Entrevista eliane brum

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“POR FAVOR, NÃO ME DEIXE MORRER” A garota Sonia, de apenas 11 anos, implora à repórter Eliane Brum para que salve sua vida. Assim como quase todas as pessoas de sua família, bolivianos do povoado de Novillero, Sonia é vítima da Doença de Chagas. Antes de partir de volta para o Brasil, Eliane, então, promete a ela: “Eu vou contar a tua história para o mundo.” Por: Lu Cafaggi e Stefânia Firmo Eliane Brum Sonia, de 11 anos, e a sobrinha Érica, de 5. Sonia teve reação alérgica ao tratamento da doença e precisou suspendê- lo. Ainda não há um medicamento pediátrico, por isso as crianças são mais vulneráveis aos seus efeitos. Revista Ponto & Vírgula — ### de #### 1 EDITORIA Fotos: ############
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    10-Jul-2015
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  • Por favor, no me deixe morrer

    A garota Sonia, de apenas 11 anos, implora reprter Eliane Brum para que salve sua vida. Assim como quase todas as pessoas de sua famlia, bolivianos do povoado de Novillero, Sonia vtima da Doena de Chagas. Antes de partir de volta para o Brasil, Eliane, ento, promete a

    ela: Eu vou contar a tua histria para o mundo.Por: Lu Cafaggi e Stefnia Firmo

    Eliane Brum

    Sonia, de 11 anos, e a sobrinha rica, de 5. Sonia teve reao alrgica ao tratamento da doena e precisou suspend-lo. Ainda no h um medicamento peditrico, por isso as crianas so mais vulnerveis aos seus efeitos.

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  • Naquela noite, Eliane Brum con-ta uma histria de terror. Um conto sobre vidas assombradas por cria-turas que, em seu sangue, carregam promessas invisveis de morte. Ou uma histria verdadeira sobre os vampiros da realidade.

    Trs de setembro, centro de Belo Horizonte. noite de Sempre um Papo, no SESC Palladium, quan-do Eliane fala das histrias que detalhou em reportagem no livro Dignidade!. Histrias de Sonia, Maria, Cristina e suas famlias do-entes. E pobres. O ttulo da repor-tagem defende que os vampiros da realidade s matam pobres.

    O monstro das histrias conta-das o barbeiro, vetor da Doena de Chagas, que despenca sobre os corpos adormecidos daqueles mo-radores dos vales da Bolvia. O rudo de suas asas d o compas-so da rotina daquelas aldeias. Seu sangue ou o sangue das pessoas, chupado durante a noite mancha as paredes das casas. Sua presena, em milhares, compete com as vidas daquelas famlias.

    Em tantos momentos, os espec-tadores que escutam o relato de Eliane passeiam as mos ao redor do pescoo, ou disfaram, enco-lhidas, um comicho no brao. A linguagem de seus corpos tensos denuncia o desconforto que nasce a partir daquele mundo novo que Eliane apresenta.

    Novo, sim, mas no porque sua existncia era desconhecida. Era novo porque, antes, nunca ha-via parecido to prximo. Parecia uma realidade inacessvel, to tris-te que s cabia em uma abstrao. Um punhado de terra vermelha na dimenso do infelizmente, no h nada que eu possa fazer por eles. No entanto, um mundo vivo, verdadeiro. E nosso vizinho de mapa.

    Mas o mapa no conta de seus personagens, com suas tranas,

    Infeco causada pelo protozorio Trypanosoma cruzi e transmitida pelo barbeiro. Seus sintomas variam de inflamaco nos rgos infectados a insuficincia cardaca. Se no tratada, a doena crnica pode ser fatal.

    Projeto cultural de incentivo leitura, que realiza encontros entre pblico e grandes nomes da literatura, em auditrios espalhados por mais de trinta cidades brasileiras.

    Livro que rene textos de escritores de diferentes pases que acompanharam os Mdicos Sem Fronteiras em suas misses no tratamento de doenas negligenciadas pelos governantes. Foi lanado em 2012, no Brasil, pela editora Leya.

    Inseto vetor da Doena de Chagas. No povoado que Eliane visita com os Mdicos Sem Fronteiras, conhecido como vinchuca, nome que significa, literalmente, deixar-se cair.

    Eliane Brum escreve Jornalismo Literrio, um modelo que mescla aspectos da literatura com os princpios jornalsticos

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  • seus silncios, suas infncias, colos e acanhamentos. Chega a parecer que o mapa mente, mais esconde do que revela aquela geografia to particu-lar. Geografia que Eliane desvenda. E que, ao fazer um pacto com a me-nina Sonia eu vou contar a tua histria aproxima dois mundos. Um mundo de c, de infncias intei-ras de chances, encantos, encontros, cadernos decorados e joelhos ardi-dos de Merthiolate. E um mundo de infncias sufocadas por percevejos que entalam nas gargantas. Que tambm um mundo de c, mas um mundo invisvel.

    Eliane Brum jornalista, escri-

    tora e documentarista. Atualmente, escreve uma coluna semanal para a revista poca. Trs semanas aps o bate-papo no SESC Palladium, Elia-ne concede Ponto e Vrgula uma entrevista exclusiva. Pelo telefone, Eliane nos conta do pouco e do mui-to que um reprter traz ao mundo quando compartilha as histrias re-ais que encontra nos parnteses do dia-a-dia. Histrias da vida que nin-gum v.

    Em momento algum, Eliane se re-fere a Sonia, Maria, Cristina ou suas famlias como aquelas pessoas, aquelas vidas. Um pronome de-monstrativo mais acolhedor indica

    o estigma dessas pessoas que ficou em sua vida reportadeira.

    Por que voc decide nos contar as histrias dessas pessoas? Qual a diferena que voc acredita que seu trabalho pode trazer ao mun-do?

    Eu acredito profundamente no poder da narrativa, no poder da his-tria contada. No poder da histria da vida contada como instrumento de transformao da prpria vida. E isso o que d sentido a minha vida. Tudo o que eu fao a partir dessa crena. E, quando eu encontro a So-

    Cristina e Maria esto entre os milhares de camponeses da regio de Narciso Campero, na Bolvia, que convivem com o barbeiro. As duas amigas conheceram-se em uma viagem que fizeram em busca de um marca-passo.

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  • nia (e eu j fiz vrias matrias muito complicadas, vrias matrias que eu levei, algumas delas, anos para me recuperar, outras das quais nunca vou me recuperar), eu acho que fao o meu confronto mais profundo com a impotncia. Porque, quando ela me pede para salvar a vida dela, o que eu sempre digo para as pesso-as: eu vou contar a tua histria pro mundo (e eu acho que isso impor-tante). Quando fui dizer isso para ela (e eu disse), eu sabia que isso no seria suficiente, talvez, para salvar a vida dela. A vida dela. Dela que esta-va me pedindo. Pedindo a mim.

    Quando volto para So Paulo, eu fico paralisada pela primeira vez na minha vida. Eu no consigo escrever porque, pela primeira vez, eu achei que escrever era pouco. Que escre-ver no ia salvar a vida da Sonia.

    Ento eu fiquei duas semanas paralisada e precisei fazer uma re-flexo muito profunda, um mergu-lho profundo dentro de mim, para entender que, se eu no conseguisse romper essa paralisia e contar a his-tria da Sonia para o mundo, eu no ia cumprir a minha parte no pacto com ela.

    E contar uma histria pouco. E muito. pouco e muito, ao mes-mo tempo. E acho que isso eu enten-di. Acho que ser jornalista e contar histrias reais sempre um confron-to cotidiano com a impotncia. S que, at ento, isso nunca tinha fica-do to claro para mim. A gente tem que conviver com esse muito que tambm pouco, mas que o poss-vel. E grande contar uma histria e, por isso, eu escrevo tambm que, ao compartilhar o pesadelo que vai ser meu para sempre com as pessoas, uma tentativa de, atravs da hist-ria contada, conseguir fazer com que as pessoas se mobilizem para fazer a sua parte, para que um dia, no mun-do, crianas como Sonia no preci-sem pedir para serem salvas.

    Contar uma histria romper

    a barreira da invisibilidade. aproximar mundos que viviam apartados. Isso contar uma histria real e esse que o po-der da reportagem. E eu acredito muito nisso.

    Os jornalistas so historiadores do cotidiano. O que a gente produz documento sobre a nossa poca. E isso humano.

    Suas reportagens so classificadas como Jorna-lismo Literrio. Voc acre-dita que a linguagem que voc escolhe para contar suas reportagens se que isso uma escolha pode fazer com que seu leitor se importe mais com o que est sendo contado do que se voc escolhesse uma linguagem jornalstica mais tradicional?

    Eu no sei se existe uma lingua-gem tradicional no jornalismo. Exis-te bom jornalismo e existe mau jor-nalismo. E, s vezes, tu ficas apenas nos nmeros (e aco que os nmeros so, sim, importantes), mas a gente precisa dar carne para as estatsticas. A gente precisa mostrar os rostos, as vidas, os nomes, os sobrenomes de quem est por trs, de quem est en-coberto por essa estatstica. A esta-tstica sempre uma coisa fria.

    Ento eu acho que a boa repor-tagem aquela que consegue, o mximo possvel, dar conta da com-plexidade daquela realidade. Con-tar como so aquelas vidas. Quais so aqueles detalhes que alimentam

    aquelas vidas. Como que o am-biente, como que o contexto, como que a Histria. Por isso, fazer uma boa reportagem d mui-to trabalho e as suas informaes, como reprter, no so apenas as es-tatsticas, no so apenas as palavras ditas. Mas toda a complexidade do real que feita por um monte de coi-sas, inclusive por cheiros, por gestos, por cores... E silncios, tambm.

    Tem muito mais informao para apurar do que tu ficar apenas em aspas e nmeros. Ento, isso, para mim, bom jornalismo. E isso que carrega a pessoas pro mundo do ou-tro. Porque o reprter vai at onde o leitor no pode ir. E ele precisa trazer para o leitor toda a complexidade desse mundo, para que o leitor pos-sa sentir, com todas as informaes

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  • que o reprter apurou e possa fazer, ento, as suas prprias escolhas a partir de sua prpria interpretao do mundo.

    Ento eu fico muito feliz. O maior elogio que eu posso receber quan-do o leitor me diz lendo a tua re-portagem, parecia que eu estava l. Ento, eu consegui chegar perto des-sa realidade.

    O mais criminoso que a gente pode fazer reduzir a complexidade da realidade. E quando tu enxerga as pessoas, para alm dos nmeros, outro envolvimento que tu tem com

    a realidade. Tu te implica, medida que tu te implica com o outro, com aquilo que humano.

    s vezes, as pessoas me dizem ah, tu faz matrias humanas ou por que tu escolhe fazer matrias humanas?. Eu no consigo nem entender essa pergunta. Como as-sim? Ns somos contadores da his-tria cotidiana. Os jornalistas so historiadores do cotidiano. O que a gente produz documento sobre a nossa poca, sobre nosso momento histrico. E isso humano. A Hist-ria construda por pessoas. Ento

    toda reportagem humana. So hu-manos escrevendo sobre outros.

    Uma doena no s uma doen-a. como se tu fosses escrever so-bre a Doena de Chagas e escrevesse s sobre uma doena. Da tu est falseando a realidade, est resumin-do a realidade. Porque uma doena Histria, contexto, costume, cultura. E isso o que eu tento fazer ao contar a histria da Maria e da Cristina, ao contar a histria de suas famlias. O Chagas no algo que simplesmente est ali, uma doena que est fora da Histria, fora do

    Pacientes levam suas famlias inteiras para saber os resultados dos exames de Chagas. Aiquile, Bolvia.

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  • processo histrico. Essa doena s est matando es-

    sas pessoas por causa de uma srie de questes histricas, por ser uma doena da pobreza, por ser uma do-ena negligenciada. E, por ser uma doena da pobreza, uma doena que a indstria farmacutica no tem interesse em pesquisar. E porque ela no se interessa em pesquisar, s existe um remdio, que de 1960 e tem vrios efeitos colaterais. Por causa dos efeitos colaterais, muita gente no pode se tratar. E a gente est em 2012 e ainda no se pes-quisou nenhum outro tratamento, nenhuma outra vacina para essa do-ena. Ela uma doena que poderia ser erradicada, se fosse erradicado o seu vetor, que o barbeiro. E, para isso, precisaria ter casas, para essas pessoas, que fossem seguras. E por que essa populao invisvel?

    Ento uma doena no s uma doena. Uma doena uma doen-a dentro de um processo histrico cultural. E esse meu desafio como reprter.

    Assim como, quando eu falo de vampiros, eu no estou fazendo uma graa. No estou fazendo uma brin-cadeira com o barbeiro que um inseto que suga o sangue. Eles so vampiros por causa de toda uma apreenso que toda essa populao tem da realidade. A vinchuca (que como eles chamam barbeiro em

    quchua, e eles s falam quchua) onipresente para eles. algo que molda, que marca a cultura, marca a vida deles, marca a histria deles. Porque a vinchuca sempre esteve l. E eles no sabem que existe um outro mundo sem vinchuca. Ento, por isso que so vampiros, por-que tem essa presena que molda a vida. Determina a vida e determina a morte.

    Nosso trabalho de reprter aproximar os mundos. At eu ter contato com a histria dessas pes-soas, at eu ter que fazer esse gesto interno de me mobilizar para ir at o mundo deles, Chagas, para mim, era s uma doena transmitida pelo barbeiro. Era muito pouco. E no: uma tragdia, uma histria de ter-ror real que est acontecendo agora, neste momento, bem aqui do nosso lado. Portanto, qualquer pessoa de-cente tem que estar implicada nisso. E voc sentiu medo ao ir pra l, sabendo que um ambien-te de risco?

    No senti medo, no. Tem ma-trias em que eu sinto medo, como quando envolve uma violncia, em regies de conflito armado. A eu sinto medo. Mas, nesse caso, no.

    Os Mdicos Sem Fronteiras s permitiram que eu ficasse uma sema-na. Em geral, o tempo que eles per-

    Lngua indgena da Amrica do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhes de pessoas de diversos grupos tnicos. O quchua era falado na regio central dos Andes desde bem antes da poca do Imprio Inca.

    ONG que oferece ajuda mdico-humanitria em regies do mundo inteiro que convivem com conflitos armados, desastres naturais, epidemias, fome, excluso social ou doenas negligenciadas. Locais onde o sistema de sade sequer existe ou no funciona adequadamente.

    Aos nove anos, Eliane escreveu seu primeiro romance. No dia em que matou um filhote de barata, sentiu tanta culpa que tentou imortaliz-lo em uma novela (Autobiografia de uma barata), escrita em um caderno.

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  • mitem quando aceitam jornalistas, por razes de segurana. Eu gostaria de ter ficado mais. Achei que seria importante ficar um pouco mais, mas era o possvel. Fiquei uma semana. E eu tambm gostaria de ter ficado nas aldeias, mas tambm uma regra de-les. Tinha de ficar na casa deles, onde havia mais condies de segurana. Quando e como voc se des-cobriu reprter? Quando e como essa reprter escolheu se aproximar das pessoas annimas e da vida cotidiana dessas pessoas?

    Eu acho que j era reprter antes de saber que era reprter. Sempre fui uma escutadeira e eu acredito que meu principal instrumento para a reportagem a escuta (que uma coisa muito difcil). Ento, desde pe-quena, eu gostava de escutar a hist-ria das pessoas, em vez de brincar.

    Boa parte da minha famlia de origem rural. So pequenos campo-neses. Alguns sem terra, alguns com um pouco de terra. Eu morava na cidade, em Iju (Rio Grande do Sul) que uma cidade muito pequena, mas a gente ia, nos fins-de-semana, ficar com os parentes do meu pai. E eu gostava. Botava um banquinho e ficava escutando, num canto, a his-tria dos adultos, em vez de brin-car. E eles esqueciam, at, da minha presena ali, porque eu ficava num cantinho. Acho que, at hoje, eu sou essa criana que fica num canto, num banquinho, escutando a hist-ria dos outros.

    Nunca fui faladeira. Para mim, est sendo uma experincia muito nova essa de fazer palestras e dar entrevistas, que uma coisa que importante. uma forma de tu com-partilhar conhecimento, de tambm transmitir, continuar contando as histrias que contam nas reporta-gens, nos livros, enfim. Mas eu no sou uma faladeira, eu sou uma escu-tadeira. Quando eu tenho que falar

    muito, eu preciso depois ficar em casa, trancada, quieta por bastante tempo, para me recuperar dessa ex-posio. Eu me sinto, assim, muito desnuda, falando. Mas acho super importante, ento, por isso, eu fao.

    No momento em que aprendo a escrever (j escutava, antes de saber ler e escrever), os livros mudam mui-to a minha vida, eu acho que eles me salvam. Eu acho que eu fui salva pe-los livros. Eu era uma criana muito triste e encontrei uma forma de viver outras vidas e outros mundos no mo-mento em que eu comeo a ler. E co-mecei a escrever, tambm, com onze anos de idade. Com onze, no. Com nove anos de idade. Para dar conta da dor do mundo, que era algo que eu sentia muito forte. E a escrita era um jeito de lidar com isso, porque seno eu me sentia sufocada.

    Eu sempre me interessava no exatamente pelo que tinham me

    pautado para fazer, mas pelo que estava em torno disso, ou pelos personagens

    secundrios.

    Fui escutando e escrevendo. Aca-bei fazendo Jornalismo. Fazia His-tria tambm, achei que eu ia ser historiadora. No achava que eu servia para ser jornalista, porque eu me achava muito tmida. Quando j estava no final da faculdade (ia ter-minar a faculdade porque j estava no final, para ter o diploma) tinha certeza de que eu no iria exercer a profisso. A encontrei um professor maravilhoso. Sempre conto essa his-

    tria. Que se chama Marques Leo-nam, que me mostrou que ser repr-ter era a melhor profisso do mundo e trouxe vrias reportagens maravi-lhosas, s quais eu no tinha acesso e que eram muito diferentes daquele jornalismo rido, sem gente, que vi-gorava naquela poca, na maioria dos jornais. A eu escrevi uma ma-tria para ele, sobre... filas. Todas as filas que a gente entra desde que nasce at morrer. Que era um tema inusitado para aquela poca (hoje, j no seria). Porque era o que me inte-ressava. Eu me interessava por essas coisas e esse professor, ao contrrio de outros, disse que eu podia. Disse que isso era, sim, interessante.

    Essa matria acabou sendo ins-crita num concurso universitrio da regio Sul do Brasil. Eu ganhei, o prmio era um estgio no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, e foi assim que eu entrei no jornalismo. Na Zero Hora, acabei sendo con-tratada, depois. Em 1988. A eu descobri que isso de ser reprter mesmo o que eu sou, no aquilo que eu fao. E, desde sempre, eu me in-teressei por essas histrias. Antes de ter conscincia disso, quando eu ia cobrir alguma coisa, eu sempre me interessava no exatamente pelo que tinham me pautado para fazer, mas pelo que estava em torno disso, ou pelos personagens secundrios. Era essa a matria que eu acabava tra-zendo.

    Por causa disso, em 1999, eu fui fazer A Vida que ningum v, que era uma coluna de reportagens, des-sa vez, assumidamente sobre pesso-as annimas, sobre pessoas que, em geral, no so notcia da imprensa. Mas fui escolhida para fazer isso porque eu j fazia isso, naturalmen-te.

    A partir de certo momento, isso se transforma em algo muito consciente em mim. Eu comeo a refletir sobre o que eu fao. Ento, uma escolha poltica consciente. , sim, uma es-

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  • colha poltica, porque, como eu fa-lei, eu vejo a nossa profisso como a de historiadores do cotidiano. O que a gente produz documento sobre o que est acontecendo agora. Isso influencia a vida das pessoas hoje e vai influenciar a compreenso deste momento histrico daqui a cinqen-ta, cem anos. Ento, sempre que eu fao uma matria, que seja uma nota ou uma matria de vinte pginas, eu preciso ter a certeza de que, quan-do o historiador, daqui a cem anos, procurar minha matria num arqui-vo digital, ele vai ser bem informado sobre esta poca, sobre este momen-to histrico. Sobre as contradies, sobre as nuances. Ele vai ter essas in-formaes. Eu fao o meu trabalho com o peso dessa responsabilidade.

    O dia em que eu achar que no dou mais conta disso, por algum motivo, eu vou deixar de fazer esse trabalho, porque muito srio. Quando a gente reduz a realidade, a gente comete um crime. Ento, quando a gente est contando o nosso momento histrico e a gente deixa de fora a maior parte das pes-soas, dos homens e das mulheres que constroem este pas, este mundo, esta comunidade, a gente est dizen-do para essas pessoas que as vidas delas no importam. Que a morte delas tambm no importa. E isso tem um efeito enorme sobre a vida dessas pessoas.

    Ento a minha escolha poltica contar a vida da maioria das pesso-as. A vida das pessoas supostamente comuns. E mostrar que no existem vidas comuns. Toda vida extraor-dinria. Por isso, eu tambm digo que sou uma reprter de desacon-tecimentos. Porque eu me interes-so mais por aquilo que se repete. E por aquilo que se repete sem que ningum veja. Ento, so desacon-tecimentos desde a vida s suposta-mente comum das pessoas, como desacontecimento aquilo que se re-pete e que no visto, como essa ge-

    rao de jovens pobres e, a maioria deles, pardos e negros, que morrem antes dos vinte anos. Como at esses conflitos na Repblica Democrtica do Congo, como outros conflitos africanos, que, por se repetirem, vi-ram desacontecimentos. Desaconte-cem. E a imprensa, em geral, cobre os acontecimentos, aquilo que, de repente, sai da rotina. S que tem

    rotinas de violncia, tem rotinas de vrios tipos que precisam ser conta-das. Ento a minha escolha uma escolha poltica.

    Voc chegou a mencionar o contedo das reportagens que, atualmente, armaze-nado, publicado e comparti-lhado digitalmente.

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  • Partindo disso, como voc v o futuro do impresso?

    Eu no me preocupo com o futu-ro do impresso, at porque eu no tenho como saber o que vai aconte-cer. Eu me preocuparia se estivesse em risco a reportagem, o futuro da reportagem. E isso eu tenho certeza de que no est em risco. Porque a reportagem, pelo menos da forma

    que eu vejo, a narrativa da His-tria contempornea, da histria cotidiana. E isso no tem como no ser contado. A humanidade existe como narrativa. Ns sabemos que existimos pela narrativa. Que, antes, era oral e, agora, tambm escrita. Ento, no existe como isso morrer. A reportagem uma coisa que vai sempre existir.

    Agora, se ela feita em meios di-gitais ou impressos, acho que isso um problema menor. Claro que tem uma questo de modelo de negcios que est em discusso e que nos afe-ta e que importante. Modelos de financiamento das reportagens, es-pecialmente. A reportagem uma coisa cara, acho que sempre vai ser cara. Ento todas essas discusses so importantes.

    Mas o que me importa mais ter certeza de que a reportagem jamais vai morrer. A imprensa pode mudar a plataforma. E eu acho que at meio inevitvel que tudo isso seja, cada vez mais, digital. Porque uma mudana tecnolgica muito impor-tante, muito revolucionria. E eu j leio grande parte dos livros, hoje, em e-book. Eu viajo muito, ento, pra mim, maravilhoso poder car-regar quinhentos livros em algo que tem menos de um quilo. E, hoje, eu trabalho, fundamentalmente, na in-ternet e acho que a internet d pos-sibilidades que antes eu no tinha. Como a de poder dar para os textos o tamanho que os textos merecem ter, o que sempre foi uma grande questo pra mim.

    Mas eu acho que a reportagem at vive um grande momento, apesar de todas essas indefinies, todas es-sas dvidas, essas inseguranas que sempre fazem parte de qualquer mu-dana. um momento muito rico porque com toda essa quantidade de informaes na rede, com tanta gente escrevendo, com tantas vozes narrativas novas que a gente tem, hoje, a gente vai precisar ser muito melhor. A gente vai precisar fazer re-portagens muito melhores para ser lido. Porque tem que ser algo muito bom, hoje, para que o leitor d o seu tempo para ler a nossa reportagem. Ento, a reportagem ganha com isso. Os grandes reprteres e as boas reportagens esto beneficiados por essa competio que hoje muito maior, por causa da internet.

    A fotgrafa e assessora de imprensa dos MSF, Vnia Alves, registrou momentos do dia-a-dia das famlias entrevistadas por Eliane.

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