitamina C pode inibir a formação

de nitrosaminas in vivo a partir de nitratos e nitritos

usados como conservantes, sendo, portanto

adicionados para prevenir a formação desses

compostos reconhecidamente carcinogênicos.

• Vitamina E

A vitamina E é uma substância lipossolúvel e

existente na natureza como tocoferóis e tocotrienóis,

em quatro formas diferentes (, , e ), sendo o -

tocoferol a forma antioxidante mais ativa e

amplamente distribuída nos tecidos e no plasma. A

vitamina E constitui o antioxidante lipossolúvel mais

efetivo encontrado na natureza, e importante fator de

proteção contra a peroxidação lipídica nas

membranas celulares e na circulação sanguínea.

• Flavonóides

Os flavonóides são ativos, em geral variáveis,

contra radicais livres, os quais, por sua vez, podem

estar associados a doenças cardiovasculares (melhor

distribuição periférica do sangue, melhora fluxo

arterial e venoso), câncer, envelhecimento e outras:

- antiinflamatória;

- estabilizadora do endotélio vascular – melhora

função da célula endotelial, diminuindo a

permeabilidade;

- antiespasmódica- ação principal na musculatura lisa;

- cardiovascular- - antialérgico;

- antiulcerogênico;

- antivirais.

Os flavonóides são constituídos

principalmente de antocianina, flavonois, flavonas,

catequinas e flavonoides.

Para se ter uma alimentação saudável,

recomenda-se comer pelo menos cinco (5) refeições

de frutas e hortaliças diariamente. As frutas e

hortaliças são as principais fontes dos três nutrientes

antioxidantes mais importantes: vitamina C,

carotenóides e vitamina E.

1.10.6 – Prevenção de câncer

Causas de indução

Até o momento, a pesquisa determinou muitos

aspectos de desenvolvimento do câncer, se conhece

que o crescimento do tumor tem dois estágios

críticos: iniciação e promoção. A “iniciação”

cancerígena ou alteração celular promove

sucessivamente o crescimento do câncer. Este

crescimento não ocorre, porém, até que um dos

vários fatores chamado “promotores” aja alterando a

célula. Em câncer de mama, a causa mais comum de

mortalidade em mulheres, estes fatores

(“promotores”) incluem danos oxidativos, a ação de

hormônios esteróides, e a ação de certos tipos de

prostaglandinas (PGS). Na Figura 1.3, estar um

esquema altamente simplificado, ilustrando como e

quais estágios certos fitoquímicos podem agir para

bloquear o processo de promoção do câncer,

combatendo o efeito de certos cancerígenos,

iniciadores e promotores (Caragay, 1992).

Figura 1.3 - Fitoquímicos podem afetar o padrão

metabólico associado com câncer dos seios.

(Adaptada de Pierson, 1992).

Consumo de carne ou não consumo de vegetais

“Cerca de 80% dos cânceres de mamas,

próstata e de cólon são atribuídos aos hábitos

alimentares, especialmente consumo de carnes

vermelhas e gorduras” (Binhham, 1999, citado por

De Angelis, 2001).

A carne parece estar associada com câncer,

apenas em povos que não tem uma dieta variada. Os

franceses e os mediterrâneos em geral, têm uma dieta

variada e rica em vegetais frescos, azeite de oliva,

vinho e carne de todos os tipos. Ao contrário dos

americanos, esses povos comem com calma, em

ambiente descontraídos, fatores também relacionados

com prevenção de doenças e qualidade de vida.

Uma coisa ninguém tem dúvidas: vegetais

fazem bem. Uma dieta rica em frutas, e hortaliças

claramente reduz as chances de ter câncer no

estômago, na boca, no intestino, no reto, no pulmão,

na próstata e na laringe, além de afastar os ataques

cardíacos. Frutas e hortaliças amarelas têm caroteno,

que previne câncer no estômago, a soja possui

isoflavona, que diminui a incidência de câncer de

mama e osteoporose; o alho tem alicina, que fortalece

o sistema imunológico e por aí vai.

Mas, a carcinogênese que não dependem da

alimentação pode ocorrer inclusive em vegetarianos,

com ocorrência de câncer de estômago, por exemplo,

pois outros fatores estão relacionados com câncer,

Iniciação

do tumor Promoção do

tumor

carotenóides, fenólicos,

flavonóides, terpenos.

fenólicos, flavonóides,

sulfetos, poliacetilenos

Prostaglandinas

Carcinogênicos

s

Danos oxidativos

s

cumarina,

flavonóides,

triterpenóides

sulfetos,

isoflavonas

fibras, terpenos,

fenólicos, sulfetos,

isoflavonas

hormônios

esteróide

s

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 14

como a predisposição genética, o tabaco, o álcool,

infecções viróticas e o ambiente (Anelli, 2004).

1.10.7 – As frutas e o tipo sanguíneo

Os doutores James D’Adamo e Peter

D’Adamo, revelaram por meio de suas pesquisas e

estudos, que a escolha do tipo de alimento não deve

ser casual, simplesmente por questões culturais ou

religiosas, mas que deve obedecer o tipo sanguíneo

de cada pessoa. Seus estudos estão publicados no

livro A dieta pelo tipo sanguíneo, publicado em 1996,

lançado no Brasil pela Editora Campus, em 1998 e

reeditado em 2005 (D’Adamo e Whitney, 2005).

O sistema imunológico encontra-se no sangue,

e possui mecanismos sofisticados para determinar se

uma substância é estranha ou não ao corpo. Um dos

métodos reside nos marcadores químicos chamados

“antígenos”, que são encontrados nas células do

corpo humano.

Quando o antígeno do tipo sanguíneo percebe

que um antígeno estranho entrou no sistema, a

primeira coisa que ele faz é criar anticopos contra

esses antígenos.

Quando ocorre uma reação química entre o

sangue e os alimentos consumidos, essa reação faz

parte da herança genética do tipo sanguíneo. É

estranho, mas verdadeiro que hoje, no século XXI,

nosso sistema digestório e imunológico ainda

mantenha uma preferência pelos alimentos que

nossos ancestrais com o mesmo tipo sanguíneo

comiam.

Sabe-se disso devido a um fator chamado

lectina. As lectinas são abundantes e variadas

proteínas encontradas nos alimentos, têm propriedade

de aglutinação, afetando o sangue.

As lectinas dos alimentos incompatíveis com o

antígeno de um determinado tipo sanguíneo, ao

serem ingeridas atingem um órgão ou sistema

corporal (rins, fígado, cérebro, estômago etc.) e

começam a aglutinar células sanguíneas nessa área.

A dieta para o tipo O

O aparelho digestível de pessoas Tipo O

conserva a memória dos tempos antigos. A dieta rica

em proteína animal de caçador-coletor e as enormes

demandas físicas do sistema dos primitivos seres

humanos de Tipo O provavelmente manteve a

maioria deles em um branco estado de cetose – uma

condição em que o metabolismo do corpo fica

alterado. A cetose é o resultado de uma dieta rica em

proteína e em gordura que inclui poucos carboidratos.

O corpo metabolisa as proteínas e gorduras em

cetoses, que são usadas em lugar dos açúcares numa

tentativa de manter os níveis de glicose estáveis.

Para digerir melhor uma dieta rica em carnes,

o sistema digestível de pessoas Tipo O é ácido. Por

isso, uma dieta ácida, acidifica cada vez mais o

estômago dessas pessoas, causando problemas de

saúde, como úlcera e gastrites.

Muitas frutas são adequadas para as pessoas de

Tipo O. Mas, algumas frutas são consideradas

nocivas. A razão por que ameixas são tão benéficas

ao Tipo O é que a maior parte das frutas de cor

vermelha escura, azul e roxa tende a provocar uma

reação alcalina em vez de ácida no aparelho

digestível. O aparelho digestivo das pessoas de Tipo

O tem alto nível de acidez e precisa equilibrar a

alcalinidade para reduzir úlceras e irritações da

mucose estomacal.

Devido a sua alcalinidade, sucos de hortaliças

são mais indicados para os de Tipo O que sucos de

frutas. Os sucos de frutas devem ser de frutas pobres

em sacarose (Tabela 1.9).

O suco de abacaxi pode ser particularmente

eficaz para evitar retenção de líquido e inchaço,

ambos fatores que contribuem para o aumento de

peso.

A dieta para o tipo A

As pessoas de sangue Tipo A se dão bem com

dietas vegetarianas – herança de seus ancestrais

agricultores, mais sedentário e menos guerreiros.

Precisam consumir alimentos em estado o mais

natural possível: frescos, puros e orgânicos. Esse

cuidado é importante para o sensível sistema

imunológico dos organismos. Pois são pessoas

biologicamente predispostas para diabetes, câncer e

doenças do coração.

O sistema digestível de pessoas Tipo A é mais

alcalino que ácido.

As laranjas devem ser evitadas, pois elas

irritam o estômago do Tipo A e interferem também

na absorção de importantes nutrientes. Embora a

acidez estomacal seja em geral baixa nos organismos

de Tipo A e possa admitir um estimulante, as laranjas

irritam a delicada mucosa estomacal. O limão mais

ácido que a laranja, é excelente para esse tipo

sanguíneo, pois apresenta tendência de alcalinidade

na digestão, auxilia na digestão e eliminação do muco

do organismo, recomendado inclusive para

tratamento de azia (acidez no estômago).

A dieta para o tipo B

As maiorias das frutas podem ser consumidas

pelas pessoas de Tipo B, pois possuem aparelhos

digestível muito equilibrados, com um saudável nível

ácido-alcalino, de modo que, se pode consumir frutas

que são muito ácidas para outros tipos de sangue.

O abacaxi pode ser particularmente benéfico

para organismos de Tipo B. que são susceptíveis a

edemas – especialmente quando não inclui laticínios

e carnes na dieta. A bromelaína, uma enzima

existente no abacaxi, ajuda-o a digerir mais

facilmente os alimentos.

A dieta para o tipo AB

O sangue Tipo AB é biologicamente

complexo. Ele não se encaixa bem em nenhuma das

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 15

outras categorias. Vários antígenos fazem com que o

AB às vezes seja semelhante ao A, outras ao B e às

vezes parece uma fusão de ambos – uma espécie de

tipo sanguíneo centauro.

As pessoas de Tipo AB compartilham a maior

parte das intolerâncias e preferências das de Tipo A

por certas frutas. Frutas alcalinas, como as uvas, as

ameixas e frutas da família das rosáceas (morango,

amora, framboesa etc), podem ajudar a neutralizar o

efeito dos cereais que provocam acidez em seus

tecidos musculares.

As pessoas de Tipo AB, não se dão bem com

certas frutas tropicais especialmente mangas e

goiabas. Mas o abacaxi é um excelente auxiliar da

digestão para os organismos de Tipo AB.

No Quadro 1.9, está a relação de amêndoas,

frutas e sementes que são benéficas, nocivas e

neutros, que não apresentam efeitos ao organismo.

1.5.8 As frutas e a energia do corpo

As causas da falta de energia no organismo são

várias, uma delas é o consumo de açúcar simples,

contido nas “gulosemas”, sucos artificiais e

refrigerantes, que estimulam o organismo. Mas, logo

a sensação de energia é substituída pelo cansaço.

Quadro 1.9 – Amêndoas, frutas e sementes recomendadas na dieta de pessoas de diferentes tipos sanguíneos.

Tipo O

Benéficos Neutros Nocivos

sementes de abóbora torradas,

sementes de linhaça

amêndoas, avelãs, gergelim, nozes em

geral, pinhão

amendoim,casctanha-de-caju e do Pará,

pistache, sementes de girassol

ameixas em geral, figos frescos e

secos, goiaba, jaca, manga

abacate, abacaxi, bananas, caqui,

carambola, limão, maçã, mamão,

melancia, melão, morango, pêra, pêssego,

uvas

açaí, acerola, amora-preta, banana-da-

terra, coco (água e leite), cupuaçu,

graviola, kiwi, laranja ácida, maracujá,

melão cantalupo, tangerina ácida.

Tipo A

Benéficos Neutros Nocivos

amendoim, sementes de linhaça e

de abóbora torrada

amêndoas, avelãs, castanha-portuguesa,

gergelim, nozes em geral, pinhão, girassol

castanha-de-caju, e castanha-da-

amazônia

abacaxi, açaí, ameixas, amoras,

cerejas, damascos, jaca, figos

frescos e secos, limão

abacate, caqui, carambola, goiaba, kiwi,

kunquat, maçã, melancia, morango, pêra,

pêssego, uvas

bananas em geral, coco (água e leite),

cupuaçu, laranja ácida, manga,

maracujá, melões em geral, mamão,

tangerina

Tipo B

Benéficos Neutros Nocivos

nozes-negra amêndoas, castanha-portuguesa, castanha-

da-amazônia, linhaça

amendoim, castanha-de-caju, pinhão,

gergelim, girassol

abacaxi, ameixas, bananas (exceto

banana-da-terra) jaca, mamão,

melancia, uvas

ameixas secas, amora, banana-da-terra,

figos, goiaba, kiwi, laranjas, limão, maçã,

manga, melão, morango, pêra, pêssego,

tangerina

abacate, caqui, coco (água e leite),

carambola, romã

Tipo AB

Benéficos Neutros Nocivos

amendoim, castanha-portuguesa,

nozes-de-natal

amêndoas, castanha-de-caju, linhaça,

castanha-da-amazônia, pinhão

avelã, abóbora-moranga, gergelim,

girassol

abacaxi, ameixas, cerejas, figos,

jaca, kiwi, limão, melancia e uvas

amora, banana-da-terra, fruta-pão,

kumquat, maçã, mamão, melão, morango,

pêra, pêssego, tangerina

abacate, caqui, bananas,, caqui,

carambola, coco (água e leite), goiaba,

laranja, manga

Fonte: Teixeira (2002); D’Adamo (2005)

Os carboidratos complexos, encontrados em

todos os cereais, frutas, hortaliças e leguminosas,

proporcionam uma energia mais permanente no

organismo, evitando a fadiga anormal.

Além dos carboidratos complexos, as frutas

são ricas em vitaminas do complexo B, que ajudam a

combater o cansaço e dobram sua energia em questão

de minutos.

No complexo B, encontra-se a colina, uma das

poucas substâncias que consegue penetrar na

chamada barreira sanguínea do cérebro, atingindo as

células do cérebro, estimulando-as a produzir a

acetilcolina, um neuro-transmissor do sistema

nervoso central que age sobre outras células

nervosas, bem como sobre os músculos e órgãos do

corpo inteiro. Existem muitos indícios associados as

células que usam a acetilcolina à formação da

memória.

Outro estimulante encontrado nas frutas são as

enzimas.

As enzimas das frutas e dos sucos naturais são

rapidamente utilizadas, para aumentar a energia e

promover a cura e regeneração. Elas melhoram o

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 16

funcionamento do sistema digestivo. Muitos

nutricionistas recomendam como primeiro alimentos

do dia, alimentos com vida, com enzimas, para

energizar um corpo adormecido pela dormida.

Os sucos naturais ajudam a decompor outros

nutrientes, transformando-os em substâncias simples

que podem ser rapidamente absorvidas na corrente

sanguínea. As enzimas dos sucos executam

rapidamente esses processos biológicos complexos

sem calor e sem se tornarem parte dessas mudanças

(Wade, 2004).

1.11 Função medicinal das frutas

Banana

A banana é uma das frutas mais consumidas

no mundo por possuir ótima qualidade nutricional e

ser saborosa (textura macia, aromática e doce). “É a

fruta das frutas”.

O Dr. Teófilo Luna Ochoa citado por Balbach

(1992) descreve o valor medicinal da banana:

“A banana madura... encerra uma substância

oleosa, que muito suaviza as membranas mucosas

irritadas em casos de colite e enfermidade do reto.

Contém igualmente um fermento digestivo não bem

conhecido, porém de alto valor, que, em determinada

enfermidade intestinal, a torna (a banana) o único

carboidrato tolerado pela vítima, que (doutra

maneira) morre de fome”.

Essa fruta é muito recomendável também

contra as enfermidades renais, nefrite, hidropisia,

gota, obesidade, afecções do fígado, cálculos biliares,

tuberculose, paralisia, enfermidades do estômago etc.

A banana, principalmente o caldo da banana

verde fervida ou ainda a farinha de banana são

excelentes contra diarréias e disenterias.

A dieta de bananas maduras dá resultados dos

mais benéficos em todos os casos de prisão de ventre

dentro de uma ou duas semanas.

Doença celíaca é uma indisposição intestinal

em crianças a partir de 16 meses de idade, rara e

fatal, a banana é um dos poucos alimentos que o

intestino não rejeita.

A banana ligeiramente assada, exalando seu

aroma, come-se quente para combater as

pneumonias.

Caju

O caju possui dois produtos comerciais, o

pedúnculo (comestível ao natural) e o fruto

verdadeiro, do qual se extrai o LCC e a amêndoa,

ambos com efeito farmacêutico. Em se falando

apenas do pedúnculo, este atua como: DIURÉTICO,

EXPECTORANTE, ANTIFEBRIL e DIABETES.

Graviola

Um dos estudos revelou que alguns

componentes da graviola eram cytotóxicos e levavam

à cura do adenocarcinoma do cólon através de

potencilalidade quimioterápica, 10.000 vezes maior

do que a adriamicina, uma droga quimioterápica

muito utilizada. A Universidade de Purdue conduziu

uma grande pesquisa sobre acetogeninas

annonaceaous incluindo aquelas encontradas na

graviola. Em uma das revisões intitulada “Recent

Advances in Annonaceous Acetogenins”, eles

confirmaram que “Annonaceous acetogenins é uma

substância amilóide consistindo uma cadeia longa de

ácido graxo de C32 ou C34 combinado com uma

unidade de 2-propanol a C-2 para formar uma

lactona. Eles são encontrados em vários gêneros da

família da planta Annonaceae. Suas diversas

bioatividades como antitumor, imunosupressivo,

pesticidal, antiprotozoário, vermífugo e agente

antimicrobiológico, tem atraído mais e mais o

interesse do mundo. As acetogeninas Annonaceous

podem inibir seletivamente o crescimento de células

cancerígenas e também inibir o crescimento de

células de tumor resistente à adriamicina.

Goiaba

A goiaba atalha a tuberculose incipiente,

promove o metabolismo das proteínas, e ajuda a

prevenir a acidez e a fermentação dos hidratos de

carbono durante a digestão. É muito adstringente,

sendo aconselhada por alguns para curar as diarréias

mais rebeldes. Esta propriedade do fruto se observa

também no seu doce ou goiabada. A goiaba é

eficiente ainda em Hemorragias, Tosse e Úlceras

gástricas e duodenais.

Mamão

O mamão é uma das melhores frutas do

mundo, tanto pelo seu valor nutritivo, como pelo seu

poder medicinal. Um dos seus mais importantes

princípios é a papaína, reconhecida como superior a

pepsina e muito usada para prestar alívio nos casos de

indigestão aguda.

O mamão maduro é digestivo, diurético,

emoliente, laxante, refrescante e oxidante,

particularmente quando se come com as sementes,

que contêm a papaína, fac-simile da pepsina.

Em casos severos de indigestão e gastrite,

onde a assimilação de alimentos causa grande

angústia, uma dieta constante exclusivamente de

mamão por vários dias, restaura a saúde do enfermo.

Uva

As uvas são importantes na nutrição e

prevenção e cura de doenças, mas o vinho é o

principal produto da uva promotor de saúde. Os

maiores responsáveis pelos efeitos benéficos do

vinho à saúde são os polifenóis, por terem:

Um potente efeito antioxidante e

Uma ação antibiótica.

O resveratrol, um dos polifenois encontrados

no vinho, tem uma ação antioxidante 10.000 vezes

maior que o tocoferol (Vitamina E).

O vinho aumenta a consistência e a

estabilidade da parede vascular, previne a

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 17

aterosclerose e inibe a agregação plaquetéria,

evitando a deposição de placas de gordura e

formação de coágulos nos vasos sanguíneos.

Principal causa de infartos do coração, gangrenas e

derrames cerebrais.

O vinho é, sem dúvidas a bebida mais

favorável à digestão. O ácido cinâmico aumenta a

secreção biliar; as oxidades e peptases (enzimas) e o

sorbitol, aumentam a secreção biliar e pancreática.

Além disso, o vinho diminui os movimentos

peristálticos do intestino delgado e do intestino

grosso. Isso diminui o trânsito intestinal e aumenta o

tempo de permanência dos alimentos no tubo

digestivo. Com isso dá maior tempo para as enzimas

processarem os alimentos, melhorando a digestão, o

que é muito saudável. As principais responsáveis por

essa ação são as catequinas. Outra função na

digestão, é aumentar a sensibilidade do organismo

(das células, mais especificamente) à ação da

insulina.

O suco de uva não é tão benéfico para a saúde

quanto o vinho. O álcool contido no vinho tem uma

afinidade muito grande com o resveratrol e outros

polifenóis, sendo o seu melhor solvente.

O suco de uva é sim uma excelente bebida

energética, muito adequada para se usar antes,

durante ou após a atividade física e/ou intelectual de

grande consumo de energia.

Por ser alcalinizante esta fruta combate a

acidez sanguínea, sendo indicada a pessoas

intoxicadas pelo consumo excessivo de carne.

Combate a dispepsia, as flatulências, a atonia

intestinal e as fermentações nos intestinos.

Limão

O suco do limão tem sido recomendado para

combater numerosos estados patológicos, pois foi

comprovado que é diurético e pode ser usado na

nefrite, com êxito, especialmente nas formas que

produzem um estado de hidropisia. Nas enfermidades

infecciosas, o suco, em forma de limonada, é

refrescante e favorece a ação dos medicamentos

antitérmicos. Nas gastrenterites diminui a inflamação

da mucosa e atenua as náuseas. Nas enfermidades do

fígado também produz bons resultados. No

reumatismo atenua as dores. O suco de limão traz

resultados notáveis de vitaminas no organismo. O

suco de limão tem igualmente propriedades

estimulantes sobre a pele, suavizando-a e fazendo

desaparecer as manchas cutâneas.

O limão, com seus ácidos, facilmente

transformados em elementos alcalinizantes, e com

suas bases, fermentos e vitaminas, contribui

poderosamente para oxidar radicais livres.

Surpreende e não poucas pessoas, o fato de

que, sendo ácido o suco de limão, determina reação

alcalina. Em outras palavras, o limão, ao terminar seu

metabolismo, se porta, não como ácido, mas, sim,

como alcalino, controlando a acidez no estômago e

no sangue.

Como as outras frutas cítricas, possui ótimo

teor de vitamina C, atuando notavelmente no

metabolismo do cálcio, particularmente nas senhoras

em estado de gravidez, nas crianças de peito e nos

adolescentes, e é um eficaz remédio contra o

escorbuto, as estomatites e a piorréia.

O limão atua sobre as inflamações, dada sua

atividade antiinflamatória.

A cura do limão tem vencido diáteses artríticas

mais e melhor do que qualquer outra fruta,

apresentando resultados onde havia falhado a uva.

Castanha-da-Amazônia

De modo geral, as castanhas, amêndoas e

nozes, devido a riqueza em fibras, gorduras

monoinsaturadas e diversos antioxidantes (vitamina

E, selênio, ácido elágico), são excelentes protetores

do coração. Atuam também, como redutores do

colesterol sanguíneo.

O alto teor de cálcio combate a osteoporose e

o raquitismo.

Além disso, a castanha-da-amazônia é um dos

alimentos mais ricos em selênio, diminui o

envelhecimento celular e reduz o risco de cânceres

como o do pulmão e o da próstata. O selênio combate

o mau humor denominado distimia (indisposição

orgânica).

Maçã

Dentre as diversas funções de proteção à saúde

que a maçã possui, uma delas é diminuir os riscos de

derrame cerebral, desde que se coma esta fruta

regularmente, segundo pesquisa realizada na

Finlândia que acompanhou a saúde e os hábitos

alimentares de mais de 9.000 pessoas durante 28

anos. A maçã é rica em querecetina, substância que

ajuda a evitar a formação dos coágulos sanguíneos

capazes de provocar derrame.

Morango

Comer morango ajuda a reduzir o risco de se

contrair câncer e doenças do coração devido à

presença do ácido fólico (composto orgânico

benéfico à saúde) principalmente na polpa e nas

folhas. O morango ainda contém vitamina C, sódio,

potássio, cálcio e ferro.

Laranja

Além de alta concentração de vitamina C, as

laranjas contém pidoxina (a vitamina B6) e ácido

fólico. Ambos são muito importantes no metabolismo

da homocisteina e importantes para prevenir a

arteriosclerose. A arteriosclerose é a formação de

placas nas artérias, dificultando a circulação

sanguínea. Estas afirmações foram confirmadas pelo

Dr. Rafael Carmena, catedrático de medicina e chefe

do serviço de endoclinologia e nutrição do Hospital

Clínico Universitário de Valência, Espanha.

Importância da fruticultura brasileira

Sebastião Elviro de Araújo Neto 18

1.12 REFERÊNCIAS

AGRIANAUAL. Anuário da agricultura brasileira.

FNP Consultoria e Comercio, 2003.

ALVES, R. E.; FILGUEIRAS, H. A. C. MOSCA, J.

L.; SILVA, S. M.; MENEZES, J. B. Postharvest

Physiology and Biochemistry of Some Non-

Traditional American Tropical Fruits. Acta

Horticulturae, 768, p.233-238, 2008.

ANELLI, A. Dieta saudável não garante resultado.

Folha de São Paulo, 29/11/2004.

AMES, B. N.; SHIGENAGA, M. K.; HAGEN, T. M.

Oxidants, antioxidants and the degenerative diseases of

aging. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. v.90, p.7915-7922,

1993.

AGUIAR, J. P. L.; MARINHO, H. A.; REBELO, Y. S.;

SHRIMPTON, R. Aspectos nutritivos de alguns frutos

da Amazônia. Acta Amazônica, Manaus, v.10, n.4,

p.755-758, 1980.

BALBACH, A. As frutas na medicina doméstica. 21ª

ed. Itaquetuba: “A edificação do lar” , 1992. 375p

BLAUER, S. O livro dos sucos. Tradução de Thereza

Monteiro Deutsch. 8ª ed. – Rio de Janeiro: Record,

2004. 220p.

BLOCK, G.; PATTERSON, B.; SUBAR, A. Fruits,

vegetables, and cancer prevention: a review of the

epidemiological evidence. Nutr, Cancer. V.18, p.3-4,

1992.

BLOCK, G.; LANGSETH, L. Antioxidant vitamins and

diseases prevention. Food Tecnology, v.48, n.7, p.80-

84, July, 1994.

BURGIERMAN, D. R. Deveríamos parar de comer

carne? Super Interessante, Edição, 175, p.43-50, abril

2002.

CARAGAY, A. B. Câncer-preventive foods and

ingredients. Food Technology, Chicago, v.46, n.4,

p.65-68, 1992.

D’ADAMO, P.J.; WUITNEU, C. A dieta do tipo

sanguíneo: saúde, vida longa e peso ideal de acordo

com seu tipo sanguíneo. Tradução de Sonia T. Mendes

Costa, revisão técnica e atualização Augusto Teixeira.

Rio de janeiro: Elsevier, 2005. 329p.

DE ÂNGELIS, R. C. Fome oculta: impactos para a

população do Brasil. Atheneu, 1999.

DE ÂNGELIS, R. C. Importância dos alimentos

vegetais na proteção da saúde: fisiologia da nutrição

protetora e preventiva de enfermidades

degenerativas. São Paulo: Atheneu, 2001.

FAO. Dados agrícolas: Frutas tropicais. Disponível

em (http://faostat.fao.org/faostat/). Acesso em

18/12/2005.

FARIAS, J. F. Maturação e determinação do ponto

de colheita de envira-caju (Onychopetalum

periquino). 2009. 41f. Dissertação (Mestrado em

Produção Vegetal) – Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-

Graduação, Rio Branco- Acre, 2009.

FRANCO, G. Tabela de composição química dos

alimentos. 8ª edição. Atheneu, São Paulo. Rio de

Janeiro, 1992.

IBGE. Censo brasileiro 2000. www.ibge.gov.br,

consulta 21/02/2003.

IBGE. Agricultura, 2002. www.sidra.ibge.gov.br,

consulta 27/04/2004.

IBRAF. Estatísticas – Fruticultura: síntese.

Disponível no sitio http://www.ibraf.org.br/x-es/f-

esta.html. Acesso em 14/09/2008.

LAJOLO, F. M. Alimentos funcionais. Revista Racine,

62, p.18-24, Maio/Junho, 2001.

MELLO, Nilda T.C. de (coord.) Matrizes e coeficientes

técnicos de utilização de fatores na produção de

culturas anuais no Estado de São Paulo. Informações

Econômicas, SP, v.30, n.5, p: 47-105, maio 2000.

MELLO, N. T. C. de; NOGUEIRA, E. A.; MAIA, M.

L. M. Análise econômica da cultura da atemóia no

estado de são paulo: um estudo de caso. In:

CONGRESSO BRASILEIRO DE FRUTICULTURA,

18, 2004. Florianópolis, Anais... SOCIEDADE

BRASILEIRA D EFRUTICULTURA. Florianópolis,

2004.

NAVES, M. M. V.; MORENO, F. S. Comunicações

intercelular com conexinas: importância na

carcinogênese e papel modulador dos carotenóides.

Revista Brasileira de Ciências Farmacêutica, v. 36,

n.1, p.1-11, jan./jun., 2000.

PIERSON, H. Diet as a factor in cancer and cancer

prevention. Cancer Medicine. 1992.

ROACH, J. Cientistas aprovam frutas e verdures contra

o câncer.www.ngnews.com/news. Consultada

20/07/2002.

SHEINBERG, G. Presença nos alimentos, fitoquímicos

podem prevenir doenças. Folha de São Paulo,

14/02/2002.

SOUZA FILHO, J. M. de. Vinho e saúde. In: REGINA,

M. de A. et al. (eds). Viticultura e Enologia:

Atualizando conceitos. Caldas: EPAMIG-FECD, p. 1-

15, abril, 2002.

SOARES, S. E. Ácidos fenólicos como antioxidantes.

Revista Nutrição, Campinas, v.15, n.1, p.71-81,

jan./abr., 2002.

TEIXEIRA, S. A dieta que está no sangue: peso ideal,

saúde e energia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2002. 295p.

VIGGIANO, C. E. Efeitos fisiológicos das fibras

dietéticas. Revista Racine, v. 62, p.34-36, Maio/Junho,

2001.

WADE, C. A energia dos alimentos naturais: um

programa alimentar completo para restaurar e

manter sua energia e bem estar. Rio de Janeiro:

Elsevier, 2001. 22.

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 20

2. PANORAMA ATUAL E POTENCIAL DA

FRUTICULTURA ACREANA

2.1 Fruticultura na Amazônia

A Amazônia possui uma série de

características que a tornam habilitada para investir

no agronegócio da fruticultura. As frutas tropicais

são, o primeiro grupo de alimentos, associados á

Amazônia que, vêm na mente dos consumidores

ocidentais. Além disso, o mercado de suco da frutas

tropicais esta em franca expansão, com o

envelhecimento das populações, as bebidas não

alcoólicas, como os sucos, têm seu consumo

aumentado (Clay et al., 1999).

Na região há várias instituições de ensino,

pesquisa e extensão com conhecimento na área de

fruticultura (Embrapa, INPA, CEPLAC,

Universidades, Emateres, etc.). Mesmo sem dados

consolidados, sabe-se que mais de 50% das frutas

consumidas na região vêm de outros estados, sendo

que, a maioria têm condições de serem produzidas na

região. Para as grandes empresas seria uma grande

oportunidade de aliar a atividade com a marca

Amazônia, hoje com divulgação mundial.

No entanto é preciso maiores investimentos

governamentais em rodovias, ferrovias, hidrovias e

portos; dentre outras políticas específicas para

fomentar a fruticultura.

A região Amazônica é a terceira maior

produtora de banana do país, segunda em abacaxi e

quarta em coco e maracujá, onde os Estados da

região já possuem tradição na produção de frutas.

Verificando o mapeamento da fruticultura brasileira

do ano 2000, o Estado do Pará é o segundo maior

produtor brasileiro de abacaxi (9.842 ha) e o Estado

do Amazonas tem 7 municípios entre os 50 maiores

produtores desta fruta (2.620 ha). Com relação a

banana o Estado do Pará é o maior produtor (51.772

ha), o do Amazonas o quarto maior produtor (41.701

ha), o Estado do Acre tem uma área plantada de

9.276ha, Roraima 6.000 ha e Rondônia 5.729 ha.

Na produção de coco, o Pará é o maior

produtor (17.229 ha). Na produção de mamão o Pará

é o quarto maior produtor (1.258 ha) e o estado do

Amazonas possui 7 municípios (819 ha) entre os 50

maiores produtores. Em Maracujá o Pará é o sexto

maior produtor. Com relação a laranja já existem

35.817 ha plantados nos estados do Amazonas, Pará e

Roraima. No Estado de Rondônia já existe uma área

plantada de 38.500 ha com frutas tropicais.

Além destas frutas exóticas, observa-se que,

existe uma área considerável plantada com frutas

nativas. É o caso do cacau, com 4.573 ha plantados

no Estado do Amapá, 26.896 ha em Rondônia e

99.742 no Pará (Anuário estatístico, 1998). O

cupuaçu tem uma área plantada de 16.000 ha na

região Amazônica (Ribeiro, 1997). O guaraná tem

11.611 ha plantados na região. Com relação ao

extrativismo, verifica-se que a castanha-da-amazônia

contribuiu com 19.203 t e o açaí com 146.524 t, no

ano de 1998 (Anuário estatístico, 1998). É importante

salientar que, estas frutas possuíam apenas consumo

local, e hoje são consumidas em vários estados do

Brasil e no exterior.

2.2 Aspectos Gerais do Estado do Acre

O Estado do Acre ocupa uma área estimada de

152.589 km2, com uma população estimada de

557.526 habitantes, distribuídas em 66% na zona

urbana e 34% na zona rural. O relevo é formado, na

sua maior parte por uma plataforma regular, com

altitudes variando de 100 a 300 metros, sendo que a

vegetação é formada por floresta úmida de terra firme

(88,24%), várzea (11,37%) e campo (0,39%) (IBGE,

2004). O clima da região é quente e úmido com

estação seca e chuvosa bem definidas. A temperatura

média anual é de 25,8ºC, sendo a média das máximas

de 31,3ºC e a média das mínimas de 20ºC. As médias

anuais de precipitação umidade relativa do ar e

insolação são de 1.710 mm, 84% e 1.522,1 horas.

2.3 Principais fruteiras cultivadas no Acre

O cultivo de fruteiras no estado do Acre,

concentra-se nos municípios de Cruzeiro do Sul,

Plácido de Castro, Acrelândia, Porto Acre (Projeto

Humaitá) e Rio Branco (Tabela 2.1 e 2.2).

Na tabela 2.1, encontra-se a área colhida,

produção e produtividade das principais fruteiras

cultivadas no Acre.

Tabela 2.1 - Área colhida (ha), produção e

produtividade média das principais fruteiras

cultivadas no estado do Acre, ano de 2002.

Produtos

Área

colhida

(ha)

Produção

Produtividade

(fruto ou

ton/ha)

Abacaxi (Mil frutos) 262 276.320 1.054

Abacate (Mil frutos) 88 568 6.454

Açaí (tonelada) 159 10

Banana (Mil cachos) 6.712 52.087 8,0

Côco-da-baía (Mil f) 68 359 5.279

Cupuaçu

Guaraná (ton) 139 55 0,4

Laranja (Mil frutos) 560 4.879 8.713

Limão (Mil frutos) 76 542 7.131

Mamão (Mil frutos) 250 2.180 8.720

Manga (Mil frutos) 48 358 7.458

Maracujá (Mil fruto) 74 386 5.216

Palmito (ton) 763 1.951 2.555

Tangerina (Mil fruto) 190 1.673 8.805

Fonte: IBGE (2004).

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 21

Tabela 2.2 – Principais fruteiras produzidas nos municípios acreanos.

Municípios Banana Laranja Limão Mamão Manga Abacate

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Acrelândia 8.640 2.808 1.200 250 88 25 12 4 1 90 54 6 40 8 5

Assis Brasil 140 42 20 4 3 1 3 2 1 13 2 1 4 5 1

Brasiléia 4.200 1.441 600 142 50 13 8 6 1 63 50 9 25 12 5 30 33 5

Bujari 450 129 60 72 36 6 60 21 6 120 60 8 12 2 1 64 45 8

Capixaba 148 56 26 45 9 5 8 8 1 136 136 17 7 1 1 13 13 3

Cruzeiro do Sul 3.816 496 353 668 329 80 16 12 5 55 17 18 27 4 6 68 41 8

Epitaciolândia 1.050 378 150 180 72 17 8 6 1 48 36 6 5 2 1 15 18 3

Feijó 2.576 358 322 234 199 18 108 41 9

Jordão 3.968 786 496 60 48 6 12 6 2 96 25 8 25 18 6

Mancio Lima 360 47 33 52 25 7 3 1 1 7 5 1

Manoel Urbano 120 70 12 30 12 3 24 12 2 27 14 3 15 2 2 7 7 1

Marechal Talmaturgo 819 96 75 - - 110 7 2 2 3

Plácido de Castro 5.135 1.325 738 990 297 43 60 15 10 340 170 34 18 3 3 15 9

Porto Acre 1.750 336 284 344 103 1 105 37 15 400 280 50 30 15 5 20 12 5

Porto Walter 927 108 86 8 2 14 4 2 1

Rio Branco 6.810 2.570 1.135 900 252 100 208 54 16 150 75 10 50 8 5 140 112 20

Rodrigues Alves 1.080 140 100 87 40 1 21 6 6 9 6 1

Santa Rosa do Purus 100 10 10 8 4 25 12 7 2

Sena Madureira 1.050 390 140 200 90 65 81 31 9 162 62 27 100 22 10 66 51 8

Senador Guimard 1.305 320 205 455 159 10 40 12 8 130 85 13 8 3 1 15 11 5

Tarauacá 4.792 657 599 100 70 10 114 40 12 24 21 6

Xapurí 1.016 518 127 100 50 27 19 3 25 20 5 8 3 2 26 31 4

TOTAL 52.087

Fonte: IBGE (2004).

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 22

Tabela 2.2 – Principais fruteiras produzidas nos municípios acreanos. (Continuação...)

Municípios Maracujá Tangerina Coco Guaraná Palmito

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Mil

Fruto

R$

1.000

Área

(ha)

Acrelândia 167 334 61

Assis Brasil

Brasiléia 16 16 4 52 26 4 73 146 20

Bujari 20 12 4 125 50 10

Capixaba 30 30 3 36 22 3

Cruzeiro do Sul 302 190 53 72 36 14 29 87 73

Epitaciolândia 27 32 9 65 33 5 82 14 14

Feijó 60 53 6

Jordão 46 36 5

Mancio Lima 12 5 3 6 3 2 24 72 60

Manoel Urbano 30 11 2

Marechal Talmaturgo

Plácido de Castro 27 10 10 120 60 10 30 15 5 123 246 55

Porto Acre 100 25 25 33 17 5 179 358 74

Porto Walter

Rio Branco 72 40 6 336 120 28 90 45 20 4

Rodrigues Alves 36 15 8 3 2 1

Santa Rosa do Purus 30 18 2

Sena Madureira 10 9 2 228 96 24 130 85 20 159 318 100

Senador Guimard 156 47 12 36 20 10 2 6 6 1.176 2.352 675

Tarauacá 53 44 6

Xapurí 40 24 4 10 6 2 29 58 10

TOTAL

Fonte: IBGE (2004).

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 23

Banana

A principal fruteira plantada no estado é a

banana, ocupando uma área de 6.712 ha, com

produção de 52.087 cachos anual (Tabela 2.1). As

principais cultivares plantadas são a prata, maçã e

comprida, mas com a entrada da principal doença da

bananeira (Sigatoka Negra), vários produtores

diversificaram seus plantios com variedades

resistentes, como a Caipira, Pioneira, Thap Maeo e a

Mysore, atualmente com opção de mais seis

cultivares, MARAVILHA, PRECIOSA,

GARANTIDO, CAPRICHOSO, JAPIRA e

PACOVAN KEM.

A produção de banana no estado do Acre, é

uma das atividades agrícolas de maior expressão,

pelas facilidades de cultivo, produção continuada ao

longo do ano e sua larga utilização e/ou aceitação nas

mais variadas formas de consumo (Gondim et al.,

2001a).

O Acre apresenta aptidão natural para o

cultivo de bananeira em 15% do território, devendo-

se adotar práticas de manejo adequadas (cobertura do

solo, reposição nutricional etc.) e assim, corrigir

algumas limitações de ordem química e/ou

morfológica (adubação, medidas de conservação do

solo, drenagem etc.) para os 25% das terras

classificadas como Preferencial/Restrita (Figura 2.1).

Preferencial/Restrita 9%

Restrita 23%

Restrita/

Química 14%

Inápta 13%Preferencial 15%

Preferencial/

Restrita 3%

Preferencial/

Restrita/Química

13%

Restrita/Química

Morofológica

10%

Figura 2.1 – Percentual de classes de aptidão natural

para o cultivo da bananeira no estado do Acre.

(Adaptado de Gondim et al., 2001a).

Os municípios de Acrelândia, Plácido de

Castro, Rio Branco, Brasiléia, Tarauacá e Jordão,

foram, no ano de 1999, os cinco maiores produtores

do Acre, com área correspodendo a 62,66% da área

do Estado com bananeira (IBGE, 2001).

Embora nos municípios de Capixaba, Porto

Acre, Senador Guiomar, não haja tradição para a

produção de banana (área colhidas de 90, 84 e 64 ha,

respectivamente conforme IBGE, 2001), verifica-se

que a maior parte de suas terras é adequada, ou seja

preferencial para exploração de banana.

Açaí

Pela crescente demanda do açaí, tanto no

mercado interno como externo, sua inclusão em

programas estratégicos de desenvolvimento regional

deve ser feita.

O estado do Acre apresenta aptidão para o

cultivo do açaí. O plantio do açaí pode ser feito em

aproximadamente 50% dos solos do Acre (Franke et

al., 2001).

Preferencia/

Restrita 45%

Preferencial 47%

Inápta 0%

Restrita Inápta 7%Restrita 1%

Figura 2.2 – Percentual de classes de aptidão natural

para o cultivo do açaizeiro no estado do Acre.

(Adaptado de Franke et al., 2001).

Cupuaçu

Frutos grandes de cupuaçu (1,5 - 2,0 kg)

alcançam preços de R$ 1,00 a 2,00 no mercado

varejista (feiras) de Rio Branco. A polpa é vendida de

R$ 2,00 a 3,00 o kilograma Um hectare de cupuaçu

adulto (mais de 5-6 anos) bem conduzido, em ano de

boa produção, produz, aproximadamente, 1000 kg de

polpa (em torno de 3000 frutos/ha/ano). Dos frutos

do cupuaçu pode-se explorar também as sementes (15

a 20%) para produção de produto semelhante ao

chocolate, o cupulate, manteiga de cupuaçu e outros.

O estado do Acre não apresenta restrições

climáticas para o cultivo do cupuaçuzeiro, porém,

observa-se que aproximadamente 28,4% dos solos do

Estado do Acre são considerados aptos (4,1% são de

aptidão preferencial e 24,3%, preferencial/restrita) e

71,7% são considerados restritos e/ou inaptos (Figura

2.3)

Restrita 45%

Restrita/Inápta 10%

Inápta 17%

Preferencial 4%

Preferencial/

Restrita 24%

Figura 2.3 – Percentual de classes de aptidão natural

para o cultivo do cupuaçuzeiro no estado do Acre.

(Adaptado de Gondim et al., 2001b).

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 24

O cupuaçuzeiro pode ser explorado, com

possibilidades de melhor retorno econômico, nos

municípios de Acrelândia, Plácido de Castro, Rio

Branco e Rodrigues Alves, sendo adotadas as práticas

culturais e de manejo e conservação do solo (Gondim

e tal., 2001b).

Abacaxi

A produção de abacaxi tem abastecido o

mercado local no período da safra, sendo necessário a

importação da fruta de outros estados produtores,

para suprir a demanda no período de entre-safra,

ficando claro a necessidade de estudos que viabilizem

a produção fora da época, o manejo da fusariose e

controle da broca do fruto, da cochonilhas e

percevejo, dentre outras pragas.

Mamão

O cultivo do mamão, assim, como do abacate,

manga e maracujá tem-se incrementado nos últimos

anos, porém, a produção não é suficiente para suprir a

demanda.

O mamão produzido no estado, apresenta

baixa qualidade, principlamente com relação a

quantidades de frutos provenientes de plantas fêmeas,

plantas com flores hermafrodita pendândrica e flores

hermaflodita carpelóide, e até de plantas masculinas,

plantas estas que devem ser eliminadas do pomar,

mas que o produtor não as retira e que produzem

frutos de baixo valor comercial, porém, o mercado no

Acre, ainda aceita estes tipos de frutos.

Maracujá

O maracujá é outro fruto de baixa qualidade

comercial e organoléptica, provavelmente causado

pela colheita ou coleta tardia, contribuindo com a

aceleração dos processos fisiológicos e bioquímicos e

senescência dos frutos, além das manchas no fruto

causado por pragas e doenças, em especial por

antracnose e verrugose.

Uma das reclamações mais freqüentes, é a

baixa polinização e frutificação. Sabe-se que há

vários fatores que conduzem a baixa frutificação,

como auto-incompatibilidade genética, extremos de

temperatura, precipitação excessiva, abelhas pequena

(silvestre, Apis melífera, Irapuá), baixa população de

mamangava, baixo teor de água no solo, dentre

outros.

Guaraná

A produção de guaraná é praticamente, quase

sua totalidade produzida no município de Cruzeiro do

Sul, apesar dos 55 toneladas, não é suficiente para

suprir a demanda das fábricas que produzem guaraná

em pó, refrigerante e extratos.

Gravioleira

A gravioleira, planta exótica cultivada na

região, possui ótimo potencial de mercado, em todo

Brasil, por produzir frutos de excelente flavor. Sua

demanda vem crescendo pelo aumento do consumo

de seus frutos nas regiões não produtoras do país, não

sendo suprida pela baixa produtividade, ocasionada

pelos problemas de produção, principalmente o

ataque das brocas do caule, do fruto e da semente e

os baixos índices tecnológicos empregados nos

plantios da gravioleira.

No mercado de Rio Branco, a graviola alcança

preços muito altos, sendo comercializado até por R$

7,00 o kilograma na rede de supermercado, assim, um

fruto de 3 kg pode ser comercializado por até R$

21,00, porém, no mercado livre os frutos são

comercializados por unidade, variando de R$ 3,0 a

5,00, frutos grandes (1 a 3 kg). No cultivo da graviola

no Acre, a incidência da “broca-do-fruto”, “broca-da-

semente” e a “broca-do-tronco” têm se constituído

em fatores limitantes para expansão da cultura.

Todavia, os preços altamente compensadores

viabilizam até mesmo práticas como o ensacamento

dos frutos (com telas), para evitar os danos causados

pelos insetos, e fazer o tratamento para a broca-do-

tronco, com a injeção (usando seringa) de inseticidas

vólateis (ou até mesmo querosene ou gasolina), nos

orifícios abertos pela broca no caule.

Outro fator importante para o aumento da

produtividade da graviola é a necessidade de

polinização manual, que alcança acima de 90% de

frutificação, ao contrário dos 6% de frutificação

natural, pois a planta apresenta flores de conformação

anatômica complexa, o que dificulta a polinização

natural.

2.4 Frutas potenciais

Além destas fruteiras tropicais mais populares,

outras espécies produzidas na região Amazônica,

como o araçá-boi (Eugenia stipitata), a graviola, o

camu-camu (Myrciaria dubia), o abricó (Mammea

americana) e o bacuri (Platonia insignis) dentre

outras, são apreciadíssimas no mercado regional,

tendo procura maior que a oferta, principalmente pelo

ramo de lanchonetes e sorveterias. Também frutas

tropicais exóticas como a acerola (Malphighia

glabra), o rambutam (Nephelium lappaceum), Sapoti

(Manilkara achras) e o mangostão (Garcinia

mangostana), têm mercado potencial com condições

propícias para cultivo no Estado do Acre.

O mangostão (Garcinia mangostana), espécie

da família Clusiáceas, é muito comum no extremo

Oriente (China, Indonésia, Malásia e Tailândia), de

onde é originário, sendo considerada como a “rainha

das frutas”. Esta espécie, adaptou-se tão bem na

Amazônia que produz até mais rápido (aos 6-7 anos),

do que outros lugares em que é cultivada, onde leva

até 10 anos para produzir.

O rambutam, árvore frutífera tropical

asiática, da mesma família do guaraná,

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 25

(Sapindaceas), se enxertado produz rápido (aos 04

anos) e seus frutos, que externamente apresentam

alguma semelhança com o urucum, encantam

“crianças de todas as idades” por sua polpa

mucilaginosa, translúcida, adocicada e extremamente

agradável.

O araçá-boi e o bacuri (este último muito

apreciado em Belém, PA) são frutos de aroma e sabor

muito agradáveis e bem característicos, e, se

trabalhados nos aspectos de melhoramento vegetal e

de marketing, reúnem boas condições de serem

explorados comercialmente no Acre.

O sapotizeiro (Manilkara achras) pertencente

a família Sapotacea, mesma do abiu (Pouteria

caimito) é originário da América Central. No Brasil,

a cultura tem demonstrado boa adaptação, sendo

cultivado a partir do Norte do Paraná, até o extremo

norte dos estados das regiões Norte e Nordeste do

Brasil. Porém, a produção brasileira é originada

principalmente de plantas consideradas de “fundo-de-

quintal”, concentrada na região Nordeste,

principalmente nos Estados de Pernambuco, Ceará,

Paraíba e Rio Grande do Norte. O cultivo do sapoti é

um negócio tão doce quanto o próprio fruto. Não

exige investimento muito alto se comparado a outras

culturas. Em regiões com grandes precipitações

pluviométricas, como o Acre, onde a irrigação seria

feita apenas nos períodos de estiagem, a manutenção

do cultivo teria custo reduzido (Araújo Neto, 2000).

O camu-camu, Mirtácea muito comum nas

várzeas da Amazônia, surge como preciosíssima

fonte de vitamina C, apresentando teores superiores

até mesmo aos da acerola, considerada a fruta de

maior teor desta vitamina. Daí, a polpa do camu-

camu está sendo muito procurada para ser consumida

na forma de suco, principalmente por membros da

classe médica, que a consideram um sucedâneo da

vitamina C sintética, largamente comercializada nas

farmácias. Os Estados Unidos importam camu-camu

da América do Sul para a produção de “camu-plus”,

que são tabletes de vitaminas C natural. O camu-

camu que é um arbusto relativamente fácil de ser

cultivado, por ser bastante rústico e bem adaptável às

condições ambientais da Amazônia, embora não seja

planta de conformação morfológica tão regular como

a jabuticabeira (Myrciaria cauliflora) (da mesma

família), produz frutos como esta (cauliflora), de

padrão idêntico, variando na cor (frutos mais

rosáceos e violáceos) e no sabor, sendo o camu-camu

extremamente ácido, não se prestando, portanto, para

consumo “in natura”.

Outras espécies nativas possuem grande

potencial para comercialização, como envira-cajú,

cajá-de-jaboti, cajuí, mapati, ata-do-mato, pequi

dentre outras. Estas frutas podem ser utilizadas como

estratégia de mercado: primeiro diversificando a

fruticultura; segundo: atingindo vários mercados,

como feiras livres, lanchonetes, restaurantes,

agroindústrias e supermercados.

Estes dois fatores (diferenciação de produto e

diversificação de mercado), constituem em

estratégias fortes na geração de emprego e renda,

principalmente nas pequenas propriedades

(Giovenarde, 2003).

2.5 Fruticultura nos Sistemas Agroflorestais-SAFs

Com uma filosofia “sustentável” ou

ecologicamente correta, muitas comunidades

agrícolas da Amazônia vêm investindo nos sistemas

Agroflorestias - SAFs como uma alternativa

economicamente viável. Uma das pioneiras foi a

associação de produtores do Projeto de

Reflorestamento Econômico Consorciado e

Adensado (Reca) que, a partir de 1989, vem

implantando sistemas agroflorestais do tipo

multiestratos, tendo como componentes básicos o

cupuaçu (Theobroma grandiflorum), pupunha

(Bactris gasipaes), castanha-do-brasil (Bertholletia

excelsa) e culturas anuais de subsistência.

O Projeto Reca tem se tornado uma referência

na Amazônia. São 650 ha de SAFs, distribuídos nas

propriedades dos 274 agricultores associados.

Entretanto, a implantação dos SAFs utilizando

culturas como cupuaçu, pupunha e castanha sofre

influência de fatores de risco, devido à elevada

dependência do mercado de produtos. Tornando-se

necessário, maior diferenciação de produtos e

diversificação de mercado.

Alguns agricultores ecológicos no Acre, como

no P.A. Humaitá, estão consorciando abacaxi,

mandioca, milho, bananeira, mamoerio, pupunheira,

cupuaçuzeiro, açaizeiro e esencias florestais, em uma

mesma área de forma sucessional, com resultados de

produção de biomassa (20 t ha-1

ano-1

) e de alimentos

(45 t ha-1

ano-1

) muito acima dos monocultivos.

2.6 Tecnificação dos pomares

O sistema de produção da fruticultura acreana

é caracterizado por vários fatores: baixo uso de

tecnologias, principalmente no tocante a utilização de

mudas com baixa qualidade fitossanitário, práticas de

manejo, insumos e cultivares produtivas e

tolerante/resistentes à pragas e doenças, bem como

pela alta perda da produção por ocasião da colheita,

armazenamento e transporte. Estes problemas são

agravados pela inexistência de entrepostos de

armazenamento e de malha viária adequada para o

escoamento da produção, principalmente no período

chuvoso, e pela pouca disponibilidade de

agroindústrias para o processamento das frutas (Ledo,

1996).

A qualidade das frutas que chega ao

consumidor muitas vezes não se enquadram dentro

dos padrões brasileiros para classificação de frutas,

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 26

porém são e comercializadas aceitas pelos

consumidores.

Apesar da boa aptidão climáticas para muitas

frutas tropicais (banana, mamão, maracujá, açaí) e

sub tropicais (citros), o Estado do Acre apresenta

restrição hídricas para o cultivo em larga escala.

Por um lado, o excesso de precipitação

pluviométrica durante o período chuvo pode reduzir a

polinização em maracujá, cauzar incidência de

doenças chaves como o tombamento em mamoeiro,

por outro, o déficit hídrico durante o período de

estiagem prolongada pode reduzir a frutificação em

mamoeiro, citros e maracujazeiro e até causar a morte

de plantas como banana, açaizeiro (Euterpe

oleraceae), mamoeiro e outras.

O problemas do excesso de chuvas poderia ser

resolvido em parte com plantio em camalhões e o

déficit hídrico com irrigação, o problema é que no

estado do Acre não há grandes reservatórios, rios e

igarapés perenes, que possam ser utilizados em

grandes projetos de irrigação, se limitando em irrigar

alguns pomares doméstico ou poucos hectares no

campo, constituindo em um dos primeiros problemas

de infraestrutura para expandir em larga escala a

fruticultura no Acre.

Como essas tecnologias podem ficar fora do

poder dos agricultores, uma saída seria investir em

fruticultura de sequeiro, com cultivo de espécies mais

adaptas como o açaizeiro nativo (Euterpe

precatorio), graviola, pinha, envira-cajú, biriba, cajá,

cajá-manga, ceriguela, caju, bacurizeiro dentre

outras.

Aém da questão hídrica. É importante focar

nos probelmas fitossaitários das culturas, no manejo

do solo, das plantas de cobertura e das plantas

cultivadas.

No entanto, a aplicação de tecnologia na

fruticultura acreana deve levar em consideração dois

fatores importante: a difusão de tecnologia, seja de

técnico para o agricultor, entre agricultores e de

agriultor para o técnico (Freire, 1977) e a trajetória

do agricultor, que muitas vezes pode não ser capaz de

mudanças radicais no padrão de cultivo e de vida,

sendo necessário identificar a capacidade da família

ou de grupos de agricultor em adotar determinadas

tecnologias (Andrade, 2009).

2.7 Agroindústria

A produção acreana é praticamente para

consumo interno, com exceção de venda de banana

para os mercados de Porto Velho e Manaus.

Aumentar a produção acreana de frutos é interessante

pela importância na geração de renda e emprego,

reflorestamento e saúde humana, muito embora,

investir em aumento de produtividade e redução de

perdas pode representar aumentos significativos da

renda do agricultor e redução dos preços ao

consumidor.

As agroindústrias podem representar um

elemento chave para introduzir opções de atividades

nas comunidades do interior, com efeito indireto no

emprego rural. Segundo Prof. Samuel Pohoryles, do

Settlement Study Center de Rehovot - Israel, a

agroindústria é uma poderosa força para melhorar o

uso dos recursos materiais, humanos e diversificar

fontes de renda das zonas rurais, promovendo os

objetivos do desenvolvimento e da prosperidade

material da vida rural. A interdependência da

agroindústria com a agricultura deve-se, também, ao

caráter altamente perecível dos produtos e à grande

perda de peso ou de volume no processo de

industrialização. Assim, os produtos beneficiados

apresentam vantagens em termos de custo de

transporte com o produto in natura; podem ser

transportados, a longas distâncias, mais

adequadamente na forma industrializada.

Diante deste contexto as frutas representam

uma grande opção para agregação de valores a estes

produtos, ampliando o leque de produtos a serem

comercializados, contribuindo para a viabilização

desta atividade. Elas podem ser utilizadas em doces,

compotas, geléias, frutas cristalizadas, sucos,

sorvetes, licores, entre outros.

Além da agregação de valor, redução das

perdas, diversificação de produto e facilidade de

transporte, a agroindústria pode reduzir a importação

de produtos processados e garantir uma expanção da

produção acreana, já que alcançar outros mercados de

frutas fresca exige produção em escala, alta

tecnologia, logística de pós-colheita e transporte.

É comum, nas lojas e supermercados acreanos,

não encontrar produtos processados no estado como

doce de goiaba, de banana, abacaxi em calda, licor,

sendo estes produtos importados de outros estados

brasileiros.

Fica claro, que o desenvolvimento da

fruticultura acreana dependerá da implantação de

agroindústrias, principalmente para a produção de

sucos engarrafados, doces e geléias.

2.8 REFERÊNCIAS

ANDRADE, F. G. de A. Trajetórias e Condições do

Camponês: as Relações Sociais nos Assentamentos

do Ceará. Universidade Federal do Ceará, 2009.

232p. Tese de Doutorado em Sociologia.

ARAÚO NETO, S. E. de. Sapotizeiro – um doce

negócio. O Rio Branco, 12/01/2000.

CLAY, J.W.; SAMPAIO, P.T.B.; CLEMENT, C.R.

Biodiversidade amazônica: exemplos e estratégias.

Manaus: Programa de Desenvolvimento Empresarial

e Tecnológico, 409p. 1999.

FRANKE, I. L.; BERGO, C. L.; AMARAL, E. F. do;

ARAÚJO, E. A. de. Aptidão natural para o cultivo

do açaí (Euterpe oleracea Mart. Euterpe precatória

Panorama atual e potencial da fruticultura acreana

Sebastião Elviro de Araújo Neto 27

Mart.) no Estado do Acre. Rio Branco:EMBRAPA-

CPAF/AC, 2001. 5p. (EMBRAPA-CPAF/AC,

Comunicado Técnico, nº142).

FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? Rio de

Janeiro-RJ: Paz e Terra; 1977.

GIOVENARDI, E. Os pobres do campo. Porto

Alegre: Tomo Editorial, 2003.

GONDIM, T. M. de S.; AMARAL, E. F. do;

ARAÚJO, E. A. de; SILVEIRA, M. M. da. Aptidão

natural para o cultivo da bananeira no Estado do

Acre. Rio Branco:EMBRAPA-CPAF/AC, 2001a. 6p.

(EMBRAPA-CPAF/AC, Instruções Técnicas, nº 34).

GONDIM, T. M. de S.; AMARAL, E. F. do;

ARAÚJO, E. A. de. Aptidão para o cultivo do

cupuaçuzeiro no Estado do Acre. Rio Branco:

EMBRAPA-CPAF/AC, 2001b. 4 p.

(EMBRAPA-CPAF/AC, Comunicado Técnico, nº

127).

IBGE. Sistema IBGE de recuperação automática –

SIDRA. Produção agrícola municipal 1999.

http://www.sidra.ibge.gov.br/. Acesso 07/05/2001.

IBGE. Sistema IBGE de recuperação automática –

SIDRA. Produção agrícola municipal 2002.

http://www.sidra.ibge.gov.br/. Acesso 27/04/2004.

LEDO, A. da S. Potencialidade da fruticultura

acreana. Rio Branco:EMBRAPA-CPAF/AC, 1996.

16p. (EMBRAPA-CPAF/AC, Documentos, 20).

RIBEIRO, G.D. Avaliação preliminar de sistemas

agroflorestais no projeto água verde, ALBRÁS,

Barcarena, Pará. Belém: Faculdade de Ciências

Agrárias do Pará, 1997. 100p. Dissertação (Mestrado

em Ciências Florestais).

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 28

3. SISTEMAS DE PRODUÇÃO NA

FRUTICULTURA

A fruticultura desempenha um papel muito

importante na geração de emprego e renda, inclusive

com crescimento constante das exportações de frutas

e sucos, mas com os problemas ambientais

intensificados nos diversos setores do planeta,

inclusive na atividade agrícola, torna-se cada vez

mais necessário a produção de alimentos com o

mínimo de impacto ambiental.

Atualmente podemos considerar quatro

principais sistemas de produção na fruticultura:

a) Extrativismo natural e intencional

b) Sistema convencional

c) Sistema integrado

d) Sistema orgânico

O sistema extrativista de frutas compreende

um importante setor da fruticultura, principalmente

na produção de frutas nativas feito por comunidades

tradicionais. O termo extrativismo intencional se

refere aqui neste texto como uma fruticultura

implantada, mas com baixo uso de insumos externo e

manejo. Um exemplo disto é o cultivo de banana em

muitas localidades da Amazônia, com quase

nenhuma trato culturas, se restringindo apenas no

plantio, limpeza anual e colheita.

O sistema convencional, mas conhecido e

praticado na maioria dos pomares, consiste no uso

intensivo de recursos externos, grandes alterações na

vegetação e solo e uso intensivo de fertilizantes

químicos e agrotóxicos, com pouco controle de

aplicação.

Neste sistema há os problemas graves com

uso indiscriminado de agrotóxicos, como em uva,

maçã, morango e melão; a salinização de área com

irrigação intensiva, baixa remuneração da mão-de-

obra e outros.

O sistema integrado de fruta (PFI) consiste na

produção de frutas de alta qualidade mediante o uso

dos recursos naturais e de mecanismos reguladores

para minimizar o uso de insumos e contaminantes e

para assegurar uma produção o mais sustentável

possível. Para isso, a garantia da conformidade é feito

por certificadoras autorizadas e credenciadas para

este fim.

Na PIF, por exemplo, há algumas restrições

como o uso de qualquer agrotóxicos em pós-colheita

e em pré-colheita o uso de organoclorados e

piretróides. Além disso, há diversas outras restrições,

como o manejo do solo e das plantas espontâneas,

dentre outros.

A produção orgânica de frutas é muito

semelhante com a PIF, por incormporar o processo de

garantia da conformidade (certificação), ter

regulamentação própria e priorizar a qualidade do

alimento, qualidade de vida e a conservação

ambiental ao mesmo tempo. Porém, a produção

orgânica de frutos é mais rigorosa quanto aos

aspectos de produção, por abranger todas as

dimensões da sustentabilidade (ambienteal, social,

econômica, cultura e política).

Dentro de um quadro evolutivo, observa-se a

tendência de produção de alimentos mais seguros,

com melhor qualidade e conservação ambiental,

mediante a aplicação de sistemas sustentáveis de

produção (PRI e Orgânicos).

Produção orgânica (PO)

Produção integrada (PI)

Manejo Integrado de Pragas (MIP)

Produção a calendário fixo

As diferenças de manejo dos pomares nos

sistemas de produção convencional, integrada e

orgânica na Europa são apresentados no Quadro 3.1,

onde se verifica que não existe muito controle no

sistema convencional e que a diferença básica entre o

sistema integrado e o orgânico está no uso de

produtos sintéticos.

Quadro 3.1 – Diferenças fundamentais entre a

produção convencional, integrada e orgânica de

alimentos. Prática

Cultural

Convencional Integrada Orgânica

Manejo do

solo

Intenso Mínimo Mínimo

Agroquímicos Pouco

controle

Restrito Naturais

Pós-colheita Usa agrotóxico

Não usa Não usa

Fertilização Sem controle Orgânicos e

químicos

Só orgânico

Defesa da

planta

Calendário Monitoramento Monitoramento

Legislação Não dispões Instrução normativa

nº20/01.

Lei 10.831 de 23/12/2003

Instrução

normativa nº64, de

18/12/2008.

3.1 Sistema Integrado de frutas

O conceito de Produção Integrada começou

a ser analisado nos anos 70 pela Organização

Internacional para Luta Biológica e Integrada

(OILB). Em 1976, na Suíça, foram discutidas as

relações entre o manejo das culturas de frutíferas e a

proteção integrada das plantas.

A partir disso, ficou evidenciada a

necessidade da adoção de um sistema que atendesse

às peculiaridades do agroecossitema, de forma a

utilizar associações harmônicas relacionadas com as

práticas de produção. Incluem-se nesse contexto o

manejo integrado e a proteção das plantas, fatores

fundamentais para a obtenção de produtos de

qualidade e para a sustentabilidade ambiental. Mas

Produção convencional

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 29

somente em 1993 a OILB publicou os princípios e as

normas técnicas pertinentes, que são comumente

utilizadas e aceitas como base nas diretrizes gerais de

composição.

Os procedimentos do sistema de Produção

Integrada na Comunidade Européia foram Alemanha,

Suíça e Espanha. Esses países já tinham começado

anteriormente este processo, diante da necessidade de

substituir as práticas convencionais onerosas por um

sistema que diminuísse os custos de produção, que

melhorasse a qualidade e reduzisse os danos

ambientais. Na Espanha, o rei estabeleceu no ano de

2002 um Decreto Real implantando definitivamente a

PI de produtos agrícolas em todo o país. O exemplo

vem em 2002, quando ocorreu a diminuição na

aplicação de ditiocarbamato em 8.660 hectares de

maçã. O uso a menos de 600 toneladas do produto, ao

custo de R$15,00 o kilograma, resultou em economia

de R$9milhões. Na análise não foram considerados

os efeitos inegáveis relacionados com a preservação

de recursos naturais, como água, ar, solo e

biodiversidade.

A seguir, demonstrativo da área com PIF no

mundo.

3.1.1 Processos inseridos na produção integrada

(PI) de forma direta ou indireta

A comercialização das frutas da produção

integrada deve ser feita com o selo da certificação

oferecido pela certificadora, mediante normas pré-

estabelecidas pela certificadora em conjunto com os

interessados (consumidores e produtores) e

obedecendo normas oficiais quando existe.

O Brasil já possui seu Marco Legal da

Produção Integrada composto de Diretrizes Gerais e

Normas Técnicas Gerais para a Produção Integrada

de Frutas regulamentadas por intermédio da Instrução

Normativa Nº 20, de 20/09/2001, publicada no Diário

Oficial da União-DOU, no dia 15 de outubro de

2001, Regulamento de Avaliação da Conformidade-

RAC, Definições e Conceitos-PIF, Regimento

Interno da Comissão Técnica-CTPIF, Formulários de

Cadastro-CNPE e outros componentes de igual

importância, documentos estes, resultantes da

parceria entre o MAPA e o Instituto Nacional de

Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial

(Inmetro) - Ministério do Desenvolvimento, Indústria

e Comércio Exterior (MDIC).

No processo de certificação, as normas são

exigidas e devem ser empregadas pelos produtores,

que são posteriormente e periodicamente verificadas

mediante inspeções e auditorias.

Os produtos comercializados devem ser

rotulados, indicando a origem e os atributos básicos

dos produtos presentes no interior das embalagens,

permitindo a rastreabilidade do produto.

A certificação resulta em benefícios não só

para os associados diretamente ao processo

produtivo, mas também indiretos para a sociedade. É

definida pela ABNT como “um conjunto de

atividades desenvolvidas por um organismo

independente da relação comercial, com o objetivo de

atestar publicamente, por escrito, que determinado

produto, processo ou serviço estão em conformidade

com os requisitos especificados. Estes requisitos

podem ser: nacionais, estrangeiros ou internacionais.

A atividade de certificação pode envolver: análise de

documentação, auditorias/inspeções na empresa,

coleta e ensaios de produtos, no mercado e/ou na

fábrica, com o objetivo de avaliar a conformidade e

sua manutenção”.

O processo de auditoria difere dos processos

de consultoria e de inspeção (ou avaliação) periódica

da propriedade.

Auditoria é um exame sistemático e

independente realizado para verificar se as atividades

e os resultados estão em conformidade com medidas

planejadas e se estas medidas estão sendo

implantadas com eficácia e são adequadas para que se

alcancem os objetivos.

A auditoria, diferentemente da avaliação,

requer a obtenção e a documentação de evidências

relevantes suficientes. A inspeção (avaliação)

restringe-se apenas à comparação local com

exigências acordadas para determinação de provável

conformidade subseqüente.

Para assegurar a objetividade do processo de

auditoria e de suas conclusões, os membros da equipe

de auditoria devem ser independentes das atividades

que estão sendo auditadas.

Rastreabilidade

A necessidade de comprovação da origem dos

produtos agrícolas visa atender a necessidades do

consumidor e do produtor (incluindo-se indústrias) de

manter um registro confiável, ágil e seguro de todos

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 30

os passos envolvidos nos processos da cadeia

produtiva (desde fornecedores de mudas e insumos

até transporte, armazenamento e disponibilidade do

produto ao consumidor).

A existência de um código universal para

rastreamento de produtos (industriais, agroindustriais

e agrários), com base no posicionamento global por

satélite, proporciona a identificação de informações

georreferenciadas coletadas durante o processo

produtivo, assim como o tratamento e cruzamento

delas em Sistema de Informação Geográfica (SIG).

Além disso, sua presença no rótulo das embalagens

do produto possibilita a identificação da origem do

produto enviado para o exterior, garantindo a

rastreabilidade da carga, bem como de toda a

informação de sua cadeia produtiva, em um único

código.

3.1.2 O processo de Produção Integrada (PI)

Os produtores que aderirem ao sistema de PI,

além de receberem a credencial de filiação a esse

sistema de cultivo, também assumem o compromisso

prévio de cumprir o regulamento de produção

estabelecido pelas normas e de se submeterem a

inspeções específicas e controles técnicos. Também

devem possuir uma forma única de documentar os

registros de campo referentes às operações culturais e

fitossanitárias realizadas em sua propriedade,

preestabelecidas para o produto, conhecidas como

“cadernos de campo” ou “cadernetas de campo”.

O período de vigência e revogação da

autorização de utilização da marca de PI também é

preestabelecido na admissão do produtor ao sistema

de PI, podendo ser revogada ou suspensa, caso sejam

detectadas, pelas inspeções de auditorias, in-

conformidades com as normas preestabelecidas que

retratem procedimentos não autorizados ou

reincidências sucessivas.

Assim, para o produtor ingressar, permanecer

e manter-se autorizado a praticar PI, devem-se

cumprir as seguintes condições mínimas:

a) arcar com as responsabilidades técnicas de

produção e de controle inseridas no contexto da

PI;

b) participar de cursos de formação em PI

credenciados pelo governo ou pertencer a

associações ou entidades que disponham de

pessoal técnico habilitado;

c) registrar em cadernetas de campo as operações e

práticas de cultivo e controle, apresentando-as

sempre que solicitadas pelas inspeções periódicas

e auditagem feitas por entidades credenciadas

para o controle e certificação de PI.

Uma vez dentro das especificações, o produtor

pode fazer uso do selo de PI, reconhecido facilmente

pelo consumidor por logomarca associada.

O selo também pode ser utilizado por

indústrias de alimentos, empresas empacotadoras e

distribuidoras do produto em sua forma original ou já

processada, desde que cumpridas as seguintes regras

gerais:

a) utilizar linhas de empacotamento distintas

daquelas utilizadas para produtos produzidos em

outros sistemas de produção;

b) adquirir produtos agrícolas de produtores

credenciados à PI;

e) possuir responsabilidade técnica relativa a sua

linha de atuação e credibilidade junto ao

consumidor;

d) apresentar pessoal técnico capacitado e em

constante reciclagem em PI no seu quadro

funcional;

f) seguir normas relativas a tratamentos ou manejo

pós-colheita associadas à PI;

g) possuir e disponibilizar, para inspeções e

auditorias, um livro de registro de controle de

procedência dos produtos, assim como

informações de operações e tratamentos

realizados, principalmente, nas etapas de

processamento do produto;

h) permitir livre acesso de pessoal qualificado

pertencente ao governo ou a empresas

certificadoras, credenciadas em PI pelo governo,

nas suas instalações.

As auditorias realizadas nas parcelas que

aderirem à PI são realizadas por empresas

credenciadas junto a um órgão de certificação

internacional.

O processo de auditagem difere do processo

de inspeção periódica, que pode ser realizado pelo

Comitê Gestor da PI ou por pessoal competente por

ele delegado.

3.1.3 Produção Integrada (PI) no Brasil

A Produção Integrada de Frutas no Brasil

começou pela demanda da Cadeia Produtiva da

Maçã, em 1998/99, por meio da demanda feita pela

ABPM (Associação Brasileira de Produtores de

Maçãs), ao Ministério da Agricultura, Pecuária e

Abastecimento, alegando que estava sofrendo

pressões comerciais relacionadas com as exportações

de maçã para a Comunidade Européia. Estava sendo

exigido maiores garantias sobre o processo produtivo

da fruta.

No estágio atual, o Sistema PIF já atingiu a

consolidação de 17 espécies frutíferas em 14 Estados

da Federação, estando em andamento 23 projetos de

fruticultura com o envolvimento de aproximadamente

500 instituições públicas e privadas, destacando a

participação e parcerias de instituições, tais como:

EMBRAPA, CNPq, INMETRO, Universidades,

Instituições Estaduais de Pesquisa, SEBRAE,

SENAR, CEAGESP, Associações de Produtores,

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 31

Cooperativas, Certificadoras, entre outros, obtendo-se

resultados de destaque: i) 60% da área total nacional

de produção de maçã; ii) aumento de emprego e

renda na ordem de 3,0% (PIF Maçã); iii) diminuição

dos custos de produção na maçã (40,0% em

fertilizantes); iv) diminuição da aplicação de

agrotóxicos e de resíduos químicos nas frutas; e v)

melhoria do meio ambiente, da qualidade do produto

consumido, da saúde do trabalhador rural e do

consumidor final. No pólo de fruticultura do Vale do

Rio São Francisco estão sob regime PIF 36% da área

total cultivada de videiras e 35% da área total de

produção de manga.

Dentre outros benefícios do PI Frutas, há

aumento da produtividade, melhor qualidade da fruta

produzida, diminuição do uso de fertilizantes em até

40%, economia do uso da água na irrigação, aumento

de infiltração de água no solo e conseqüente elevação

do lençol freático, diminuição dos processos erosivos,

incremento na diversidade e população de inimigos

naturais das pragas e doenças e manutenção das áreas

de reservas naturais.

Quadro 3.2 – Espécies cultivadas no sistema PI no Brasil. PIF Nº Produtores Área (ha) Produção (t)

Maçã** 283 17.319 461.860

Manga** 242 7.025 172.221

Uva** 182 3.725 133.070

Mamão** 26 1.200 120.000

Citros** 95 2.038 37.065

Banana** 119 2.678 77.729

Pêssego** 105 520 6.240

Caju** 15 1.500 1.800

Melão** 30 3.560 96.176

Goiaba** 27 75 300

Figo ** 25 120 1.093

Caqui** 23 84 3.000

Maracujá** 30 56 5.500

Coco ** 12 414 20.368

Abacaxi 05 122 3.904

TOTAL 1.219 40.446 1.140.326

(**) – projetos concluídos e Normas Técnicas Específicas publicadas.

Fonte: DEPROS/SDC/MAPA/2006

3.1.4 Desenvolvimento da produção integrada

Para que haja sustentabilidade das atividades

agrárias, refletindo na correta gestão ambiental, é

preciso seguir as normas que dispõem e assegurem

uma cuidadosa utilização dos recursos naturais,

minimizando o uso de agrotóxicos e outros insumos,

para isso, não basta apenas receber orientações dos

inspetores, mas ter um quadro técnico trinado para a

execução das seguintes atividades:

a) manejo e conservação do solo;

b) nutrição de plantas;

c) manejo integrado de pragas, doenças e plantas

daninhas;

d) formação e condução das plantas;

f) colheita, conservação e qualidade do produto

agrícola.

Manejo e conservação do solo

De modo geral, o solo é o recurso natural mais

utilizado e o menos protegido na produção

convencional de alimentos. As indicações de calagem

e adubações, tanto corretivas como de manutenção,

devem ser orientadas conforme as sugestões para a

região e condições do solo. O preparo do solo para o

plantio deve ser de acordo com o desenvolvimento de

cada cultura, visando oferecer as melhores condições

de crescimento ao sistema radicular das plantas. Na

escolha do local para a instalação de um programa de

PI de alimentos, deve-se dar preferência para solos

profundos, bem drenados e, se possível, com textura

média (Nachtigall et al., 2000).

Na fase produtiva, o manejo do solo nas

entrefilas deve ter como objetivos manter a

diversidade biológica e controlar a compactação e

erosão, minimizando o uso de herbicidas (evitando os

residuais). No caso de pomares de fruteiras de clima

temperado, não é permitido manter o solo

completamente limpo de vegetação, devendo ser

empregada a cobertura viva do solo com gramíneas e

leguminosas (consorciadas ou alternadas), ou com as

próprias espécies nativas do local. E recomendável

manter uma faixa livre de invasoras, de cada lado das

filas das plantas, por meio de capinas manuais ou

roçadas. Nas faixas de projeção das copas das

fruteiras, só é permitido o uso de herbicidas pós-

emergentes, com duas aplicações anuais, no máximo,

como complemento dos métodos culturais de controle

das plantas daninhas (Nachtigalletal.,2000).

Formação e condução das plantas

Em todas as normas para a PI de alimentos

deve estar implícito o uso de materiais sadios, de

origem conhecida e idônea. No caso de PI de frutas,

orienta-se para o uso de porta-enxertos tolerantes ou

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 32

resistentes à acidez do solo, ao excesso de umidade, à

seca, à salinidade e a determinadas doenças.

Sintetizando, devem-se eleger as cultivares mais

adaptadas às condições edafoclimáticas de cada local,

para que produzam nas condições mais naturais

possíveis frutos com qualidade (Nachtigall et al.,

1998).

Na formação das plantas, devem ser utilizadas

as podas que proporcionem uma copa uniforme e de

fácil manejo, com objetivo de obter um equilíbrio

entre as atividades vegetativa e produtiva, para

produção de frutos de qualidade. Deve ser evitada a

formação de forquilhas em ramos na estrutura básica

da planta. Para uniformizar a brotação, não é

permitido o uso de fitorreguladores de síntese não

presentes na natureza. O excesso de crescimento deve

ser controlado pela poda de verão, pela redução nas

doses de fertilizantes, principalmente para nitrogênio,

pela redução na irrigação, objetivando estimular a

frutificação efetiva. No outono, a poda pode ser

realizada para rebaixar as plantas e paralisar o

crescimento delas. No inverno, a poda de frutificação

deve ser realizada com o objetivo de desbastar e

despontar os ramos, bem como o de retirar ramos

doentes e mal posicionados. Deve-se ter o cuidado

para não fazer uma poda drástica que favoreça o

crescimento vegetativo, reduzindo o número de

gemas floríferas. Todos os locais dos cortes devem

ser protegidos com óleo vegetal misturados com

calcário, ou pasta bordalesa, ou ainda com tinta

plástica, para evitar a penetração de fungos. Para

assegurar uma produção de frutos de qualidade (peso

adequado ao tipo de fruto), deve-se fazer um raleio

deles, pois quando houver a polinização excessiva de

flores haverá excesso de produção. A carga da planta

deve estar de acordo com o vigor e o diâmetro do

tronco. No raleio manual retiram-se frutos injuriados,

atacados por pragas, doenças ou danos mecânicos

(Nachtigall et aI., 2000).

Nutrição das plantas

Para a adequada nutrição das plantas, deve-se

fazer o levantamento das condições de fertilidade

natural do solo, no início da instalação do sistema de

PI, através das análises físicas e químicas de cada

unidade de produção. Durante o processo produtivo,

é preciso acompanhar o estado nutricional das plantas

por meio de análises de solo e foliar. Com este

procedimento, é possível a obtenção de ciclos de

nutrientes equilibrados e a identificação de pontos

críticos, bem como de suas correções. A melhoria e a

manutenção da fertilidade do solo são fundamentais

para a preservação da qualidade ambiental e da

diversidade do meio ambiente, que são fatores

essenciais ao processo de PI. Devem ser observadas

algumas orientações no manejo de certos

fertilizantes, principalmente para os que contêm

nitrogênio e potássio. No caso específico de PI de

macieiras no Brasil, já existem normas que

direcionam doses, épocas e locais de aplicação dos

fertilizantes para nitrogênio, fósforo, potássio,

magnésio, zinco e boro. Como exemplo, cita-se o

caso do nitrogênio, que deve ser parcelado em três

épocas, a saber: 30% antes do início da brotação,

30% depois do raleio dos frutos e 40% após a

colheita, e a quantidade do nutriente não deve ultra-

passar de 40 kg ha-1

em cada parcelamento

(Nachtigall et al., 2000).

Manejo integrado de pragas, doenças e plantas

daninhas

O controle de pragas e doenças é de suma

importância no processo de PI, não só pela melhor

aparência dos alimentos, como também para redução

da contaminação por agrotóxicos. A decisão sobre os

tipos de tratamentos com fungicidas e inseticidas,

bem como a ocasião de executá-los, deverá estar

embasada nas características das doenças, no

monitoramento das infestações, na própria cultura

(tolerância a determinados princípios ativos) e nas

informações das estações de aviso sobre as condições

meteorológicas (Nachtigall et al., 1998, 2000). Os

produtos a serem utilizados para o controle de pragas

e doenças devem fazer parte das relações contidas nas

normas para a PI de cada cultura.

Os principais cuidados durante o preparo e

aplicação dos produtos fitossanitários, dentro do

programa de PI, são:

a) utilizar equipamentos de proteção individual;

b) não trabalhar isoladamente quando utilizar

produtos muito tóxicos;

c) preparar o produto em local fresco e ventilado;

d) seguir as instruções e recomendações contidas nas

embalagens dos produtos;

e) evitar aplicações durante a florada (para não

eliminar os insetos polinizadores);

f) evitar aplicações nas horas quentes do dia, nos

dias chuvosos e com fortes ventos;

g) não aplicar agrotóxicos próximo de fonte de água,

riachos, lagos etc.;

h) guardar os produtos bem fechados, longe de

alimentos e do alcance de crianças;

i) evitar a inalação, respingos ou qualquer contato

direto com os agro-tóxicos.

Na PI de frutas deve-se, obrigatoriamente,

calibrar e controlar os pulverizadores periodicamente

com equipamentos e métodos reconhecidos

internacionalmente, com o objetivo de melhorar a

eficiência dos tratamentos fitossanitários, bem como

o de diminuir o desperdício de produtos e a

contaminação ambiental.

Dentro da PI deve ser adotado o

monitoramento da densidade populacional das pragas

e doenças, bem como o uso de níveis de controle.

Para pragas isso é feito pela contagem do número de

insetos capturados em armadilhas, o que facilita a

adoção de uma medida de controle. O monitoramento

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 33

serve, também, para identificar os locais de maior

infestação das pragas e doenças e, portanto, onde

devem ser concentradas as ações de controle. Em

cada tomada de decisão, deve ser registrada a

justificativa no caderno de campo. Na definição de

qual produto utilizar, devem ser consideradas

algumas características, tais como: registro do

produto para a cultura e fitotoxicidade; eficiência;

seletividade para inimigos naturais; toxicidade ao ser

humano; efeito residual; período de carência e custo.

Deve-se dar preferência aos produtos que causem o

menor dano possível ao meio ambiente. Neste

sentido, é preciso observar as normas da PI, pois

alguns produtos só são admitidos no sistema com

algumas restrições e só podem ser usados se a safra

estiver sobre risco sério de comprometimento. A

alternância de produtos acaricidas é obrigatória para

evitar o surgimento de populações resistentes.

Para a PI de maçã no Brasil já existem

algumas definições quanto ao nível de controle das

principais pragas, bem como a restrição e admissão

de certos produtos (Quadro 3.3).

Quadro 3.3 – Monitoramento e nível de controle das principais pragas da macieira no Brasil.

Praga Armadilha Atrativo Densidade de

armadilha

Nível de controle

Lagarta-enroladeira

Bonagota cranaodes

Delta Feromônio sexual sintético 1 para 7 ha 20 machos/armadilha

/semana

Grafolia

Grapholia molesta

Delta Feromônio sexual sintético 1 para 10 ha 40 machos/armadilha

/semana

Mosca-das-frutas

Anastrepha fraterculus

McPhail Suco de uva 25% 1 para 2 ha 0,5 moscas/frasco/dia

Ácaro vermelho

Panonychus ulmi

Amostragem

seqüencial

- - 70% de folhas com presença

Fonte: Kovaleski (2000).

Quadro 3.4 – Produtos proibidos e aditidos com restrição para macieria no Brasil, em PI. Categoria Proibidos Admitidos com restrições

Inseticidas Organoclorados e Piretróides Diazinin, Dimetoato, Fenitrothion, Vamidotion,

Acaricidas - Dicofol, Pyridaben, Fenpyroxemate

Fungicidas - Mancozeb, Benomil, Iprodione

Herbicidas - Simmaina, Orizalina

Quadro 3.5 – Redução de porcentual de agrotóxicos em pomares de PIF. Produtos Maçã Manga Uva Mamão Caju Melão Pêssego

Inseticidas 25 43 53 30 25 20 30

Fungicidas 15 61 43 78 30 10 20

Herbicidas 67 80 61 30 - - 50 Acaricidas 67 - - 30 - 20 -

Ainda para maçã, já existem alguns produtos

fitossanitários considerados proibidos e outros

admitidos com restrições (Quadro 3.4).

Os princípios de utilização de herbicidas para

o controle de plantas invasoras seguem as mesmas

orientações básicas de utilização dos fungicidas e

inseticidas. Além disso, é necessário orientar-se nas

indicações de uso dos herbicidas para cada cultura,

dentro do processo de PI, evitando aqueles de efeitos

residuais. Do mesmo modo que para os fungicidas e

inseticidas, já existem relações de herbicidas

permitidos para uso em PI de maçã e frutos de caroço

(Nachtigall et al., 2000).

Colheita, conservação e qualidade do produto

No momento da colheita das culturas, deve-se

dar toda a atenção para a definição da cor, firmeza e

acidez dos frutos, específicos para cada variedade,

região e destino da produção. A colheita deve ser

realizada nas horas mais frescas do dia. Os frutos

devem ser conduzidos o mais rápido possível para o

packing house, com todo o cuidado para evitar danos

mecânicos e exposição ao sol. Sempre que possível,

as frutas devem ser colhidas e colocadas diretamente

nas próprias embalagens de comercialização e

conduzidas para a câmara fria onde passarão por um

pré-resfriamento. Nesta fase é importante tomar todo

o cuidado com os frutos, principalmente com relação

a emprego de embalagens e transportes adequados;

evitar danos mecânicos; colher o fruto na época mais

adequada, observando o índice de maturação; manter

limpo o material de colheita e caixas com hipoclorito

de sódio; aplicar corretamente o frio; escolher

períodos melhores para a comercialização. Não é

permitido nenhum tratamento químico em pós-

colheita para as frutas de caroço como pêssego,

ameixa e nectarina (Marangoni, 2000 e Nachtigall et

al., 2000).

3.2 Produção orgânica de frutas

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 34

Neste sistema as restrições para a produção

de frutas são maiores que nos sistemasanteriores, pois

o uso de agrot´roxicos é proíbido em qualquer etapa

da produção, o uso de fertilizantes químicos de alta

concentração e solubilidade e outras práticas

agrícolas.

A produção orgânica de frutas é uma das

atividades na agricultura orgânica de baixo risco, pois

a maioria das espécies se adaptam a períodos com

condições desfavoráveis (seca, frio, calor), o período

de sasonalidade permite maior elasticidade no

planejamento da atividade e principalmente por não

utilizar área total dispensa grandes revolvimentos de

solo.

3.2.1 Preparo do Solo

O solo deve ser bem preparado, inclusive

descompactado, para permitir a boa penetração das

raízes, da água e do ar, nas camadas inferiores. O

preparo do solo deve ser feito com uma antecedência

de 60 a 90 dias, até atingir a profundidade de 50 a 60

cm. Solos pesados devem receber, no mínimo,

subsolagens e arações profundas, seguidas das

gradagens necessárias.

No sistema orgânico recomenda-se fazer o

plantio direto. Em áreas compactadas, com uso

anterior de pastagens ou uso excessivo de máquinas,

deve-se fazer subsolagem ou o plantio de adubos

verdes, usando plantas com raízes fortes, como

gandú, temoço e nabo forrageiro (subsolagem

biológica).

A incorporação de fósforo natural pode ser

feita com vantagens, uma vez que os nossos solos são

geralmente pobres nesse nutriente e é na instalação

do pomar a melhor época de colocar o fósforo em

maior profundidade.

Para melhor condicionamento do solo,

recomenda-se, após o preparo do solo, o plantio de

adubos verdes que serão roçados ou incorporados.

Pode ser feito o plantio de milho e, depois de

formada a espiga, é feito o plantio de adubo verde, de

alta produção de massa vegetal, como a mucuna e

outras.

Depois da colheita do milho, toda matéria

vegetal deve ser roçada e deixada sobre o solo

enriquecendo. Plantios de ervilhaca e aveia preta

poderão ser instalados para proteger e enriquecer o

solo, no período de outono e inverno.

3.2.2 Correção do pH do solo

Para que as fruteiras alcancem um bom

desenvolvimento vegetativo e produzam frutas de

qualidade em quantidade, é favorável que o pH do

solo esteja na faixa de 6,0 a 6,5. Os solos ácidos

(abaixo de 5,5) não são adequados à exploração

econômica, principalmente quando apresentam teores

de alumínio. Outras conseqüências negativas são:

excesso de manganês, a baixa absorção de nutrientes,

principalmente de cálcio e de magnésio.

A aplicação máxima de calcário em cultivos

agroecológicos é de 2,0 t/ha/ano. A elevada

quantidade de matéria orgânica, que deve estar

presente no solo, favorece a troca catiônica e a

recuperação do pH.

Como nossos solos são geralmente ácidos,

torna-se necessário, ao instalar o pomar, mandar analisá-

los com bastante antecedência, para fazer a correção

com calcário, por ocasião do preparo do terreno.

A quantidade do corretivo recomendada deve

ser incorporada, metade, por ocasião da subsolagem e

a outra metade na aração e gradagem. Apesar da

aplicação do calcário na área total do terreno,

recomenda-se ainda aplicar boa quantidade de farinha

de ossos na cova, que contém cálcio e fósforo para as

plantas novas.

Manter a relação cálcio/magnésio em torno de

3-4:1, para manter a disponibilidade destes elementos

para as plantas. Utilizar preferencialmente calcários

calcíticos e magnesianos para que esta relação possa

manter-se nos solos orgânicos.

A correção é geralmente efetuada nos

primeiros anos de instalação do pomar, depois com a

incorporação de matéria orgânica e o plantio de

adubos verdes, há uma estabilização do teor de

nutrientes no solo.

A fosfatagem é feita com o solo ácido, cerca

de 30 dias antes da calagem. Incorporar junto com o

fósforo natural elevada quantidade de matéria

orgânica, para melhorar a solubilização do fósforo.

Importante: calagem em culturas instaladas

Em culturas já instaladas deve ser feita a

análise do solo a cada 2-3 anos, aplicando-se o

calcário necessário para elevar o pH a níveis

superiores a 6 e a saturação em bases a 70%.

Em pomares instalados, é muito comum a

aplicação superficial do calcário em pequenas doses

anuais, principalmente em terrenos cobertos com

palhada. Alguns agricultores vêm utilizando a

mistura com gesso na proporção de 2:1, para dar

maior mobilidade ao calcário e fazer com que atinja

maiores profundidades.

As épocas mais usadas para a calagem são o

outono e o inverno. E fundamental que haja

disponibilidade de cálcio no solo, pois a maior

absorção desse elemento se dá pelo xilema, até a fase

de divisão celular dos frutos (30 dias após a floração).

Depois dessa fase, devem ser feitas aplicações de

calcário via foliar, de menor absorção. De modo

geral, aplicam-se 200g/m2/ano de calcítico ou

magnesiano.

3.2.3 Adubação no plantio

Para o bom desenvolvimento inicial da planta,

incorporar na cova de plantio:

• 20 L de esterco bovino curtido ou composto

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 35

orgânico ou 5 litros de esterco de galinha curtido;

• 1 a 2 kg de fósforo, sendo 50 a 70% de rocha

natural moída ou farinha de ossos. Colocar 30 a 50%

de fósforo parcialmente solúvel (termofosfato =

yoorin);

• 0,5 a 1,0 kg de Calcário calcítico ou magnesiano;

• 4 a 5 kg de bórax por hectare;

• 2 a 5 kg de cinza de madeira ou casca de café (fonte

de potássio, quando necessário).

• Boro e Zinco (analisar o solo): fritas (FTE), algas

ou em biofertilizantes.

Em cobertura, fazer 2 a 3 aplicações ou

incorporações de adubos orgânicos, como compostos

orgânicos ou húmus de minhoca ou Bokashi, a partir

da brotação das folhas novas, fevereiro/março.

As quantidades recomendadas devem variar

de acordo com a análise do solo, o estado nutricional

da planta e a fase de desenvolvimento da planta e dos

frutos.

O plantio e a incorporação de adubos verdes

melhoram a estrutura e a fertilidade do solo, sendo

muito recomendadas leguminosas, como as

crotalárias.

3.2.4 Biodiversidade

Biodiversidade é um termo muito comum na

agricultura orgânica. Ela nada mais é do que a

manifestação da vida sob diferentes formas. Ao

estudarmos a maioria dos ecossistemas naturais

brasileiros, podemos observar a grande quantidade de

espécies vegetais e animais que os integram, o que

significa uma afta biodiversidade nesses sistemas.

Um dos princípios da Ecologia nos ensina que

a estabilidade de um sistema e a sua capacidade de

recuperação, quando exposto a alguma alteração

estão diretamente ligados ao grau de biodiversidade,

pois muitos seres executam as mesmas funções e

substituem uns aos outros no funcionamento geral do

sistema. Assim, as populações das diversas espécies

controlam umas às outras, sem que nenhuma delas

possa se desenvolver fora de controle.

No momento em que introduzimos uma

monocultura em larga escala, nós oferecemos uma

grande quantidade de alimento para uma determinada

espécie, cuja população aumenta rapidamente, e ela

se transforma em praga; seus inimigos naturais

demorarão um pouco mais para aumentar sua

população e poder controlá-la, e, nesse meio tempo,

entram os agrotóxicos, causando um desequilíbrio

ainda maior e provocando o aparecimento de

indivíduos resistentes a ele.

Para reverter esse quadro, é imprescindível

montar sistemas de produção que promovam a

biodiversidade, tanto das plantas como dos animais,

tanto acima como abaixo do solo. Isso pode ser

conseguido através de programas de cultivos

consorciados, de cultivo de espécies de leguminosas,

como adubo verde, pois elas são capazes de fixar o

nitrogênio da atmosfera e prover as necessidades

desse nutriente nas quantidades adequadas.

A agricultura orgânica preconiza o cultivo de

duas a três culturas no mesmo tempo e espaço, para

efeito de diversificação. No caso de culturas perenes,

a questão da biodiverdade poderá ser manejada,

sendo as ervas nativas ou a introdução de plantios

consorciados de adubos verdes manejados para criar

condições de micro-biodiversidade.

ADUBOS VERDES: Intercalada com as fruteiras

poderão ser empregadas espécies de adubos verdes

não muito agressivas conduzidas nas entrelinhas, que

não subam na copa das plantas. Recomenda-se

alternar o plantio de adubos verdes, em cada ano. As

principais recomendações são:

• Cultura da banana: feijão-de-porco, soja perene,

crotolárias, mucuna-anã.

• Cultura do citros: crotolária spectabilis, siratro,

guandu, mucuna-anã, calopogônio, nabo forrageiro.

• Culturas da goiaba e do caqui: mucuna-anã,

crotolária spectabilis.

• Culturas da maçã e do pêssego: trevo, tremoço,

aveia preta, mucuna-anã, crotolárias.

• Cultura do maracujá: tefrósia, mucuna-anã e

aveia preta.

• Cultura da seringueira: kudzu, mucunas, siratro.

• Cultura da uva: ervilha forrageira, ervilhaca ou

chícaro, amendoim rasteiro, aveia preta.

3.2.5 Manejo das plantas espontâneas

Na agricultura orgânica, o mato não é

considerado uma erva daninha, porém um

componente do ambiente, que deve, se possível, ser

manejada e não erradicada. As ervas pioneiras ou

nativas podem proteger o solo e serem abrigo de

inimigos naturais das pragas da cultura.

Quando as ervas presentes tornam-se

invasoras e afetam as plantas, poderão ser

substituídas por outras menos agressivas. De forma

geral, nos pomares, as áreas da coroa são limpas com

enxadas, sendo que a área total é mantida com

cobertura morta ou viva ou gramada.

As ervas invasoras podem concorrer com a

planta na absorção de água e de nutrientes.

Geralmente, o período de maior concorrência e que

traz maiores prejuízos, se estende de setembro até

março. O método recomendado para o controle

consiste em manter a área sob a projeção da copa,

sempre livre de mato e, nas entrelinhas, uma

cobertura vegetal.

O manejo das ervas invasoras pode ser feito

com enxada ou roçadeira. A enxada deve ser usada

com cuidado, pois os ferimentos por ela causados

podem provocar podridões nas raízes. Ela pode ser

usada com vantagens no inverno, na eliminação de

ervas daninhas resistentes. O uso de roçadeira

permite a incorporação de matéria orgânica que

favorece as plantas, quanto à melhoria das condições

do solo e absorção de umidade.

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 36

Manter o solo com cobertura viva ou morta é

uma prática necessária em regiões tropicais e

subtropicais, pois protegem o solo da incidência

direta da insolação e da erosão das chuvas. Além

disso, mantém a vida do solo, com a presença de

microrganismos e minhocas e fornecem nutrientes

essenciais para as plantas.

A cobertura vegetal do solo com matéria

orgânica (palhas, bagaços ou capins) é feita durante

todo o ano ou parte dele. Quando são trazidos restos

de culturas ou capim para cobrir o solo do pomar,

chama-se cobertura morta. É uma prática nos cultivos

de figo e uva.

A cobertura em redor da planta, com palha ou

restos de culturas, formando um “mulch”, traz vários

benefícios, sendo recomendada a mistura com fontes

ricas de nitrogênio, como esterco de galinha ou de

curral.

A cobertura viva consiste no plantio de adubos

verdes, que são depois incorporadas na superfície do

terreno ou então procura-se manter as ervas pioneiras

(mato) sob controle de roçadeira manual ou

mecânica. Nunca deve ser passada a grade no terreno,

pois afeta e prejudica o manejo e conservação do

solo.

Nas entrelinhas, recomenda-se manter uma

cobertura vegetal, para evitar a erosão do solo. O

controle do mato nas entrelinhas é feito

periodicamente com roçadeira mecânica, quando as

ervas daninhas atingirem 20cm de altura.

Em pomares em formação com até 4 anos,

podem ser feitas culturas intercalares com

leguminosas (feijão, soja, melancia ou abóbora). A

cultura intercalar deve receber adequada adubação e

controle fitossanitário e situar-se a um metro da

planta. Ultimamente vêm sendo conduzidos

experimentos sobre plantio intercalar de leguminosas

para produção de massa verde e sua incorporação ao

solo.

O plantio de leguminosas nas ruas do pomar,

para cobertura vegetal, é recomendado, pois

fornecem grande quantidade de massa vegetal e

nutrientes, que beneficiam as plantas. As espécies

que têm apresentado bom desenvolvimento em

plantio intercalar no período de inverno são:

ervilhaca, tremoço, azevém e trevo.

As caracteríscas desejáveis são: alta produção

de massa, crescimento determinado (não cresçam

sobre as fruteiras), fácil erradicação e que não sejam

perenes. Em locais onde for constatada a ocorrência

de fungos causadores de Rosellinia (podridão de

raízes), deve ser evitado o plantio de leguminosas.

A seguir apresentamos algumas alternativas de

leguminosas de verão:

3.2.6 Manejo Fitossanitário

A agricultura orgânica não emprega os

agrotóxicos para o controle dos insetos nocivos e

patógenos que podem causar prejuízos para as

plantas. O princípio é obter uma planta resistente e a

população de inimigos naturais.

Como fatores prepoderantes para manter a

saúde da planta e baixa ocorrência de pragas e

doenças, estão a preservação do meio ambiente,

adequado manejo do solo, nutrição equilibrada e

cultivo adaptado às condições locais.

Estes preceitos estão baseados na teoria de

Francis Chaboussou, que afirma que qualquer

adubação que deixe a planta em sua condição

fisiológica ótima, oferece-lhe o máximo de

resistência ao ataque de fito-moléstias.

Para o mesmo pesquisador “insetos e fungos

não são a causa verdadeira das moléstias das planta

elas só atacam as plantas ruins ou cultivadas

incorretamente”, pó isso, quando são seguidos os

princípios orgânicos, há redução significativa de

danos causados por insetos ou microrganismos.

No entanto, se cumprindo todos os preceitos

orgânicos, ocorrerem ataques de insetos nocívos ou

patógenos, há alternativas para substituir os

agrotóxicos, por produtos de baixo custo e que não

afetam a saúde do homem e nem causam

desequilíbrio na natureza.

Neste caso, o princípio de atuação destes

produtos alternativos não é erradicar os insetos ou

microrganismos nocivos, mas aumentar a resistência

da planta.O produtor deve tirar as dúvidas, conhecer

dosagens, época de aplicação e métodos para

produzir o seu próprio defensivo natural.

Há grande vantagem em produzir alimentos

orgânicamente, sem agrotóxicos, são sadios,

saborosos e de elevada cotação comercial.

Vantagens dos defensivos alternativos

• Aumento da resistência natural das plantas: As

plantas tratadas com estas caldas defensivas

apresentam-se geralmente mais vigorosas, oferecendo

maior resistência á infecção por patógenos, insetos

nocivos e às intempéries climáticas.

• Obter produtos sadios, com preços

diferenciados: A cotação obtida pelos produtos sem

agrotóxicos ou produtos orgânicos são geralmente

mais elevados e valorizados, devido sua qualidade,

quanto ao sabor e isenção de contaminantes.

• Equilíbrio nutricional: A utilização de produtos

ricos em enxofre, cobre, micronutrientes e outras

substâncias orgânicas e naturais, complexados ou não

com a cal, representam excelentes opções aos

produtores, para o equilíbrio nutricional e

favorecimento dos mecanismos de defesa natural.

• Longevidade da vida útil da planta: Porque

fornecem nutrientes essenciais às plantas e renovam o

vigor vegetativo, favorecem uma maior longevidade

dos frutos em pós-colheita e aumento da vida

produtiva da planta.

• Baixo impacto ambiental: Sua ação benéfica, não

favorece o surgimento de patógenos resistentes, tem

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 37

baixa toxicidade aos inimigos naturais e não afetam o

ambiente e o homem. Quando são aplicados

pesticidas, todos os integrantes da cadeia alimentar

são contaminados com os resíduos, afetando toda a

fauna, conforme ilustração abaixo.

3.2.7 Comercialização

Uma exploração econômica de frutas necessita

para sua comercialização, de tres fatores básicos:

quantidade, continuidade e qualidade, sendo

igualmente importantes e inseparáveis. A escolha da

espécie a ser cultivada deve levar em consideração as

características edafo-climáticas e a posição

geográfica com relação ao centro consumidor.

As regiões próximas aos grandes centros

consumidores sofrem grande especulação imobiliária,

obrigando o fruticultor a procurar áreas mais baratas.

Quando ocorrer da produção estar em grandes

distâncias do centro consumidor, fazem-se

“necessários” transportes especializados, como a

frigoconservação, o que aumenta seu custo na

comercialização, e a preocupação de observar se na

região os produtores locais possuem aptidão para a

fruticultura e daí se formar um futuro pólo de

produção.

No caso de o produtor ficar isolado dos pólos

de produção, distante dos grandes centros

consumidores, deverá ter a preocupação de

dimensionar sua área para viabilizar toda a estrutura

de base, como: mão-de-obra especializada, produtos

agro-químicos, transporte, paking house,

comercialização, etc.

A preocupação com o escalonamento da safra,

também, é de grande importância, uma vez que

facilita as operações do produtor e atende ao mercado

de maneira mais equalizada. As diversas etapas na

comercialização do produtor ao consumidor final são,

muitas vezes, longa, o que prejudica as duas

extremidades de maior relevância.

Para melhor atuação no mercado, o produtor

deve procurar um fortalecimento no mercado local,

escolhendo seus parceiros comerciais e atuando em

blocos (através de associações, cooperativas ou

mesmo grupos) e, de outro lado, o consumidor sendo

mais bem atendido, com qualidade, quantidade e

preços mais acessíveis.

A estrutura de comercialização depende muito

da área a ser implantada, pois pequenos pomares de 1

a 2 ha poderão ser destinados a abastecer a região,

enquanto áreas maiores deverão procurar centrais de

abastecimento, redes de supermercados e até a

exportação.

2.3 Referência

CANUTO, J. C. Dimensão sociambiental da

agricultura sustentável. In: UZÊDA, M. C. (org.) O

desafio da agricultura sustentável: alternativas

viáveis para o Sul da Bahia. Ilhéus, BA: Editus,

2004. p.13-32.

COMETTI, N. N.; MATIAS, G. C. S.; ZONTA, E.;

MARY, W.; FERNANDES, M. S. Comportamento

nitrogenados e açucares solúveis em tecidos de alface

orgânica, hidropônica e convencional. Horticultura

brasileira, Brasília, v.22, n.4, p. 748-753, out-

dez.2004.

DAROLT, M. R. Agricultura Orgânica:

inventando o futuro. Londrina:IAPAR, 2002. 250p.

GOULET, D. Desenvolvimento autêntico: fazendo.

In:CAVAL-CANTI, C. (org.). Meio ambiente,

desenvolvimento sustentável e políticas públicas.São

Paulo : Cortez, 1997. p.72-82.

KHATOUUNIAN, C. A. A reconstrução ecológica

da agricultura. Botucatu: Agroecologia, 2001.348p.

MASCARENHA, G. C. C. A atual conjuntura

socioeconômica e ambiental da região Sul da Bahia e

a agricultura sustentável como uma alternativa

concreta. In: UZÊDA, M. C. (org.) O desafio da

agricultura sustentável: alternativas viáveis para o

Sul da Bahia. Ilhéus, BA: Editus, 2004. p.13-32.

PENTEADO, S. R. Fruticultura orgânica:

formação e condução. Viçosa: Aprenda Fácil, 2004.

308 p.

PINHEIRO, S.; BARRETO, S. B. “MB-4”:

agricultura sustentável, trofobiose e

biofertilizantes. Fundação Junquira

Candiru/MIBASA, 1996.273.

PRIMAVESI, A. A alimentação no século XXI. In:

ENCONTRO DE PROCESSOS DE PROTEÇÃO DE

PLANTAS: CONTROLE ECOLÓGICO DE

PRAGAS E DOENÇAS. 1, 2001. Botucatu:

Agroecologia, 2001. p.7-12.

PRIMAVESI, A. A. Os problemas da agricultura

orgânica. In: SALES, R. O. (Org.). Produção

Orgânica de Frutas. SEMANA INTERNACIONAL

DA FRUTICULTURA E AGROINDUSTRIA, 7.

2000. Fortaleza. Anais... Fortaleza: FRUTAL, 2000.

149p. CDrom.

PRIMAVESI, A. O manejo ecológico do solo:

agricultura em regiões tropicais. São Paulo, Nobel,

1982. 541p.

REZENDE, A. J.; JUNQUEIRA, A. M.R;

XIMENES, M. I. N.; BORGO, L. A. Teores de nitrito

Sistemas de produção na fruticultura

Sebastião Elviro de Araújo Neto 38

e nitrato em alface hidropônica produzida e

comercializada no Distrito Industrial. In:

CONGRESSO BRASILEIRO DE

OLERICULTURA, 39, 1999. Tubarão. Anais...

Tubarão: SOB, 1999. nº307.

SALES, R. O. (Org.). Produção Orgânica de

Frutas. SEMANA INTERNACIONAL DA

FRUTICULTURA E AGROINDUSTRIA, 7. 2000.

Fortaleza. Anais... Fortaleza: FRUTAL, 2000. 149p.

CDrom.

SOUZA, J. L. de; RESENDE, P. Os motivos, as

causas e os incentivos para a busca da

sustentabilidade agrícola. In:SOUZA, J. L. de;

RESENDE, P. Manual de horticultura

orgânica.Viçosa: Aprenda Fácil, 2003. p.19-34.

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e

Abastecimento. Instrução Normativa nº 20, de 27 de

fevereiro de 2001. Diário Oficial [da] República

Federativa do Brasil, Brasília, 15 out. 2001. Seção

1, p.40-44.

EPAMIG. Produção Integrada de Frutas. Informe

Agropecuário, v.22, n.213, 2001.

FACHINELLO, J.C. Produção integrada de péssegos.

In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE

CITROS, 6., 2000, Bebedouro, SP. Anais... Produção

integrada. Bebedouro: Fundação Cargill, 2000. p.l4.

FACHINELLO, J.C.; HERTER, F.G. (Ed.). Normas

para Produção Integrada de Frutas de Caroço (PIFC).

Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2000. 46p.

(Embrapa Clima Temperado. Circular Técnica, 19).

ISO. IS0 2000. Disponível em:

<http://www.iso.org>. Acesso em: 2004.

SENAI. Guia para elaboração do plano APPCC:

geral. Brasília, 1999. 31 7p. (Série Qualidade e Se-

gurança Alimentar). Projeto APPCC-Convênio

CNI/SENAI/SEBRAE.

TITI, A. el; BOLLER, E.F; GENDRIER, J.P. (Ed.).

Producción integrada: principios y directrices

técnicas. [S.l.): IOBC/WPRS, 1995. 22p. (Bulletin,

18).

Propagação de plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 39

4. PROPAGAÇÃO DE PLANTAS FRUTÍFERAS

As árvores frutíferas, em geral, propagam-se

tanto por via sexual, ou gâmica, ou seminípara, como

por via vegetativa, ou assexuada, ou agâmica. Para

diferenciar esses dois modos de propagação, dá-se o

nome de reprodução à propagação sexuada e o de

multiplicação aos processos de propagação

vegetativa.

A transmissão das características da planta

depende dos gens presentes nos cromossomos.

A soma total dos gens determina o genótipo da

planta. Em combinacão com o ambiente, o genótipo

produz uma planta com uma determinada aparência,

o fenótipo.

Cultivar é sinônimo de variedade. São plantas

idênticas, com as mesmas características. A palavra

cultivar é resultado da contração das palavras

inglesas cultivated variety. Os melhoristas de plantas,

seguindo essa linha de raciocínio, conceituam

cultivar como um material genético melhorado

(planta ou população de plantas) e sob cruzamento

controlado, enquanto que o termo variedade, usa-se

para definir um material genético de cruzamento

livre, e portanto com alta variabilidade genética.

4.1 - Propagação por semente

As plantas obtidas por sementes apresentam

grandes variações. Assemelham-se aos seus

progenitores, porém não são idênticas a eles, nem

entre si. Apresentam uma variabilidade em

conseqüência da constituição genética, devido à

segregação e à recombinação de gens que têm lugar

no processo de reprodução sexual.

Quando as plantas propagadas são

homozigotas e predomina a autofecundação, têm-se

linhagens praticamente puras, que apresentam

características idênticas às das plantas das quais

provieram. Essas características são difíceis de ser

mantidas, dado que, na natureza, a polinização

cruzada é mais comum.

As plantas que produzem sementes

poliembriônicas possibilitam a sua propagação por

meio de sementes e a manutenção da constituição

genética idêntica, pois são procedentes de embriões

nucelares e de origem somática.

As plantas triplóides, que normalmente

apresentam forma vegetativa maior que as diplóides,

apresentam quase sempre uma grande esterilidade,

devido à irregularidade da meiose, e seus frutos têm

pouca ou quase nenhuma semente. É, portanto, difícil

sua propagação sexuada.

Plantas propagadas por sementes apresentam o

fenômeno da juvenilidade, que é uma fase

normalmente de longa duração, na qual a planta não

responde aos estímulos indutores do florescimento.

Plantas em estado juvenil tendem a apresentar

características, tais como a presença de espinhos,

folhas lobuladas, ramos trepadores, fácil

enraizamento e menor teor de RNA (ácido

ribonucleico). Durante a juvenilidade não há

produção de frutos, o que acarreta um prolongamento

do período improdutivo do pomar.

4.1.1 Vantagens e desvantagens

As vantagens e as desvantagens do uso da

propagação sexuada em fruticultura encontram-se na

Tabela 4.1.

Tabela 4.1. Vantagens e desvantagens da propagação

sexual em plantas frutíferas.

VANTAGENS DESVANTAGENS

* Maior longevidade * Dissociação dos caracteres

(segregação genética)

* Desenvolvimento vigoroso * Frutificação mais tardia

* Obtenção de variedades * Porte elevado

* Obtenção de plantas livres

de doenças

* Presença de espinhos (em

algumas variedades)

* Perpetuação da espécie

por bancos de germoplasma

* Heterogeneidade entre

plantas (porte, arquitetura,

fenologia)

* Sistema radicular mais

vigoroso e profundo

* Irregularidade de produção

(cor, características

organolépticas, tamanho)

* Menor custo

Fonte: Adaptado de Fachinello et al., 1995.

Plantas propagadas por sementes apresentam o

fenômeno da juvenilidade, que é uma fase

normalmente de longa duração, na qual a planta não

responde aos estímulos indutores do florescimento.

Plantas em estado juvenil tendem a apresentar

características, tais como a presença de espinhos,

folhas lobuladas, ramos trepadores, fácil

enraizamento e menor teor de RNA (ácido

ribonucleico). Durante a juvenilidade não há

produção de frutos, o que acarreta um prolongamento

do período improdutivo do pomar.

O porte mais elevado pode representar uma

desvantagem nas práticas de manejo do pomar, como

na poda, raleio, colheita e tratamentos fitossanitários.

Além disso, a propagação sexuada pode induzir a

desuniformidade das plantas e da produção,

normalmente indesejadas em pomares comerciais.

4.1.2. Emprego de sementes

A semente é o processo natural de

disseminação das espécies. Em fruticultura, porém, o

uso de sementes é restrito e delimitado a

determinados casos, tais como:

• plantas que não podem ser propagadas por

outro meio;

• obtenção de porta-enxertos;

• obtenção de variedades novas;

• obtenção de clones nucelares;

• sementes poliembriônicas;

• plantas homozigotas.

Propagação de plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 40

Plantas que não podem ser propagadas por outro

meio

Certas espécies, como o coco-da-baía e o

mamão, apesar da possibilidade tecnológica da

propagação vegetativa, dificilmente poderiam ser

propagadas comercialmente se não fosse por meio de

sementes.

Nesse caso, procura-se obter plantas tão

uniformes quanto possível, para evitar o

aparecimento de tipos distintos dos desejados.

Obtenção de porta-enxertos

A fruticultura moderna assenta-se na

propagação vegetativa, isto é, na enxertia das

variedades comerciais sobre porta-enxertos, obtidos

em muitos casos a partir de sementes, como em

citros, abacate, caju, manga, graviola e outras.

Obtenção de variedades novas

Toda variedade que se pretenda conseguir

deve reunir qualidades superiores às existentes,

porém, em fruticultura, isso nem sempre é fácil de

obter, dado o alto grau de heterozigose e, portanto, a

grande variabilidade dos descendentes. A mangueira,

que vem sendo cultivada há mais de 5.000 anos,

poucos resultados apresentou com os cruzamentos e,

em citros, as tentativas, durante os últimos cinqüenta

anos, de obtenção de variedades novas, altamente

econômicas, falharam. Se, de um lado, dificilmente

se obtêm novas variedades com cruzamentos

dirigidos, de outro, tal processo tem sido favorável,

como no caso do pêssego, da maçã, da tâmara e do

caqui. Há também a possibilidade de obter plantas

triplóides ou tetraplóides que, em algumas espécies,

apresentam valor comercial.

Atualmente, com a biotecnologia, podem-se

obter plantas transgênicas, híbridas e novas

variedades.

Obtenção de clones nucelares

O clone nucelar ou variedade revigorada é

obtida a partir de sementes poliembriônicas, que

reproduzem as mesmas características das plantas

matrizes.

A poliembrionia é um fenômeno pelo qual se

forma mais de um embrião em uma semente. Isso é

freqüente em manga, citros e algumas outras plantas.

Os embriões são de origem nucelar e possuem

características genéticas semelhantes, não passando,

portanto, de uma multiplicação vegetativa que se dá

na semente, pois nada mais é do que uma propagação

somática.

A polinização parece ser, em quase todos os

casos, necessária para ativar a formação de sementes

e embriões nucelares.

Os embriões nucelares, ao se desenvolverem,

estabelecem uma concorrência entre si e, muitas

vezes, o embrião gamético é reduzido, de forma a ser

eliminado.

A concorrência entre os embriões se dá tanto

em relação ao espaço a ocupar como em relação à

nutrição.

A eliminação do embrião gamético, em alguns

casos, ao que parece, está ligada à sua posição, pois

ele se situa no ápice do saco embrionário e, portanto,

em posição desvantajosa em relação aos embriões

nucelares quanto à nutrição, através dos feixes

vasculares. O embrião sexual pode germinar, porém,

por ser de constituição genética mais fraca, ou por

atrasar o inicio da germinação, ou por ser de

crescimento inicial mais lento, sendo dominado pelos

embriões nucelares.

O número de embriões por semente varia de

acordo com a espécie, a variedade e as condições

climáticas. Em citros, encontram-se de dois a

quarenta e, em manga, têm-se registrado até dezesseis

embriões nucelares.

- Apomixia

Resulta da produção de um embrião que

ultrapassa o processo de meiose e fertilização.

O genótipo do embrião e o da planta resultante

seriam o mesmo da semente.

A produção dessa semente é assexuada e dita

apomíctica.

A apomixia pode ser obrigatória — sementes que

só produzem embriões apomícticos — ou facultativa —

quando produzem embriões apomícticos e sexuais.

- Poliembrionia

Células específicas do nucelo ou do tegumento

têm potencial embriogenético. Geralmente, esses

embriões têm o mesmo genótipo e são também

apomícticos nessas espécies. Ambos, embrião e

zigoto apomíctico, necessitam do estímulo da

polinização para serem produzidos.

Sementes poliembriônicas

Quando certas variedades apresentam

sementes poliembriônicas, é possível, porém nem

sempre desejável, a propagação delas diretamente de

sementes (Figura 4.1).

um embrião um embrião

dois embriões três embrião

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 41

Figura 4.1. Detalhes de sementes monoembriônica e

poliembriônicas de Poncirus trifoliata.

Elas deverão transmitir as mesmas

características, mas estão sujeitas a variações, por

germinação do embrião sexuado. Além do mais, o

inicio da produção é sempre retardado e as plantas

tendem a atingir dimensões maiores do que as

enxertadas.

4.1.3. Escolha das matrizes

Para a produção de mudas de alto padrão,

verifica-se que há necessidade de plantas

fornecedoras de material básico para propagação.

Além de tudo isso, para que se tenha um material

genético de qualidade e isento de pragas e doenças,

alguns tratos culturais são imprescindíveis. Esses

tratos culturais, para facilitar o entendimento e a

redação, podem ser resumidos em um conjunto de

operações básicas para manutenção e qualidade do

material de propagação.

O condicionamento pode promover ou

facilitar a propagação, porém, muitas vezes requer

que se associe o uso de substâncias químicas

reguladoras de crescimento.

Plantas matrizes são aquelas também

denominadas 'plantas elites', por possuírem qualidade

genética e fitossanitária superior e comprovada. Essas

matrizes são obtidas por seleção e utilizadas para

diferentes finalidades, como o fornecimento do

material básico para propagação vegetativa e as

sementes, particularmente para porta-enxertos.

Matriz fornecedora de sementes

Nesse caso particular, as plantas são

selecionadas, visando particularmente as seguintes

características: produtividade, sanidade, frutos com

grande número de sementes viáveis, porte baixo,

grande longevidade, resistência à pragas e doenças,

sistema radicular abundante, resistência à seca, além

de outras.

Uma das principais utilização das sementes é

para a obtenção de porta-enxertos.

Deve-se selecionar a árvore para a colheita de

sementes.

As árvores escolhidas são denominadas

matrizes e devem apresentar os seguintes requisitos:

• vigor;

• sanidade;

• regularidade de produção;

• qualidade dos frutos;

• idade.

O vigor de uma planta é característica

importante, por se encontrar relacionada à sanidade e

à produtividade. A regularidade de produção constitui

importante característica de valor econômico. Há

árvores que apresentam produção alternada e outras,

produção constante. Sendo possível, é preferível

escolher a segunda para a propagação, por

possibilitar maior estabilidade ao fruticultor.

As árvores devem também ser selecionadas

pelas qualidades dos frutos. Há variedades que,

quando multiplicadas por sementes, apresentam

frutos com diferentes sabores, uns mais doces, outros

mais ácidos. O teor vitamínico, a forma dos frutos,

bem como a coloração, variam de árvore para árvore.

A idade da planta para retirada de frutos

apresenta valor até certo ponto relativo. Sabe-se que

plantas novas, bem como as velhas ou em

decrepitude, apresentam sementes com menor poder

germinativo. Nas primeiras, as reservas são

destinadas à constituição da copa, e nas velhas, em

virtude de estarem em decadência, apresentam-se

subnutridas.

Devem-se preferir sempre árvores de idade

média, isto é, as já formadas e antes de mostrarem

sinais de decrepitude.

4.1.4. Escolha dos frutos

A escolha dos frutos para a retirada de

sementes deve ser feita levando-se em consideração

os seguintes aspectos:

• conformação;

• tipo-padrão;

• sanidade;

• maturação.

Escolhidas as plantas matrizes, passa-se à

escolha dos frutos que apresentam as características

desejadas. De preferência, eles devem ser colhidos na

periferia da copa, evitando os pouco expostos à luz.

Quanto à maturação, deve-se atentar para que o fruto

tenha atingido a sua maturação flsiológica. Muitas

vezes, ele encontra-se morfologicamente maduro,

porém essa maturação não coincide com a

flsiológica; outras vezes, a maturação flsiológica

antecede a morfológica, como ocorre com

mangueiras, citros e mirtáceas.

A observação do estágio de maturação é de

importância na conservação do poder germinativo

das sementes.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 42

4.1.5. Escolha das sementes

Sendo as sementes o material básico na

propagação, devem-se selecioná-las com critério,

levando-se em consideração: tamanho, sanidade,

poder germinativo e tamanho normal (volume e

peso), de acordo com a variedade ou espécie a que

pertencem. As sementes maiores possuem sempre

maiores quantidades de reservas e, portanto, dão

origem a árvores mais vigorosas.

Com relação à sanidade, sabe-se que todas as

sementes que apresentam aspecto distinto do normal

devem ser eliminadas.

O poder germinativo das sementes e sua

longevidade devem ser conhecidos para maior

garantia. Há espécies cujo poder germinativo dura

somente algumas semanas e outras, vários anos.

As sementes provenientes de plantas que

mostram grandes variações no seu desenvolvimento

comunicam aos enxertos alterações semelhantes,

razão pela qual se deve ter coleção de plantas

matrizes para a retirada de sementes.

4.1.6. Fatores que afetam a germinação das

sementes

A germinação abrange todo o processo que vai

desde a ativação dos processos metabólicos da

semente até a emergência da radícula e da plúmula. O

percentual de germinação depende de fatores internos

e externos. Como fatores internos, podem ser citados

o estado de dormência, a qualidade da semente e o

potencial de germinação da espécie. Os fatores

externos mais importantes são água, temperatura,

gases e luz.

- Fatores internos

Dormência

A dormência representa uma condição em que

o conteúdo de água nos tecidos é pequeno e o

metabolismo das células é praticamente nulo,

permitindo que a semente seja mantida sem germinar

durante um período relativamente longo.

Segundo HARTMANN & KESTER (1990), a

dormência pode ser classificada em:

Dormência devida aos envoltórios da semente:

Dormência física - a testa ou partes

endurecidas dos envoltórios da semente são

impermeáveis à água, mantendo-a dormente

(quiescente) devido ao seu baixo conteúdo de

umidade.

Dormência mecânica - os envoltórios

impõem urna resistência mecânica à expansão do

embrião. Em geral, a dormência mecânica está

associada com outras causas de dormência, como a

física.

Dormência química - substâncias inibidoras

da germinação, tais como fenóis, cumarinas e ácido

abscísico, estão associadas ao fruto ou aos

envoltórios da semente.

Dormência Morfológica:

Embrião rudimentar - quando o embrião é

pouco mais do que um pró-embrião envolvido por

um endosperma.

Embrião não-desenvolvido - quando, na

maturação do fruto, o embrião encontra-se

parcialmente desenvolvido. Um crescimento

posterior do embrião se dará após a maturação e

senescência do fruto.

Dormência Interna:

Dormência fisiológica - comum na maioria

das plantas herbáceas. Ocorre devido a mecanismos

internos de inibição e tende a desaparecer com o

armazenamento a seco. Existem dois casos especiais

de dormência fisiológica:

a) - dormência térmica - a germinação é

inibida em temperaturas superiores a um limite,

variável conforme a espécie;

b) fotodormência - ocorre em espécies cujas

sementes necessitam de escuro para germinarem. Na

presença de luz, não há germinação.

Dormência interna intermediária - é

característica de coníferas e é induzida pela presença

dos envoltórios ou tecidos de armazenamento da

semente.

Dormência do embrião - ocorre quando o

embrião é incapaz de germinar normalmente, mesmo

que separado da semente.

Dormência do epicótilo - ocorre quando a

exigência do epicótilo, para germinação, é

diferenciada da do embrião.

Qualidade da semente

A qualidade da semente pode ser expressa por

dois parâmetros: viabilidade e vigor. A viabilidade é

expressa pelo percentual de germinação, o qual

indica o número de plantas produzidas por um dado

número de sementes. O vigor é definido como sendo

a soma de todos os atributos da semente que

favorecem o estabelecimento rápido e uniforme de

uma população no campo.

Uma semente em senescência se caracteriza

por apresentar urna diminuição gradual do vigor e

subseqüente perda da viabilidade.

Potencial de germinação da espécie

As sementes da maioria das plantas perenes

apresentam dificuldade de germinação, requerendo a

utilização de métodos de superação da dormência. Na

maioria das vezes, a diferença de potencial de

germinação entre espécies e cultivares é devida à

interação entre os diversos fatores que podem afetar a

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 43

viabilidade da semente. Não somente a germinação é

influenciada pelo fator genético, como também o

vigor e a longevidade.

- Fatores externos

Água

A água é necessária para ativação do

metabolismo da semente no momento da germinação.

O teor de água mínimo para germinação depende da

espécie, variando entre 40 e 60% de água, com base

no peso da semente.

Temperatura

É o fator mais importante para a germinação,

pois exerce influência nas reações metabólicas,

afetando também o crescimento das plântulas.

Conforme a espécie, as temperaturas mínimas, ótimas

e máximas são bastante variáveis, sendo que a

temperatura ótima, para a maioria das sementes que

não se encontram em repouso, varia de 25 a 30ºC.

Temperaturas alternadas são geralmente mais

favoráveis do que temperaturas constantes.

Gases

O oxigênio, em geral, favorece a germinação,

por ativar o processo da respiração. Já o CO2, em

concentrações elevadas, pode impedir ou dificultar o

desencadeamento deste processo.

Luz

O efeito da luz sobre a germinação das

sementes é variável de espécie para espécie, ainda

que a luz sempre favoreça o crescimento das

plântulas. A germinação das sementes da grande

maioria das plantas cultivadas não é afetada pela luz,

porém sementes de muitas plantas daninhas

apresentam exigências de luz variáveis, sendo

algumas favorecidas e outras inibidas pela luz. A

presença ou ausência de luz só é efetiva após a

embebição da semente e atua na remoção de um

bloqueio no metabolismo do embrião.

4.1.7. Escolha dos frutos

Da mesma forma que para a escolha das

plantas matrizes, a escolha dos frutos deve obedecer a

alguns critérios, como sanidade e maturação. Como

regra geral, os frutos atacados por doenças, pragas,

ou caídos no chão, devem ser descartados, como

forma de evitar uma possível contaminação das

sementes. Os frutos também devem ter atingido a

maturação fisiológica, de maneira que as sementes

encontrem-se completamente desenvolvidas.

4.1.8. Extração das sementes

As sementes, no momento da colheita, estão

envolvidas pelos frutos, os quais, de acordo com suas

características, são divididos em dois grandes grupos:

secos e carnosos. Os frutos secos liberam as sementes

por deiscência ou por decomposição das paredes.

Este tipo de fruto não tem grande expressão na

fruticultura, pois a maioria dos frutos de importância

econômica são carnosos. Quando um fruto carnoso é

formado por um ou mais carpelos, contendo uma ou

mais sementes, como é o caso da uva, maçã, pêra,

citros, caqui, entre outros, é genericamente chamado

de baga. Quando o fruto é formado por um único

carpelo que contém no seu interior uma só semente,

como pêssego e ameixa, é chamado de drupa.

Para extração das sementes de frutos carnosos,

estes devem estar maduros, a fim de facilitar a

separação da polpa e da semente. Deve-se tomar o

cuidado para não deixar restos de polpa aderidos à

semente, os quais, pela sua decomposição e

fermentação, podem provocar sérios danos ao poder

germinativo. Caroços com polpa aderida e mantidos

amontoados podem ter sua temperatura aumentada,

em virtude da fermentação, a ponto de prejudicar a

viabilidade do embrião, reduzindo o poder

germinativo e vigor da plântula.

4.1.9. Conservação das sementes

A finalidade da conservação das sementes é

manter a sua viabilidade pelo maior tempo possível,

de modo a permitir a semeadura na época mais

adequada, bem como garantir a manutenção do

germoplasma na forma de semente.

A viabilidade após o armazenamento é

resultante dos seguintes fatores:

a) viabilidade inicial na colheita, determinada

por fatores de produção e métodos de manejo. No

caso de sementes que não requerem quebra de

dormência, o armazenamento pode, no máximo,

manter a qualidade das mesmas;

b) taxa de deterioração das sementes, também

denominada de taxa de trocas flsiológicas ou

envelhecimento. Esta é determinada pelo potencial

genético de conservação da espécie e pelas condições

de armazenamento, principalmente temperatura e

umidade.

A durabilidade da semente é bastante variável

com a espécie. Podem ser encontradas desde espécies

cujas sementes perdem rapidamente o seu poder

germinativo em condições naturais, como outras que

mantêm o poder germinativo por longos períodos. As

sementes de citros armazenadas em condições

normais perdem rapidamente o seu poder

germinativo devido à dessecação dos tecidos.

Sementes com embriões dormentes, como macieira,

pereira e videira, possuem maior capacidade de

conservação, mesmo em ambiente normal. É

conveniente lembrar que, quanto maior for o período

de armazenamento da semente, maior será o consumo

das substâncias de reserva, resultando assim numa

redução do vigor do embrião.

As características das sementes podem

determinar seu potencial de conservação. Sementes

amiláceas apresentam, em geral, maior longevidade

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 44

do que sementes oleaginosas. Além disso, sementes

com embriões dormentes e envoltório impermeável

apresentam maior tempo de conservação.

No que se refere a condições ambientais, a

relação umidade/temperatura é muito importante na

redução da taxa de respiração. Para a maioria das

espécies, ambientes com baixo teor de umidade,

acompanhados de baixas temperaturas, oferecem

condições adequadas para prolongar a conservação

das sementes. Além disso, a modificação da

atmosfera de armazenamento, especialmente na

redução do teor de oxigênio, mostra-se favorável à

manutenção do poder germinativo da semente.

No que se refere à umidade da semente, acima

de 8 a 9% de umidade, insetos podem entrar em

atividade; acima de 12 a 14%, fungos podem tornar-

se ativos; acima de 18 a 20%, pode ocorrer

aquecimento devido à fermentação; e acima de 40 a

60%, ocorre germinação. Caso a semente seja

tolerante à dessecação, é importante que ela seja

mantida com baixo teor de umidade.

As baixas temperaturas prolongam a vida das

sementes, sendo que, em temperaturas de 0 a 450C,

cada diminuição de 50C duplica a vida de

armazenamento destas.

- Meios de conservação

Há inúmeros processos para manter a

viabilidade do poder germinativo. Dentre eles,

destacam-se os seguintes:

conservação em sacos de polietileno;

estratificação;

câmaras frigoríficas; cloreto de cálcio;

vácuo.

4.1.10. Superação da dormência

O tratamento para superação da dormência

varia com o tipo de dormência que a semente

apresenta.

Aumento da permeabilidade dos envoltórios

É utilizado quando a causa da dormência é a

impermeabilidade do tegumento da semente. A

escarificação é o método que objetiva tornar os

envoltórios da semente mais permeáveis à entrada de

água e a trocas gasosas, bem como facilitar a

emergência da radícula e/ou da plúmula, podendo ser

realizada por métodos físicos, químicos ou

mecânicos.

Método físico - consiste na imersão da

semente em água quente, entre 65 e 850C, durante 5 a

10 minutos. A temperatura elevada diminui a

resistência dos envoltórios e facilita a germinação.

Método químico - consiste no tratamento das

sementes com hidróxido de sódio ou de potássio,

formol e ácido clorídrico ou sulfúrico, em geral por

um tempo entre 10 minutos até 6 horas, conforme a

espécie. Dessa forma, os tegumentos são desgastados

e a germinação é facilitada. E importante que sejam

eliminados todos os resíduos de ácido que, aderidos à

semente, podem prejudicar a germinação, o que pode

ser feito através de lavagem em água corrente.

Método mecânico - pode ser realizado com

uso de uma superfície abrasiva, agitação em areia ou

pedra ou por quebra dos envoltórios. Deve-se ter

cuidado para que o embrião não seja danificado. As

sementes escarificadas tornam-se mais sensíveis ao

ataque de patógenos.

Maturação do embrião

Destina-se à superar a dormência da semente

através do amadurecimento do embrião ou do

estabelecimento de um balanço hormonal favorável à

germinação. Isso é obtido pelo armazenamento das

sementes em ambiente úmido e frio por um

determinado período (estratificação).

De um modo geral, o meio adequado para a

estratificação é aquele que retém um adequado teor

de umidade e não contém substâncias tóxicas. Como

exemplos, podem-se citar o solo, areia lavada,

musgo, vermiculita e serragem ou a mistura destes.

Camadas de sementes são intercaladas com camadas

de substrato à temperatura ambiente ou em câmaras

refrigeradas, com temperaturas entre O e 100C.

O período de armazenamento varia conforme a

espécie, sendo que, para a maioria, está

compreendido entre 1 e 4 meses. Durante a

estratificação, deve-se ter cuidado com o teor de

umidade do substrato e com a eventual germinação

das sementes antes que o período previsto para a

estratificação das sementes esteja terminado.

Em variedades precoces, nas quais em geral o

embrião não esta completamente desenvolvido

quando da maturação do fruto, muitas vezes é

necessário cultivar o embrião em meio de cultura

adequado, permitindo que seja completado o seu

desenvolvimento. Este processo é utilizado em

cultivares precoces de pessegueiro que se destinam

ao melhoramento genético.

4.1.11. Manejo das sementeiras

Antes da semeadura em viveiro, é importante

que se adote um tratamento das sementes com

fungicida ou hipoclorito de sódio. Dessa forma, é

possível minimizar a ocorrência de doenças que

possam vir a prejudicar as plântulas.

A sementeira deve estar localizada fora da área

de produção e, de preferência, em terreno bem

drenado, com pequena declividade, plena exposição à

luz e boa disponibilidade de água para irrigação. A

má drenagem favorece a ocorrência de uma doença

denominada “damping-off’. E recomendável o uso de

áreas submetidas a uma prévia rotação de culturas,

como forma de reduzir o potencial de inóculo de

doenças. Não é aconselhável o uso de uma mesma

área como sementeira por mais de 2 anos.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 45

O tratamento do solo é útil para reduzir a

incidência de patógenos nas futuras plantas,

especialmente considerando a sensibilidade das

mesmas no estágio de plântula. Este pode ser

realizado com uso de fumigantes, fungicidas,

solarização ou calor (1050C por 30 minutos). Apesar

de suas vantagens, a esterilização completa interfere

na biologia do solo e na disponibilidade de nutrientes.

A semeadura pode ser realizada a lanço ou em

linha. A semeadura a lanço exige menor mão-de-obra

inicial, mas cria dificuldades para realização dos

tratos culturais, tais como controle de plantas

invasoras. Por essa razão, a semeadura em linha é a

mais utilizada. A quantidade de sementes a ser

utilizada deve ser de 3 a 4 vezes o número desejado

de plantas, de modo a permitir uma seleção rigorosa;

porém, deve-se evitar uma densidade muito elevada

de plântulas, para que não ocorra redução do tamanho

e do vigor, conduzindo à obtenção de plantas com

sistema radicular pouco desenvolvido.

A cobertura das sementes pode ser realizada

com solo ou areia e a cobertura do canteiro pode ser

realizada com uma fina camada de palha. O objetivo

da cobertura com palha é impedir o crescimento de

plantas invasoras, bem como conservar a umidade do

solo. A palha deverá ser removida pouco tempo antes

da emergência das plântulas.

Cuidados especiais devem ser dispensados no

que se refere à irrigação, considerando a exigência de

água para o processo da germinação e a sensibilidade

das plântulas à falta de umidade do solo. A irrigação

deve ser feita por aspersão, com uso de regadores ou

de um sistema de irrigação, no caso de sementeiras

de maior porte. O controle da umidade pode ser feito

por avaliação visual ou com uso de tensiômetros.

O controle de plantas invasoras pode ser

realizado através de métodos químicos ou mecânicos.

A distância entre as linhas deve possibilitar a

utilização de implementos agrícolas e o uso de

herbicidas pode ser realizado em pré ou pós-

emergência. A definição da forma de controle das

plantas invasoras deve considerar a viabilidade

econômica de cada método, bem como a

sensibilidade das plantas aos herbicidas.

De acordo com a espécie e o tempo de

permanência na sementeira, pode ser aconselhável a

realização de adubação, tanto de correção, quanto de

cobertura. É importante que o pH seja corrigido,

conforme a exigência da espécie, com uso de

calcário. A adubação nitrogenada, se necessária, deve

ser realizada com cautela, pois aplicações em excesso

podem criar um desequilíbrio nutricional, que resulta

em excesso de crescimento e elevada suscetibilidade

a pragas e doenças. Por outro lado, elevadas

concentrações de sais produzidos por um excesso de

fertilizantes inibem a germinação.

Dada a sensibilidade das plântulas e a elevada

densidade na sementeira, é necessário que se adotem

medidas eficientes de monitoramento e controle de

pragas e doenças. Os principais fungos causadores de

doenças de sementeiras são pertencentes aos gêneros

Pythium, Rhizoctonia e Phytophthora, agentes

causadores do “dampingoff’, que afeta a germinação

e a sobrevivência das plantas jovens.

A partir da sementeira, assim que as mudas

atinjam um crescimento satisfatório, estas são

submetidas a uma seleção por tamanho, visando

obter-se um padrão adequado das plantas destinadas

ao viveiro, quando estarão colocadas em maiores

espaçamentos. As plantas no viveiro poderão ser

utilizadas como porta-enxertos ou como mudas

destinadas à formação de pomares. No caso de

mudas, é necessário realizar uma seleção de plantas

próximas a um padrão característico da planta-mãe.

4.2. Propagação assexuada

4.2.1 Conceito

A propagação assexuada, vegetativa ou

agâmica é o processo de multiplicação que ocorre

através de mecanismos de divisão e diferenciação

celular, por meio da regeneração de partes da planta-

mãe.

Baseia-se nos seguintes princípios:

Totipotência: é a informação genética que

cada célula possui para reconstrução de uma planta e

de suas funções, assim, as células da planta contêm

toda a informação genética necessária para a

perpetuação da espécie.

Diferenciação: é a capacidade de células

maduras retornarem a condições meristemáticas e

desenvolverem um novo ponto de crescimento,

portanto, são células somáticas e, por conseqüência,

os tecidos, apresentam a capacidade de regeneração

de órgãos adventícios,

A propagação vegetativa consiste no uso de

órgãos da planta, sejam eles estacas da parte aérea ou

da raiz, gemas ou outras estruturas especializadas, ou

ainda meristemas, ápices caulinares, calos e

embriões. Desse modo, um vegetal é regenerado a

partir de células somáticas sem alterar o genótipo,

devido à multiplicação mitótica.

O uso deste modo de propagação permite a

formação de um clone, grupo de plantas provenientes

de uma matriz em comum, ou seja, com carga

genética uniforme e com idênticas necessidades

climáticas, edáficas, nutricionais e de manejo.

4.2.2. Importância e utilização

Enquanto em fruticultura a propagação

sexuada tem importância restrita, a propagação

assexuada é largamente utilizada na produção de

mudas. Isso se deve à necessidade de se garantir a

manutenção das características varietais, as quais

determinam o valor agronômico do material a ser

propagado, em espécies de elevada heterozigose,

como as frutíferas.

A utilização da propagação assexuada diz

respeito à multiplicação tanto de porta-enxertos

quanto da cultivar-copa. A importância e a

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 46

viabilidade da utilização da propagação assexuada

são uma função da espécie ou da cultivar, da

capacidade de regeneração de tecidos (raízes ou parte

aérea), do número de plantas produzidas, do custo de

cada processo e da qualidade da muda formada.

De modo geral, o uso da propagação

assexuada justifica-se nos seguintes casos:

a) propagação de espécies e cultivares que não

produzem sementes viáveis, como, por exemplo,

limão Tahiti, laranja de umbigo e figueira;

b) perpetuação de clones, pois as frutíferas são

altamente heterozigotas e perderiam suas

características com a propagação sexuada.

A escolha do método a ser utilizado depende

da espécie e do objetivo do propagador. Basicamente,

um bom método de propagação deve ser de baixo

custo, fácil execução e deve proporcionar um elevado

percentual de mudas obtidas.

4.2.3. Vantagens e desvantagens

Dada a sua larga utilização na multiplicação

de plantas frutíferas, a propagação assexuada

apresenta diversas vantagens, que a toma, muitas

vezes, mais viável que a propagação sexuada.

São vantagens da propagação assexuada:

a) permite a manutenção do valor agronômico

de uma cultivar ou clone, pela perpetuação de seus

caracteres;

b) possibilita que se reduza a fase juvenil, uma

vez que a propagação vegetativa mantém a

capacidade de floração pré-existente na planta-mãe.

Desse modo, há redução do período improdutivo;

e) permite a obtenção de áreas de produção

uniformes devido à ausência de segregação genética.

Assim, plantas obtidas por propagação assexuada

apresentam uma maior uniformidade fenológica, bem

como uma resposta idêntica aos fatores ambientais, o

que permite uma definição mais fácil das práticas de

manejo a serem executadas no futuro pomar;

d) permite a combinação de clones,

especialmente quando utilizada a enxertia.

Como desvantagens da propagação assexuada,

podem ser apontadas:

a) possibilita a transmissão de doenças,

especialmente as cansadas por vírus e bactérias. O

material utilizado na propagação vegetativa (estacas,

ramos, gemas), constitui-se de tecido somático, o

qual pode ser infectado por estes patógenos através

de vetores ou pelo uso de ferramentas. O uso

prolongado das mesmas plantas matrizes aumenta o

risco de propagação de doenças. Os patógenos

associados à propagação vegetativa incluem fungos

(Phytophthora spp., Pythium spp., Rhizoctonia spp.),

bactérias (Erwinia spp., Pseudomonas spp. e

Agrobacterium tumefasciens), vírus, rnicoplasmas e

organismos tipo Ricketsia;

b) ainda que a manutenção dos caracteres seja

citada como uma vantagem, pode ocorrer, ao longo

do tempo, uma mutação das gemas, podendo ser

gerado um clone diferenciado e de menor qualidade

que a planta matriz. Entre plantas de um clone podem

ocorrer mudanças que resultam em degenerescência e

variabilidade dos mesmos. A exposição a um

ambiente continuamente desfavorável pode conduzir

à deterioração progressiva do clone, manifestada em

perda gradual do vigor e da produtividade, ainda que

o genótipo básico não se altere. A degenerescência do

clone é causada principalmente por doenças de

natureza virótica. O uso inadvertido das mesmas

matrizes, sem que uma prévia indexagem tenha sido

realizada, aumenta o risco de propagação de doenças

e de degenerescência do clone. Além disso, a

replicação do DNA (ácido desoxirribonucleico)

durante a divisão celular no meristema pode resultar

em alterações no genótipo e originar mutações. O

efeito da mutação na variabilidade de um clone

depende da taxa de mutação e da extensão que as

células oriundas da célula mutante original ocupam

dentro do meristema. Entretanto, como as células do

meristema são relativamente estáveis e menos

sujeitas a mutações, a significância das mutações em

boas condições fitossanitárias é reduzida;

e) a ausência de variabilidade gerada no clone

pode levar a problemas na futura área de produção,

aumentando o risco de danos em todas as plantas por

problemas climáticos ou fitossanitários, uma vez que

foram fixadas todas as características varietais e todas

as plantas têm a mesma combinação genética.

As principais vantagens e desvantagens da

propagação assexuada são resumidas na Tabela 4.2.

Tabela 4.2. Principais vantagens e desvantagens da

propagação assexuada em plantas frutíferas.

VANTAGENS DESVANTAGENS

* perpetuação de caracteres

agronômicos

* transmissão de doenças

* redução da fase juvenil * risco de mutação das

gemas

* obtenção de plantas

uniformes

* risco de danos

generalizados na área de

produção

* combinação de clones na

enxertia

Fonte: Adaptado de Fachinello et al., 1995.

4.2.4 Matriz fornecedora de material para

propagação vegetativa

Essas plantas devem ser preferencialmente

produtivas, características da espécie ou variedade,

frutos de ótimas qualidades organolépticas,

resistentes a pragas e doenças, isentas de viroses

precoces, com grande capacidade de regeneração e

produtoras de grandes quantidades de brotos

vigorosos, entre outras características.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 47

4.2.5 Ação da copa sobre o porta-enxerto

O enxerto age sobre o cavalo de vários modos,

porém as alterações sofridas pelo cavalo nem sempre

podem ser bem apreciadas, pelo fato de ele se situar

abaixo do solo. A influência se estende ao sistema

radicular, alterando o desenvolvimento, a penetração

e a distribuição no terreno.

4.2.6 Ação do porta-enxerto sobre a copa

Na fruticultura moderna, com algumas raras

exceções, quase todas as árvores frutíferas cultivadas

são formadas por uma associação de duas espécies ou

variedades diferentes, uma chamada porta-enxerto e a

outra, enxerto ou copa.

Ambas as partes devem apresentar perfeita

harmonia e, portanto, evitar, tanto quanto possível,

alterações no comportamento biológico, fisiológico e

nas adaptações às condições ecológicas.

Entretanto, como o enxerto atua sobre o

cavalo, alterando o seu comportamento, o inverso

também se dá, isto é, o porta-enxerto age sobre o

enxerto, e as alterações são mais visíveis, pelo fato de

a copa se encontrar ao alcance do observador.

Conhecida, portanto, a influência do cavalo

sobre o enxerto, devese, ao se associar dois

indivíduos, procurar escolher aqueles que melhor se

interligam em cada situação. A localidade, por várias

razões, pode alterar o comportamento das plantas,

obrigando a um estudo do assunto.

O cavalo atua sobre o enxerto, alterando o

comportamento em relação ao seu desenvolvimento,

produtividade, época de maturação, qualidade,

resistência a baixas temperaturas, a doenças fúngicas

e viróticas e à nutrição.

Desenvolvimento

Em geral, a copa da árvore enxertada tende a

atingir um tamanho igual àquele que o cavalo teria se

não fosse enxertado. Há, porém, exceções, como

ocorre em citros. A laranja-azeda normalmente

comunica a toda a copa grande desenvolvimento,

porém, quando enxertada com a variedade Satsuma,

esta tem o seu porte diminuído.

A ação do porta-enxerto sobre o enxerto pode

ser apreciada em diferentes espécies. Assim, em

citricultura, a laranja-doce adquire maior

desenvolvimento quando enxertada sobre laranja-

azeda do que sobre laranja caipira ou limão-cravo e

torna-se ainda mais reduzida quando o cavalo é de

Poncirus trifoliata.

O desenvolvimento da copa alterado,

influência obrigatoriamente o fruticultor a tomar

medidas em cada caso, principalmente no que se

refere ao espaçamento. Assim, a distância entre

plantas num pomar está condicionada, além de à

fertilidade do solo, ao porta-enxerto e à variedade

empregada.

Produtividade

O porta-enxerto interfere na produção,

aumentando-a ou reduzindo-a. A produtividade de

uma árvore está intimamente relacionada à presença

de carboidratos, que são responsáveis pela formação

das gemas floríferas.

Porta-enxerto vigoroso às vezes predispõe a

planta a um desenvolvimento excessivamente

vegetativo, em detrimento da frutificação. Um de

menor porte tende a reduzir o volume da copa, porém

propicia condições para o suprimento adequado de

carboidratos e, portanto, predispõe a planta ao

florescimento.

Em citros, a produtividade está em grande

parte relacionada ao porta-enxerto. Assim, laranja-

azeda leva a planta a maior produtividade que laranja

caipira, e esta, por sua vez, supera o limão-cravo, que

suplanta o poncirus.

Com relação à precocidade da produção, isto

é, o tempo necessário para a planta entrar em

produção, observa-se um efeito pronunciado do

porta-enxerto. Em citros, o porta-enxerto que induz maior

precocidade é o do limão-cravo, seguido do de

caipira e laranja-azeda. E o que mais retarda a

produção é a tangerina cleópatra.

Maturação

A época de maturação dos frutos, e a sua

permanência na árvore, parece estar, em grande parte,

condicionada ao porta-enxerto.

Os porta-enxertos que comunicam à copa

maior vigor vegetativo tendem a atrasar a maturação

dos frutos. Em citros, o porta-enxerto de poncirus

antecipa a maturação dos frutos em relação aos

cavalos de caipira e azeda.

A permanência dos frutos na árvore está em

grande parte relacionada ao porta-enxerto. A laranja-

azeda induz a copa a manter os seus frutos maduros

por mais tempo do que outros porta-enxertos. Já o

limão rugoso retém apenas por pouco tempo os frutos

que já atingiram a maturação.

Comportamento com relação às doenças

A vegetação, a composição dos tecidos e a

maturação do lenho estão mais associadas ao hábito

de vegetação do porta-enxerto e à afinidade existente

entre eles.

O cavalo pode predispor as copas a maior

incidência de doenças causadas tanto por fungos

como por vírus, bem como pode comunicar maior

resistência à copa.

Não se conhece, até o momento, maior

resistência da copa a doenças causadas por fungos,

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 48

por ação direta do porta-enxerto. Se alguma

influência existe, ela é de ação indireta, ligada à

melhor distribuição dos ramos.

As doenças causada por vírus podem estar

relacionadas à maior ou menor suscetibilidade do

porta-enxerto ou enxerto. Elas podem ser

transmitidas pelas borbulhas ou se devem à maior

sensibilidade da variedade.

A doença chamada tristeza ocorre quando se

enxerta laranja-doce sobre laranja-azeda. A

xiloporose ocorre na combinação laranja-barão sobre

lima-da-pércia.

Alterando-se a combinação enxerto e porta-

enxerto, a doença deixa de prejudicar o

desenvolvimento, por serem ambos tolerantes à

exocortis, que surge quando se enxerta laranja-doce

sobre cravo ou poncirus e desaparece quando se

substitui pelo porta-enxerto de laranja caipira.

Atualmente, a morte súbta dos citros ocorreu

em laranja doce enxertadas em determinados porta-

enxerto, assim, as variedades Valência, Pêra, Hamlin,

Natal, Westin e Pineapple apresentam se altamente

susceptíveis à MSC quando enxertadas sobre o limão

Cravo, e a variedade natal mantém susceptível sobre

o porta enxerto limão Volkamericano.

Indução de deficiência nutricional

Muitas deficiências que surgem nas copas das

plantas enxertadas têm como causa a barreira

levantada na região do enxerto. Essa barreira impede

ou dificulta a translocação ou movimento de

elementos nutritivos.

Quando a planta é enxertada, há em alguns

casos um estrangulamento na região da enxertia. Esta

funciona algumas vezes como crivo, podendo

facilitar ou dificultar a translocação de certos

elementos e exercer uma ação seletiva, levando a

planta a exibir sintomas de deficiência.

Analisando situação da combinação limão

sobre laranja-azeda ou pomelo, verificaram que os

cavalos apresentavam teor mais baixo de magnésio,

quando comparado com esses porta-enxertos não-

enxertados. Quando se enxertaram laranja-doce e

pomelo em cavalo de laranja caipira, encontrou-se

maior teor de magnésio solúvel no cavalo.

Assim, a deficiência de uma planta não está

ligada somente à maior ou menor disponibilidade dos

elementos no solo, mas também à afinidade que

determinados porta-enxertos possuem em absorver e

translocar esses elementos.

4.3. Métodos de propagação vegetativa

Dentre os processos de propagação agâmica,

os principais são: estaquia, mergulhia e enxertia.

4.3.1. Estaquia

Estaquia é o termo utilizado para o processo de

propagação no qual ocorre a indução do

enraizamento adventício em segmentos destacados da

planta-mãe, que, uma vez submetidos a condições

favoráveis, origina uma muda. A estaquia baseia-se

no princípio de que é possível regenerar uma planta a

partir de uma porção de raízes (regeneração de

ramos). Desse modo, a partir de um segmento, é

possível formar-se uma nova planta.

Entende-se por estaca qualquer segmento da

planta-mãe, com pelo menos uma gema vegetativa,

capaz de originar uma nova planta podendo haver

estacas de ramos, de raízes e de folhas.

Utilização

A estaquia é, sem dúvida, um dos principais

métodos utilizados na multiplicação de plantas

frutíferas. Inúmeras espécies de interesse comercial

podem ser propagadas por este método, destacando-

se a produção direta de mudas de figueira e a

propagação de porta-enxertos de videira.

Em espécies que são comumente propagadas

por outros métodos (sementes, mergulhia, enxertia), a

estaquia pode ser uma alternativa viável para a

produção de mudas. A viabilidade do uso da estaquia

na propagação comercial é função da facilidade de

enraizamento de cada espécie e/ou cultivar, da

qualidade do sistema radicular formado e do

desenvolvimento posterior da planta na área de

produção. Muitas espécies de folhas caducas, como é

o caso do pessegueiro e da ameixeira, não são

propagadas comercialmente através de estacas.

Porém, se utilizadas técnicas como a nebulização

intermitente, a aplicação de reguladores de

crescimento, o anelamento, o estiolamento, a dobra

dos ramos, entre outras, os resultados poderão ser

satisfatórios e viáveis na maioria das espécies

frutíferas.

De modo geral, as aplicações da estaquia são:

a) multiplicação de variedades ou espécies que

possuem aptidão para emitir raízes adventícias;

b) produção de porta-enxertos clonais;

c) perpetuação de novas variedades oriundas

de processos de melhoramento genético.

Vantagens e desvantagens

Como vantagens da estaquia podem ser

apontadas:

a) permite que se obtenha muitas plantas a partir de

uma única planta matriz em curto espaço de tempo;

b) é uma técnica de baixo custo e de fácil execução;

c) não apresenta problemas de incompatibilidade

entre enxerto e o porta-enxerto;

d) plantas produzidas com porta-enxertos originados

de estacas apresentam maior uniformidade do que

plantas enxertadas sobre mudas oriundas de

sementes.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 49

Tipos de estacas

A estaca pode ser obtida de órgãos aéreos ou

subterrâneos.

Aéreas

herbáceas

folha

ramos ponteiros

lenhosas

simples

talão

Estacas cruzeta

tanchão

gema

enxerto

Subterrâneas raiz

Pode-se afirmar que a propagação por estacas

praticamente não apresenta inconvenientes.

Entretanto, nem sempre é viável se reproduzirem

plantas por estacas, especialmente quando a espécie

ou cultivar apresenta um baixo potencial genético de

enraizamento, resultando em pequena percentagem

de mudas obtidas. Por outro lado, mesmo que haja

formação de raízes, o seu desenvolvimento pode ser

insuficiente e o percentual de mudas que sobrevivem

após o plantio no viveiro pode ser muito baixo.

Nestes casos, ainda que seja possível se produzirem

estacas enraizadas, deve-se dar preferência a outros

métodos de propagação assexuada.

Herbáceas

As estacas herbáceas são obtidas de ramos

apicais. Sua retirada deve ser feita pela manhã,

quando ainda estão túrgidas e com níveis mais

elevados de ácido abscísico e de etileno, que são

elementos favoráveis ao enraizamento (Fig. 4.2).

Figura 4.2. Estaca herbácea. Parte terminal de um

ramo em desenvolvimento.

Lenhosas

São obtidas de ramos lenhosos ou lignificados,

com idade entre 8 e 15 meses. As estacas lenhosas

encontram maior campo de aplicação do que as

herbáceas e, quase sem exceção, constituem-se no

material básico de propagação de árvores frutíferas.

• Estaca simples

A estaca simples é obtida subdividindo-se o

ramo em pedaços de 20 a 30 cm de comprimento. O

diâmetro dessa estaca normalmente varia de 0,5 a 1,5

cm e cada uma deve possuir de quatro a seis gemas

(Fig. 4.3A).

Figura 4.3. Diferentes tipos de estacas: A) simples;

B) talão; C) cruzeta; D) gema; E) raiz. Esse tipo de material constitui-se num dos

mais efetivos, tanto pelo rendimento que oferece

como na prática da estaquia.

• Estaca-talão

Difere da anterior por trazer consigo parte do

lenho velho, que se denomina talão. É obtida

destacando-se um ramo no ponto de inserção com

outro de dois anos. E utilizada quando a espécie ou

variedade apresenta dificuldade de enraizamento.

O número de estacas, nesse tipo, é inferior ao

das simples, pois só podem ser obtidas quando os

ramos apresentam bifurcação (Fig. 4.3B).

• Estaca-cruzeta

Assemelha-se ao tipo anterior, porém, em vez

de ser retirada com um pedaço de lenho velho na

forma de pata de cavalo, é obtida secionando-se o

ramo de dois anos, de modo a permitir maior porção

de lenho. Apresenta o formato de uma cruz (Fig.

4.3C).

• Estaca-tanchão

É um tipo de estaca pouco comum, que

apresenta comprimento que varia entre 60 e 80 cm ou

mais e diâmetro de 4 a 20 cm. É utilizada na

multiplicação de jabuticabeira, no Brasil, e de

oliveira, nos países europeus. A presença de lenho

velho na lingüeta favorece o enraizamento, por

possuir raízes pré-formadas. O mesmo ocorre com as

estacas de talão.

• Estaca-gema

O material de propagação é representado por

uma única gema e é utilizado em casos muito

especiais. Seu uso se restringe à multiplicação de

A B C D E

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 50

material muito valioso ou quando não se dispõe de

material em quantidade suficiente (Fig. 4.3D).

• Estaca-enxerto

As estacas de difícil propagação podem ter o

seu enraizamento facilitado utilizando-as como garfo

e a estaca de mais fácil enraizamento, como cavalo.

Subterrâneas

• Estaca-raiz

É um tipo de estaca pouco utilizado. Tem

algumas aplicações em pessegueiro, goiabeira e

caquizeiro (Fig. 4.3E). A melhor estaca é retirada de

plantas com dois a três anos de idade. A época mais

favorável é o fim do inverno e o início da primavera,

quando as raízes estão bem providas de reservas. Ao

plantá-la, deve-se manter a polaridade correta.

A estaca-raiz produz primeiro uma haste

adventícia, sobre a qual ocorre o enraizamento.

A polaridade é inerente aos ramos e raízes. A

estaca forma o broto na posição distal e as raízes, na

proximal.

A estaca-garfo deve ter comprimento maior

que o da estaca-cavalo e a enxertia é feita em

laboratório (enxerto de mesa).

Na estaquia, enterra-se também parte do garfo.

O seu enraizamento pode ser facilitado pelo uso de

um estimulante de raiz na região de união de ambas

as estacas. O AIB é recomendado.

Após o enraizamento das duas estacas,

reduzem-se as raízes do cavalo para estimular as do

garfo.

Em citros, C. medica enraíza facilmente, ao

passo que o C. aurantium apresenta dificuldade, e

esse processo facilita a sua propagação vegetativa.

Princípios anatômicos do enraizamento

No momento em que uma estaca é preparada,

esta consiste de uma ou mais gemas (sistema aéreo

em potencial) e de uma porção de tecido

diferenciado, aéreo ou subterrâneo, sem sistema

radicular formado. As raízes formadas na estaca

serão, portanto, uma resposta ao traumatismo

produzido pelo corte.

Com o preparo da estaca, há uma lesão dos

tecidos, tanto de células do xilema quanto do floema.

Este traumatismo é seguido de cicatrização, que

consiste da formação de uma capa de suberina, que

reduz a desidratação na área danificada. Nesta região,

em geral, há a formação de uma massa de células

parenquimatosas que constituem um tecido pouco

diferenciado, desorganizado e em diferentes etapas de

lignificação, denominado calo. O calo é um tecido

cicatricial que pode surgir a partir do câmbio

vascular, do córtex ou da medula, cuja formação

representa o início do processo de regeneração. As

células que se tornam meristemáticas dividem-se e

originam primórdios radiculares. Após, células

adjacentes ao câmbio e ao floema iniciam a formação

de raízes adventícias. Pode-se dividir a formação de

raízes adventícias em duas fases. Uma primeira fase,

de iniciação, caracterizada pela divisão celular e

após, uma fase de diferenciação das células em um

primórdio radicular, que resulta no crescimento da

raiz adventícia. Estes processos, em geral, ocorrem

em seqüência.

Figura 4.4. Estruturas morfológicas do caule e

formação de primórdios radiculares (adaptado de

JANICK, 1966).

Durante a iniciação das raízes, quatro etapas

de modificações morfológicas podem ser citadas:

a) desdiferenciação de algumas células adultas;

b) formação de iniciais de raízes próximas aos

feixes vasculares;

c) formação de primórdios radiculares;

d) desenvolvimento dos primórdios e

emergência, através do córtex e epiderme da estaca,

das raízes adventícias, acompanhado da sua conexão

com o sistema vascular da estaca.

O local de emissão dos primórdios radiculares

é bastante variável conforme a espécie e o tipo de

estaca. Em estacas herbáceas, que não possuem um

cambio desenvolvido, os primórdios podem surgir

entre os feixes vasculares e para fora destes e as

raízes podem emergir em filas, acompanhando os

feixes vasculares. As raízes adventícias também

podem ser formadas a partir da epiderme e do

periciclo. Já em estacas lenhosas, os primórdios se

formam a partir do xilema secundário jovem, em

geral, em um ponto correspondente à entrada do raio

vascular. Também podem ser formados primórdios a

partir do câmbio, do floema, das lenticelas ou da

medula. À medida que o ramo se toma mais

lignificado, o local de formação das raízes parece se

deslocar em direção centrípeta, ou seja, em estacas

semilenhosas, originadas do floema, e em estacas

lenhosas, do câmbio. De modo geral, as raízes

adventícias se originam próximas ao cilindro

vascular.

Em algumas espécies, como Citrus medica,

Populus sp. e Ribes sp., há primórdios radiculares

pré-formados latentes no momento da coleta das

estacas, de modo que, uma vez colocadas em

condições favoráveis, formam raízes.

Muitas vezes é observada, na base da estaca,

como resultado de um traumatismo, a formação de

calo. Ainda que sejam fenômenos independentes, a

formação do calo e o aparecimento das raízes

adventícias são influenciados, na maioria dos casos,

pelos mesmos fatores e podem ocorrer

simultaneamente. Tem sido observado que, ao menos

para algumas espécies de difícil enraizamento, a

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 51

formação de raízes se dá sobre o calo, ainda que a

formação de calo não seja um prenúncio seguro da

formação de raízes adventícias. Não há uma relação

direta entre formação de calo e enraizamento. O calo

pode ser ainda uma barreira protetora ao ataque de

microrganismos. É possível que estacas com calo

respondam mais facilmente ao uso de promotores

exógenos de enraizamento do que estacas sem

formação de calo.

A localização das raízes adventícias é variável

e algumas espécies somente formam raízes na base

da estaca, outras em nós ao longo do caule, e outras

nos nós e entrenós.

A casca pode constituir-se em uma barreira à

emergência das raízes. Um anel de esclerênquima

contínuo altamente lignificado entre o berna e o

córtex pode ser uma das causas da dificuldade de enraizamento em determinadas espécies. Caso este

esclerênquima não seja rompido mecanicamente, as

raízes podem emergir na base da estaca.

Princípios fisiológicos do enraizamento

A capacidade de uma estaca emitir raízes é

função de fatores endógenos e das condições

ambientais proporcionadas ao enraizamento. O

manejo da estaquia, para proporcionar o desejado

sucesso na produção de mudas, requer o

conhecimento e a aplicação destes princípios. Além

disso, o estudo destes aspectos pode auxiliar a

caracterização de uma espécie como sendo de fácil

ou difícil enraizamento. Tem sido observado que a

formação de raízes adventícias deve-se à interação de

fatores existentes nos tecidos e à translocação de

substâncias localizadas nas folhas e gemas. Entre

estes fatores, os reguladores de crescimento são de

importância fundamental. Outros compostos, alguns

deles parcialmente conhecidos, também têm

influência indireta sobre o enraizamento.

Auxinas

As auxinas compõem o grupo de reguladores

de crescimento que apresenta o maior efeito na

formação de raízes em estacas. Possuem ação na

formação de raízes adventícias, na ativação das

células do câmbio e na promoção do crescimento das

plantas, além de influenciarem a inibição das gemas

laterais e a abscisão de folhas e frutos.

O AIA (ácido indol-3-acético) foi identificado

em 1934 e se constitui na auxina de ocorrência mais

comum nas plantas. Uma das primeiras utilizações

práticas da auxina foi a de promover o enraizamento

em segmentos de plantas. Posteriormente, outras

substâncias de origem exógena, como o AIB (ácido

indolbutírico) e o ANA (ácido naftalenacético)

mostraram-se até mesmo mais eficientes do que o

AIA na promoção do enraizamento de estacas,

mesmo que fossem de origem exógena.

A auxina é sintetizada nas gemas apicais e

folhas novas, de onde é translocada para a base da

planta por um mecanismo de transporte polar. Os

ápices radiculares também produzem auxinas, porém

não há acumulação nas raízes devido ao elevado teor

de substâncias inativadoras de auxinas nesta parte da

planta.

O aumento da concentração de auxina exógena

aplicada em estacas provoca efeito estimulador de

raízes até um valor máximo, a partir do qual qualquer

acréscimo de auxinas tem efeito inibitório. O teor

adequado de auxina exógena para estímulo do

enraizamento depende da espécie e da concentração

de auxina existente no tecido.

No momento em que a auxina é aplicada, há

um aumento da concentração na base da estaca e,

caso os demais requerimentos fisiológicos sejam

satisfeitos, há formação do calo, resultante da

ativação das células do câmbio e das raízes

adventícias.

Giberelinas

Dentre as giberelinas encontradas na natureza,

o AG3 (ácido giberélico) é o mais importante. Uma

vez que a principal ação das giberelinas é o estímulo

ao crescimento do caule, em concentrações a partir de

10-3

molar as giberelinas inibem o enraizamento,

possivelmente devido à interferência na regulação da

síntese de ácidos nucléicos. Por outro lado, inibidores

da síntese de giberelinas, como SADH (ácido

succínico 2,2-dimetilhidrazida) ácido abscísico e

paclobutrazol, mostram efeito benéfico no

enraizamento.

Citocininas

As citocininas tem efeito estimulador da

divisão celular na presença de auxinas. Dessa forma,

há um estímulo à formação de calos e à iniciação de

gemas. Entretanto, espécies com elevados teores de

citocininas em geral são mais difíceis de enraizar do

que aquelas com conteúdos menores, sugerindo que a

aplicação de citocininas inibe a formação de raízes

em estacas. Por outro lado, em estacas de raiz, as

citocininas podem estimular a iniciação de gemas.

Uma relação auxina/citocinina baixa estimula

a formação de gemas ou primórdios foliares, ao passo

que uma relação elevada estimula a formação de

raízes. No cultivo “in vitro”, uma relação equilibrada

promove a formação de calo e permite uma boa

regeneração de plantas a partir de meristemas.

Ácido abscísico

A princípio, os dados sobre ácido abscísico,

um inibidor do crescimento na formação de raízes

adventícias, são contraditórios, dependendo da

concentração e do estado nutricional da planta-mãe.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 52

Etileno

Em baixas concentrações (próximas a 10

ppm), o etileno estimula a formação e o

desenvolvimento de raízes. Possivelmente, o etileno

sintetizado quando da aplicação de auxina explica o

efeito desta no enraizamento de estacas. Entretanto, o

efeito do etileno é mais dependente de interações

complexas do que da simples concentração deste

regulador.

O estudo isolado do efeito de um regulador,

em geral, não permite explicar satisfatoriamente a sua

influência no enraizamento, de forma que o equilíbrio

entre estes diferentes compostos pode realmente

explicar os mecanismos fisiológicos envolvidos. O

equilíbrio hormonal numa planta varia com a época

do ano e com a fase fisiológica.

Além dos reguladores do crescimento, outras

substâncias de ocorrência natural, denominadas

“cofatores do enraizamento’, que atuam

sinergicamente com as auxinas, são necessárias para

que se dê o enraizamento. Estes cofatores são

sintetizados em gemas e folhas jovens e, em maior

quantidade, em estacas provenientes de plantas

jovens. São transportados pelo floema a partir dos

locais de síntese. Dessa forma, é caracterizada a

importância, para muitas espécies, de serem mantidas

as folhas e gemas em atividade vegetativa. Estes

órgãos atuam como um laboratório de produção de

reguladores de crescimento e nutrientes. As folhas

contribuem para a formação das raízes, devido à

síntese de cofatores ou carboidratos.

O termo “rizocalina” foi adotado inicialmente

por Bouillenne e Went (1933) e engloba o conjunto

de substâncias, além dos reguladores de crescimento,

que estimulam o enraizamento, muitas delas ainda

não conhecidas totalmente. Em 1955, foi proposto

que a rizocalina seria um complexo formado por 3

componentes:

a) um orto-dihidroxifenol, fator especifico

transportado a partir das folhas;

b) a auxina, fator não-especifico;

e) uma enzima especifica, do tipo

polifenoloxidase, encontrada em alguns tecidos

(periciclo, floema e câmbio). A reação entre estes três

componentes origina a rizocalina.

As relações hipotéticas entre os vários

componentes que conduzem à iniciação de raízes

adventícias, segundo HARTMANN & KESTER

(1990), são mostradas no esquema a seguir:

Os cofatores do enraizamento não estão todos

quimicamente determinados. Sabe-se que o cofator 3

é o ácido isoclorogênico e o cofator 4 consiste de

terpenóides oxigenados. Além disso, o composto

fenólico catecol, que atua protegendo a auxina da

ação da AIA oxidase, o ácido abscísico, de ação

antagônica à síntese de giberelinas e o floroglucinol,

que atua sinergicamente com o AIB, são substâncias

com atividade no enraizamento, mas há necessidade

de comprovação.

Os inibidores do enraizamento, ainda que na

sua maioria não estejam determinados quimicamente,

são freqüentemente associados com a facilidade de

enraizamento em algumas espécies. Em determinadas

situações, a lavagem dos inibidores e sua lixiviação

estimulam o enraizamento.

Em nível bioquímico, o enraizamento e o

desenvolvimento de raízes são acompanhados da

síntese de proteínas e de RNA (ácido ríbonucleico).

Além disso, há modificações nos padrões e

concentrações de DNA (ácido desoxirribonucléico) e

aumento da atividade enzimática à medida que as

raízes se desenvolvem. Em estacas de ameixeira,

observouse que o calo e as raízes em formação atuam

como um dreno dos carboidratos da estaca.

Fatores que afetam a formação de raízes

O conhecimento dos fatores que afetam a

formação de raízes é importante para que se possa

explicar por que uma espécie tem facilidade ou

dificuldade de enraizar. Além disso, o adequado

manejo destes fatores permitirá que haja mais chance

de sucesso na produção de mudas por estaquia.

Podem-se classificar os fatores que afetam o

enraizamento em:

Fatores internos

- Condição fisiológica da matriz

- Idade da planta

- Tipo de estaca

- Época do ano

- Potencial genético de enraizamento

- Sanidade

- Balanço hormonal

- Oxidação de compostos fenólicos.

Fatores externos

- Temperatura

- Luz

- Umidade

- Substrato

Ácido giberélico (AG)

(bloqueia a divisão celular)

Ácido abscísico

(antagônico ao AG)

Iniciação

de raízes

COFATOR 1

COFATOR 2

COFATOR 3

(Ácido iso-

clorogênico)

COFATOR 4

(terpenóides

oxigenados)

Auxina

(AIA)

Complexo

cofator/AIA RNA

Polifenol

oxidase Glicose

Compostos

nitrogenados

Cálcio

Outros nutrientes

+

Oxidase de ácido

indolacético

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 53

- Condicionamento

De modo geral, a interação entre fatores, e não

o estudo isolado destes, é que permite se explicarem

melhor as causas do enraizamento. Quanto mais

difícil for o enraizamento de uma espécie e/ou

cultivar, tanto maior a importância dos fatores que o

afetam.

Fatores internos

Condição fisiológica da planta matriz

Por condição flsiológica da planta matriz

entende-se o conjunto das características internas da

mesma, tais como o conteúdo de água, teor de

reservas e de nutrientes, por ocasião da coleta das

estacas.

Estacas retiradas de uma planta matriz em

déficit hídrico tenderão a enraizar menos do que

aquelas obtidas sob adequado suprimento de água.

A condição nutricional da planta matriz afeta

fortemente o enraizamento. No que se refere ao teor

de carboidratos, tem-se observado que reservas mais

abundantes correlacionam-se com maiores

percentagens de enraizamento e sobrevivência de

estacas. A importância dos carboidratos refere-se ao

fato de que a auxina requer uma fonte de carbono

para a biossíntese dos ácidos nucléicos e proteínas, e

leva à necessidade de energia e carbono para a

formação das raízes. Além do teor de carboidratos, a

relação C/N (Carbono/Nitrogênio) é importante.

Relações C/N elevadas induzem a um maior

enraizamento, mas com produção de uma pequena

parte aérea, ao passo que estacas com baixa relação

C/N, devido a um elevado teor de nitrogênio, são

pobres em compostos necessários ao enraizamento e

mostram pouca formação de raízes. Relações C/N

adequadas permitem que se obtenha um bom

equilíbrio entre as raízes e a parte aérea formada,

além de maior enraizamento. O teor de carboidratos

varia conforme a época do ano, sendo que em ramos

de crescimento ativo (primavera/verão) o teor é mais

baixo. Ramos maduros e mais lignificados

(outono/inverno) tendem a apresentar mais

carboidratos. Em geral, estacas com um maior

diâmetro apresentam maior quantidade de substâncias

de reserva e tendem a enraizar mais, ainda que, por

vezes, um maior diâmetro esteja relacionado com

mais brotações e poucas raízes.

No que se refere à composição nutricional, um

conteúdo equilibrado de alguns nutrientes, como o P,

K, Ca e Mg, favorece o enraizamento. Ainda que o N

seja necessário para a síntese de proteínas e ácidos

nucleicos, essenciais ao enraizamento, seu teor em

excesso pode ser prejudicial. O excesso de Mn

também pode prejudicar o enraizamento. O zinco é

ativador do triptofano, precursor da auxina, e deve

estar presente para que se dê a formação de raízes.

Cuidados devem ser tomados especialmente com o

conteúdo excessivo de N e Mn na planta-mãe,

demonstrando a importância de um adequado manejo

de adubação das plantas matrizes para obtenção das

estacas.

Idade da planta

De modo geral, estacas provenientes de

plantas jovens enraizam com mais facilidade e isso

especialmente se manifesta em espécies de difícil

enraizamento. Possivelmente este fato esteja

relacionado com o aumento no conteúdo de

inibidores e com a diminuição no conteúdo de

cofatores (compostos fenólicos) à medida que

aumenta a idade da planta. É recomendável a

obtenção de brotações jovens em plantas adultas, as

quais, mesmo não caracterizando uma verdadeira

condição de juvenilidade, têm mais facilidade de

enraizamento.

Tipo de estaca

Em espécies de fácil enraizamento, a

importância do tipo de estaca na formação de raízes é

pequena. Entretanto, quanto maior a dificuldade de

formação de raízes adventícias, tanto maior a

necessidade da correta escolha do tipo de estaca. O

tipo ideal de estaca varia com a espécie ou, até

mesmo, com a cultivar.

Como a composição química do tecido varia

ao longo do ramo, estacas provenientes de diferentes

porções do mesmo tendem a diferir quanto ao

enraizamento. Assim, em estacas lenhosas, o uso da

porção basal geralmente proporciona os melhores

resultados. Isso pode ser devido à acumulação de

substâncias de reserva, a um menor teor de N

(resultando uma relação C/N mais favorável) e à

presença de iniciais de raízes pré-formadas nesta

região. Fato inverso se observa com estacas

semilenhosas, para as quais os maiores percentuais de

enraizamento são obtidos com a porção mais apical.

Neste caso, isto pode ser atribuído a uma maior

concentração de promotores do enraizamento, pela

proximidade dos sítios de síntese de auxinas, e à

menor diferenciação dos tecidos, resultando em

maior facilidade de as células voltarem a ser

meristemáticas.

Estacas com gemas floríferas, ou coletadas

durante a floração, tendem a enraizar menos que

aquelas provenientes de ramos vegetativos em fase de

crescimento ativo, o que mostra um antagonismo

entre a floração e o enraizamento.

A presença de um talão (segmento de ramo

velho na base da estaca) pode, em certos casos, como

no marmeleiro, favorecer a formação de raízes,

provavelmente em função da existência de iniciais de

raízes pré-formadas em tecidos de mais idade.

Estacas mais lignificadas geralmente

apresentam maior dificuldade de enraizamento do

que estacas de consistência mais herbácea.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 54

Época do ano

A época do ano está estreitamente relacionada

com a consistência da estaca, sendo que estacas

coletadas em um período de crescimento vegetativo

intenso (primavera/verão) apresentam-se mais

herbáceas e, de modo geral, em espécies de difícil

enraizamento, mostram maior capacidade de

enraizamento. Já estacas coletadas no inverno

possuem um maior grau de lignificação e tendem a

enraizar menos. Entretanto, estacas menos

lignificadas (herbáceas e semilenhosas) são mais

propícias à desidratação e à morte, requerendo um

manejo adequado de irrigação, ao passo que estacas

lenhosas podem até mesmo serem enraizadas no

campo. Em muitos casos, especialmente em espécies

caducifólias, as estacas lenhosas dormentes são

preferidas em função da sua facilidade de transporte e

manuseio.

No que se refere à época mais adequada para

obtenção das estacas, há diferença entre espécies,

sendo que algumas enraízam melhor no início da

primavera e outras, de folhas grandes e persistentes,

desde a primavera até fins do outono.

A influência da época de coleta das estacas no

enraizamento pode ser também atribuída a condições

climáticas, especialmente no que se refere à

temperatura e à disponibilidade de água.

Potencial genético de enraizamento

A potencialidade de uma estaca formar raízes

é variável com a espécie e também com a cultivar.

Nesse sentido, pode ser feita uma classificação como

espécie ou cultivar de fácil, mediano ou difícil

enraizamento, ainda que a facilidade de enraizamento

seja resultante da interação de diversos fatores e não

apenas do potencial genético.

Sanidade

Em estacas de macieira e de Ribes spp.,

observou-se que clones livres de vírus têm uma maior

facilidade de enraizamento do que o material

envirosado, havendo também efeito das viroses sobre

a qualidade das raízes formadas e sobre a

variabilidade de resultados entre diversas estaquias

realizadas sob as mesmas condições. Da mesma

forma que com as viroses, o ataque de fungos e

bactérias pode ocasionar a morte das estacas, antes ou

após a formação de raízes, podendo afetar a

sobrevivência das estacas ou a qualidade do sistema

radicular da muda.

A sanidade durante a estaquia é influenciada

pelo grau de contaminação do material propagativo,

pelo substrato, pela qualidade da água de irrigação e

pelos tratamentos fitossanitários que venham a ser

realizados neste período.

Balanço hormonal

O equilíbrio entre os diversos reguladores do

crescimento tem forte influência no enraizamento de

estacas. Assim, é necessário que haja um balanço

adequado, especialmente entre auxinas, giberelinas e

citocininas. Uma das formas mais comuns de

favorecer o balanço hormonal para o enraizamento é

a aplicação exógena de reguladores de crescimento

sintéticos, tais como o AIB (ácido indolbutírico), o

ANA (ácido naftalenacético) e o AIA (ácido

indolacético), os quais elevam o teor de auxinas no

tecido. O paclobutrazol, por outro lado, é um inibidor

da síntese de giberelinas, que são inibidoras do

enraizamento, e seu uso favorece o equilíbrio

hormonal para o enraizamento.

Tipos de auxinas sintéticas

As principais auxinas sintéticas e algumas

de suas características constam na Tabela 4.3.

Tabela 4.3. Principais auxinas sintéticas no

enraizamento de estacas.

Nome Sigla Vantagens Desvantagens

Ácido indo-

lacético

AIA

IAA

alta atividade de

enraizamento

Fotossensível, sujeito à

decomposição

enzimática (oxidase do

AIA) e bacteriana

Ácido

indolbutírico

AIB

IBA

fotoestável, de ação

localizada, persistente e

não tóxica em ampla

gama de concentrações,

não é atacado por ação

biológica

Ácido nafta-

lenoacético

ANA

NAA

mais ativo que o AIB e

AIA

mais fitotóxico que o

AIB e AIA

Ácido 2,4-di-

clorodwnoxi-

acético

Ácido 2,4,5-

triclorofeno-

xiacético

2,4-D

2,4,5-T

alta atividade enraizante,

viável de ser utilizado

em misturas

Altamente fitotóxicos, a

concentração ótima fica

muito próxima do limite

de toxidez; em altas

concentrações são

produzidas raízes

grossas e atrofiadas

Oxidação de compostos fenólicos

Em algumas espécies, especialmente as

pertencentes à família Myrtaceae, o forte

escurecimento na região do corte da estaca,

ocasionado pela oxidação de compostos fenólicos,

pode dificultar a formação de raízes. Os diferentes

tipos de fenóis nos tecidos, ao entrarem em contato

com o oxigênio, iniciam reações de oxidação, cujos

produtos resultantes são tóxicos ao tecido. A

oxidação destes compostos pode ser minimizada com

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 55

o uso de substâncias antioxidantes, tais como o ácido

ascórbico, o PVP (polivinilpirrolidona), o ácido

cítrico e o DLECA (dietilditiocarbamato), além de

outros. Têm sido obtidos resultados preliminares que

demonstram a importância do controle da oxidação

no cultivo “in vitro’. Entretanto, a significância e a

eficiência do controle da oxidação na propagação por

estacas ainda carecem de maiores informações, visto

que os resultados obtidos até o momento são

incipientes.

Fatores externos

Temperatura

O aumento da temperatura favorece a divisão

celular para a formação de raízes; porém,

especialmente em estacas herbáceas e semilenhosas,

estimula uma elevada taxa de transpiração, induzindo

o murchamento da estaca. Além disso, pode

favorecer o desenvolvimento de brotações antes que

o enraizamento tenha ocorrido, o que é indesejável.

Com o objetivo de estimular o enraizamento de

estacas lenhosas, recomenda-se manter o substrato

aquecido de modo a reduzir a respiração e a

transpiração na parte exposta ao ar, e a favorecer a

divisão celular na região de formação de raízes. E

citado que temperaturas diurnas de 21 a 260C e

noturnas de 15 a 21 0C são consideradas adequadas

ao enraizamento.

Luz

A importância da luz no enraizamento diz

respeito à fotossíntese e à degradação de compostos

fotolábeis como as auxinas. De modo geral, baixa

intensidade luminosa sobre a planta-mãe previamente

à coleta das estacas, tende a favorecer a formação de

raízes, provavelmente devido à preservação das

auxinas e de outras substâncias endógenas.

O estiolamento dos ramos dos quais serão

retiradas as estacas facilita o enraizamento e é uma

prática recomendada, especialmente no caso de

espécies de difícil enraizamento. Na região basal da

estaca, onde serão formadas as raízes, é necessário

que se mantenha um ambiente completamente escuro.

Umidade

Para que haja divisão celular, é necessário que

as células se mantenham túrgidas. O potencial de

perda de água em uma estaca é muito grande, seja

através das folhas ou das brotações em

desenvolvimento, especialmente considerando o

período em que não há raízes formadas. A perda de

água é uma das principais causas da morte de estacas.

Portanto, a prevenção do murchamento é

especialmente importante em espécies que exigem

um longo tempo para formar raízes e nos casos em

que são utilizadas estacas com folhas e/ou de

consistência mais herbácea. O uso da nebulização

intermitente permite a redução da perda de umidade

pela formação de uma película de água sobre as

folhas, além da diminuição da temperatura, com

manutenção da atividade fotossintética em estacas

com folhas. Por outro lado, a alta umidade favorece o

desenvolvimento de patógenos, para os quais devem

ser dispensados cuidados especiais.

Substrato

O substrato destina-se a sustentar as estacas

durante o período do enraizamento, mantendo sua

base em um ambiente úmido, escuro e

suficientemente aerado. Os efeitos do substrato, tanto

sobre o percentual de enraizamento como sobre a

qualidade das raízes formadas, relacionam-se

especialmente com a porosidade, a qual afeta o teor

de água retida e o seu equilíbrio com a aeração.

Diferentes materiais são utilizados como meios para

enraizamento, como, por exemplo, a areia, a

vermiculita, a cinza de casca de arroz, a casca de

arroz carbonizada, o solo e outros.

O substrato mais adequado varia para cada

espécie. De um modo geral, pode-se afirmar que um

bom substrato é aquele que:

a) proporciona a retenção de um teor de água

suficiente para manter as células túrgidas e prevenir o

murchamento das estacas;

b) permite uma aeração na base da estaca, de

modo a permitir a iniciação e o desenvolvimento das

raízes;

c) apresenta uma boa aderência à estaca;

d) não favorece a contaminação e o

desenvolvimento de organismos patógenos e

saprófitos;

e) permite que as estacas enraizadas sejam

removidas com um mínimo de dano às raízes;

f) é de baixo custo de aquisição e de fácil

obtenção;

g) não contém ou libera qualquer tipo de

substância que exerça efeito fitotóxico à estaca.

O pH do substrato afeta o enraizamento, sendo

que para algumas espécies a diminuição do pH

favorece o enraizamento e dificulta o

desenvolvimento de microorganismos. Não é

necessário que o substrato forneça nutrientes, uma

vez que o enraizamento se dá às expensas da própria

estaca.

Condicionamento

Em espécies de difícil enraizamento, alguns

tratamentos que venham a ser realizados previamente

à estaquia podem permitir a obtenção de bons

resultados. Em diversos casos, o condicionamento é

fundamental para que se possa obter um percentual

de enraizamento satisfatório. Como exemplos, podem

ser citados o tratamento com reguladores de

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 56

crescimento, o anelamento, o estiolamento, a dobra

de ramos, entre outros.

Preparo e manejo das estacas

Uma vez selecionados os ramos, é necessário

que estes sejam levados a um galpão ou estrutura

semelhante, onde as estacas serão preparadas. O

preparo das estacas pode ser feito com tesoura de

poda ou para estacas lenhosas em grandes

quantidades, com uso de senas elétricas. Uma vez

preparadas, as estacas devem ser mantidas em água

até o momento de serem colocadas no substrato.

O comprimento e o diâmetro das estacas varia

conforme a espécie e o tipo de estaca. Estacas

lenhosas podem ter um comprimento variável de 20 a

30 cm e um diâmetro que geralmente se situa entre

0,6 e 2,5 cm. Estacas semilenhosas apresentam um

comprimento, em geral, de 7,5 a 15 cm, e estacas

herbáceas podem ser ainda menores.

Após o preparo, é conveniente a separação das

estacas em grupos conforme o seu tamanho. Isso

permite a obtenção de lotes homogêneos de plantas, o

que facilitará a realização de operações posteriores. É

ainda recomendável a identificação dos lotes de

estacas por cultivar, visando evitar a mistura

posterior no viveiro.

Em estacas semilenhosas e/ou de consistência

mais herbácea, a presença de folhas favorece o

enraizamento, devido, provavelmente, à produção de

cofatores do enraizamento nas folhas. Da mesma

forma, em estacas lenhosas, a presença de gemas nas

estacas aumenta o percentual de enraizamento em

diversas espécies. A presença de folhas nas estacas,

por outro lado, representa uma superfície

transpiratória cuja taxa de perda de água é aumentada

em condições de elevada temperatura, normalmente

observada nas épocas de coleta de estacas menos

lignificadas. Por esta razão, é necessário o uso de

nebulização nas estacas folhosas. Em geral, são

mantidas apenas 2 ou 3 folhas na parte superior da

estaca, podendo estas ser cortadas ao meio, como

forma de facilitar o manejo e reduzir a perda de água.

O corte superior da estaca deve ser feito logo

acima de uma gema e o inferior, logo abaixo. Esta

recomendação é mais viável de ser seguida quando é

feito o preparo individual das estacas. Quando se

trabalha com estacas lenhosas, com corte em feixes

de 50 ou 100 estacas, o posicionamento do corte pode

não ser o mais adequado.

É possível o armazenamento das estacas

lenhosas durante o inverno e este procedimento

permite, em alguns casos, a formação de calo ou de

iniciais de raízes. Para tanto, podem ser utilizados

leitos aquecidos ou o simples armazenamento em

substrato umedecido. Deve-se evitar a desidratação

das estacas armazenadas, bem como acompanhar a

brotação das mesmas, pois, caso contrário, ocorrerá

uma perda de água, com prejuízos ao enraizamento.

O tratamento com reguladores de crescimento pode

ser realizado ainda no armazenamento.

O uso de estacas de folha com gema é citado

na propagação de limoeiro, framboesa negra, camélia

e azaléia, além de outras; porém, é pouco usado em

fruticultura. Utiliza-se um nó com uma folha e uma

gema por estaca, preferencialmente de material que

tenha gemas bem desenvolvidas e folhas sadias em

crescimento ativo.

Para algumas espécies, cortes laterais na base

da estaca favorecem o enraizamento, especialmente

naquelas em que o esclerênquima se constitui numa

barreira física à emissão de raízes. A exposição do

câmbio, propiciada por estes cortes, também pode

facilitar a absorção de substâncias promotoras do

enraizamento.

Estaqueamento

O plantio das estacas pode ser realizado em

recipientes (sacos plásticos, vasos, baldes, caixas,

entre outros) em estruturas de propagação ou

diretamente no viveiro. O primeiro caso é aplicado

para estacas folhosas (semilenhosas ou herbáceas), as

quais necessitam de umidade constante sobre a folha.

Já o plantio direto no viveiro pode ser adequado para

estacas lenhosas, especialmente de espécies

caducifólias, quando a manutenção da umidade

propiciada pela chuva e/ou por irrigações esporádicas

é suficiente. Esta prática, denominada

‘enviveiramento’, destina-se principalmente à

propagação de plantas em larga escala e à

multiplicação de espécies ou cultivares de fácil

enraizamento. Neste caso, devem ser utilizadas áreas

de solos profundos, ~m drenados e com viabilidade

de uso da irrigação.

A profundidade de plantio é variável conforme

o tipo de estaca, sendo que, para estacas de ramos, é

aconselhável que dois terços sejam enterrados no

substrato. No que se refere a estacas de raiz, é

importante a manutenção destas em profundidade de

2,5 a 5,0 cm, na posição horizontal, de modo a

manter sua correta polaridade.

Como prevenção ao aparecimento de doenças,

é recomendável a imersão das estacas em solução

fungicida (Benomyl ou Captan). Para aumentar a

sobrevivência das estacas, pode-se misturar o

fungicida com o AIB (ácido indolbutírico), caso se

trabalhe com o regulador na forma de pó.

No momento do plantio, é importante garantir

uma boa aderência do substrato à estaca, uma vez que

grandes espaços porosos podem aumentar a

desidratação da estaca.

Técnicas de condicionamento

Estratificação

É uma prática que consiste na disposição de

camadas alternadas de areia grossa ou solo, em

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 57

condição úmida, e que objetiva proporcionar a

formação prévia do calo, além de permitir a

conservação da estaca. O aumento da temperatura e

da umidade, até certos limites aumenta a intensidade

de formação de calo. Devem ser tomados cuidados

para evitar o desenvolvimento de fungos ou bactérias,

a acumulação de água e o dessecamento, que são

prejudiciais à formação de raízes. E necessário que as

estacas sejam retiradas da estratificação, logo que

tenham formado o calo e/ou tenha ocorrido a

brotação das gemas.

Lesões na base da estaca

Especialmente em estacas que apresentam

madeira velha na sua base, os cortes nesta região

favorecem a formação de calo e de raízes nas bordas

da lesão (Figura 4.5).

Nesta região, a divisão celular é estimulada

por um aumento na taxa respiratória e nos teores de

auxina, carboidratos e etileno na área lesionada. A

lesão faz com que haja mais absorção de água e de

reguladores de crescimento, aumentando a sua

eficiência. Por outro lado, as lesões permitem que

haja rompimento da barreira física formada por anéis

de esclerênquima, a qual pode até mesmo impedir a

emergência das raízes. Para tanto, efetuam-se um ou

dois cortes superficiais de 2,5 a 5,0 cm na base da

estaca.

Estiolamento

Entende-se por estiolamento o

desenvolvimento de uma planta ou parte dela na

ausência de luz, resultando em brotações alongadas,

com folhas pequenas e não expandidas e com baixo

teor de clorofila. Além disso, são encontrados em

tecidos estiolados teores baixos de lignina e altos de

auxinas endógenas e de outros cofatores do

enraizamento, uma vez que estes últimos compostos

são sensíveis à luz (fotolábeis). Dessa forma, o

enraizamento é favorecido.

Pode-se efetuar o estiolamento de toda a

planta, de todo um ramo ou de parte do mesmo. Para

tanto, faz-se uma cobertura dos ramos em

desenvolvimento com plástico preto ou outro

material similar (papel alumínio, fita isolante e

outros), de modo que estes cresçam na ausência de

luz. O estiolamento parcial é realizado com a

cobertura apenas da base do ramo. O tempo de

estiolamento é variável conforme a espécie.

Anelamento

Consiste na obstrução da casca de um ramo na

planta matriz, de modo a bloquear a translocação

descendente de carboidratos, hormônios e cofatores

do enraizamento, permitindo a acumulação destes

compostos acima do local da obstrução, região que

será a base da futura estaca. O acúmulo destes

compostos favorece a formação e o crescimento das

raízes. Além disso, há um aumento da quantidade de

células parenquimatosas e de tecidos menos

diferenciados. O anelamento pode ser realizado com

um anel de arame ou com um corte na região basal ou

mediana do ramo de onde será retirada a estaca. O

anelamento deve ser realizado assim que o

comprimento do ramo permita, durante a fase ativa

de crescimento vegetativo, de forma a assegurar uma

acumulação significativa de compostos.

Entende-se por anelamento a obstrução

realizada através de um corte na região do córtex. O

estrangulamento, que apresenta a mesma finalidade, é

feito com a torção de um arame em volta do ramo

(Figura 4.6).

Figura 4.6. Processos de anelaniento (A) e

estrangulamento (B) em ramos da planta matriz.

Rejuvenescimento de ramos

Estacas oriundas de ramos com juvenilidade

tendem a apresentar um percentual maior de

enraizamento. Assim, qualquer técnica que permita

que o ramo retome à fase juvenil permitirá que se

evite a diminuição do potencial de enraizamento à

medida que a planta matriz envelhece. Uma poda

drástica da planta matriz induz à emissão de

Figura 4.5. Lesão na base de uma estaca com folhas.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 58

brotações juvenis, de maior capacidade de

enraizamento. Muitas vezes estas brotações são

resultantes dos esferoblastos, formações verrugosas

com tecido meristemático. Em algumas espécies,

como a macieira, é possível forçar a obtenção de

brotos adventícios juvenis a partir de estacas de raiz.

Dobra de ramos

Estes ramos ficam presos à planta por uma

porção de lenho e casca até a época de utilização das

estacas lenhosas (inverno). Este tipo de injúria

provoca um aumento da relação C/N e a formação de

um tecido pouco diferenciado, resultante da

cicatrização, na região da dobra, com aumento da

capacidade de emissão de raízes. Resultados

promissores foram obtidos com esta técnica no

enraizamento de estacas lenhosas de pessegueiro

(FACHINELLO et al., 1982). Ainda que a dobra dos

ramos não dispense o uso de fitorreguladores, há um

favorecimento do potencial de formação de raízes.

Tratamento com reguladores de crescimento

O uso de reguladores de crescimento tem por

finalidade aumentar a percentagem de estacas que

formam raízes, acelerar sua iniciação, aumentar o

número e a qualidade das raízes formadas e aumentar

a uniformidade no enraizamento. Alguns reguladores,

como as auxinas sintéticas, podem inibir o

desenvolvimento das gemas e, conseqüentemente,

dos ramos.

Esta prática destina-se a estabelecer um

balanço hormonal favorável ao enraizamento. Em

geral, são utilizadas auxinas sintéticas (AIB, ANA,

AIA, 2,4-D), que visam elevar o conteúdo hormonal

nos tecidos da estaca. Além disso, podem também ser

utilizados inibidores da síntese de giberelinas, as

quais são antagônicas ao processo de iniciação

radicular. Como exemplo, pode ser citado o

paclobutrazol. O tratamento com citocininas

(cinetina, benziladenina, benzilaminopurina) estimula

o desenvolvimento das brotações adventícias, o que é

importante, caso se trabalhe com estacas de folhas ou

de raízes.

A melhor substância promotora do

enraizamento, bem como as concentrações e métodos

de utilização mais adequados para uma determinada

situação, variam com a espécie e com o tipo de

estaca. Para verificar a sua eficiência, são necessários

testes empíricos.

Tratamento com fungicidas

Uma vez que a estaca, especialmente antes e

logo após o enraizamento, é bastante vulnerável ao

ataque de microorganismos e se encontra num

ambiente favorável à proliferação de doenças, a

proteção com o uso de fungicidas constitui-se numa

prática importante para a sobrevivínmcia das estacas

neste período. Em alguns casos, o enraizamento foi

aumentado com uso do fungicida Captan. Entretanto,

não está claro se este aumento se deve ao controle de

doenças ou a um aumento da ação do regulador de

crescimento, até mesmo como ativador da síntese de

auxina no tecido da estaca.

Uso de nutrientes minerais

Objetiva favorecer a condição nutricional da

estaca para o enraizamento. A adição de compostos

nitrogenados estimula o enraizamento em diversas

classes de plantas, possivelmente pelo fato de estes

compostos intervirem em interações hormonais. O

uso do boro em combinação com o AIB aumentou a

percentagem e a rapidez de formação de raízes em

Ilex sp.. A adubação de estacas de videira com zinco

resultou em maior enraizamento e desenvolvimento

de raízes, devido possivelmente a um incremento no

teor de triptofano, precursor da auxina, do qual o Zn

é ativador. A adubação de plantas matrizes de

ameixeira com zinco e boro aumentou os teores de

triptofano nas estacas.

Uso da nebulização

A nebulização é a aplicação de água na forma

de névoa (gotas de tamanho reduzido) sobre as

estacas, criando uma atmosfera destinada a reduzir a

perda de água pelas folhas. A redução das taxas de

transpiração e de respiração pelas folhas, bem como a

redução da temperatura das mesmas, são obtidas pela

formação de uma película de água sobre as folhas,

proporcionada pela nebulização intermitente. Isto

assegura a destinação de fotossintatos e nutrientes

para a formação das raízes.

É importante que a água seja aplicada em

intervalos regulares, durante todo o período diurno.

Para evitar o excesso de aplicação de água, pode ser

dispensado o funcionamento da nebulização durante

a noite. Nas horas mais quentes do dia, os intervalos

entre as nebulizações devem ser menores.

A nebulização pode ser instalada em telados,

estufas plásticas, ou mesmo no ambiente externo. O

ambiente protegido é o mais adequado para esta

técnica, uma vez que permite uma aplicação

controlada da água, além de evitar o efeito do vento

sobre a irrigação.

O controle dos intervalos de acionamento do

sistema de nebulização pode ser efetuado através de

alguns mecanismos, tais como:

- folha úmida, na qual há uma superfície de

tela, que simula a superfície de uma folha. Quando

esta superfície perde água a um nível pré-

estabelecido, é acionado o mecanismo da

nebulização;

- temporizador, que consiste em um aparelho

que aciona o sistema a intervalos regulares de tempo;

- controlador eletrônico de umidade,

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 59

constituído de um sistema computadorizado de

acionamento da irrigação, com base na temperatura

na umidade relativa do ar.

O uso de nutrientes na água de irrigação pode

melhorar a qualidade das raízes formadas e o

crescimento subseqüente das estacas enraizadas.

4.3.2. Mergulhia

É o método de propagação assexuada no qual

o enraizamento de uma porção da planta,

normalmente um ramo, é obtido com esta porção

ainda unida com a planta-mãe. Após a formação de

raízes, a porção enraizada é destacada da planta-mãe.

Os princípios que regem a formação de raízes, neste

caso, bem como os fatores que afetam o

enraizamento, são semelhantes aos mencionados na

estaquia. Porém, enquanto na estaquia o

enraizamento se dá às custas da própria estaca, na

mergulhia, a planta-mãe continua a fornecer

fotoassimilados e fitorregulares, substâncias

favoráveis ao enraizamento. O enraizamento é

favorecido porque são dadas condições de ausência

de luz, provocando o estiolamento e umidade, além

do curvamento dos ramos, que provoca a acumulação

das substâncias envolvidas no enraizamento.

A mergulhia é utilizada comercialmente na

propagação de porta-enxertos de macieira (mergulhia

de cepa), de mudas de lichieira e sapotizeiro

(alporquia), entre outras espécies. A mergulhia é

especialmente interessante para propagar espécies

com grande dificuldade de formação de raízes. É um

método pouco utilizado comercialmente, por ser de

baixo rendimento.

Os fatores que favorecem a regeneração de

plantas através da mergulhia são a ausência de luz

(que provoca estiolamento do ramo e, por

conseqüência, acúmulo de auxinas e redução dos

teores de lignina e de compostos fenólicos), cobertura

com solo úmido e poroso, nutrição adequada e

elevada atividade fisiológica da planta-mãe, pouca

idade dos ramos, aplicação de fitorreguladores e

prática de anelamento.

Existem basicamente dois tipos de mergulhia -

a mergulhia no solo e a mergulhia aérea ou alporquia.

A mergulhia no solo pode ser classificada em

algumas formas principais:

- No solo

A mergulhia é feita no solo, em plena terra ou

em vaso, quando os ramos das espécies são flexíveis

e de fácil manejo.

O ramo ou mergulho, em qualquer um dos

processos de mergulhia, deve ser anelano, com anel

de 2cm, e pode ser tratado com auxina.

- Mergulhia simples normal

Consiste em enterrar a porção mediana do

ramo no solo. A parte terminal do ramo é mantida

fora do solo e em posição vertical. A parte que

permanece sob o solo emite raízes e forma uma

planta (Figura 4.7).

- Mergulhia simples invertida

É semelhante à anterior, mas, em vez de o

ramo-mergulho apresentar a parte apical fora do solo,

esta é dirigida diretamente para o terreno.

O enraizamento se dará na parte apical, que

ficará enterrada, como uma estaca investida.

Como o ramo permanece em posição

invertida, as folhas, ao serem emitidas, apresentam

pequenas curvaturas, dando aspecto diferente às

plantas. Esse processo é mais ornamental do que

econômico e tende a dar origem a plantas de menor

porte (Figura 4.8).

Figura 4.7. Mergulhia simples, normal.

Figura 4.8. Mergulhia simples, invertida.

normal

invertida

chinesa

serpenteada

invertida

simples

contínua

cepa

alporquia

no solo

no alto

Mergulhia

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 60

- Mergulhia contínua

A mergulhia contínua difere das outras por

possibilitar a obtenção de maior número de novas

plantas. Na mergulhia simples, uma única planta é

formada; na contínua, dependendo do interesse e do

comprimento do ramo-mergulho, pode-se obter maior

número de plantas.

- Mergulhia contínua chinesa

A mergulhia contínua chinesa é executada

mergulhando-se o ramo no terreno, de modo a manter

enterrada a maior extensão possível dele,

permanecendo apenas a parte apical fora do solo.

Para que o ramo fique em contato com o solo,

faz-se um sulco com profundidade aproximadamente

de 30 cm (Figura 4.9).

Figura 4.9. Mergulhia no solo, contínua, chinesa.

- Mergulhia contínua serpentada

Neste tipo, o ramo-mergulho apresenta aspecto

semelhante ao simples normal, pois o ramo, após ter

uma de suas partes enterrada, eleva-se, novamente é

mergulhado, e assim sucessivamente, dando a

impressão de uma serpentina (Figura 4.10).

Figura 4.10. Mergulhia, contínua, serpenteada.

- Mergulhia de cepa

Na mergulhia de cepa, a planta matriz sofre,

inicialmente, uma poda drástica a cerca de 5 cm do

solo. Isto estimula a emissão de brotações jovens, as

quais serão posteriormente cobertas com solo. Após o

enraizamento, as brotações enraizadas são destacadas

da planta-mãe, a qual pode ser novamente utilizada

para um novo ciclo de produção de mudas. De todas

as formas de mergulhia, a mergulhia de cepa é a mais

utilizada em nível comercial, pois além dos bons

resultados que proporciona, pode ser uma prática

parcialmente mecanizada, o que favorece o

rendimento da operação (Figura 4.11).

Figura 4.11. Mergulhia de cepa.

No alto

A mergulhia no alto é denominada alporquia.

É uma prática que consiste em se envolver um ramo

com substrato de enraizamento (musgo, solo ou outro

material que proporcione boa aderência),

acondicionado em plástico ou papel alumínio (Figura

4.12). A adoção da alporquia justifica-se em espécies

de difícil enraizamento, quando há dificuldade de

levar o ramo até o solo. É uma prática trabalhosa e,

portanto, de baixo rendimento. O anelamento e a

aplicação de fitorreguladores pode aumentar o

percentual de alporques enraizados.

Figura 4.12. Alporquia ou mergulhia no alto.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 61

Preparo de ramos e forçamento

- Antes da mergulhia

Os ramos devem ser preparados antes de entrar

em contato com o solo. As operações consistem na

desfolha e em anelamento, incisões ou torções da

parte que ficará enterrada.

Após ser enterrado, o ramo é mantido preso ao

solo por um tutor ou forquilha.

- Após a mergulhia

Os ramos-mergulhos, após determinado

tempo, enraízam e devem ser separados da planta

matriz. A separação pode ser feita de uma só vez ou

gradualmente. A essa operação dá-se o nome de

desmame. O desmame gradual tem por finalidade a

redução lenta da alimentação da nova planta, de

modo a forçá-la a nutrir-se de suas próprias raízes.

Uma separação brusca pode secar a planta,

principalmente quando ela não se encontra ainda

suficientemente enraizada.

4.3.3. Enxertia

A enxertia é o método de propagação

assexuada que consiste em se unir duas ou mais

porções de tecido de modo que a união destas partes

venha a constituir-se em uma nova planta. É um dos

principais métodos de propagação e é largamente

utilizada em um grande número de espécies, tais

como os citros, pessegueiro, ameixeira, goiabeira,

macieira, pereira, abacateiro, entre outros. A grande

importância da enxertia deve-se ao fato de que são

conjugados os aspectos favoráveis (vigor, tolerância a

fatores bióticos e abióticos adversos, produtividade,

entre outros) de duas ou mais plantas, as quais podem

ser de uma mesma variedade ou de variedade e

espécies diferentes ou até mesmo, gêneros diferentes.

O cavalo ou porta-enxerto passa a ser

responsável pela nutrição e fornecimento de água

através de suas raízes e ainda servirá de suporte. A

cepa ou enxerto, por seu lado, encarrega-se da

nutrição do porta-enxerto, fornecendo-lhe as

substâncias elaboradas, e compete-lhe ainda o

florescimento e frutificação.

O porta-enxerto é denominado hipobioto e o

enxerto, epibioto. Muitas vezes, devido à diferença

no vigor entre porta-enxerto e enxerto, há

necessidade de intercalar outra planta, que funciona

como filtro ou região de equilíbrio. Essa porção

intermediária recebe o nome de mesobioto. Ao

conjunto formado pelas duas partes denomina-se

dibiose e, quando a planta é constituída de três partes

distintas, polibiose.

O porta-enxerto pode ser proveniente de

sementes ou de propagação vegetativa. Porta-

enxertos oriundos de sementes em geral, são mais

vigorosos e com sistema radicar pivotante e mais

profundo. Porta-enxertos oriundos de propagação

vegetativa, como a estaquia ou mergulhia podem ser

menos vigorosos, porém são geneticamente mais

uniformes que os originados de sementes.

O enxerto pode consistir de um segmento de

ramo com uma ou duas gemas (garfo) ou de uma com

uma pequena porção de casca (borbulha). O enxerto

deverá ser retirado de uma planta com todas as

características da cultivar, bem como que tenha

ultrapassado o período da juvenilidade. Assim, tão

logo haja área foliar suficiente para percepção dos

estímulos indutores do florescimento e para

sustentação dos frutos, a planta irá produzir,

reproduzindo fielmente as características da planta-

mãe.

Normalmente, a propagação por enxertia

consiste nestas duas partes. Porém, em certas

situações, há problemas de compatibilidade entre o

enxerto e o porta-enxerto ou há a necessidade de

controlar o vigor da copa, requerendo o uso de um

terceiro componente, o interenxerto.

Interenxerto, enxerto intermediário ou

filtro, normalmente pertencente a uma cultivar

diferente do enxerto e do porta-enxerto, que seja

compatível com ambos, bem como possa conferir as

características desejadas à copa.

Finalidades do uso da enxertia

- Aproveitamento de características favoráveis

do porta-enxerto: o porta-enxerto pode definir

diversas características importantes da copa, tais

como o vigor, a produtividade, a qualidade dos

frutos, a resistência a fatores adversos, etc. Além

disso, os porta-enxertos diferem na sua adaptação a

diferentes condições de solo e de clima e à ocorrência

de pragas e doenças. Desta forma, é possível

trabalhar-se com uma mesma cultivar-copa em

diferentes condições ambientais;

- Propagação de plantas com difícil

multiplicação por outros métodos: se a propagação de

uma planta por sementes ou por estacas, ou ainda por

outro método, for pouco viável, a enxertia permite

que se possa propagar esta planta;

- Alteração da cultivar-copa em plantas

adultas: em pomares estabelecidos, devido a questões

de mercado, hábito de crescimento inadequado,

frutos de baixa qualidade, suscetibilidade a pragas e

doenças, entre outros, pode ser requerida a troca da

cultivar-copa. Isto é possível sem a erradicação do

pomar, através da enxertia, utilizando as plantas

como porta-enxerto, lançando-se mão, para tanto, da

sobreenxertia;

- Correção de deficiências de polinização: em

espécies que necessitem da presença de cultivares

polinizadoras dentro do pomar, a sobreenxertia pode

corrigir a falta de polinizadoras. Para tanto, pode ser

feita tanto a troca da cultivar-copa (como no caso

anterior), como também a sobreenxertia em alguns

dos ramos da planta;

- Recuperação de partes danificadas da planta:

danos por pragas, doenças ou outros agentes podem

causar danos significativos às raízes ou à parte aérea

da planta. Técnicas de enxertia permitem a

recuperação total ou parcial destes danos;

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 62

- Estudo de viroses: a enxertia é extremamente

útil em testes de indexação, quando se deseja

verificar se a planta matriz está isenta de

enfermidades viróticas. Para tanto, utilizam-se

plantas denominadas indicadoras as quais

manifestam, em pouco tempo após a enxertia, os

sintomas da virose em estudo.

Fatores que afetam o pegamento do enxerto

- Compatibilidade: A habilidade de uma planta

enxertada de formar uma combinação bem-sucedida

está relacionada, em grande parte, com a sua

constituição e o seu modo de desenvolvimento.

As falhas que ocorrem entre plantas enxertadas

podem ser devidas a uma incompatibilidade, que

pode estar ligada a questões estruturais e fisiológicas.

Assim, ao se estudar a enxertia, deve-se

considerar a afinidade existente entre os indivíduos

que irão compor uma planta.

A maior ou menor compatibilidade está

intimamente relacionada aos seguintes fatores:

• fisiológicos;

• biológicos;

• consistência dos tecidos;

• anatômicos;

• porte e vigor; • sensibilidade a doenças viróticas

A afinidade fisiológica relaciona-se às

exigências das partes em nutrientes. Há plantas que,

por sua fisiologia, selecionam determinados

elementos, podendo essa ação seletiva impedir que

certos elementos exigidos pela copa cheguem até ela,

causando perturbações.

O comportamento biológico está ligado ao

modo de vida de cada um dos componentes. As

espécies de folhas caducas, que perdem suas folhas

no inverno, normalmente não podem ser enxertadas

sobre espécies de folhas persistentes.

O ciclo vegetativo de ambos é distinto, o que

acarretaria uma incompatibilidade. Podem-se,

entretanto, em alguns casos, utilizar porta-enxerto

decíduo e copa de plantas persistentes (citros x

poncirus), porém o inverso nunca é bem-sucedido.

A consistência de tecidos é importante no

sucesso da enxertia. Plantas com tecidos lenhosos são

incompatíveis com as de tecidos herbáceos, pois

entre elas há diferenças de ordem biológica e

fisiológica, além das de ordem estrutural.

A afinidade anatômica é necessária para o

perfeito desenvolvimento da planta. A base da

enxertia consiste na intima associação dos tecidos

cambiais, de modo a formarem uma conexão

contínua. O tecido meristemático entre o xilema

(lenho) e o floema (casca) está, segundo a espécie,

em continua atividade, dividindo-se e formando

células, e como na enxertia não há intertroca de

células, cada tecido continua a fabricar as suas.

Quando há células de tamanho, forma e consistência

distintos, ocorre a incompatibilidade (Fig. 4.13).

O porte e o vigor das plantas enxertadas devem

ser, tanto quanto possível, semelhantes,

principalmente no que se refere ao vigor.

Porta-enxerto excessivamente vigoroso obriga

a copa a um maior desenvolvimento vegetativo, e

isso atrasa o início e a época de frutificação. De outro

lado, copa vigorosa não se desenvolve bem sobre

porta-enxerto fraco.

Figura 4.13. Corte transversal do tecido da planta.

A diferença de vigor pode causar má ligação

do enxerto e, em certos casos, engrossamento

exagerado do cavalo ou do enxerto. A

incompatibilidade pode se manifestar imediatamente,

bem como ser retardada por vários anos.

A incompatibilidade pode ser contornada em

parte pela interposição de uma terceira espécie ou

variedade compatível com ambas (filtro).

Quanto à sensibilidade a doenças viróticas, em

alguns casos de enxertia, a falta de afinidade ou

compatibilidade está associada à presença de vírus.

Se a parte suscetível ao vírus é o cavalo, a planta toda

vem a morrer; quando a suscetibilidade é da copa, a

planta apresenta desenvolvimento, porém declina

lentamente. As plantas cítricas apresentam exemplos bem

característicos dessa incompatibilidade.

Epiderme

Córtex

Meristema

Xilema

Câmbio

Floema

Periciclo

Periciclo

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 63

Classificação da enxertia

Os vário tipos de enxertia que se conhecem,

podem ser divididos em três grupos ou sistemas

distintos de enxertia, que são:

1º - Borbulhia

2º - Garfagem

3º - Encostia

O primeiro sistema recebe o nome de

borbulhia, porque em todos os tipos de enxertos que a

ele pertencem, o cavaleiro é representado por uma

borbulha ou gema da planta que se pretende

multiplicar: borbulha ou gema essa que se extrai

juntamente com um fragmento de casca em forma de

escudo, do ramo em que ela se acha inserida, donde o

nome de escudagem que também se dá ao sistema

(Figura 4.14.

Figura 4.14– Borbulhia em T norma (A), T invertido

(B).

No segundo sistema o cavaleiro é representado

por um ramo destacado da planta padrão; ramo este

que recebe o nome de garfo; daí a denominação de

garfagem dada a esse sistema (Figura 4.15.

Figura 4.15 - Enxertia tipo garfagem à inglesa

complicado. Enxerto (A) e porta-enxerto (B).

Finalmente, no terceiro sistema, conquanto o

cavaleiro seja, também, representado por um ramo da

planta padrão, difere do sistema anterior pelo

seguinte:

1º) Na encostia o ramo cavaleiro continua

ligado à planta que se pretende multiplicar até que se

solda ao cavalo ou porta-enxerto (Figura 4.19).

2º) Para se executar a encostia, ao invés de se

levarem os cavaleiros aos cavalos, criam-se estes em

recipientes (vasos, jacazinhos, caixas, sacolas

plásticas) para leva-los aos cavaleiros.

Borbulhia

Existem diversas técnicas de enxertia de

borbulhia, dentre as quais podem ser citadas:

Borbulhia em “T” normal, que consiste na

incisão do porta-enxerto (com diâmetro em tomo de 6

a 8 mm) na forma de um corte vertical de cerca de 3

cm de comprimento, em cujo ápice é feito um corte

horizontal (figura 4.14A). Com estes cortes, abre-se

um espaço para introdução da gema. Estes cortes

normalmente são feitos a uma altura de 20 a 25 cm a

partir do colo. A gema é obtida da porção mediana de

ramos da última estação de crescimento. Com um

canivete bem afiado, retira-se a gema, sem lenho e

introduz-se a mesma na incisão feita no porta-

enxerto. Deve-se ter o cuidado de fazer a operação o

mais rápido possível, para evitar que ocorra a

desidratação e a oxidação da gema e do porta-

enxerto. Após, faz-se o amarrio, utilizando-se uma

fita de polietileno, a qual deverá ser retirada tão logo

o enxerto tenha brotado.

- Borbulhia em T invertido, feita de modo

semelhante ao anterior, porém diferindo quanto à

forma da incisão — o corte horizontal é realizado na

base do corte vertical (Figura 4.14B).

- Borbulhia de gema com lenho, cuja

utilização é justificada quando a casca não se

desprende facilmente, dificultando a enxertia em T.

assim, retira-se a gema com uma porção de lenho, a

qual é introduzida no porta-enxerto em uma incisão

de mesmo tamanho da borbulhia.

- Borbulhia em janela aberta, que consiste

em se abrir uma placa quadrada ou retangular no

porta-enxerto, bem como em retirar-se uma placa

com as mesmas dimensões do ramo com as gemas.

Para tanto, usa-se um canivete de lâmina dupla .

- Borbulhia em janela fechada, o porta-

enxerto recebe duas incisões transversais e uma

vertical no centro. A borbulha é obtida de maneira

semelhante ao tipo anterior. Para assenta-la, levanta-

se a casca do cavalo. O enxerto é completado

fixando-se com o amarrilho (Figura 4.15 A).

A

B

A

B

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 64

Figura 4.15 – (A) Enxerto de borbulhia janela

fechada e (B) de anel.

- Borbulhia em anel, na qual é retirado, tanto

no porta-enxerto quanto no ramo com as gemas, um

anel de casca, ambos de iguais dimensões, para que o

anel contendo a gema seja introduzido no porta-

enxerto (Figura 4.15B).

Garfagem

Entre as técnicas de garfagem mais

conhecidas, podem ser citadas:

- Garfagem em fenda cheia, que consiste na

introdução de um garfo em forma de cunha, cuja base

é afilada com um canivete, em um corte longitudinal

feito em todo o diâmetro do porta-enxerto,

amarrando-se logo após com fita plástica. Podem ser

colocados dois garfos por porta-enxerto quando este

apresenta grande diâmetro (figura 4.16).

Figura 4.16 – Garfagem à inglesa em fenda cheia.

- Garfagem em fenda simples, também

chamada de inglês simples, consiste em se fazer

cortes em bisei tanto no enxerto quanto no porta-

enxerto, justapondo-se as duas partes e amarrando-se

com fita plástica logo após (figura 4.17).

Figura 4.17 – Garfagem à inglesa simples.

- Garfagem em fenda dupla, também

chamada de inglês complicado, é semelhante à

técnica anterior, diferindo pelo fato de serem feitas

uma incisão transversal na base do garfo e outra, no

ápice do porta-enxerto. isso aumenta muito a

aderência e o pegamento entre as partes justapostas,

embora implique em maior dificuldade na realização

(figura 4.15).

Encostia

Tem pouco uso em nível comercial. Há

diversas técnicas de encostia, podendo ser citadas as

seguintes:

- Encostia à inglesa simples no topo do

porta-enxerto, o porta-enxerto é cortado em bisei no

seu ápice (Figura 4.18).

Figura 4.18 – Encostia no topo, simples.

- Encostia em placagem, simples – neste

sistema, é feito um corte na superfície da casca do

enxerto e do porta-enxerto, unindo-se, após, as

superfícies com fita de polietileno, ráfia, barbante ou

outro material (figura 4.19).

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 65

Figura 4.19 – Encostia lateral simples.

- Encostia à inglesa complicado - é

semelhante ao processo de garfagem à inglesa

complicado, porém na forma de encostia (Figura

4.20).

Figura 4.20 – Encostia à inglesa complicado.

- Encostia à cavalo no topo do porta-enxerto – este é de fato, um magnífico processo de enxertia

para todas as plantas de lenho mais ou menos mole, e

mais ou menos rebelde aos outros sistemas de

enxertia, como o sapotizeiro, por exemplo (Figura

4.21).

Figura 4.21 – Encostia no topo, inglesa.

Aspectos técnicos da enxertia

A enxertia, para ser bem-sucedida,

considerando que haja afinidade entre as partes a

serem unidas, deve ser praticada com todo o cuidado,

O êxito da operação assenta-se, em grande parte, na

capacidade operacional e nas condições ambientes.

Para realizar com êxito a união de duas

plantas da mesma variedade ou de espécies distintas,

deve-se considerar o seguinte:

• união perfeita das camadas cambiais (Fig.

4.22);

• as partes que ficarão em junção devem ser

lisas e livres de substâncias estranhas;

• a época de enxertia deve ser aquela

apropriada a cada espécie e tipo de enxerto;

• as condições climáticas devem ser objeto de

observação, pois tanto as altas como as baixas

temperaturas, o teor de umidade e a luminosidade

podem causar dessecação rápida do enxerto;

• as condições edáficas devem ser

examinadas. Em solos pobres e secos, normalmente,

a percentagem de pegamento é menor que em solos

férteis e frescos;

Figura 4.22. Modo correto e errado de colocação do

garfo no porta-enxerto. • o vigor da planta e o estágio de

desenvolvimento do enxerto devem merecer atenção

particular. A enxertia é mais bem sucedida em

plantas vigorosas do que em plantas fracas. Os

garfos, na enxertia por garfagem, devem apresentar

gemas dormentes. As borbulhas, na borbulhia, devem

apresentar as gemas próximas ao estágio de

abrolhamento;

• o uso correto do canivete, da tesoura, dos

amarrilhos, dos mastiques, para que se possam

realizar as operações com rapidez e correção, e a

fixação perfeita entre ambas as partes; • tratos culturais convenientes durante o

correto errado errado

correto errado errado

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 66

período em que se dá a soldadura e após o

pegamento.

A enxertia é um método que exige,

fundamentalmente, habilidade e cuidados na sua

realização. Para tanto, um bom treinamento do

enxertador é o primeiro passo para o sucesso da

enxertia.

Para a realização da enxertia, são necessárias

algumas farramentas básicas: tesoura de poda,

canivete de enxertia (com lâmina e espátula, podendo

ser de lâmina simples ou dupla), pedra de afiar,

etiquetas e produtos para desinfestação

(normalmente, é utilizado o hipoclorito de sódio).

Além disso, os materiais para amarrio e proteção são

indispensáveis. Para tanto, são utilizados os

mástiques (misturas de resina, cera de abelha, sebo e

solventes), fio de ráfia ou barbante e fitas de

polietileno. Os mástiques apenas reduzem a perda de

água e a entrada de microorganismos e o fio de ráfia

ou barbante apenas dão sustentação ao conjunto

porta-enxerto. Assim, devem ser utilizados em

conjunto. As fitas de polietileno, além de manter a

união da enxertia, reduzem a desidratação do enxerto,

as trocas gasosas e a entrada de microorganismos.

Sacos plásticos, colocados sobre o conjunto porta-

enxerto/enxerto são úteis como câmaras úmidas, no

caso de ser realizada a enxertia de garfagem no

período de primavera-verão. As máquinas de enxertia

são ferramentas úteis na enxertia em escala

comercial, quando se trabalha com grandes volumes

de mudas ou não se dispõe de pessoal com grande

habilidade.

O local de realização da enxertia pode variar

conforme a época. A enxertia de inverno pode ser

realizada no viveiro (enxertia de campo) ou em

galpões (enxertia de mesa), ao passo que a enxertia

de primavera/verão e a do verão/outono é realizada

no viveiro ou em telado (no caso de se trabalhar com

mudas em recipientes).

Sobreenxertia, na qual o porta-enxerto é uma

planta adulta, já previamente formada. A

sobreenxertia é útil em casos em que a copa foi

seriamente danificada por pragas ou doenças, em

caso de necessidade de troca da cultivar-copa e

quando da falta de plantas polinizadoras em um

pomar. Normalmente é feita por garfagem (fenda

cheia ou fenda dupla), substituindo total ou

parcialmente a copa. Desta forma, é possível

produzir-se, em uma mesma planta, diferentes

cultivares.

Interenxertia, caso em que é interposto um

enxerto intermediário entre o porta-enxerto e o

enxerto, normalmente, através de garfagem. É útil,

principalmente, em duas situações: quando o enxerto

e o porta-enxerto são incompatíveis entre si,

devendo-se utilizar um interenxerto compatível com

ambos, e quando há necessidade de controlar o vigor

da copa devido ao porta-enxerto induzir elevado

vigor.

Subenxertia, realizada quando houver um

dano significativo no sistema radicular da planta ou

esta tornar-se inviável por outros motivos, como

tolerante a doênças. Consiste em se enxertar, na copa,

um novo porta-enxerto, que será total ou

parcialmente responsável pela absorção de água e

nutrientes. A garfagem, especialmente de fenda

dupla, é o sistema mais adotado neste caso (Figura

4.23).

O caso mais recente que está adotando a

subenxertia é a substituição do porta-enxerto limoeiro

Cravo por outros porta-enxertos na citricultura

paulista. A morte súbita dos citros (MSC) tem

causados grandes prejuízos nos laranjais de São

Paulo, principalmente quando o porta-enxerto é o

limoeiro Cravo.

Enxertia de ponte, realizada quando a planta

apresenta um dano significativo na casca, a ponto de

interromper o fluxo de água, nutrientes e assimilados.

Neste caso, a enxertia, normalmente de garfagem,

permite que sejam colocados ramos sobre a região

danificada, de modo a restabelecer o fluxo normal de

substâncias.

Figura 4.23 – Subenxertia.

4.4 Biotecnologia

A biotecnologia de plantas é uma aplicação da

engenharia celular, a qual manipula os genomas das

células vegetais, regenerando plantas com a

finalidade de aumentar a produtividade e auxiliar em

soluções fundamentais, tais como:

produção de plantas sadias;

obtenção de novas cultivares;

transmissão de caracteres genéticos entre

espécies incompatíveis;

obtenção de plantas transgênicas após a

inserção do DNA em células e protoplastos.

As plantas transgênicas podem ser definidas

como aquelas que apresentam genes que

originalmente não fazem parte do seu genoma.

A hibridação de espécies é utilizada para

oferecer resistência a doenças e, em certos casos, dar

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 67

origem a uma nova espécie.

Podem-se utilizar cruzamentos entre plantas

fltogeneticamente distantes ou a fusão de

protoplastos. Quando não há possibilidade de

cruzamento intra-específico, por incompatibilidade

entre o embrião híbrido e o endosperma da célula-

mãe, in vivo ou in vitro, pode-se usar a fusão dos

protoplastos.

Nessa técnica, as células das duas plantas são

cultivadas isolada-mente in vitro e em seguida suas

paredes são submetidas a digestão enzimática.

Pode então ocorrer, através da corrente

elétrica, a fusão do protoplasto e a hibridação do

citoplasma e do genoma cromossômico, dando

origem a um calo e, posteriormente, a uma planta

inteira.

4.4.1 Cultura de tecidos

A habilidade de regeneração e crescimento

dos tecidos da planta (calos, célula, protoplastos),

órgãos isolados (haste, flores, raízes) e embriões em

cultura asséptica tem sido base para a propagação.

As células que se separam do tecido

constituem material para cultivo de células

individuais. Estas podem ser separadas utilizando-se

um microscópio.

Cultura de tecido é a expressão usada para

indicar cultura asséptica in vitro de uma porção de

parte extraída da planta, sempre que sejam células

capazes de se dividir.

Em geral, os tecidos próximos à zona vascular

das raízes e da haste proliferam mais facilmente. O

cultivo de parte do fruto, endosperma e embrião,

tanto maduro como imaturo, também pode ser

efetuado.

A cultura de tecido, ou micropropagação,

inicia-se pela retirada de um tecido da planta, livre de

microrganismos e transferido para um meio de

cultura (Figura 4.24).

Figura 4.24 – Diagrama da produção de mudas

advindas da micropropagação de gemas terminais e

axilares.

A tecnologia utilizada para iniciar a

propagação é explant, que corresponde a um processo

de propagação como estaquia, enxertia ou sementes.

Quanto menor o explant, maior a proporção de

plantas sadias.

O explant é essencialmente uma estaca

miniaturizada.

O princípio da cultura de tecido baseia-se na

separação dos componentes biológicos do sistema e

do alto grau de controle em cada aspecto da

regeneração e do desenvolvlinento. A cultura de

tecido é baseada no princípio de totipotência, isto é, o

conceito de que cada célula tem o potencial genético

de se reproduzir identicamente.

4.4.2 Cultura meristemática

Trata-se da extração do meristema apical ou

dos primórdios foliares. Esse sistema de propagação

consiste basicamente em obter uma planta livre de

vírus (Figura 4.25).

Quanto menor o explant, maior a segurança

em obter uma planta livre de patógeno.

O meristema apical com 0,10 a 0,15 mm é

mais efetivo na eliminação do patógeno que o de 1

mm. Porém, quanto menor o ex-plant, maior a

dificuldade para a sua sobrevivência.

O uso de explantes maiores que 0,25 a 1 mm

facilita a propagação, mas a ausência de vírus deve

ser conferida pela indexação. O meristema apical é

incapaz de sobreviver e produzir raízes isoladamente.

Para a sua sobrevivência, deve levar consigo

primórdios foliares.

Figura 4.25 - Diagrama da cultura de meristema: a

limpeza clonal poderá ser obtida no final deste

processo.

Outra opção seria a utilização da

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 68

microenxertia como meio de produzir uma planta

livre de vírus. A microenxertia consiste em enxertar

ápices caulinares com aproximadamente 0,15 mm em

plântulas provindas de sementes, sob condições de

cultivo in vitro (citros) Figura 4.26.

Figura 4.26 – Representação das etapas do processo

de microenxertia. A) o porta-enxerto é retirado do

tubo de cultura; B) os ápices caulinares e radicular

são cortados, deixando 1,5 a 2 cm do epicótilo e 4 a 6

cm do hipocótilo; C) a incisão em T invertido é feita;

D) o ápice caulinar (meristema apical com 2

primórdios foliares) é excisado, colocado em contato

com a casca, para que o ápice fique voltado para

cima; E) o microenxerto é colocado em meio de

cultura sobre porta-enxerto preexistnte com diâmetro

igual a um lápis, desenvolvido em casa de vegetação.

4.4.3 Microgarfagem

Em citros, utilizam-se suas sementes como

cavalo. Elas são esterilizadas e semeadas em meio

inorgânico, com solução de ágar. O embrião germina

no escuro, em duas semanas. O seedling é removido,

decapitado a 1 ou 1,5 cm de comprimento; os

cotilédones e as gemas laterais são removidos com

uma lâmina. Um meristema apical com

0,14 a 0,18 mm, com três folhas primordiais, é

utilizado como enxerto. Pode-se também enxertar por

borbulhia, em T invertido, com 1 mm de

comprimento.

A planta enxertada é colocada em um meio

líquido, utilizando-se papel de ffltro como suporte da

haste. A cultura é mantida em condições de

iluminação por três a cinco semanas, até que haja o

pegamento do enxerto.

Quando duas folhas expandidas aparecem no

enxerto, a planta pode ser transplantada para outro

meio. Processo semelhante é utilizado para maçã e

ameixa e outras espécies de Prunus.

4.4.4 Cultura de embrião

É obtido separando-se o embrião da semente

na fase de desenvolvimento e colocando para

germinar em um meio especial. Uma das vantagens

desse processo é a obtenção de plantas de

cruzamentos interespecíficos.

A desinfecção do material pode ser feita

utilizando-se ácido carbônico a 5% por cinco

minutos, ou álcool, ou hipoclorito Ca ou Na.

4.4.5 Meio e materiais da propagação

O método asséptico de micropropagação

consta de:

• assepsia — as plantas apresentam

contaminação por bactérias,

fungos ou ambos, daí a necessidade de um

meio de propagação asséptico;

• ambiente — deve ser isolado, livre de pó e

de correntes de ar. Devem-se utilizar lâmpadas

germicidas;

• instrumentos escapelo, fórceps, agulha,

placa de Petri, tubo de ensaio, frasco de Erlemnmayer

etc.;

• meios ágar, meio sólido de propagação.

Juntar 0,5% à solução;

• complexo orgânico — água ou leite de coco

na proporção de 10 a 15% por volume;

• elementos inorgânicos — N, P, K, Ca, Mg,

Bo, Mn, Zn, Mo, Cu, Co, Fe;

• açúcar — 2 a 4%, como fonte de energia;

• vitaminas (tiaminas, inositol, ácido

nicotínico, pirodoxina) —reguladores de

crescimento, auxina, citocinina ou AIA;

• AIA de 1 a 50 mg/litro, 2,4-D

diclorofenilacético 0,05 a 0,5 mg/ litro, ANA 0,1 a 10

mg/litro;

• tubo com meio de cultura deve ser

esterilizado a 1200C por 15 minutos, em autoclave.

As substâncias químicas devem ser preparadas

antecipadamente, com uma concentração dez a cem

vezes superior à requerida. Essas soluções devem ser

armazenadas em câmaras frias e conservam-se por

muito tempo. O pH da solução deve ser de 5 a 6.

4.4.5 Indexação

Vem a ser o método para detectar a presença

ou a ausência de vírus conhecidos em plantas

suspeitas.

A técnica para identificação biológica é

conhecida como dupla enxertia, isto é, introduzem-se

duas a três gemas da planta a ser testada em um

porta-enxerto e acima a gema indicadora.

A indexação permite detectar todos os

patógenos envolvidos e importante nos trabalhos de

limpeza clonal em relação às viroses.

É importante que materiais livres de vírus

sejam indexados após algum tempo de obtenção. Os

métodos biológicos de diagnose, basea dos na

utilização de plantas indicadoras, ainda são eficientes

ser trabalho de limpeza clonal.

O processo consiste em enxertar um material

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 69

suspeito sobre um cavalo sadio, mas suscetível,

chamado planta indicadora, que é um planta que

reage a determinado patógeno específico e que

posterior mente mostrará sintomas.

Se o tecido estiver infectado, o vírus será

transmitido por meio de enxertia, e a planta sadia

reproduzirá os sintomas. O teste de sorologia

identifica uma proteína associada com partículas do

patógeno.

O uso do teste imunológico do Elisa e do Isem

tem a vantagem de maior rapidez e capacidade para

um grande número de amostras Por esse motivo, esse

teste é adequado para acompanhar programas de

certificação de material testado, livre de vírus. A

leitura é baseada na mudança de cor do substrato.

É interessante assinalar que características

agronômicas vantajosas podem resultar da infecção

por vírus ou outro patógeno. A vantagem se refere,

em alguns casos, ao menor porte; em outros, à

precocidade de produção.

O limão Taiti quebra-galho, assim

denominado pela constante quebra de galhos,

apresenta porte baixo, devido à presença de exocortes

dos citros. Quando enxertado por uma borbulha

simples, tem crescimento vigoroso, quando livre do

viróide. Recomenda-se uma borbulha para formar a

planta e outras para garantir a infecção, reduzindo o

porte e a precocidade de frutificação.

4.5 Matrizes copa e porta-enxertos

Para a produção de mudas de alto padrão,

verifica-se que há necessidade de plantas

fornecedoras de material básico para propagação.

Além de tudo isso, para que se tenha um material

genético de qualidade e isento de pragas e doenças,

alguns tratos culturais são imprescindíveis. Esses

tratos culturais, para facilitar o entendimento e a

redação, podem ser resumidos em um conjunto de

operações básicas para manutenção e qualidade do

material de propagação.

O condicionamento pode promover ou

facilitar a propagação, porém, muitas vezes requer

que se associe o uso de substâncias químicas

reguladoras de crescimento.

4.5.1 Ação da copa sobre o porta-enxerto

O enxerto age sobre o cavalo de vários modos,

porém as alterações sofridas pelo cavalo nem sempre

podem ser bem apreciadas, pelo fato de ele se situar

abaixo do solo. A influência se estende ao sistema

radicular, alterando o desenvolvimento, a penetração

e a distribuição no terreno.

4.5.2 Ação do porta-enxerto sobre a copa

Na fruticultura moderna, com algumas raras

exceções, quase todas as árvores frutíferas cultivadas

são formadas por uma associação de duas espécies ou

variedades diferentes, uma chamada porta-enxerto e a

outra, enxerto ou copa.

Ambas as partes devem apresentar perfeita

harmonia e, portanto, evitar, tanto quanto possível,

alterações no comportamento biológico, fisiológico e

nas adaptações às condições ecológicas.

Entretanto, como o enxerto atua sobre o

cavalo, alterando o seu comportamento, o inverso

também se dá, isto é, o porta-enxerto age sobre o

enxerto, e as alterações são mais visíveis, pelo fato de

a copa se encontrar ao alcance do observador.

Conhecida, portanto, a influência do cavalo

sobre o enxerto, devese, ao se associar dois

indivíduos, procurar escolher aqueles que melhor se

interligam em cada situação. A localidade, por várias

razões, pode alterar o comportamento das plantas,

obrigando a um estudo do assunto.

O cavalo atua sobre o enxerto, alterando o

comportamento em relação ao seu desenvolvimento,

produtividade, época de maturação, qualidade,

resistência a baixas temperaturas, a doenças fúngicas

e viróticas e à nutrição.

Desenvolvimento

Em geral, a copa da árvore enxertada tende a

atingir um tamanho igual àquele que o cavalo teria se

não fosse enxertado. Há, porém, exceções, como

ocorre em citros. A laranja-azeda normalmente

comunica a toda a copa grande desenvolvimento,

porém, quando enxertada com a variedade Satsuma,

esta tem o seu porte diminuído.

A ação do porta-enxerto sobre o enxerto pode

ser apreciada em diferentes espécies. Assim, em

citricultura, a laranja-doce adquire maior

desenvolvimento quando enxertada sobre laranja-

azeda do que sobre laranja caipira ou limão-cravo e

torna-se ainda mais reduzida quando o cavalo é de Poncirus trifoliata.

O desenvolvimento da copa alterado,

influência obrigatoriamente o fruticultor a tomar

medidas em cada caso, principalmente no que se

refere ao espaçamento. Assim, a distância entre

plantas num pomar está condicionada, além de à

fertilidade do solo, ao porta-enxerto e à variedade

empregada.

Produtividade

O porta-enxerto interfere na produção,

aumentando-a ou reduzindo-a. A produtividade de

uma árvore está intimamente relacionada à presença

de carboidratos, que são responsáveis pela formação

das gemas floríferas.

Porta-enxerto vigoroso às vezes predispõe a

planta a um desenvolvimento excessivamente

vegetativo, em detrimento da frutificação. Um de

menor porte tende a reduzir o volume da copa, porém

propicia condições para o suprimento adequado de

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 70

carboidratos e, portanto, predispõe a planta ao

florescimento.

Em citros, a produtividade está em grande

parte relacionada ao porta-enxerto. Assim, laranja-

azeda leva a planta a maior produtividade que laranja

caipira, e esta, por sua vez, supera o limão-cravo, que

suplanta o poncirus.

Com relação à precocidade da produção, isto

é, o tempo necessário para a planta entrar em

produção, observa-se um efeito pronunciado do

porta-enxerto. Em citros, o porta-enxerto que induz maior

precocidade é o do limão-cravo, seguido do de

caipira e laranja-azeda.

Maturação

A época de maturação dos frutos, e a sua

permanência na árvore, parece estar, em grande parte,

condicionada ao porta-enxerto.

Os porta-enxertos que comunicam à copa

maior vigor vegetativo tendem a atrasar a maturação

dos frutos. Em citros, o porta-enxerto de poncirus

antecipa a maturação dos frutos em relação aos

cavalos de caipira e azeda.

A permanência dos frutos na árvore está em

grande parte relacionada ao porta-enxerto. A laranja-

azeda induz a copa a manter os seus frutos maduros

por mais tempo do que outros porta-enxertos. Já o

limão rugoso retém apenas por pouco tempo os frutos

que já atingiram a maturação.

Comportamento com relação às doenças

A vegetação, a composição dos tecidos e a

maturação do lenho estão mais associadas ao hábito

de vegetação do porta-enxerto e à afinidade existente

entre eles.

O cavalo pode predispor as copas a maior

incidência de doenças causadas tanto por fungos

como por vírus, bem como pode comunicar maior

resistência à copa.

Não se conhece, até o momento, maior

resistência da copa a doenças causadas por fungos,

por ação direta do porta-enxerto. Se alguma

influência existe, ela é de ação indireta, ligada à

melhor distribuição dos ramos.

As doenças causada por vírus podem estar

relacionadas à maior ou menor suscetibilidade do

porta-enxerto ou enxerto. Elas podem ser

transmitidas pelas borbulhas ou se devem à maior

sensibilidade da variedade.

A doença chamada tristeza ocorre quando se

enxerta laranja-doce sobre laranja-azeda. A

xiloporose ocorre na combinação laranja-barão sobre

lima-da-pércia.

Alterando-se a combinação enxerto e porta-

enxerto, a doença deixa de prejudicar o

desenvolvimento, por serem ambos tolerantes à

exocortis, que surge quando se enxerta laranja-doce

sobre cravo ou poncirus e desaparece quando se

substitui pelo porta-enxerto de laranja caipira.

Indução de deficiência nutricional

Muitas deficiências que surgem nas copas das

plantas enxertadas têm como causa a barreira

levantada na região do enxerto. Essa barreira impede

ou dificulta a translocação ou movimento de

elementos nutritivos.

Quando a planta é enxertada, há em alguns

casos um estrangulamento na região da enxertia. Esta

funciona algumas vezes como crivo, podendo

facilitar ou dificultar a translocação de certos

elementos e exercer uma ação seletiva, levando a

planta a exibir sintomas de deficiência.

Analisando situação da combinação limão

sobre laranja-azeda ou pomelo, verificaram que os

cavalos apresentavam teor mais baixo de magnésio,

quando comparado com esses porta-enxertos não-

enxertados. Quando se enxertaram laranja-doce e

pomelo em cavalo de laranja caipira, encontrou-se

maior teor de magnésio solúvel no cavalo.

Assim, a deficiência de uma planta não está

ligada somente à maior ou menor disponibilidade dos

elementos no solo, mas também à afinidade que

determinados porta-enxertos possuem em absorver e

translocar esses elementos.

4.6 Referências

CÉSAR, H. P. Manual prático do enxertador: e

criador de mudas de árvores frutíferas e dos arbustos

ornamentais. 14 ed. São Paulo: Nobel, 1986.

FACHINELLO, J.C.; HOFFMANN, A.;

NACHTIGAL, J. C.;. KERSTEN, E.; FORTES, G.R.

de L. Propagação de plantas frutíferas de clima

temperado. 2ª ed. Pelotas: UFPEL, 1995. 178 p.: il.

RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia de

produção, gerenciamento e comercialização. 1 ed.

Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.

SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:

FEALQ, 1998. 760p.: il.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 71

5. VIVEIROS

A muda é o insumo mais importante na

implantação de um pomar – mudas produzidas com

qualidade, desde que adequadamente manejadas,

originam pomares produtivos e rentáveis. No

processo de produção de mudas de boa qualidade,

diversos cuidados devem ser tomados, desde a

escolha da planta matriz até a comercialização da

muda.

Assim, um dos aspectos de grande

importância é a infra-estrutura do viveiro. Uma infra-

estrutura adequada, racional e tecnificada é o

primeiro passo para que o viveirista tenha uma

atividade tecnicamente viável.

A escolha da infra-estrutura do viveiro de

produção de mudas frutíferas é dependente de

diversos fatores, tais como: quantidade de mudas

produzidas, regularidade desejada da oferta de

mudas, número de espécies a serem propagadas,

método de propagação, custo das instalações e grau

de tecnificação do viveirista. Em relação a este

último fator, vale ressaltar que a propagação de

plantas é uma atividade muito dinâmica e

freqüentemente tem tido avanços que possibilitam a

produção com qualidade e eficiência – daí, a

importância do viveirista estar em contínuo contato

com os órgãos de pesquisa, universidade e serviços

de extensão, para o seu constante aperfeiçoamento.

5.1 Tipos

Entende-se por viveiro a área onde são

concentradas todas as atividades de produção de

mudas.

Os viveiros podem ser classificados, quanto à

sua duração, em permanentes e temporários. Os

viveiros permanentes são aqueles que têm caráter

fixo e, neles, a produção de mudas prolonga-se por

vários anos. Por isso, requerem um bom

planejamento para a instalação, incluem uma infra-

estrutura permanente e apresentam, em geral, maiores

dimensões. É importante frisar que, por mais que o

viveiro seja permanente, quando o plantio é feito no

solo, uma mesma área pode ser utilizada com a

mesma espéc ie por, no máximo, dois anos e por no

m áximo três anos se rotacinada, devido à alta

sensibilidade das mudas a pragas, doenças e

invasoras, sendo necessária a adoção de rotação de

culturas.

Os viveiros temporários destinam-se à

produção de mudas apenas durante certo período e,

uma vez cumpridas as suas finalidades, são

desativados. Viveiros temporários, embora menos

comuns que os viveiros permanentes na produção de

mudas frutíferas, podem representar menor custo,

quando não é necessária uma infra-estrutura

definitiva.

Quanto à proteção do sistema radicular, os

viveiros podem ser classificados em viveiros com

mudas de raiz nua e viveiros com mudas em

recipientes. Os viveiros para produção de mudas em

raiz nua são aqueles feitos no solo, em área de solo

profundo (pelo menos 1 metro) e bem manejado,

objetivando que as mudas, para comercialização,

sejam retiradas com raiz nua (mesmo que, em alguns

casos, um torrão possa acompanhar a muda). Neste

tipo de viveiro, são feitos canteiros, delimitados por

carreadores, por onde transitam os veículos. Os

viveiros para produção de mudas em recipientes

implicam, em geral, em menor necessidade de área,

sendo mais versáteis e permitindo que uma mesma

área seja utilizada por muito mais tempo que o tipo

anterior, desde que o substrato seja tratado e torne-se

isento de pragas, doenças e propágulos de invasoras.

Figura 5.1 – Tipos de viveiro quanto a sanidade da

muda.

Viveiro à céu aberto

Viveiro sob telado

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 72

Quanto ao controle sanitário das mudas, há

dois tipos básicos de viveiros: à céu aberto e sob

telado (proteção com telas anti-afídica).

5.2 Localização

A escolha do local é o primeiro passo para a

instalação do viveiro e apresenta grande importância,

desde que atendidos os seguintes aspectos:

a) Facilidade de acesso: é conveniente que o

viveiro tenha fácil acesso aos compradores das

mudas, pois é um fator que favorece a

comercialização e a escolha do viveirista. Neste

sentido, deve-se dar especial atenção às estradas que

conduzem ao viveiro, possibilitando o fácil trânsito

dos veículos que transportam as mudas. Por outro

lado, o viveiro deve estar afastado de estradas

públicas de grande movimento, para reduzir o risco

de infestação das mudas.

b) Suprimento de água: a água é o principal

insumo em um viveiro. O cálculo da necessidade de

água, para a irrigação e tratamentos fitossanitários,

depende do número de tratamentos fitossanitários, do

consumo de água por irrigação, das necessidades

hídricas das mudas e da precipitações médias.

c) Distância da área de plantio: embora seja

aconselhável que o viveiro esteja localizado na

mesma região onde se concentram os pomares,

reduzindo o tempo de transporte das mudas e as

perdas devido à movimentação, deve-se ter grandes

cuidados para que uma distância mínima de pomares

seja observada. De modo geral, se recomenda que o

viveiro esteja localizado a, no mínimo, 50 metros de

um pomar de mesma espécie, porém, quanto maior a

distância, menor o risco de infestação das mudas. Os

maiores cuidados quanto ao isolamento do viveiro

dizem respeito a vetores aéreos de viroses (afídeos) e

vetores do solo (nematóides).

d) Ocorrência de invasoras: o viveiro deve

estar localizado em área livre de invasoras. Viveiros

com determinadas invasoras não podem ser utilizados

e a comercialização de mudas produzidas dos

mesmos é proibida por lei. As principais invasoras

incluídas nesta classe são a tiririca (Cyperus

rotundus) e grama-seda (Cynodon dactylon). Além

disso, como o controle de invasoras é mais difícil em

viveiros, deve-se fazer uma contínua vigilância e

erradicação das invasoras. O uso de substratos

solarizados resolve o problemas de plantas dainhas,

de pragas e doenças.

e) Facilidade de obtenção de mão-de-obra:

viveiros demandam grande quantidade de mão-de-

obra, tanto para a produção de mudas em si, como

também para o monitoramento e controle de

invasoras, pragas e doenças. A disponibilidade de

mão-de-obra próxima ao viveiro contribui para a

redução do custo de produção de mudas.

f) Declividade da área: é recomendável que a

área tenha pouca declividade e esteja localizada em

área de relevo levemente ondulado, porém não esteja

localizado em áreas muitos planas que venham a

acumular a água das chuvas ou das irrigações.

Independente do grau de declividade da área, os

canteiros devem estar localizados no sentido

perpendicular à movimentação da água, para reduzir

os ricos de erosão. Quanto maior a declividade,

maiores devem ser os cuidados quanto à práticas

conservacionistas.

g) Aspectos físicos do solo: é conveniente a

instalação de viveiros em área com solos profundos, e

medianamente arenosos. Porém, como nem sempre

isto é possível, deve-se escolher as áreas cujo solo

apresenta as melhores condições físicas possíveis.

Solos muito argilosos dificultam a mecanização e o

desenvolvimento radicular. Solos com elevada

porosidade são desejáveis – esta característica pode

ser parcialmente melhorada com incorporação de

matéria orgânica e adubação verde. Especialmente

em áreas onde há intensas chuvas, o solo deve ter boa

capacidade de drenagem, devendo serem evitadas

áreas encharcadas ou sujeitas à inundação, pois isso

aumenta o risco de podridões de raízes e de toxidez

de manganês. Para a adoção de sistemas de

drenagem, deve-se estudar as características físicas

do solo, tais como a profundidade do horizonte

impermeável, condutividade hidráulica e textura.

h) Aspectos químicos do solo: embora as

condições químicas dos solos podem ser modificadas,

a localização do viveiro em área cujo solo não seja

muito ácido, tenha boa fertilidade natural e bom teor

de matéria orgânica reduz os custos de implantação.

i) Aspectos biológicos do solo: solos em

riscos de matéria orgânica tem vida micro e

macrobiana mais ativa, o que pode favorecer o

desenvolvimento das mudas. Porém, deve-se utilizar

áreas isentas de nematóides, insetos de solo, fungos

patogênicos e bactérias fitopatogênicos. Por isso, é

necessário o monitoramento através de análises

microbiológicas do solo a ser utilizado como viveiro.

Essas características de solo são dispensáveis

para casos em que o viveiro é do tipo mudas em

recipentes, neste o máixmo decuidado com a

qualidade do substrato.

j) Cultivos anteriores: o viveiro deve estar

localizado em área onde não existiram pomares há,

pelo menos 5 anos, e onde não existiram viveiros há,

pelo menos 3 anos. Quando se utilizam áreas onde,

anteriormente havia mata ou outras plantas perenes,

deve ser feita a destoca no mínimo 2 anos antes da

implantação do viveiro, plantando-se gramíneas

anuais até que o viveiro seja implantado. Estas

gramíneas podem ser incorporadas ao solo para

elevação do teor de matéria orgânica. Algumas

plantas frutíferas liberam no solo algumas fitotoxinas,

as quais comprometem os cultivos posteriores,

implicando na necessidade de ser feita a rotação de

culturas.

k) Aspectos climáticos: o melhor clima do

local onde o viveiro será implantado depende da(s)

espécie(s) a ser(em) propagada(s). Entre os fatores

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 73

climáticos mais limitantes estão a temperatura, a luz e

a ocorrência de ventos. No que se refere à

temperatura, é importante que o viveiro esteja

localizado em área o mais livre possível de geadas.

Além disso, temperaturas médias mais elevadas

facilitam a produção de mudas em menor tempo.

Como exemplo, pode ser citado o fato de que,

enquanto mudas cítricas requerem cerca de 24 meses

para serem produzidas em SP, no RS requerem cerca

de 36 meses. A exposição à luz é fundamental,

especialmente na fase final de propagação, sendo

preferencial a exposição Norte. Ventos muito fortes

aumentam a quebra no local da enxertia, podendo

requerer a implantação de quebra-ventos.

5.3 Dimensionamento

A extensão da área do viveiro depende de

diversos fatores, sendo os principais:

a) Quantidade de mudas para plantio e

replantio, determinada pela capacidade operacional

do viveiro e da demanda por mudas pelos produtores.

b) Densidade de mudas, o que depende da

espécie e do tempo de permanência, de modo a

proporcionar as melhores condições para o seu

desenvolvimento.

c) Período de rotação, que se refere ao tempo

que a muda permanece desde o início da sua

produção até o seu replantio ou comercialização.

Também é dependente da espécie, além de depender

do método de propagação e do manejo da muda.

d) Dimensões dos canteiros e carreadores, que

dependem da espécie a ser propagada e do grau de

mecanização adotado. Viveiros com maior grau de

mecanização requerem canteiros mais longos,

maiores distâncias entre linhas e carreadores mais

largos.

e) Dimensões das instalações, que são

determinadas principalmente, pela quantidade de

mudas que são produzidas, pelo método de

propagação adotado e pelo grau de tecnologia

empregado.

f) Áreas para rotação, fundamentais para a

produção de mudas sadias, especialmente se a

produção de mudas for feita diretamente no solo. O

dimensionamento do viveiro deverá considerar a

disponibilidade de áreas para rotação, de modo que

uma mesma área não seja utilizada para produção de

mudas por mais de 2 anos.

Um dos aspectos fundamentais a serem

considerados no planejamento e dimensionamento

dos viveiros é a seleção das espécies a serem

propagadas. Há viveiristas especializados em

propagar apenas uma espécie, bem como viveiristas

extremamente ecléticos, os quais propagam inúmeras

espécies.

5.4 Instalações

A necessidade de instalações depende de

diversos fatores e deve considerar a máxima

eficiência no uso das mesmas, economicidade para

construção e facilidade no manejo para produção das

mudas. O grau de sofisticação das instalações

depende da interação entre fatores como a espécie a

ser propagada, quantidade de mudas a serem

produzidas, o poder aquisitivo do viveirista e

cumprimento da legislação vigente. As principais

instalações necessárias no viveiro são:

a) Escritório, onde são armazenadas todas as

informações referentes à produção de mudas, bem

como a centralização das operações de

comercialização, contratação de mão-de-obra e

comunicação com clientes e outros viveiristas.

b) Depósito para equipamentos e

ferramentas, onde são guardados ferramentas e

equipamentos.

c) Depósito para produtos químicos.

d) Telado, que é estrutura, de madeira ou

metal, coberta com tela de sombreamento, conhecida

popularmente como Sombrite. O telado é útil nas

seguintes situações: manutenção de plantas matrizes

isentas de viroses, aclimatação de mudas e produção

de mudas que exigem sobreamento inicial. As telas

podem apresentar diferentes graus de sombreamento,

sendo importante considerar que, quando maior o

grau de sombreamento, maior ocorrência de

estiolamento das mudas que permanecerem por longo

tempo no telado e, por conseqüência, maior a

facilidade das mudas morrerem quando da sua

transferência para o pomar. O tipo de tela mais

utilizado é o que permite um sombreamento de 50%.

O telado pode ter diferentes dimensões, podendo ser

permanente ou temporário. O telado pode ser ou não

dotado de sistema de irrigação por nebulização.

Em casos de telado para matrizes protegidas

de virose, a malha deve ter abertura de no máximo

0,8 mm2.

e) Estufa, também conhecida como casa de

vegetação, é uma estrutura parcial ou completamente

fechada, com estrutura de madeira ou metal

(alumínio, aço ou ferro galvanizado), coberta, em

geral com plástico especial para esta finalidade. A

estufa pode ainda ser coberta de vidro ou fibra de

vidro, porém isto acarreta maior custo. A grande

vantagem do uso de estufas em viveiros é a

possibilidade de controle ambiental de modo a

maximizar a produção de mudas, reduzindo o tempo

necessário para a propagação e permitindo que as

mudas possam ser produzidas em mais épocas do

ano. Normalmente, as estufas possuem sistemas de

nebulização intermitente, o que mantém elevada a

umidade relativa do ar, permitindo a propagação

através de estacas com folhas (técnica que, em certas

espécies, viabiliza a propagação através de estaquia).

A elevada umidade do ar e a elevada temperatura

aumentam a velocidade de crescimento das plantas.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 74

As estufas podem ser construídas pelo próprio

viveirista ou adquiridas de empresas especializadas

na construção das mesmas. Além do sistema de

nebulização, as estufas podem ser dotadas de

sistemas automatizados para aquecimento do

substrato, diminuição da temperatura, controle do

fotoperíodo, entre outros. Entre os problemas

relacionados com o uso de estufas, podem ser citados

os seguintes: aumento da dependência da planta em

relação ao homem, elevado custo de implantação,

aumento da sensibilidade e ocorrência de doenças e

dificuldades na aclimatação.

O enraizamento de estacas de muitas espécies,

especialmente através de estacas semilenhosas e

herbáceas é muito difícil se não for adotado um

controle ambiental, principalmente em relação a três

pontos: a) manter alta umidade relativa do ar com

uma baixa demanda evaporativa, de modo que a

transpiração das estacas seja minimizada e haja um

mínimo de perda de água; b) manutenção de

temperatura adequada para estimular o metabolismo

na base das mesmas e suficientemente amena na

parte aérea para reduzir a transpiração e c) manter a

irradiação dentro de um limite suficiente para

ocasionar elevada atividade fotossintética, sem no

entanto, causar aumento excessivo de temperatura

nas folhas. As estufas têm esta finalidade de controle

ambiental. Quanto mais controladas as condições de

propagação, maiores as chances de sucesso,

especialmente naquelas espécies de difícil

propagação. Um dos problemas a serem enfrentados

em estufas nas condições brasileiras é o aumento

excessivo de temperatura, o que implica no uso de

mecanismos de resfriamento do ar. Na literatura, há

citações de que, temperaturas ao redor de 35-40ºC

limitam o crescimento das raízes da maioria das

espécies lenhosas. Por isso, é fundamental, além de

uma boa ventilação, um bom sistema de resfriamento

e sombreamento. Mesmo que a luz seja favorável à

atividade fotossintética das mudas, alta luminosidade

não parece ser a condição mais favorável. Filmes de

polietileno mais modernos estão disponíveis no

mercado com alguns aditivos, tais como acetato de

vinil, alumínio e silicatos de magnésio, os quais

aumentam a opacidade do plástico às ondas longas

(infravermelho), favorecendo o enraizamento.

f) Estufins, que são, na verdade, pequenas

estufas, com maior versatilidade, menor custo e

menor tamanho. Os estufins são construídos,

normalmente, em madeira e com cobertura de

polietileno e podem ser utilizados tanto para a

produção de mudas através de sementes quanto

através de estacas semilenhosas.

g) Ripados, os quais também têm a finalidade

de proporcionar sombreamento, podendo substituir os

telados. São construções simples, relativamente

duráveis, baratas e fáceis de construir, apresentando

como inconveniente o fato de que o sombreamento

não é completamente uniforme.

5.5 Formação da muda

Uma vez planificados os trabalhos a serem

executados, a obtenção de mudas não apresenta

grandes dificuldades, pois as operações desde a

semeadura até a retirada das plantas obedecem a uma

seqüência lógica e natural.

As mudas podem ser formadas a partir de

sementes ou estacas. O uso inicial de uma ou de outra

depende da maior facilidade de multiplicação da

espécie.

5.5.1 Sementes

O uso de sementes e a época de semeadura

decorrem da época de maturação dos frutos e do

poder germinativo das sementes.

Há frutos, segundo a espécie ou variedade,

que são colhidos de janeiro a dezembro, podendo,

assim, fazer-se a semeadura praticamente durante os

doze meses do ano.

Há espécies que têm poder germinativo de

curta duração e outras que o mantêm por vários

meses. As sementes das primeiras devem ser

semeadas tão cedo quanto possível e as das ultimas,

nos períodos mais favoráveis. Há ainda sementes que

necessitam de um período de repouso para germinar.

Elas devem ser tratadas para eliminar a dormência, o

que é feito em câmaras frigoríficas ou por meio de

estratificação.

Semeadura

A semeadura é feita normalmente em alfobre,

em caixas, bandejas e sacos plásticos, e o modo de

distribuição das sementes, a quantidade e a

profundidade dependem da espécie.

A semeadura em caixa só é utilizada quando se

dispõe de pequena quantidade de sementes.

O uso de tubetes ou bandejas de isopor feitas

de poliestireno expandido, com uma série de

cavidades chamadas células, ambos de formato

afunilado e de fundo aberto, para drenagem, facilita a

formação das mudas e impede o enovelamento das

raízes.

Repicagem

Uma vez semeadas, germinadas e formadas as

mudinhas, elas serão desplantadas e a seguir

plantadas no viveiro.

A repicagem vem a ser a retirada das

mudinhas (seedlings) do alfobre e o seu plantio no

viveiro.

A época em que se faz a repicagem está ligada

à espécie. Para espécies como mamoeiro,

maracujazeiro, ingazeira, cupuaçuzeiro e outras é

feita logo após a germinação e, para espécies como

açaizeiro, buritizeiro em 45 dias, mas para espécies

mais lentas em 120 dias ou mais.

A repicagem constitui uma das operações

mais importantes, por possibilitar uma seleção

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 75

rigorosa das plantas. Essa é uma das oportunidades

para eliminar todas as plantas defeituosas e doentes.

E no viveiro que se plasma a longevidade da futura

árvore, e o desbaste, em algumas ocasiões, chega a

ser tão rigoroso que apenas um quarto das mudas é

aproveitado.

A repicagem pode compreender apenas uma

operação, mas pode resultar em várias etapas de

mudanças do ambiente das mudas, desde a

sementeira passando por várias etapas até o viveiro.

Um dos problemas levantados na revisão de

Baldassari et al. (2003), em que sugere como

hipótese de que a poda excessiva por várias

repicagem de mudas de citrus em tubetes possa

predispor a futura planta ao declíneo dos citrus.

Transplante

Após a desplantação e seleção, as plantinhas

são submetidas a tratamento da copa e do sitema

radicular.

Da copa, elimina-se parte dos ramos e das

folhas, para reduzir a transpiração, e, do sistema

radicular, parte das raízes, para manter o equilíbrio

hídrico e evitar o enovelamento, sempre prejudicial.

As plantas assim preparadas serão plantadas

no viveiro, à distância de 0,30 a 0,50 m em linha de 1

a 1,20 m de rua. Após o plantio, os cuidados culturais

devem ser contínuos, de modo a favorecer o

desenvolvimento o mais rápido possível.

5.5.2 Enxertia

A idade da planta a ser enxertada varia com a

espécie, podendo-se proceder à enxertia do oitavo

mês até os dois anos e meio. Excepcionalmente,

como no caso do abacateiro, a enxertia pode ser feita

de quinze a quarenta dias após a germinação.

A época de enxertia depende da biologia da

planta. As espécies caducifólias podem ser

enxertadas durante o período de repouso vegetativo e

as de folhas persistentes, durante a primavera e o

verão e mesmo durante o outono. Isso de um modo

generalizado, pois a época de enxertia, além de estar

ligada à biologia da planta, também depende do tipo

de enxerto utilizado.

5.5.3 Condução da muda

As mudas (plantas enxertadas) são conduzidas

em haste única, apoiadas por tutores laterais, de

bambu ou madeira. Os tutores têm por finalidade

guiar as mudas no sentido vertical, de modo a dar

uma forma correta a copa.

As correções durante o desenvolvimento são

feitas por meio de podas. Estas são chamadas

educação e têm por finalidade manter as mudas com

um fuste perfeito.

Quando as mudas em formação atingem

desenvolvimento conveniente, são podadas para que

a haste forme as pernadas iniciais.

5.5.4 Transplantação

É a operação de retirada das mudas do viveiro

e seu plantio no campo ou seu envasamento para

posterior plantio.

A época está ligada à biologia da planta. As

plantas hibernantes devem ser transplantadas quando

se encontram em estado de repouso vegetativo. O

período mais favorável é de junho a agosto, que

coincide com a queda das folhas (junho) antes que

novas brotações tenham origem (agosto).

As plantas de folhas persistentes seguem

direção inversa, isto é, devem ser transplantadas

quando se encontram em atividade vegetativa,

período esse que coincide com a elevação da

temperatura e o início das chuvas e se prolonga até o

término do período das águas e queda de temperatura.

A retirada da muda do local onde ela se

encontra para posterior aproveitamento chama-se

desplantação, operação delicada e exerce influência

no pegamento.

As mudas podem ser desplantadas de raízes

nuas ou com o torrão, dependendo da espécie, do

interesse do viveirista e do comprador.

5.6 Substratos e recipientes

Entende-se por substrato qualquer material

que é usado com a finalidade de servir de base para o

desenvolvimento de uma planta até a sua

transferência para o viveiro ou para a área de

produção, podendo ser compreendido não apenas

como suporte físico, mas também como fornecedor

de nutrientes para a muda em formação. Em geral, o

termo 'substrato' refere-se a materiais dispostos em

recipientes, mas pode incluir também o solo da

sementeira ou do viveiro, onde muitas vezes se dá o

desenvolvimento inicial da muda. As características

mais adequadas para uso como substrato são

semelhantes para materiais em recipientes ou para o

solo em sementeira ou viveiro.

O substrato é um dos principais fatores que

condicionam o sucesso na propagação de plantas. Na

opção por um determinado material como substrato,

objetiva-se otimizar as condições ambientais para o

desenvolvimento da planta em uma ou mais etapas da

propagação.

Inúmeros materiais podem ser usados como

substratos na produção de mudas frutíferas. A

escolha do substrato, ou mistura de substratos, mais

adequada para uma determinada situação é função da

técnica de propagação, da espécie (e, em alguns

casos, da cultivar), das características do substrato,

do custo e da facilidade de obtenção de cada material.

Podem estar incluídos desde materiais que

permitam a germinação das sementes e o posterior

desenvolvimento dos 'seedlings', até outros que

possibilitem o enraizamento de estacas e o

desenvolvimento das raízes adventícias, bem como

materiais que proporcionem condições adequadas

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 76

para a aclimatização de plantas propagadas através de

técnicas de micropropagação.

Segundo Kämpf (2000), um substrato deve

possuir boas condições físico-hídricas e químicas:

Em geral, os valores do espaço de aeração deve

variar entre 2 a 30% do volume, pois há plantas

adaptadas para as diferentes faixas de macroporos no

substrato. A condutividade elétrica pode variar entre

2,0 a 4,0 dS m-1 é alta para substrato, de 1,0 a 2,0 dS

m-1

é normal e < 1,0 dS m-1

é baixa. Em relação à

água disponível (AD), De Boodt e Verdonck (1972),

citado por Ferraz et al. (2005) afirmam que os valores

ideais variam de 0,20 m3 m

-3 a 0,40 m

3 m

-3.

Segundo Plank (1989), os substratos para

plantas deve ter como teores ótimos de nutrientes, os

seguintes valores: 110 a 179 mg L-1

de K, 140 a 219

mg L-1

de Ca, 8 a 13 mg L-1

de P, 60 a 99 mg L-1

de

Mg e 80 a 139 mg L-1

de N.

A casca de arroz não teve ser quimada, apenas

carbonizada. Uma das formas de carbonizar a casca

de arroz é utilizar uma espécie de tacho imborcado,

com alças para permitir entrada de oxigênio por

baixo e uma chaminer, que pode ser substituído por

uma lata de tinta furada com uma chaminer, de

acordo com Figura 5.2. Outra forma é o uso de forno

com chapa de ferro, tipo forno de farinha, que utiliza

lenha como fonte de calor. Este forno pode ser

utilizado também para esterilizar o substrato de

doenças e plantas espontâneas.

5.6.1 Substratos para sementes

Considerando que, tanto a germinação quanto

o desenvolvimento das mudas requer água, oxigênio

e suporte físico, a germinação das sementes pode

acontecer em qualquer material que proporcione

reserva de água suficiente para a germinação, como

por exemplo papel-toalha, areia, serragem e outros,

desde que atendidas as seguintes condições:

a) ter boa capacidade de drenagem da água,

mas retendo suficiente teor de umidade que garante

água suficiente para a embebição da semente;

b) proporcionar ambiente escuro, em virtude

de muitas espécies serem fotoblásticas negativas e

das raízes serem fototrópicas negativas;

c) estar isento de inóculo de patógenos ou

saprófitos, os quais podem prejudicar a germinação e

o desenvolvimento das mudas. A presença de

patógenos pode provocar a ocorrência de "damping-

off", que ocasiona desde um baixo índice de

sobrevivência das plantas na repicagem até a morte

das plântulas logo após sua emergência;

d) estar isento de propágulos (sementes ou

estruturas vegetativas) de invasoras, especialmente

no caso de a muda oriunda deste processo ser

comercializada ou levada ao campo com torrão.

Cuidados especiais devem ser dispensados

quando do uso de serragem, pois, em estado fresco,

pode liberar toxinas prejudiciais à sementes e à

plântula. No caso de se utilizar materiais inertes, é

convenientes fazer a transferência para um meio com

nutrientes tão logo ocorra a emergência.

Inúmeros materiais são citados na literatura

como adequados para a germinação e/ou

desenvolvimento de plantas propagadas por

sementes. No Quadro 5.1, são apresentadas algumas

características de materiais que podem ser utilizados

como substratos na propagação por sementes.

A associação de materiais permite melhor as

condições para desenvolvimento das mudas. Assim, a

grande maioria dos trabalhos com substratos na fase

de desenvolvimento de mudas inclui misturas de

solo, materiais orgânicos e condicionantes físisico

(fino de carvão, vermiculita e casca-de-arroz

carbonizada). A mistura com materiais orgânicos

além do fornece nutrientes, favorecendo o

desenvolvimento das raízes e da planta pela melhoria

das condições físicas do substrato (Ferraz et al.,

2007; Galvão et al., 2007; Mendonça et al., 2008;

Araújo Neto et al., 2009).

5.6.2 Substratos para enraizamento de estacas

O substrato é um dos fatores de maior

influência no enraizamento, especialmente naquelas

espécies com maior dificuldade de formação de

raízes. O substrato não apenas afeta o percentual de

estacas enraizadas como também a qualidade do

sistema radicular da muda. Destina-se a sustentar as

estacas durante o período de enraizamento, mantendo

sua base em um ambiente úmido, escuro e

suficientemente aerado. Em um sentido mais restrito,

o substrato deve garantir as condições adequadas

apenas para o enraizamento das estacas. Numa

abordagem mais ampla, porém, é conveniente que

algumas condições sejam oferecidas para que haja o

desenvolvimento inicial das raízes adventícias, tais

como o fornecimento de nutrientes e o uso de

materiais orgânicos, os quais podem favorecer o

desenvolvimento radicular e, por conseqüência, o

pegamento e desenvolvimento no viveiro ou no

campo.

Para proporcionar um bom enraizamento e

desenvolvimento da muda, um bom substrato é

aquele que possui as seguintes características:

a) Retém água suficiente para manter as

células túrgidas, evitando o murchamento da estaca;

b) Garante aeração suficiente, através de um

adequado espaço poroso, para a formação das raízes e

para o metabolismo radicular;

c) Adere-se bem à estaca e às raízes formadas;

d) Não favorece a contaminação e o

desenvolvimento de patógenos e saprófitos, tanto por

ser fonte de inóculo quando por criar condições

favoráveis ao desenvolvimento de microorganismos;

e) Permite que as estacas enraizadas sejam

removidas com um mínimo de dano às raízes;

f) Tem baixo custo e é fácil aquisição;

g) Não contém ou libera quaisquer substâncias

fitotóxicas à estaca.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 77

Quadro 5.2 Vantagens e desvantagens de alguns

substratos para enraizamento.

Substrato Vantagens Desvantagens

Solo Adequado para estacas

lenhosas

Pouca drenagem em

nebulização; fácil

disseminação de doenças (exige desinfestação)

Areia Baixo custo; fácil

disponibilidade; boa drenagem sob

nebulização; adequada

para estacas herbáceas e semilenhosas

Sob nebulização, a areia

muito fina pode ser compactada e as raízes

podem ser menos

ramificadas; inadequada para ambiente externo,

devido à pouca retenção

de água; peso elevado, resultando em danos às

raízes na repicagem

Turfa Reação ácida,

adequada para

algumas espécies

Difícil obtenção em

algumas regiões

Casca-de-

coco

Possui estrutura física

vantajosa proporcionando alta

porosidade e alto

potencial de retenção de umidade, além de

ser um resíduo

biodegradável contribuindo com a

diminuição do lixo

industrial.

apresenta salinidade de

média a alta, relação C/N alta, condutividade

elétrica alta.

Fino-de-

carvão (pó

de carvão vegetal)

Aumenta a porosidade,

a capacidade de

retenção de água e facilita a proliferação

de microorganismos

benéficos.

Vermiculita Não dissemina

doenças; adequado

para estacas herbáceas

e semilenhosas; baixo peso; elevada

porosidade; boa

retenção de umidade

Custo elevado. Exige

fertilização para o

desenvolvimento das

mudas.

Composto

orgânico

Fornece nutrientes

para a futura muda;

boa retenção de umidade; baixo custo;

boa retenção de água;

alto poder tampão

Pode ser fonte de inoculo

de organismos saprófitos;

exige desinfestação

Coprólitos

de minhoca

Alta atividade

microbiana; Contém

substâncias húmicas; retém nutrientes,

impedindo sua

lixiviação; alta CTC; alta capacidade de

retenção e

disponibilidade de umidade;

Em alta concentração

pode causar compactação

e asfixia; Falsa fertilidade, pois a concentração de

nutrientes depende da

qualidade do material consumido pelas

minhocas.

Casca de

arroz

carbonizada

Fácil obtenção; baixo

custo; usada pura no

enraizamento de estacas; boa aeração;

drenagem rápida e

eficiente

Baixa retenção de água,

porém superior a da areia.

Ver esquema de carbonização Fig. 5.1.

Serragem Baixo custo; fácil

obtenção

Risco de fitotoxicidade,

pouco aderência à estaca,

se mal decomposto, pode fermentar.

Fonte: Fachinello et al. (1995); Kampf (1999); Fernades e Corá,

2000; Zanetti et al. (2003); Freitas et al., (2002).

Atenção diferenciada deve ser dada conforme

o tipo de ambiente para propagação. No caso de uso

de nebulização intermitente, a drenagem é um dos

fatores mais importantes, de forma a se evitar a

asfixia na base da estaca. Em se trabalhando com

estacas lenhosas, em solo ou em recipientes com

algum outro material, mas sem nebulização, a

retenção de água assume maior importância.

A escolha do substrato é feita levando-se em

consideração a espécie, o tipo de estaca, as

características do substrato, a facilidade de obtenção

e o custo de aquisição. A determinação do substrato

mais adequado para cada espécie deve ser feita

através de experimentos. No Quadro 5.2 são

apresentadas algumas vantagens e desvantagens de

alguns substratos que podem ser utilizados em

estaquia.

O meio de enraizamento não afeta apenas o

enraizamento em si. Tem sido obtida grande

influência do substrato sobre a qualidade do sistema

radicular adventício, no que tange a diversos

parâmetros. É conveniente atentar-se para a qualidade

do sistema radicular formado, pois esta irá influenciar

diretamente o pegamento no viveiro e o

desenvolvimento posterior da muda. Em geral, raízes

desenvolvidas em areia são mais grossas, menos

ramificadas e mais quebradiças, ainda que as

características do sistema radicular também sejam

função da espécie. A mistura da areia com turfa ou

outros materiais orgânicos freqüentemente permitem

que se forme um melhor sistema radicular. A

permanência das folhas também podem ser afetadas

pelo substrato. Substratos com menor contato com a

estaca tendem a ocasionar maior queda de folhas e

consequentemente morte das estacas.

A asfixia na porção da estaca enterrada no

substrato pode desfavorecer o enraizamento,

ocasionando até mesmo a morte das estacas. A baixa

capacidade de drenagem do substrato na base da

estaca pode ocasionar a ocorrência de um problema

denominado 'necrose na base'. Além disso, o pouco

espaço poroso pode favorecer a ocorrência de

doenças. O teor de oxigênio requerido na formação

de raízes é variável conforme a espécie, mas é

sempre indispensável. É citado que, para Salix spp., 1

ppm de oxigênio é suficiente para o enraizamento,

podendo o mesmo enraizar em água, ao passo que

para Hedera helix, um mínimo de 10 ppm é

necessário.

Em algumas espécies, o aumento do teor de

oxigênio incrementou o enraizamento de estacas.

Assim, é importante analisar as características físicas

do substrato a ser utilizado nesta condição. Espaço

poroso (macro e microporosidade), oxigênio

disponível, aeração, drenagem e excesso de água no

substrato são aspectos interligados entre si e é

necessário observá-los.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 78

Figura 5.2 – Esquema da carbonização da casca de

arroz. Fonte: Kämpf, 1999.

5.6.3 Substratos em micropropagação

Objetiva-se aqui dar algumas informações a

respeito do uso dos substratos na fase de

aclimatização das plantas propagadas 'in vitro' e do

enraizamento 'ex vitro' de brotações, ainda que possa-

se considerar como substratos também os diversos

meios de cultura utilizados no estabelecimento e

cultivo de plantas em laboratório. Dentro deste

enfoque, o objetivo do substrato nesta fase é propiciar

condições que minimizem o 'stress' da planta quando

da sua transferência de um ambiente mais favoráveis

para outro com condições mais adversas, bem como

na passagem de um mecanismo heterotrófico para

outro, autotrófico. O substrato de transplantio na

aclimatização é um ponto crítico. Além dos fatores

endógenos que controlam a rizogênese, fatores

externos relativos ao substrato, como o pH e a

aeração do meio são importantes. Devido à

fragilidade do sistema radicular desenvolvido em

ágar, a transferência na aclimatização é uma fase

muito delicada. Além disso, devido ao pequeno

número de raízes e a sua não-funcionalidade, há

necessidade de readaptação de um meio saturado para

outro, mais seco.

Algumas características desejáveis de um

substrato para uso em aclimatização são:

a) Com relação à planta – estéril; não tóxico;

que não provoque dano às raízes; que ofereça

facilidade de penetração pelas raízes, mesmo que

sejam finas; pH adequado ao desenvolvimento das

plantas; com poder tampão do pH; com reservas de

nutrientes ou com CTC; com relação ar/água próxima

a 50% sob irrigação; capaz de absorver exsudados

tóxicos produzidos durante a rizogênese; capaz de

permitir a estocagem das mudas; capaz de permitir a

inoculação com microrrizas;

b) Com relação ao uso – fácil armazenamento;

fácil manejo e possível de ser usado com

mecanização; capaz de permitir um fácil transplante

de plantas herbáceas; alta densidade por unidade de

área; fácil regulação da umidade; capaz de permitir a

esterilização por autoclavagem; com uma competitiva

relação qualidade/preço.

Inúmeros materiais podem se utilizados nesta

fase da micropropagação. Podem ser usados materiais

como vermiculita, perlita, areia, turfa, casca de

eucalipto ou Pinus curtida, casca de arroz

carbonizada e pó de carvão. O substrato ou mistura

de substratos mais adequados é variável conforme a

espécie. Outros materiais têm sido utilizados, como

fibras de polipropileno, fibras de viscose, 'rockwool'

e lã de vidro. Devido à sua esterilidade, o 'Plantmax'

ou outros substratos comerciais similares são

comumente utilizados.

Uma técnica que pode se utilizada é a do

enraizamento 'ex vitro'. O enraizamento diretamente

no substrato induz à produção de um sistema

radicular mais completo e funcional, com maior

número de raízes secundárias do que aquele

- Acenda o carvão, através dos orifícios da

lata, até obter brasas;

- Coloque a casca de arroz sobre a lata, formando um cone até a metade das altura

da chaminé;

- Revolva o material até ficar com a cor

bem escura;

- Resfrie o material com rega abundante;

- Armazene o material em local isento de

fontes de contaminação;

OBSERVAÇÃO

- Cuide para que a casca não entre em

combustão, revolvendo com freqüência. Para cada m3 5 horas de trabalho e o

volume do material se reduz em

aproximadamente 50% após carbonização.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 79

desenvolvido em meio de cultura com ágar. Esta

prática é mais viável em espécies herbáceas ou em

espécies lenhosas com facilidade de enraizamento em

estaquia, as quais, ao serem retiradas de um estado de

alta disponibilidade de nutrientes, são capazes de

emitir raízes rapidamente para absorver os nutrientes

necessários. Além disso, é possível reduzir-se o stress

que ocorre quando é feito o transplante com mudas

de raiz nua para outro substrato. O enraizamento de

brotações obtidas "in vitro" pode ser efetuado em

areia não-esterilizada. Esta areia é enriquecida com

fitorreguladores e tem o pH ajustado, como num

meio normal de cultivo. Brotações de 3 a 5 cm são

utilizadas e transferidas para areia sob alta umidade

relativa do ar. É neste meio que o enraizamento é

induzido e esta técnica pode reduzir os custos da

micropropagação. Tem sido sugerido o uso de 'plugs',

blocos de substrato (em geral compostos de materiais

fibrosos), nos quais é impregnada a solução nutritiva,

de maneira que a planta é aclimatada e transplantada

no lugar definitivo sem qualquer injúria no sistema

radicular.

5.7 Recipientes

Entende-se por recipiente todo e qualquer

material destinado a acondicionar o substrato durante

a produção de mudas. O uso de recipientes tem

acompanhado a evolução tecnológica dos sistemas de

propagação, pois são ferramentas indispensáveis na

produção intensiva de mudas. Na medida em que se

avança na pesquisa de substrato para a propagação,

os recipientes assumem cada vez mais importância.

Embora, em diversos casos a produção de mudas

diretamente no viveiro, dispensando o uso de

recipientes, possa ser mais econômica, cada vez mais

a produção de mudas embaladas vem sendo adotada.

Mesmo nesses casos, os recipientes podem tomar

parte em alguma das etapas da propagação. É o caso

de mudas cítricas – o porta-enxerto pode ser

inicialmente desenvolvido em tubetes ou bandejas e

posteriormente transferidas para o viveiro ou

recipiente maiores, onde são mantidas até a

comercialização. Em outras situações, toda a

produção da muda pode ser feita em um ou mais

recipientes.

A adoção de recipientes na produção de

mudas frutíferas apresenta, como principais

vantagens:

a) Quando associado ao uso de telados ou

estufas, permite o cultivo sob quaisquer condições

climáticas, o que permite cumprir-se rigorosamente

um cronograma de produção;

b) Redução da utilização de tratores e carretas

na área de viveiro;

c) Redução do tempo necessário para a

produção das mudas (em mudas cítricas, no sistema

de sementeira, são necessários 18 a 24 meses para

produção das mudas, enquanto que, com uso de

bandejas ou tubetes, são necessários 12 a 15 meses);

d) Redução da competição entre as mudas;

e) Redução da área necessária de viveiro;

f) Proteção do sistema radicular contra danos

mecânicos e desidratação;

g) Proteção da muda contra doenças e pragas

de solo, além de facilitar, quando necessário, a

prática da esterilização do substrato;

h) Aumento da facilidade no transporte das

mudas;

i) Redução do estresse no momento do

transplante.

Três aspectos são essenciais quando da

produção de mudas em recipientes:

a) Manutenção da umidade, especialmente em

recipientes com pequena capacidade de volume de

substrato;

b) Adubação, pois o substrato pode facilmente

ser esgotado quanto à disponibilidade de nutrientes;

c) Limitação ao desenvolvimento radicular,

aspecto que deve ser constantemente observado, de

modo que o recipiente não venha a ser uma barreira

para as raízes, a ponto de prejudicar o crescimento da

muda.

É conveniente que um bom recipiente

apresente as seguintes características:

Ter boa resistência para suportar a pressão

devida ao peso do substrato e da planta.

Possuir bom sistema de drenagem.

Possibilitar boa retenção da umidade.

Permitir boa retenção do substrato.

Ter durabilidade a ponto de resistir durante todo

o processo de produção da muda.

Ser de fácil manejo quando da transferência

(leveza e resistência).

Ter baixo custo de aquisição.

Ser reutilizável ou construído com material

facilmente reciclável.

Ter estrias que evitem o enovelamento das

raízes.

Mesmo que um recipiente possa não reunir

todas estas qualidades, deve-se selecionar aquele que

reúne o maior número de vantagens, pois isto está

estreitamente relacionado com a eficiência do sistema

de propagação e da viabilidade de uso de recipientes.

Tipos de Recipientes

Vários são os recipientes utilizados na

produção de mudas frutíferas, como os sacos

plásticos, tubetes, citropotes, bandejas plásticas ou de

isopor, caixas de madeira ou metal, vasos plásticos,

entre outros.

Os sacos plásticos: são recipientes que podem

apresentar as mais diferentes dimensões, tais como 8

cm (diâmetro) x 12 cm (altura) e 12 x 20 cm.

Normalmente, apresentam coloração preta ou escura

para impedir o desenvolvimento de algas e invasoras

dentro do recipiente e proporcionar melhores

condições de desenvolvimento para as raízes. São

perfurados na sua base para a drenagem da água.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 80

Apresentam a vantagem de serem muito versáteis,

adaptando-se a uma grande variedade de situações,

além de terem baixo custo de aquisição, serem

reutilizáveis e serem de fácil manejo. Porém, se o

plástico for de pouca espessura, facilmente se rompe

devido ao peso do substrato ou ao crescimento das

raízes e não permitem a sua reutilização por várias

vezes. Além disso, as perfurações devem estar

localizadas próximo à base da embalagem, caso

contrário, não permitem um bom escoamento da água

em excesso, prejudicando o crescimento da muda. É

importante atentar-se para a qualidade do plástico,

além do número e posição das perfurações no

momento da aquisição.

Tubetes: são recipientes de formato cônico,

construídos em plástico rígido e de cor escura.

Internamente, apresentam estrias que impedem o

enovelamento das raízes. Podem acondicionar

diferentes volumes de substrato. Para o uso dos

tubetes, é necessário um sistema de suporte, que pode

ser uma bandeja de isopor, de plástico ou metal, bem

como uma bancada com fios de arame distanciados

de forma a possibilitar a colocação dos tubetes.

Assim, os tubetes ficam suspensos, de modo que a

sua base fique exposta ao ar, proporcionando a

denominada "poda pelo vento" das raízes.

Como vantagens são reutilizáveis por muitas

vezes, além de permitir a produção de um grande

número de mudas por unidade de área. Por serem

unidades independentes, os tubetes permitem a

seleção das mudas com a embalagem. Por reterem

um pequeno volume de substrato, requerem que se

retire a muda tão logo as raízes ocupem todo o

substrato – por isso, são úteis para a primeira etapa da

propagação, além de necessitarem de irrigações

periódicas, visto que o substrato facilmente se

resseca.

Bandejas: podem ser confeccionadas em

plástico, normalmente apresentando um espaço único

e contínuo para acondicionamento do substrato, bem

como podem ser feitas de poliestireno expandido

(isopor), constituídas de um número variável de

células, nas quais é feita a produção da muda. As

células apresentam forma piramidal invertida, com

capacidade de até 120 cm3 de substrato por célula. Na

base, a célula apresenta um orifício para escoamento

da água. As bandejas podem ser reutilizadas por

diversas vezes. Assim como o tubete, as bandejas são

úteis na primeira etapa da propagação, pois

acondicionam pequeno volume de substrato.

Preferencialmente, as bandejas devem ficar

suspensas, permitindo a "poda pelo vento". A

durabilidade da bandeja está em função do ambiente

onde é feita a propagação e do cuidado no manuseio

das mesmas. Para uma dada espécie, em sistemas

tradicionais de propagação (viveiros), podem ser

produzidas cerca de 25 a 30.000 mudas/ha, enquanto

com uso de bandejas, podem ser produzidas cerca de

200.000 mudas/ha.

Citropotes: também conhecidos como

"containers", apresentam esta denominação, por

terem sido desenvolvidos e difundidos para a

produção de mudas cítricas. São confeccionados em

plástico preto rígido e acondicionam grande volume

de substrato, de modo a permitir que a muda seja

mantida neste recipiente desde a repicagem da muda

(produzida em tubetes ou bandejas) até a

comercialização e apresentam diversas vantagens,

dentre as quais a facilidade de manuseio da muda, a

possibilidade de produção de mudas numa mesma

área durante vários anos (desde que o substrato seja

oriundo de local isento de patógenos), bem como

permitindo o plantio da muda no pomar sem danos ao

sistema radicular. Uma das principais limitações ao

uso do citropote é seu levado custo de aquisição.

5.8 REFERÊNCIAS

ARAÚJO NETO, S. E. ; AZEVEDO, J. M. A. de;

GALVÃO, R. de O.; OLIVEIRA, E. B. de L.;

FERREIRA, R. L. F. Produção de muda orgânica de

pimentão com diferentes substratos. Ciência Rural,

v. 39, p. 20-25, 2009.

BALDASSARI, R. B.; GOES, A. de; TANNURI, F.

Declínio dos citros: algo a ver com o sistema de

produção de mudas cítricas?. Revista Brasileira de

Fruticultura, ago. 2003, vol.25, no.2, p.357-360.

FACHINELLO, J.C.; HOFFMANN, A.;

NACHTIGAL, J. C.;. KERSTEN, E.; FORTES, G.R.

de L. Propagação de plantas frutíferas de clima

temperado. 2ª ed. Pelotas: UFPEL, 1995. 178 p.: il.

FERRAZ, P. de A.; MENDES, R. ; ARAÚJO NETO,

S. E. de. Produção de mudas de bertalha com

substratos organicos. In: V Congresso Brasileiro de

Agroecologia, 2007, Guaraparí. Revista Brasileira de

Agroecologia. Porto Alegre : Sociedade Brasileira de

Agroecologia, 2007. v. 2. p. 1519-1522.

FERNANDES, C.; CORÁ, J. E. Caracterização

físico-híidrica de substratos utilizados na produção de

mudas de espécies olerícolas e florestais.

Horticultura Brasileira, Brasília, v.18, p. 469-471,

jul. 2000.

FERRAZ, M. V.; CANTURION, J, F,. BEUTLER,

A. N. Caracterização física e química de alguns

substratos comerciais. Acta Sci. Agron., Maringá, v.

27, n. 2, p. 209-214, April/June, 2005.

GALVÃO, R. de O.; ARAÚJO NETO, S. E. de;

SANTOS, F. C. B. dos ; SILVA, S. S. da.

Desempenho de mudas de mamoeiro cv. Surinse solo

sob diferentes substratos orgânicos. Caatinga

(Mossoró), v. 20, p. 144-151, 2007.

KÄMPF, A. N. Substrato. In: KÄMPF, A. N.

Produção comercial de plantas ornamentais. 1999.

MENDONÇA, V.; ARAÚJO NETO, S. E. de;

RAMOS, J. D.; PIO, R.; Diferentes substratos e

recipientes na formação de mudas de mamoeiro

Sunrise Solo. Revista Brasileira de Fruticultura,

Jaboticabal, v.25, n.1, p.127-130, Abril, 2003.

Viveiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 81

MENDONÇA, V.; ARAÚJO NETO, S. E.; RAMOS,

J. D.; PIO, R.; CHAGAS, E. Crescimento de mudas

de maracujazeiro-amarelo sob diferentes substratos e

recipientes. Revista de Ciências Agrárias (Belém),

v. 49, p. 177-180, 2008.

PLANK, C. O. Soil test handbook for Georgia.

Athens, university of Georgia, 1989. 316p.

RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia de

produção, gerenciamento e comercialização. 1 ed.

Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.

SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:

FEALQ, 1998. 760p.: il.

ZANETTI, M.; CAZETTA, J. O.; MATTOS

JÚNIOR, D. de; CARVALHO, S. A. de. Uso de

subprodutos de carvão vegetal na formação do porta-

enxerto limoeiro ‘cravo’ em ambiente protegido.

Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal, v.

25, n. 3, p.508-512, 2003.

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 82

6. PLANEJAMENTO E IMPLANTAÇÃO DE

POMAR

6.1 –Planejamento do pomar

A fruticultura é um dos ramos da horticultura

que exige-se um cauteloso planejamento, pois os

custos de implantação são altos, o retorno econômico

lento e em muitos casos um erro pode ser

irremediável, por isso, o sucesso da fruticultura está

no planejamento da atividade, analisando desde

condições edafoclimáticas da cultura, preferência do

consumidor, logística de mercado, disponibilidade de

mudas, insumos e equipamentos e outros fatores,

dentre os quais:

a) O clima favorável, deve-se avaliar os vários

aspectos de altas e baixas temperaturas, ventos

fortes, quentes, secos ou frios, umidade relativa

do ar baixa ou alta, a quantidade de chuvas e a sua

distribuição;

b) O solo, analisando os aspectos químicos, físicos,

biológicos, topografia, compactação e

uniformidade;

c) A localização do pomar, deve ser próximo ao

mercado consumidor e de vias de acesso, em

regiões com poucos problemas fitossanitários,

com água abundante e de qualidade e com mão-

de-obra suficiente e especializada;

d) Para a seleção de cultivares, copas e porta-

enxertos, deve-se considerar o destino da

produção, época de maturação, produtividade,

tamanho das plantas, tamanho dos frutos,

resistência à pragas e doenças, uniformidade de

produção, adaptabilidade aos diferentes tipos de

solos, rendimento industrial e preferência do

consumidor;

e) Os fatores técnicos, tais como: aquisição ou

formação de mudas, distribuição dos talhões de

acordo com o relevo, sistema de plantio,

espaçamento, tratos culturais, irrigação,

maquinários, equipamentos e principalmente

infra-estruturas;

f) Fatores comerciais, como: comercialização das

safras, capital investido (necessário), número

conveniente de plantas, problema de super oferta,

plano de desembolso, rendimento, custo de

produção e de comercialização.

Um exemplo disso é o plantio de coco em

solos razos e com baixa capacidade de

armazenamento de água, como nos solos argissolos e

plintossolos mal drenados no Acre, limitando o

crescimentos das plantas e a produção de coco

quando há períodos longos de esiagem, ao contrários

das áreas marginais aos rios na Amazônia, com solos

profundos bem drenados e úmidos a maior parte do

ano, condições ideais para palmeiras como o coco,

muito exigente em água.

6.2 – Talhões

Os talhões desempenham função importante

na vida de um pomar, pois separam espécies,

variedades e idade das plantas, facilitando o manejo

do pomar, a colheita, a transmissão de doença dentre

otras vantagens. Outro fator importante, que está

associado aos talhões são os carreadores que os

divide e que permitem o transporte dos insumos para

o pomar e das frutas para a casa de embalagem.

O tamanho dos talhões não devem ser muito

grandes, nem muito pequenos , para facilitar o

manejo.

Em alguns casos, o uso dos talhões é

indispensável, como no cultivo de banana, pois essa

cultura exige renovação anual de 20% do plantio, que

devem ser feitos em talhões de aproximadamente 1

ha cada.

Em citros, os talhões têm cerca de 2 mil

plantas, os talhões não podem ser muito pequeno,

pois é necessário avaliar as perdas com carreadores,

que, geralmente, consomem de 6 a 8% da área

destinada aos pomares.

A recomendação para citros é de que o talhão

quadrado tenha de 285 a 380 metros de lado ou

número múltiplo de espaçamento adotado, resultando

numa área útil de 8 a 15 hectares. Os retangulares

devem ter de 250 a 300 m no sentido das ruas por

400 a 500 m de largura, no sentido perpendicular das

ruas, com área útil de 10 a 15 ha (FUNDECITROS,

2010.

De acordo com De Negri et at. (2005), os

talhões podem ser quadrados ou retangulares com

carreadores contínuos (Figura 6.1) em caso de pouca

declividade (5% a 6%) ou com carreadores

desencontrados quando há desnível acentuado em um

sentido (Figura 6.2).

Há também os carreadores irregulares quando

o terreno for irregular e apresentar mais de uma

declividade e mais sujeitos à erosão (Figura 6.3).

Figura 6.1 – Talhões quadrados com carreadores

contínuos (Adaptado de De Negri et al., 2005).

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 83

Figura 6.2 – Talhões quadrados com carreadores

desencontrados (Adaptado de De Negri et al., 2005).

Figura 6.3 – Talhões irregulares com carreadores

desencontrados (Adaptado de De Negri et al., 2005).

45°

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 84

6.3 - Sistema de Plantio

O sistema de plantio a ser utilizado dependerá

do tipo de pomar a ser implantado e da declividade

do terreno. De maneira geral, pode-se optar pelos

seguintes sistemas de plantio: quadrado, retangular,

hexagonal, quincôncio e triangular. Caso a área de

plantio seja plana pode-se optar por linhas retas, não

utilizando curvas de nível, facilitando os tratos

culturais.

Neste caso, a orientação do terreno ficaria

relacionado com a disponibilidade de luz, assim,

plantio de espécies exigentes em luz como o

maracujazeiro, bananeira, gravioleira, coqueiro,

mangueira, citros, cajueiro e outras, as linhas de

plantio devem ser orientadas no sentido leste-oeste,

para que se possa captar o máximo de luz.

Mas para espécies de origem sub-bosque como

o cupuaçuzeiro, as linhas de plantio devem ser

direcionadas no sentido norte-sul, principalmente

quando não se usa consórcio, ou leste-oeste quando o

plantio for feito em faixas sob espécies funcionais (de

sombreamento). Ou ainda obedecendo o equinócio

para espécies com maior ou menor exigência em luz.

Em terreno com declive maior que 15%, deve-

se utilizar curvas de nível, com espaçamento

retangular.

O sistema em quadrado é o mais simples,

porém, não proporciona bom aproveitamento da área

e da radiação solar.

O sistema retangular permite um maior

número de plantas por área quadrangular, facilitando

também os tratos culturais.

No sistema triangular usa-se o triângulo

isósceles ou o eqüilátero.

O sistema de triângulo eqüilátero permite o

cultivo em três sentidos, melhor aproveitamento do

terreno e muito mais fácil traça-lo do que parece a

primeira vista. Para isto primeiro traça-se no terreno

uma linha básica. Sobre ela marcam-se as primeiras

covas, com a distância entre plantas determinada.

Digamos que sejam 7 metros. Enfia-se um piquete em

cada ponto marcado. Toma-se um cordel com 14 m de

comprimento, terminado em laços e com o meio marca-

se uma nova cova. Continua-se assim até marcar todas

as covas do pomar. Este sistema permite plantio de 15%

mais plantas que o sistema em quadrado (Figura 6.4).

O sistema hexagonal, que é baseado no

triângulo equilátero, sem plantar no ponto central do

hexágono, é pouco funcional, por reduzir o número

de plantas em 33% comparado com o sistema em

triângulo eqüilátero. Seu uso é mais freqüente em

culturas de alta densidade como abacaxizeiro e para

culturas com espaçamento triplo como bananeira,

nestes casos chega a ser necessário já que a planta

central do triângulo eqüilátero poderá impedir o

trabalho rua para o manejo das das plantas nas linhas

triplas seja manual, com tração animal ou

mecanizada.

Figura 6.4 – Esquema de marcação de covas em

sistema de triângulo eqüilátero. (Adaptado de De

Negri, Stuchi e Blasco, 2005).

O sistema de quincôncio, que propicia um

maior número de plantas inicialmente, é um sistema

que necessita desbaste no futuro para espécies de

porte alto, e pode ser adotado para pomar doméstico,

com plantio de espécies de menor porte no meio,

evitando o desbaste no futuro. A figura 6.5. contém a

ilustração dos diferentes sistemas de plantio

utilizados, citados.

Quadrado Retângulo

Triângulo Equilátero Triângulo Isósceles

Quincôncio Hexágono

Quadrado Retângulo

Triângulo Equilátero Triângulo Isósceles

Quincôncio Hexágono

Figura 6.5 – Sistemas de plantio. (Adaptado de

Ramos, 1998)

Para cada sistema de plantio há uma fórmula

para o cálculo do número de plantas na área do

plantio (Quadros 6.1 e 6.2).

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 85

Quadro 6.1. Fórmulas de cálculo do número de

plantas em cada sistema de plantio

Sistema de Plantio Fórmula

Quadrado ou retângulo n = A / Dl x Dp

Hexágono n = A / L x h??????????

Quincôncio n = A / Dl x Dp

Triângulo eqüilátero n = A / L x h

Triângulo isósceles n = A / b x h n = número de plantas A = área do terreno (m2)

D1=distância entre linha(m) Dp=distância entre plantas (m)

L = lado do triângulo (m) b = base do triângulo (m)

h = altura do triângulo (m) (h2=L2-L2 )

2

Para triângulo eqüilátero h = L3

2

No caso do triângulo eqüilátero, quando se tem

apenas a informação da distância entre as ruas, calcula-

se os lados pela fórmulas L = h / (3/2) e quando se

tem apenas o espaçamento entre plantas, calcula-se a

altura (espaçamento entre ruas) pela fórmula: L . 3.

2

Quadro 6.2. Número de plantas por hectare, em

alguns espaçamentos. Espaçamento

em metros

Quadrangular Retangular Triangular

Isósceles

Triângulo

Equilátero

2 X 2 2.500 ........ 2.500 2.890

4 X 5 ........ 500 500 ........

6 X 6 277 ........ 254 320 7 X 8 ........ 178 178 ........

9 X 9 123 ........ 112 142

10 X 10 100 ........ 91 115

6.4 - Marcação das Covas

Antes da demarcação das covas deve-se definir

qual o espaçamento a ser utilizado. Quando o terreno é

plano adota-se o alinhamento em retas paralelas aos

carreadores (Figura 6.6). Quando o terreno apresenta

com declive uniforme pode-se utilizar linhas retas

paralelas às linhas de nível (cortando as águas) (Figura

6.7). Nos dois casos anteriores a demarcação das covas

é utilizado com o auxílio de linhas intermediárias,

distanciadas 40 metros umas das outras.

Em terrenos com declive acentuado

recomenda-se a utilização de uma nivelada básica

fazendo o primeiro sulco com trator e sulcador de

cana. Os outros poderão ser feitos a partir deste com

o uso de uma vara, ou bambu, com o espaçamento

determinado nas entrelinhas, com dois bambus, de

maneira que o primeiro homem caminhe sobre o

sulco já aberto e o segundo paralelamente. O trator

seguirá as pegadas do segundo homem abrindo os

sulcos (Figura 6.8).

Figura 6.6 - Alinhamento em retas paralelas ao carreador.

(Adaptado de De Negri, Stuchi e Blasco, 2005).

Figura 6.7. Alinhamento em retas paralelas a linha de

nível. (Adaptado de De Negri, Stuchi e Blasco,

2005).

Figura 6.8. Demarcação de sulcos paralelos à

nivelada básica. (Adaptado de De Negri, Stuchi e

Blasco, 2005).

Sulco

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 86

6.5 - Preparo do solo

O preparo do solo (aração, calagem e

gradagem) na agricultura convencional é feito com

uso de tratores e outras máquinas movidas a

combustíveis fósseis não renováveis, e sua queima

produz fontes de dióxido de carbono, outros gases e

material particulado lançados na atmosfera. Esses

poluentes são responsáveis pela baixa qualidade do ar

e contribuem para o efeito estufa, que aumenta o

aquecimento global.

Além disso, o uso de tratores é um fator de

degradação por meio de compactação e erosão do

solo, desmatamento e aumento da incidência de

pragas e doenças (Reinjntzes et al., 1994; Primavesi,

2002; Souza & Resende, 2003).

O preparo inadequado do solo, principalmente

com uso de máquinas pesadas pode promover

compactação do solo, que diminui a infiltração de

água, a concentração de ar, a absorção de nutrientes,

o desenvolvimento radicular e a produção, neste caso,

a aração é um dos erros mais graves, pois o

revolvimento do solo promove a incorporação da

camada superficial, o que pode aumentar a

mineralização da matéria orgânica, resultando em

maior adensamento do solo e formação de compostos

húmicos de menor peso molecular e de menor

estabilidade (Primavesi, 2002).

Assim, o plantio direto ou cultivo mínimo são

sistemas de plantio usados em larga escala e super

adaptados à fruticultura, que não necessita de preparo

total da área devido o espaçamento amplo das

plantas.

Com isso, o plantio direto tem a função de

minimizar os efeitos negativos sobre a vida do solo,

reduzindo sua perda d'água por evaporação e suas

oscilações térmicas. Além de contribuir na

manutenção da umidade e da temperatura do solo ele

pode ainda lhe fornecer matéria orgânica, favorecer

suas atividades biológicas e aumentar a

biodiversidade, reduzir a erosão causada pelas

elevadas taxas de precipitação que desestrutura o solo

e cumpri função reguladora e protetora (Pauletti,

1999).

6.6 - Abertura e preparo das covas

O preparo do solo para o plantio (coveamento)

é um dos fatores que onera o custo de implantação, a

literatura atual sobre preparo do solo para fruteiras

não trás novidades, recomendando geralmente

coveamento de 50 cm x 50 cm x 50 cm, inclusive em

sistema orgânico (Simão, 1998; Ramos, 1998;

Penteado, 2004). Porém, sabe-se que em cultivo

orgânico, o revolvimento do solo, enterrando a

camada orgânica não trás benefícios para o solo e

conseqüentemente para a planta, pois esta matéria

orgânica poderá oxidar-se e transformar-se em ácidos

fúlvicos que mobilizam Al+3

e Fe+3

e imobilizam

cátions essenciais, além disso, pode ocorrer a

pulverização do solo e futura compactação,

dificultando o crescimento radicular e o

desenvolvimento da planta (Primavesi, 2002;

Khatounian, 2001), além do velho problema de “colo

afogado”.

Simão (1971) afirma que quanto maior a cova,

melhor, sendo as limitações apenas de ordem

econômica. E relaciona o tamanho da cova com o

tipo de solo e a espécie a ser plantada, variando entre

40 x 40 x 40 cm a 60 x 60 x 60 cm.

Em um trabalho com laranjeira Koller et al.,

(1975) e Dornelles (1975), verificaram que covas

pequenas podem promover um bom desenvolvimento

das planta e produção de frutos (Tabelas 6.1 e 6.2).

Tabela 6.1 – Produção de laranja Valência plantada

em 4 sistemas de coveamento, avaliadas no 4º ano

após o plantio. RS, 1974.

Tratamentos Peso de frutos por planta (kg) São Jerônimo Arroio

30x30x30 Lavrado/Gradeado 30,3 b 13,6 b 100x100x60 Idem 12,3 c 7,8 b 30x30x30 Idem+subsolagem 25,5 bc 15,6 ab 30x30x30 Camalhões 54,1 a 29,3 a

Fonte: (Koller et al., 1975)

Tabela 6.2 – Diâmetro médio dos troncos de

laranjeira Franck em mm, a dez centímetros acima do

ponto de enxertia. RS, 1974.

Tratamentos Vinte meses

Diâmetro (mm)

Jacá + adubo* cobertura 26,6

30x30x30 Idem 27,8

60x60x60 Idem 28,8

30x30x30 adub. na cova 29,3

Fonte: Dornelles (1975) *Yoorin 1kg

Resultados semelhantes foram encontrados

para maracujazeiro, por Araújo Neto et al. (2009) e

Queiroz et al. (1997).

Segundo Araújo Neto et al., (2009), o número

de frutos por planta e a produtividade, na segunda e

na somatória das duas safras, foram maiores com

plantio direto e com covas cúbicas de 0,30m. Após

dois anos de cultivo, a densidade do solo foi maior na

camada de 0-5cm de profundidade num raio de 20cm

da planta para o plantio em covas de 0,50m com

adubação na cova e menor para o plantio direto, não

havendo diferença entre os demais tratamentos. E os

custos econômicos e operacionais médios foram

maiores para os sistemas com plantio em covas de

0,50 m, por apresentarem elevado custo total de

produção e menor produtividade. A receita líquida foi

maior nos sistemas de preparo com covas de 0,30 m,

com adubação na cova (R$10.234,19/ha) e adubação

em cobertura (R$11.501,44/ha) – e no plantio direto

(R$8.925,08/ha) (Araújo Neto et al., 2008).

Alguns estudos avaliando o plantio direto com

alface e berinjela revelam que a produção no plantio

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 87

direto não difere do sistema convencional de preparo

de solo (Castro et al., 2005; Oliveira et al., 2006).

Queiros (1997), avaliando diferentes tamanhos

e formas de covas (0,125 m3), (0,205 m3) e (0,285

m3), não verificaram efeito na produtividade e

qualidade dos frutos do maracujazeiro-amarelo na

Paraíba.

Tabela 6.3 – Produtividade, número de frutos e peso médios de frutos de maracujazeiro-amarelo plantados em

diferentes tamanhos de cova sobre cultivo orgânico. (Araújo Neto et al., 2009).*

Tratamentos N° de frutos por planta PRODUTIVIDADE (kg/ha)

1° Safras 2° Safra Total 1° Safras 2° Safra Total

Plantio direto + Adub. em cobertura 21,8 a 61,2ab 83,0ab 3.829,3a 7.444,6ab 11.273,9ab

Covas de 30x30x30 + Adub. na cova 15,5 a 79.3 a 94,8 a 2.736,8a 9.664,8 a 12.401,5 a

Covas de 30x30x30 + Adub. em cobert 25,3 a 73,3 a 98,6 a 4.177,5a 8.951,9 a 13.129,2 a

Covas de 50x50x50 + Adub. na cova 10,0 a 36,8 c 46,8 c 1.795,3a 4.491,2 c 6.286,6 c

Covas de 50x50x50 +Adub. em cobert 10,8 a 43,8ab 54,6bc 1.911,0a 5.331,4bc 7.242,3bc

Média 16,7 58,9 75,6 2.890,0 7.176,8 10.066,7

C.V. (%) 26,49 10,49 17,93 28,1 10,42 10,56

* Médias seguidas de letras distintas na diferem entre si pelo teste de Tukey à 5% de probabilidade.

* PMF – Peso médio de fruto da segunda safra.

O plantio direto poda na oser eficiente em

condições de solo compactado e com baixo teor de

matéria orgânica. Ao decidir pela abertura de covas,

estas devem varia de 40 a 60 cm nas três dimensões

cúbicas, dependendo da agressividade do sistema

radicular da espécie cultivada. A abertura das covas

pode ser feita manualmente ou mecanicamente com

sulcador acoplado ao trator ou outro equipamento

similar. Na abertura da cova, obedecer a separação do

solo da superfície e do fundo da cova, porém, não

inverter as camadas no momento do fechamento da

cova (Figura 6.9A).

Figura 6.9 – Abertura e adubação de covas.

A adubação deve ser feita obedecendo aos

resultados da análise de solo e as necessidades de

cada cultura. Para assegurar um bom

desenvolvimento da planta recomenda-se a utilização

de matéria orgânica (esterco de curral, de galinha,

composto de lixo, torta de mamona ou similares) a

adubação química com macros e micronutrientes

(Figura 6.9B).

Deve-se, no enchimento da cova, manter a

ordem de retirada do solo e misturar a terra inferior

da cova com a adubação orgânica e calcário. Depois

do fechamento da cova deve ser colocada novamente

a estaca para demarcação do centro de cova e efetuar

o plantio no mesmo dia ou dias depois.

A literatura tradicional recomenda a inversão

das camadas de solo no momento do enchimento da

cova, porém, por princípios ecológicos, isto causaria

a morte do solo orgânico ao ser enterrado, com um

agravante, pois a matéria orgânica de maior peso

molecular seria oxidada em baixo peso molecular,

mobilizando cátions e contribuindo para a toxidez de

Al e Fé (Primavesi, 2002).

6.7 - Plantio

- Escolha da Muda

O sucesso do pomar dependerá de muitos

fatores, entretanto a muda se reveste de capital

importância. A boa muda é como se fosse o alicerce

do pomar, por isso sua escolha deve ser criteriosa.

Geralmente são adquiridas de raiz nua ou com torrão,

dependendo da época e da espécie, dar preferência

para aquelas enxertadas e com torrão.

Para conservação das mudas com torrão deve-

se colocá-las durante 1 a 2 minutos em um recipiente

com água, de maneira que sua profundidade cubra

todo o torrão. Logo a seguir colocá-la em local

sombreado. Nesse caso, se o plantio não for feito

Fosfato natural 50%

Esterco de curral

(20 litros)

Fosfato solúvel

50%

Micronutrientes

50g de FTE

Calcário

(500g)

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 88

imediatamente, estas mudas deverão ser irrigadas

diariamente.

- Época

A época mais recomendada para o plantio é no

início do período chuvoso, que nas regiões mais sul

do Brasil compreende os meses de outubro a

dezembro. Entretanto, se houver disponibilidade de

irrigação pode ser realizado em outras épocas, porém

com maiores cuidados, especialmente quando se

tratar de mudas em raíz-nua.

- Colocação da Muda na Cova

Para o plantio propriamente dito é necessário a

utilização da tábua de plantio (Figura 6.10). Maiores

cuidados devem ser dispensados para mudas de raiz-

nua, para essas dar preferência para dias nublados,

com chuva e com uma boa rega após o plantio. Para o

plantio de mudas com recipientes ou embalagens,

deve-se atentar para a retirada destes, antes do

plantio. Em casos de embalagens de sacos, deve-se

cortar o fundo do torão+saco, aproximadamente 1

(um) centímetro, para cortar raízes enoveladas.

Na retirada da embalagem tomar o máximo

cuidado possível para não destorroá-la, expondo e

destruindo raízes. Nunca levantar ou transportar a

muda pegando-se na haste principal, usar sempre as

duas mãos apoiadas no torrão, preservando-o. A

altura do plantio deve obedecer ao nível do solo,

recomendando que a planta seja colocada a 5 cm

acima do nível do solo. Após a colocação da muda,

com todos os cuidados já citados, deve-se ter o

cuidado de apertar bem, evitando deixar espaços

vazios. Logo a seguir, de preferência fazer o

tutoramento da muda com uma estaca de 60 a 80 cm

visando protegê-la contra ventos fortes e

principalmente orientar o seu crescimento vertical.

Logo após a colocação da muda deve-se

construir em volta desta uma “bacia” com

aproximadamente 50 a 80 cm de diâmetro para

melhor acumular água da das irrigações ou das

chuvas. No entanto, em solos mal drenados e em

períodos de chuvas intensas, ao invés de “bacia”,

deve-se construir um “morro” ao redor da muda, para

escorrimento da água das chuvas.

Uma prática recomendada é a colocação de

cobertura morta (capim seco, bagaço de cana ou

similares), protegendo assim a muda com maior

aproveitamento de água e já impedindo o crescimento

de plantas indesejáveis. Após essas operações

deverão ser realizados uma série de tratos culturais

que serão discutidos em outros capítulos e para cada

cultura específica.

Ao redor da muda, pode-se plantar

leguminosas de crescimento determinado, como

feijão-de-porco, crotaçária, feijão vgna ou feijão-de-

corda e amendoim forrageiro, com finalidade de

promover a diversificação no ecossistema próximo a

muda, cobertura permanente do solo e fixação

biológica de nitrogênio.

Em pequeno plantio, como em chácaras e

quintais, é importante fazer irrigação logo após o

plantio e nos dias subsequentes até o seu completo

pegamento, mas em grandes áreas, geralmente não há

sistemas de irrigação ou água disponível para tal,

devendo realmene realizar o plantio durante o

período chuvoso.

Figura 6.10. Plantio da muda na cova com tábua de

plantio: as incisões b e c são ajustadas nas estacas de

referência; a muda que estiver sendo plantada será

ajustada em a.

6.8 REFERÊNCIAS

ARAÚJO NETO, S. E. de; FERREIRA, R. L. F.;

PONTES, F T. da S.; NEGREIROS, J. R. da S.

Rentabilidade econômica do maracujazeiro-amarelo

plantado em covas e em plantio direto sob manejo

orgânico. Revista Brasileira de Fruticultura, v. 30,

p. 940-945, 2008.

ARAÚJO NETO, S. E. de; SOUZA, S. R. de;

SALDANHA, C. S.; FONTINELE, Y. da R.;

NEGREIROS, J. R. da S.; MENDES, R.;

AZEVEDO, J. M. A. de; OLIVEIRA, E. B. de L.

Produtividade e vigor do maracujazeiro-amarelo

plantado em covas e plantio direto sob

manejo orgânico. Ciência Rural, Santa Maria, v.39,

n.3, p.678-683, 2009.

b a c

Planejamento e implantação de pomar

Sebastião Elviro de Araújo Neto 89

CASTRO, C. M. de, ALMEIDA, D. L. de, RIBEIRO,

R. de L. D., CARVALHO, J. F. de. Plantio direto,

adubação verde e suplementação com esterco de aves

na produção orgânica de berinjela. Pesquisa

agropecuária brasileira, Brasília, v.40, n.5, p.495-

502, maio 2005.

DE NEGRI, J. D.; STUCHI, E. S.; BLASCO, E. E.

A. Planejamento e implantação do pomar de citros.

In: MATTOS JUNIOR, D. de; DE NEGRI, J. D.;

PIO, R. M.; POMPEU JUNIOR, J. Citros: Instituto

Agronômico e Fundag, 2005. p.411-430.

DORNELLES, c. M. M. Experimento comparativo

de tamanho de covas e método de aplicação de

adubação em plantio de laranjeira (Citrus sinensis

Osbeck). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 3, 1975, Rio de Janeiro. Anais…

Rio de Janeiro: SBF, 1975. p.359-363.

FUNDECITRUS. Distribuição e dimensões dos

talhões. In: FUNDECITRUS.

Greening:profissionais discutem os avanços no

manejo da doença. FUNDECITRUS: Araraquaras,

ano I, nº5, 2010. p.13.

GOMES, R. P. Fruticultura brasileira. 9 ed. São

Paulo: Nobel, 1983.

KHATOUNIAN, C. A. A reconstrução ecológica da

agricultura. Botucatu: Agroecologia, 2001.348p.

KOLLER, O. C.; BARRADAS, C. I. N.; GRIGS, R.

J.; SANTIM, S. A. Sistema de preparo do solo para o

plantio de laranjeiras Valencia (Citrus sinensis, Osb.).

In: CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 3, 1975, Rio de Janeiro. Anais…

Rio de Janeiro: SBF, 1975. p.225-263.

OLIVEIRA NG; DE-POLLI H; ALMEIDA DL;

GUERRA JGM. Plantio direto de alface adubada

com “cama” de aviário sobre coberturas vivas de

grama e amendoim forrageiro. Horticultura

Brasileira, Brasília, v. 24: p.112-117. 2006.

PAULETTI, V. Plantio Direto: atualização

tecnológica. Fundação Cargill, Fundação ABC,

São Paulo, 1999. 171p.

PENTEADO, S. R. Fruticultura orgânica:

formação e condução. Viçosa: Aprenda Fácil, 2004.

308 p.

PRIMAVESI, A. O manejo ecológico do solo:

agricultura em regiões tropicais. São Paulo,

Nobel, 2002. 541p.

QUEIRÓS, M. do S. Tipos de covas e cobertura

morta sobre a produção e qualidade dos frutos

do maracujazeiro amarelo. Campina Grande -

PB. 01/10/1997. 1v. 67p. Mestrado.

UNIVERSIDADE FEDERAL DA

PARAÍBA/AREIA - MANEJO E

CONSERVAÇÃO DE SOLOS.

RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia de

produção, gerenciamento e comercialização. 1 ed.

Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.

REINJNTZES, C; HARVESKORT, B.; WATERS-

BAYER, A. Agricultura para o futuro. Rio de

Janeiro: ASPTA/ILEA, 1994.

SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:

FEALQ, 1998. 760p.: il.

SOUZA, J. L. de; RESENDE, P. Manual de

horticultura orgânica.Viçosa: Aprenda Fácil, 2003.

p.19-34.

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 90

7. PODA DAS PLANTAS FRUTIFERAS

Poda é a arte e técnica de “educar” as

plantas por meio de cortes de ramos, folhas e até

raízes, de modo a direcionar a arquitetura e fisiologia

de plantas frutíferas para fins de obter qualidade e

produtividade de frutos, forma e sanidade da planta.

Especificametne em fruticultura a poda é

utilizada com objetivo de regularizar e aumentar a

produção, melhorar a qualidade dos frutos e ajustar a

arquitetura das plantas as técnicas de cultivo.

A poda não resolve os problemas da

fruticultura, no entanto, é uma alternativa

complementar a outras tecnicas de manejo.

Segundo Chalfun Junior e Chalfun (2006), a

importância de se podar, varia de espécie para

espécie, assim poderá ser decisiva para uma,

enquanto que para outra, ela é praticamente

dispensável. Com relação à importância, as espécies

podem ser agrupadas em:

Decisiva: Videira, pessegueiro, figueira;

Relativa: Pereira, macieira, caquizeiro, goiabeira,

aceroleira;

Pouca importância: Citros, abacateiro, mangueira.

A poda pode causar danos graves as plantas

e para que ela seja benéfica é importante ser

executada levando-se em consideração a fisiologia e

biologia da planta e seja aplicada com moderação na

idade e época serta.

7.1 Princípios fisiológicos que regem a poda

O conhecimento de algumas regras sobre a

fisiologia vegetal faz se necessário para auxiliar o

podador.

As funções vegetativas e reprodutivas são

geralmente antagônicas, assim, uma planta com

excesso de frutos frente ao total de folhas conduz à

uma produção qualitativamente inferior, bem como

depauperamento da árvore e comprometimento da

produção da próxima safra.

Por outro lado, o crescimento vegetativo

forte tende a produzir poucos frutos, de forma que o

equilíbrio entre essas duas fases promove produções

constantes e mantém o crescimento vegetativo.

Esse equilíbrio está ligado principalmente às

reservas de carboidratos e sua utilização pela planta.

Assim, a poda tem a função de equilibrar o acúmulo e

a utilização de carboidratos pela planta.

Um exemplo seria o pessegueiro. Essa

relação é de 1 por 40, ou seja, para cada fruto, 40

folhas.

A circulação da seiva na planta está ligada

ao transporte ascendente de nutrientes e descentendes

de car boidratos e compostos do metabolismo

secundário.

A seiva tem sua ascendência ligada à

transpiração (diferença de potencial e difusão) ou

descendente pela capilaridade e diferença de

depotencial). Portanto, as relações hídricas vegetal,

estabelecem leis nas quais se baseiam as podas das

plantas:

A eliminação de ramos ou parte de ramos pela

poda altera-se não apenas a forma mas também a

fisiologia da planta alterando o volume e a pressão das

seivas bruta e elaborada contendo nutrientes e

substâncias químicas responsáveis por estímulos e

bloqueios de atividades fisiológicas, como o

florescimento ou surtos vegetativos.

Os princípios que regem a poda podem ser

assim apresentados:

1º. A rápida circulação da seiva favorece o

desenvolvimento vegetativo, enquanto a circulação

lenta estimula a frutificação

Em outras palavras, quanto mais rápida for a

circulação da seiva no interior do ramo, maior será o

número de gemas que originarão crescimentos

vegetativos vigorosos e, ao contrário, quanto mais

difícil e lenta for essa circulação, mais numerosas

serão as gemas que se transformarão em botões

floríferos.

Isso, de certa forma, pode ser explicado pelo

fato de haver uma intensa competição por nutrientes

entre os ramos produtivos e vegetativos, uma vez que

durante a acumulação de sais minerais, açúcares e

aminoácidos nos órgãos reprodutivos, é possível se

constatar um decréscimo correspondente e

aproximadamente igual nas quantidades desses

nutrientes presentes nas folhas.

A produção de gemas floríferas depende da

acumulação de fotossintatos nos tecidos que as

originarão. Essa acumulação depende da velocidade

com que a seiva circula no interior do ramo que, por

sua vez, depende da relação entre a produção e o

consumo desses produtos.

Que condições morfológicas ou fisiológica a

velocidade de circulação da seiva em uma planta é

alterada?

a) maior quando ela se encontra em fase de

crescimento vegetativo intenso, com grande

divisão e crescimento celulares;

b) A circulação da seiva será tanto mais intensa

quanto mais retilíneo for o ramo;

Como decorrência, dentro de certos limites,

quanto maiores forem os obstáculos que se opuserem

à livre circulação da seiva em uma planta ou ramo,

tanto maior será sua predisposição para florescer e

frutificar.

Nisso baseiam-se as conhecidas técnicas de

forçamento da produção, como anelamento,

estrangulamento e ferimento do caule, este muito

usado em mangueiras pelos caboclos brasileiros.

Por outro lado, as podas sucessivas feitas em

uma mesma unidade produtiva criam obstáculos à

circulação da seiva, favorecendo a produção em

plantas vigorosas ou jovens. Em plantas velhas ou

fracas a poda deve, em contrapartida, aproximar a

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 91

unidade produtiva da estrutura básica da planta,

eliminando a tortuosidade da sucessão de ramos.

c) Os ramos em posição vertical favorecem uma

maior velocidade de circulação da seiva em seu

interior;

Ramos verticais dificilmente florescem,

sendo por isso mesmo chamados de “ladrões”. Por

essa razão, e por absorverem grande quantidade de

seiva, em detrimento das demais ramificações

existentes no ramo sobre o qual se desenvolvem,

esses ramos devem ser eliminados ainda no início de

seu desenvolvimento, por meio de um corte raso na

sua base, ou através de um corte inclinado de 15 a 20

cm de altura, quando se pretende aproveitar uma

brotação lateral para preencher um vazio existente na

copa.

d) Após o amadurecimento dos ramos novos a

velocidade de circulação da seiva no interior da

planta diminui;

Nessa ocasião, acumulam-se, nesses órgãos,

grandes reservas de fotossintatos, que criarão as

condições para que as gemas vegetativas sejam

transformadas em frutíferas.

Para as espécies que apresentam ramos

mistos (vegetativo e reprodutivo), como goiabeira, a

frutificação ocorre simultanemante com o

crescimento vegetativo e o acúmulo de carboidrato.

Após a colheita das frutas os fotossintatos

são armazenados para a próxima safra ou para novo

crescimento.

2º. A seiva dirige-se com maior intensidade para

as partes altas e iluminadas da copa

Nas posições altas e externas da planta a

transpiração e a fotossíntese são mais intensas, gerando

maior pressão negativa de água, o que resulta no fluxo

ascendente da seiva bruta. Pela mesma razão, os ramos

enfolhados atraem muito mais seiva bruta do que os que

possuem poucas folhas. Ainda como conseqüência

desse princípio, os ramos secundários próximos à

extremidade do ramo primário recebem mais seiva que

os situados em sua base.

Assim, ramos no interior da copa dificilmente

possuem capacidade para florescer e sua eliminação

durante a poda promover maior circulação de ar e menor

incidência à doênças.

3º - Quanto mais amplo for o ponto de inserção de

um ramo, mais seiva por ele, circulará

A taxa de translocação é diretamente

proporcional à secção dos vasos condutores. Esse

aspecto, pela sua importância, deve ser considerado

quando se faz a seleção dos ramos que permanecerão

na planta por ocasião das podas.

4º - O desbaste de um ramo secundário não só

aumenta o vigor do ramo principal, como também

inibe ainda mais a brotação das gemas axilares

nele existentes

Desbaste é a eliminação total de um ramo,

por meio de um corte raso feito na sua base. Essa

poda remove os ramos laterais, mas se for deixada

intacta a extremidade do ramo principal, aumentará

seu vigor. Sua prática avoluma excessivamente as

dimensões da copa, conferindo-lhe uma forma mais

aberta. Induz, também, a frutificação nas

extremidades dos ramos longos para espécies que

possuem o florescimento na extreminade dos ramos,

como amangueira.

5º - O encurtamento do ramo favorece o

aparecimento de brotação lateral

Encurtamento do remo elimina a dominância

apical, por supor-se que há redução da produção de

auxinas e da relação C/N, com isso, as gemas axilares

passam á se desenvolver. Essa brotação é mais

vigorosa do que aquela originária da gema apical,

caso o ramo não tivesse sido podado. Entretanto,

como não chega a compensar a porção retirada com a

poda, a sua pratica confere à planta uma forma mais

baixa e compacta.

Para espécies como a goiabeira, que

produzem em ramos mistos, o encurtamento é de

grande importância por estimular as brotações laterais

que contém gemas floríferas.

Durante o período de repouso, as plantas

armazenam fotossintatos predominantemente nos

tecidos jovens, existentes na extremidade do ramo,

enquanto a disponibilidade de nitrogênio é maior nos

tecidos mais velhos, que se encontram na sua base.

Quanto mais severo for o encurtamento feito

em um ramo, mais estreito será a relação C/N nos

tecidos próximo à gema que ficará na posição

terminal, razão pela qual esse crescimento é mais

vigoroso e menos frutífero que o de plantas não

podadas. Assim, se o encurtamento for feito de

maneira insuficiente, a planta produzirá uma grande

quantidade de frutos pequenos e de baixa qualidade;

se muito severo, o ramo vegetará intensamente e não

produzirá.

O crescimento adicional apresentado por

uma planta podada não é suficiente para compensar a

porção retirada, razão pela qual a poda é, na

realidade, um processo ananicante.

Esse nanismo pela planta não compensar a

porção retirada com a operação, que seria acrescida

do novo crescimento que ele teria caso a planta não

tivesse sido podada.

A poda feita logo após um fluxo de

crescimento é mais ananicante, não só porque a

planta acabou de utilizar suas reservas para realizá-lo,

mas também porque a poda pode estimular um novo

crescimento, exaurindo-a ainda mais. Como a planta

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 92

fica no final com menor número de folhas, a

reposição das reservas é mais difícil e lenta.

A poda de plantas sempre-verdes não tem o

efeito estimulante da poda de inverno, nem o efeito

depressivo da poda de verão executada em plantas

decíduas.

Tanto o desbaste como o encurtamento são

métodos igualmente importantes na formação e

manejo de uma árvore frutífera; o encurtamento é

mais valioso na fase de formação, por facilitar a

obtenção de uma copa bem-conformada, enquanto o

desbaste favorece a produção de ramos frutíferos e a

sua manutenção em boas condições. Por outro lado, à

medida que a planta vai ficando mais velha, ela deve

receber mais desbaste e menos encurtamento. Entre

outras formas de supressão de ramos ou de suas

partes, as mais importantes são:

Desponte: é o encurtamento praticado em

verde, sobre a extremidade do ramo novo. Sua prática

diminui o vigor da planta e reduz seu porte.

Desbrota: é a intervenção que se faz em verde, para

eliminar ramos supérfluos e concorrentes.

Poda em coroa: é o encurtamento total do ramo, que

fica reduzido à “coroa”, que é a porção mais grossa

existente em sua base e onde existe um cordão de

gemas.

Poda em esporão: é o encurtamento deixando-se

apenas a base do ramo, geralmente com duas ou três

gemas, ou com quatro a seis centímetros de

comprimento.

Poda em vara: é o encurtamento em que se deixa o

ramo com um número maior de gemas, em geral com

10 a 20 cm de comprimento.

6º. Quanto mais severa for a poda, maior será o

vigor da brotação resultante.

Esse efeito da poda pode ser explicado pela

maior disponibilidade relativa de nitrogênio

acumulado pela planta na porção mais velha de seus

ramos, bem como pela maior quantidade disponível

de reservas acumuladas em ramos, troncos e raízes,

para os pontos de crescimento que permanecem na

planta apos a operação. Pela mesma razão, a poda

severa, freqüentemente, favorece também a

frutificação em plantas senis.

Isso é verdadeiro para as plantas de clima

temperado, que têm um período de repouso bem

definido antes de iniciarem novo ciclo produtivo,

quando há acúmulo de fotossintatos nos ramos,

troncos e raízes, ou para plantas sempre verdes

regularmente submetidas à poda severa.

À medida que a planta se habitua ao novo

manejo, ela passa a responder bem este tipo de poda,

possivelmente por se adaptar nutricional e

hormonalmente ao novo sistema ao qual está sendo

submetida.

De qualquer forma, no caso das plantas

sempre-verdes, o estímulo ao novo crescimento

causado pela poda severa é sempre menos intenso

que no caso das espécies de folhas caducas. No

entanto, esse estímulo sempre existe, e uma poda

desequilibrada, que reduz mais severamente certas

partes da copa que outras, leva à produção de ramos

“ladrões” na porção mais afetada pela operação.

7º - A poda da parte aérea tende a reduzir, na

mesma proporção, o volume do sistema radicular

Há uma relação ótima entre o tamanho da

copa e do sistema radicular de uma planta que ela

procura manter. A redução da copa através da poda

influi no tamanho do sistema radicular, resultando em

morte de parte deste até que o equilíbrio do conjunto

seja restabelecido. O equilíbrio entre a parte aérea e o

sistema radicular rompido pela poda é restabelecido

mais rapidamente nas plantas sempre-verdes.

Entretanto, o crescimento total é menor que o de uma

planta não podada.

8º. Ramos em ângulo agudo são fracos e tendem a

se quebrar quando sob pressão

O vigor estrutural de um ramo pode ser

prognosticado com bastante exatidão com base na sua

aparência. Essa fraqueza estrutural dos ramos em ângulo

agudo deve-se à falta de um câmbio contínuo e à

compressão da casca para fora, no ponto de bifurcação.

7.2 Poda e condução de frutíferas

7.2.1 Hábitos de frutificação de algumas espécies

É indispensável saber que parte da planta

deve ser podada, pois, há ramos cuja supressão é

indispensável, mas outros, sua eliminação redundaria

em grave prejuízo para a produção, porque neles

encerram a própria safra de frutos dentro de suas

gemas.

A fim de compreender e entender as

necessidades de poda das plantas sem comprometer a

produção, é necessário um conhecimento prático dos

seus hábitos de frutificação. Conforme a natureza dos

ramos que possuem, as plantas frutíferas podem ser

divididas em três grupos: ramos especializados,

ramos mistos e ramos do ano.

a) Plantas com ramos especializados

São apresentados por algumas espécies,

principalmente de folha caducas, que só produzem

nestes ramos. Os demais ramos dessas plantas

produzem brotos vegetativos e folhas. Ex.: macieiras

e pereiras.

São ramos geralmente curtos e muitos deles

denominados esporões, com as seguintes

denominações:

Dardos: são estruturas pequenas e pontiagudas, com

entrenós muito curtos. Apresentam uma roseta de

folhas na extremidade, sendo pouco maior que uma

gema.

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 93

Bolsa: parte curta, inchada, com enorme quantidade

de substâncias nutritivas, que se formam no ponto de

união da fruta colhida com o ramo. Pode dar origem a

novas gemas florais, dardos, lamburdas, brindilas ou

vários deles de cada vez. Geralmente, são originadas

a partir de um esporão depois de vários anos.

Brindilas: são ramos finos, com diâmetro de 3 a

5mm e de 10 a 20 cm de comprimento. Em sua ponta,

podem apresentar um dardo, uma gema vegetativa ou

floral. Surgem em plantas mal podadas ou naquelas

velhas e não tratadas.

Lamburda: ramo curto com nodosidades na base,

sem gemas laterais, podendo terminar em gemas

vegetativas ou floríferas (coroadas).

Botão floral: forma arredondada e destacada, em

geral, apresenta um volume maior que as gemas

vegetativas.

b) Plantas com ramos mistos

Além de frutificarem sobre os esporões,

frutificam também sobre os ramos do ano anterior.

Essas fruteiras possuem, consequentemente,

crescimento vegetativo e produção de flores, já que

os seus ramos possuem gemas vegetativas e

floríferas. Exemplos: pessegueiro, ameixeira,

goiabeira (Fig. 7. 1B).

c) Plantas com produção em ramos do ano

A frutificação surge sobre os ramos da

brotação nova. O ramo frutífero, ao invés de ser

formado no inverno, aparece na primavera e floresce

após certo grau de maturação. Ex.: Plantas cítricas,

caquizeiro, figueira, mangueira, abacateiro.

7.2.2 Orgãos das plantas

Gemas

São órgãos produtores de ramos e folhas

(vegetativas) ou flores (floríferas), que variam no

aspecto, na forma, no tamanho e na distribuição, de

espécie para espécie.

As gemas de folhas ou lenhosas distinguem-se

das floríferas ou de frutos pela sua constituição interna e

externa. As de frutos são quase sempre mais volumosas,

de forma oval-alongada, e as de lenho são mais

alongadas e afuniladas. As primeiras apresentam-se

mais macias ao tato, e as últimas, mais ásperas.

As gemas podem ser naturais ou adventícias.

As naturais são aquelas que surgem nos ramos

normalmente segundo a tendência da planta, e as

adventícias, as que emergem sob ação mecânica.

A duração das gemas está intimamente

relacionada à biologia da planta e aos tratos culturais.

Há espécies em que as gemas não ultrapassam um

ciclo vegetativo, e outras em que duram vários anos.

Ramos Lenhosos

Caracterizam-se pelo vigor, pelo aspecto da

casca, normalmente lisa, e pelos internódios

relativamente longos.

Os ramos lenhosos, segundo sua origem e

posição, podem dividir-se em adventícios e ladrões.

Os ramos adventícios são aqueles que têm

origem em causa mecânica: pancada, incisões etc.

Os ladrões têm origem em gemas aparentes.

Eles se classificam, segundo a sua localização, em

naturais e bravos. Os naturais são aqueles que nascem

das gemas do enxerto e os bravos, de gemas do porta-

enxerto.

Os ramos recebem denominação particular,

de acordo com a sua posição na árvore. Assim, as

primeiras ramificações, que partem diretamente do

tronco ou da haste, chamam-se pernadas. Destas

surgem ramos que são denominados braços. As

ramificações dos braços dizem-se genericamente

ramos. Recebe a denominação de ramo-guia ou

ortotróficos aquele que tem por função prolongar a

copa em altura. Os ramos que crecem na horizontal

são denomiados de plagiotróficos.

Figura 7.1 – (A) Ramo vegetativo e (B) misto.

7.3 Tipos de poda

7.3.1. Quanto à Fase da Vida das Arvores

Quanto a fase de vida das árvors, as podas

podem ser: Formação; Frutificação e

Rejuvenecimento.

a) Poda de formação: corresponde a poda nas

árvores novas durante a fase de crescimento vegetativo e

formação da planta. O seu objetivo consiste em

construir, no mais curto período possível, uma

arquitetura de copa que forneça um suporte adequado à

máxima produtividade e sanidade das plantas.

Essa arquitetura geralmente consiste em uma

forma de tarça-invertida, de forma que favoreça os

tratos culturais como o controle fitossanitário,

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 94

ensacamento e colheita dos frutos, além de

possibilitar o plantio de maior número de árvores por

unidade de área. Divide-se em poda de educação,

transplantação e formação propriamente dita.

Educação

Tem por finalidade orientar as plantas no

viveiro, desde o seu nascimento até o momento em

que de lá serão retiradas.

Transplantação

É praticada para manter o equilíbrio entre a

parte aérea e a parte subterrânea da planta. Por maior

que seja o cuidado no desplante de uma muda, há

sempre perda de raízes, e as plantas são tanto mais

sensíveis quanto mais velhas forem.

Formação propriamente dita

A poda de formação na forma de tarça-

invertida é dada durante os quatro primeiros anos da

planta. No primeiro ano, a árvore normalmente

apresenta uma haste única, e a poda consiste em

suprimir a parte superior à altura desejada e permitir

a emissão de três a quatro pernadas.

A poda, no segundo ano, limita-se a eliminar o

excesso de ramos e deixar apenas três a quatro,

distantes entre si de 15 a 20 cm.

A distância das pernadas entre si exerce

influência na resistência da copa. Quando muito

próximas umas das outras, há tendência de

desaparecerem com a idade, pelo engrossamento,

formando verdadeiras bifurcações. Estas, quando

opostas, fendem-se facilmente.

Deve-se levar em consideração também o

ângulo de inserção das pernadas. Quando muito

agudo, a copa tende a fechar, o que não é

conveniente.

Escolhidas as pernadas que irão formar o

arcabouço da planta, elas são podadas a 0,20 ou 0,30

m de comprimento ou deixadas de três a cinco gemas.

As últimas gemas devem estar situadas lateralmente

em relação ao eixo da planta. No terceiro ano,

procede-se de maneira semelhante ao segundo,

obtendo-se os ramos. Sobre cada pernada deixam-se

ramos dispostos lateralmente (Fig. 7.2).

Muitas espécies já entram em produção durante

o segundo ou terceiro ano (cupauçuzeiro, araçazeiro-

boi). Outras, porém, exigem mais um ano de formação.

Finalmente, no quarto ano, as plantas já mostram sinais

de entrar em frutificação e, em vista disso, a poda é feita

eliminando-se apenas um terço a um quarto do

comprimento dos ramos. A poda curta ou drástica

atrasará o inicio do florescimento, forçando uma maior

vegetação.

b) Poda de frutificação: engloba o conjunto

de intervenções aplicado nas frutíferas, não só no

período em que a arquitetura se aproxima da sua

forma definitiva, como também durante a fase

produtiva das plantas. Seu objetivo principal é manter

o equilíbrio entre as funções vegetativa e produtiva,

buscando dentro dos limites possíveis, realçá-las ao

máximo;

Figura 7.2 – Poda de formação vista de cima: A)

pernadas; B) braços; C) ramos.

A poda de frutificação interfere, diretamente,

com os órgãos ou ramos de frutos especializados. E uma

vez que tais órgãos e ramos possuem características

funcionais diferenciadas, a sua poda deve-se levar em

conta tais diferenças. Um ramo misto, por exemplo,

depois de frutificar uma vez, não volta a produzir, razão

porque os pessegueiros, que produzem basicamente

sobre estes ramos, necessitam de uma poda que

promova a sua renovação anual, como meio ou processo

de manter uma frutificação adequada e constante. Já nas

pereiras e nas macieiras, cuja produção predomina

principalmente nos esporões, órgãos que duram por

vários anos, a renovação anual destes órgãos não só não

é necessária, como se tomaria desastrosa para estas

frutíferas.

Intensidade da poda

A intensidade depende da idade, do número de

pernadas, do vigor, do hábito de vegetação.

A poda, com relação à intensidade, divide-se

em curta, longa e média.

A poda curta ou drástica consiste na quase

total supressão do ramo. Pode-se praticar ainda a

poda ultracurta, a qual deixa sobre o ramo de uma a

duas gemas. A longa, também chamada leve, deixa o

ramo com o máximo de comprimento (0,40 a 0,60

m). A poda média é um tipo intermediário entre os

dois anteriores.

c) Poda de rejuvenescimento: são podas

realizadas em árvores em decadência, mas em fase que

evidencie ainda capacidade de recuperação. Destina-se

esta poda a revigorar a arquitetura e renovar a vegetação

e órgãos de frutificação das plantas.

Há pomares onde, pela deficiente formação, por

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 95

carência ou inadequação de podas de frutificação, por

adubações deficientes, por defeitos cumulativos

desfavoráveis de natureza cultural, climática ou de outra

ordem, as árvores começam a gerar desequilíbrios que,

progressivamente, vão-se conduzindo para uma fase de

esgotamento precoce. Nestes casos, uma poda de

rejuvenescimento, pode ainda recuperar as árvores em

níveis econômicos de produção.

Essa poda corresponde a uma renovação mais

ou menos intensa e profunda do esqueleto da planta e,

dos próprios órgãos de frutificação. Efetua-se essa

poda encurtando bastante as pernadas, braços e outros

componentes do esqueleto. Os suportes e órgãos de

frutificação remanescentes, notadamente os esporões,

serão revitalizados, se inseridos em boa localização e

em condições de aproveitamento. De outro modo

serão suprimidos, tal como todos os ramos secos,

debilitados e inúteis.

A intensidade da poda em cada árvore deve

permitir que a sua estrutura fique equilibrada, de

maneira a obter uma reação vegetativa quanto possível

uniforme. As brotações e ramificações provenientes da

nova vegetação devem ser acompanhados depois com

podas em verde promovendo a reconstituição da copa,

no mais curto período possível.

7.3.2. Quanto à Época em que são

Executadas

a) Poda de inverno ou seca: também

designada por poda de inverno, sendo praticada nos

fins do inverno, próximo da época de brotação, no

período, portanto, em que as frutíferas caducifólias

estão despidas de folhas. Porém, em virtude dos

efeitos negativos e prejudiciais dos encurtamentos

efetuados nesta época, as podas em seco tendem,

atualmente, a se restringir ao mínimo, durante a

formação e condução das árvores;

b) Poda verde ou de verão: engloba todas as

operações de poda que são praticadas no período em

que as plantas se mantém em atividade vegetativa,

quando os ramos se encontram, portanto, verdes e

com folhas. As podas em verde apresentam

substancial relevância nos modernos sistemas de

condução.

c) Podas anuais ou de produção

As podas anuais são aplicadas geralmente em

plantas decíduas e referem-se às realizadas durante a

fase produtiva da planta (essas são naturalmente

realizadas após a colheita). Nesta prática estão

incluídas as atividades de limpeza, levantamento de

copa, abertura central, equilíbrio, correção da

arquitetura, além da poda lateral e de topo.

d) Poda de correção da arquitetura: objetiva

suprimir os ramos que concorrem com as

ramificações selecionadas para a formação da

arquitetura, como no caso das pernadas e dos braços,

por exemplo, de forma a evitar a sua competição e a

favorecer, portanto, um maior e mais rápido

crescimento vegetativo dessas ramificações;

e) Poda de equilíbrio: tem como finalidade

restabelecer o equilíbrio relativo entre os diversos

eixos do esqueleto das plantas, notadamente das

pernadas e da flecha. Esta poda baseia-se na

aplicação de inclinações sobre esses eixos.

f) Poda de abertura central: é a desbrota dos

ramos que, não interessando à formação do esqueleto

das plantas, se dirigem para a parte interna das copas,

promovendo o seu adensamento ou estabelecendo

competição com outros ramos essenciais à estrutura.

g) Poda lateral: esta poda tem a finalidade de

controlar o crescimento lateral das plantas, evitando a

sobreposição entre plantas na linha e mantendo a

distância de trabalho entre as ruas.

h) Poda de topo: esta operação visa promover

o rebaixamento da copa, de modo a evitar que esta

atinja uma altura indesejável e inapropriada para a

execução de diversos trabalhos culturais, desde a

colheita dos frutos, até aos tratamentos fitossanitários

e á própria prática das podas. Emprega-se para esta

finalidade, encurtamentos laterais, já que estes não

criam os reflexos negativos, derivados da reação

vegetativa terminal, que ocorreriam na hipótese de

usar simples encurtamentos. Freqüentemente, a poda

de recuo também é utilização quando as árvores

começam a enfraquecer e os ramos terminais das

pernadas e braços mostram uma debilitação

vegetativa e necessitam, portanto, de uma renovação.

i) Poda de levantamento da saia: Consiste na

eliminação dos ramos que estiverem até 0,70m de

altura. Essa operação ajuda no controle das ervas

daninhas e a melhor distribuição da água de irrigação

por aspersão; também evita que os frutos dos ramos

baixos entrem em contato com o solo

j) Poda de limpeza: a poda de limpeza

objetiva a retira de ramos doentes, praguejados ou

quebrados pelo processo de colheita ou sobrepeso das

frutas.

Estas podas estão aqui divididas de forma

didática, mas elas podem ser realizadas isoladamente

para atender cada um de seus objetivos ou realizadas

numa única operação que atenda várias finalidades.

7.3.3 Cortes

Encurtamento

Consiste na eliminação de parte de um ramo

através de um corte praticado junto a uma gema. O

encurtamento é o tipo básico de intervenção realizado

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 96

tanto na poda de frutificação como condução,

apresentando efeitos imprevisíveis e danosos.

Realizado na fase de crescimento os

encurtamentos das árvores sob condições normais,

promove quase sempre uma intensa brotação a partir

das gemas situadas na proximidade dos cortes.

Quando aplicados em toda a árvore e de forma

sistemática, para promover a ramificação das

pernadas, braços ou de outras estruturas, com a

finalidade de formar o esqueleto definitivo das

plantas, sabe-se que a intensa e vigorosa renovação

vegetativa, que é caracterizada por essas

intervenções, atrasa a entrada das árvores na

frutificação. Esta prática realizada no final do período

do repouso vegetativo (poda de inverno) agrava ainda

mais esses efeitos.

Supressão

Esta operação é a eliminação total do ramo.

As supressões são bastante utilizadas durante a poda

de formação, principalmente em plantas que

apresentam considerável vigor vegetativo. Em

árvores com atividade vegetativa pouco acentuada, as

supressões devem ser utilizadas com cuidado e só

durante a fase em que as plantas mostram, de fato,

uma atividade vegetativa mais intensa, para não

favorecer sua debilitação precoce. E ainda aplicada

na poda de frutificação, visando a eliminação dos

ramos excedentes e sem interesse para a produção ou

vegetação das árvores.

Desponta

Constitui num simples encurtamento, praticado

com a planta em vegetação, eliminando cerca de 5 a 20

cm, ou mais de sua extremidade. Entretanto, estas

intervenções devem ser praticadas preferencialmente

sobre árvores vigorosas para não enfraquecer mais os

ramos e, às vezes, as próprias plantas. As despontas são

normalmente utilizadas na fase de condução das plantas,

evitando-se assim qualquer concorrência em relação aos

ramos que foram selecionados para compor o esqueleto

dessas plantas.

Desbrota

Considerada como uma supressão, aplicada

aos ramos do ano, tão logo começam a crescer e a

concorrer com o crescimento e evolução daqueles

que deverão formar o esqueleto. Trata-se de uma

poda em verde, objetivando eliminar ramos

supérfluos e concorrentes, chamadas também de

podas de concorrência ou de limpeza.

Arqueamentos

Aqui englobam todas as operações que

alteram a posição normal no topo ou em parte, a

direção original dos ramos. O efeito desta prática é

idêntico ao das incisões ou descorticações, diferindo,

entretanto, no processo de promover o bloqueio da

seiva. Enquanto nos últimos casos, esse bloqueio é

obtido pela interrupção dos tecidos vasculares, à

custa de cortes efetuados na casca e até na parte do

lenho, no presente é conseguido pela própria

compressão dos tecidos vasculares.

Inclinações

São realizadas estas operações, deslocando a

posição dos ramos de sua direção vertical, ou quase

vertical, para uma posição oblíqua. A inclinação,

porém, abrange todo o comprimento dos ramos, uma

vez que ela é praticada justamente na própria base

desses ramos.

Quanto maior for a inclinação dada a um ramo

em relação à vertical mais enfraquecido este ficará.

Assim, quando um ramo, destinado à formação de

uma pernada se apresentar com pouco vigor em

relação a outro, deve ser deixado com uma inclinação

menor. Ou seja, quando acontecer um desequilíbrio

vegetativo entre dois ramos, podemos realizar

inclinações adequadas para restabelecer seu

equilíbrio inclinando bastante o ramo mais vigoroso e

chegando até a deixar o mais fraco, se disso for o

caso, na própria vertical

As inclinações dos ramos constituem

intervenções muito comuns nos modernos sistemas

de condução. Porém, a inclinação dos ramos

destinados a formar pernadas, normalmente não é

feita de uma só vez, mas por sucessivas intervenções.

A primeira inclinação que os ramos sofrem, para

abrir o esqueleto das plantas, dá-se o nome de

inclinação de abertura. As que se seguem são

destinadas a ajustar os ramos a posições mais

favoráveis ao seu desenvolvimento e ao melhor

equilíbrio da copa, sendo designadas por inclinações

de ajuste. Finalmente, as últimas inclinações que se

praticam, deixando as pernadas na sua posição

definitiva são, chamadas de inclinações definitivas.

Horizontalizações

As horizontalizações são inclinações que

atingem 90º em relação à vertical, deixando portanto

os ramos numa direção horizontal. Há casos, porém,

em que os ramos por terem de ser desvigorizados, são

levados a uma posição invertida, isto é, a extremidade

dos ramos é deixada num plano mais baixo que a

horizontal. As horizontalizaçães são mais comumente

utilizadas em ramos subsidiários de elaboração ou

frutificação e, com caráter temporário.

Desbaste ou raleio de frutos

O desbaste ou raleio de frutos consiste na

remoção de uma parte da produção, antes da

maturação morfológica dos frutos.

O desbaste tem como objetivo, reduzir o

número de frutos por planta, melhorando a qualidade

dos frutos remanescentes (tamanho, cor, sabor e

sanidade); evitando a quebra dos ramos; reduzindo as

despesas com a colheita dos frutos imprestáveis; além

de evitar a alternância de safra, comum em diversas

Poda das plantas frutíferas

Sebastião Elviro de Araújo Neto 97

espécies de citros, especialmente tangerinas (Coelho

e Medina, 1992; Marinho et al., 1996; Simão, 1998).

O desbaste pode ser feito manualmente,

retirando-se os frutos, com a supressão de ramos ou

através de aplicação de hormônios vegetais.

Algumas espécies apresentam estreita

correlação entre número de folhas e qualidade do

fruto. Assim, em citros, é boa a relação de um fruto

para cada vinte folhas.

Como o desbaste constitui uma operação

onerosa, tem-se experimentado o uso de hormônios ou

herbicidas para eliminar o excesso de flores e frutos.

O Ethel quando aplicado em concentrações de

200 a 350 mg.L-1

, pulverizado na forma de neblina

sobre a copa das plantas com frutos de 0,5 a 2,0 cm

de diâmetro, promove o raleio de 40 a 70% dos frutos

(Silva e Donadio, 1992; Sharma e Awasthi, 1990).

Dosagens baixas (100 mg.L-1

) podem não promover

raleio significativo de frutos ao nível de não quebrar

a alternância de produção e concentração alta de

ethrel (300 mg.L-1

) promove excessivo raleio (Souza

et al., 1993). Em tangerineira ‘Ponkan’, em

concentração de 300 mg.L-1

, o Ethrel aplicado aos 40

dias após o florescimento promove até 95% de raleio

de frutos, incrementando o tamanho e peso dos frutos

remanescentes (Pacheco e Castro, 1998). E quando

aplicado acima de 500 mg.L-1

, o etefon pode causar

abscisão de folhas (Domingues et al., 2001).

O ácido naftaleno acético a 0,2% numa única

aplicação, ou 2,4 D a 0,001%, tem sido empregado. O

2,4 D, embora efetivo, causa certas distorções nas

folhas.

7.4 Referências

CHALFUN JUNIOR, A.; CALFUN, N. N. J. Poda: a

hora da tesoura. <www.ufla.br> . Acesso em 17 de

12 de 2006.

COELHO, Y. da S.; MEDINA, V. M. Desbaste de

frutos. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE

CITRUS, 2, 1992, Anais... Campinas. Fundação

Cargil, 1992. P.187-194.

DOMINGUES, M. C. S.; ONO, E. O.;

RODRIGUES, J. D. Reguladores vegetais e o

desbaste químico de frutos de tangor Murcot.

Scientia Agrícola, v.58, n.3, p.487-490. jul/set 2001.

MARINHO, C. S.; BARROSO, D. G.; SOUZA, M.

de. Efeito do desbaste de frutos e do KNO3 + óleo

mineral sobre a produção da ‘Murcot’ (Citrus

sinensis L. x Citrus reticulata Blanco) na entressafra.

In: CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 14, 1996. Curitiba, Anais...,

Curitiba: Sociedade Brasileira de Fruticultura, 1996.

p.134.

PACHECO, A. C.; CASTRO, P. C. R. Efeito de

reguladores vegetais no desbaste químico da

tangerineira ‘Ponkan’ (Citrus reticulata Blanco). In:

CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 15, 1998, Poços de Caldas.

Anais... Fortaleza: Sociedade Brasileira de

Fruticultura, 1998. p.258.

SHARMA, R. K.; AWASTHI, R. P. Effect of growth

regulators on crop regulation of Kinnow (Citrus

nobilis x Citrus deliciosa). India Journal of

Horticulture, v.47, n.2, p.162-166, 1990.

SILVA, J. A. Z A. da; DONADIO, L. C.

Reguladores vegetais na citricultura. Jaboticabal:

Funep, 1998. 38p. (Boletim citrícola, nº. 3).

SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:

FEALQ, 1998. 760p.

SOUZA, P. V. D. de; KOLLER, O. C.; SCHWARZ,

S. F.; BARRADAS, C. I. N. Influencia de

concentrações de etefon e pressão de pulverização

foliar sobre a produção de frutos e o teor de

substâncias de reservas em tangerineiras. Pesquisa

Agropecuária Brasileira, v.28, n.5, p.613-619, maio

1993.

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 98

8. FLORESCIMENTO E FRUTIFICAÇÃO

O florescimento e a frutificação dependem de

condições internas e externas, fatores que alteram a

frutificação das espécies frutíferas de um ano para o

outro. A frutificação difere de região para região,

com o manejo de cultivo, condições edafoclimáticos

e da própria biologia da espécie.

8.1 Fatores internos que afetam a frutificação

São vários os fatores internos que afetam a

frutificação nas fruteiras, podendo serem

classificados em evolução da espécie, genéticos e

fisiológicos.

8.1.1 Evolução

Na natureza, os vegetais possuem fertilização

livre, mesmo em espécies que desenvolve a

autogamia e principalmente nas alogamas, ocorre o

cruzamento de gametas. Este é o fator de garantia,

que mantém o vigor da espécie em seu habtat natural.

Devido à polinização cruzada (alogamia)

aparecem formações distintas, oferecendo muitas

vezes dificuldades à autopolinização, tomando-a, em

certos casos, impraticável. As plantas auto-estéreis

apresentam sérias dificuldades na exploração

econômica, sendo necessário um estudo biológico,

pois elas exigem uma disposição ou distribuição toda

particular no pomar para produzirem.

A tendência evolucionária afeta a distribuição

e o número de flores nos ramos de uma mesma árvore

e altera completamente a forma e a fertilização da

flor.

As características evolucionárias mais

importantes são: flores incompletas, heterostilia,

arranjamento estrutural, dicogamia, impotência da

flor, impotência do pólen.

a) Flores incompletas ou imperfeitas: plantas

monóicas e dióicas

A maioria das frutíferas possui flores

perfeitas, isto é, bissexuais (plantas monoclinas). Há,

entretanto, outras que apresentam apenas um sexo:

são as chamadas unissexuadas. Neste caso, podem

existir flores masculinas e femininas separadas na

mesma planta (monóicas) ou em plantas diferentes

(dióicas).

No caso de flores unissexuadas, há,

obrigatoriamente, a polinização cruzada, que pode ser

feita pelo vento (anemófila), pelos pássaros

(ornitófila) e pelos insetos (entomófila).

Há ainda que se considerar certas espécies que

produzem tão pouco pólen, como algumas variedades

de ameixeira, que podem ser classificadas como

unissexuadas. Estas, para se tornarem produtivas,

devem ser interplantadas com outras variedades

produtoras de pólen.

A seguir alguns casos que ocorrem com o

mamoeiro.

O mamoeiro: o mamoeiro apresenta, segundo

alguns autores oito ou mais classes de plantas,

segundo a distribuição da flor. E dependendo ainda

da combinação ou separação dos estames e pistilo.

As principais classificações são as seguintes:

1) plantas com flores só pistiladas;

2) plantas com flores só estaminadas;

3) plantas com flores estaminadas e

hermafroditas (polígamas);

4) plantas com flores estaminadas e

hermafroditas com pólen estéril (pseudo-

hermafroditas);

5) plantas com flores estaminadas e

hermafroditas nas quais nem o pistilo nem os estames

são férteis;

6) plantas com flores estaminadas, pistiladas e

hermafroditas;

7) plantas com flores pistiladas e

hermafroditas;

8) plantas com flores pistiladas e estaminadas.

Os tipos 2 e 5 não frutificam. Os tipos 1 e 4

são auto-estéreis. Os tipos 1, 2 e 3 são os mais

comuns.

b) Heterostilia

É o fenômeno pelo qual certas espécies

apresentam duas a três classes de indivíduos, cujos

pistilos e estames têm comprimento variável. Essa

peculiaridade de forma e de estrutura é de tal

natureza que impede a autopolinização e faz com que

a polinização cruzada seja mais efetiva. Se esta não

se dá, a planta pode não frutificar, mesmo que seus

órgãos sejam desenvolvidos. Há dados registrados de

impossibilidade de polinização devido à heterostilia,

pois se um inseto visitar uma flor longistila pode

tocar a antera mas não ter altura suficiente para tocar

o estigma da flor brevistila e vice versa.

Poderia ainda ocorrer a polinização direta da

flor brevistila, pela queda do pólen, por possuir filete

mais longo, porém isso dificilmente acontece, por se

dar, neste caso, o fenômeno da dicogamia, como em

gravioleira com brevistilia além da protoginia.

Quando se dá a autopolinização ou queda do pólen de

outra flor de estilete de igual altura, terá lugar a

fecundação. É, porém, comum a ocorrência de

esterilidade em diferentes graus, induzindo o fator de

incompatibilidade.

c) Arranjamento estrutural

As flores de uma variedade de aparência

normal podem apresentar pequenas particularidades

estruturais que impedem em parte a polinização.

Em maracujazeiro o tamanho da flor e a

distância das sépalas e corona (plataforma) para o

estigma, inviabiliza a polinização por abelhas

pequenas, como a Apis melifera. Em cupuaçuzeiro, a

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 99

cúculas e coroa de estaminódios, promovem uma

barreira morfológica que impedem a autopolinização.

Em manga, devido à posição em que se encontram o

filete e o estilete, quando ocorre a deiscência, prati-

camente torna-se impossível a ocorrência de

autopolinização. A fertilização se dá pela queda do

grão de pólen de outras flores vizinhas, e quase nunca

pelo pólen da mesma flor.

d) Dicogamia

A dicogamia vem a ser o fenômeno que

consiste na antecipação da maturação do estigma

(protoginia) ou da antera (protândria).

A dicogamia é fenômeno de ocorrência

normal nas plantas monóicas e dióicas e se verifica

também com freqüência entre vegetais que

apresentam flores hermafroditas, devido à posição

relativa da antera e do estigma e à biologia da flor.

Em abacateiro, anonáceas, mangueira e

figueira, é comum a dicogamia. Esta varia

consideravelmente com as condições ambientes e, em

certas variedades, pode ser explicada como causa de

falha na frutificação.

O espaço de tempo entre a maturação dos dois

órgãos reprodutores pode levar muitas espécies à

esterilidade e outras à produção de frutos

partenocárpicos.

Em mangueira, que apresenta flores

bissexuadas, ocorre uma dicogamia protogínica que

em parte afeta o rendimento. Os estigmas encontram-

se receptíveis, desde as oito horas, enquanto a

deiscência da antera só se verifica após as doze horas.

O abacateiro apresenta fenômeno muito mais

pronunciado. Esse fenômeno é o responsável pela

baixa produtividade de muitas variedades quando

cultivadas isoladas ou mesmo em mistura com outras

variedades pertencentes ao mesmo grupo.

O abacateiro classifica-se, de acordo com a

maturação dos órgãos reprodutores, nos grupos A e

B. As flores do grupo A, ao se abrirem pela manhã,

apresentam o estigma receptível, porém os estames só

se apresentam maduros e, portanto, em condições de

soltar os grãos de pólen a partir das treze horas.

Nesse período, os estigmas não se mantém mais

receptíveis e, portanto, não há a polinização. No

grupo B, o fenômeno se dá de modo inverso: a flor

apresenta a antera com pólen maduro pela manhã e

estigmas receptíveis só a partir das treze horas.

Portanto, para que haja polinização, há a

necessidade de plantar no mínimo duas variedades

pertencentes cada uma a um grupo, ensejando-se

assim a polinização cruzada e, portanto, a

frutificação.

Em anonáceas, o pólen é emitido na maioria

das espécies das quinze às dezesseis horas, mas os

estigmas encontram-se receptíveis de doze a trinta

horas antes da deiscência das anteras. Esse atraso na

soltura dos grãos de pólen provoca a queda de grande

número de frores durante o desenvolvimento, dada a

baixa fertilização.

Em figueira, a flor feminina desenvolve e

amadurece seis a sete semanas antes das flores

masculinas, ocorrendo uma pronunciada dicogamia

protogínica, e a polinização só é realizada pela vespa

Blastophaga psenes.

Vários fatores ambientais interferem,

aumentando ou reduzindo o tempo de duração do

fenômeno da dicogamia, entre eles: a umidade

relativa do ar, a temperatura e a luminosidade.

e) Impotência da flor

A fixação e a maturação dos frutos dependem,

na maioria das espécies, da queda do pólen no

estigma, e qualquer interferência no desenvolvimento

da flor ou no funcionamento dos gametas resultaria,

provavelmente, na infrutificação ou esterilidade.

É comum um desenvolvimento parcial da flor

ou dos botões floríferos, ou o aborto do ovário ou da

antera.

Em laranjeira, há degeneração do saco

embrionário em várias etapas do desenvolvimento.

Na variedade baianinha e lima ácida taiti, entretanto,

os frutos podem desenvolver-se independentemente

desse defeito, porque são partenocárpicos.

O aborto do saco embrionário, em certas

condições, é responsável mais pela falta de sementes

do que pela infrutificação.

Em muitos casos, portanto, o aborto de parte

dos óvulos não significa falha na frutificação, porém

influi no desenvolvimento e no número de sementes.

Na mangueira, é comum a presença de flores

abortivas. Há variedades que apresentam 6 mil ou

mais flores por panícula e, no entanto, a percentagem

de frutificação não chega a 0,002%.

Em bananeira comestíveis, as flores femininas

possuem anteras atrofiadas, o filamento é mais curto

e o pólen, degenerado, sendo desnecessário a

polinização, pelo crescimento do fruto ser feito por

partenocarpia. As variedades selvagens apresentam

sementes em frutos comestíveis porém não

comercial.

f) Impotência do pólen

Muitas flores morfologicamente perfeitas

quando dependem de seu próprio pólen. São

classificadas como auto-estéreis.

O grau de auto-esterilidade varia de região

para região, de ano para ano, porém as autoférteis

apresentam-se sempre produtivas, em qualquer

situação.

Pode-se determinar a viabilidade do grão de

pólen pela germinação em meio artificial.

8.1.2 Genéticos

A influência genética na frutificação está

associada à constituição fundamental do citoplasma.

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 100

A esterilidade, em muitas plantas, característica

hereditária, e a auto-esterilidade é uma condição

determinada pela herança, porém só atinge a

perfeição dentro de condições ambientes favoráveis.

A auto-esterilidade devida a fatores genéticos está

associada ao hibridismo, à incompatibilidade, à

interfertilidade.

a) Hibridismo

A falta de frutificação ou esterilidade tem sido

associada ao hibridismo. Geralmente, quanto mais

longos ou amplos forem os cruzamentos, maiores

serão as possibilidades de ocorrer a esterilidade ou

ausência de sementes. Os cruzamentos,

principalmente os efetivados entre espécies, levam à

auto-esterilidade ou ausência de sementes, dando

origem a frutos partenocárpicos.

Híbrido interespecífico de pêssego e ameixa

produz abundância de flores, mas estas não

apresentam pistilos ou pétalas. Os estames são

numerosos, porém malformados. Em citros, muitos

dos híbridos citrange (laranja-doce e trifoliata)

produzem poucos grãos de pólen férteis e nenhum

gameta feminino fértil. A falta de sementes em

muitas variedades comerciais de banana e abacaxi é

atribuída à natureza híbrida de seus ancestrais e ao

número de cromossomos.

A esterilidade bas variedades comerciais de

banana está associada, de um lado, aos cruzamentos

entre espécies ancestrais. A bananeira comestível

mais primitiva era portanto um strain diplóide de

Musa accuminata e o desenvolvimento subseqüente

foi baseado em hibridação com Musa balbisiana e na

ocorrência de poliploidia.

A fertilidade da semente está relacionada à

origem. Assim, a Pisant Awak (ABB) chega a

produzir treze sementes por fruto, enquanto as

variedades do grupo Cavendish (AAA) parecem ser

totalmente estéreis.

A esterilidade tem suas causas nos seguintes

fatores, entre outros: meiose, hibridismo, estrutura

híbrida, espécies híbridas.

Em macieira, as variedades triplóides

produzem pólen abortivo em grande número, e em

pereira a germinação do pólen da variedade triplóide

é muito mais baixa quando comparada com as

diplóides.

b) Incompatibilidade

Uma das causas da auto-esterilidade é a

incompatibilidade entre o pólen e os óvulos de uma

mesma planta, em clones ou plantas irmãos. Ambos,

pólen e óvulos de uma mesma variedade, são férteis,

porém falham na união. Outras vezes, o pólen causa

queima da flor, provocando sua queda prematura,

enquanto os estigmas não-polinizados mantêm-se

frescos e túrgidos. Entretanto, quando os estigmas

recebem pólen de variedade compatível, os frutos se

formam e produzem sementes.

A auto-esterilidade ou auto-incompatibilidade

ocorre em muitas espécies frutíferas e tem sido

registrada em certas variedades de pereira, macieira,

ameixeira e oliveira. Nas espécies cupuaçuzeiro e

maracujazeiro isto ocorre em todas as variedades. Em

todos esses casos, as variedades deixam de frutificar

quando são autopolinizadas, mas frutificam e

produzem sementes quando a polinização é cruzada.

A auto-incompatibilidade é muito freqüente na

natureza. Nas espécies cultivadas ela se torna menos

freqüente, em função da pressão de seleção contrária,

causada pela domesticação. A auto-incompatibilidade

pode ser heteromórfica ou homomórfica, conforme

seja ou não baseada em diferenças morfológicas entre

as estruturas florais. A incompatibilidade

homomórfica, a mais importante entre as plantas

cultivadas, pode ser gametofítica ou esporofítica.

A auto-incompatibilidade é denominada

gametofítica quando é determinada pelo genótipo do

grão de pólen, que é haplóide. Neste caso, a presença

de determinado alelo G, de uma série de alelos

múltiplos, tanto no pólen como no estilete da flor

polinizada determina a incompatibilidade,

geralmente, por meio da inibição do crescimento do

tubo polínico. A auto-incompatibilidade esporofítica

é similar, mas determinada pelo genótipo da planta

que produziu o grão de pólen, que é diplóide. Pode

haver diferentes relações de dominância entre os

alelos. A reação de incompatibilidade ocorre,

geralmente, na superfície estigmática, resultando da

inibição da germinação do grão de pólen.

No sistema esporofítico, ao contrário do

gametofítico, podem ser encontradas diferenças em

cruzamentos recíprocos e homozigotos como

constituintes normais do sistema. As diferenças entre

os dois sistemas podem ser interpretadas em função

do tempo de ação gênica. No sistema gametofítico, os

fatores inibitórios, ou seus precursores, seriam

produzidos pelos alelos S, após a anáfase da primeira

divisão da meiose. No sistema esporofítico, esta

produção se daria antes da anafase 1. Assim, no caso

gametofítico, dois pares de esporos bioquimicamente

diferentes seriam produzidos (codominância),

enquanto que no sistema esporofítico todos os

esporos são fenotipicamente idênticos (dominância

completa).

C) Fisiológicos

Além dos fatores da evolução e das

influências genéticas em limitar a fixação dos frutos,

há outros, que podem ser agrupados como

fisiológicos.

A baixa frutificação de uma árvore ou a

presença de reduzido número de sementes podem

estar relacionadas à deficiência nutritiva da planta.

Essa improdutividade pode ser causada por uma

desnutrição devida à alta produtividade em anos

anteriores ou a um desequilíbrio na relação

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 101

nitrogênio/carboidrato. As causas podem estar

relacionadas a um dos seguintes fatores:

• desenvolvimento do tubo polínico;

• polinização antecipada ou tardia;

• condições internas de nutrição;

• viabilidade do pólen;

• deficiência do pistilo.

Desenvolvimento do tubo polínico

O desenvolvimento do tubo polínico obedece

a uma seqüência normal, característica de cada

espécie ou variedade. Muitos tubos polínicos

apresentam desenvolvimento lento, às vezes anormal,

em virtude da presença de substâncias quimiotrópicas

ou hormonais que podem interferir na frutificação.

Quando a interferência não é total, o fruto

pode se desenvolver, porém os frutos apresentam-se

com poucas ou nenhuma sementes e muitas vezes

defeituosas.

A auto-esterilidade ocorre em maior

intensidade entre plantas que exibem o fenômeno da

heterostilia.

Em árvores que apresentam o fenômeno da

heterostilia, o pólen de uma flor brevistila, quando cai

sobre o estigma de uma flor longistila, leva dezoito

horas para atingir o desenvolvimento completo do

tubo polínico, ao passo que, quando ocorre a

polinização de uma flor brevistila pelo pólen de outra

flor brevistila, ou no caso de ocorrer entre flores

longistilas, a duração do fenômeno é mais longa, pois

serão necessárias 76 horas para o completo

desenvolvimento do tubo polínico.

Esse fato concorre para reduzir a frutificação,

o número de sementes viáveis e, em certos casos,

chega a ser responsável pela improdutividade.

Polinização antecipada ou tardia

A fertilização, e conseqüente frutificação,

depende em grande parte da polinização. Em algumas

espécies, como caqui, pêra e ameixeira, quando as

flores são polinizadas antes da antese, ocorre menor

fixação de frutos e uma redução no tamanho das

sementes.

Estudos sobre outras espécies demonstraram

que, quando ocorria uma demora maior do que a

normal na polinização, isto é, quando ela era

atrasada, obtinha-se maior porcentagem de sementes

poliembriônicas, o que normalmente não ocorria

quando a polinização era antecipada, pois, neste caso,

as sementes se apresentavam quase invariavelmente

monoembriônicas.

Em mangueira, a maior porcentagem de

germinação de grãos de pólen se dá antes da

deiscência da antera e, à medida que a polinização se

atrasa, menor se torna a possibilidade de formação e

produção de frutos (SIMAO, 1961).

Condições internas de nutrição

As condições de desenvolvimento e vigor da

planta exercem influência na formação das flores e na

produção final.

As árvores que apresentam deficiências em

nutrição tornam-se menos efetivas para a produção. O

estado interno de nutrição de uma planta afeta a

formação da flor e esta, por sua vez, pode apresentar

anteras e ovários rudimentares ou imperfeitos.

8.1.3 Viabilidade do pólen

O pólen, para se desenvolver e formar o tubo

polínico, necessita encontrar-se bem provido. Estudos

feitos em macieiras, entre árvores que apresentavam

vigor bem distinto, mostraram que as plantas mais

vigorosas apresentavam um índice mais elevado de

grãos de pólen germináveis do que aquelas da mesma

variedade, porém mais fracas.

No que diz respeito à duração do período de

formação do tubo polínico, as plantas vigorosas

completavam o seu desenvolvimento em menos de

vinte horas, enquanto as menos vigorosas

necessitavam de quase trinta horas. Em conseqüência

da baixa germinação e do atraso na fertilização,

muitas flores não se fecundam, e muitas daquelas

fertilizadas não chegam a completar o ciclo. Tal

fenômeno ocasiona baixa produtividade.

Em mangueira, os grãos de pólen de grande

número de variedades apresentam baixa viabilidade e

muitos são incapazes de formar tubos polínicos, não

chegando a se completar. Há, pois, intensa queda de

frutos, ocasionando baixa produtividade nessa

espécie.

b) Deficiência do pistilo

A planta, para frutificar abundantemente,

necessita encontrar ao seu alcance condições

favoráveis de nutrição, umidade e temperatura. É

muito comum verificar-se em árvores vigorosas,

altamente produtivas, falhas quase completas na

frutificação, em determinados anos.

A improdutividade de tais árvores muitas

vezes se encontra relacionada à exaustão causada por

frutificações abundantes em anos anteriores e,

embora a planta receba adubações anuais, o desgaste

com a produção vegetativa, florífera e frutífera

impede que a árvore se recupere e se equilibre para a

produção em anos posteriores.

As plantas em estado de recuperação muitas

vezes exibem menor número de flores do que

habitualmente e, quando florescem abundantemente,

grande parte de suas flores apresenta deficiência dos

órgãos estaminados ou dos pistilados.

Em mangueira, bem como em abacateiro, a

deficiência pistilar verifica-se comumente de modo

especial nos anos seguintes aos de grande produção.

As panículas de mangueira exibem maior

número de pistilos perfeitos e frutificação mais

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 102

intensa no terço médio e na parte apical do que na

parte basal (SIMAO, 1960).

Inúmeros fatores interferem na fertilidade da

flor. Assim, queda prematura de folhas, quer por

ataque de doenças quer por outras causas, bem como

poda mal executada ou excessivamente rigorosa,

podem determinar uma redução de carboidratos na

planta, em virtude da menor atividade fotossintética.

8.2 Fatores externos que afetam a frutificação

Os fatores externos atuam constantemente

sobre os vegetais, favorecendo ou prejudicando o seu

desenvolvimento, florescimento e frutificação. Os

fatores ambientais, quando desfavoráveis, interferem

na compatibilidade, na época do florescimento, na

formação das flores, no comportamento dos estames

e, ainda, na transferência do pólen. Agem, portanto,

sobre a planta toda, favorecendo ou dificultando sua

produtividade.

Os principais agentes externos a serem

considerados são:

• nutrientes do solo;

• enxertia;

• poda;

• localidade;

• época;

• idade e vigor da planta;

• fatores climáticos: temperatura, luz, chuvas,

umidade relativa, ventos;

• doenças e pragas.

Nutrientes do solo

A presença de elementos minerais no solo

exerce importante influência no florescimento e na

fixação dos frutos. Muitas vezes, porém, torna-se

difícil separar a influência exercida pelos elementos

contidos na planta (carboidratos) daquela exercida

pelos elementos existentes no solo.

Uma planta bem nutrida muitas vezes pode

deixar de frutificar por influência das condições

climáticas desfavoráveis. Chuvas copiosas durante o

florescimento podem acarretar a queda das flores, de

um lado; de outro, períodos secos impedem a

absorção de elementos nutritivos colocados à

disposição das árvores.

Certas espécies, como a mangueira, o

abacateiro e a videira, podem falhar quando chove

durante o período de florescimento. A aplicação de

fertilizantes nitrogenados antes do florescimento

favorece a fixação dos frutos de mangueira,

abacateiro, ameixeira, pereira, videira e macieira.

Enxertia Plantas enxertadas apresentam-se sob

condições um tanto distintas das de pé-franco. O

cavalo pode influir sobre o enxerto, alterando seu

comportamento. Do mesmo modo, o enxerto também

pode atuar sobre o cavalo, modificando o seu

desenvolvimento

Em videira, a variedade Moscatel de

Hamburgo, em certas localidades, quando enxertada

sobre Rupestris-du-Lot, deixa de frutificar, devido à

queda das flores (coulure).

Poda

Sendo a frutificação uma conseqüência da

acumulação de substâncias nutritivas (hidratos de

carbono, com predominância de amido), uma

eliminação excessiva de ramos pode causar baixa

produtividade.

A poda deve ser praticada com moderação,

evitando exaurir as reservas vegetais.

Em videira, verificou-se que podas leves

levam a planta a maior produtividade do que podas

drásticas.

A poda, reduzindo grande parte dos ramos,

automaticamente afeta o numero final de frutos de

uma planta. Não se podando, porém, os frutos seriam

em número tão elevado que não chegariam a se

desenvolver bem e, conseqüentemente, não

apresentariam valor comercial.

A poda deve ser praticada com moderação e

em épocas adequadas. Deve ser executada durante o

período de repouso vegetativo (inverno), após a

queda das folhas e antes do início da nova vegetação.

A poda antecipada, quando as plantas ainda

apresentam folhas funcionais, reduz o vigor das

árvores, pois impede que acumulem reservas para a

vegetação e frutificação posterior. Do mesmo modo,

quando se executa a operação após o abrolhamento

das primeiras gemas ou o surgimento de folhas, a

poda apresenta efeito negativo, pois nessa fase a

plaina encontra-se em atividade vegetativa e, nessas

condições, a poda eliminaria grande quantidade de

reservas acumuladas, além de predispor as partes

secionadas a infecções.

Localidade

A localidade influi de maneira notável sobre o

comportamento e a frutificação. Uma mesma

variedade sofre variações no seu índice de

produtividade de acordo com a região em que é

cultivada.

A manga Itamaracá-Primavera, proveniente da

ilha de Itamaracá, só produz frutos num dos lados da

ilha, falhando em frutificar no outro lado.

A influência da localidade pode estar

associada a fatores edáficos e climáticos, às vezes de

difícil separação.

Época

Muitas vezes, é difícil determinar se a baixa

produtividade de uma árvore se deve a fatores de

nutrição ou estacionais.

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 103

Uma mesma localidade sofre, durante o ano,

mudanças bruscas nas suas condições climáticas, que

alteram o comportamento e, portanto, influem sobre o

rendimento final.

Muitas plantas apresentam fertilidade maior

no período final do que no inicio do seu

florescimento. Em manga e uva, isso se verifica, ao

passo que, em moranguinho, as últimas flores

apresentam tendência à esterilidade. Na figueira São

Pedro Branco, os primeiros frutos, isto é, aqueles que

se desenvolvem em ramos com mais de um ano, são

partenocárpicos e os últimos, que são os que se

desenvolvem nos ramos da estação, necessitam de

caprificação.

Certas espécies, principalmente dióicas,

sofrem alteração no sexo de suas flores. Em mamão,

é comum a alteração de sexo de masculino para

hermafrodita em determinadas estações. Certas

variedades de caqui exibem tendência a mudar o sexo

de suas flores, como aquelas do grupo dos

estaminados esporádicos.

Idade e vigor da planta

A produtividade de uma planta encontra-se

intimamente relacionada à sua idade e ao seu vigor.

O caquizeiro originário de semente depois de

vários anos, só produz flores femininas, pois

inicialmente exibe quase somente flores masculinas.

A macieira e a pereira, quando jovens, quase

não frutificam, e a frutificação aumenta à medida que

envelhecem, até certo limite.

Em ameixeira, é comum a ocorrência de flores

com pistilo defeituoso quando nova, ao passo que, em

plantas adultas da mesma variedade, esse defeito

tende a desaparecer.

Em videira, certas variedades, como a

Moscatel de Alexandria e outras, são suscetíveis ao

coulure (queda das flores) nos dois primeiros anos.

Posteriormente, o fenômeno desaparece. Videira

jovem tem sido encontrada produzindo menos pólen

que as velhas da mesma variedade.

O coco-da-baia normalmente não segura os

frutos das primeiras floradas e, em figueira variedade

São Pedro Branco, a frutificação nos ramos velhos se

dá por partenocarpia, ao passo que os frutos que

surgem nos ramos do ano necessitam de polinização

para se fixarem.

Fatores climáticos

Os fatores climáticos influenciam os vegetais,

favorecendo ou dificultando sua frutificação.

Os principais elementos do clima são:

temperatura, luz, chuva, umidade relativa e vento.

Temperatura

A temperatura exerce notável influência no

comportamento, desenvolvimento, florescimento e

frutificação das espécies vegetais. Constitui elemento

principal na delimitação de áreas favoráveis à

implantação de uma fruticultura econômica. Devem

ser evitadas as zonas de temperaturas inferiores às

exigidas, bem como aquelas em que as temperaturas

se elevam em demasia.

O metabolismo da planta pode ser observado

como uma complicada máquina de reações químicas

sujeita a influências as mais diversas, e a temperatura

constitui-se na mais importante.

Algumas plantas exigem altas temperaturas e

outras baixas temperaturas para se desenvolver.

Temperatura muito baixa força a planta a entrar em

repouso. O mesmo fenômeno ocorre quando a

temperatura se eleva acima do ótimo exigido.

Portanto, quando se deseja instalar pomares

comerciais, deve-se atentar para esse problema.

Assim, em citros, a variedade Natal ou Pêra

normalmente apresenta acidez elevada quando

cultivada em regiões com temperatura média inferior

à necessária. A mangueira não frutifica bem e torna-

se pouco produtiva em climas temperados.

A temperatura exerce influência direta e

indireta sobre a polinização. Em macieira, a

temperatura ótima para a polinização situa-se ao

redor de 15 ºC. Quando a temperatura cai a 10 ºC, a

germinação dos grãos de pólen torna-se mais lenta,

reduzindo grandemente a fixação de frutos. Além

desse fator, a polinização em macieira é feita quase

que exclusivamente pelas abelhas, que chegam a

transportar de 70 mil a 100 mil grãos de pólen.

Quando a temperatura abaixa, elas são afugentadas

dos pomares e, portanto, deixam de realizar a

polinização.

A mangueira, planta de origem tropical,

encontra condições ótimas para a germinação dos

grãos de pólen em temperaturas ao redor de 20 ºC.

Quando a temperatura cai, os tubos polínicos não se

desenvolvem e, conseqüentemente, não há formação

de frutos.

O mamoeiro polígamo, denominado macho,

que normalmente não frutifica, entra em produção em

épocas de temperaturas mais baixas ou em altitudes

mais elevadas. Isso ocorre porque, ao lado de flores

estaminadas, encontram-se rudimentos de flores

pistiladas que, sob a influência de baixas

temperaturas, desenvolvem-se e fixam frutos,

denominados de mamão-macho ou mamão-de-corda.

É de comum ocorrência a queda de flores e

frutos de muitas espécies durante o período de alta

temperatura e baixa umidade. Esse fenômeno tem

origem na transpiração excessiva e no desequilíbrio

de água nos tecidos da planta. A planta, não

conseguindo equilibrar a perda rápida de água por

novos suprimentos, determina então a queda de

frutos, que são por ela rejeitados.

Luz

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 104

A luz exerce função importante na economia

das plantas, como fonte de energia na síntese de

carboidratos e de outros compostos orgânicos e dos

constituintes inorgânicos de que são formadas.

As espécies frutíferas, principalmente as de

folhas caducas, necessitam anualmente acumular

reservas em seus tecidos para propiciar posterior

desenvolvimento e frutificação.

As reservas de carboidratos são feitas à custa

da fotossíntese, fenômeno que se dá em presença da

luz. A intensidade luminosa exigida por uma espécie

difere da de outras. Assim, espécies exigentes em luz

devem ser plantadas em regiões com maior

luminosidade e o espaçamento também deve ser

maior do que para aquelas menos exigentes.

Há plantas que não toleram sombra no período

de florescimento.

A mangueira, não florescem à sombra, além

disso, só florecem ao redor de sua copa e

praticamente nenhum fruto se forma no seu interior.

Chuva

Os vegetais necessitam de umidade no solo e

na atmosfera para o seu desenvolvimento.

As chuvas são a principal fonte de

fornecimento de água aos vegetais e, para que sejam

benéficas, devem ser bem distribuídas e em

quantidade suficiente. Infelizmente, porém, nem

sempre a quantidade de precipitação, bem como a

distribuição, se apresentam de modo favorável.

Chuvas excessivas atrasam o florescimento, causam a

lixiviação dos elementos minerais do solo e da planta,

além de favorecem o desenvolvimento de doenças.

As precipitações durante o período de

florescimento criam dificuldades à polinização, de

um lado, afugentando os insetos e, de outro,

provocando a lavagem dos grãos de pólen. Diluem

também as secreções estigmáticas, impedindo a

germinação dos grãos de pólen e, conseqüentemente,

levando a planta à improdutividade. A precipitação

reduz a frutificação de várias espécies frutíferas, entre

elas o abacateiro a mangueira, a videira, a macieira, a

ameixeira, o maracujazeiro entre outras.

Em anos chuvosos, a mangueira praticamente

deixa de frutificar pois as chuvas causam danos às

flores, impedem a polinização e propiciam condições

favoráveis ao desenvolvimento de doenças causadas

por fungos, principalmente antracnose.

Em espécies com grãos de pólen higroscópico,

como no maracujázeiro, se houver muita água

disponível, ocorre absorção até o pólen estourar e

consequentemente não germinar.

Umidade Relativa

A umidade relativa do ar ou déficit de

saturação tem grande ação sobre os vegetais.

Em condições de baixa umidade atmosférica,

as plantas e os frutos são menos sujeitos a doenças

causadas por fungos. O contrário ocorre em regiões

de elevada umidade.

Porém, em áreas sujeitas a baixa umidade

atmosférica, temperatura alta, ventos intensos e solos

com baixo teor de umidade, as plantas não

conseguem manter o equilíbrio hídrico, acarretando

com isso a queda das folhas, flores e frutos.

Muitas espécies frutíferas, como o abacateiro,

a mangueira, a macieira, a oliveira, o caquizeiro, os

citros e outras, perdem grande quantidade de frutos,

devido ao déficit de umidade na planta e à

incapacidade dessas espécies de equilibrar as perdas

por transpiração.

Em citros, têm-se registrado porcentagens

elevadas de queda de frutos, ocorrência essa mais

pronunciada na variedade baianinha.

Para eliminar em parte os fatores adversos

causados pela falta de umidade, recomenda-se o

emprego de cobertura morta, quebra-ventos e, se

possível, irrigação, para manter o solo com teor de

umidade suficiente e contornar em parte os efeitos

adversos da escassez de umidade no ambiente.

Vento

O vento favorece a circulação, renovando

constantemente o ar circunvizinho ao vegetal, e

constitui precioso auxiliar na polinização das plantas.

Ventos intensos mostram-se desfavoráveis e,

quando constantes, praticamente delimitam a área de

cultivo. Ventos frios, como ocorre normalmente em

nosso meio no período de florescimento, agravam o

desenvolvimento das flores e impedem, muitas vezes,

a polinização, de um lado, pela baixa temperatura do

ambiente, e, de outro, pela ausência de insetos,

principalmente abelhas, que se escondem em

situações como essas.

Grande parte das plantas de folhas caducas

tem sua polinização realizada por insetos, e as de

folhas persistentes, em muitos casos, são anemófilas.

Nas primeiras, os ventos intensos dificultam a

atividade dos insetos polinizadores e, nas últimas, por

excesso de velocidade, muitos grãos de pólen que se

acham sobre o estigma desprendem-se.

Um modo de reduzir os efeitos desfavoráveis

desse agente atmosférico é a formação de renques

com arvores de porte elevado. Os quebra-ventos,

quando bem orientados, prestam reais serviços, pois o

reduzem o ímpeto dos ventos e contribuem para que a

planta produza frutos e os mantenha até a colheita.

Em mangueiras, pelos dados: levantados, observou-se

que, anualmente, de 15 a 20% dos frutos se

desprendem pela ação dos ventos intensos, que

ocorrem normalmente de agosto a setembro.

Doenças e pragas

Além de causar redução de área fotossintética

na planta, quando ocorre no florescimento e na

Florescimento e frutificação

Sebastião Elviro de Araújo Neto 105

frutificação, as doenças e pragas, podem causar

quedas de flores e frutos, como a podridão floral dos

citros (Colletotrichum acutatum).

Os insetos estão intimamente relacionados

com a frutificação, principalmente quando são

agentes polinizados, mas o problema é quando são

agentes anti-polinizadores, como as abelhas pragas

do maracujazeiro (Apis melífera, Irapuá e silvestres),

que roubam polém e danificam a flor para coletar o

necta, tornando as não atrativas e com pouco pólen

para a visita dos mamangavas (abelhas

polinizadoras).

8.3 Efeito hormonal na frutificação

Os ramos vegetativos em desenvolvimento são

fontes de auxinas e giberelinas que estão envolvidas

no processo de regular a emissão de brotos

vegetativos e reprodutivos. Altas concentrações

internas inibe a emissão de brotos reprodutivos.

O crescimento alternado de raízes, depois de

emissão de brotos vegetativos é explicado pela

presença de altas concentrações de auxinas (nas

raízes). As raízes novas que se desenvolvem são

fontes de citocinina, que são transportadas

passivamente para brotos vegetativos. As auxinas

inibem a iniciação de brotos, reforçando a

dominância apical. Esse efeito da auxina (inibidoras)

aliado a citocinina (promotoras), podem, de forma

interativa, estarem envolvidas no processo de quebra

de dormência dos ramos, a iniciação dos brotos pode

estar regulada por um balanço crítico entre estas e um

terceiro fitormônio (giberelina A3).

A temperatura fria em muitas espécies de

fruteiras pode anular o efeito inibidor das auxinas e

induzir o florescimento.

O estresse hídrico (6 a 12 semanas) causa

desidratação do meristema apical que torna-se mais

sensível a indução floral, por causa da maior área

foliar madura, pode conpensar a falta de temperaturas

baixas nas regiões tropicais de baixa latitude, outro

fator responsável pela indução floral, como em

manga e caju.

O etileno é um homonio com várias funções,

dentre essas a promoção do florescimento em plantas

lenhosas e a aceleração da maturação em órgãos das

plantas.

O produto químico mais utilizado para liberar

etileno é o etefon (ácido 2-cloroetil-fosfoiônico).

Aplicado por meio de pulverizações na dosagem

entre 100 a 300 ppm, possui mais eficiência quando

combinado com estresse hídrico ou paralizador de

crescimento, como paclobutrazol ou 2,4D, por

exemplo.

O paclobutrazol (PBZ) tem sido usado para

estimular a floração, promovendo a paralisação do

crescimento vegetativo por interromper a síntese de

giberelina. Após a aplicação do PBZ geralmente

aplica se alguma substância promotora de quebra de

dormência dos ramos como etileno e nitrato de

potássio.

8.4 Referências

ALBUQUERQUE, J. A. S. de; MEDINA, V. D.;

MOUCO, M. A. do C. Indução floral. In: GENÚ, P.

J. de C.; PINTO, A. C. De Q. A cultura da

mangueira. Brasília: Embrapa Informações

Técnicas, 2002. p.260-276.

GOMES, R. P. Fruticultura brasileira. 9 ed. São

Paulo: Nobel, 1983.

RAMOS, J. D. Fruticultura: Tecnologia de

produção, gerenciamento e comercialização. 1 ed.

Lavras: UFLA, 1998. CD´rom.

SIMÃO, S. Tratado de fruticultura. Piracicaba:

FEALQ, 1998. 760p.: il.

TAIZ, L.; ZEIGER, E. Fisiologia vegetal. Trad.

Eliane Romanato Santarém ... [et al.] – 3. ed. Porto

Alegre: Artmed, 2004.

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 106

9. COLHEITA E PÓS-COLHEITA DE FRUTOS

O estudo da fisiologia do fruto é importante

para nortear o seu manuseio pós-colheita, reduzindo

o desperdiço e mantendo a qualidades das frutas.

Em um estudo sobre as perdas de hortaliças,

Vilela et al. (2003) relatam que até 40% das frutas e

hortaliças produzidas no Brasil são desperdiçadas em

várias fases do sistema de produção, entre a colheita

e a mesa do consumidor:

35% na pós-colheita;

30% na propriedade;

30% no transporte;

7 a 50% na rede atacadista;

13 a 40% na rede varegista;

20% nos domicílios.

9. 1 Definição de Fruto e Fruta

A palavra fruta é derivada do latim fructa, do

verbo fruor-eri, que significa desfrutar, deleitar-se,

apreciar. Portanto, a fruta é na linguagem comum, um

fruto comestível, de sabor adocicado, utilizado

habitualmente como sobremesa (Awad, 1993).

Do ponto de vista botânico, o fruto é

constituído de ovário e cujo desenvolvimento é

dependente dos eventos que ocorrem no mesmo, ou

pode ser ainda constituído de diversos ovários e ter

ou não estruturas acessórias (indúvias), como o

pedúnculo do caju ou o receptáculo da maça (Vidal e

Vidal, 2000).

Há o entendimento também de que frutos

desenvolvidos sem a fecundação do óvulo, por

partenocarpia e os pseudofrutos, constituídos

estruturas acessórias da flor, como o pedúnculo do

caju e o receptáculo da maçã não são considerados

frutos e sim frutas (Chitarra e Chitarra, 2005).

Portanto, nem todo fruto é uma fruta, pois os

frutos são o produto do desenvolvimento de flores ou

inflorescências das angiospermas. Alguns são

classificados como hortaliças, mas, sob aspecto

botânico, são frutos, como tomate, berinjela, pepino,

por exemplo, que não são considerados frutas, pois

não são consumidas como sobremesa (refrescante).

9.2 Fisiologia do desenvolvimento dos frutos

O conhecimento da fisiologia dos frutos é

necessário para melhor entender as transformações

físicas, químicas, fisiológicas e bioquímicas que

ocorrem na pós-colheita e que tem relação direta com

a vida útil e qualidades dos frutos.

Desenvolvimento fisiológico do fruto

O ciclo vital dos frutos inicia-se com a

fertilização, que é seguida por etapas distintas:

formação, crescimento, maturação e senescência.

Torna-se, porém, difícil fazer uma diferenciação

precisa entre as mesmas.

Formação e crescimento

É a primeira fase na vida do fruto,

caracterizada por um rápido crescimento do ovário,

que usualmente se segue à polinização e fertilização,

que são acompanhadas por mudanças tais como,

murchamento de pétalas e estames. Considera-se que

o crescimento do fruto começa no primórdio floral, o

pericarpo se desenvolve a partir da parede do ovário e

pode diferenciar-se em três regiões distintas: o

exocarpo, o mesocarpo e o endocarpo. Entretanto, o

desenvolvimento do fruto não se restringe ao ovário e

algumas vezes envolve as partes não carpelares da

flor. O crescimento inicial ocorre principalmente por

divisão celular. Os frutos provêm da expansão das

paredes do ovário. Na realidade, a maioria dos frutos

provém do crescimento de ovários isolados. Outros,

como os morangos, são formados por diversos

ovários, pertencentes a uma única flor e espalhados

sobre a superfície de um único receptáculo; as

estruturas semelhantes à sementes, que aparecem na

periferia do morango, são, na realidade frutos, sendo

o receptáculo, a principal porção comestível. Alguns

frutos consistem em ovários alongados justapostos,

incluindo as partes florais secundárias, fundidas para

formar um único fruto, ou infrutescência como o

abacaxi. (Figura 9.1.).

Figura 9.1 – Diagrama de três diferentes tipos de

frutos.

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 107

Uma vez estimulado, o ovário cresce, podendo

apresentar curva de crescimento sigmóidal simples

(Figura 9.2 ) ou dupla curva em S. Neste caso, há um

crescimento rápido após a fecundação e outro durante

um curto período, antes da maturação, com uma zona

intermediária de detenção do crescimento. (Figura

9.3.).

Figura 9.2 Frutos de sapotizeiro em diferentes

estádios de desenvolvimento (Araújo Neto et al.,

2001).

Figura 9.3 – Crescimento do fruto em curva

sigmóidal dupla (volume x tempo), expressa em

termos de base e cumulativa.

a)Método clássico

b)Designação de uma fase preliminar

c)Divisão da fase “lag” em duas etapas

d)Alocação das fases de acordo com o piso e através

da taxa de crescimento.

Dentre os frutos que apresentam padrão de

crescimento sigmóidal simples, encontram-se: maçã,

pêra, tâmara, abacaxi, banana, abacate, morango,

laranja, tomate, sapoti e melão. Dentre os que

possuem dupla sigmóidal estão pêssego, nectarina,

ameixa, cereja, figo, framboesa, uva e azeitona.

O intervalo entre a antese e o amadurecimento

varia nos frutos das diferentes espécies entre três

semanas (morango) a 60 semanas (laranja Valência);

porém, na maioria, é de cerca de 15 semanas. Durante

esse período o fruto aumenta milhares de vezes em

peso e volume, como, por exemplo, o abacate que

apresenta um dos maiores aumentos (300.000 vezes).

Maturação

A maturação ocorre na vida do fruto, quando o

seu desenvolvimento completo é atingido,

independentemente da planta mãe.

A maturação compreende, a fase de

crescimento do fruto e amadurecimento, que começa

no final do crescimento (maturação fisiológica), após

este estádio, não há mais aumento no tamanho do

fruto. Os frutos são normalmente colhidos nesse

estádio, após o qual, vivem utilizando-se dos

substratos acumulados.

A maturação é um evento interessante no ciclo

vital dos frutos, por transformá-los em produtos

atrativos e aptos para o consumo humano. É uma

etapa intermediária entre o final do desenvolvimento

e o início da senescência, sendo um processo normal

e irreversível; porém, pode ser retardado com o uso

de meios adequados. Essa fase é discutida sob dois

aspectos: a) Pode ser entendida como a manifestação

da senescência, na qual a organização intracelular

começa a ser destruída; b) representa o estádio final

da diferenciação, e por isso é um processo dirigido

que requer a síntese de enzimas específicas.

A maturação dos frutos pode ser definida

como a seqüência de mudanças na cor, “flavor” e

textura, conduzindo a um estado que os torna

comestíveis, e, com isto, apropriados para o consumo

“in natura” e/ou industrialização. Este, entretanto,

não é um estado fisiológico fixo, pois, pode variar de

um para outro fruto e em alguns casos as mudanças

podem ocorrer até em direções opostas. Por exemplo,

em maçãs, há uma perda de ácido málico no fruto

maduro, porém, em bananas, ocorre o inverso, ou

seja, um acúmulo desse ácido (Chitarra e Chitarra,

1990). A graviola é outro fruto que aumenta a acidez

durante o amadurecimento, contrariando a lógica

geral do amadurecimento dos frutos (Araújo Neto et

al., 2002).

As principais mudanças que ocorrem durante a

maturação, são:

Desenvolvimento das sementes

Mudanças na cor

Mudanças na taxa respiratória

Produção de etileno

Mudanças na permeabilidade dos tecidos

Mudanças na textura

Mudanças químicas nos carbóidratos, ácidos

orgânicos, proteínas, fenólicos, pigmentos,

pectinas, etc.

Produção de substâncias voláteis

Formação de ceras na casca.

1 2 3 4 5 d I IIA IIB III c

0 I II III b

I II III a

Tempo

Volume

Crescimento cumulativo

Taxa de crescimento

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 108

Figura 9.3 – Etapas do ciclo vital dos frutos.

1.Início da formação da polpa

2.Térmico do crescimento em tamanho

3.Início do período de utilização, mas, ainda imaturo

4.Período ótimo de consumo

5.Predominância de reações degradativas

6.Não utilizável para consumo (Ryall e Lipton, 1979)

Amadurecimento

A etapa correspondente ao amadurecimento, é

aquela na qual o fruto completamente maduro torna-

se mais palatável, pois, sabores e odores específicos

se desenvolvem em conjunto com o aumento dos

açúcares e diminuição da acidez, proporcionando

maior doçura ao fruto. O amaciamento do fruto

ocorre e é usualmente acompanhado por mudança na

coloração. A clorofila decresce nos cloroplastos,

enquanto que os pigmentos carotenóides e

antocianinas se desenvolvem. Portanto, o

amadurecimento corresponde basicamente às

mudanças nos fatores sensoriais do sabor, odor, cor e

textura que tornam o fruto aceitável para o consumo.

Algumas dessas mudanças podem ser detectadas por

análise ou observação das transformações físicas

visíveis, ou pelas transformações endógenas, como

mudanças nos pigmentos, ácidos, taninos,

carboidratos, pectinas, etc.

As diferentes mudanças que ocorrem durante

o processo de amadurecimento parecem estar

sincronizadas e encontram-se provavelmente sob

controle genético. Essa afirmativa tem suporte no fato

de que o intervalo entre a antese e o amadurecimento,

em condições climáticas similares, é relativamente

constante para um determinado fruto. Um resumo das

mudanças sugeridas por Biale e Young (1962), que

ocorrem durante o processo de amadurecimento, é

apresentado no Quadro 9.1.

No amadurecimento ocorrem atividades

anabólicas e catabólicas. Há perda de energia à

medida que os substratos são convertidos em

moléculas simples, calor e ligação fosfato (rica em

energia). A ligação energética é usada para várias

atividades fisiológicas e para manutenção da

integridade celular.

Quadro 9.1. Transformações que ocorrem durante o

amadurecimento de frutos (de Biale e Young, 1962).

Síntese Degradação Manutenção da estrutura mitocondrial Destruição dos cloroplastos

Formação de carotenóides e antocianinas Quebra de clorofila

Interconversão de açúcares Hidrólise do amido

Aumento na atividade do ciclo de Krebs Destruição de ácidos

Aumento na formação de ATP Oxidação de substratos

Síntese de voláteis aromáticos Inativação de fenólicos

Aumento na incorporação de aminoácidos Solubilidade de pectina

Aumento de membranas seletivas Ativação de enzimas

hidrolíticas

Prevenção de membranas seletivas Início de rompimento de

membranas

Formação da vida do etileno Amaciamento da parede

celular induzida pelo C2H4

Uma grande demanda de energia ocorre no

sistema para a continuação do processo, incluindo

síntese protéica, síntese de etileno e compostos

aromáticos, entre outros. A energia é suprida por

alguns processos degradativos, particularmente a

hidrólise de amido. A glicose produzida, por esse

processo, é conseqüentemente utilizada durante o

processo de amadurecimento. A interelação e

mecanismos pelos quais essas mudanças são

coordenadas, ainda não são bem conhecidos. Uma

das dificuldades nessa determinação ocorre na

distinção entre os fatores causativos e seus efeitos. O

amadurecimento pode ser considerado como um

número de processos “chaves” que ocorrem

simultaneamente, cada um tendo seu próprio

mecanismo de controle, o que, por sua vez, é

livremente coordenado com os mecanismos dos

outros processos.

As unidades básicas de interesse no

amadurecimento, são as células e suas organelas que

contêm a maquinária que dirige as reações de vida e

morte. Os sistemas enzimáticos contidos dentro das

organelas refletem a seqüência da desorganização

dessas organelas. Uma vez iniciado, o

amadurecimento conduz ao envelhecimento e à morte

dos tecidos.

Senescência

A senescência é definida como os processos

que se seguem à maturidade fisiológica ou

horticultural e que conduzem à morte dos tecidos.

Não há, entretanto, uma distinção bem delineada

entre amadurecimento e senescência, embora cada

um dos processos que contribui para a síndrome da

senescência, conduza diretamente à morte dos

tecidos. O processo da senescência aumenta a

probabilidade de morte, como, por exemplo, por

desidratação ou invasão de microorganismos; porém,

não há evidências de que ela inclua a morte

programada do tecido. Na Figura 9.4. encontram-se

as mudanças que ocorrem no abacaxi, desde o

florescimento até a sua senescência com separação

das diversas etapas fisiológicas na vida desse fruto.

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 109

Figura 9.4 – Transformações das características

físicas, físico-químicas e químicas do abacaxi durante

o período do florescimento até a senescência.

(Gortner et al., 1967).

Respiração

Após a colheita do fruto, a respiração torna-se

o seu principal processo fisiológico, uma vez que ele,

não depende mais da absorção de água e minerais

efetuados pelas raízes, da condução de nutrientes pelo

sistema vascular, nem da atividade fotossintética das

folhas da planta mãe. Portanto, após a colheita, os

frutos têm vida independente e utilizam para tal, suas

próprias reservas de substratos, acumulados durante o

seu crescimento e maturação, com conseqüente

depressão progressiva nas reservas de matéria seca

acumulada. Deve-se salientar que as atividades não

são apenas catabólicas. Alguns órgãos vegetais

utilizam a energia liberada pela respiração, para

continuar a síntese de pigmentos, enzimas e outros

materiais de estrutura molecular elaborada, tão logo

eles são destacados da planta. Essas sínteses são parte

essencial do processo de amadurecimento de muitos

frutos.

A atividade respiratória é influenciada pelo

menos em parte, pela composição do fruto

completamente formado e pelas alterações químicas

que ocorrem durante a fase da maturação. As

substâncias que possivelmente tomam parte ativa

nestas alterações são as proteínas, glicídeos, lipídeos,

ácidos orgânicos, vitaminas, minerais e alguns

componentes específicos da parede celular como

hemi-celulose e pectinas. A respiração resulta em

modificações profundas desses constituintes, sendo

que podem ser altamente indesejáveis sob o ponto de

vista da qualidade. Em condições não controladas,

estas mudanças podem levar rapidamente à

senescência, e os tecidos tornam-se muito

susceptíveis ao ataque de microorganismos e à perda

de umidade. Assim, o controle da respiração passa a

ser condição essencial para obtenção de condições

adequadas de armazenamento dos produtos

perecíveis.

O tipo e a intensidade de atividade fisiológica

pós-colheita as quais dependem das funções naturais

de cada parte da planta, determinam, em grande

extensão, a longevidade do material, durante o

armazenamento na etapa pós-colheita.

As mudanças químicas que ocorrem no fruto,

pós-colheita, são direta ou indiretamente relacionadas

com atividades oxidativas e fermentativas,

designadas como oxidações biológicas.

A respiração é o processo relacionado com a

oxidação predominantemente de substâncias

orgânicas das mitocôndrias e com sistemas

enzimáticos das células. Ocorre em três fases, a

saber:

• Quebra ou hidrólise de polissacarídeos em açúcares

simples.

• Oxidação dos açúcares a ácido pirúvico (ciclo

glicolítico).

• Transformação aeróbica do ácido pirúvico e outros

ácidos orgânicos em CO2, água e energia (ciclo de

Krebs).

As proteínas e os lipídeos também podem

servir como substratos no processo de hidrólise,

porque existe uma interelação nos seus processos

metabólicos. Os glicídeos podem ser convertidos em

lipídeos e aminoácidos. Os lipídeos podem ser

transformados em aminoácidos, porém, dificilmente

se transformam em glicídeos.

Muitos compostos importantes podem ser

sintetizados a partir dos intermediários do ciclo

glicolítico e do cicio de Krebs. Por exemplo, tem-se a

síntese de ácido ascórbico a partir da glicose 6-

fosfato; ácido clorogênico a partir do

fosfoenolpiruvato; fenólicos ou compostos

aromáticos voláteis a partir da Acetil CoA e clorofila

a partir da Sucinil-CoA.

Alguns trabalhos têm sido realizados, isolados

a mitocôndria e verificando sua relação com a

atividade respiratória. Tem-se observado um aumento

da atividade das mitocôndrias isoladas a partir de

vários frutos, em diferentes estádios de maturação.

Esse aumento pode ser interpretado como um

aumento no número de mitocôndrias, ou um aumento

na atividade do sistema mitocondrial pré-existente.

Entretanto, não existem evidências claras para

-1 0 0 -8 0 -6 0 -4 0 -2 0 0 2 0

D ia s a p a rti r d o a m a d u re c im e n to

A ç ú c a re s re d u to re s

C lo ro fila d a c a s c a

p H

B rix

P e s o

A c id e z

C a ro te n ó id e s d a

c a s c a

M a tu ra ç ã o

Am

ad

ure

cim

en

to

Se

ne

sc

ên

cia

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 110

distinguir entre essas duas possibilidades. Atualmente

alguns pesquisadores sugerem que, quando o fruto

completa a fase climatérica, portanto, quando a

respiração já se elevou, a oxidação torna-se

progressivamente desacoplada da atividade

fosforilativa.

A respiração num sentido mais restrito

corresponde às reações químicas que requerem

oxigênio, enquanto que a fermentação, também

referida como glicólise, é característica de oxidações

biológicas em ambiente livre de oxigênio, (Figura

9.5); porém, a fermentação também pode ocorrer em

atmosfera contendo oxigênio. Há uma distinção entre

a glicólise “aeróbica” e a “anaeróbica”, com base nas

condições de exposição do material fermentável. Os

dois processos podem ser ilustrados com as seguintes

reações:

Figura 9.5 – Esquema geral das principais

transformações metabólicas que ocorrem na vida dos

frutos.

Padrões de atividade respiratória

Se a atividade respiratória for acompanhada

após a formação do fruto e através de seus estádios de

divisão celular, crescimento e maturação, pode-se

observar um decréscimo consistente na taxa de

respiração, se expressa em unidade de peso fresco,

peso seco, ou unidade de proteínas. Porém, no final

da maturação há um aumento marcante na evolução

de CO2, observado em maçã por Kidd e West (1925),

que designaram o evento de subida “climatérica”. Os

frutos que apresentam esse padrão de atividade

respiratória são então designados como frutos

“climatéricos”. Outros frutos não apresentam esse

padrão respiratório e são, portanto, chamados de “não

climatéricos”. Entretanto, muitos desses frutos

apresentam um aumento na produção de etileno, com

aumento na taxa respiratória em alguma fase do seu

desenvolvimento na planta.

Os frutos são, portanto, classificados em

“climatéricos” e “não climatéricos”, com base nas

características respiratórias antes do amadurecimento,

conforme apresentado na Figura 9.6. Desta forma,

pode-se dizer que o climatério faz a transição entre o

crescimento e a senescência e é iniciado pela

produção autocatalítica de etileno.

Quadro 9.2 - Exemplo de frutos climatéricos e não

climatéricos.

Frutos climatéricos Frutos não-climatéricos

Abacate Uva

Banana Limão

Manga Laranja

Mamão Abacaxi

Maracujá Morango

Pêra Figo

Ameixa

Sapoti

0

20

40

60

80

100

Ab

so

rção

Rela

tiv

a d

e O

2

Colheita

A

B

C

Fruto climatério

(abacate)

1 3 5 7 9 11 (Dias)

Tempo

Fruto não climatério (limão)

1 2 3 4 5 (Meses)

Figura 9.6 – Padrão de atividade respiratória em

frutos climatéricos e não climatéricos (Biale, 1960).

Observa-se através da Figura 9.6, um declínio

na taxa de captação de O2 (ou evolução de CO2)

imediatamente após a colheita, seguido por um

acréscimo brusco. O menor valor da captação de O2 é

designado como “mínimo pré-climatérico”. O pico de

respiração designado como “máximo climatérico” é

seguido por um período de declíneo na atividade,

designado como estádio “pós-climatérico”. O valor

real nos pontos mínimos e máximos, bem como o

espaço de tempo decorrido entre ambos, é

característico de cada espécie ou mesmo de cada

cultivar em condições externas definidas. O tempo

decorrido entre a colheita e o ponto mínimo é função

do estádio de maturação da fruta, na colheita.

Ciclo de

Krebs (dos ácidos orgânicos)

ÁCIDO PIRÚVICO

AÇÚCARES

AMIDO

+ Oxigênio

(Respiração aeróbica) - Oxigênio

(Respiração anaeróbica)

Fermentação

Deterioração e (rápida perda do

sabor e do aroma) CO2

HCO2

Calor

Energia

Energia química

Novas células para

crescimento dos

tecidos

+ minerais do solo

+ açúcares, etc.

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 111

Em alguns frutos, como maçã e tomate, o

aumento na taxa respiratória ocorre, tanto no fruto

preso à planta, como após a colheita. O abacate,

apresenta pico respiratório climatérico apenas após

ser desligado da planta. Em alguns frutos como

abacate, banana e manga, o aumento na taxa

respiratória é rápido e o estádio de amadurecimento

comestível, está intimamente relacionado com o pico

climatérico. Além das modificações na textura da

polpa, conhecidas como “amadurecimento

comestível”, ocorrem transformações na cor, tais

como verde a amarelo em bananas, verde a vermelho

em manga, verde a marrom escuro em algumas

variedades de abacate. Essas mudanças ocorrem

nesses frutos durante o pico climatérico ou

imediatamente após. Em outros, como maçã e tomate,

o amadurecimento só se completa algum tempo após

o pico climatérico.

Dentre os frutos não climatéricos podem ser citados:

cereja, pepino, figo, uva, cítricos, morango, abacaxi e

goiaba.

Os frutos não climatéricos devem estar no

estádio ótimo de amadurecimento comestível, à

época da colheita. Para que apresentem melhor

qualidade, devem ser deixados na planta até

atingirem a composição desejável. No caso do limão

a colheita é baseada no tamanho do fruto, porque

objetiva-se volume e acidez no suco. Em laranjas, os

fatores determinantes são o conteúdo de açúcares e

ácidos, bem como o volume de suco. Neste grupo de

frutos, a senescência celular aparentemente se segue à

maturação celular, sem a intervenção de nenhum

estádio de transição. Nesses frutos, há uma ligeira

queda na taxa respiratória, após serem destacados da

planta. Existe, entretanto, uma possibilidade de que,

numa idade fisiológica mais apropriada ou sob

condições de armazenamento mais apropriadas, estes

frutos possam apresentar um padrão respiratório

característico de frutos climatéricos, como o melão e

o abacaxi.

Embora não apresentem comportamento

respiratório, como os frutos do tipo climatérico, já foi

observado em laranja e pomelo um padrão de

respiração tipo climatérico, quando uma série

cronológica suficiente de amostras foi colhida e

analisada. Outras alterações no amadurecimento

seguiram o climatério; porém, este ocorreu bem antes

da colheita comercial. Para resolver as opiniões

conflitantes sobre a ubiqüidade do climatério, há

necessidade de medições mais precisas, abrangendo

períodos cronológicos mais longos, bem como

maiores períodos para realização dessas medições.

As evidências demonstram que não existem

diferenças fundamentais entre os dois grupos de

frutos quanto ao mecanismo de amadurecimento. Os

frutos não climatériccos, apresentam amadurecimento

mais lento, necessitando de um longo espaço de

tempo para completar o processo, sem mudança

súbita na demanda de energia. Nos frutos

climatéricos os eventos ocorrem rapidamente e com

grande demanda de energia, responsável pela súbita

ascensão na taxa respiratória. Ambos os grupos de

frutos contêm quantidades apreciáveis de etileno,

embora, a quantidade seja consideravelmente variável

com a espécie. Além da variação no nível endógeno

de etileno, as respostas à aplicação de etileno

exógeno são bastante variáveis entre os dois grupos

de frutos.

Uma classificação mais conveniente para

frutos, quanto ao seu padrão de atividade respiratória,

foi elaborada por Iwata et al (1969), relacionando o

amadurecimento e a flutuação na produção de CO2

pelos frutos e hortaliças. Foram propostos 3 tipos de

padrão de atividade respiratória.

• Tipo decréscimo gradual: a taxa de respiração

decresce gradualmente através do processo de

amadurecimento, como por exemplo nos frutos

cítricos.

• Tipo ascensão temporária: a taxa de respiração

aumenta temporariamente e o completo

amadurecimento ocorre após o pico respiratório,

como em banana, tomate, manga e abacate.

• Tipo pico tardio: a taxa máxima de respiração é

apresentada desde o estádio completamente maduro

até o supermaduro, como no caqui japonês, morango

e pêssego.

De um modo geral, a taxa de respiração é

indicativa da rapidez com que as mudanças de

composição ocorrem no material. Se o fruto for

colhido no estágio de ótima qualidade comestível, ou

próximo à mesma, poderá apresentar uma elevada

taxa de deterioração antes da comercialização. A vida

de armazenamento de diferentes tipos de frutos, em

geral, varia inversamente com a taxa de respiração.

Produtos com taxas de respiração relativamente

baixas são os que podem ser armazenados por

períodos mais longos sem perdas da aceitabilidade.

9.3 Tipos de colheita

Colheita manual

A colheita manual ainda é o procedimento

mais utilizado, mesmo em países desenvolvidos. A

colheita mecânica é utilizada para produtos

destinados ao processamento ou àqueles que não são

facilmente danificados.

A colheita manual apresenta como principais

vantagens:

• Seleção acurada da maturidade.

• Danos mínimos ao produto.

• Pequeno investimento de capital.

Produz menos danos aos produtos que a

mecanizada; as vantagens porém, podem ser

reduzidas pelos tratamentos subseqüentes. Para

realização da colheita manual, vários instrumentos

são utilizados, sempre com o objetivo de proteger o

produto. Os mais comuns, são:

• Baldes e sacos: São utilizados para facilitar a

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 112

colheita de uma só vez em algumas árvores. No caso

do uso de saco, deverá ser dada atenção à sua forma

para reduzir os danos, particularmente durante a

descarga, bem como para o conforto de quem o

utiliza. O mais comum é aquele que possui uma

abertura na parte inferior, o qual após cheio, possa ser

aberto e permitir um fluxo normal sem danificar o

produto.

• Varas/prendedores: Uma grande variedade de varas

com prendedores ou facas combinadas com sacos na

ponta é utilizada. Tal sistema pode ser feito a custos

relativamente baixos. Em frutos cítricos, a colheita

varia de região para região, podendo ser feita através

de prendedores na ponta da vara, ou então através do

próprio homem (torcendo e puxando). Os

prendedores devem ser usados com critérios para

evitar problemas de doenças.

• Facas e tesouras: Dependendo do produto, há ou

não a necessidade de se cortá-lo da planta. Muitos

produtos podem ser efetivamente cortados ou

torcidos da planta sem danos à mesma ou ao produto.

Contudo, alguns devem ser cortados com faca, como

por, exemplo, abacaxi e banana. O uso de faca pode

reduzir a necessidade de uma limpeza secundária nas

centrais de embalagem. O corte pode evitar danos, os

quais ocorrem pela remoção de partes do vegetal,

quando se usa o método de puxar com a mão. Deve-

se também observar que o uso de facas ou tesouras

pode trazer desvantagens, como a transmissão de

doenças de planta para planta, por contaminação

através do utensílio. Deve-se assim observar as

condições higiênicas do material utilizado na

colheita.

• Roupas especiais: Somente no caso de alguns

produtos, como por exemplo abacaxi, onde se

utilizam luvas para reduzir os danos ao produto e

como proteção ao homem. Contudo, deve-se observar

os aspectos higiênicos do uso.

Colheita mecânica

A colheita mecânica não é na atualidade a

mais utilizada para a maioria dos produtos perecíveis

destinados à comercialização “in natura”, porque as

máquinas raramente são capazes de realizar uma

colheita seletiva, bem como tendem a danificar os

produtos, além do que é um processo dispendioso.

Em geral, é utilizado para produtos menos sensíveis à

injúria mecânica, produtos que podem ser colhidos de

uma só vez, pós o que são processados rapidamente,

para minimizar o efeito das injúrias mecânicas. Deve-

se ainda considerar que os produtos precisam ser

resistentes à colheita mecânica, ou seja, as árvores

necessitam ser podadas para minimizar o dano

causado ela queda dos frutos, através da copa. Há

necessidade de condições uniformes no apoio para

um melhor rendimento. O impacto de quedas em

superfícies duras ou sobre o próprio produto

acumulado, bem como as vibrações transmitidas das

máquinas para a matéria prima, causam danos que

irão se refletir posteriormente na sua qualidade pós-

colheita. Esse tipo de colheita, porém, apresenta

algumas vantagens como:

• Rapidez potencial, com maior rendimento;

• Melhores condições de trabalho para os colhedores;

• Redução de mão-de-obra.

As culturas que podem ser colhidas

mecanicamente têm, em geral, equipamentos

especialmente desenvolvidos para elas.

O sucesso de uma boa colheita está

diretamente relacionado com uma coordenação

eficiente da mesma, no que diz respeito à

disponibilidade de trabalhadores, transporte,

operações nas centrais de embalagens e demanda de

mercado. A maturidade do produto e condições de

tempo também afetam a colheita. A supervisão dos

trabalhos é real importância para assegurar métodos

adequados de colheita e correta manipulação.

Nos locais onde o produto é colhido

manualmente, o trabalhador deve carregar seu

próprio material. Contudo, a equipe deverá trabalhar

sistematicamente na área da colheita. O tamanho da

equipe dependerá do tipo de produto e das

dificuldades experimentadas na colheita. Como os

colhedores são pagos pela quantidade colhida, uma

boa supervisão torna-se necessária para assegurar a

qualidade do produto colhido. Os colhedores devem

ser treinados para colher o produto com a qualidade

desejada, devendo ser encorajados e treinados para

atingi-la.

O nível de mecanização aplicado na colheita

de produtos frutícolas requer um evado grau de

supervisão e desenvolvimento da habilidade do

trabalhador. Os equipamentos devem ser manuseados

por pessoal bem treinado, para evitar danos ao

produto ao próprio equipamento, em geral muito

dispendioso. Deve haver um serviço de manutenção

regular e de emergência, para um funcionamento

adequado.

Cuidados no manuseio

Os frutos que se destinam à comercialização

“in natura” devem ser colhidos manualmente em

baldes ou sacos, os quais são colocados em caixas

maiores para posterior transporte. Os baldes (de

plástico ou metálicos) são usados para frutos macios,

enquanto que os sacos são usados para frutos com

baixo potencial de compressão ou dano. Frutos muito

delicados, como cerejas, uvas, pêssegos e nectarinas

ainda podem ser transferidos dos baldes para um

sistema transportador do campo, ou podem ser

colhidos no balde e embalados em ‘containers’ para

posterior transporte.

Os frutos muito macios e delicados, como

morangos, devem ser colhidos, selecionados e

embalados diretamente dentro do “container” de

transporte. As injúrias físicas dos frutos podem

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 113

resultar do procedimento incorreto na colheita, como

queda excessiva dos frutos nos baldes ou sacos,

superenchimento desses “containers”, pancadas

(especialmente sacos com laterais macias) contra

galhos e escadas, falta de cuidado na transferência

dos frutos para as caixas e o superenchimento das

caixas no campo. As quedas dos frutos, mesmo que

sejam de pequenas alturas causam impacto e

amassamento.

9.4 Estádio de maturação

O estádio de maturação no qual o fruto é

colhido, será decisivo para a sua vida de prateleira,

bem como em relação ao seu potencial de

armazenamento. É importante caracterizar o

momento exato da colheita de acordo com o destino

do produto. Muitas vezes a colheita é realizada

precocemente, ou seja, antes do produto ter

completado seu desenvolvimento, ficando o processo

de amadurecimento totalmente prejudicado, ou,

quando ocorre, é de forma irregular. Da mesma

forma, o processo de colheita efetuado com o produto

supermaduro, trará conseqüências irreversíveis de

perdas. Entre esses extremos, existem pontos em que

o estádio de desenvolvimento permite colheitas que

prolonguem a sua vida sem ocorrência de desordens,

pois, nesse caso, a susceptibilidade é muito menor.

A maturidade do produto na colheita depende das

necessidades do mercado, tempo de transporte ou

necessidades de armazenamento, e pode diferir em

épocas do ano.

O requerimento básico é a previsão de uma

medida que possa ser feita antes, mas que seja

altamente correlacionada com a data de maturação

adequada para a colheita. O sistema de previsão mais

simples se relaciona com o desenvolvimento, de

forma regular, através da última parte da etapa de

crescimento. Quando se determina a relação entre as

mudanças na quantidade, qualidade e vida de

armazenamento, um valor índice pode ser adotado

para a maturidade mínima aceitável. Uma vez

estabelecido o índice, as medidas realizadas no início

da estação podem ser usadas para predizer a data na

qual o produto atingirá um mínimo de maturidade

aceitável. Por exemplo, na Califórnia, durante muitos

anos, utilizou-se um teor mínimo de óleo no abacate

como padrão de maturidade. Porém, esse índice

mostrou-se insatisfatório, uma vez que algumas

cultivares, mesmo apresentando teor de óleo acima

do mínimo requerido, tinham qualidade organoléptica

insatisfatória. Através de um painel de avaliação

sensorial para determinar a qualidade do fruto,

constatou-se que o padrão de crescimento do abacate

pode ser usado não apenas para determinar a data na

qual a maturidade mínima aceitável é atingida, como

também permite estabelecer a data. Existe uma boa

correlação entre o conteúdo de óleo e o peso seco do

fruto. Dessa forma, o índice de maturidade mínima

foi trocado do conteúdo de óleo para o do peso seco.

Índices de maturidade

Os índices de maturidade podem ser utilizados

não só para o estabelecimento da época de colheita,

como também em alguma etapa da cadeia de

comercialização (por exemplo, no local de inspeção,

na recepção da matéria-prima numa indústria, etc.). O

mais difícil e complexo, porém, é encontrar a forma

de previsão do tempo no qual o produto atingirá sua

maturidade. A maturidade para a colheita pode ser

indicada por meios físicos ou visuais, análises

químicas, computação dos dias pós-florada e fatores

fisiológicos.

A época ou ponto de colheita para cada

espécie de frutos e hortaliças tem influência direta

nas características de boa qualidade dos mesmos.

Tanto em hortaliças como em frutos, a colheita de

algumas espécies depende de fatores tais como: o

local ao qual se destina, o meio de transporte, o

intervalo entre a colheita e o consumo e as

características intrínsecas do produto.

De modo geral, o agricultor com sua vivência

pode estabelecer sobre a melhor época de colheita.

Porém, para uma confirmação objetiva do grau de

maturação, são realizadas análises químicas e físicas.

Os métodos mais utilizados encontram-se no Quadro

9.3. Dentre eles, salientam-se os seguintes:

Quadro 9.3 – Índices de maturidade estabelecidos

para alguns frutos.

ÍNDICE EXEMPLOS

Fatores físicos:

Dias entre a florada e a colheita Banana, sapoti, maçã

Desenvolvimento de camadas

de abscisão

Alguns melões, maçã

Morfologia e estrutura da

superfície

Açaí, películosidade

Tamanho Quase todos os frutos

Gravidade específica Melancia

Forma Angularidade/ banana

Faces cheias/mangas

Firmeza Maças, pêras, melão

Coloração externa Maioria dos frutos

Coloração interna Cor da polpa/frutos

Densidade de espículas 6/12cm2 Graviola

Fatores da composição:

Conteúdo de amido Maçãs, pêras

Conteúdo de açúcares Maioria dos frutos

Acidez, relação açúcar/ácido Mamões, cítricos

Conteúdo de sucos Cítricos

Taninos (adstringência) Caquis, tâmaras

Método de Observação Prática

A observação, no caso ditado pela longa

experiência do agricultor, poderá indicar um ponto

próximo ao ideal da colheita. Como exemplo, tem-se

os seguintes casos:

• Morango: a cor do fruto é o indicador do ponto de

colheita. Frutos com menos da metade da superfície

vermelha são impróprios para consumo ou para

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 114

processamento, porque conservam elevado teor de

acidez e adstringência depois de colhidos, bem como,

possuem aroma pobre. Morangos com mais da

metade e até 3/4 da superfície vermelha permanecem

em boas condições para o consumo ou processamento

por alguns dias, dependendo da variedade, da

temperatura e da umidade atmosférica.

• Sapoti: Os frutos do sapotizeiro, não apresentam

mudança de cor da casca durante a maturação

fisiológica e a firmeza permanece eevada para

percepção no tato, apesar de haver uma diminuição

de 102,16 Newton (N) aos 195 dias após a antese

para 73,5 N aos 209 dias após a antese. Essa difereça

é percebida no tato de colhedores treinados (Araújo

Neto et al., 2001).

Métodos físicos

Incluem medições de soma de calorias,

medidas da textura e medidas de peso, diâmetro e

volume.

Métodos químicos e físico-químicos

Curvas de maturação

Para o estabelecimento correto do ponto ideal

de colheita são realizadas as chamadas curvas de

maturação, ou seja: acompanha-se a fase de

maturação do fruto por meio de análises físicas e

químicas, traçando-se as curvas para cada

constituinte de acordo com a evolução apresentada.

Observa-se então o ponto máximo ou mínimo da

concentração de alguns componentes químicos, ou

realizam-se relações entre os componentes e, dessa

forma, indica-se qual a época ideal para a colheita do

fruto em determinada região.

Consiste em se determinar a soma da relação

temperatura e tempo nos quais o produto atinge seu

estádio ótimo de maturação. A medição é feita

diariamente desde a semeadura até a colheita.

O inconveniente do método é a necessidade do

conhecimento da temperatura de paralisação de

crescimento do produto.

Determinação da textura. Uso de aparelhos

que permitem a obtenção de dados sobre a resistência

e consistência do tecido, através da compressão do

produto. São usados: maturômetros, penetrômetros e

texturômetros.

Dentre os métodos mais utilizados encontram-

se o teste do amido pelo iodo, determinações de

substâncias insolúveis em álcool (amido, celulose,

pectinas, proteínas), determinações de sólidos

solúveis e determinações de acidez, etc.

Teste do amido

Através do uso de solução de iodo pode-se

constatar a presença ou não de amido em produtos

vegetais que desenvolvem coloração azul na presença

de iodo.

Determinação de substâncias insolúveis em

álcool (SIA)

Consiste na determinação do percentual de

alguns componentes químicos, tais como: amido,

fibras, hemicelulose, pectinas e proteínas. Juntamente

com os dados físicos, dá uma idéia da resistência ou

endurecimento do tecido celular.

Determinação de sólidos solúveis (SS) e

acidez titulável (ATT)

Os SS dão uma idéia do teor de açúcares do

produto. Faz-se a leitura com auxílio do refratômetro

de campo.

A acidez é dosada pela titulação com auxílio

de solução de NaOH 0,1N. A relação SST/ATT dá

indicação do sabor do produto.

9.5 Pré-resfriamento

Para manter a qualidade e evitar o calor, o

produto deve ser colhido e removido do campo o

mais rápido possível. Uma vez colhido, deverá ser

protegido contra as condições adversas de tempo,

como por exemplo, através do uso da própria sombra

das árvores ou do uso de folhas.

Os produtos devem ser resfriados o mais

rapidamente possível após a colheita para remoção

rápida do calor do campo.

Um local adequadamente sombreado deve ser

preparado para a recepção após a colheita. Há a

necessidade de lavar os produtos nesse estágio, para

remoção do solo aderido aos mesmos. A preparação

do produto também inclui a remoção de folhas

externas estragadas ou quebradas, como no caso de

folhas. Todos os métodos de pré-resfriamento

envolvem uma rápida transferência de calor do

produto para meio de resfriamento, tal como ar, água

ou gelo.

A taxa de resfriamento de qualquer produto

depende de quatro fatores:

• Acessibilidade do produto ao meio resfriante;

• A diferença de temperatura entre o produto e o meio

de resfriamento;

• A rapidez de resfriamento;

• A natureza do meio de resfriamento.

O resfriamento com água, quando

convenientemente aplicado, é o método mais efetivo

para remoção do calor de campo. Freqüentemente,

porém, a água utilizada não suficientemente fria ou

não flui com a rapidez suficiente. Ocorre também que

o fruto às vezes não permanece o tempo suficiente no

pré-resfriamento. A simples colocação em tanque

com água fria não é suficiente para produzir o efeito

desejado de resfriamento rápido. Deve-se utilizar

água corrente para a lavagem, pois caso contrário, ela

se torna facilmente poluída e em curto período de

tempo desenvolve altas concentrações de esporos

fúngicos, os quais podem posteriormente contaminar

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 115

produtos injuriados ou me mo sãos.

9.6 Higiene do campo e aspectos fitossanitários

Durante as operações de colheita deve-se

manter um padrão de higiene no campo. Os produtos

não desejáveis para o mercado devem ser removidos.

A colheita deve ser realizada na época certa, e com

seleção imediata do produto para possibilitar as

operações subseqüentes. Pode-se ainda deixar o

produto descartável na planta durante a primeira

operação, e em seguida fazer a operação de limpeza.

Durante as operações de colheita, deve-se manter um

bom padrão de higiene no campo. Os produtos não

desejáveis para o mercado devem ser removidos. A

colheita deve ser realizada na época certa e com

seleção imediata do produto, para possibilitar as

operações subseqüentes. Pode-se ainda deixar o

produto descartável na planta durante a primeira

operação e, em seguida, fazer a operação de limpeza.

Em nenhuma circunstância o produto rejeitado

deverá permanecer no solo por longos períodos, pois

assim ele se tornará uma fonte de infecção aos

produtos sadios. Preferivelmente, o material que

poderá ocasionar alguma infecção deverá ser

destruído. A limpeza adequada dos instrumentos e

equipamentos utilizados na colheita e manuseio

também de importância fundamental no controle

sanitário. Numerosos produtos químicos podem ser

utilizados para o tratamento fitossanitário.

9.7 Qualidade Pós-Colheita

A qualidade pós-colheita dos frutos relaciona-

se com o conjunto de atributos ou propriedades que

os tornam apreciados como alimento. Esses atributos,

por sua vez, dependem do mercado de destino:

armazenamento, consumo in natura ou

processamento. De modo abrangente, a qualidade

pode ser definida como o conjunto de inúmeras

características que diferenciam componentes

individuais de um mesmo produto e que tem

significância na determinação do grau de aceitação

pelo comprador. Dessa forma, devem ser

considerados os atributos físicos, sensoriais e a

composição química, bem como devem ser realizadas

associações ou relações entre as medidas objetivas e

subjetivas, para um melhor entendimento das

transformações que ocorrem, e que afetam ou não a

qualidade do produto.

Atributos de Qualidade

Os atributos de qualidade dos produtos dizem

respeito à sua aparência, sabor e odor, textura, valor

nutritivo e segurança (Quadro 9.4). Esses atributos

têm importância variada, de acordo com os interesses

de cada segmento da cadeia de comercialização, ou

seja, desde o produtor até o consumidor. O grau de

importância dos atributos individuais, ou do conjunto

de alguns deles, depende dos interesses particulares

de cada segmento. Os produtores dão prioridade à

aparência, isto é, presença de poucos defeitos, alto

rendimento na produção, facilidade de colheita,

transporte e resistência a doenças. Do mesmo modo,

os geneticistas também dão maior interesse pela

resistência a doenças, presença ou ausência de

injúrias ou desordens fisiológicas. Por sua vez, os

comerciantes e distribuidores tem a aparência como o

atributo mais importante, dando ênfase à firmeza e à

boa capacidade de armazenamento. Os consumidores

visam a aparência e as características sensoriais.

Quando destinados à industrialização, o interesse

primário direciona-se para o rendimento da matéria-

prima, cor, “flavor” e textura.

Quadro 9.4– Componentes de qualidade para frutos.

Principais

Fatores

Componentes

Aparência

1. Tamanho: dimensões, peso e volume

2. Forma: diâmetro longevidade x transversal

3. Cor: intensidade, uniformidade

4. Brilho: lustre, aparência externa

5. Defeitos: externos e internos

Morfológicos, físicos x mecânicos

Fisiológicos, patológicos, entomológicos

Textura

1. Firmeza, dureza, maciez

2. Fragilidade

3. Suculência

4. Granulosidade

5. Resistência, fibrosidade

“Flavor”

1. Doçura

2. Acidez

3. Adstringência

4. Amargor

5. Aroma (voláteis)

6. Sabores e odores estranhos

Valor Nutritivo

1. Carboidratos

2. Proteínas

3. Lipídios

4. Vitaminas

5. Minerais

Segurança

1. Substâncias tóxicas naturais

2. Contaminantes (resíduos, metais)

3. Micotoxina

4. Contaminação microbiológica

Fonte: Chitarra & Chitarra (2005)

A qualidade do produto não pode ser avaliada

de modo preciso apenas pelas características

externas. Produto com excelente aparência nem

sempre apresenta características intrínsecas

desejáveis. Dessa forma, os produtos precisam ser

avaliados no campo, durante o crescimento, na

maturidade para a colheita e após a colheita, para

melhor conhecimento do seu valor real e de sua

capacidade de manutenção ou deterioração da

qualidade, com base em padrões pré estabelecidos.

Essas informações são importantes não apenas para

satisfazer as exigências do consumidor, mas,

também, para possibilitar a seleção genética de novas

cultivares, seleção de práticas otimizadas de

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 116

produção e de práticas adequadas de manuseio pós-

colheita. O esforço conjunto desses setores irá

resultar em melhor qualidade, em todos os segmentos

da cadeia de comercialização.

Aparência

A aparência é o fator de qualidade mais

importante, que determina o valor de comercialização

do produto, sendo avaliada por diferentes atributos,

tais como tamanho, forma e cor.

Tamanho e Forma

O tamanho pode ser avaliado pela

circunferência, diâmetro, comprimento, largura, peso

ou volume. Os frutos são, em geral, avaliados pelos

diâmetros, porém, o tamanho é usualmente limitante

como índice de maturidade.

A forma é um dos critérios utilizados para

distinguir diferentes cultivares de uma mesma

espécie. É uma das características que pode conduzir

à rejeição do produto pelo consumidor. Frutos com

formato anormal são pouco aceitos e tem baixo

preço. Os programas de melhoramento genético para

obtenção de produtos mais resistentes ou com melhor

qualidade comestível encontram barreiras na

comercialização dos que apresentam forma não usual,

mesmo que sejam de melhor qualidade. A forma é

utilizada em casos específicos, como nas bananas,

por exemplo, que são colhidas quando apresentam

redução na angulosidade do fruto, em geral, quando

este atinge de 32 a 36 mm de diâmetronas banans do

grupo “Cavendish”. Do mesmo modo, o

preenchimento das faces adjacentes ao pedúnculo

pode ser usado como guia de maturidade para

mangas, pêssegos, nectarinas, etc.

O tamanho e a forma são importantes nas

operações de processamento, porque facilitam os

cortes, o descascamento ou a mistura para obtenção

de produtos uniformes. Podem também ser utilizados

como base para outras características de qualidade.

Em alguns casos, são preferidos os produtos de

tamanho médio, pelas características de “flavor”,

adaptação aos equipamentos ou qualidade, como

conteúdo de suco. Os produtos com características de

tamanho e peso padronizadas são mais fáceis de ser

manuseados em grandes quantidades, pois

apresentam perdas menores, produção mais rápida e

melhor qualidade.

Coloração A coloração é o atributo de qualidade mais

atrativo para o consumidor. Os produtos de cor forte

e brilhante são os preferidos, embora a cor, na

maioria dos casos, não contribua para um aumento

efetivo do valor nutritivo ou da qualidade comestível

do produto. Em muitos produtos, com o avanço da

maturação, há perda completa do verde, com

aparecimento de pigmentos amarelos, vermelhos ou

púrpuros. Embora essas transformações de coloração

sejam utilizadas como guia de maturidade, não são

inteiramente confiáveis, porque sofrem influência de

inúmeros fatores, além da maturação. A exposição à

luz solar, por exemplo, pode induzir o

desenvolvimento de cor mais rapidamente em alguns

frutos que em outros, na mesma árvore, embora eles

possam ter a mesma época de formação.

A cor também é um importante atributo de

qualidade nos produtos destinados ao processamento.

Na indústria, a intensidade de cor dos sucos é

importante, especialmente para o suco de laranja.

Algumas variedades, embora apresentem

características de sabor e aroma ideais, podem

apresentar suco fracamente colorido. Do mesmo

modo, também podem ocorrer modificações na

pigmentação do suco com a estação de colheita. Na

indústria, esse problema é resolvido pelo uso de

misturas de sucos de alta e baixa pigmentação, de

modo a se obter um produto com intensidade ou

tonalidade padronizada.

A coloração dos frutos pode ser avaliada por

métodos subjetivos ou objetivos. Para a avaliação

subjetiva são estabelecidos padrões de cor, baseados

em intensidades e nuances perceptíveis ao olho

humano. Cartas com padrões de cores são utilizadas

para a classificação visual de muitos produtos quanto

ao seu grau de maturação, como, por exemplo, para

tomate, abacaxi, banana, maçã.

Os métodos objetivos mais modernos utilizam

instrumentos que medem a quantidade e a qualidade

da luz refletida pela superfície do produto. Também

são utilizados equipamentos com células fotoelétricas

para seleção de cores. A coloração interna pode ser

avaliada por técnicas não destrutivas. Um método

moderno é o que utiliza o retardo de emissão da luz

pelo produto. É baseado no fato de a amostra

iluminada com luz incandescente rapidamente emitir

luz, quando a fonte de iluminação é removida. A

quantidade da luz emitida se correlaciona com a

quantidade de clorofila, e esta se correlaciona com a

maturidade.

“Flavor” (sabor e aroma)

O “flavor” corresponde à percepção da

combinação entre doçura, acidez e adstringência em

conjunto com a percepção do aroma, devido à

presença de compostos voláteis.

A maturação, em geral, conduz a um aumento

na doçura, devido a elevação no teor de açúcares

simples, decréscimo na acidez e na adstringência,

pela redução no teor de ácidos e fenólicos e aumento

nas características do aroma, pela emanação de

compostos voláteis. As diferenças de sabor e aroma

entre as espécies, e mesmo entre cultivares, estão

relacionadas não só com algumas substâncias

específicas predominantes, como também com a sua

proporção no produto.

O sabor dos frutos corresponde ao balanço

entre os constituintes doces e ácidos, freqüentemente

com pequenas porções de amargor ou adstringência,

devido aos taninos. Os principais compostos

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 117

químicos responsáveis pelo sabor dos frutos são

açúcares, ácidos orgânicos e compostos fenólicos.

Dentre os voláteis presentes em frutos responsáveis

pelo aroma encontram-se: ésteres, álcoois, ácidos,

aldeídos, cetonas, hidrocarbonetos, lactona, etc.

O “flavor” é um atributo de qualidade de

avaliação difícil, em decorrência do grande número

de compostos químicos que o compõem. As

informações mais precisas são obtidas pelo uso

conjunto dos métodos subjetivos (análise sensorial) e

objetivos.

A avaliação de compostos químicos

responsáveis pelo sabor é normalmente realizada por

métodos objetivos comuns (físicos, físico-químicos

ou bioquímicos). Contudo, no caso dos componentes

do aroma, o método objetivo mais utilizado é a

cromatografia a gás para separação dos componentes,

que podem ser identificados por espectrometria

(infravermelho, massas e/ou ressonância magnética

nuclear).

Textura

A textura é um dos mais importantes atributos

de qualidade. Está relacionada com o “flavor”,

porque a liberação de compostos presentes no

produto que são perceptíveis pelo paladar, são

também relacionados com a estrutura do tecido.

As sensações que caracterizam a textura dos

frutos são múltiplas, na sua maioria induzidas por

características mecânicas, embora também possam

ser induzidas por características geométricas ou

químicas. As principais sensações são de dureza,

maciez, fibrosidade, suculência, granulosidade,

qualidade farinácea, resistência e elasticidade.

As substâncias pécticas são os principais

componentes químicos dos tecidos, e são

responsáveis pelas mudanças de textura dos frutos.

A decomposição das moléculas poliméricas,

como protopectinas, celuloses, hemiceluloses e

amido, amacia as paredes celulares, pois diminui a

força coesiva que mantém as células unidas. A figura

9.8 apresenta a degradação de componentes da parede

celular da goiaba (celulose, hemicelulose e pectina

total) e o aumento no teor de pectina solúvel com a

sua maturação.

Os frutos destinados ao processamento, ao

contrário dos utilizados para o consumo ín natura,

devem ser firmes o suficiente para suportar os

tratamentos térmicos. Os pêssegos de caroço preso

(clingstone) são preferidos para a industrialização

(fabricação de compotas), porque, além da coloração

amarela da polpa, também apresentam pequeno

percentual de solubilização das pectinas. As

cultivares de caroço solto (freestone) têm elevado

percentual de solubilização, o que caracteriza a

maciez desses frutos preferidos para o consumo in

natura.

A textura pode ser avaliada por métodos

subjetivos, através da compressão do produto com o

polegar ou por um painel de análise sensorial. Os

métodos objetivos correspondem a uma expressão

numérico das características da firmeza, efetuada

com o auxílio de instrumentos, entre os quais

penetrômetros, pressurômetros e testadores da

compressão, cisalhamento e tensão. A escolha do

método depende inicialmente do produto, e, em

particular, da propriedade de textura mais importante.

Os métodos não destrutivos utilizam técnicas de

vibração com auxílio de instrumentos especiais. Faz-

se a aplicação de vibrações forçadas no produto

medindo-se a ressonância mecânica dentro dele, e

esta ressonância se correlaciona com a elasticidade

do tecido ou com outras propriedades da textura.

Figura 9.8 – Degradação de componentes das

paredes celulares em goiaba, durante a maturação.

Esteves et al. (1984).

Valor nutritivo

O valor nutritivo é o atributo de qualidade

menos considerado na cadeia de comercialização de

frutos. Os programas de melhoramento genético para

melhoria do valor nutritivo são de pouca valia para os

produtores ou consumidores, porque não afetam nem

a aparência e nem a qualidade comestível, ou seja,

sabor, aroma e/ou textura.

Os componentes mais abundantes em frutos

são água e carboidratos. Do ponto de vista

nutricional, são considerados não só as vitaminas e os

minerais, mas também os açúcares solúveis e

0

1

2

3

4

5

6

7

7 4 7 9 8 6 9 3 1 0 0 1 0 9 1 1 6 1 2 1

Ce

lulo

se

e h

em

ice

lulo

se

(%

)

H e m ic e lu lo s e

C e lu lo s e

A

2 0 0

2 5 0

3 0 0

3 5 0

4 0 0

4 5 0

5 0 0

5 5 0

6 0 0

7 4 7 9 8 6 9 3 1 0 0 1 0 9 1 1 6 1 2 1

D ia s a p ó s flo ra d a

Pe

cti

na

to

tal

(mg

/10

0g

)

Pe c tin a to ta l

Pe c t in a s o lú v e l B

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 118

polissacarídeos (amido em alguns frutos) como fontes

energéticas. Outros polissacarídeos (celuloses,

hemicelulose e lignina) têm importância, por

constituírem as fibras dietárias. Os frutos não são

boas fontes nem de lipídeos, nem de proteínas.

Os dados sobre a composição química de

frutos são bastante variáveis, em decorrência dos

numerosos fatores de influência, tais como:

diferenças entre cultivares, grau de maturidade do

produto, estação de colheita, local e clima.

Perdas substanciais de nutrientes, especialmente de

vitamina C, podem ocorrer com o armazenamento,

contribuindo também para a variação na composição

do fruto.

Segurança

A segurança é o atributo de qualidade mais

desejável nos alimentos, os quais devem ser livres de

toda e qualquer substância química tóxica natural ou

contaminante.

O controle de qualidade, tanto dos produtos

destinados ao consumo direto como daqueles para o

processamento, tem como objetivo a obtenção de

produtos com qualidade padronizada e constante,

visando, principalmente, as vantagens econômicas

básicas, ou seja, minimização de custos e

maximização de rendimento pela prevenção de

defeitos, desde que sejam observados critérios não só

da qualidade, como também da segurança de uso

desses produtos. Para tal, o controle deve abranger

todo o ciclo de produção, incluindo produto, material

de embalagem, condições de armazenamento e/ou

processamento e comercialização.

Os padrões de segurança são estabelecidos com base

na preservação da saúde pública, por leis

internacionais, federais ou estaduais, visando a

prevenção do desenvolvimento de microorganismos

patogênicos ou prejudiciais e a proteção contra a

presença de substâncias tóxicas naturais ou

contaminantes.

Os contaminantes tóxicos naturais podem ser

decorrentes do ataque de microorganismos, levando à

formação de micotoxinas. O controle microbiológico

tem por objetivo assegurar não só a ausência de

microorganismos patogênicos, como também o nível

de contaminação com outros microorganismos ou

seus metabólicos que possam afetar a qualidade e a

segurança do produto.

Os contaminantes tóxicos sintéticos dizem

respeito aos contaminantes do meio ambiente ou

poluentes, e aos resíduos de defensivos agrícolas. O

uso indiscriminado e inadequado dos defensivos

agrícolas tem acarretado problemas sérios de

contaminação de alimentos pelos seus resíduos,

notadamente de compostos organoclorados, que

apresentam elevada toxícidade e efeito cumulativo no

organismo. Existem vários métodos analíticos

disponíveis para a quantificação dessas substâncias,

mesmo em concentrações diminutas, através do uso

de cromatografias em camada delgada, a gás ou

liquida de alta pressão.

Existe um grande arsenal de informações com

relação às transformações morfológicas, fisiológicas

e bioquímicas de frutos, durante o desenvolvimento,

maturação e senescência. Porém, apenas uma

pequena parcela dessas informações tem sido

utilizada para o estabelecimento de padrões de

maturidade. Em alguns casos, é necessário o

estabelecimento de índices para cultivares

especificas, áreas de produção e, até mesmo, estações

do ano.

Avaliação não destrutiva da qualidade

Os métodos objetivos utilizados para a

avaliação da qualidade são destrutivos e lentos.

Novas técnicas não destrutivas estão sendo

desenvolvidas para serem utilizadas na classificação

dos produtos, ou para acompanhamento das

transformações que ocorrem durante o

armazenamento. São técnicas simples e rápidas, que

podem ser adaptadas à inspeção automática das

amostras. São baseadas nas propriedades físicas do

produto, mas podem, também, avaliar alguns

componentes químicos no produto intacto com os

açúcares específicos, por meio de refletância ou

transmitância. Dentre esses métodos, alguns já são

utilizados, enquanto que outros encontram-se em fase

de pesquisa, sendo os mais comuns: impulso acústico

ou freqüência de ressonância do produto (som) ultra-

som, raio X, retardo na emissão de luz, refletância e

transmitância de radiações, luz visível e

infravermelha.

9.7 Sistema de armazenamento

O armazenamento é uma das fases mais

importantes para manter a qualidade dos frutos,

principalmente para comercialização de frutos para

mesa.

Métodos de armazenamento

O sistema de armazenamento adotado depende

da disponibilidade de recursos econômicos ou

tecnológicos e do intervalo entre a colheita e a

comercialização. As operações de armazenamento

podem ser feitas de modo natural ou artificial, porém,

com objetivos comuns, ou seja, redução da atividade

biológica, do crescimento de microorganismos e da

perda d’água, que são os principais fatores inerentes a

uma boa qualidade do produto (Botrel, 1994).

Método natural

O método natural consiste em preservar o

fruto por um período maior na planta ou fora dela.

Quando o fruto é deixado na planta, espera-se o ponto

em que ele se torne totalmente maduro, dessa forma

retarda-se a colheita. Mas, este método pode causar o

fenômeno alternância de florada, além de reduzir o

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 119

volume de suco e a qualidade de suco. Portanto, para

que se utilize este método, há necessidade de um bom

conhecimento sobre o comportamento da fruteira ou

mesmo da cultivar, bem como dos inconvenientes

que esta operação poderá acarretar, sobretudo quando

se pretende alongar o período de conservação.

Armazenar de forma natural os frutos após a colheita,

é mais apropriado para frutos climatéricos. Porém, a

vida de armazenamento de diferentes tipos de frutos

varia inversamente com a taxa de respiração.

No armazenamento natural, um fator

importante a se considerar é a seleção de frutos

sadios, livres de injúrias mecânicas e danos causados

por ataque de microorganismos ou pragas; além deste

fator, a estrutura do local onde se pretende armazenar

deve ser bem ventilada, possuir proteção contra sol e

chuva e apresentar temperatura ambiente o mais

baixa possível. Além dos requisitos citados, o local

de armazenamento deve permitir a circulação de

pessoas, a fim de inspecionar periodicamente os

produtos e detectar qualquer alteração que possa

comprometer a sua qualidade.

Método artificial

O armazenamento artificial é realizado através

de operações que utilizam processos tecnológicos

mais avançados, tais como a refrigeração e o controle

atmosférico.

Refrigeração

A refrigeração, como prática de

armazenamento, tem sido bastante difundida e

aplicada, e permite prolongar o período de

comercialização dos frutos. Nos frutos não

climatéricos, esta prática simplesmente acarreta uma

diminuição na taxa de deterioração, enquanto que nos

climatóricos, retarda-se também o processo de

armazenamento. O abaixamento da temperatura serve

também como complemento para outros métodos de

conservação de frutos, tais como o controle ou a

modificação da atmosfera, a irradiação e o uso de

produtos químicos, que, se utilizados isoladamente,

muitas vezes não surtem efeitos satisfatórios.

A temperatura ótima de refrigeração é um dos

fatores mais importantes na redução de perdas no

segmento da pós-colheita. Após o pré-resfriamento,

os frutos são colocados nas câmaras de

armazenamento, onde serão submetidos às condições

adequadas inerentes a cada tipo de fruto. Para cada

cultivar em um estádio particular de maturação,

existe uma temperatura mínima de segurança (TMS),

abaixo da qual ocorrerão distúrbios fisiológicos nos

frutos que, por sua vez, resultados, predispondo os

frutos a infecções microbianas. Geralmente, as frutas

originárias dos trópicos e sub-trópicos são mais

susceptíveis, ou seja, apresentam sintomas

característicos de chilling a temperaturas maiores.

Para a maioria dos frutos tropicais, a TMS está

situada entre 5 e 14,4ºC. No quadro 9.6 encontra-se

alguma recomendações de temperatura e umidade

relativa para alguns frutos.

O controle da umidade relativa (UR) durante o

armazenamento é de grande importância, uma vez

que tanto a baixa quanto a alta UR têm sido

relacionadas com as perdas pós-colheita. Por esta

razão, há necessidade de um controle, associado à

temperatura de armazenamento (Quadro 9.5).

Quadro 9.6 – Condições de temperatura e umidade

relativa (UR) recomendadas para o armazenamento

de alguns frutos. Fruto Temperatura

(ºC) UR (%) Tempo de

Conservação

Abacate 5 a 10 85 - 90 2 – 8 semanas

Abacaxi 7 a 12 85 - 90 2 – 4 semanas

Banana 12 a 13 85 - 90 3 – 4 semanas

Caju 5 85 - 90 10 dias

Coco 2,5 80 - 90 1 – 2 meses

Goiaba 7 a 10 85 - 90 10 dias

Laranja 0 a 9 85 - 90 6 – 12 semanas

Limão 9 a 10 85 - 90 8 - 12 semanas

Maçã -1 a 3 90 1 – 12 meses

Mamão 7 85 - 90 1 – 3 semanas

Manga 12,8 a 13 85 -90 2 – 3 semanas

Maracujá 7 a 10 85- 90 3 – 5 semanas

Melancia 10 a 15 90 2 – 3 semanas

Uva -1 a -0,5 90 - 95

Fonte: Bleinroth et al. (1992); Hardenburg et al.

(1986); Kader et al. (1985); Menezes, (1994).

A sensibilidade dos distúrbios causados pelo

frio está estreitamente ligada à composição química

da fruta. Condições climáticas, estádios de

maturação, tamanho do fruto e diferenças varietais

exercem influência acentuada na composição química

da fruta, com conseqüente influência no grau de

desordens causadas por baixas temperaturas (Quadro

9.7).

Quadro 9.7 – Sintomas da injúria causada pelo frio

em alguns frios. Produto Sintomas

Abacate Escurecimento da polpa e tecido vascular;

amolecimento; pequenas depressões na casca; desenvolvimento de sabor e odor desagradável.

Abacaxi

Escurecimento interno iniciando-se próximo ao

cilindro central; secamento das folhas da casca.

Banana Escurecimento da polpa e casca.

Goiaba Escurecimento da polpa; aumento da incidência de

microorganismos.

Limão Depressões mo flavedo; membranas manchadas;

pústulas vermelhas.

Laranja Depressões na casca; coloração escura.

Mamão Depressões na casca; amadurecimento anormal;

áreas aquosas na polpa; aumento da incidência de microorgnismos.

Manga Escurecimento acinzentado da casca; maturação

desuniforme.

Maracujá Escurecimento da casca; aumento da incidência de microorganismos.

Fonte: Bleinroth et al. (1992) e Wills et al. (1982) citados por

Botrel (1994).

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 120

Circulação de ar

A circulação de ar é um fator importante a se

considerar no armazenamento. Apresenta-se com as

funções de homogeneizar a distribuição do frio do

evaporador para o seu interior. Quando há

insuficiência ou falta de circulação de ar, a umidade

acumula-se no teto da câmara, por ser mais leve que

o ar, e conduz à formação de áreas de calor. Para

manter a temperatura desejável num armazenamento

de produtos frutícolas, é necessário manter um fluxo

de ar de 15 a 23 m3/min.

Atmosfera controlada e modificada

Embora a refrigeração se apresente como uma

prática eficiente para a redução das perdas pós-

colheita, a suplementação com a atmosfera

modificada (AM) ou atmosfera controlada (AC)

poderá trazer melhores benefícios, quando usada

adequadamente.

A prática da AC e AM objetiva prolongar o

tempo de armazenamento dos frutos através do

controle dos gases durante o armazenamento. Ela

pode também ser aplicada durante o transporte de

frutos destinados ao consumo in natura ou mesmo

visando ao processamento. AC e AM consistem na

remoção ou adição de gases, a qual resulta numa

composição diferente daquela do ar (78,08% de N2;

20,95% de O2 e 0,03% de CO2). Usualmente estas

atmosferas envolvem redução de O2 e elevação de

CO2.

A diferença entre os dois métodos de AC e

AM consiste apenas no grau de controle da

concentração de gases, com aferição na AC. A AC

implica câmaras herméticas a gases e adição ou

remoção filmes poliolefínicos funcionam, no Brasil,

como uma película protetora para as frutas. Feitos à

base de polietileno, tais filmes oferecem a vantagem

de retornar à posição inicial, após passar por qualquer

tipo de deformação.

Em certos casos, há necessidade de perfuração

da embalagem ou uma selagem parcial para se

obterem condições desejáveis de gases no seu

interior, evitando-se, com isso, o aparecimento nos

frutos de sabores estranhos, injúrias fisiológicas e

infecções causadas por microorganismos. Sacos de

polietileno selados têm sido utilizados para prolongar

o período climatérico e, portanto, o período de

conservação de pêssegos. A redução do

escurecimento da polpa em pêssegos pela utilização

da atmosfera modificada também foi confirmada por

alguns trabalhos de pesquisa. A utilização da

embalagem para limões Taiti’ em filme de PVC

selado em associação à refrigeração a 8 ºC

proporcionou a conservação do produto por até 12

semanas. O caju, em condições ambientais, conserva-

se por apenas 24 horas, enquanto que em atmosfera

modificada (embalagem em PVC) sob refrigeração a

50ºC e UR de 85-90%, conseguiu-se retardar o

processo de senescência do fruto e, assim, prolongar

o armazenamento por 10 dias.

Vários mecanismos estão envolvidos no

controle de perdas utilizando-se AC. Os seguintes

exemplos do controle de podridões com AC ilustram

o valor desta técnica. A antracnose e chilling de

abacates são reduzidos em 2% de O2 e 10% de CO2.

Podridões no pedúnculo de pêra são reduzidas

quando os frutos são armazenados em atmosfera de

1% de O2 mais 99% de N2. Geralmente o crescimento

de Botrytis, Monilia e Penicillium é reduzido quando

a concentração de O2 é menor que 2%. As perdas

ocasionadas por Rhizopus em morangos decrescem

linearmente quando a concentração de O2 diminui de

21 para 0%. O armazenamento em 100% de N2 por

seis a dez dias controlou perdas em bananas,

pêssegos e morangos, porém ocorreram perdas de

flavor. O pêssego chega a suportar baixos teores de

O2, ou seja, até 1%, porém, CO2 não deve elevar-se

acima de 6%, porque isso pode causar escurecimento

da polpa, próximo ao caroço.

Resultados de pesquisas como outros frutos

tropicais, como a manga, que apresenta uma certa

precariedade, quando se utiliza o sistema normal de

refrigeração, têm sido promissores com a utilização

da AC. Devido ao seu metabolismo, a manga oferece

a possibilidade de aumentar o teor de CO2 na câmara

pela absorção de O2, havendo então necessidade de se

controlarem as proporções desses gases. Teor de 1%

de O2 na câmara causa a descoloração da casca e a

perda de aroma e sabor da manga. O aumento de CO2

na atmosfera de armazenamento causa uma

descarboxilação fermentativa, conduzindo ao

acúmulo de alcoóis e aldeídos. Trabalhos realizados

demonstraram que a manga, quando armazenada em

temperatura de l2,8 ºC com 5% de O2 e 5% de CO2,

mantém sua qualidade durante 20 dias e, quando

retirada da câmara e colocada à temperatura de 21ºC,

apresenta uma boa textura e coloração. Recomenda-

se, ainda, para uma maior proteção da fruta, que ela

seja embalada em sacos de polietileno ou que se

utilizem ceras como cobertura superficial, a fim de

reduzir a perda de umidade e retardar o enrugamento,

bem como, no segundo caso, propiciar uma aparência

lustrosa, o que é valorizado pelo consumidor.

Entretanto a utilização da AC deve ser avaliada, não

só do ponto de vista econômico, mas também técnico,

visto que não apresenta apenas vantagens, mas

também alguns inconvenientes. Os efeitos

indesejáveis podem ser provenientes da deficiência

de O2 e excesso de CO2, do aumento na

susceptibilidade a doenças e, muitas vezes, do

desenvolvimento de flavor desagradável. Podridões

em limões e grapefruit foram aumentados quando os

frutos foram armazenados a 3% de O2 e 1,5% de

CO2. Relatos citam que os fungos originários do solo,

tais como Fusarium, são menos inibidos que os

fungos de superfície ou foliares, tais como Penicillim

e Cladosporium, quando se aumenta a concentração

de CO2. Acima de 5% de CO2 , houve aumento de

podridão por Nectria em maçãs armazenadas. Baixos

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 121

níveis de O2 e alto CO2 controlam podridões de

Botrytis de morango e 0,25% de O2 e 30% de CO2

produzem perda de flavor.

Partindo-se do exposto, verifica-se que o

potencial de benefícios ou prejuízos da modificação

da atmosfera é dependente do produto, variedade,

idade fisiológica, composição atmosférica,

temperatura e duração do armazenamento. Importa

dizer que algumas das recomendações citadas

poderão ser alteradas com o advento de novas

pesquisas.

9.8 Padronização e classificação

Uma vez colhido, o produto deve ser colocado

em embalagens apropriadas, devendo-se evitar

mistura de produtos doentes com produtos sadios.

Produtos com graus diferentes de maturação e

tamanho também devem ser separados. Devido ao

uso de cultivares que não amadurecem

uniformemente, a colheita seletiva é comumente

praticada, porém, dificilmente é feita uma

classificação do produto, seja por tamanho, seja pela

qualidade. Uma seleção por maturidade, tamanho,

forma, bem como a remoção dos produtos injuriados,

devem ser feitos com rigor. Os produtos para

consumo in natura no mercado interno vinham sendo

classificados com base nos usos e costumes do

comércio, devido à inexistência ou desconhecimento

de padrões, atualmente, alguns frutos já tem seu

padrão de qualidades estabelecidos pelo governo

federal.

Padronização

As unidades de frutos pertencentes a uma

mesma cultivar apresentam características em comum

(peso, forma, tamanho, cor, textura, etc.), mas podem

ocorrer variações decorrentes de fatores ambientais

ou culturais. O estabelecimento do padrão de

qualidade é feito com base nas características mais

comuns, que proporcionam melhor aparência e

melhor qualidade. Os produtos pertencentes à mesma

espécie e/ou cultivar são comparados ao padrão, para

avaliação da semelhança ou diferença que

apresentam. Portanto, o padrão é uma referência de

qualidade, estabelecido com base em observações das

características normais do produto. Obviamente, a

padronização deve abranger, além do produto, a sua

embalagem, terminologia, apresentação,

identificação, entre outros aspectos.

Os padrões de qualidade são estabelecidos

para que o comprador e o vendedor tenham

especificações legais da qualidade do produto

comercializado. As especificações dizem respeito ao

grau de maturação, cor, forma, tamanho, peso,

condições de higiene, ausência de doenças ou danos.

Os padrões e normas de qualidade são elaborados por

peritos, através de (Órgãos governamentais, e

impostos, através do serviço de inspeção.

Os padrões internacionais são aqueles

estabelecidos de comum acordo entre países, por

meio da Organização para a Cooperação Econômica

e Desenvolvimento (OECD). Os produtos destinados

à exportação devem ter qualidade excelente, devido

ao longo período de sobrevivência necessário antes

do consumo. No Brasil, as normas e padrões para

exportação de produtos de origem vegetal foram

elaborados pelo Departamento Nacional de Serviço

da Comercialização, Divisão de Inspeção,

Padronização e Classificação do Ministério da

Agricultura.

Os padrões nacionais são estabelecidos para

frutos frescos, destinados ao comércio interno. Esses

padrões são de grande valor para a redução de

fraudes ou enganos e para incentivar a obtenção de

produtos com qualidade elevada e uniforme. Para

tanto, há necessidade de treinamento de equipes para

inspeção, bem como de elaboração de programas

efetivos de extensão. Dessa forma, os produtores e

comerciantes podem ter informações adequadas sobre

os padrões estabelecidos e sua importância para uma

melhor comercialização.

Classificação

Um dos principais fatores de influência numa

boa comercialização é a classificação dos produtos, a

qual, por sua vez, depende de um bom controle de

qualidade.

Classificar é separar o produto em diferentes

categorias, de acordo com suas peculiaridades,

comparando-o aos padrões preestabelecidos. O

julgamento obtido dessa comparação permite o

enquadramento do produto em três categorias:

Grupos - corresponde à separação do produto de

acordo com as características das cultivares ou

varietais;

Classe - separação pelas características físicas, como

peso, forma, tamanho e cor;

Tipos ou categoria - separação por atributos

referentes à qualidade.

A uniformidade de tamanho e forma é uma

característica desejável, porque minimiza as injúrias

durante o manuseio. A retenção de uma boa textura

da porção comestível dos frutos, durante o manuseio

e armazenamento, é também um fator importante na

manutenção da qualidade. Classificação e

padronização são importantes fatores de referência no

mercado mundial. Na Figura 9.8, encontra-se

exemplificada a classificação estabelecida para

bananas.

Os defeitos existentes nos frutos podem ser

decorrentes de hereditariedade ou condições

ambientais desfavoráveis. Os insetos e

microorganismos, bem como as injúrias fisiológicas,

são as principais causas dos efeitos encontrados em

produtos pôs-colheita. Do mesmo modo, defeitos por

manuseio inadequado têm como conseqüência

amassamentos ou outros tipos de injúrias, o que

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 122

conduz a diferentes sintomas, como descoloração,

sabores estranhos e deteriorações. A presença de

defeito reduz a classificação dos produtos, mesmo

que eles apresentem outros atributos de qualidade

elevada.

Figura 9.8 - Classificação de bananas pelas

características varietais, físicas e de qualidade.

A presença de defeitos externos reduz

sensivelmente o potencial de comercialização,

embora, em alguns casos, não haja redução nem do

valor nutritivo nem da qualidade comestível. Os

defeitos internos também devem ser considerados na

avaliação da qualidade.

A condição do fruto também deve ser avaliada

e diz respeito ao grau de frescor, grau de

amadurecimento ou estado de senescência. A perda

excessiva de umidade deve ser considerada, porque

conduz ao enrugamento ou murchamento,

depreciando a aparência. Os critérios de julgamento

da aparência diferem entre países, ou, mesmo, entre

regiões num mesmo país. Contudo, é sempre um dos

critérios de qualidade mais importantes.

Na avaliação da qualidade, o objetivo não é

verificar se apenas uma unidade é imperfeita, mas

determinar se um defeito é suficientemente grande,

para impedir o nível de aceitabilidade do produto. As

avaliações ainda são realizadas por meios visuais,

embora, em alguns casos, instrumentos possam ser

utilizados. Técnicas não destrutivas utilizando a

transmitância a luz podem ser usadas para

determinação de defeitos internos. Desordens

fisiológicas, como o pingo de mel (“Water core”) em

maçãs, ou escaldadura, em cereja, podem ser

detectadas com precisão.

Vantagens da padronização e classificação

Os padrões para classificação do produto são

desenvolvidos visando a identificação dos graus de

qualidade dos vários produtos, e auxiliam no

estabelecimento do seu valor e maturidade de uso.

São de grande importância na comercialização,

devido aos seguintes fatores:

Melhoria na apresentação do produto, pela

uniformidade de características físicas e limitada

percentagem de defeitos. A melhor aparência assim

obtida é um elemento de estímulo para a ampliação

do mercado;

Simplicidade e facilidade nas transações

comerciais, pela descrição dos tipos ou pelo simples

exame das amostras;

Aumento na eficiência das etapas de

comercialização. Produtos com embalagens e

especificações padronizadas têm manuseio

facilitado para transporte, empilhamento,

armazenamento, conferência, etc.; facilidade para

avaliação do diferencial de preços em função da

qualidade;

Maior opção ao comprador, que poderá escolher os

grupos, tipos e classes de produtos de acordo com

suas conveniências;

Possibilidade de uso de terminologia padronizada,

com interpretação semelhante pelo produtor,

intermediário e consumidor;

Redução de perdas, pela agilidade no manuseio e

comercialização, o que favorece a manutenção da

qualidade;

Garantia de qualidade do produto, que deve

corresponder tão exatamente quanto possível as

características sob as quais é oferecido.

9.9 REFERÊNCIAS

ARAÚJO NETO, S. E. de. PRAÇA, E. F.;

CARVALHO, E. F.; ALVES, R. E.; MENEZES, J.

B.; MORAIS, E. A. de. Desenvolvimento do fruto do

sapotizeiro (Manilkara achras (Mill.) Fosberg).

Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal,

v.23, n.1, p25-29, 2001.

ARAÚJO NETO, S. E. de; CARVALHO, E. F. de;

SOUZA, J. M. L. de; FERREIRA, R. L. F.

Determinação do ponto de colheita e índices de

maturação de frutos de gravioleira cv. Rio Branco. In:

CONGRESSO DE PÓS-GRADUAÇÃO DA UFLA,

11, 2002, Lavras. Anais...Lavras: APG/UFLA, 2002.

CD’rom.

AWAD, M. Fisiologia pós-colheita de frutos. São

Paulo: Nobel, 1993. 114 p.

BIALE, J. B.; YOUNG, R. E. Bioquímica de la

maturation and senescence in fruits. Endeavour,

Oxiford, v.211, n.(83/84), p.164-174, oct. 1962.

CLASSIFICAÇÃO

GRUPOS CLASSES CATEGORIAS

Características

varietais

Aspectos físicos Qualidade

I – Cavendish

II - Prata Cavendish

Comprimento

12 a 16 cm

Diâmetro

27 a 39 mm

Prata

Comprimento

12 a 16 cm

Diâmetro

29 a 38 mm

SUB-CLASSES

Dedo, Buquê e Penca

Extra

Categoria I

Categoria II

Categoria III

CATEGORIAS

Exportação

A

B

C

Colheita e pós-colheita de frutos

Sebastião Elviro de Araújo Neto 123

BOTREL, N. Sistema de Armazenamento. In:

EPAMIG. Qualidade pós-colheita de frutos – II.

Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.17, n.180,

p.9-13, 1994.

CARVALHO, V.D.; CLEMENTE, P. R. Qualidade,

colheita, industrialização e consumo do abacaxi.

Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.7, n.74,

p.37-42, fev. 1981.

CHITARRA, M. I. F.; CHITARRA, A. B. Colheita e

qualidade pós-colheita de frutos. Informe

Agropecuário, Belo Horizonte, v.17, n.179, p.8-18,

1994.

CHITARRA, M. I. F.; CHITARRA, A. B. Pós-

colheita de frutos e hortaliças: fisiologia e

manuseio. Lavras:ESAL/FAEPE, 1990. 320p.

CHITARRA, M. I. F.; CHITARRA, A. B. Pós-

colheita de frutos e hortaliças: fisiologia e

manuseio. 2. ed. Lavras: UFLA, 2005. 785p.

ESTEVES, M. T. da C. et al. Caracterização dos

frutos de seis cultivares de goiabeiras (Psidium

guajava, L.) na maturação. I. Determinação física e

químicas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 7, Florianópolis, 1984. Anais...

Sociedade Brasileira de Fruticultura, 1984. v.2,

p.477-489.

GORTNER, W. A.; DULL, G.G.; KRAUSS, B.H.

Fruit development, maturation, ripening and

senescence: a biochemical basis for horticultural

terminology. HortScience, Alexandria, v.2 n.4,

p.141-144, aug. 1967.

MENEZES, J. B. Pós-colheita do pedúnculo do caju.

EPAMIG. Qualidade pós-colheita de frutos – II.

Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.17, n.180,

p.14-18, 1994.

MITRA, S. (Ed.) Postharvest physiology and

storage of tropical and subtropical fruits. New

York: CAB International, Chapter, 19, p. 375-386,

1997.

RYALL, A. L.; LIPTON, W. J. Handling,

transpotation and storage of fruits and vegetables.

2 ed. Westport: AVI, 1979. v.1.

VIDAL, W. N.; VIDAL, M. R. R. Botânica –

organografia; quadros sinóticos ilustrado de

fanerógamos. 4. ed. Viçosa:UFV, 2000. 124p.

VILELA. Perdas de hortaliças. Horticultura

brasileira, v.21, n.2, 2003.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 124

10 CULTURA DO AÇAIZEIRO

A palavra açaí é do tupi – yá-çai e significa

fruto que chora, ressuma ou deita água,

provavelmente relacionado ao fato de que durante o

processo de extração da polpa, esta flui lentamente,

em forma de grandes gotas, tanto quando extraída

manualmente como quando extraída em

despolpadoras (Oliveria et al., 2000).

São várias as espécies de açaizeiro que ocorrem

principalmente na Amazônia Real. Na Amazônia

brasileira, são encontrados seis espécies e variedades:

E. oleracea, E. precatória, E. precatória var.

longevaginata, E. catinga var. catinga, E. catinga

var. roraimae e E. longevibracteata (Oliveria et al.,

2000).

Na Mata Atlântica, a juçara (Euterpe edulis)

ou palmiteiro constitui-se de uma importante espécie

de euterpe para aquele ecossistema, pela importância

da extração do palmito, fato que quase levou sua

extinção. Porém, o suco também constitui-se em

potencial de bebida.

Dentre essas espécies, a E. oleracea, é a mais

importante, pelo caráter de perfilhamento, grande

densidade natural, produção de frutos e

principalmente pela qualidade da bebida. Embora em

regiões com precipitação pluviométrica inferior

aquela encontrada em sua região de origem

(Amazônia Oriental), as plantas apresentam baixo

vigor e baixa produtividade, como ocorre na na

região Leste do Estado do Acre, causando inclusive a

morte natural das plantas em anos de forte défict

hídrico durante os meses mais secos (julho a

setembro).

10.1. Produção brasileira de açaí

A produção brasileira teve um pequeno

acréscimo no início da década de 1990, alcançando o

valor máximo de 124.559 toneladas em 1992,

seguido de decréscimo para valores inferiores a dos

cinco primeiros anos da década de 2000. O estado do

Pará é o principal produtor, respondendo sozinho por

92,4% da produção nacional, seguido pelo Maranhão,

Amapá, Amazônas e Acre (Quadro 10.1). Apesar do

grande território do Amazonas, sua produção é

pequena, dentre os fatores que afetam a produção

estar o isolamento terrestre com o restante do Brasil e

a baixa densidade da espécie Euterpe oleracea, mais

abundante na região oriental da Amazônia.

Quadro 10.1 Produção brasileira de açaí e principais estados produtores – 1990-1997.

Estado 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 2005

(tonelada)

PA 106.083 108.934 117.488 78.425 91.851 102.574 103.698 92.021 92.088

MA 3.986 3.804 3.804 3.473 3.311 2.922 5.057 5.189 9.380

AP 3.851 3.240 2.812 2.848 2.860 2.565 1.838 1.938 1.284

AM - - - 10 58 64 619 769 1.140

AC 318 351 360 362 372 381 156 159 907

RO 66 80 92 168 405 416 64 - 65

TO - - - - - - 2 1 3

PB - - - - - - 1 - -

MG - - - - - - 4 125 -

GO - - - - - - - 12 -

Brasil 114.304 116.559 124.555 85.286 98.857 108.922 111.438 106.214 104.874

IBGE, (1999). IBGE, (2007).

A produção de açaí somou, em 2005,

104.874 t, 87,8% das quais foram coletadas no Pará

(92.088 t). Os dez maiores municípios produtores são

paraenses e concentraram 66,5% do total nacional. O

principal produtor foi o município paraense de

Limoeiro do Ajuru (17.520 t) (IBGE, 2007- Acesso

10/01/2007).

10.2 Produtividade

A produtividade do açaizeiro por planta ou por

hectare é muito polêmica se comparam os autores

entre eles, mas ela é, em todos os casos, elevada.

Segundo Calzavara (1972), cada estipe produz

anualmente de 5 a 8 cachos, em função da fertilidade

e da umidade do solo, mas também da intensidade

luminosa (a produção sendo menor na sombra). Os

primeiros cachos são os mais pesados, com seu peso

diminuindo regularmente ao decorrer da safra. A

produtividade média é de 6 cacho por estipe,

representando no total um peso médio em frutos de

15 kg. Além disso, sendo o número médio de estipes

de 3.125 por ha, a produção total é estimada em

46.875 kg de frutos/ha.

Segundo o IEA (1993), cada estipe produz em

média 6 cachos de um peso médio de 4 kg de frutos.

Uma plantação de açaizeiros nativos (média de 200

touceiras/ha, 3 estipes adultos por touceira) permite a

colheita anual de 14.400 kg de frutos/ha. Uma

plantação intensiva (625 touceiras/ha, 4 estipes

adultos) pode atingir uma produção anual de 60.000

kg de frutos/ha.

Oliveira (1995) obteve uma média de

produção de apenas 10,63 kg/touceira (num intervalo

de 0,1 kg a 50,9 kg) considerando 20 tipos de

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 125

açaizeiro diferentes provenientes de 3 municípios

distintos. O autor constatou que o desvio padrão entre

touceiras de uma mesma família é muito elevado.

Uma densidade comumente encontrada no

açaizal dos agricultores do município de Abaetetuba

é de cerca de 1.200 estipes adultos/ha, o que está

longe dos 3.125 estipes considerados por Calzavara e

dos 2.500 do IEA.

Os produtores geralmente não controlam os

dados de produtividade de seus açaizeiro, vendem

uma parte e consomem outra. Mas, confirmam a

divergencia entre os autores mencionados e que os

cachos são maiores em pleno período de produção do

que no fim desse período. Outros relacionam a

produtividade esteja correlacionada ao grau de

umidade do solo.

10.3 Origem, Dispersão e Botânica

Botanicamente, classifica-se como

pertencente à divisão Magnoliophyta (=

Angiospermae), classe Liliopsida Principes), família

Arecaeae (= Palmae) estando inserido no gênero

Euterpe.

10.3.1 Distribuição geográfica das palmeiras

A maior ocorrência de gênero e espécies de

palmeiras verifica-se nas regiões tropicais da Ásia,

Indonésia, Ilhas do Pacífico e Américas. O continente

africano é pobre em palmeiras, e é notável o fato de

Madagascar, ao lado do continente africano, contar

com um grande número de espécies (Lorenzi, 1996).

No Brasil, a chamada Zona dos corais abrange

extensas regiões, do Nordeste em direção ao centro,

caracteriza-se pelos babaçuais, carnaubais e

buritisais, e em direção ao Oeste os carnaubasais. As

demais regiões do país são uma verdadeira colcha de

retalho, salpicadas em resumo, na Amazônia pelos

buritis, tucumãs, inajás, marajás, jarinas e açaís: no

centro pelos jerivás, macaúbas, guarirobas, bacuris,

do centro para o sul pelos lucuris, buritis, certos

trechos da Serra do Mar pelos indaiás do litoral,

pindobas, partis, guaricangas, icás, brejaúvas e à

beira-mar pelos guritis, tucuns e em cerrados do

centro, os indaiás do campo (Lorenzi, 1996).

No interior de São Paulo, duas formações

isoladas e densas de uma espécie de Attalea a que

chamam de babaçu (Lorenzi, 1996).

É assim plenamente justificada a denominação

pindorama aplicada pelos indígenas para designar o

território ocupado no país pelas palmeiras (Lorenzi,

1996).

10.3.2 Distribuição do gênero Euterpe

O gênero Euterpe apresenta cerca de 49

espécies na América central e do Sul, muito embora,

uma mesma espécie receba mais de uma

denominação científica. Possuem distribuição

significativa em grandes concentrações na Colômbia

(19 espécies) e na Venezuela (9 espécies). No Brasil,

são encontrados dez espécies do gênero Euterpe, sete

delas na Amazônia.

O epíteto genético é uma homenagem a

Euterpe, deusa da mitologia grega, e significa

“elegância da floresta”, em alusão à beleza da planta.

Já o nome específico “oleracea” significa que parece

e exala odor semelhante ao do vinho, devido a cor e

ao aroma da polpa, principalmente quando em início

de fermentação.

Euterpe catinga Wallace(açaí-catinga; açaí-chumbo)

Ocorre na Amazônia, nas denominações

Catingas do Rio Negro, caracterizadas como

formações florestais abertas em solos ácidos e mal

drenados, nada semelhante à caatinga do Nordeste

brasileiro. Tem como um dos produtos explorado a

bebida açaí.

Euterpe edulis Mart. (palmiteiro-doce; ripeira; içara;

juçara; palmiteiro-juçara, ensarova)

Ocorre do sul da Bahia e Minas Gerais até o

Rio Grande do Sul; na Mata Atlântica e em Goiás,

Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraíba, nas matas

ciliares. Ocorre ainda na Argentina e Paraguai. Seu

principal produto é o palmito, com potencial de se

utilizar a bebida.

Euterpe espiritosantensis Fernandes (palmito-

vermelho; palmito-amarelo; juçara-palmiteira)

Endêmica ao Espírito Santo, no município de

Santa Teresa, entre 700 e 1000 m de altitude, sobre as

rochas.

Euterpe oleracea Mart (açaí-do-pará; açaí)

Ocorre nos estados do Pará, Amazonas,

Maranhão e Amapá, principalmente no estuário do

rio Amazonas. Prefere terreno alagado e várzeas

úmidas, chegando a formar populações homogêneas

de alta regeneração natural. Ocorre ainda, na

Colômbia, Venezuela, Equador e Guianas. Principal

produto é a bebida açaí.

Euterpe precatoria Mart (açaí-da-mata, açaí, juçara)

Ocorre principalmente na Amazônia ocidental

(Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima), com

presença também no Pará. Ocorre nas matas tropicais

úmidas de baixa altitude, geralmente junto aos rios,

vegetando em regiões com altitude de até 350 metros.

Seu principal produto é a bebida açaí.

Esta espécie frutifica em época alternada com

a espécie de açaí-de-touceira (Euterpe oleraceae),

que produz principalmente no 2º semestre (verão

amazônico), enquanto que a produção do açaí-

solteiro se dá principalmente no 1º semestre, mais ao

início do ano (final do inverno amazônico). Então, no

estabelecimento da cultura do açaí, é de todo

interessante ter as duas espécies, e melhor ainda,

obter também o açaí híbrido (E. oleraceae x E.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 126

precatoria), obtendo uma palmeira que preservando

as boas características presentes no açaí-solteiro,

apresente perfilhamento (Ribeiro, 2007) e seja mais

adaptado as condições ecofisiológicas de ambas

espécies.

10.3.3 Descrição da planta

O Euterpe oleracea é uma palmeira elegante,

que produz touceira com até 25 estipes, cujos

perfilhos apresentam diferentes estádios de

desenvolvimento. Sua inflorescência é infrafoliar,

sendo envolvida por duas brácteas conhecidas por

espatas que, ao abrirem, expõem o cacho constituído

por um ráquis e um número variável de ráquilas,

onde estão inseridas milhares de flores masculinas e

femininas (Oliveira et al., 2002).

Os estipes em cada touceira apresentam-se em

diferentes estádios de desenvolvimento, com altura e

diâmetro variando entre 3m e 20m e 7cm e 18cm,

respectivamente, sustentando, em sua porção

terminal, um conjunto de 8 a 14 folhas, sendo

cilíndricos, externamente lisos, de cor cinza, com

manchas de líquens. Em toda a extensão dos estipes

são encontradas cicatrizes, distanciadas entre si, em

cerca de 11cm, deixadas pelas folhas que senescem e

caem. Eventualmente, são encontrados indivíduos

desprovidos da capacidade de emitir perfilhos e,

nesse caso, apresentam caule solitário (Henderson &

Galeano, 1996; Oliveira et al, 1998).

As folhas apresentam comprimento de até 278

cm (Nogueira, 1997), são compostas, pinadas de

arranjo espiralado, com 40 a 80 pares de folíolos,

opostos ou subopostos e inseridos em intervalos

regulares. Os folíolos são pendentes nos indivíduos

adultos e ligeiramente horizontais nos indivíduos

jovens, com base obtusa e extremidade apical

pontiaguda, apresentando comprimento entre 20cm e

50cm e largura entre 2cm e 3cm. Em cada folíolo

encontra-se uma nervura central, proeminente na face

adaxial, e mais dois conjuntos com duas ou três

nervuras, proeminentes na face abaxial,

uniformemente distribuídos em relação ao plano

divisório da nervura central. O comprimento médio

da bainha foliar gira em torno de 1,0m, podendo, no

entanto, variar de 0,6m a 1,5m (Prance e Silva, 1975;

Henderson e Galeano, 1996).

A inflorescência é infrafoliar, desenvolvendo-

se em maior intensidade após a queda da folha e,

quando aberta, apresenta-se disposta quase

horizontalmente. Possui pedúnculo, com

comprimento entre 5 cm e 15 cm e diâmetro entre

2,7cm e 4,0 cm (Henderson & Galeano, 1996). É

envolvida totalmente por duas brácteas: uma espatela

ligulada e uma espata de formato navicular e de

consistência cartáceo-coriácea. Após a abertura da

espata, a espatela cai, concomitantemente com esta

ou um pouco antes, expondo a inflorescência

propriamente dita, do tipo cacho, contendo número

variável de ráquilas, onde as flores estaminadas e

pistiladas encontram-se inseridas em alvéolos. A

disposição das flores é ordenada em tríades, de tal

forma que cada flor feminina fica ladeada por duas

flores masculinas (Cavalcante, 1991; Henderson &

Galeano, 1996), com exceção do terço terminal de

cada ráquila, que apresenta, na maioria dos casos,

somente flores masculinas, o que proporciona a

presença de 80,5% de flores masculinas e apenas

19,5% de flores femininas na inflorescência

(Calzavara, 1972).

O fruto do açaizeiro é uma drupa globosa ou

levemente depressa, apresentando resíduos florais,

com diâmetro variando entre 1cm e 2cm e pesando,

em média, 1,5g. O epicarpo, na maturação, é roxo ou

verde, dependendo do tipo. O mesocarpo, com cerca

de l mm de espessura, é polposo, envolvendo um

endocarpo volumoso e duro que acompanha,

aproximadamente, a forma do fruto e contém em seu

interior uma semente, com embrião diminuto e

endosperma abundante e ruminado (Cavalcante,

1991, Henderson & Galeano, 1996).

O sistema radicular é do tipo fasciculado

relativamente denso, com raízes emergindo do estipe

da planta adulta em altura de 30cm a 40cm acima da

superfície do solo e apresentando nessa situação

coloração avermelhada e aproximadamente 1cm de

diâmetro (Henderson & Galeano, 1996). As raízes

são providas de lenticelas e aerênquimas (Anderson,

1986; Menezes Neto, 1994) e prolongam-se,

superficialmente, por até cerca de 3,0 m a 3,5 m da

base do estipe, em indivíduos com três anos de idade,

podendo, em plantas com mais de dez anos, atingir

5m a 6m de extensão.

Biologia floral

A flor

As flores do açaizeiro são pistiladas, globoso-

ovóides, com pétalas de 2,5 a 3,0 mm de

comprimento e 2,0 mm de diâmetro, sésseis, trímeras,

com as 3 pétalas recobrindo o ovário e quase

completamente o pistilo, estigma trífido, ovário

tricarpelar, trilocular, coloração clara, estigma de

coloração rósea-brilhoso, passando a marrom escuro

quando receptivo (Figura 10.1) Jardim (1991).

Figura 10.1. Inflorescências e flor do açaizeiro.

Espata

Bracteas

72 a 176 ráquilas Cacho

Triade

Feminina

Masculina

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 127

Fenologia

A queda de folha do açaizeiro corresponde ao

aparecimento de uma bráctea, inicialmente com posição

ereta em relação ao estipe, que se aproxima do

amadurecimento, posiciona-se perpendicularmente,

mudando de coloração esverdeada para amarelo-escuro.

O tempo considerado desde o aparecimento até a

maturação da espata e liberação do cacho é em média de

30 a 45 dias, deste período em diante começa o processo

de floração.

Observações feitas por Jardim (1991) para o

Euterpe oleracea nas condições do Pará, a floração

ocorre em todos os meses do ano (1988-1989), com o

pico de máxima floração de fevereiro a maio,

correspondendo ao período da estação chuvosa. O

ponto mínimo de floração se da no período de julho a

setembro, correspondendo ao período da estação

seca.

Antese

O tempo de abertura das brácteas após sua

maturação é de 4 a 5 dias, pois estas já se mostrando

amareladas com exsudação de água. O horário de

queda das brácteas geralmente ocorre entre 6h e 8h

da manhã.

Após a abertura da bráctea, a antese masculina

ocorre lentamente da base para o ápice das ráquilas.

Em seguida, abrem-se gradativamente. Estas

apresentam seis estames de coloração clara, com três

pétalas de coloração violácea. Permanecem em média

10 a 12 dias no cacho, com presença de alta

quantidade de grãos de pólen, que são liberados

durante todo período de vida das flores. A partir do

13º dia, os estames recurvam-se para baixo com

aspecto seco e coloração marrom escuro e as flores

começam a cair lentamente. Nestas flores não é

detectado nem a liberação de odor e nem de mudança

de coloração.

A antese feminina ocorre no sentido da base

para o ápice das ráquilas, logo após a queda de todas

as flores masculinas, ou seja, a partir do 13º dia.

Estas se abrem lentamente, em seqüência uniforme

durante o período diurno. A abertura das flores em

relação as pétalas é quase imperceptível, pois estas

apresentam-se soldadas no ovário da flor, deixando-

se notar apenas a porção superior mais superior e

afiliada das pétalas.

Observa-se que logo após a lenta abertura das

pétalas, o estigma trífido apresenta coloração rósea e

fica recoberto por uma substância incolor com

característica pegajosa. Neste estágio os estigmas já

estão receptivos, permanecendo durante quatro dias,

algumas vezes cinco. Após o 5º dia de sua abertura,

estes vão tornando-se mais escuros, sem a presença

de qualquer exsudação. O ovário começa a ficar com

formato abaulado e com maior rigidez; esta é a

caracterização de que as flores já foram polinizadas e

inicia a formação dos frutos.

Em síntese, Euterpe oleracea é uma espécie

monóica, dicógama-protandrica. Apresenta anteses

florais masculinas e femininas em períodos

diferentes, caracterizando assincronismo floral de

abertura em duas anteses: antese de flores masculinas

(duração de treze dias) a antese de flores femininas

(abertura após a queda das flores masculinas).

O açaizeiro mantém um alto investimento na

produção de grãos de pólen, isto leva a hipótese de

que a planta investe em grãos de pólen para saciar

visitantes ocasionais e/ou predadores e ao mesmo

tempo favorecer os prováveis polinizadores.

Insetos visitantes

Os insetos que visitam o açaizeiro em

ambiente amazônico são os das ordens: Coleóptera,

Díptera, Homóptera e Hymenóptera, representadas

por 19 espécies, das quais apenas 4 espécies de

coleópteros visitam flores masculinas e femininas,

em diferentes épocas do ano (chuvosa e seca). Os

demais insetos visitantes comportam-se como

ocasionais e predadores, alimentando-se de grãos de

pólen e partes florais durante todos os meses do ano.

Sistema Reprodutivo

A utilização da razão variância fenotípica

dentro de progênies e variância genética entre

progênies (2

dp/2

p), indicam que o sistema

reprodutivo do açaizeiro é preferencialmente de

fecundação cruzada (Ohashi, 1990).

A proporção de frutos formados por

xenogamia (83,0%) é significativamente maior que as

formadas nos testes de gueitonogamia1 (6,8%) e de

autogamia (7,16%). Isto caracteriza a Euterpe

oleracea como uma espécie predominantemente

xenogâmica ou alogâmica, podendo, no entanto,

apresentar grau de compatibilidade na formação de

frutos entre cachos de um mesmo estipe e mesmo

entre cachos de estipes de uma mesma touceira.

Além da reprodução sexuada, o açaizeiro

multiplica-se, também por via assexuada, através da

emissão de perfilhos na base das plantas (Nogueira,

1997).

10.4 Período de produção

A palmeira frutifica a partir do terceiro ano e a

produção máxima ocorre nos 5 a 6 anos de idade.

Considerado individualmente, um açaizeiro produz

durante 4 a 6 meses, porém, em termos quantitativos,

80% de sua produção concnetra-se em 3 meses.

Segundo Calzavara (1972), existem dois períodos de

produção. A safra de inverno (correspondendo à

estação das chuvas) se estende de janeiro a junho e a

safra de verão de julho a dezembro. Segundo Jardim

& Anderson (1987), o açaizeiro floresce durante

todos os meses do ano com um pico de floração entre

os meses de fevereiro e julho, conduzindo a um

período de colheita intensiva entre agosto e

dezembro.

1 Gueitonogamia – autopolinização forçada.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 128

Figura 10.2 – Florescimento do açaizeiro em Acará-

PA (Jardim, 1991).

Para a Euterpe oleracea nas condições do

Pará, a frutificação ocorre principalmente na estação

seca, de junho até meados de dezembro, com picos

bem definidos nos meses de setembro e outubro. No

período da estação chuvosa também ocorre um pico

de frutificação, porém não com alta intensidade,

estendendo-se de fevereiro a abril, com o máximo no

mês de março. Esta frutificação corresponde a

chamada safra de inverno do açaizeiro, que está

relacionada com a floração de verão.

A sazonalidade fenológica de inflorescência e

infrutescência por estipe e por touceira durante os

anos de 1988 e 1989, foi registrada (Figuras 10.3 e

10.4).

Os processos de florescimento nas palmeiras

parecem representar um papel muito importante para

o fluxo gênico, por estabelecerem padrões na

sazonalidade de floração e frutificação e relações

com polinizadores e dispersores de sementes.

0

1

2

3

4

5

J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D

1988 1989

dia

de

ca

ch

o flo

ran

do

e fru

tifica

nd

o p

or

es

tip

e Inflorescência

Infrutescência

Figura 10.3 – Número médio de inflorescência e

infrutescência por estipe em 1,5 ha na Ilha do

Combu, Acará-PA (Jardim, 1991).

0

1

2

3

4

5

6

J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D

1988 1989

Média

de c

achos flo

rando e

fru

tific

ando p

or

touceira

Inflorescência

Infrutescência

Figura 10.4 – Número médio de inflorescência e

infrutescência por touceira em 1,5 ha na Ilha do

Combu, Acará-PA (Jardim, 1991).

Em Euterpe oleracea, os primeiros meses do

ano (Janeiro-Maio) revelam picos definidos de

floração, enquanto no 2º semestre (Jul-Set) picos de

frutificação.

10.5 Ecofisiologia

Em grande parte das áreas de ocorrência dessa

palmeira, particularmente nos terrenos de várzea

baixa, a floresta é do tipo oligárquica, tendo como

espécie dominante o açaizeiro (Prance, 1994). O

caráter oligárquico dessa floresta é determinado pelo

regime de inundações (Lima, 1956), pois reduzido

número de espécies arbóreas dispõem de mecanismos

adaptativos para sobreviverem em solos com baixa

tensão de oxigênio (Anderson, 1986). No caso do

açaizeiro, esses mecanismos estão representados por

adaptações morfológicas e anatômicas, tais como:

raízes que emergem do estipe acima da superfície do

solo, presença de lenticelas (Anderson, 1986) e de

aerênquimas nas raízes (Menezes Neto, 1994). Além

disso, a espécie dispõe de estratégias fisiológicas que

permitem manter as sementes viáveis e as plântulas

vivas, mesmo em condição de anoxia total, por até 20

dias e 16 dias, respectivamente, de tal forma que,

quando o suprimento de oxigênio se toma adequado,

as sementes germinam, e as plântulas retomam seu

crescimento (Menezes Neto, 1994).

Em função de estratégias adaptativas, a

abertura dos estômatos do açaizeiro depende mais da

radiação solar do que do déficit de pressão de vapor,

e inundações temporárias não afetam a absorção de

água, quando as raízes estão submetidas a condições

de hipoxia (Carvalho et al., 1998a).

O fato das sementes não germinarem e as

plântulas paralisarem ou reduzirem o crescimento em

ambiente anóxico, explica a menor freqüência da

espécie em áreas permanentemente alagadas, pois

nessa situação, o estabelecimento de novas plantas

está limitado à possibilidade das sementes, por

ocasião da dispersão natural, atingirem sítios com

cota ligeiramente superior ao da lâmina de água, onde

encontram condições de oxigenação suficiente para o

0

20

40

60

80

100

F M A M J A S O

P eríodo C huvoso P e ríodo S eco

Po

rce

nta

ge

m d

e f

lore

sc

ime

nto

(mé

dia

19

88

/89

)

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 129

desencadeamento do processo de germinação e

crescimento das plântulas. Esses sítios são

representados por restos de árvores que tombam

naturalmente e possibilitam a acumulação de

sedimentos e detritos vegetais (Calzavara, 1972).

Nos locais de ocorrência natural e de cultivo, na

Amazônia brasileira, a espécie pode ser encontrada em

áreas submetidas aos tipos climáticos Afi, Ami, e Awi

(classificação de Köppen). Esses tipos climáticos

caracterizam-se por serem quentes e úmidos, com

pequenas amplitudes térmicas, geralmente com

temperaturas médias e médias das mínimas e das

máximas anuais em torno de 26 ºC, 22 ºC e 31,5 ºC,

respectivamente, e com umidade relativa do ar variando

entre 71% e 91% (Calzavara 1972; Nascimento &

Homma, 1984; Bastos et al., 1986).

O total de chuvas e, principalmente, sua

distribuição nos meses do ano, constituem-se nos

fatores diferenciais entre os três tipos climáticos. O

tipo Afi, onde se concentram grandes populações

nativas de açaizeiros e considerável área plantada

com a espécie, caracteriza-se por total anual de

chuvas superior a 2.000mm e por sua distribuição

mais uniforme, e nos meses de menor precipitação o

total mensal é sempre superior a 60mm. No tipo Ami,

embora apresentando total anual de chuvas

semelhante ao do Afi, a distribuição é menos

uniforme, com períodos de dois a três meses de

estiagem. Já no tipo Awi, o total de chuvas é inferior

a 2.000 mm, com período de estiagem que abrange

cinco a seis meses do ano (Nascimento & I-Iomma,

1984).

No Acre, uma estiagem forte no ano de 2005,

causou a morte de várias touceiras, jovens e adultas,

tanto em plantio quanto em condições de floresta

nativa.

A taxa de fotossíntese reduz à metade dos

valores de fotossíntese máxima após 35 dias sem

irrigação e atinge zero aos 61dias sob um potencial

de água em torno de -2,5 MPa. A deficiência de água

no solo diminuiu o potencial osmótico, resultando em

um ajustamento osmótico de 0,29MPa na

turgescência zero e 0,36MPa na turgescência

máxima. Isto indica que essa espécie possui

mecanismos de adaptação a um estresse hídrico

moderado (Calbo e Morales, 2000).

Em Tomé-Açú, no Pará, vários agricultores

fazem irrigação do açaizeiro, para manter boa

produção durante o período de estiagem (Bastos et

al., 2006). Por isso, o solo deve ter textura tal que

minimize os efeitos da estiagem, retendo água por

mais tempo.

O litoral paulista, onde o açaizeiro vem sendo

cultivado experimentalmente, visando à produção de

palmito, está sujeito a temperaturas médias anuais

baixas, em torno de 21 ºC, consideradas por Aguiar

(1988) como provavelmente próximas do limite

mínimo de exigências térmicas para a cultura.

O autor deste texto, em visita a uma fábrica de

suco de frutas (Bela Ischia), no sudeste de Minas

Gerais, cidade de Astrolfo Dutra, o açaizeiro plantado

próximo a fábrica não se desenvolveu. Nesta região a

temperatura média anual é menor que 20°C.

No habitat natural e em áreas de cultivo, é

encontrado tanto em solos eutróficos como em solos

distróficos. No primeiro caso, ocupa

predominantemente Gleissolos em áreas de várzea.

Esses solos são fortemente ácidos, argilo-siltosos pouco

profundos e com boa fertilidade natural, em decorrência

da deposição de detritos contidos em suspensão nas

águas das marés. No segundo caso, é encontrado em

Latossosolo amarelo textura média, que se caracteriza

por ser profundo, friável, poroso e pela elevada acidez e

baixa fertilidade natural (Galzavara, 1972).

10.6 Melhoramento Genético

Seleção genética e híbridos

Estudos de biologia floral e de sistema de

reprodução foram realizados (Boví, 1984 e 1993;

Bovi ei al, 1986a). Marcadores moleculares são

utilizados na caracterização de novas variedades com

o objetivo de poder usá-los posteriormente na

caracterização do conjunto do germoplasma. A

presença de variações em descritores correlacionados

aos dados de produtividade em frutos ou palmitos

permite a seleção de plantas superiores no quadro de

programas de melhoramento genético (Bovi ei al,

1986b; Ballve et al, 1986; Ballve et al, 1989;

Oliveira, 1995; Sawazaki, 1995; Sawazaki et al,

1995).

Existem correlações entre as medidas

efetuadas nas plântulas jovens e adultas, o que

permite a seleção precoce das melhores variedades

desde o segundo ano de crescimento. Mas a planta é

vigorosa nos seus primeiros estágios de crescimento,

apresentando, por exemplo, ramificações durante o

conjunto dos estágios de desenvolvimento seguintes

(Bovi et al., 1990).

A obtenção de populações melhoradas ou

mesmo de populações híbridas via polinização

controlada é relativamente freqüente dentro do

gênero Euterpe. A própria biologia floral e o sistema

de reprodução favorecem os cruzamentos entre

plantas, mesmo entre populações distintas. Inclusive,

os híbridos apresentam uma precocidade, uma taxa

de sobrevivência e uma velocidade de crescimento

mais elevada, o que permite um corte do palmito

mais precoce (Bovi, 1984: Bovi et al., 1986a, 1987a e

b; Bovi & Castro, 1993).

A micropropagação de plantas híbridas

selecionadas por embriogênese somática é desde já

possível (Gonçalves, 1993; Gonçalves et al., 1991 e

in Press), porém ainda não é praticada em grande

escala.

A obtenção e o reconhecimento de híbridos entre

as espécies de Euterpe oleracea Mart. e Euterpe edulis

Mart., tem se mostrado precoce, rústico, tolerante a

maiores níveis de insolação do que E. edulis, e sendo

mais resistente a doenças do que E. oleracea. Apresenta

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 130

ainda vantagens de perfilhar, embora o perfilhamento

seja menor do que E. oleracea, o que é vantajoso, já que

este último perfilha em excesso, obrigando a um sistema

contínuo de manejo de perfilhos (Bovi, 1984).

Comparados com seus genitores, num teste de qualidade

física, química e organolépticas, mostram que sua

composição, na maior parte dos itens, é intermediária à

dos pais, e que seu rendimento é bastante superior ao E.

oleracea.

Nas várzeas baixa e alta localizadas no

estuário amazônico, a palmeira açaí (Euterpe

oleracea Mart.) é uma espécie promissora no

extrativismo dos frutos e palmito para a economia

local. Porém, ocorrem nestas áreas plantas de

açaizeiro conhecidas por etnovariedades por

apresentarem outras denominações populares e

diferenças na estrutura morfológica (Jardim, 2000).

Com o aumento do mercado de açaí, muitos

produtores têm procurado órgãos de pesquisa para

obter informações sobre seu cultivo e,

principalmente, sobre sementes de qualidade

comprovada. Em vista da necessidade de fornecer

material básico para plantio, a seleção de plantas

matrizes, através de características fenotípicas, tem

sido uma das alternativas possíveis (Oliveira e

Fernandes, 2001).

Variabilidade genética

O açaizeiro apresenta alta correlação genética

entre das plantas das progênies entre diversas

características de crescimento sendo fato importante

na seleção (Tabela 10.1).

Dada a grande potencialidade silvicultural e o

grande valor econômico/social do açaizeiro, seriam

importante a condução de estudos com a espécie

abrangendo maior empenho sobre variabilidade

genética e seleção de populações e indivíduos de

maior produtividade tanto para palmito como para

fruto, interação genótipo/ambiente; exigência

ecológica para crescer e se reproduzir, sistema

reprodutivo, sistema de exploração contínuo dos

povoamentos, consorciação com outras espécies, do

palmito, entre tantos outros (Ohachi, 1990).

Em estudo realizado por Souza (2002),

revelam que o açaizeiro apresenta alta riqueza alélica

e altos índices de heterozigosidade caracterizando

uma alta variabilidade genética na população. De

forma geral (Tabela 10.2), as estimativas médias

obtidas para diversidade gênica (He) são superiores

as de heterozigosidade observada (Ho) que também

foi alta, principalmente para plantas adultas,

revelando excesso de indivíduos homozigotos na

população.

Tabela 10.1. Média e coeficiente de variação fenotípica para cada população estimada para as características de

altura total (HT), diâmetro do colo (DC), número de perfilhos (NP), altura de raiz (HR), altura do estipe (HE),

comprimento da bainha (CB), altura da copa (HC) aos 50 meses de idade no campo. (Ohaschi, 1990). Característica/Pa

râmetro Populações

S.S. da Boa Vista

Breves Bujaru Colares Melgaço Muaná P. de Pedras

Portal Primavera Média Geral

HT média (m) 1,76 2,54 2,23 2,76 2,32 2,32 2,27 2,14 2,23 2,29

C.V.POP (%) 42,39 32,80 31,55 32,17 31,88 31,74 45,02 35,74 29,58 34,76

DC media (cm) 11,63 13,50 14,01 15,15 14,86 14,27 14,95 12,74 13,91 13,89

C.V.POP (%) 30,39 22,39 21,87 22,08 24,96 25,83 23,19 29,82 24,12 24,96

HE média (m) 0,28 0,68 0,50 0,62 0,60 0,45 0,40 0,49 0,35 0,49 C.V.POP (%) 99,31 61,22 81,19 72,43 68,65 82,10 70,97 80,69 74,76 76,81

HR média (cm) 10,70 12,41 14,00 14,64 12,82 14,17 12,14 12,15 19,27 13,59 C.V.POP (%) 41,64 31,91 32,84 28,89 33,97 36,22 36,86 40,41 26,30 34,34

CB média (m) 0,65 0,75 0,70 0,78 0,76 0,73 0,72 0,70 0,66 0,72

C.V.POP (%) 25,78 17,66 18,33 16,89 15,36 16,65 15,46 20,73 13,78 17,85

HC média (m) 0,72 0,99 0,91 1,23 0,90 1,01 1,06 0,83 1,02 0,96

C.V.POP (%) 51,32 36,94 38,29 34,85 35,48 34,97 33,85 42,45 37,94 38,45

NP média (m) 5,46 4,72 4,27 3,13 5,56 5,69 6,40 4,80 5,00 5,0

C.V.POP (%) 67,76 67,11 58,36 53,08 51,21 62,25 51,23 52,64 53,28 57,44

Tabela 10.2 Índices de diversidade gênica para

adultos e plântulas de uma população natural de

Euterpe oleracea, na ECFPn município de Melgaço-

PA, obtidos a partir da análise de cinco locos

microssatélites, sendo A: número médio de alelos;

He: diversidade genética; Ho: heterozigosidade

observada e f: índice de fixação de Whigth.

População A He Ho f

Adultos 13,6 0,839 0,709 0,156

Plântulas 13,4 0,844 0,822 0,027

10.7 Cultivares

Hoje apenas uma cultivar de açaizeiro foi

lançada, a Cv. “Pará”, apesar do esforço de alguns

programas de melhoramento, que objetivam tal meta.

Assim, podem ser citados os programas em

melhoramento do açaizeiro, da Embrapa Amazônia

Oriental, em Belém,PA e do Instituto Agronômico de

Campinas, porém, outras instituições possuem

acessos de açaizeiros em seus campos experimentais,

como INPA (Manaus), FUA (Manaus), UEMA (São

Luiz), UFBA (Salvador), UFMT (Cuiabá), UFRA

(Belém).

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 131

É interessante lembrar, que os tipos de açaí

preto, cujos frutos maduros têm polpa arroxeada, e o

açaí “branco”, com frutos de coloração verde, mesmo

quando maduros, não podem ser considerados

cultivares, e sim grupos diferentes de açaizeiros.

Porém, ambos produzem palmitos de boa qualidade e

frutos com boa aceitação no mercado.

Atualmente, o que se tem disponível são tipos

ou variedades que ocorrem naturalmente, sendo

denominadas de: açaí-açu, açaí-espada, açaí-sangue-

de-boi, açaí-chumbinho, açaí-tinga, açaí-branco e

açaí-roxo ou comum. Essas variedades, na maioria

das vezes, se diferenciam pela coloração dos frutos,

quando maduros, pelo número de perfilhos na

touceira, pelo tamanho e peso dos cachos e de frutos,

pela ramificação do cacho ou pela coloração e

consistência da bebida, mas ainda necessitam ser

caracterizadas e avaliadas morfológica e

agronomicamente. As principais características

diferenciais desses tipos são mencionadas abaixo:

Açaí-açu – É um tipo com frutos de cor roxo,

ocorrente em populações nativas, cujos cachos são

bem mais pesados, com maior número de frutos por

ráquilas e diâmetro dos estipes maior que dos tipos

comuns de açaí-roxo;

Açaí-espada – Tipo que ocorre principalmente

na ilha do Combu, no município de Acará, difere dos

tipos comuns, principalmente no formato do cacho,

por apresentar ráquilas primárias, secundárias e

terciárias.

Açaí-sangue-de-boi – Presente em populações

nativas de açaizeiro no baixo Amazonas, mais

precisamente no município de Santarém. Caracteriza-

se pela coloração avermelhada dos frutos, semelhante

ao sangue-de-boi, quando maduros, e por apresentar

polpa com consistência bem menos pastosa que os

tipos de ocorrência mais generalizada. A polpa dos

frutos desse tipo tem pouca aceitação, tanto por sua

consistência fina como pelo sabor, que é bastante

diferente dos tipos com frutos de cor roxa.

Açaí-chumbinho - tipo ocorrente em algumas

populações da parte Norte da Ilha do Marajó e do

Estado do Amapá, cuja principal característica é

apresentar frutos pequenos (menos de 1g), podendo

ser roxo ou branco.

Açaí-tinga - o mesmo tipo do branco ou verde.

Tinga é uma denominação indígena (tupi-guarani)

que significa desprovido de cor.

Açaí-branco - tipo pouco comum nas

populações amazônicas, apresenta coloração verde

opaca dos frutos, em decorrência da camada

esbranquiçada que os envolve, quando maduros,

podendo perfilhar ou não (Figura 10.5).

Figura 10.5 – Cachos de açaizeiro branco, espada e

roxo (Oliveira et al., 2002).

Atualmente, a Embrapa Amazônia Oriental

selecionou de seu banco de germoplasma, a primeira

cultivar de açaizeiro melhorado, o cultivar PARÁ.

Foi selecionada para condições de terra firme,

apresenta precocidade de produção, bom nível de

produtividade de frutos e rendimento de polpa.

A cultivar Pará foi melhorada pela Embrapa

Amazônia Oriental, através de dois ciclos de seleção

massal. A cultivar apresenta precocidade de

produção, frutificando três anos após o plantio; bom

rendimento de polpa (15% a 25%) e frutos de

coloração violácea, produzindo o refresco mais aceito

no mercado de polpa. As plantas apresentam os

seguintes valores médios: Altura da planta (4,2 m),

circunferência do diâmetro da planta (58 cm),

número de cachos/planta (4,4), altura do primeiro

cacho (112 cm) e 25 kg/planta/ano, equivalente a 10

t/ha (em terra firme) (Oliveira e Neto, 2004).

10.8 Propagação

O processo mais comum de propagação do

açaizeiro é através de sementes, embora a propagação

assexuada possa ser também utilizada através da

retirada de brotações (perfilhos) que surgem de forma

espotânea, na região logo abaixo do coleto da planta

(Calzavara, 1972). A quantidade dessas brotações

depende do genótipo e do ambiente, inicialmente

surgem na base do estipe principal e, posteriormente,

nas dos estipes secundários. Embora de forma rara,

algumas plantas independentemente do ambiente, não

exibem a capacidade de emitir brotações. No caso do

Euterpe precatoria, a propagação via brotações está

descartada, por este não emiti-las.

O processo de propagação assexuada, através

de retirada de brotações, por demandar bastante mão-

de-obra, é de uso limitado, sendo presentemente

usado apenas quando de deseja uma quantidade

reduzida de mudas de determinado genótipo.

Em plantas com cinco anos de idade, mantendo-

se quatro estipes por touceira, o número máximo de

brotações passíveis de serem aproveitadas na formação

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 132

de mudas não atinge dez unidades, decrescendo bastante

esse número nos anos subseqüentes, pois, à medida que

se retiram essas brotações, a planta vai perdendo a

capacidade de emiti-as (Calzavara, 1972). Assim sendo,

a taxa de multiplicação é muito baixa, quando

comparada com a propagação sexuada, em que , de uma

única planta, é possível obter quantidade superior a

6.000 sementes (Oliveira et al., 1998), com germinação

igual ou superior a 90% quando procedentes de frutos

recém-colhidos.

A propagação “in vitro” tem tido sucesso

apenas com a utilização de embriões zigóticos, não se

dispondo de protocolo que possibilitem a obtenção de

plântulas através da cultura de tecidos somáticos.

A estrutura usada como semente corresponde

ao endocarpo, que contém em seu interior uma

semente, com eixo embrionário diminuto e abundante

tecido endospermático. O endocarpo é

aproximadamente esférico, com comprimento e

diâmetro médio de 1,23 cm e 1,45 cm,

respectivamente, e representa 73,46% do peso do

fruto.

O peso de cem endocarpos, com grau de

umidade de 39,4%, é de 108g, portanto, um

quilograma de endocarpo de açaí contém cerca de

1.080 sementes, que apresentam porcentagem de

germinação superior a 90%, quando oriundas de

frutos maduros e semeadas imediatamente após a

remoção da polpa.

O processo germinativo é relativamente

rápido, porém desuniforme, iniciando-se a

emergência das plântulas 22 dias após a semeadura e

estabilizando-se aos 48 dias, quando as sementes são

semeadas logo após a remoção da polpa. A redução

do grau de umidade, mesmo para níveis ainda altos,

implica em comprometimento na percentagem e no

retardamento da germinação. Quando o grau de

umidade é reduzido para valores em torno de 14,0%,

as sementes perdem completamente a capacidade de

germinação (Oliveira et al., 2000).

A emergência de plântulas de açaizeiro com a

rafe perpendicular à superfície do substrato e poro

germinativo para cima é a mais adequada, pois

proporciona igual porcentagem e menor tempo médio

de emergência. Profundidades iguais ou superiores a

3 cm são inadequadas para semeadura de Euterpe

oleracea Mart. (Silva et al., 2007)

As sementes não podem ser conservadas pelos

processos convencionais de armazenamento, que tem

como pré-requisitos básicos a secagem e o

armazenamento em temperaturas baixa, pois além da

sensibilidade ao dessecamento, as sementes não

suportam temperaturas inferiores a 15ºC.

Portanto, para curtos períodos de

armazenamento, em condições de ambiente natural na

Amazônia, ou quando se deseja transportar as sementes

para locais distantes, dois sistemas podem ser usados.

No primeiro, as sementes são estratificadas ou

misturadas em substrato úmido, que tanto pode ser

serragem, como vermiculita, e acondicionadas em

caixas de madeira, isopor ou em sacos de plástico.

Areia ou solo não são recomendados como substrato,

por apresentarem maior densidade. Nesse sistema, as

sementes são dispostas em camadas alternadas com o

substrato úmido ou simplesmente misturadas com

este e acondicionadas.

No segundo sistema, as sementes são

embaladas em sacos de plástico com capacidade para

4 kg de sementes, havendo necessidade de tratamento

com fungicida (Benomyl a 0,1%, durante 10 minutos)

e de enxugamento superficial das sementes, de tal

forma que o grau de umidade seja reduzido para

35,0%. Em ambos os caso o período de

armazenamento não deve ultrapassar 20 dias, pois

muitas semente poderão completar a germinação

dentro da embalagem, o que dificulta a retirada das

mesmas e condiciona o aparecimento de plântulas

anormais.

A semeadura pode ser efetuada tanto em

sementeiras, como diretamente em sacos de plástico

com dimensões de 15 cm de largura e 25cm de altura.

O período compreendido da semeadura até a

muda estar em condições de ser plantada no local

definitivo situa-se entre seis e oito meses.

10.9 Nutrição mineral

Os estudos sobre nutrição e adubação do

açaizeiro são ainda extremamente incipientes, não se

dispondo de resultados consistentes que permitam

avaliar com precisão o estado nutricional das plantas

e, principalmente, estabelecer recomendações de

adubação.

Os resultados obtidos por Haag et al. (1992),

evidenciaram que os macronutrientes interferem na

produção de matéria seca, em plantas jovens de

açaizeiro, na seguinte ordem: K>Mg>P>N>Ca>S.

Em função disso, a determinação dos teores desses

nutrientes, nas folhas e raízes de plantas com e sem

sintomas de deficiência, forneceram indicação

preliminar para avaliação do estado nutricional do

açaizeiro, em termos de macronutrientes (Quadro

10.2).

Quadro 10.2. Concentração (%) de macronutrientes

em folhas e raízes de plantas jovens de açaizeiro

cultivados em solução completa e com omissão de

macronutrientes. Sem omissão Com emissão Nutriente Folha

nova

Folha

velha

Raiz Folha

nova

Folha

velha

Raiz

N 1,95 1,66 1,73 1,22 0,95 0,79

P 0,14 0,13 0,11 0,06 0,08 0,07 K 1,06 1,96 1,97 1,17 1,07 1,20

Ca 0,69 0,68 0,61 0,44 0,54 0,30

Mg 0,26 0,35 0,31 0,20 0,19 0,27 S 0,30 0,29 0,31 0,21 0,30 0,26

Fonte: Adaptado de Haag et al., 1992.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 133

Segundo Viégas et al. (2004), os

macronutrientes mais limitantes para o crescimento

de açaizeiros, em Latossolo Amarelo textura média,

são o P, N, K e Mg e, entre os micronutrientes, o Mn.

Com relação a adubação, os seguintes

procedimentos têm sido indicados para solos de baixa

fertilidade natural da Amazônia brasileira:

a) Aplicar, no primeiro e segundo ano, 10 a 15

litros de esterco de curral ou dois a três litros de

esterco de galinha por touceira e 100 g da mistura,

em partes iguais, de sulfato de amônio, superfosfato

triplo e cloreto de potássio. O adubo mineral deve ser

aplicado em duas parcelas de 50 g, a primeira no

início e a segunda no final do período chuvoso. A

partir do terceiro ano, utilizar a mesma quantidade de

adubo orgânico e utilizar a mistura de 150g de sulfato

de amônio, 220g de superfosfato triplo e 250g de

cloreto de potássio, dividido, também, em duas

parcelas iguais, aplicadas no início e final do período

chuvoso.

b) Nos dois primeiros anos após o plantio,

aplicar 100g de sulfato de amônio, 100g de sulfato

triplo e 100g de cloreto de potássio por planta,

parcelados duas vezes. A partir do terceiro ano,

duplicar a quantidade de adubo, divididos, também,

em intervalos de dois anos, cinco litros de esterco de

curral.

c) No primeiro ano, efetuar duas aplicações de

300g de NPK, formulação 10-28-20, no quinto e

nono meses após o plantio. A partir do segundo ano,

efetuar três aplicações de 300g do mesmo adubo, no

início, meio e fim do período chuvoso.

10.10 Manejo agronômico

Espaçamento

A maioria das indicações de espaçamento para

a cultura do açaizeiro, visando à produção de frutos,

são baseadas em observações práticas. Geralmente

tem sido indicado o espaçamento de 5 m x 5 m com o

manejo de três ou quatro estipes, que corresponde a

densidades de 1.200 plantas/ha e 1.600 plantas/ha,

respectivamente. A implantação da cultura em

espaçamento mais fechado, como 4 m x 4 m, implica

em baixa produtividade, em decorrência de

competição por água e por nutrientes que se

estabelece entre as plantas.

Os espaçamentos mais abertos, como 5m x

5m, têm a vantagem de facilitar sobremaneira a

colheita até dez anos após o plantio, pois nessa

situação, a plantas não estão submetidas à

competição por luz, o que reduz bastante o

crescimento em altura e favorece o crescimento em

diâmetro, reduzindo os riscos de tombamento de

plantas pela ação de ventos fortes. Nesse

espaçamento, os primeiros cachos surgem em altura

inferior a 1,5m. Além disso, os tratos culturais,

especialmente as capinas, podem ser efetuadas

mecanicamente.

Manejo de perfilhos

O número excessivo de perfilhos numa

touceira reduz o crescimento da planta-mãe, pois

parte considerável dos fotoassimilados são

mobilizados para a formação do sistema radicular dos

perfilhos. Assim sendo, é necessário efetuar o

desbaste dos mesmos de tal forma que cada touceira

apresente, no máximo, cinco plantas.

Outro aspecto que deve ser considerado no

manejo das touceiras está relacionado à altura dos

estipes. Quando um estipe atinge altura que dificulte

sobremaneira a colheita dos frutos, é conveniente

eliminá-lo e deixar um novo perfilho crescer para

substituir o que foi derrubado.

No primeiro ano após o plantio, o crescimento

da planta é bastante lento, situação esta que aliada ao

espaçamento aberto favorece o crescimento de

plantas daninhas. Nos três primeiros anos após a

implantação do pomar, são necessárias três ou quatro

roçagens a cada ano. Complementando as roçagens, é

necessário o coroamento em volta das touceiras.

Manejo de inflorescências

No Estado do Acre, apesar do açaizeiro

produzir o ano todo, o maior volume de

comercialização de frutos ocorre no segundo

semestre do ano, coincidindo com o período menos

chuvoso e o preço dos frutos alcançam menores

valores. Assim, a possibilidade de manejar as

inflorescências de modo a direcionar a produção de

frutos para o período chuvoso (no primeiro semestre)

pode ser uma técnica interessante por garantir ao

produtor fruto na entressafra e, portanto, melhor

preço na venda. Contudo, ainda não há informações

consistentes que comprovem a viabilidade dessa

técnica em açaizeiro.

Dessa forma, se o interesse for para realizar

plantios de açaizeiro com produção de frutos na

entressafra, o agricultor deve adquirir sementes de

locais onde as plantas tenham produção na

entressafra, ou seja, de locais que tenham tradição de

produzir frutos fora da época, como os estados do

Amapá, Maranhão e de alguns municípios do Pará.

A irrigação no período de estiagem pode

conduzir a planta a emitir inflorescência durante este

período e assim, produzir frutos no período de

entresafra.

Mas quando a irrigação não estiver disponível,

o plantio do açaizeiro em locais de baixio e terra

firme na mesma propriedade pode variar e ampliar o

período de produção.

O cultivo de diversos materiais genéticos,

inclusive espécies e cultivares diferentes também

proporciona frutificação alternada entre eles, como

entre as espécies E. oleracea e E. precatório, que

produzem no segundo e primeiro semestre do ano

respectivamente.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 134

10.11 Pragas

Vários insetos atacam o açaizeiro, mas,

presentemente, poucos são os que exigem medidas

efetivas de controle. A maior parte dos insetos que

causam danos ao açaizeiro também são pragas de

outras palmeiras ou mesmo de outras espécies

frutíferas ou madeireiras de famílias diferentes.

Ressalte-se que, atualmente, não existe nenhum

produto registrado no Ministério da Agricultura e do

Abastecimento do Brasil para o controle de pragas do

açaizeiro.

As pragas mais importantes para o açaizeiro

são:

Rhynchophorus palmarum (Coleóptera:

Curculionidae) – Constitui-se na principal praga do

açaizeiro, atacando principalmente a região da coroa

foliar. É praga de outras palmeiras cultivadas na

Amazônia, dentre as quais o coqueiro (Cocos

nucifera) e o dendezeiro (Elaeis guineensis), onde

também causa sérios danos, além de ser considerado

como vetor do nematódeo Bursaphelencus

cocophilus, causador da doença conhecida como

anel-vermelho. O adulto é um besouro de hábito

diurno, cor negra, com cerca de 5cm de comprimento

por 25 mm de largura.

O controle dessa praga pode ser o mesmo

adotado para o dendezeiro e coqueiro.

a) Controle preventivo na colheita: pincelar o

local onde foi cortado o cacho com uma solução de

piche mais nematicida;

b) Controle comportamental – uso de iscas

atrativas e feromônios. Toletes de cana-de-açúcar

podem ser usados como iscas em armadilhas tipo

alçapão. A adição mais eficiente de controle;

Cerataphis latanie (Homóptera:Aphididae) – O

pulgão-preto é um minúsculo sugador que ataca em

desenvolvimento, bainhas foliares, inflorescências e

frutos. Em plantas com três a cinco anos de idade,

quando o ataque é severo, pode causar a morte da

planta. Nas inflorescências, ocasionando queda

precoce da flores ou mesmo de frutos em início de

formação. O controle do pulgão-preto pode ser feito

com pulverizações de óleo mineral na concentração

de 1%, misturado com inseticida fosforado na

concentração de 0,1%.

Xylosandrus compactus (Coleóptera:Scolytidae) –

Conhecido como broca das mudas, é um inseto

originário da Ásia, polífago e bastante conhecido

como praga do cafeeiro e de numerosos arbustos. A

fêmea mede entre 1,5 mm e 1,8 mm de comprimento

e apresenta coloração negra brilhante. O macho é de

coloração marrom e um pouco menor do que a

fêmea.

Não existem medidas de controle efetivamente

testadas para o combate dessa praga em mudas de

açaizeiro. No entanto, a aplicação de inseticidas de

contato, com alto poder residual, pode se constituir

em alternativa de controle. Nesse caso, deve-se

considerar o hábito crepuscular dos adultos e

pulverizar as mudas ao entardecer, a fim de combater

os insetos durante o vôo. A destruição de mudas

infestadas pelo fogo constitui-se em outra alternativa

para o controle dessa praga.

Duas outras coleobrocas não identificadas têm

sido registradas atacando o açaizeiro. Uma delas, de

ocorrência mais freqüente no período de maior

intensidade de chuvas, realiza perfurações na parte

basal do estipe até 1,30 de altura, dependendo da

severidade do ataque, pode ocasionar a morte da

planta (Souza e Oliveira, 1999). A outra faz galerias

nas inflorescências, danificando completamente as

ráquilas e as flores (Oliveira et al., 2000).

Cochonilha escama-farinha: insetos sugadores,

brancos e minúsculos, que atacam a parte inferior das

folhas, principalmente de mudas e plantas jovens,

sugando a seiva e retardando seu crescimento.

Gafanhotos: o mais comum tem sido o tucurão

(Tropicaris collaris, Acrididae), cujas ninfas de

últimos estádios e adultos são vorazes e devoram as

folhas novas de mudas e plantas jovens, deixando

apenas a ráquis foliar e as nervuras dos folíolos.

10.12 Doenças

A antracnose (Colletotrichum gloeosporioides)

é a única doença registrada até o momento, para o

açaizeiro. Essa doença, no entanto, tem causado

problemas somente na fase de viveiro, podendo

causar perdas de até 70% de mudas.

O controle da antracnose pode ser feito com

pulverizações de oxidocloreto de cobre a 0,15%,

intercaladas com benomyl a 0,1%, em intervalos de

dez a quinze dias.

10.13 Colheita e Pós-colheita

A qualidade final da bebida “açaí”, geralmente

de baixa qualidade sanitária, pela alta contaminação

microbiana, é causada por diversos fatores, dentre os

principais, destacam-se o manuseio na colheita e pós-

colheita.

Maturação do frutos

A maturação dos frutos na colheita é um dos

fatores fundamentais que afetam a composição das

frutas, assim como seu comportamento ao decorrer

do armazenamento.

Existem numerosos critérios para avaliar se

um fruto é suficientemente maduro para ser colhido

ou não (tamanho, gravidade específica, razão

açúcar/acidez, firmeza, forma externa, etc.). Nos

frutos ricos em antocianinas, é sempre a cor externa,

e até mesmo interna, que determinará mais

facilmente o grau de maturidade.

Assim como o conjunto das frutas ricas em

antocianinas (framboesas, morangos, amoras, uvas,

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 135

cerejas), as frutas de açaizeiro não são climatéricas:

se os cachos de frutos são colhidos antes da

maturidade, a pigmentação não aparece, as frutas

ressecam e se soltam bem rapidamente das ráquilas.

Para o açaí preto, a cor externa é um bom

indicador do grau de maturidade das frutas, baseado

no teor de antocianinas (Figura 10.6). E assim, de

acordo com Rogez (2000), pode-se distinguir cinco

estados de maturidade para cada cacho:

1. “Verdes” – define o estado de maturidade de um

conjunto de frutos do qual pelo menos a metade ainda

é de cor verde;

2. “Vitrin” – correspondem aos cachos que passaram

da cor verde à cor preta e que contêm uma proporção

maior de frutos pretos e uma proporção menor de

frutos ainda um pouco verde; neste estado de

maturidade, os frutos podem, excepcionalmente, ser

comercializados, mas os rendimentos em polpa são

fracos, pois os frutos não estão suficientemente

maduros.

3. “Preto ou Parau” – se refere a um conjunto de

frutos de cor preta cuja superfície é brilhante; os

rendimentos e a qualidade do suco são bons, mas não

é considerada como a fase ideal de coleta.

4. “Tuíra” – qualifica frutos uniformemente pretos e

cobertos por uma fina película de ceras, comparável

àquelas encontrada nas uvas pretas, dando aos frutos

uma aparência esbranquiçada; os rendimentos são

bons e a qualidade do suco é tida como ótima.

5. “bem maduros” – define um conjunto de frutos

cobertos da mesma película de ceras, mas já um

pouco seca e murcha; tipicamente, este estado se

observa quando o cacho foi colhido muito tarde.

Figura 10.6 – Cinética de acúmulo das antocianinas

em frutos de açaí. (Adaptado de Rogez, 2000).

A colheita do açaí é efetuado aproximadamente

180 dias após a antese (Oliveira et al., 1998).

Método de colheita

A colheita é uma tarefa geralmente reservado

ao homens ou adolescentes porque é árdua e

arriscada. A única característica comum entre pessoas

é seu peso, normalmente inferior a 60 kg, para evitar

flexões importantes demais do estipe durante a

escalada e diminuir o risco de queda.

Para subir até o cume do estipe, os

apanhadores utilizam a “peconha”, um cinto

transados com folhas de açaizeiro ou fibras sintéticas.

Ele é enrolado ao redor dos dois pés e serve de

suporte durante a escalada, com os dois braços

cercando o estipe e mantendo o equilíbrio. Após

escalar, o cacho é cortado um pouco na sua base com

auxílio de terçado ou de uma faca, depois arrancado

do estipe. Os cachos podem ser arriados à mão ou

amarrados a uma corda na cintura do apanhador, e

depois depositados sobre uma lona, para evitar

contato direto com o solo. Cacho por cacho o

apanhador passa então seus dedos entre as ráquilas,

pressionando-os para forçar os frutos a cair num

peneiro, esta etapa é chamada debulhamento. Um

apanhador experiente coleta 180 kg de frutos/manhã.

10.14 Pós-colheita

Fatores pós-colheita que afetam a qualidade dos

frutos

A bebida açaí possui alta contaminação

microbiana e as principais causas são:

1. Recipientes – os recipientes utilizados para

transportar os frutos do campo para as

despolpadeiras, geralmente paneiros ou sacos de

fibras sintéticas, são usados por períodos longos e

nunca higienizados, contribuindo como fonte de

inoculo.

2. Os recipientes ficam sempre em contato

com o piso do barco.

3. Os recipientes com a fruta são colocados

sempre em contato com o solo dos barrancos dos

rios, nos trapiches, no chão do mercado etc.

4. As feridas constituem o principal fator de

deterioração dos frutos (Figura 10.7). As feridas não

permitem apenas um acesso direto do oxigênio para

as substâncias oxidáveis e dos microorganismos para

os substratos do fruto, como também aceleram as

perdas em água, estimulam a respiração e favorecem

um apodrecimento acelerado. No caso dos frutos do

açaizeiro, o debulhamento ocorre logo após a colheita

e não logo antes do seu processo, como no caso da

uva. É então provável que a ferida formada no ápice

de cada fruto possa ter consequências à sua

0

300

600

900

1200

1500

1800

20 30 40 50 60 70 80 90 100 110

Período de maturação (dias)

An

tocia

nin

as (

mg

/kg

de f

ruto

s)

Verde

Preto

Tuírabem

maduro

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 136

deterioração.

Figura 10.7. Ferida presente no apêndice de um fruto

de açaí por microscopia eletrônica de varredura.

(Rogez, 2000).

Armazenamento e vida útil

A vida útil pós-colheita do açaí não pode

ultrapassar 48 horas, quando os frutos são colhidos

no período chuvoso, já quando os frutos são colhidos

no período seco, que a umidade relativa do ar é baixa,

os frutos podem ser conservados por até 5 dias.

Evolução dos parâmetros de produtividade

Em termo de rendimento, representada pela

produtividade total em matéria seca, o tempo pós-

colheita tem um impacto negativo sobre a massa

total. Ocorre uma importância queda da massa

recolhida por kg de frutos em função do nível de

frescura dos frutos no momento do preparo (Figura

10.8). Na prática, as fibras que se formam um

panacho ao redor do caroço se abrem muito mais

facilmente quando o açaí é mais velho. Isso leva a

uma adsorção importante de líquido e, portanto, a

uma perda em massa de açaí recolhida (de 442 a 313

g por kg de frutos despolpados). Por outra parte, o

teor em matéria seca dos açaís aumenta muito

lentamente (de 9,9 a 11,2% em 70 horas), resultando

numa queda da produtividade em matéria seca total,

principalmente a partir de 30 horas pós-colheita (de

44,31 g/kg de frutos em 30 horas a 35,05 g/kg de

frutos em 70 horas).

300

350

400

450

500

550

0 10 20 30 40 50 60 70

Tempo pós-colheita (horas)

Massa d

e a

çaí

(g/k

g d

e f

ruto

)

Figura 10.8 – Massa de frutos de açaí em função do

tempo pós-colheita. (Adaptado de Rogez, 2000).

Evolução das atividades enzimáticas

Quanto a evolução das atividades enzimáticas,

verificada através da evolução global da atividade da

peroxidade (POD) e da polifenoloxidase (PPO) no

açaí, em função do tempo pós-colheita dos frutos.

Nota-se que o comportamento das duas enzimas é

diferente (Figura 10.9).

0

0,2

0,4

0,6

0,8

1

1,2

1,4

1,6

0 10 20 30 40 50 60 70

Tempo pós-colheita (horas)

UA

/min

POD

PPO

Figura 10.9 – Evolução da atividade da peroxidase

(POD) e da polifenoloxidase (PPO) no açaí em

função do tempo pós-colheita dos frutos.

A POD tem sua atividade aumentada

significativamente no decorrer do tempo de maneira

linear e quadrática, particularmente, depois de 24

horas de colheita. Esse aumento de atividade pode ser

explicado por duas hipóteses (Rogez, 2000):

1. certas cepas de microrganismos produtores de

peroxidades poderiam estar em fase de multiplicação;

2. em reação aos diferentes choques e/ou ferimentos

sofridos pelos frutos durante a colheita e o transporte,

as próprias células da parte carnosa poderiam

sintetizar mais POD.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 137

Evolução das antocianinas

O tempo de armazenamento necessário, após a

colheita, para que o teor em antocianinas seja

reduzido de sua metade é, em média, de 55 horas.

Porém, essa duração varia muito de um lote de frutos

para o outro. Dos vários fatores que influenciam a

degradação das antocianinas, dois se destacam por

acelerá-la nos frutos de açaí: a temperatura ambiente

elevada (30 ºC) e a presença importante de oxigênio

na superfície.

0

100

200

300

400

500

600

700

800

900

1000

0 10 20 30 40 50 60 70

Tempo pós-colheita (horas)

An

tocia

nin

as

(mg

/kg

de f

ru

tos)

Figura 10.10 – Perda de antocianina no açaí em

função do tempo pós-colheita. (Adaptado de Rogez,

2000).

A temperatura ideal para o transporte e

armazenamento situa-se entre 10 e 15ºC.

Melhoramento da conservação

O açaí apresenta uma contaminação

microbiana particularmente elevada e uma

conservação muito curta, sua valorização e

comercialização são relativamente limitadas pelo

tempo.

Sulfitagem dos frutos de açaí

A sulfitagem é utilizada como alternativa ao

branqueamento, geralmente para produtos cujos

tecidos são mais delicados. A sulfitagem se pratica

mergulhando os frutos numa solução contendo 2.000

até 4.000 ppm de SO2 (metabissulfito de Na ou de K)

durante 2 a 5 minutos. O SO2 gasoso pode também

ser utilizado, por exemplo, para o tratamento das

uvas antes da sua desidratação.

Em açaí, a utilização de SO2 sob a forma gasosa

é preferível, pelas seguintes razões: (1) devido aos frutos

serem bem redondos, a forma gasosa permite um acesso

na superfície dos frutos sem que estes devam ser

retirados dos paneiros, (2) o sulfito gasoso é altamente

miscível nas ceras recobrindo os frutos (ao contrário do

sulfito aquosos), (3) o tratamento pelo sulfito gasoso

pode ser aplicado desde a etapa do transporte dos frutos

(a combustão do enxofre poderia ser feita nos porões

dos barcos), (4) as durações de transporte poderiam,

portanto, ser superiores, o que tornaria possível o acesso

a novos mercados.

A quantidade máxima em SO2 gasoso a ser

aplicada, pode ser de 15 mg/kg de frutos, com um

tempo de atuação compreendido entre 10 e 60

minutos (Rogez, 2000). Sob estas condições de

tratamento, as bactérias caem de uma ordem

logarítimica e os bolores e leveduras de duas ordens.

Tanto a peroxidase quanto a polifenoloxidase,

dosadas no açaí final, são totalmente inibidas por tal

tratamento. Todavia, deve-se mencionar que o sulfito

modifica a cor das antocianinas e provoca, assim,

efeitos negativos sobre as propriedades

organolépticas do suco (o açaí apresenta uma

coloração esbranquiçada / violeta).

Lavagem

A lavagem constitui uma etapa necessária e

obrigatória para o conjunto dos frutos, principalmente

para eliminar as impurezas e sujeiras. Em certos casos,

quando a contaminação microbiana é supostamente

elevada, a adição de cloro ativo (tipicamente 100 – 150

ppm) é aconselhada. Mas, a lavagem não pode,

portanto, ser vista como uma solução ao problema de

contaminação dos frutos do açaizeiro.

Congelamento

O congelamento do açaí diminuem

significativamente a carga microbiana, tanto as bactérias

quanto os bolores e leveduras, uma diminuição de uma e

meia a duas ordens logarítmicas, esta queda se

concentra nos 10 primeiros dias. Além disso, a

peroxidase e a polifenoxidase perdem

significativamente de 10 a 40% de sua atividade durante

o mesmo espaço de tempo, dependendo da origem do

açaí. Além disso, as atividades residuais elevadas

permitem supor uma degradação do produto no decorrer

da estocagem. E as antocianinas sofrem perdas de até

60%. Portanto, o congelamento não garante, de forma

alguma, o respeito das normas em vigor, nem a boa

conservação do produto.

Branqueamento

O branqueamento consiste em escaldar vegetais

em água quente ou fervente (88-99C) ou vapor durante

um lapso de tempo e antes de outros tratamentos.

Normalmente, este tratamento é usado antes do

acondicionamento e congelamento de frutos e

hortaliças. O objetivo principal é a diminuição dos

contaminantes encontrados na superfície do produto e a

inativação enzimática nas primeiras camadas de células.

Para o açaí, Rogez (2000) recomenda

temperatura de 80 ºC durante 10 minutos, temperaturas

ou tempos acima que estes, provocam uma separação

das matérias graxas durante a elaboração do açaí: há

presença de um óleo de cor amarela na superfície, pois a

emulsão não se forma mais corretamente.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 138

Pasteurização

A pasteurização é um tratamento térmico

relativamente suave, em temperaturas iguais ou

inferiores a 100 ºC, utilizado para prolongar a vida

útil dos alimentos. Este processo, que conserva os

alimentos por inativação enzimática e destruição dos

microrganismos termossensíveis, é responsável por

alterações muitas vezes mínimas, em níveis do valor

nutritivo e das características organolépticas do

alimento em questão.

A pasteurização do açaí pelo processo HTST

(High Temperature Short Time) oferece excelentes

perspectivas: um tratamento a 87,5 ºC durante 1 minuto

permite a inativação da peroxidase e da

polifenoloxidase, a destruição completa dos bolores e

leveduras e uma redução drástica da carga mesófila

total. A adição de ácido cítrico facilita a destruição das

bactérias, a inativação enzimática e protege

parcialmente as antocianinas. Sem adição de ácido

cítrico, o tratamento térmico deve ser mais longo; a

conservação do açaí durante 10 dias a + 4 ºC é boa, mas

a polifenoloxidase pode se reconstituir parcialmente

durante a armazenagem se a temperatura de

pasteurização for inferior a 85 ºC (Rogez, 2000).

A pasteurização a 90°C por cinco minutos e

fervura por um minuto demonstraram eficiência na

erradicação dos microrganismos, manutenção das

características sensoriais e conservação do suco de açaí

por 120 dias a -18 °C (Sousa et al., 2006).

Atualmente a grande vantagem da pasteurização

é que há eliminação do Tripanossomo cruzi, protozoário

causador da doença de chagas.

Tecnologia de obstáculos

A conservação da polpa de açaí pelo

congelamento agrega um elevado custo ao produto.

Um processo alternativo de conservação seria a

aplicação da tecnologia de obstáculos, que é uma

opção simples e viável, além de possibilitar o

processamento in situ, a economia de energia e de

gastos com instalações de câmaras frigoríficas. Desta

maneira, a refrigeração pode ser substituída por

barreiras, tais como atividade de água, pH ou

potencial redox, que não consomem energia e, ainda

garantem a estabilidade e segurança do alimento.

A utilização de combinação dos seguintes

fatores: tratamento térmico (70°C por 3 minutos),

diminuição do pH (adição de ácido cítrico) a valores

variando entre 3,2 e 3,6 dependendo da formulação, adição

de sorbato de potássio (0,2% p/p) e redução da aw (0,89 –

0,97) pela adição de sacarose (0, 25, 35, 45 e 55% p/p),

garante um produto microbiologicamente estável por 5

meses à temperatura de 25°C (Carneiro , 2000).

Alexandre et al. (2004), aplicou os seguintes

conjuntos de fatores: 40% de sacarose (formulação 2); 40%

de sacarose e 0,15% de sorbato de potássio (formulação 4);

ou 25% de sacarose e 0,075% de sorbato de potássio

(formulação 5) e obteve produtos aceitos sensorialmente

após os 5 meses de armazenamento e observou que, na

ausência de sorbato de potássio, alta concentração de

sacarose foi necessária para a conservação do açaí

(formulação 2), sendo que, a concentração de sacarose

pode ser diminuída na presença de sorbato de potássio

(formulação 5) na conservação do açaí.

10.15 Mercado e Comercialização

Consumo do açaí no Sul do Brasil

A demanda por açaí em nível racional cresceu

muito nestes últimos anos. A divulgação do açaí nos

Estados do Sul do Brasil foi feita pelo intermédio de uma

propaganda gratuita: novelas e emissoras de televisão,

canções, revistas e periódicos do Sul, principalmente. Ao

contrário da Região Norte, o perfil do consumidor é de

classe média á alta porque o preço é alto. A imprensa

afirma que os jovens da chamada “geração saúde” foram

atraídos pelas suas propriedades calóricas e medicinais

(Veja, 1996; Gazeta Mercantil, 1998).

Segundo Mourão (1998), o Rio de Janeiro

importava, em 1992, apenas 5 t de açaí no total do

ano. Em 1996, a quantidade já passava a 180 t/mês,

neste mesmo ano, os Estados de Goiás, São Paulo,

Minas Gerais e Rio Grande do Sul importavam, no

total, 300 t/mês. Em 1997, a importação mensal total

ultrapassava as 600 t (durante o verão). O Ministério

da Agricultura (Seção do Estado do Pará) comunica

que o volume legalmente exportado do Pará durante

o ano de 1998 foi aproximadamente de 2.000 t.

Porém, com base nos volumes de produção de alguns

empresários entrevistados, a quantidade realmente

exportada deve ser bem maior, na ordem de 8.000 t.

A totalidade deste açaí é comercializada sob forma

congelada e a maior parte dos empresários exportam

um açaí muito diluído, para compensar os custos

elevados de congelamento, armazenagem em

câmaras frias e transporte frigorífico.

Mesmo que as quantidades exportadas para o

Sul do Brasil continuem pequenas, comparando-se

com os volumes diariamente consumidos apenas

cidade de Belém, elas representam uma fonte

significativa de entrada de dinheiro para o Estado por

meio dos empresários e da taxação ao contrário do

açaí consumido em Belém, que é quase totalmente

comercializado de maneira informal. (Com efeito, o

decreto n0

288 do Estado do Pará (Governo do

Estado, 1995) isenta a polpa de cupuaçu e o açaí de

qualquer taxa ou imposto dentro do Estado.

O aumento do consumo no Sul do país vai,

obviamente, de par com o aumento da venda dos

fabricantes da região Norte. Por exemplo, a CAMTA

- Cooperativa Mista do município de Tomé-Açu, a

primeira indústria de polpas congeladas do Pará, viu

seu lucro bruto de 1996 (US$ 100.000) quadruplicar

em 1997 (para um volume de 140 t/ano) (Mello,

1998). Ela possui atualmente a capacidade de

absorver 50 T de frutos diariamente para a elaboração

de 30 t de açaí. A maior parte dos frutos provém por

via terrestre do município de Cametá. Ela destina

principalmente seu açaí para o mercado de São Paulo

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 139

(distribuidores) e parece se preocupar seriamente

com a qualidade de seu produto (Roges, 2000).

Fabricação do açaí

A bebida açaí é obtida a partir da polpa da

fruta e de água. Divide-se em três tipos,

caracterizados pelo seu nível de diluição. Trata-se do

açaí fino (o mais diluído e, portanto, o mais barato no

mercado), o açaí médio e o açaí grosso. Esses tipos

são caracterizados oficialmente por normas de

qualidade, segundo o seu teor em matéria seca, isto é,

segundo a quantidade de matéria sobrando depois da

evaporação total da água.

A fabricação do açaí comporta duas etapas

principais: o amolecimento e o despolpamento. A

forma de realizar essas etapas influencia muito na

qualidade e no rendimento do açaí.

O amolecimento dos frutos consiste em deixá-

los na água morna. Os tempos e temperaturas ideais

de amolecimento são função da proveniência dos

frutos (isto é, o fabricante tem que conhecer a região

de proveniência dos frutos de açaí), da sua

maturidade e do período do ano. O tempo de

amolecimento oscila em média entre 10 e 60 minutos.

Não é bom ter tempos longos de amolecimento pois

uma parte dos pigmentos dos frutos passam para a

água e já pode ocorrer um aumento da contaminação

dos frutos.

O despolpamento ou batida dos frutos de açaí

é feito em máquinas elétricas “tradicionais”, a tambor

vertical (Figura 10.11).

O açaí é obtido por atrito dos frutos (daí o

nome “batida”). A adição progressiva da água

provoca a formação de uma emulsão que passa

através de uma peneira com furos de 0,6 mm, na

parte inferior do tambor.

A água é adicionada em várias frações, e a

maneira de adicionar essas frações influencia também

a qualidade e o rendimento do açaí obtido.

Figura 10.11 – Despolpadeira de açaí.

Fluxograma 10.1. Fluxograma para a obtenção da

polpa congelada de açaí.

O tempo de batida varia entre 3 e 10 minutos.

Um tempo elevado (maior do que 5 minutos) provoca

um aumento do rendimento, porém uma diminuição

da qualidade do açaí: componentes do caroço passam

para o açaí, e a maior incorporação de ar no açaí

acelera a sua degradação. Freqüentemente, um tempo

de batida de 4,5 a 5,5 min provoca uma separação

eficiente entre a polpa e o caroço, sem prejudicar a

qualidade do açaí. Porém o tempo ideal de batida e a

maneira de adicionar a água têm que ser adaptados

para cada máquina.

A polpa é comercializada em embalagem de sacos

de plásticos, podendo ser consumida imediatamente após

o processamento ou após congelamento.

Extração e beneficiamento do palmito

Em plantios comerciais de açaizeiros, a extração

do palmito pode ter início cinco ou seis anos após o

plantio, devendo-se cortar as plantas que apresentem

diâmetro do tronco igual ou superior a 7 cm.

Em açaizais com essa idade, obtêm-se perto de

duas mil plantas aptas para corte por hectare/ano. Essas

plantas apresentam um palmito com peso médio da

parte aproveitável de 300g, comprimento de 50cm e

diâmetro de 2,5cm, constituindo-se em produto de

qualidade superior. Cada palmito com tais

características proporciona rendimento de 500g de

produto industrializado.

O processo de beneficiamento do palmito é

simples e quase todo manual, requerendo poucos

equipamentos complexos. No caso de industrias de

maior porte, são necessários caldeiras e recravadoras de

latas. A maioria das fases do processo, entretanto, é feita

manualmente e depende de grande quantidade de mão-

Recepção dos frutos

Lavagem

Imersão em água

Tratamento dos frutos

Despolpamento

Sementes Polpa

Pasteurização

Embalagem

Congelamento

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 140

de-obra. No fluxograma 2, são apresentadas todas as

fases do processamento industrial do palmito.

Fluxograma 2 – Etapas do processamento industrial

do palmito.

10.16 Coeficiente técnico

Devido à presença da enzima peroxidase após

o descascamento, o palmito do açaizeiro deve

permanecer imerso em solução contendo sal e ácido

cítrico, a fim de evitar a oxidação.

Quadro 10.3 – Coeficiente de produção para

implantação e manutenção de 1 ha de açaizeiro.

Discriminação Unidade 1º Ano 2º Ano

Fruto Palmito Fruto Palmito

Preparo da área

Roçagem d/h* 6 6 - -

Plantio

Marcação d/h 1 2 - -

Abertura de covas d/h 6 25 - - Adubação / plantio d/h 1 3 - -

Plantio d/h 1 3 - -

Tratos culturais d/h Roçagem d/h 8 8 8 8

Coroamento d/h 4 8 4 8

Desbaste d/h - - 1 2 Cobertura morta d/h 3 3 3 3

Adubação d/h 1 2 2 4

Insumos Piquetes un. 400 2.500 - -

Adubos kg 120 360 120 360

Calcário kg 100 250 - - Esterco m3 2 5 2 5

Mudas un. 420 2.600 - -

Fonte: Embrapa (1995). * d/h = dia homem.

10.17 Referências

ALEXANDRE, D.; CUNHA, R. L.; HUBINGER, M.

D. conservação do açaí pela tecnologia de obstáculos.

Ciências e Tecnologia de Alimentos, Campinas,

v.24, n.1, p.114-119, jan.-mar. 2004.

BASTOS, T. X.; OLIVEIRA, M. do S. P. de;

PACHECO, N. A; MULLER, A. A. Indicativo

climático para o cultivo do açaizeiro em ambiente

de terra firme no Estado do Pará. 1ª aproximação.

Embrapa Amazônia Oriental, Belém, 2006. 4p.

(Comunicado Técnico, nº. 159).

BOVI, M. L. A. Pesquisas em desenvolvimento com

o açaizeiro no Instituto Agronômico. O Agronômico,

Campinas, v.36, n.2, p.155-178, 1984.

BOVI, M. L. A.; GODOY JUNIOR, G.; SÁES, L. A.

Correlações fenotípicas entre caracteres da palmeira

Euterpe edulis. Mart. e produção de palmito. Revista

Brasileira de Genética, Ribeirão Preto, v.14, n.3,

p.105-121, 1991.

CALBO, M. E. R.; MORAES, J. A. P. V. de. Efeitos

da deficiência de água em plantas de Euterpe

oleracea (açaí). Revista Brasileira de Botânica, São

Paulo, v.23,n.3, p.225-230, set. 2000.

CALZAVARA, B. B. G. As possibilidades do

açaizeiro no estuário amazônico. Belém:FCAP,

1972. 103p. (Boletim da Faculdade de Ciências

Agrárias do Pará).

Recepção da matéria prima

Estocagem

Primeira descasca

Transporte

Segunda descasca

Corte

Tanque de salmoura

Enchimento com

salmoura

Seleção e enlatamento

Pré-aquecimento

Completamento com salmoura

Recravação

Cozimento

Resfriamento

Embalagem

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 141

CARNEIRO, F. R. B. D. Conservação de Polpa de

Açaí por Métodos Combinados, 2000. 135p.

Dissertação de Mestrado em Engenharia de

Alimentos –Faculdade de Engenharia de Alimentos,

UNICAMP, Campinas.

HAAG, H. P.; SILVA FILHO, N. L. Da;

CARMELLO, Q. A. De C. Carência de

macronutrientes e de boro em plantas de açaí

(Euterpe oleracea Mart.). In: CONGRESSO

NACIONAL SOBRE ESSÊNCIAS NATIVAS, 2.,

1992, São Paulo, SP. Anais... São Paulo: Instituo

Florestal, 1992. v.2, p.477-479.

IBGE. Anuário Estatístico do Brasil. Rio de

Janeiro, 1993-1999. v.53-59.

JARDIM, M. A. G. Morfologia e ecologia do

açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.) e das

etnovariedades (Espada e Branco) em ambiente de

várzea do Estuário Amazônico. Belém - PA. 2000.

119 p. Tese (Doutorado em Botânica Aplicada) -

Universidade Federal do Pará, Belém.

JARDIM, M.A.G. Aspecto da biologia reprodutiva

de uma população natural de açaizeiro (Euterpe

oleraceae Mart.) no estuário amazônico. 1991, 90p.

(Dissertação de Mestrado em Agronomia) – Escola

Superior de Agricultura Luiz de Queiroz.

JARDIM, M.A.G.; ANDERSON, A. B. Manejo de

populações nativas de açaizeiro (Euterpe oleraceae

Mart.) no estuário amazônico: resultados

preliminares. Boletim de Pesquisa Florestal.

Curitiba, 15, p.01-19, 1987.

LORENZI, H. Palmeiras no Brasil: exóticas e

nativas. Nova Odessa, SP:Editora plantarum, 1996.

NOGUEIRA, O. L. A cultura do açaí. Brasília:

EMBRAPA-SPI, 1995. 50p. (Coleção plantar; 26).

NOGUEIRA, O. L. Regeneração, manejo e

exploração de açaizais nativos de várzea do

estuário amazônico. Belém: UFPA, 1997. 149p.

(Tese de Doutorado).

OHASCHI, S. T. Variação genética em populaces

de açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.) do estuário

amazônico. 1990. 119p. (Dissertação de Mestrado

em Agronomia) – Escola Superior de Agricultura

Luiz de Queiroz.

OLIVEIRA, M. do S. P. de.; CARVALHO, J. E. U.;

NASCIMENTO, W. M. O. Açaí (Euterpe oleracea

Mart.). Jaboticabal: Funep, 2000. 52p. (Série Frutas

Nativas, 7).

OLIVEIRA, M. do S. P. de.; FERNANDES, G. L. Da

C. Repetibilidade de caracteres do cacho de açaizeiro

nas condições de Belém-PA. Revista Brasileira de

Fruticultura, v.23, n.3, p.613-616, dezembro 2001

OLIVEIRA, M. do S. P. de.; FRIAS NETO, J. T. de.

Cultivar ‘Para’: açaizeiro para produção de frutos em

terra firme. Informativo da Sociedade Brasileira de

Fruticultura. Ano XXIII, n.4, p.3, 2004.

OLIVEIRA, M. do S. P. de.; LEMOS, M. A.;

SANTOS, V. F. Dos; SANTOS, E. O. Dos.

Correlações fenotípicas entre caracteres vegetativos e

de produção de frutos em açaizeiro. Revista

Brasileira de Fruticultura, v.22, n.1, p.01-05, abril

2000.

OLIVEIRA, M. do S. P. de.; MÜLLER, A. A.

Caracterização e avaliação de germoplasma de

açaí (Euterpe oleracea Mart.). Belém: Embrapa-

CPATU, 1998. 3p. (Embrapa-CPATU. Pesquisa em

Andamento, 167).

OLIVEIRA, M. do S. P. de; CARVALHO, E. R. de;

NASCIMENTO, W. M. O. do; MULLER, C. H.

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Frutos.

Belém: Embrapa-CPATU, 18p. 2002. (Circular

Técnica, 26).

RIBEIRO, G. D. Açaí-solteiro, uma boa opção de

exploração agrícola em Rondônia. Disponível em

<www.todafruta.com.br>. Acesso em 20/11/2007.

ROGEZ, H. Açaí: preparo, composição e

melhoramento da conservação. Belém:EDUFPA,

2000. 313p.

SILVA, B. M. da S. e.; MÔRO, F. V.; SADER, R.;

KOBORI, N. N. Influência da posição e da

profundidade de semeadura na emergência de

plântulas de açaí (Euterpe oleracea mart. -

arecaceae). Revista Brasileira de Fruticultura,

Jaboticabal - SP, v. 29, n. 1, p. 187-190, Abril 2007

SOUSA, M. A. da C.; YUYAMA, L. K. O.

AGUIAR, J. P. L.; PANTOJA, L. Suco de açaí

(Euterpe oleracea Mart.): avaliação microbiológica,

tratamento térmico e vida de prateleira. Acta

Amazônica, VOL. 36(4) 2006: 483 – 496.

SOUZA, L. A. de; OLIVEIRA, M. do S. P. de.

Insetos prejudiciais ao açaizeiro e seus controles.

Belém:Embrapa-CPATU, 1999. 3p. (Embrapa-

CPATU. Comunicado Técnico, 4).

SOUZA, P. C. A. de. Aspectos ecológicos e

genéticos de uma população natural de Euterpe

oleracea Mart. no estuário amazônico. 2002. 60p.

(Dissertação de Mestrado em Recursos Florestais) –

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”,

Universidade de São Paulo.

Cultivo do açaizeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 142

VIÉGAS, I. de J. M.; FRAZÃO, D. A. C.;

THOMAZ, M. A. A.; CONCEIÇÃO, H. E.

O. da; PINHEIRO, E. Limitações

nutricionais para o cultivo de açaizeiro em

Latossolo amarelo textura média, Estado do

Pará. Revista Brasileira de Fruticultura,

Jaboticabal - SP, v. 26, n. 2, p. 382-384,

Agosto 2004.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 143

11 CULTURA DO CUPUAÇUZEIRO

11.1 Aspectos Sócio-Econômicos

O cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum

Willdenow ex Sprengel) Schumann), é nativo da

Amazônia, e atualmente faz parte como um dos

principais coadjuvantes em estratégias para o

desenvolvimento agroflorestal da região amazônica.

O fruto fornece dois importantes componentes

comerciais, a polpa, que é utilizada na fabricação de

sucos, sorvetes, cremes, doce, néctar, geléias e outras

iguarias, e as sementes, que são utilizadas para

extração do chocolate branco, denominado de

“cupulate”, muito semelhante ao chocolate do cacao

(Theobroma cacao). Não se tem disponível dados

precisos do agronegócio do cupuaçuzeiro no Brasil,

principalmente por ser um mercado muito formal,

mas sabe-se que a demanda aumenta a cada ano,

principalmente pela introdução e ótima aceitação da

polpa nas demais regiões brasileira e uma pequena

parcela no mercado externo. Além disso, a

comercialização da semente vem para aumentar a

renda do produtor e fortificar o agronegócio do

cupuaçu.

A fruticultura na Amazônia têm se destacado

como uma das mais importantes atividades agrícolas

da região, com destaque para a banana e para as

frutas nativos, como o açaí e o cupuaçu,

principalmente. O grande potencial da cultura do

cupuaçuzeiro estar na característica peculiar da polpa

do seu fruto, com flavor característico, que o difere

dos demais frutos tropicais, inclusive do cacao, seu

parente próximo.

A área de cultivo do cupuaçuzeiro vem sendo

ampliada quer seja em plantios solteiros ou em

consórcio, como componente indispensável dos

Sistemas Agroflorestais –SAF’s, técnica de cultivo

ou manejo agrícola recomendada para a região.

A produção de cupuaçu é concentrada na

região Norte, sendo o principal estado produtor o

Pará, seguido do Amazonas, Rondônia e Acre

(Siqueira et al., 1998).

A evolução da área plantada na Amazônia foi

aquecida nos meados da década de 90, crescimento

representado aqui pela evolução da área plantada no

estado do Amazonas, que em 1991 possuía apenas

331 ha de plantio comercial, alcançou 1.000 ha em

1995 e atingiu uma área plantada de 5.438 ha em

1997 (Souza et al., 1998b).

Dependendo do sistema de comercialização

empregado, a polpa de cupuaçu vendida ao

consumidor (sorveterias, lanchonetes, hotéis ou

consumidor doméstico) pode variar de R$ 1,75 a 3,50

o kilograma na safra (janeiro a maio) e na entre-safra

o preço pode chegar a R$ 7,00 (Souza et al., 1998b).

Porém, a área de cultivo é composta por

pequenos plantios comerciais, com baixos índices

tecnológicos, implantados de maneira desordenada,

com material de baixo valor genético, na sua grande

maioria sem uso de práticas culturais como a poda de

limpeza e fitossanitária, adubação, controle de

invasoras, controle de pragas e doenças, o

espaçamento é inadequado e a falta de conservação

pós-colheita são pontos que comprometem a

produtividade e a longevidade das planta (Silva,

1996; Souza et al., 1998b).

O aumento da área plantada aponta para uma

urgente necessidade de estudos e ações que visem a

identificação e abertura de novos mercados no Brasil

e no exterior, de forma a evitar uma frustração dos

novos produtores, ocasionanda por um desequilíbrio

entre a oferta e demanda do produto, o que

fatalmente, alteraria a atual estrutura de preço/custo

da atividade (Souza et al., 1998b).

A falta de uma variedade melhorada é um dos

principais fatores que limitam a expansão da cultura

do cupuaçu na Amazônia. O uso de sementes de

materiais genéticos não selecionados e de diversas

origens resulta em plantios com grande

desuniformidade (Souza et al., 1998a). Essa

desuniformidade, principalmente nos caracteres dos

frutos, como tamanho desuniforme, diferentes

rendimentos em polpa e qualidade da polpa é um dos

grandes problemas identificado junto a agroindústria

e segmentos de comercialização (Souza et al.,

1998b).

Outro grande problema da cultura do

cupuaçuzeiro na região são os danos causados por

doenças e praga, especificamente pela vassoura-de-

bruxa (Crinipellis perniciosa (Stahel) Singer) e pela

broca-do-fruto (Conotrachelus sp (Coleoptera:

Curculionidae) (Lima e Souza, 1998; Souza et al.,

1999).

A cultura é altamente suscetível a esta doença,

constituindo-se a alta incidência em ponto de

estrangulamento para implantação de cultivos

racionais. Sua incidência reduz drasticamente a

produção de frutos, podendo ser total com o passar

dos anos (Gasparotto et al., 1999). Para a vassoura-

de-bruxa, já vem sendo desenvolvido estudos com

objetivo de identificar genótipos de cupuaçuzeiro

resistente ao fungo, com resultados promissores

(Souza et al., 1998a).

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 144

11.2. Origem, Dispersão, Botânica e Ecologia

Classificação Botânica

Nome comum: Cupuaçu, Cupuaçu-verdadeiro, cupu

(Brasil); Copoasu (Colômbia)

Ordem: Malvales

Família: Sterculiaceae

Gênero: Theobroma

Espécie: Theobroma grandiflorum (Willd. Ex

Spreng.) Schum.

Origem e distribuição

E encontrada, espontaneamente, nas matas de

terra firme e várzea alta, na parte sul e leste do Pará,

abrangendo as áreas do médio Tapajós, Rios Xingu e

Guamá, alcançando o nordeste do Maranhão,

principalmente nos Rios Turiaçu e Pindaré. Está

distribuída por toda a Bacia Amazônica, parte do

Maranhão e, ocasionalmente, em outros países, como

a Colômbia, a Venezuela, o Equador e a Costa Rica.

Descrição botânica

Árvore com altura média de 6m a 10m,

podendo ocorrer até 20 m, e diâmetro de copa em

torno de 4m a 7m. Tronco geralmente reto com

ramificações tricotômicas, casca marrom-escura,

fissurada.

O cupuaçuzeiro apresenta ramos ortotrópicos,

que crescem verticalmente, e ramos plagiotrópicos,

que crescem lateralmente. O crescimento em altura

do tronco não é contínuo. A muda cresce

verticalmente de 60 cm a 1,0 m, quando o

crescimento é interrompido, surgindo três ramos

plagiotrópicos, constituindo-se em um conjunto

denominado tricotomia. O ramo ortotrópico cresce e

novas tricotomias são formadas, ocorrendo o

crescimento da planta em altura.

As folhas são inteiras, simples, coriáceas, com

15 cm a 50 cm de comprimento por 5 cm a 15 cm de

largura, ápice acuminado, base arredondada, margem

inteira ou sinuosa em direção ao ápice, geralmente

coberta de pêlos, que se soltam facilmente com o

manuseio. A coloração é verde, pouco brilhosa na

face superior e verde-glauco ou róseo-pálida na face

inferior; quando jovem, a coloração é rósea.

As flores são as maiores do gênero, ocorrem

nos ramos, pedúnculos de 1 cm a 3 cm, de coloração

vermelho-escura, cálice com 5 sépalas espessas,

triangulares, livres ou parcialmente unidas, corola, 5

pétalas, cada uma com sua base em forma de cógula e

a parte superior laminar, subtrapezoidal ou

suborbicular, cor roxo-escura, ligada à cógula por

uma porção estreitada em forma de calha; 5

estaminóidios, triangular-lingüiformes, vermelho-

escuros, 5 estames, localizados no interior da cógula

com três anteras biloculares; ovário pentagonal,

obovado, com 5 lóculos multiovulados.

O fruto é uma baga com extremidades obtusas

ou arredondadas, com diâmetro de 9 cm a 15 cm,

comprimento de 10 cm a 40 cm, peso variando de

300g a 4.000g, com média de 1.500g. A maturação é

facilmente reconhecível em razão do cheiro

agradável que exala, quando o fruto abscide. O

epicarpo é de cor castanho-escura, duro, porém

facilmente quebrável e recoberto de pêlos ferrugíneos

e o mesocarpo é branco-amarelado e esponjoso. A

polpa é abundante, ácida, com odor ativo, coloração

amarela, creme ou branca e sabor muito agradável.

As sementes, em número de 15 a 50, apresentam-se

superpostas em torno da placenta e longitudinalmente

dispostas em relação ao comprimento do fruto, são

ovóides ou ovóide-elipsóides, de 2,0 cm a 3,0 cm de

comprimento, 2,0 cm a 2,5 cm de largura, 1,0 cm a

1,8 cm de espessura, com peso de 4 g a 7 g. Cerca de

24% a 50% do peso do fruto é da polpa, 10% a 29%

de casca e 2% a 4% de placenta. Nos frutos sem

sementes o percentual de polpa é de 60% a 68%.

11.3 Ecofisiologia

O cupuaçuzeiro se desenvolve em

temperaturas relativamente elevadas, com média

anual de 21,6 0C a 27,5

0C, umidade relativa média

anual de 77% a 88% e precipitações médias anuais na

faixa de 1.900mm a 3.100mm (Diniz, 1984).

Períodos secos prolongados são prejudiciais às

plantas, causando queda de flores e frutos novos. E

comum o aparecimento de frutos com rachaduras

quando ocorrem chuvas após um período de estiagem

prolongado. Tais condições provocam rápido

crescimento dos frutos, resultando em rachaduras

nestes. O florescimento é influenciado e pela idade da

planta, material genético, competição por

fotoassimilados, sombreamento, temperatura e

distribuição da precipitação. Normalmente, a planta

começa a florescer com dois a três anos após o

plantio, sendo que plantas sombreadas florescem

mais tarde. A floração ocorre na época mais seca do

ano, que em Manaus corresponde a julho a setembro.

A safra ocorre no período chuvoso (outubro a junho)

com pico em março. O tempo transcorrido desde a

polinização até à colheita, varia de 4,5 meses a 6

meses. A distribuição das chuvas durante o ano é

mais importante que o total anual, constituindo-se

importante fator de controle dos lançamentos foliares,

do florescimento e distribuição da safra.

O cupuaçuzeiro é uma planta sensível a ventos

fortes, principalmente na época da safra, quando os

ramos ficam mais pesados por causa dos frutos,

podendo ocorrer danos físicos, como quebra de

ramos e rachaduras do caule sendo mais sujeitas as

plantas com formação de copa contendo uma única

tricotomia. Isto pode também estar associado a

problemas nutricionais envolvendo o cálcio.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 145

11.4 Melhoramento Genético

Variabilidade genética em Theobroma

grandiflorum

O cupuaçuzeiro apresenta variabilidade

genética em diversos caracteres, como: resistência ou

susceptibilidade à doenças, caracteres de produção,

características do fruto, do sistema reprodutivo,

dentre outras.

Produção e características dos frutos

Análise conjunta do segundo ao sétimos ano

de cultivo, de progênies meio irmãos de cupuaçuzeiro

realizadas por Souza et al. (1998a), apresenta

diferença, com maior média de frutos/planta (24,5)

para a progênie MA-P-8401 (Figura 11.1). Médias

bastante representativas, pois avaliação individual de

apenas um ano podem apresentar erros grotescos,

uma vez que o cupuaçuzeiro apresenta alternância de

produção (Souza, 1994).

0

5

10

15

20

25

MA-P

-840

1

MA-P

-840

2

MA-P

-840

3

MA-P

-840

4

MA-P

-840

5

MA-P

-840

6

MA-P

-840

7

Progênies

Fru

to/p

lanta

a

c

d

b

c

d

e

Figura 11.1 – Número de frutos por planta de

genótipos de cupuaçuzeiro.

O peso médio de frutos varia de

aproximadamente 887 g (MA-P-8405) a 1137 g

(MA-P-8406). A estimativa de rendimento de frutos

em quilograma por hectare, das progênies MA-P-

8401 e MA-P-8404, foi 4923 e 4242 kg de fruto/ha,

respectivamente.

A progênie MA-P-8401, pelo conjunto das

características avaliadas, foi a mais produtiva,

considerando a média das safras de 1989 a 1995, com

maior média para o número de frutos por planta e

rendimento em polpa. No entanto, há necessidade de

se fazer acompanhamento por mais safras e em

outros locais, principalmente para avaliar a

estabilidade da produção em relação a outras

condições edafoclimáticas (Souza et al., 1998a).

Destas progênies, a MA-P-8403 apresenta

maior resistência à vassoura-de-bruxa, enquanto a

MA-P-8404, é a mais susceptível (Souza, 1994).

Sousa e Sousa (1997) avaliando genótipos

quanto a quantidade de polpa, os que superaram a

produtividade de 2 ton. de polpa/ha foram BG-C-

8506, BG-C-8504 e IR-C-8504. No intervalo de 1 a 2

ton de polpa/ha, estão os clones MA-C8503, BG-C-

8502, BG-C-8508, IRC-8503, BG-C-8501, BG-C-

8503, BG-C-8505, BG-C-8505, BG-C-8507, Bc3-C-

8509, IR-C-8505, PF-C-8502, OD-C-8503 a MA-C-

8504. Com produção inferior de 1 ton. de polpa/ha,

foram identificados os clones MA-C-8502, OD-C-

8501, ODC-8502. A menor produção foi do clone

PF-C-8501 com 387,6 Kg de polpa/ha. Os dados de

produção de polpa são conservados na coleção de

recursos genéticos de cupuaçu (Sousa e Sousa, 1997).

Analizando a Tabela 11.1, com a Figura 11.1,

é possível verificar, que o cupuaçu tem alternância de

produção, pois nas safras de 1991 e 1992, quatro

genótipos apresentam a mesma produção de frutos

por planta (MA-P-8401, MA-P-8402, MA-P-8403 e

MA-P-8404), enquanto que a média de produção

entre 1988/89 a 1994/95, o genótipo MA-P-8401

apresenta superioridade na produção.

Tabela 11.1 – Características de produção de plantas meios-irmãos de cupuaçuzeiro, avaliados em Manaus-AM,

durante 1991 e 1992. (Adaptado de Souza, 1994).

Progênie Nº

Fruto/

Planta

Peso

Fruto (g)

Frutos

por planta

(kg)

Polpa/

fruto (g)

Peso

amêndua

(g)

Peso

casca/

fruto (g)

Placenta

por fruto

(g)

Polpa/

planta

(kg)

Amêndua/

planta (kg)

MA-P-8401 27,9ab* 993,7ab 27,4ab 346,9b 165,5a 456,8 24,5 b 9,42 ab 4,62a

MA-P-8402 30,0a 1058,9ab 32,2a 407,0ab 142,6ab 479,0 30,4ab 12,22 a 5,24ab

MA-P-8403 22,1abc 981,7ab 21,5ab 346,4b 141,18ab 467,8 26,3 b 7,60 ab 3,11abc

MA-P-8404 27,8ab 1006,5ab 28,0a 348,5b 158,2ab 462,2 37,6 a 9,44 ab 4,54a

MA-P-8405 11,9c 945,4b 11,5b 362,9b 151,5ab 406,6 24,3 b 4,44 b 1,88c

MA-P-8406 16,1abc 1218,0a 18,4ab 481,2a 167,4a 541,5 27,9ab 6,94 ab 2,63abc

MA-P-8407 15,0bc 1060,3ab 16,7ab 354,9b 131,5b 546,5 27,4 b 5,51 b 2,0bc

* Medias seguidas de mesma letra não diferem significativamente pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade.

Quanto a qualidade da polpa desses mesmos

genótipos (Tabela 11.2), verifica-se que apesar da

progênie MA-P-8401 conter um dos maiores teores

de SST, possui também, uma das maiores acidez,

contribuindo para uma baixa relação SST/ATT.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 146

Tabela 11.2 – Características química e físico-

químicas de plantas meios-irmãos de cupuaçuzeiro,

avaliados em Manaus-AM, durante 1991 e 1992.

(Adaptado de Souza, 1994).

Progênie SST

(%)

pH ATT

(%)

Ratio

SST/ATT

MA-P-8401 14,36 a* 2,98 b 2,8 a 5,28 bc

MA-P-8402 13,33 ab 3,23 a 1,96 b 7,14 a

MA-P-8403 12,67 b 3,24 a 2,05 b 6,40 ab

MA-P-8404 13,57 ab 2,98 b 2,65 a 5,40 bc

MA-P-8405 13,65 ab 3,01 b 2,35 ab 6,09 abc

MA-P-8406 12,99 b 3,01 b 2,65 a 5,03 bc

MA-P-8407 12,58 b 2,91 b 2,68 a 4,87 c

* Medias seguidas de mesma letra não diferem

significativamente pelo teste de Tukey, a 5% de

probabilidade.

Características de matrizes de cupuaçuzeiros

coletados no Acre estão dispostas na Tabela 11.3. A

matriz 12, coletada em Mâncio Lima, possui frutos

de maior comprimento e peso. A matriz 11, com

frutos também grandes, possui maior número de

semente, podendo ser escolhidas para plantios

destinados principalmente para exploração da

semente. A matriz 07, tem maior rendimento de

polpa 46,22%, porém, deve-se levar em consideração

que esta produz frutos pequenos, pesando apenas

1190 g, enquanto os frutos das matrizes 11 e 12

pesam 1695 e 1965 g. Portanto, neste caso deve-se

conhecer a produção de fruto por planta para estimar

a produção de polpa e de semente por área

(produtividade) na tomada de decisão pelo material

de formação do pomar.

Tabela 11.3 – Altura da planta (AP), circunferência do caule (CCA) e diâmetro da copa (DCO) e médias,

amplitude e coeficiente de variação dos caracteres: comprimento do fruto (CF), espessura da casca (EC), peso do

fruto (PF), número de sementes por fruto (NS), percentagem de casca (%C) e percentagem de polpa (%P) de 12

matrizes de cupuaçuzeiro selecionadas no Acre. Rio Branco, 1992. Matriz Município AP

(m)

CCA

(cm)

DCO

(m)

CF

(cm)

EC

(cm)

PF

(g)

NS %C %P

01 Rio Branco 2,9 32,0 4,0 23,00 0,98 1427 34 43,43 39,75 02 Mâncio Lima 8,0 40,0 3,0 25,00 0,60 1030 29 39,80 42,00

03 Mâncio Lima 10,0 65,0 6,0 24,75 1,00 1167 39 49,68 34,47

04 Rio Branco 5,0 41,0 2,7 27,75 0,96 1810 38 39,78 33,15 05 Rio Branco 2,8 34,0 2,8 22,00 0,40 1370 35 39,42 43,80

06 Rio Branco 4,0 37,0 4,4 22,50 0,60 1001 30 40,46 38,96

07 Rio Branco 2,0 37,0 6,4 23,00 0,55 1190 42 36,34 46,22 08 Rio Branco 2,5 38,0 6,4 23,75 0,95 1550 34 43,55 42,58

09 Rio Branco 2,0 30,0 5,0 22,25 0,95 1287 29 48,15 35,73

10 Rio Branco 2,0 33,0 6,4 24,00 0,80 1160 39 43,96 40,09 11 Cruzeiro do Sul 6,0 66,0 7,0 27,00 1,00 1695 44 50,44 37,76

12 Mâncio Lima 9,0 94,0 6,0 32,00 0,90 1965 37 50,13 36,64

Máximo - - - - 32,00 1,00 1965 44 50,44 46,22

Mínimo - - - - 22,00 0,40 1001 29 36,34 33,15

Média - - - - 24,75 0,81 1388 36 43,76 39,26

C.V.(%) - - - - 5,28 7,16 11,53 11 4,50 4,99

Fonte: Costa e Ledo (1997).

Em outra avaliação de genótipos meio-irmão

de cupuaçuzeiro no Acre, dos 31 genótipos avaliados,

os 2, 12, 30 e 31 produzem frutos acima de 1600 g,

sendo que deste, o genótipo 12 tem maior rendimento

de popa (56%), devendo-se também conhecer o

número de fruto por planta, para se tomar decisão

adequada no momento da formação do pomar.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 147

Tabela 11.4 – Caracterização fenológica de plantas de cupuaçuzeiro selecionados e de seus frutos, para produção de

genótipos meios-irmãos promissores, nas condições do Estado do Acre. Rio Branco-AC, 1999.

Planta Diâmetro (m) Altura Peso (g) Porcentagem (%) sementes/

Tronco Copa (m) Frutos Polpa* Sementes Casca Fibra Polpa Semente Casca Fibra fruto

1 0,14 6,55 6,30 828,75 330,1 141,6 337,4 19,66 39,83 17,08 40,72 2,37 30

2 0,13 5,80 5,20 1633,73 758,6 199,9 649,2 25,96 46,43 12,24 39,74 1,59 28

3 0,14 6,30 6,00 794,73 337,1 140,8 298,3 18,59 42,42 17,71 37,53 2,34 31

4 0,12 5,60 4,70 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

5 0,14 5,60 4,90 824,25 393,2 126,6 288,7 15,78 47,70 15,36 35,02 1,91 26

6 0,14 5,05 6,50 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

7 0,16 5,65 6,40 1254,22 547,9 193,1 495,2 18,08 43,68 15,39 39,48 1,44 31

8 0,15 5,65 5,50 1006,83 403,7 171,8 397,0 34,37 40,09 17,06 39,43 3,41 28

9 0,13 5,95 6,40 1147,04 453,4 218,9 449,5 25,27 39,52 19,09 39,19 2,20 43

10 0,12 5,45 5,50 931,30 391,5 185,8 333,9 20,10 42,04 19,95 35,85 2,16 26

11 0,11 4,30 5,60 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

12 0,10 4,85 4,50 1964,70 1071,9 240,9 619,9 31,86 54,56 12,27 31,55 1,62 32

13 0,13 5,70 6,60 1366,05 618,6 249,0 472,3 26,08 45,29 18,23 34,58 1,91 40

14 0,10 5,05 5,00 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

15 0,11 5,20 4,45 1292,51 585,4 220,9 461,5 24,61 45,29 17,10 35,71 1,90 39

16 0,11 4,70 5,50 1566,83 726,3 236,4 558,0 46,17 46,35 15,09 35,61 2,95 34

17 0,14 6,05 5,70 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

18 0,15 8,10 7,80 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

19 0,15 6,40 5,05 1541,30 722,6 247,8 531,5 39,39 46,88 16,08 34,48 2,56 42

20 0,13 5,80 6,10 1072,60 487,3 193,0 376,1 16,15 45,43 18,00 35,07 1,51 39

21 0,12 7,93 4,70 899,00 290,0 151,3 433,9 23,70 32,26 16,83 48,27 2,64 30

22 0,16 8,15 7,40 1198,70 456,5 193,9 508,9 39,32 38,08 16,18 42,46 3,28 39

23 0,14 7,85 6,40 780,40 282,9 162,2 322,5 12,86 36,25 20,78 41,32 1,65 40

24 0,16 6,35 8,00 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

25 0,19 6,35 8,50 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

26 0,14 5,75 5,70 -- -- -- -- -- -- -- -- -- --

27 0,16 5,80 6,00 1629,93 685,5 217,6 706,7 20,08 43,36 13,35 43,36 1,23 40

28 0,08 3,05 3,60 1145,50 424,4 282,4 416,0 22,68 37,05 24,65 36,32 1,98 45

29 0,07 2,95 2,90 1028,85 481,9 99,6 432,8 14,50 46,85 9,68 42,07 1,41 26

30 0,46 10,75 11,60 1696,40 764,1 224,0 686,4 21,95 45,04 13,20 40,46 1,29 37

31 0,57 11,52 14,60 2664,90 987,7 391,5 1251,3 34,39 37,06 14,69 46,95 1,29 48

Média 0,15 6,14 p 6,23

Fonte: Gondim et al. (1999).

Resistência a vassoura-de-bruxa

O cupuaçuzeiro apresenta variabilidade

fenotípica expressiva para suscetibilidade a

‘Vassoura-de-bruxa”. Nos acessos da Pré-Amazônia

2 (amazônia maranhense) possivelmente existam

indivíduos com resistência ao fungo Crinipellis

perniciosa e deverão ser objeto de estudos mais

detalhados (Iriarte Martel e Clement, 1997).

Alves et al. (1998), verificaram, após

inoculação do fungo causador da vassoura-de-bruxa,

durante dois anos de avaliação (1994 e 1995), que o

caráter número médio de vassouras por planta,

computando-se simultaneamente os dois anos de

avaliações, revelou existir diferença estatística

significativa entre clones para esse caráter. Os clones

620, 514, 218, 518, 516 e 554 apresentaram níveis de

ataque relativamente baixos, que variaram de 1,1 a

0,1 vassouras em média por planta, quando

comparados com os clones 12, 184 e 347, com

valores superiores a 50 vassouras por planta. Dos 36

clones avaliados, apenas oito ficaram livres da

doença na avaliação final, são eles: 174, 186, 215,

220, 286, 618, 622 e 624 (Tabela 11.5).

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 148

Tabela 11.5. Localização, estado fitossanitário das matrizes que deram origem aos clones de cupuaçuzeiro avaliados

quanto a resistência à vassoura-de-bruxa durante o período de 1994 a 1995 (Alves et al., 1998).

Clone Estado Município Localização Estado

fitossanitário

Stand Numero de vassouras por

planta (Média/planta/ano)2

12 AM Tabatinga Rio Solimões A1 5 59,7 a

184 AM Codajás Rio Solimões S 5 55,1 ab

247 AM Itacoatiara Rio Amazônas A 4 51,4 abc

136 AM Tefé Rio Tefé S 4 39,8 abcd

1074 AM Itacoatiara Rio Amazonas S 3 39,3 abcd

183 AM Codajás Rio Solimões S 5 38,5 abcde

227 AM Cacaupireira Rio Solimões A 4 35,2 abcdef

151 AM Tefé Rio Tefé S 4 31,1 abcdef

219 AM Anamã Rio Solimões S 4 28,9 abcdefg

228 AM Manaus Rio Negro A 3 28,5 abcdefghi

216 AM Manacapuru Rio Solimões S 4 26,8 abcdefghi

248 AM Itacoatiara Rio Amazonas S 5 25,5 abcdefghi

185 AM Codajás Rio Solimões P 4 17,9 abcdefghi

182 AM Codajás Rio Solimões S 2 11,2 bcdefghi

623 PA Alenquer Rio Amazônas A 3 8,8 cdefghi

181 AM Anori Rio Solimões A 3 8,2 cdefghi

512 AP Oiapoque Rio Urucauá A 4 6,6 defghi

513 AP Oiapoque Rio Urucauá A 4 6,5 defghi

229 AM Manaus Rio Negro A 4 4,8 defghi

435 PA Muaná Rio Muaná A 3 4,2 efghi

434 PA Muaná Rio Muaná A 4 3,4 fghi

217 AM Manacapuru Rio Solimões S 2 2,8 fghi

620 PA Santarém Rio Tapajós A 5 1,1 ghi

514 AP Oiapoque Rio Curipi A 3 1,0 ghi

218 AM Caapiranga Rio Solimões A 2 0,5 ghi

518 AP Oiapoque Rio Curipi A 2 0,2 hi

516 AP Oiapoque Rio Curipi A 4 0,1 i

554 PA Gurupá Rio Amazonas A 5 0,1 i

174 AM Coari Rio Solimões S 5 0,0

186 AM Codajás Rio Solimões A 5 0,0

215 AM Manacapuru Rio Solimões S 5 0,0

220 AM Manacapuru Rio Solimões S 5 0,0

286 AM Belém Rio Amazonas A 5 0,0

618 PA Santarém Rio Tapajós A 5 0,0

622 PA Prainha Rio Amazonas A 5 0,0

624 PA Santarém Rio Tapajós S 5 0,0

Disponibilidade de germoplasma

Conforme a classificação de Cuatrecasas

(1964) o gênero Theobroma apresenta 22 espécies

todas originadas na América Tropical. A espécie T.

cacao é a mais cultivada e T. grandiflorum a que

apresenta fruto de maior tamanho. O autor dividiu o

gênero em seis seções: Andropetalum,

Glossopetalum, Oreanthes, Ritidocarpos,

Telmatocarpus e Theobroma. Todas são encontradas

na Amazônia, exceto a seção Andropetalum, a qual é

formada pela espécie T. mammosum encontrada na

Costa Rica.

A espécie T. grandiflorum apresenta 2n = 20

cromossomos (Carletto, 1946), sendo que Clement e

colaboradores, identificaram uma variedade triplóide,

por contagem de 30 cromossomos em célula somática

(Hans Muller, 1995 citado por Silva, 1996).

O cupuaçuzeiro é encontrado espontaneamente

nas matas de terra firme e várzea alta, na parte Sul e

Leste do Pará abrangendo as áreas do Médio Tapajós,

rios Xingu e Guamá, alcançando o Nordeste do

Maranhão, principalmente nos rios Turiaçu e Pindaré

(Silva, 1996).

Também foi encontrado, provavelmente em

estado nativo, no alto Itacaíunas (município de

Marabá-PA) nas áreas de mata baixa, como planta

emergente, ultrapassando os 20 metros de altura, e

também na mata virgem, rala e baixa, entre os

municípios paraenses de Altamira e Itaituba

(Cavalcante, 1976).

Ë encontrado ao longo dos tributários dos

grandes rios, acompanhando os passos da penetração

dos colonizadores, razão pela qual é observado em

regiões distantes de sua área de dispersão natural, tais

como Bahia, Rondônia, Acre, Iquitos (Peru), San

Carlos (Venezuela) e Cali (Colômbia). Encontram-se

residências nas capitais ou interior que possuem

exemplares visando a utilização familiar (Silva,

1996).

Devido a devastação da floresta nativa em seu

centro de diversidade (sub-região no Sul do Pará),

perdendo de uma só vez, 2300 km2 de floresta com a

inundação da represa de Tucuruí na bacia do rio

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 149

Tocantins, onde a espécie ainda é abundante em seu

estado selvagem (Giacometti, 1994).

Na Amazônia brasileira, há vários bancos de

germoplasma de cupuaçu. O Banco de Germoplasma

(BAG) de Cupuaçú do INPA (Instituto Nacional de

Pesquisas da Amazônia), localizado em Manaus, foi

iniciado em 1984 com material coletado antes do

enchimento do lago da Usina Hidrelétrica de Tucuruí,

PA. Foi ampliado por coleta feita ao longo da BR-

316, nos estados de Maranhão e Pará (Pré-Am1 e

Pré-Am2), em 1995. Ao todo são 79 acessos (911

plantas), sendo 22 acessos de Tucuruí e 57 acessos da

Pré-Amazônia maranhense plantados em sub-bosque

de capoeira com espaçamento de 7 x 7m (Iriarte

Martel e Clement, 1997).

O CEPLAC, possui um banco de gene de

cacau em Belém, desde 1976, com seus 1749 acessos

de T. cacao, coletados na Amazônia, compreendendo

sete espécies de Theobroma, incluindo três genótipos

de T. grandiflorum (Giacometti, 1994).

Além desses bancos, existem aqueles dos

centros da EMBRAPA em Manaus (CPAA) 247

acessos, dos quais 247 são clones e 119 famílias; A

EMBRAPA de Belém (CPATU) possui 95 acessos.

No Acre (CPAF/AC) são 43 acesos, em Rondônia

(CPAF/RO) são 36 acessos e no Amapá, a

EMBRAPA (CPAF/AM) possui 50 acessos (Souza e

Silva, 1998;Souza e Silva, 2000).

A coleção da EMBRAPA/CPAA têm procedência

das regiões do Alto Solimões e Baixo e Médio

Amazonas no Estado do Amazonas e, da região de

Bragantina, no Estado do Pará.

O Centro de Pesquisas Agroflorestais do Acre

(CPAF/AC-EMBRAPA), localizado em Rio Branco-

Acre, no ano de 1992, selecionou 12 genótipos meio-

irmãos de cupuaçuzeiro em plantios comerciais e em

áreas de ocorrência espontânea, no estado do Acre.

Em 1996, iniciou-se um trabalho de seleção em uma

área de sistemas agroflorest ais do Projeto RECA

(Reflorestamento Econômico Adensado

Consorciado), localizado em Rondônia, do qual foi

selecionado 31 genótipos (Costa e Ledo, 1997;

Gondim et al., 1999).

Sistema reprodutivo e variabilidade genética

Um estudo bastante significativo sobre sistema

reprodutivo foi desenvolvido por Silva (1996),

utilizando clones (Tabatinga, Tefé, Muaná 1, Coari,

Anamã e Muaná 2) provenientes do Banco Ativo de

Germoplasma do CPATU, nas condições de Belém-

PA.

Polinização aberta

Na flor do cupuaçuzeiro observa-se o

fenômeno de hercogamia, ou seja, ocorrem barreiras

morfológicas formadas pelas cúculas e coroa de

estaminódios, que impedem a autopolinização. A

espécie apresenta, também, sistema de auto-

incompatibilidade, o método mais eficiente de

impedir a autofertilização, indicando que se trata de

uma espécie alógama e excencialmente de

polinização cruzada.

Agamospermia

Os resultados na Tabela 11.6 indicam que o

cupuaçuzeiro requer polinização para que ocorra a

formação de frutos. Mostram, também, que as 100

flores protegidas ao longo do período da floração do

ano de 1995 não iniciaram frutos, indicando que a

espécie não muda o seu comportamento reprodutivo

para tornar-se agamospérmica no decorrer do

florescimento.

Tabela 11.6 – Determinação direta do sistema reprodutivo em função do sistema de polinização em cupuaçuzeiro

em Belém-PA, nos anos de 1994 e 1995.

Sistema de

polinização

Número de flores Número de frutos

iniciados

Percentual

Flor/fruto iniciado

Número de

frutos

maduros

Percentual de

frutos maduros

1994 PAB 73286 912 1,04 157 16,67 AGA 75 0 0 - -

APE 75 0 0 - - APF 75 0 0 - -

PCR 300 214 71,33 17 7,94

1995 PAB 5093 223 4,38 79 35,43 AGA 100 0 0 - -

APE 100 0 0 - - APF 90 0 0 - -

PCR 355 281 79,16 - -

PAB: Polinização aberta; AGA: Agamospermia; APE: Autopolinização espontânea;

APF: Autopolinização forçada (gueitonogamia); PCR: Polinização cruzada.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 150

Autopolinização espontânea

Na Tabela 11.6 observa-se que não há

formação de fruto quando a flor é isolada. O sistema

de hercogamia que a espécie apresenta é muito

funcional e impede a aproximação dos grãos de pólen

da mesma flor, sendo que esta característica não

muda ao longo da floração.

Autopolinização forçada (gueitonogamia)

O sistema de auto-incompatibilidade existente

na espécie mostra-se muito eficiente, pois não há

formação de frutos, com a autopolinição forçada

(Tabela 11.6). Os clones mostraram-se totalmente

auto-incompatíveis.

Os resultados obtidos a partir do experimento

de determinação direta do sistema reprodutivo do

cupuaçuzeiro durante a floração mostra que a mesma

é uma espécie que não é capaz de formar fruto e

semente sem que ocorra a polinização. Portanto o

cupuaçuzeiro não é uma espécie agamospérmica.

Segundo o índice de auto-incompatibilidade

proposto por Zapata & Arroyo (1978) citados por

Silva (1996), a espécie apresenta alto grau de auto-

incompatibilidade e também interincompatibilidade

entre certos genótipos e alta capacidade de

cruzamento, o que permite ser classificada como uma

espécie alógama como forma do sistema reprodutivo.

Para se obter sucesso em polinizações

controladas a maior receptividade do estilete-estigma,

ocorre quatro horas após o início da antese, para

maior possibilidade de sucesso, recomenda - se fazer

a polinização artificial com o botão floral neste

estádio (Antônio et al., 1997). E o estádio da antese

que apresenta maior quantidade de pólen viáveis é o

E (cerca de duas horas depois do inicio da antese,

quando a flor encontra-se completamente aberta). O

pólen permanece com maior viabilidade até 3 horas

após ser retirado da planta (LSD 5 %), até 72 após

pode germinar, mas sua viabilidade é baixa (em torno

de 5 %) Antônio (1997).

Fenologia da floração e frutificação

Na Amazônia, a floração do cupuaçuzeiro

ocorre entre o mês de março a dezembro, variando

com o ambiente e entre ano (Machado e Retto Junior,

1991; Falcão, 1993; Silva, 1996). Além disso, ocorre

dissincronia entre plantas, provavelmente devido a

variabilidade genéticas entre clones (Silva, 1996). Em

estudo realizado nas condições de Manaus, também

observou variação do período de colheita com o ano

agrícola e genótipo. A safra teve duração de setembro

a junho (1987/1987), agosto a julho (89/90),

novembro a junho (1990/91). Mas, de modo geral, a

maturação dos frutos concentrou-se entre janeiro e

maio (Souza, 1994)

0

10

20

30

40

50

60

OUT NOV DEZ JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET

Meses

Pro

dução (

%)

Ano 1

Ano 2

Ano 3

Figura 11.2 - Distribuição da produção do

cupuaçuzeiro durante o ano agríocola (Adaptado de

Souza et al., 1999).

De maneira geral, a floração ocorre no período

mais seco do ano e a frutificação durante a época das

chuvas (Venturieri, 1996). Nas condições de Belém,

o período médio de florescimento é de 175 dias

(1994) e 160 dias (1995), podendo ocorrer durante

apenas 120 dias no clone Muaná2 ou até 234 dias no

clone Coari (Silva, 1996). Em Manaus, verifica-se

um período menor de florescimento, entre 59 e 108

dias (Falcão, 1993).

Frutificação

De maneira geral ao observado para a floração,

existe grande heterogeneidade da duração do período

de frutificação do cupuaçuzeiro. A duração mínima é

de 192 dias e máxima de 243. A safra tem uma

duração mais uniforme (dentre 28 a 36 dias) com o

período total da safra estendendo-se desde dezembro

a abril, ou seja 147 dias devido à dissincronia da

duração da floração e frutificação (Falcão, 1993).

O cupuaçuzeiro é uma planta que apresenta

grande investimento em flor e somente uma pequena

parte é transformada em fruto. O percentual de flores

que são fertilizadas e iniciam o desenvolvimento de

fruto varia de 0,89% a 3,38%, também variando com

o ano e com o clone (Falcão, 1993; Silva, 1996).

Além disso, a proporção de flor:fruto maduro é

menor ainda, de 0,19% a 1,08% indicando que entre

538,12 a 92,22 flores emitidas, uma atingiu o estádio

de fruto maduro (Silva, 1996).

A taxa de vingamento dos frutos iniciados que

completaram o desenvolvimento até a maturação é de

25,17%, sendo considerado as doenças, pragas,

nutrição e questões climáticas os principais

causadores do grande percentual de frutos derrubados

ainda imaturos.

A quantidade de pólen não é fator limitante,

pois os frutos originados de polinização artificial são

derrubados da mesma forma que os de polinização

aberta. Por outro lado, todos os frutos maduros

apresentaram número de sementes equivalentes em

todos os lóculos e, só raramente, apresentaram uma a

duas sementes a mais por loja, demonstrando que, no

cupuaçuzeiro, nem toda polinização satisfatória leva

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 151

à formação de um fruto maduro, porém todo fruto

maduro foi originado a partir de uma polinização

satisfatória. Provavelmente, os frutos originados a

partir de polinização inadequada, onde um número

mínimo de óvulos por lóculo não é fertilizado, são

seletivamente abortados.

11.5 Cultivares

Como o cupuaçuzeiro é uma espécie em

processo de domesticação, não se tem um grande

número de cultivares recomendada para plantio,

apesar dos esforços de pesquisadores dos centros de

pesquisas e universidades da Amazônia em coletar e

avaliar parte do germoplasma desta espécie.

Os únicos clones caracterizados e avaliados e

que estão disponíveis no mercado são: Coaria,

Codajás, Manacapuru e Belém. Esses clones,

lançados em 2002 pela Embrapa Amazônia Oriental,

são resistentes à vassoura-de-bruxa, doença causada

pelo fungo Crinipellis perniciosa. Além dessa

característica, os quatro clones são geneticamente

compatíveis entre si, possibilitando que sejam

plantados juntos em um mesmo pomar.

Os clones Coari, Codajás, Manacapuru e

Belém apresentam frutos com peso médio de 1.491 g,

1.297 g, 1.420 g e 742 g, respectivamente. A

produtividade média desses clones se situa entre 13,1

e 16,8 frutos por planta por ano, podendo, em

sistemas de cultivo tecnificados, atingir a média de

20 frutos por planta por ano. Os clones Manacapuru e

Codajás apresentam frutos com rendimento

porcentual de polpa ligeiramente superior a 35%. O

rendimento porcentual de polpa dos clones Coari e

Belém é um pouco menor, girando em torno de 33%.

Um outro clone, que há bastante tempo vem

sendo cultivado em pequena escala, apresenta frutos

desprovidos de sementes, sendo popularmente

denominado de Cupuaçu sem Sementes. Frutos desse

clone apresentam peso entre 2,2 kg e 3,0 kg e

rendimento porcentual de polpa de 67%. O cupuaçu

sem sementes, não obstante o elevado rendimento

porcentual de polpa, tem despertado pouco interesse,

pois é altamente susceptível à doença vassoura-de-

bruxa e apresenta polpa bem menos ácida e com

baixo teor de sólidos solúveis totais. Além disso, a

produtividade de frutos é menor do que a maioria dos

tipos de cupuaçu com sementes, raramente

ultrapassando 5 frutos por planta por ano.

11.6 Propagação

As sementes do cupuaçuzeiro não apresentam

período de dormência, com processo germinativo se

iniciando rapidamente após a remoção da polpa

mucilaginosa. São recalcitrantes, não tolerando

secagem e temperaturas baixas. Deverão ser oriundas

de frutos recém-colhidos, grandes, sadios e de plantas

matrizes produtivas e sadias. A retirada da polpa que

envolve as sementes é feita manualmente, com

tesoura, ou mecanicamente com despolpadeira. Após

o despolpamento, fazer a semeadura diretamente nos

sacos com dimensões próximas de 30cm x 21cm x

0,015cm, previamente cheios com substrato

adequado. O semeio é feito colocando-se as sementes

“deitadas”. Antes do semeio deve ser feita uma rega

nos sacos para que as sementes encontrem ambiente

propício ao início do processo de germinação. A

emergência das plântulas ocorrerá entre o 13º e o 15º

dia após a semeadura, estendendo-se até ao 25º dia.

Sementes provenientes de frutos maduros e sadios

propiciam uma germinação de 95% a 100%.

As plantas de cupuaçu oriundas de sementes

iniciam a floração aos dois anos após o plantio. Dessa

forma a propagação vegetativa no cupuaçu não é

usada visando precocidade nem redução de porte da

planta. A muda enxertada de cupuaçuzeiro é uma

alternativa para multiplicação de plantas com boas

características, como de produtividade, frutos com

alto rendimento em polpa, resistência a doenças e

pragas ou plantas com frutos sem sementes.

A propagação vegetativa pode ser realizada

por enxertia, sendo a borbulhia o processo mais

utilizado.

As borbulhas devem ser coletadas de árvores

saudáveis, e mudas vigorosas e sadias devem ser

usadas como porta-enxertos, que é o próprio

cupuaçuzeiro.

A borbulha é inserida no porta-enxerto,

promovendo a união perfeita entre esta e a casca do

cavalo. Os porta-enxertos devem ter

aproximadamente 1cm de diâmetro, no ponto de

inserção da gema. Fazer o amarrilho usando fita de

plástico transparente, retirando-a 20 dias após a

enxertia. A decapitação do porta-enxerto é feita sete

dias após a remoção da fita, a 10cm acima do ponto

de enxertia, para favorecer a brotação da gema.

Efetuar o tutoramento do enxerto para melhor

condução do fuste.

No cupuaçu ocorre incompatibilidade dentro e

entre material genético, implicando em baixo ou

nenhum vingamento de frutos. Por isto, na formação

do pomar tanto por material enxertado como por

sementes, utilizar diferentes plantas matrizes.

11.7 Nutrição mineral

Na Amazônia predominam solos de baixa

fertilidade natural e, em alguns casos, alta toxidez de

alumínio, portanto, a fertilidade dos solos constitui

um dos principais fatores relacionados com a

produtividade das culturas. O cupuaçuzeiro é uma

espécie em domesticação, cuja resposta às variações

ambientais e exigências nutricionais pouco se

conhece.

Entre os métodos recomendados para

determinar as necessidades nutricionais de uma

cultura, destacam-se a análise química do solo e a

análise foliar.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 152

Análise do solo

Antes da implantação de um pomar de

cupuaçu, é importante realizar a análise de solo. As

amostras devem ser retiradas de áreas homogêneas

dentro da propriedade. Amostras de áreas argilosas

devem ser separadas das áreas arenosas, bem como as

de locais planos, das encostas e das baixadas. Dentro

de cada área homogênea, de até l0ha, coletar

separadamente na profundidade de 20cm e de 20cm a

40cm, 20 amostras simples, andando em ziguezague,

para formar uma amostra composta. Enviar para

análise no laboratório 300g da amostra composta,

devidamente etiquetada com as informações: nome

do município, proprietário, propriedade, uso anterior

e uso futuro da área e data da coleta.

Em locais onde já existe o plantio de

cupuaçu, deve ser feita uma amostragem da área

adubada, na projeção da copa e outra nas entrelinhas,

formando duas amostras compostas, para cada

profundidade.

Análise foliar

O uso da análise foliar como instrumento de

diagnose do estado nutricional das plantas e da

fertilidade do solo fornece subsídios para as

recomendações de adubação, principalmente de

culturas perenes. No caso do cupuaçuzeiro, o avanço

nas pesquisas quanto às reais exigências nutricionais

da cultura, levando-se em consideração fatores como

material genético, manejo e condições

edafoclimáticas, certamente possibilitará o uso dessa

técnica como instrumento de diagnose e aumento na

eficiência das adubações.

Coletar as amostras de folhas na mesma época

do ano, preferencialmente durante a estação seca,

após pelo menos dois-três meses da adubação. A

coleta deve ser realizada nas primeiras horas da

manhã, aguardando pelo menos um dia após uma

chuva de mais de 20mm. Não misturar, na mesma

amostra, folhas de idade e material genético

diferentes, folhas de ramos produtivos e folhas de

ramos não produtivos, e não usar folhas danificadas

por insetos, ou necrosadas. A amostragem foliar no

cupuaçuzeiro deve ser feita nos quatro quadrantes, na

região mediana da copa, escolhendo um ramo

amadurecido, coletando a terceira folha madura a

partir da ponta. Coletar uma folha de cada ponto

cardeal, resultando em quatro folhas por planta. As

subamostras reunidas formarão a amostra composta

representativa de cada unidade homogênea.

As folhas devem ser lavadas em água

destilada, agitando-as por alguns segundos, ou limpas

com algodão umedecido. As amostras acondicionadas

em sacos de papel devem ser postas para secar num

prazo máximo de dois dias, com temperatura em

torno de 700C. Cada amostra deve apresentar uma

etiqueta contendo informações sobre o local e a data

da coleta, quadra, número de plantas amostradas,

origem do material vegetal, idade da planta, tipo de

ramo, posição da folha etc. Esta etiqueta deve

acompanhar a amostra em todas as etapas de

manipulação, isto é, desde a coleta no campo até o

envio para o laboratório.

Cuidados na adubação e manejo

Em locais planos, os fertilizantes devem ser

aplicados e incorporados para evitar perdas de

nitrogênio por volatilizacão, principalmente quando a

fonte do nutriente for uréia. Em terrenos declivosos,

fazer um sulco com 20cm de largura e 5cm de

profundidade, aplicar o adubo e, em seguida, fechá-

lo. Esse procedimento evita perda de fertilizante por

arrastamento superficial.

Os fertilizantes químicos oferecem duas

grandes vantagens, a concentração e a

disponibilidade. Porém, é recomendado utilizar

fontes orgânicas, como esterco de gado ou de aves,

pois, além de fornecer nutrientes para as plantas,

melhora as condicões físicas e biológicas do solo.

Recomendações de adubação

A recomendação de adubação deverá levar em

conta o resultado da análise do solo. A adubação da

cova deve ser realizada um mês antes do plantio.

Tabela 11.7– Adubação de cova para o cupuaçuzeiro.

Adubação de cova

20 l de esterco curtido.

90g de P2O5 (50% natural e 50% solúvel).

500g de calcário dolomítico.

50g de FTE BR-12

No campo, as adubações de manutenção

deverão ser realizadas no início, meio efinal do

período chuvoso (Tabela 11.8)

Tabela 11.8 - Adubação de manutenção para o

cupuaçuzeiro cultivado em Latossolo amarelo.

Idade (anos) Elemento (g/planta)

N P2O5 K2O MgO Zn B

0 90 - 60 - - -

1 130 60 130 15 - -

2 185 75 185 30 2 1

3 185 126 360 30 2 1

4 (em diante) 185 135 420 30 2 1

Fonte: Souza et al. (1999).

11.8 Manejo agronômico

Plantio

Os plantios são estabelecidos a pleno sol ou

consorciados com culturas temporárias e/ou

permanentes. As plantas das espécies temporárias,

como banana, mandioca, mamão e outras,

permanecerão durante os primeiros anos, enquanto

que as permanentes, como, por exemplo coco,

castanha, ingá e açaí, ficam associadas ao cultivo.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 153

Escolha da área

O cupuaçuzeiro desenvolve-se bem em solos

férteis, profundos, bem drenados e com boa

capacidade de retenção de água. Não tolera solos

sujeitos a encharcamentos, nem aqueles que

apresentem camadas adensadas ou impermeáveis, que

impeçam a penetração das raízes ou que criem

condicões de má aeração. Portanto, áreas já

intensamente mecanizadas ou de pastagens

compactadas deverão ser evitadas. Preferencialmente,

a topografia deve ser plana a suavemente ondulada,

com textura argilosa e argilo-arenosa. Solos muito

arenosos devem ser evitados, pois geralmente

apresentam baixa fertilidade e baixo poder de

retenção de água e nutrientes. Recomenda-se a

escolha de áreas já desmatadas ou de capoeira,

evitando aquelas de mata primária e as de

preservação permanente.

Preparo da área

O preparo da área para plantio do cupuaçu

pode ser realizado utilizando-se o sistema manual ou

mecânico.

Sistema manual - indicado para pequenas

áreas. Dependendo das condições da vegetação,

incluirá broca (eliminação de árvores com diâmetro

inferior a 5cm e cipós), derrubada e rebaixamento. A

queima pode ser evitada, preparando a área com

antecedência para que haja decomposição das folhas

e ramos finos, e aproveitamento do material lenhoso

para produção de lenha, carvão ou em serrarias

artesanais.

Sistema mecânico - indicado para médias e

grandes áreas. Para minimizar a compactação do

solo, a operação deve ser realizada no período seco.

O desmatamento mecânico deverá ser,

preferencialmente, realizado com a utilizacão de

lâminas dentadas, com o objetivo de evitar o

arrastamento da camada superficial do solo. O

preparo consiste de derrubada e enleiramento com

trator, em curva de nível quando necessário.

Espaçamento

Recomenda-se para o cupuaçuzeiro o

espaçamento em sistema de hexágono (triângulo

eqüilátero), obedecendo a distância dos lados 7m.

Esse tipo de arranjo das plantas no terreno facilita a

movimentação; vistorias das plantas; os tratos

culturais, a poda da vassoura-de-bruxa, colheita e

transporte dos frutos; plantio de culturas intercalares

temporárias e melhor aproveitamento da área, com

acréscimo de 15% no número total de plantas, em

relação à forma quadrangular.

Figura 11.3 – Distribuição das plantas de cupuaçu

nos sistemas de plantio em hexágono e quadrado.

Sistemas de plantio

Plantio a pleno sol

No plantio a pleno sol é recomendável a

utilização de leguminosas para a cobertura do solo.

Estas, além de fixarem nitrogênio, elevam os teores

de matéria orgânica, propiciam maior proteção contra

erosão, diminuem a temperatura do solo e reduzem a

incidência de plantas invasoras na cultura. Souza et ai

(1996) recomendam a leguminosa perene herbácea

Pueraria phaseoloides, que proporciona cobertura

adequada ao solo, devendo ser estabelecida,

preferencialmente, antes do plantio do cupuaçu. As

sementes dessa leguminosa apresentam dormência,

portanto para se obter uma germinação mais rápida e

uniforme, quebra-se a dormência colocando-as em

água a 75ºC deixando até que a água atinja a

temperatura ambiente.

Apesar de produzir a pleno sol, por ser uma

espécies esciófila (planta de sombra), a radiação

excessiva é prejudicial a planta, que tem seu

crescimento reduzido, suas folhas ficam mais fibosas

e pequenas e aumenta a insidência de frutos rachados,

principalmente quando a alta luminosidade estiver

associada a deficiência hídrica, sendo recomendado

seu cultivo sombreado.

Plantio em sistemas agroflorestais

Várias espécies estão sendo consorciadas com

o cupuaçuzeiro, como por exemplo mamão, ingá,

mandioca e coco. A mandioca predomina entre as

culturas consorciadas por sua importância

socioeconômica na região.

Recomenda-se o plantio das culturas

intercalares nas entrelinhas do cupuaçuzeiro,

respeitando a distância mínima de 1,5m entre a

cultura e a muda de cupuaçu. O uso de cultivos

perenes consorciados com cupuaçu é viável, devendo

ser observadas as características de cada espécie

quanto a mercado, exigência de tratos culturais, mão-

de-obra, incidência de pragas e doenças e competição

por luz, nutriente e água. É importante também

observar se a cultura intercalar tem a safra na mesma

época do cupuaçuzeiro, se o produto é perecível e

exige beneficiamento semelhante ao do cupuaçu,

pois, nesta situação, serão exigidos investimentos

adicionais em equipamentos e mão-de-obra.

Hexágono Quadrangular

a

b h

h = 6,06m

a e b = 7m

235 plantas/ha

a = 7m

b = 7m

204 plantas/ha

a

b

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 154

Plantio em trilhas na capoeira

Esta opção tem a vantagem de reduzir os

custos de implantação da cultura, além de manter a

vegetação original. Porém, as plantas de cupuaçu

retardam o início da frutificacão e produzem poucos

frutos, principalmente se o sombreamento for

excessivo, portanto não atrativa.

Plantio em mata ou capoeira raleada

Nesta modalidade, o raleio inicial é feito

deixando-se as espécies de valor econômico e social,

tais como fruteiras nativas, espécies madeiráveis e

medicinais. Normalmente, é realizado de forma

manual, com antecedência, para que haja

decomposição das folhas e ramos finos, podendo

ainda ser aproveitado o material lenhoso para

produção de lenha ou carvão. Neste sistema, o

preparo da área causa danos mínimos ao solo e, em

muitos casos, favorece a conservação in situ das

espécies associadas.

Poda

O cupuaçuzeiro pode ter interferência de poda

de formação, poda de manutenção, poda de limpeza e

poda fitossanitária.

Poda de formação: O cupuaçuzeiro por

apresentar estrutura mofológica de crescimento por

tricotomias, a formação de sua copa exige poda

específica, diferente da maioria das árvores frutíferas.

A muda de cupuaçuzeiro propagado por

semente apresenta trifurcações (tricotomias),

formando sua copa sem necessidade de intervenção.

Em mudas enxertadas, deve-se decapitar o fuste do

enxerto a 60cm de altura, para forçar o lançamento de

ramos laterais. As brotações que surgem ao longo do

caule e abaixo da primeira tricotomia, bem como

aquelas presentes no porta-enxerto devem ser

eliminadas. Brotos que darão galhos cruzados e mal

colocados, devem ser também eliminados.

Como no cupuaçuzeiro as trifurcacões estão

inseridas sobre a mesma altura no tronco, este ponto

racha com facilidade (Figura 11.4), quer pela ação

dos ventos quer pelo peso dos frutos. Aconselha-se,

então, não eliminar o ramo ortotrópico recém-brotado

na primeira tricotomia, deixando formar de duas a

cinco tricotomias. Em plantios extensivos, dado o

custo da poda, fazer o rebaixamento da copa nas

plantas de crescimento muito alto, facilitando, assim,

os tratos culturais e evitando que os frutos caiam de

uma altura muito grande. O número de tricotomias

dependerá da distância entre as tricotomias.

Figura 11.4 – Rachadura do tronco do cupuaçuzeiro

(Souza et al., 1999).

Poda de manutenção: No campo, eliminar os

ramos ladrões que ocorrem no tronco e na parte

interna da copa. Quando as plantas apresentam as

copas entrelaçadas, realizar a poda, reduzindo-as

lateralmente. É importante eliminar as pontas de

ramos plagiotrópicos quando este estiverem muito

próximos do solo, devido seu comprimento.

Poda de limpeza: após a safra do cupuaçu,

eliminar os ramos e frutos doentes, secos mal

formados e ervas de passarinho.

Poda fitossanitária: de todas as podas

realizadas no cupuaçuzeiro, esta é indispensável para

o controle da doença vassoura-de-bruxa.

11.9 Pragas do cupuaçuzeiro

Broca-do-fruto - Conotrachelus sp.

(Coleóptera:Curculionidae)

A broca-do-fruto é a mais importante praga

do cupuaçuzeiro, causadora de sérios prejuízos nos

plantios onde o ataque é intenso. É um besouro de

coloração castanho-escuro, que mede

aproximadamente l0mm de comprimento. A fêmea

faz oviposição no interior da casca do fruto. As

larvas, ao eclodirem, se movimentam até as sementes,

das quais se alimentam. Quando atingem o

crescimento máximo (último instar), se locomovem

em direção à casca do fruto, abrindo um orifício por

onde saem, e caem no solo, penetram nele numa

profundidade de 5cm a 10cm e empupam.

Posteriormente, o adulto emerge, acasala e efetua

nova oviposicão no fruto, repetindo, então o ciclo

(Figura 11.5).

Figura 11.5 - Broca-do-fruto: a) adulto; b) larva

saindo pelo orifício na casca e c) parte inteira da

casca com orifício e larvas.

O cupuaçuzeiro é plantado na Amazônia, em

monocultivo ou consorciado como em sistemas

agroflorestais. Nos dois sistemas de produção ele é

atacado por insetos-praga, dentre os quais a broca dos

frutos se destaca devido aos danos causados,

a b c

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 155

provocando perdas na produção com diferentes graus

de intensidade (Thomazini, 2000). Não se tem

definido métodos de controle eficientes para esta

praga, podendo usar os mesmos métodos de controle

desta praga, utilizados no cacaueiro, que compreende

poda de formação/fitossanitária, eliminação de

plantas silvestre próximo ao plantio, destruição de

frutos atacados, aumento da intensidade de colheita e

monitoramento do inseto. Evitar a aplicação de

inseticidas, pois até o momento, não há resultados de

pesquisa que confirmem a sua eficiência. Além disso,

a aplicação indiscriminada desses produtos químicos

prejudica os polinizadores e os inimigos naturais

(predadores e parasitóides).

Araújo et al. (1998), encontrou variabilidade

genética quanto a resistência às pragas que atacam os

botões florais em geral. Isto indica que pode haver

resistência à broca-do-fruto.

Lagarta rendilhadeira de folhas - Macrosoma

tipulata (Lepidoptera: Hedylidae)

O adulto é uma borboleta cujo estádio de

lagarta (Figura 11.6) tem como hábito alimentar o

consumo de folhas jovens.

Figura 11.6 – Larva e adulto da Lagarta rendilhada

da folha (Souza et al., 1999)

Controle

O controle manual é feito através da coleta das

lagartas, quando as plantas são pequenas e pouco

atacadas. Quando o ataque é intenso no período de

lançamento foliar do cupuaçuzeiro, aplicar inseticida

de contato e ingestão. Preferencialmente usar

inseticidas biológicos.

Broca do broto (Coleoptera: Curculionidae)

Importante praga de viveiro, tendo sido

observado índice de mudas atacadas variando, em

média, entre 1 5% e 20%, podendo chegar a 60%. É

um pequeno besouro cuja larva ataca os brotos das

mudas (Figura 11.7). Com a morte do broto apical, a

muda emite novas brotações laterais, as quais são

também atacadas, causando desenvolvimento

anormal das mudas.

Figura 11.7 – Broca do broto: a) broto normal de

muda de cupuaçu; b) broto danificado pela broca; c)

larva; d) adulto.

Controle

Como prevenção, não deixar mudas velhas

dentro do viveiro, pois geralmente são hospedeiras

desses insetos. Fazer periodicamente vistoria e

eliminar gemas atacadas (secas) manualmente, as

quais contêm em seu interior as larvas ou adulto

dessa praga. Este procedimento auxilia na redução do

nível de infestação. Em ataques intensos, o controle é

feito com inseticida sistêmico.

Formigas (Hymenoptera: Formicidae)

As formigas-saúvas e quemquéns são

cortadeiras e causam grandes danos, desfolhando o

cupuaçuzeiro.

Controle

Os formigueiros devem ser combatidos na

área do plantio e também nas áreas vizinhas. O

controle químico é o mais recomendado, podendo ser

utilizados formicidas em pó, líquidos

termonebulizáveis e iscas granuladas.

11.10 Doenças do cupuaçuzeiro

Vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa)

É a enfermidade que causa os maiores

prejuízos econômicos para a cultura. Sua ocorrência é

generalizada na Amazônia, local de origem da planta.

Sintomas

O fungo afeta os tecidos meristemáticos em

crescimento nas mudas e em plantas adultas. Sob

condições alternadas de dias chuvosos seguidos de

dias ensolarados, ocorre a produção de basidiocarpos

(formato de cogumelo de cor róseo-pálido) (Figura

11.8). Esta é a etapa crítica da doença, pois é quando

ocorre a disseminação do fungo de uma planta para

outra através do vento. No viveiro, nas mudas

a

b

c d

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 156

afetadas (Figura 11.8) ocorre o engrossamento do

caule, acompanhado de brotação de gemas laterais,

que posteriormente secam e a muda morre. No

campo, quando a doença ataca as plantas, os

lançamentos infectados são de diâmetro maior que os

sadios, com entrenós curtos e intensa brotação das

gemas laterais, sendo denominado de vassoura-verde.

Posteriormente, ocorre o secamento da brotação

afetada, passando à denominacão de vassoura-seca.

Flores e frutos também são atacados pela doença. Os

frutos jovens secam e morrem sem desenvolver-se.

Nos frutos desenvolvidos aparecem manchas escuras

na casca que correspondem internamente à região de

apodrecimento da polpa.

Figura 11.8 – Sintomas de vassoura-de-bruxa (Souza

et al., 1999).

Na região amazônica essa cultura é

disseminada de forma endêmica em toda a América

do Sul Tropical (Alves et al., 1998; Lima e Souza,

1998).

Etiologia

O microrganismo que causa a doença é o

fungo Crinipellis perniciosa. Além do cupuaçuzeiro

(Theobroma grandiflorum) e do cacaueiro (T.

Caçao), que são muito afetados pela doença, o cacau-

do-pará ou cacaurana (T. bicolor), cacau-cabeça-de-

urubu (T. obovatum), cacau-jacaré (T. microcarpum),

cupuí (T. sumbicanum), cacauí (T. speciosum), T.

Glaucum, Herrania albiflora, H. Purpúrea e

Herrania spp. São também hospedeiros da doença.

Controle

O controle da vassoura-de-bruxa no

cupuaçuzeiro tem sido feito com base em estudos

realizados na cultura do cacaueiro. A poda

profilática, apesar de ser um método oneroso, é a

medida de controle cultural mais preconizada na

região.

Estudos com controle de vassoura-de-bruxa

utilizando poda fitossanitária foram propostas por

Gasparotto et al. (1998):

- Efetuar a poda fitossanitária, removendo-se

concomitantemente, vassouras secas e verdes e frutos

mumificados a intervalos de dois meses durante o ano

todo;

- Corte da vassoura deve ser feito após a inserção ou

ponto de início do superbrotamento;

- Quando remover a vassoura não deixar restos de

ramos, folhas, pedunculos e pecíolos doentes e frutos

mumificados aderidos às plantas ou caídos ao solo;

- Todas as vassouras coletadas, restos de folhas,

caules, pedúnculos, que se desprenderem das

vassouras e frutos mumificados devem ser retirados

da área de plantio e queimados.

A longo prazo, a utilização de clones

resistentes, fundamentada na hipótese de ser C.

perniciosa um fungo homotálico, portanto, com baixa

probabilidade de variação genética, é uma alternativa

a ser considerada no controle da vassoura-de-bruxa.

Clones de cacaueiro tidos como resistentes - SCA 6 e

12 - tiveram essa resistência quebrada, apontando

uma variabilidade genética na população do patógeno

na região amazônica. No entanto, os isolados de C.

perniciosa que atacam o cacaueiro, não são os

mesmos que atacam o cupuaçuzeiro, apesar de

pertencerem ao mesmo biotipo, sendo necessários

estudos mais aprofundados sobre prováveis raças

desse patógeno em T. grandifrorum (Alves et al.,

1998).

Morte Progressiva - Lasiodíplodia theobromae (Pa)

Griff & Maubl. Importância econômica

A enfermidade pode afetar as plantas de

cupuaçuzeiro em qualquer idade, desde a fase de

mudas até a fase adulta. Ocorre em plantios mal

conduzidos, principalmente, devido a deficiências

nutricionais e/ou em plantas que sofreram ferimentos

no caule por de ferramentas utilizadas nas capinas.

Os maiores prejuízos são verificados quando há

morte da planta, principalmente, na fase de produção

de frutos (Figura 9).

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 157

Figura 9 – Planta morta por Lasiodiplodia

theobromae.

Sintomas

Os sintomas iniciais da doença que podem

ocorrer no caule dos ramos, galhos e troncos, são

difíceis de serem observados porque o patôgeno afeta

os tecidos internos da planta, ficando a parte externa

da região afetada aparentemente sadia. Com o

aumento da doença, observa-se um ligeiro

escurecimento da casca e, posteriormente, o

amarelecimento e secamento das folhas e morte do

ramo afetado. Em estádio avançado, o local do início

da doença pode tornar-se deformado, havendo

rachadura na casca e exposição dos tecidos internos

(Figura 10).

Figura 10 – Tecido escurecido no caule por

Lasiodiplodia theobromae.

Em plantas adultas, ocorre o secamento de

alguns galhos, progredindo até à morte da planta.

Este secamento é observado em estádio avançado da

doença, quando há morte da região afetada do caule.

A diferença básica dos sintomas

característicos da vassoura-de-bruxa e da morte

progressiva nos ramos é que enquanto a vassoura-de-

bruxa afeta apenas a brotação nova, causando, após o

superbrotamento e engrossamento do caule, o

secamento apenas do broto afetado; a morte

progressiva nos ramos, caracteriza-se pelo

amarelecimento e secamento das folhas do ramo

doente sem promover o superbrotamento, mas que, se

o ramo seco não for removido e tratado, afetará o

galho e, posteriormente, toda a planta, levando-a à

morte.

Etiologia

O microrganismo que causa a doença, o

fungo Lasiodiplodia theobromae, afeta outras

culturas como a seringueira, o cacaueiro, a

mangueira, o guaranazeiro, o coqueiro. É considerado

um patógeno fraco por atacar somente plantas

debilitadas, a partir de ferimentos na casca.

Controle

Para prevenir a ocorrência da doença,

recomenda-se evitar fazer ferimentos nas plantas ao

realizar a limpeza da área e fazer as adubações

conforme recomendações técnicas. Em plantas

doentes, é necessário eliminar-se os ramos afetados,

cortando-os 15cm a 20cm abaixo da parte doente.

Para galhos grossos ou troncos com lesões pequenas,

recomenda-se remover todo o tecido doente. Para

lesões grandes, retirar uma parte do tecido morto e

raspar, superficialmente, 10cm de tecido sadio em

torno da lesão. Após o corte e/ou raspagem, pincelar

o local do ferimento com a mistura feita com 20g de

benomil ou 30g de tiofanato metílico, 20m1 de óleo

vegetal (óleo de soja), e 600ml de água. Repetir o

pincelamento 20 a 30 dias após o tratamento, se

necessário.

Podridao Vermelha - Ganoderma philipii (Bres. &

P. Henn) Bras.

É uma enfermidade que ocorre com bastante

frequência, porque os plantios de cupuaçuzeiro, na

região, são realizados em áreas contendo troncos de

árvores ainda em decomposição. Os fungos

apodrecedores desses troncos afetam as raízes do

cupuaçuzeiro, causando prejuízos bem elevados, por

ocorrer a morte da planta, diminuíndo,

consequentemente, a produção na área.

Sintomas

Os primeiros sintomas são observados na copa

da planta, através do amarelecimento das folhas.

Após alguns dias, ocorre a morte repentina da planta,

cujas folhas secas permanecem presas nos ramos por

algumas semanas (Figura 11).

A doença ocorre nas raízes, podendo,

geralmente, ser constatada apenas quando a planta

está quase morta. As raízes mortas, bem como a

região do caule mais próxima, adquirem a cor

avermelhada.

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 158

Figura 11 – Podridão vermelha (Ganoderma

philippi).

Etiologia

A doença é causada pelo fungo Ganoderma

philipii, que vive no solo e afeta o sistema radicular.

Nos troncos de árvores em decomposição,

desenvolvem-se cogumelos que, geralmente,

possuem cor alaranjada. Esses cogumelos são

chamados de “orelha-de-pau”. As raízes do

cupuaçuzeiro, ao tocarem as raízes dos troncos em

decomposição, são infectadas, ou seja, contaminadas

pelo fungo. A doença passa para as plantas vizinhas

através do contato entre raízes doentes e sadias.

Controle

Controle da doença deve ser preventivo, ou

seja, adotar medidas que evitem o aparecimento da

doença. Para isso, deve-se evitar fazer covas no local

onde haja restos de troncos de árvores, bem como não

amontoar troncos de árvores próximos da linha de

plantio das mudas. Quando for encontrada planta

morta com a doença, a mesma deverá ser arrancada,

retirada da área e, depois de seca, queimada. As

raízes das plantas vizinhas que, aparentemente,

estejam sadias, devem ser isoladas das plantas mais

próximas, através de trincheira aberta no solo,

evitando-se o aumento da doença no plantio. Colocar

1kg de calcário na cova de onde foi retirada a planta

morta e misturar bem com o solo. Não plantar, na

cova, espécies arbórea, pelo menos por um período

de dois anos.

Mancha de Phomopsis (Phomopsis sp)

Nas folhas novas são observadas pequenas

lesões circulares de coloração marrom. Com o

amadurecimento das folhas, as lesões tornam-se

esbranquiçadas, pardas ou avermelhadas,

ocasionando, na maioria das vezes, a queda do tecido

central.

O microrganismo que causa a doença é o

fungo Phomopsis sp. Em plantio de cupuaçuzeiro em

mata raleada, observou-se a doença causando os

mesmos sintomas em outras plantas nativas da mata.

Controle

São recomendadas pulverizações com

benomyl (1 g/litro de água), durante a emissão foliar,

semanalmente no período chuvoso e quinzenalmente

no seco. Tem-se obtido um controle eficiente com o

uso de óxido cuproso na dosagem de 3g do produto

comercial por litro de água.

11.11 Colheita e beneficiamento

Colheita

O fruto de cupuaçu, quando maduro,

desprende-se da planta, sendo colhido manualmente

no chão e acondicionados em sacos ou caixas

resistentes. Os sacos facilitam o transporte dentro das

linhas, mas oferecem pouca proteção contra

impactos, podendo ocorrer quebra dos frutos. A

colheita deve ser feita diariamente no início da

manhã. Quanto mais tempo o fruto permanecer caído

no campo maior é a perda do peso e a deterioração

causada por ataque de fungos. Os frutos colhidos

devem ser reunidos em pontos estratégicos nas

laterais do plantio, para facilitar o transporte até ao

local de recepção. O tempo decorrido entre a colheita,

transporte e o processamento deve ser o mínimo

possível. No caso de necessidade de armazenamento

antes do processamento ou da comercialização do

fruto natural, os mesmos devem ser mantidos em

local sombreado, arejado, para facilitar a remoção do

calor (não amontoar os frutos), e, de preferência,

refrigerado. Quando deixado em ambiente natural,

com temperatura média de 25,6 ºC e umidade relativa

86%, o fruto pode perder até 23,4% do seu peso até o

décimo dia após a colheita.

Seleção de frutos

Selecionar somente frutos maduros, sadios,

eliminando aqueles com sinais de ataque de pragas ou

doenças, como a broca e a vassoura-de-bruxa, ou

outra enfermidade, bem como os deteriorados

(‘passados”).

Lavagem dos frutos

A lavagem tem como objetivo reduzir a carga

microbiana presente na casca dos frutos, retirar os

pêlos, terra e outras sujeiras aderidas ao fruto. A água

utilizada deve ser de boa qualidade. A lavagem é

geralmente feita por imersão em água, completada

por aspersão de água. A água deve ser clorada com

cerca de 8 ppm a 12 ppm de cloro livre. Para

preparação desta água, adiciona-se de 80m1 a 120ml

de hipoclorito de sódio para 1.000 litros de água.

Alguns equipamentos usados para lavagem de outras

frutas podem ser adaptados, como esteiras com jatos

de água clorada, com presença de escovas com cerdas

de nylon.

Quebra dos frutos

A quebra do fruto e extração da polpa com

sementes é uma importante fase do processamento. A

polpa, que no interior do fruto sadio se apresenta sem

contaminação, ficará exposta ao ambiente, e o grau

de contaminação depende, a partir dessa fase, dos

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 159

cuidados na lavagem, quebra, retirada da polpa e na

higiene do pessoal, do ambiente e das máquinas de

trabalho. O utensílio utilizado para a quebra do fruto,

bem como a superfície do local de quebra devem ser

de aço-inoxidável. As pessoas envolvidas nessa tarefa

devem trajar vestimentas adequadas e limpas, usar

luvas e toucas no cabelo e estar em perfeito estado de

saúde.

Despolpamento

O despolpamento pode ser manual, quando a

polpa é separada das sementes e placenta (fibras),

com o auxilio de tesouras, ou mecânico, quando se

utiliza despolpadeira. O despolpamento manual

destina-se mais para consumo próprio, mas deve ter

todos os cuidados com a higiene. Não é

recomendável comercialmente, pois do ponto de vista

sanitário, a qualidade da matéria-prima fica

comprometida devido a maior facilidade de

contaminação do material, além disso, o rendimento é

baixo. Para o despolpamento mecânico, retirar a

placenta antes de colocar a massa de polpa na

despolpadeira. A placenta é indesejável sob o ponto

de vista de qualidade de polpa. Por ser fibrosa, ao ser

misturada à polpa, afeta a aparência da mesma,

depreciando o seu valor. No beneficiamento

mecânico, a presença da placenta dificulta o

despolpamento, por obstruir a passagem da polpa

através da peneira.

Existem, no mercado, despolpadeiras, de

vários modelos e com diferentes capacidades de

despolpamento, adaptadas para o cupuaçu. Devem ser

de aço-inoxidável e são constituídas basicamente de

um cilindro, peneira móvel e um eixo giratório com

paletas, que movimentam a polpa com as sementes

no cilindro. A polpa é extraída através dos efeitos

combinados de força centrífuga e de atrito entre as

sementes e a parede do cilindro e liberada na parte

inferior do equipamento. As sementes são

descartadas na extremidade do cilindro perfurado.

Pasteurização

O tratamento térmico tem por objetivo reduzir

a carga microbiológica e inativar as enzimas

presentes, que podem causar alterações físicas e

bioquímicas na polpa. A polpa de cupuaçu

encontrada nos mercados normalmente não são

pasteurizadas, são comercializadas congeladas.

Envase

A polpa é colocada em uma dosadora,

regulada para encher a embalagem em quantidades

previamente definidas. No rótulo da embalagem

deverá constar, além dos dados exigidos pelas leis, a

denominação “polpa de cupuaçu’, a data de

fabricação e por prazo de validade. Existem, no

mercado, várias opções de dosadores e embalagens, e

a escolha dependerá do mercado consumidor que se

pretende atingir e do fluxo de produção.

Congelamento

Para manter as características da polpa de

cupuaçu, o congelamento deve ser realizado no

menor espaço de tempo possível. Utilizar

equipamentos como túneis ou câmaras de

congelamento rápido. O tempo de congelamento em

freezeres é muito longo, podendo comprometer a

qualidade, principalmente quando se tem grande

quantidade de polpa para congelar.

Armazenamento

A safra do cupuaçu não é contínua durante o

ano, e a região Norte fica distante do mercado

consumidor que está fora das fronteiras regionais.

Portanto, o armazenamento pode ser utilizado para

regular o fluxo de saída do produto em função da

disponibilidade de transporte mais econômico para o

mercado mais distante ou mesmo para garantir o

fornecimento do produto nas épocas de entressafras.

A polpa deve ser mantida congelada até o momento

do seu consumo. A temperatura recomendada para o

armazenamento em câmaras frigoríficas varia de -8ºC

a -25ºC. O uso de freezeres domésticos com faixa de

temperatura entre -8ºC e -10ºC é viável, porém a vida

de prateleira será menor.

11.12 Mercado e Comercialização

A comercialização de frutos in natura é feita

diretamente do produtor para o consumidor,

intermediários e feirantes. A comercialização da

polpa ocorre diretamente com a agroindústria ou com

o consumidor.

No mercado externo, a distribuição ainda é

restrita, os produtos estão sendo testados pelos

consumidores. Acresce-se ainda que a capacidade de

inserção dos produtos de cupuaçu em outros

mercados é decorrente da sua aceitação pelos

consumidores finais, da capacidade de divulgação, da

distribuição dos produtos e dos preços praticados em

relação aos produtos similares.

11.13 Coeficiente técnico

No quadro 10.4, são presentados alguns

coeficientes técnicos para a implantação de 1 ha de

cupuaçuzeiro.

Quadro 10.4 – Coeficiente técnico para implantação

e manutenção de 1 ha de cupuaçuzeiro no

espaçamento de 6m x 6m. Discriminação Unidade 1ºano 2ºano 3ºano 4º ano em

diante

Preparo

da área

Roçagem d/h 14 8 8 8 Marcação das covas d/h 2 - - -

Abertura das covas d/h 6 - - -

Adubação de covas d/h 3 - - -

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 160

Plantio d/h 2 - - -

Tratos culturais

Roçagem d/h 8 8 8 8

Cobertura morta d/h 3 3 5 6 Poda d/h - 1 1 3

Adubação d/h - 1 2 3

Controle fitossanitário

d/h - 3 5 15

Insumos

Mudas un. 450 - - - Esterco/composto tonelada 5 10 10 20

NPK (12-12-12) kg 500 700 1000 2250

Inseticidas litro - 1 2 2 Fungicidas Kg - 1 2 2

Calcário tonelada 2 - - 2

Colheita Catação manual d/h - - - 25

11.14 Referências

ANTONIO, I. C. Germinação “in vitro” do pólen de

Theobroma grandiflorum (WiIId ex. Spreng.)

Schummann* In. SIMPÓSIO BRASILEIRO DE

MELHORAMENTO DE FRUTÍFERAS, 1, 1997.

Jabuticabal. Anais... Jabuticabal: FCAVJ/UNESP,

dezembro 1997.

ANTONIO, I. C.; SOUSA, N. R.; NUNES, C. D. M.

Uma técnica de campo para verificar a recepitividade

do estigma da flor do cupuaçuzeiro (Theobroma

grandiflorum (Willdenow ex Sprengel) Schumann).

In. SIMPÓSIO BRASILEIRO DE

MELHORAMENTO DE FRUTÍFERAS, 1, 1997.

Jabuticabal. Anais... Jabuticabal: FCAVJ/UNESP,

dezembro 1997. p.47.

ARAÚJO, D. G. de; CARVALHO, S. P.; ALVES, R.

M. Variabilidade entre clones de cupuaçuzeiro

(Theobroma grandiflorum) quanto à presença de

larvas de Baris sp. Em botões florais caídos. In:

CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 15, 1998. Poços de Caldas.

Anais... Poços de Caldas: Sociedade Brasileira de

Fruticultura, 1998.p.337.

ARAÚJO, D. G. de. Caracterização de

germoplasma de cupuaçuzeiro (Theobroma

grandiflorum Willd ex. Spreng Schum) utilizando

descritores de frutos. Lavras:UFLA, 2000. 65p.

(Dissertação-Mestrado em Agronomia, área de

concentração Fitotecnia).

COSTA, J. G.; LEDO, A. da S. Seleção de plantas

matrizes de cupuaçuzeiro no Acre. EMBRAPA-

CPAF/AC. 1997. 1-3p. (Pesquisa em andamento,

106.

DISCHE, Z. Color reactinos of carbohidrates. In:

WHISTLER, R.L.; WOLFRAM, M. L. (Eds).

Methods in carbohidrates chemistry. New York:

Academic Press, 1962. V.1, p.477-512.

FALCÃO, M. de A. Aspecto fenológico, ecológico e

de produtividade de algumas frutíferas nativas e

cultivadas na Amazônia brasileira: araçá-boi

(Eugenia stipilata Mc Vaugh), biribá (Rollinia

mucosa [Jacq.] Baill), camu-camu (Myrciaria

dubia (H. B. K.) McVaugh), cupuaçu (Theobroma

grandiflorum [Willd ex. Spreng] Schum) e graviola

(Annona muricata L.). 2. ed. rev. Manaus:

FUA,1993. v.2, 97p.

GASPAROTTO, L.; PEREIRA, J. C. R.; VÉRAS, S.

de M. Poda fitossanitária no controle da vassoura-de-

bruxa do cupuaçuzeiro. EMBRAPA-CAAP. 1998. 1-

6p. (Comunicado técnico, 12).

GASPAROTTO, L.; PEREIRA, J. C. R.; COSTA, M.

M. da; PEREIRA, M. C. N. Epidemiologia da

vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa) do

cupuaçuzeiro. EMBRAPA-CAAP. 1999. 1-2p.

(Pesquisa em andamento, 29).

GIACOMETTI, C. C. Cupuaçu (Theobroma

grandiflorum ). In: HERNÁNDO BERMEJO, J. E.;

LEÓN, J. (eds.) Crop of plant. FAO, Roma, p.205-

209, 1994. (texto disponível na web

www.hort.purdue.edu/newcrop/1492/cupuacu.html).

GONDIM, T. M. De S.; COSTA, J. G. da;

AZEVEDO, F. F. de. Seleção de genótipos

promissores de cupuaçuzeiro no Estado do Acre.

EMBRAPA-CPAF/AC. 1999. 1-3p. (Pesquisa em

andamento, 149.

INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Normas analíticas:

Métodos químicos e físicos para análise de

alimentos. São Paulo, 1985. V.1, 533p.

IRIARTE MARTEL, J. H.; CLEMENT, C. R.

Avaliação de vassoura-de-bruxa no BAG de cupuaçu

(Theobroma grandiflorum) do INPA, Manaus, AM.

In. SIMPÓSIO BRASILEIRO DE

MELHORAMENTO DE FRUTÍFERAS, 1, 1997.

Jabuticabal. Anais... Jabuticabal: FCAVJ/UNESP,

dezembro 1997. p.130.

LIMA, M. I. P. M; SOUZA, A. das G. C. de.

Diagnóstico das principais doenças do

cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum (Willd. ex

Spreng.) Schum.) e seu controle. Manus:

EMBRAPA-CPAA, 18P. (EMNRAPA-CPAA,

Documentos, 9).

MACHADO, G. M. E.; RETTO JUNIOR, A. da S.

Estudo preliminar sobre a biologia floral do

cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum (Willd ex.

Spreng) Schum). Revista da Universidade do

Amazonas, v.1, n.1, p.11-14, 1991.

SILVA, Rainério Meireles da. Estudo do sistema

reprodutivo e divergência genética em

Cultivo do cupuaçuzeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 161

cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum (Willd ex

Spreng) Schum.). Piracicaba: Escola Superior de

Agricultura Luiz de Queiroz – Universidade de São

Paulo, 1996. 151p. (Tese de Doutorado).

SOUZA, A. das G. C. Avaliação de progênies de

cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum [Willd ex.

Spreng] Schum). Viçosa: UFV, 1994. 95p. (Tese de

Doutorado).

SOUZA, A. das G. C. de; SOUSA, N. R.

Conservação ex-situ de germoplasma de cupuaçu em

Manaus – AM. In. SIMPÓSIO BRASILEIRO DE

MELHORAMENTO DE FRUTÍFERAS, 1, 1997.

Jabuticabal. Anais... Jabuticabal: FCAVJ/UNESP,

dezembro 1997. p.63.

SOUZA, A. das G. C.; SILVA, S. E. L. da. Banco

ativo de germoplasma de cupuaçu. In: CONGRESSO

BRASILEIRO DE FRUTICULTURA, 15, 1998.

Poços de Caldas. Anais... Poços de Caldas:

Sociedade Brasileira de Fruticultura, 1998.p.335.

SOUZA, A. das G. C. de; SILVA, S. E. L. da;

SOUSA, N. R. Avaliação de progênies de

cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum (Willd. Ex

Spreng. Schum) em Manaus-AM. Revista Brasileira

de Fruticultura, Cruz das Almas, v.20, n.3, p.307-

312, dez. 1998a.

SOUZA, A. das G. C. de; SILVA, S. E. L. da;

TINÔCO, P. B.; GUIMARÃES, R. R.; SÁ

SOBRINHO, A. F. de. Cadeia produtiva do

cupuaçu no Amazonas. Manaus: EMBRAPA-

CPAA/SEBRAE-AM, 1998b. 35p. (EMBRAPA-

CPAA. Documentos, 17; SEBRAE-AM. Série

Agronegócios).

SOUZA, A. das G. C. de; SILVA, S. E. L. da;

TAVARES, A. M.; RODRIGUES, M. do R. L. A

cultura do cupuaçu (Theobroma grandiflorum

(Willd. Ex Spreng.) Schum). Manaus: Embrapa

Amazônia Ocidental, 1999. 39p. (Embrapa Amazônia

Ocidental. Circular Técnica, 2).

SOUZA, A. das G./ SILVA, S. E. L. Melhoramento

de fruteiras da Amazônia. In: SIMP[OSIO

BRASILEIRO DE MELHORAMENTO DE

FRUTEIRAS, 2, 2000. Viçosa. Anais... Viçosa:UFV,

2000. p.49-55.

THOMAZINI, M. J. A broca dos frutos do

cupuaçuzeiro, Conotrachelus humeropictus

FIEDLER. Rio Branco: EMBRAPA-CPAF/AC, p.1-

4, 2000. (Embrapa Agroflorestal do Acre.

Comunicado Técnico, n.113).

VENTURIERI, G. A. Período de floração, época da

safra e produção do cupuaçu (Theobroma

grandiflorum). In:CONGRESSO BRASILEIRO DE

FRUTICULTURA, 14, 1996. Curitiba. Anais...

Curitiba: SBF, 1996. p.215.

Cultivo do Maracujazeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 162

12. CULTURA DO MARACUJAZEIRO

12.1 Aspectos socioeconômicos

O Estado do Acre apresenta uma das mais

baixas produtividades e produções agrícolas do país,

tendo que importar produtos alimentícios produzidos

em outras regiões. Essa baixa produção é causada por

muitos fatores, principalmente pela falta de uma

política agrícola consistente e de tecnologias

adaptadas para a região e, no caso do maracujazeiro,

pela falta de cultivares superiores adaptadas para as

condições acreanas.

Condições edafoclimáticas ótimas possibilitam

ao estado um alto potencial para o cultivo de fruteiras

tropicais, principalmente o maracujazeiro (Passiflora

edulis f. flavicarpa Deg.) que tem bom potencial de

mercado, uma vez que o estado não é auto suficiente

desta frutífera. Prova disso é a inexistência de

fábricas de suco de maracujá e a importação da fruta

pelas redes de supermercado.

Um outro ponto positivo para a exploração do

maracujazeiro é o maior período de produção, pois

nas condições locais a planta não apresenta

paralisação do crescimento, pela ausência de inverno

(estação fria) na região.

12.2 - Produção Brasileira

O maracujazeiro é cultivado principalmente

em países tropicais, responsáveis por

aproximadamente 90% da produção mundial. O

Brasil é, atualmente, o maior produtor seguido do

Peru, Venezuela, África do Sul, Sri Lanka e

Austrália.

Dependente da comercialização apenas do

mercado ao natural, o maracujá passava por ciclos de

retração e expansão da área cultivada e falta de

demanda constante do produto (Rizzi et al., 1998).

Mas, motivado pelo elevado crescimento da demanda

da fruta fresca, e principalmente pelo aquecimento da

atividade agroindustrial de produção de suco, o

cultivo do maracujazeiro evoluiu rapidamente no país

(Quadro 12.1). Até o início da década de 70, o Brasil

não constava entre os principais produtores (Pires e

São José, 1994; Rizzi et al., 1998), apesar de ser o

centro de origem.

Quadro 12.1 – Evolução da produção brasileira de

maracujá.

Região Ano (ton)

1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000

Norte 506 1.657 15.416 3.911 113.568 130.931 21.700 Nordeste 6.630 12.936 44.552 35.294 121.151 162.504 152.569

Sudeste 2.221 7.902 11.736 11.081 81.593 96.553 122.012

Centro-Oeste

44 677 712 361 751 9.056 25.739

Sul 19 32 814 454 173 6.491 8.757

Brasil 6.420 23.204 73.230 51.101 317.236 405.535 330.777

Fonte: Censo Agropecuário (1970-1985); Agrianual (2000 e 2003)

A década de 90 manteve o ciclo de retração e

expansão, fechando em 1999, praticamente com a

mesma produção de 1990, mas com área 41% maior,

indicando forte queda na produtividade (Agrianual,

1997,1998,1999, 2000, 2001, 2002 e 2003).

Como a participação correspondente a 50% da

produção para cada segmento (Pizzol et al., 1998), os

preços estão condicionados, ora às cotações

internacionais do suco concentrado, ora aos dos

sistemas atacadistas nacionais, sendo mesmo o

mercado externo, o maior responsável pelos preços e

principalmente pelo aumento e diminuição da

produção e área plantada.

Motivado pela ótima cotação do suco

concentrado (50 ºBrix) no mercado europeu de US$ 8

mil a tonelada, no final da década de 80, a produção

brasileira cresceu 29% de 1990 a 1996, e pelo motivo

inverso, com a cotação de US$ 2 mil no início da

década de 90, a produção brasileira reduziu 19% de

1996 a 2000 (Agrianual, 1999 e 2003; Guedes e

Vilela, 1999).

Neste período, houve acréscimo na área

colhida em todos as regiões produtoras, exceto o

Norte do país, que reduziu praticamente a metade da

área colhida. Nesse contexto, há destaque para dois

Estados produtores, o Pará, que produzia 36% de

toda produção brasileira em 1990, reduziu sua

produção de 113.469 ton para 22.858 ton em 1999,

portanto o grande responsável pela redução brasileira.

Outro Estado com destaque é o Espírito Santo, que

produzia apenas 1.114 ton em 1991, e com aumentos

constantes alcançou 22.150 ton na safra de 2000.

As principais regiões produtoras de maracujá

no país são Nordeste e Sudeste, com 46% e 37% da

produção brasileira, respectivamente. Os principais

estados produtores são: Bahia, São Paulo, Sergipe e

Minas Gerais (Quadro 12.2).

Quadro 12.2 Produção, área e produtividade das regiões

brasileiras e principais estados produtores.

Região

Estado

Produção

(ton)

Área

colhida

(ha)

Produtividade

(kg/ha)

Norte 21.700 3.606 6.018

Nordeste 152.569 17.289 8.825

Bahia 77.388 7.817 9.900

Sergipe 33.583 3.910 8.589

Sudeste 122.012 9.223 13.229

São Paulo 57.854 3.667 15.777

Minas Gerais 25.196 2.834 8.891

Sul 8.739 1.117 7.824

Centro Oeste 25.757 2.193 11.745

Goiás 23.608 1.793 13.167

Brasil 330.777 33.428 9.895

Fonte: Agrianual (2003)

Cultivo do maracujazeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 163

A respeito do mercado interno, o maracujá

apresenta sazonalidade característica no atacado das

principais CEASA’s. A concentração da oferta ocorre

no período janeiro/junho, e o período de escassez

localiza-se entre julho e dezembro, atingindo um

nível mínimo de oferta entre setembro e outubro

(Figura 12.1).

Figura 12.1. Evolução dos preços do maracujá azedo

na CEAGESP(1992-2001), dados de Agrianual,

(2002).

12.3 Origem, Dispersão e Botânica

Origem

O maracujazeiro pertence à família

Passifloraceae Juss. Ex. DC., da ordem Violales.

Essa família compreende 17 gêneros e cerca de 600

espécies distribuídas nas regiões tropicais e

subtropicais do mundo. Dentre os táxons cultivados,

destacam-se Passiflora alata, Passiflora caerulea,

Passiflora edulis f. edulis, Passiflora edulis f.

flavicarpa, Passiflora incarnata, Passiflora

laurifólia, Passiflora ligulares, Passiflora mollissima

e Passiflora quadrangulares (Carvalho-Okano e

Vieira, 2001).

O gênero Passiflora é originado da América

do Sul e tem no Centro-Norte do Brasil o maior

centro de distribuição geográfica. A origem do

Passiflora edulis f. flavicarpa Degener

(maracujazeiro amarelo) é incerta podendo ter sido

derivada de cruzamento de Passiflora edulis f. edulis

(maracujazeiro roxo) com algumas espécies na

Austrália ou por mutação do Passiflora edulis f.

edulis (Carvalho-Okano e Vieira, 2001).

O gênero Passiflora é formado de 24

subgêneros e 465 espécies, sendo o de maior

importância econômica dentre os 18 gêneros da

ordem Passiflorales. As espécies, das quais 150 a

200 originárias do Brasil, podem ser utilizadas como

alimentícias, medicinais e ornamentais, sendo muitas

com finalidade múltipla (Cunha e Krampe, 1999).

Citogenética

A maioria das espécies de Passiflora

apresentam 2n=12 ou 18, mas 2n=24, 14, 20, 84, 27 e

36 também são conhecidos (Bruckner, 1997). As

espécies de maior importância hortícola, como P.

edulis Sims, P. alata, P. edulis Sims flavicarpa Deg.

(Mayeda, 1997) e outras, tem 2n=18 cromossomos.

Provavelmente haja dois números básicos x=6 e x=9

no gênero Passiflora. Estudos citológicos

aprofundados poderiam auxiliar na determinação das

filogenéticas entre as espécies (Bruckner, 1997).

Existe alta compatibilidade interespecífica em

cruzamentos dentro do grupo com 2n=18, e híbridos

interespecíficos naturais e artificiais têm sido obtidos.

Os cruzamentos elucidam que as barreiras entre

várias espécies não são fortes, e que, com

persistência, muitos cruzamentos poderão ser obtidos,

mesmo entre espécies relativamente distantes.

Entretanto, os híbridos nem sempre são férteis e

viáveis (Bruckner, 1997).

Descrição da planta

O maracujazeiro-amarelo é uma planta

trepadeira sublenhosa e de grande vigor vegetativo,

de caule cilíndrico ou ligeriamente anguloso quando

jovem, essencialmente glaba (exceto o ovário);

estípulas linear-subuladas, inteiras ou diminuto

glandular serruladas. Pecíolos até 4 cm de

comprimento, biglandular no ápice, as glândulas

sésseis ou curto-estipitadas. Folhas trilobadas,

subcoriáceas, serreadas, lustrosas na face superior.

Flores axilares e solitárias, hermafroditas, brancas

com franja roxa, até 7 cm de diâmetro, filamento da

corona em 4 ou 5 séries. Androginóforo colunar bem

desenvolvido. Androceu formado por 5 estames, com

filetes livres e inseridos abaixo do ovário; antenas

dorsifixas. Ovário sobre ginóforo, globoso,

unilocular, multiovulado. Baga globosa, mais ou

menos glaba, com 5 a 7,5 cm em seu maior diâmetro,

vermelho-violácea quando madura ou amarelo-áurea

(na forma flavicarpa), de pericarpo pouco espesso,

contendo numerosas sementes ovais, reticuladas,

pretas e polpa um tanto ácidas e aromática.

Período de produção

O maracujazeiro-amarelo é uma espécie que

floresce o ano todo, desde que seja suficiente e bem

distribuído ao longo do ano os fatores temperatura,

água e luminosidade, mesmo assim, observa-se na

fenologia do maracujazeiro que pode haver picos de

floração e portando épocas de safra e entressafra em

regiões que não apresentam restrições climáticas.

Em regiões em que ocorre forte período de

déficit hídrico, baixas temperaturas e baixa

luminosidade (< 11 horas/dia), o maracujazeiro

paralisa o crescimento e o florescimento,

caracterizando assim, um período de entressafra, que

na região sudeste e sul do Brasil ocorre de agosto a

dezembro.

50

70

90

110

130

150

170

190

210

Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez

Índ

ice

de

Sazo

nali

da

de

Cultivo do maracujazeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 164

Nas regiões Norte e Nordeste, a maior

restrição climática é o período de estiagem.

12.4 Ecofisiologia

O maracujazeiro resiste moderadamente ao

déficit hídrico, mas os períodos prolongados de

estiagem retardam, significativamente, o seu

desenvolvimento e florescimento, podendo causar

severo desfolhamento.

Por outro lado, precipitações pesadas e

freqüentes durante o período de florescimento não

são favoráveis à produção, uma vez que nos dias

chuvosos a atividade dos insetos polinizadores é

quase nula e os grãos de pólen estouram com a

umidade.

A necessidade de água do maracujazeiro

variam de 800 a 1.750 mm anuais.

As regiões situadas em latitudes que

correspondam a um comprimento do dia de 10 a 12

horas apresentam as melhores condições para o

florescimento do maracujazeiro.

A temperatura favorável ao crescimento e

produção do maracujazeiro situa-se entre 21 e 32ºC,

mas a temperatura entre 26 e 27ºC é considerada

ótima para a cultura.

12.5 genéticA do maracujazeiro

Germoplasma

A preservação de germoplasma de

Passiflora, no Brasil, é feita em bancos de

germoplasma e em coleções, na Universidade

Estadual de São Paulo - UNESP, em Jaboticabal-SP

(21 espécies); na EBDA, em Conceição do Almeida-

BA; no Instituto Agronômico do Paraná - IAPAR, em

Londrina-PR; na Universidade Estadual do Sudoeste

da Bahia - UESB, em Vitória da Conquista-BA; na

SUDAP, em Boquim-SE; no Instituto Agropecuário

de Campinas - IAC, em Jundiaí-SP; na Embrapa

Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas-BA; na

Empresa Goiana de pesquisa Agropecuária –

EMGOPA, em Goiás, na Empresa Capixaba de

Pesquisa e Assistência Técnica – EMCAPA, no

Espírito Santo; no Embrapa Recursos Genéticos, em

Brasília; na Embrapa Trópico Úmido, no Pará e em

outros locais. São 15 os países que mantém coleções

de germoplasma de Passiflora, as quais são

consideradas pequenas para representar a grande

variabilidade natural existente (Lins et al., 1984;

Ferreira e Oliveira, 1991; Meletti et al., 1992;

Donadio, 2000; Galvêas e Alves, 1994; Nascimento

et al., 2003).

O gênero passiflora possui ampla variabilidade

genética interespecífica, favorecido na espécie

cultivada P. edulis Sims e na sua variabilidade

botânica auto-incompatibilidade existente e elevada

compatibilidade interespecífica existente no grupo

2n=18 (Ferreira, 1994).

A variabilidade genética é observada em:

florescimento, produtividade, resistência a pragas e

doenças, tolerância ao frio e, principalmente, em

características do fruto. O conhecimento dessas

alternativas genéticas é importante para embasar um

programa de melhoramento em Passiflora (Meletti et

al., 1992; Meletti et al., 2002a).

Além dessa ampla gama de variabilidade

genética interespecífica, que ocorre no gênero

Passiflora, há de se destacar que na espécie P. edulis

Sims e na sua variedade botânica P. edulis f.

flavicarpa Deg., ocorre também uma enorme

variabilidade, tendo em vista que esta espécie é

alógama, pois seus indivíduos são auto-

incompatíveis, não obstante a compatibilidade

interespecífica no grupo 2n=18 ser elevada (Ferreira,

1994).

Em relação as características físico-química

dos frutos das espécies de Passiflora spp. (Quadro

12.3) há grande variação, devidas às diferenças

amplamente relatadas, intra e inter-específica

(Meletti et al., 1992).

Quadro 12.3 – Características físicas e químicas dos frutos de diferentes variedades de maracujazeiros Amarelo e

Roxo (Passiflora ssp). Louveis/SP.

Acessos Peso fruto (g) Diâmetro (cm) Compr.(cm) Forma Cor polpa Polpa (%) SST (%)

P. edulis f. flavicarpa

‘Austrália’ 52,5 4,9 8,3 Ovolada Laranja 52,4 15,1

‘Pariqueta-Açu’/SP 101,8 5,8 10,4 Ovolada Am.ouro 56,3 13,2

‘Marmelo’ 57,2 5,2 5,4 Redonda Amarela 47,3 12,8

‘Casca Fina’ 153,4 7,8 10,3 Ovolada Amarela 60,8 13,6

‘Marília’ 138,6 - - Ovolada Laranja - 15,2

‘Monte Alegre’ 140,8 - - Ovolada Laranja - 15,4

‘Bogotá’ 130,6 - - Ovolada Laranja - 15,0

P. edulis Sims

‘Luizinha’/SP 61,0 5,1 7,2 Ovolada Laranja 50,3 17,6

‘280-UNESP’ 23,6 3,9 4,3 Redonda Laranja 43,6 -

‘Vermelhão’ 107,2 - - Redonda Amarelo - 14,8

‘Bogotá’ 102,5 - - Ovolada Laranja - 14,2

‘Roxo’ 55,1 - - Ovolada Amarelo - 19,5

Fonte: Meletti et al. (1992); Meletti et al. (1994).

Cultivo do maracujazeiro

Sebastião Elviro de Araújo Neto 165

O maracujazeiro-amarelo ‘Casca Fina’

apresenta as melhores qualidades físico-químicas,

sendo considerado um bom progenitor para o

programa de melhoramento da espécie. Já o

maracujazeiro-roxo ‘Luizinha’ possui um alto teor de

sólidos solúveis (Meletti et al., 1992).

Em uma população de 525 plantas, melhoradas

através de dois ciclos de seleção massal para redução

da espessura de casca, realizado pela Embrapa do

Pará (CPATU), foram selecionadas 20 plantas e seus

frutos caracterizados (n=10), pelas médias, desvio

padrão e coeficiente de variação (Quadro 12.4).

Quadro 12.4 – Média, desvio padrão e coeficiente de variação das características físicas e físico-químicas de frutos

de 20 progênies, pertencentes a uma população melhorada de maracujazeiro-amarelo. Belém-PA, 2001.

Peso do

fruto (g)

Compri-

mento do

fruto (cm)

Espessura

da casca

(cm)

Rendi-

mento de

suco (%)

Nº. de

sementes SST ATT pH SST/ATT

Média 161,6 7,3 0,49 47,3 281 16,2 3,4 3,0 4,91

Dês. Padrão 35,2 0,59 0,098 6,76 68,28 1,03 0,65 0,09 -

C.V. (%) 21,8 8,2 20,0 14,3 24,3 6,4 19,0 3,1 -

Fonte: Nascimento et al. (2003)

Auto-incompatibilidade

O maracujazeiro-amarelo é uma planta que

possui auto-incompatibilidade, dependendo de

polinização cruzada para frutificar, devendo ser

polinizada por polens de outras plantas da mesma

espécie preferencialmente.

Quadro 12.5 - Níveis de compatibilidade nos cruzamentos nos sistemas de auto-incompatibilidade gametofítico e

esporofítico.

Sistema de Auto-

incompatibilidade

Cruzamento Gametas Genótipo da progênie

Fêmea x Macho Funcional Não funcional

Gametofítico

- ambas as plantas com o

mesmo genótipo G1G2 x G1G2 nenhum Todos Nenhum

- plantas diferindo em um alelo G1G2 x G1G3 G3 G1 G1G3, G2G3

G1G3 x G1G2 G2 G1 G1G2, G2G3

- plantas diferindo nos alelos G1G2 x G3G4 G3G4 nenhum G1G3, G2G3, G1G4, G2G4

G3G4 x G1G2 G1G2 nenhum G1G3, G2G3, G1G4, G2G4

Esporofítica

- ambas as plantas com o

mesmo genótipo S1S2 x S1S2 nenhum todos