DINÂMICA DE FUNDO DA ENSEADA DO FLAMENGO, · PDF fileLANÇONE ET AL. –...

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  • Revista Brasileira de Paleontologia 8(3):181-192, Setembro/Dezembro 2005 2005 by the Sociedade Brasileira de Paleontologia

    181

    RESUMO Este estudo analisa a distribuio, a morfometria e a tafonomia das carapaas de foraminferos daenseada do Flamengo (Ubatuba, SP) e avalia sua distribuio espacial a partir da hidrografia e dos parmetrossedimentolgicos atuantes na plataforma interna. A densidade populacional e a diversidade de espcies somaiores na regio leste que nas regies central e oeste. Espcies bioindicadoras de gua Costeira dominam emtoda a enseada e, entre estas, dominam as bioindicadoras de ambiente rico em matria orgnica. Espciesbioindicadoras de gua Tropical so raras, mas so encontradas vivas na desembocadura da enseada e na regionordeste, sugerindo a entrada de massas de gua vindas da plataforma externa, alcanando as partes mais internasda enseada, em direo ao continente. As carapaas de tamanho mdio (250 125 m) dominam em toda a baa.As carapaas grandes (250 500 m), apesar de serem subordinadas, so abundantes nas regies central e leste,enquanto as pequenas (< 125 m) so raras na desembocadura, aumentando em nmero em direo ao continente.O percentual de carapaas fragmentadas , em geral, baixo, aumentando apenas na zona de rebentao da praia daEnseada, enquanto as corrodas ocorrem em toda a enseada. Carapaas preenchidas com monossulfeto de ferroso normalmente encontradas em reas confinadas, enquanto carapaas limonitizadas ocorrem prximas de-sembocadura. Tais resultados permitem concluir que a enseada do Flamengo um ambiente de moderada energiahidrodinmica, que diminui gradualmente em direo ao continente, desde a desembocadura. Com exceo dapraia, as reas mais internas da enseada caracterizam subambientes com baixa energia deposicional e circulaorestrita.

    Palavras-chave: foraminferos, circulao de fundo, plataforma interna, morfometria, tafonomia.

    ABSTRACT BOTTOM DYNAMIC OF ENSEADA DO FLAMENGO, UBATUBA, BRAZIL, BASEDON SPATIAL DISTRIBUTION, MORPHOMETRY AND TAPHONOMY OF FORAMINIFERA. This studyanalyzes the distribution, morphometry and taphonomy of the tests of foraminifera in Flamengo Bay, Ubatuba,SP, Brazil, and assesses their spatial variations as related to hydrographic and sedimentological parameters of theshelf. The eastern area presents higher quantity and number of foraminifera species than in the western andcentral areas. Indicator species of Coastal Water dominate the whole bay. Among these, the organic matterindicators are dominant. Tropical water indicator species are rare, but they are found alive at the mouth of thebay and in the northeastern area. This suggests that water masses enter from the outer platform and spread intothe inner parts of the bay. Medium-sized tests (250 125 m) dominate the whole bay. Large tests (250 500m), despite being subordinate to medium-sized ones, are abundant in the central and eastern areas. Small tests(< 125 m) are rare at the mouth but increase in number towards the inner areas. Percentages of fragmentedcarapaces are generally low, but they are higher in the breaker zone of Enseada Beach. Eroded carapaces are foundthroughout the bay. Tests filled with iron monosulphides are commonly found in the confined areas of the bayand limonitized tests ones are found near the mouth. On the basis of these results, it is concluded that FlamengoBay is an environment of moderate hydrodynamic energy, which decreases gradually from the mouth towardsthe mainland. The inner areas are sub-environments with low depositional energy (restricted circulation), exceptfor Enseada Beach.

    Key words: foraminifera, sedimentological and hydrodynamic circulation, inner platform, morphometry,taphonomy.

    DINMICA DE FUNDO DA ENSEADA DO FLAMENGO, UBATUBA, BRASIL,INFERIDA A PARTIR DA DISTRIBUIO ESPACIAL, MORFOMETRIA E

    TAFONOMIA DE FORAMINFEROS

    RAFAELA BONFANTE LANONE, WNIA DULEBA,Laboratrio de Micropaleontologia, Instituto de Geocincias, USP,

    Rua do Lago, 562, 05508-080, So Paulo, SP, Brasil. [email protected], [email protected]

    MICHEL M. MAHIQUESDepto. Oceanografia Fsica, Qumica e Geolgica, Instituto Oceanogrfico, USP, Praa do Oceanogrfico, 191, 05508-900, So Paulo,

    SP, Brasil. [email protected]

    03_Art02_Bonfante.pmd 28/11/2005, 09:49181

  • REVISTA BRASILEIRA DE PALEONTOLOGIA, 8(3), 2005182

    INTRODUO

    Foraminferos bentnicos so importantes ferramen-tas utilizadas em estudos de circulao marinha ouestuarina. A ocorrncia ou a ausncia de espcies de dife-rentes intervalos batimtricos e/ou indicadoras de guasfrias ou quentes auxiliam a detectar a entrada e sada dasmassas de guas na regio costeira, na plataforma e notalude (Schnitker, 1974; Murray, 1991; Debenay & Guilou,2002). Foraminferos tambm so bons indicadores da di-nmica de fundo dos sistemas bentnicos, pois a compo-sio das associaes e a morfologia das carapaas soreflexos do padro hidrodinmico local (Scott et al., 2001).Enquanto espcies da epifauna so geralmente caracters-ticas de locais ricos em oxignio (Bernhard, 1986; Murray,1991), Pseudononion spp., Buliminella elegantissima,Bulimina marginata, Fursenkoina pontoni so bons exem-plos de espcies que ocorrem em ambiente redutor, ricoem matria orgnica (Seiglie, 1968). Quanto morfologia,os formatos, a relao superfcie/volume das carapaas ea densidade de poros esto diretamente relacionados como tipo de ambiente onde vivem (Hendrix, 1958). Portanto, apartir da ocorrncia de determinadas espcies e de certasfeies morfolgicas nas carapaas, pode-se diagnosticarlocais com diferentes graus de circulao de fundo.

    Alm da anlise morfolgica, o estudo tafonmico dascarapaas permite evidenciar vrias outras informaes a res-peito da circulao de fundo (como reviso, ver Martin, 1999a,1999b). Carapaas corrodas, pequenas, frgeis, preenchidaspor monossulfeto ou sulfeto de ferro so indicadoras deambiente redutor e/ou ambiente subsaturado de carbonatode clcio (Alexandersson, 1979; Berger, 1979). Carapaas ro-bustas, limonitizadas, que apresentam sinais de abraso pordesgaste mecnico indicam ambiente com alta energiahidrodinmica (Hallock et al., 1986; Yordanova & Hohenegger,2002). Portanto, estudos sobre padres de distribuio dasassociaes de foraminferos atuais, integrados a dadosmorfolgicos e tafonmicos das carapaas, permitemaprofundar a compreenso da dinmica sedimentar de vriostipos de ambientes. Alm da aplicao ambiental, esses da-dos so importantes subsdios para estudos dereconstituio paleoambiental.

    O presente trabalho tem por objetivo verificar os efeitosoceanogrficos e dos padres de sedimentao sobre a es-trutura das associaes de foraminferos e a morfologia desuas carapaas. Para atingir estes objetivos sero, portanto,realizadas anlises composicionais das associaes, bemcomo morfolgicas e tafonmicas das carapaas.

    REA DE ESTUDO

    A rea de estudo situa-se na enseada do Flamengo,Ubatuba, SP, (23 29 42" a 23 31 30" S/45 05 a 45 07 30" W)(Figura 1). A enseada do Flamengo rasa, com profundidademxima de 14 m, ocupando uma superfcie de aproximada-mente 18 km2, com largura mdia 2,5 km e abrindo-sediretamente ao mar. A enseada orientada na direo norte-

    sul, tendo, ao fundo, uma extensa praia a nordeste, denomi-nada praia da Enseada e duas pequenas baas: saco doPerequ Mirim, situado ao norte, e o saco da Ribeira, a noro-este (Figura 1).

    A enseada do Flamengo um ambiente semiconfinado,cujo padro de circulao caracteriza-se pela entrada de cor-rentes vindas do sul, pelo lado ocidental da enseada. Estascorrentes, aps margearem a costa ocidental, bifurcam-se,indo para o saco da Ribeira e para a costa oriental (Magliocca& Kutner, 1965). Esse padro de circulao condiciona a dis-tribuio dos sedimentos de superfcie de fundo, havendodeposio de sedimentos mais grossos na costa ocidental esedimentos mais finos no lado oriental da enseada. A maioriados sedimentos de natureza lamo-arenosa, onde os termosmais finos so encontrados na poro mais interna do sacoda Ribeira (Mahiques, 1992).

    A rede de drenagem local constituda por pequenoscursos de gua e principalmente pelo rio Perequ Mirim. Estarede geralmente no contribui com volume aprecivel de gua.Entretanto, durante pocas de maior pluviosidade, h aportede grande quantidade de fragmentos vegetais e sedimentoscontinentais (Mahiques, 1992).

    MATERIAL E MTODOS

    Foram estudadas 10 amostras de sedimento superficial,coletadas com pegador tipo Petersen, a bordo do barco depesquisa Veliger II, em outubro de 1986 (Figura 1). Para adeterminao dos foraminferos contidos no sedimento, omaterial foi fixado em lcool 70 GL e corado com rosa debengala (Walton, 1952) no momento da coleta. Deste materialfixado e corado, foi retirada a alquota de 10 cm3, que foipeneirada a mido em duas peneiras: 0,500 e 0,062 mm(Schrder et al., 1987). As fraes retidas nas peneiras foramsecas e submetidas anlise densimtrica por flutuao-afun-damento em tricloroetileno (Scott et al., 2001), visando sepa-rar os foraminferos do sedimento.

    Uma vez separadas, todas as carapaas de foraminferos,independente de tamanho ou grau de fragmentao, foramtriadas, fixadas (com goma adragante) em lminas de fundoescuro (porta-foraminferos), identificadas e contadas. De-terminadas amostras foram subamostradas, por possuremvalor muito elevado de espcimes (mais de 200 espcimes).

    A classificao genrica dos foraminferos baseou-se emLoeblich & Tappan (1964, 1988) e a classificao em nvel deespcie foi feita a partir de Boltovskoy et al. (1980), de pran-chas de trabalhos realizados na regio de Ubatuba (Duleba,1993) e nos exemplares da coleo micropaleontolgica doIGcUSP.

    Aps a etapa de identificao taxonmica foram elabora-dos mapas: (i) dos principais parmetros populacionais (da-dos de densidade e riqueza); (ii) das porcentagens dassubordens Rotaliina, Miliolina e Textulariina; e (iii) de distri-buio de espcies bioindicadoras, baseando-se nos dadosapresentados em Boltovskoy