Eugene H. Peterson ● Corra com os Cavalos

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Para quem busca uma vida de excelência [algumas páginas]. Ao bebermos da mesma fonte do autor, aprenderemos a nos livrar da ditadura dos estereótipos, da fadiga de uma vida de rotina, tédio e da falta de perspectivas para buscar a realização de sermos espontaneamente humanos. E felizes.

Transcript of Eugene H. Peterson ● Corra com os Cavalos

  • CORRA COM OS CAVALOS

  • EUGENE PETERSON

    CORRA COM OS CAVALOSPara Quem Busca Uma Vida de Excelncia

  • Peterson, Eugene H., 1932-

    Corra com os cavalos: para quem busca uma vida deexcelncia / Eugene H. Peterson; traduo Jos FernandoCristfalo. Viosa: Ultimato ; Niteri: Textus, 2003.

    248p. ; 21 cm

    ISBN 85-86539-59-7ISBN 85-87334-61-1

    Traduo de: Run with the horses : the quest for life at its best

    1. Jeremis, Profeta. 2. Bblia. A.T. Jeremias - Meditaes.I. Ttulo.

    CDD. 19.ed. 242.5

    CDD. 20.ed. 242-5

    Ficha catalogrfica preparada pela Seo de Catalogao eClassificao da Biblioteca Central da UFV

    P485c2003

    CORRA COM OS CAVALOSCategoria: Espiritualidade / Vida Crist

    Originalmente publicado por InterVarsity Press como Run withthe Horses, de Eugene Peterson.Copyright 1983, InterVarsity Christian Fellowship.Traduzido com permisso de InterVarsity Press, P.O. Box 1400,Downers Grove, IL 60515, EUA

    Primeira edio: Maio de 2003Reviso: Joo Guimares / Edna Batista GuimaresDiagramao: Rafael AltCapa: Next Noveau Diviso Publicidade

    PUBLICADO NO BRASIL COM AUTORIZAOE COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

    EDITORA TEXTUSCaixa Postal 107.00624360-970 Niteri, [email protected]

    EDITORA ULTIMATO LTDACaixa Postal 4336570-000 Viosa, MGTelefone: 31 3891-3149 Fax: 31 3891-1557E-mail: [email protected]

  • Para Eric,cujo pai tambm pastor.

  • [ ]Sumrio

    1. Como voc competir contra cavalos?

    2. Jeremias

    3. Antes

    4. Sou apenas um jovem

    5. No confie em falsas palavras

    6. Desa casa do oleiro

    7. Pasur fere a Jeremias

    8. Minha ferida incurvel

    9. Vinte e trs anos de persistncia

    10. Toma um rolo e escreve nele

    11. Casa dos recabitas

    12. Carta aos exilados

    13. Sentinela... rei... eunuco

    14. Comprei o campo em Anatote

    15. Referente s naes

    16. Na terra do Egito eles cairo

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    Captulo 1

    Como voc competir contracavalos?

    Se te fadigas correndo com homens que vo a p, como podercompetir com os que vo a cavalo? Se em terra de paz no te sentesseguro, que fars na floresta do Jordo? Jeremias 12.5

    O meu lamento em relao sociedade contempornea devido sua decadncia. H alguns poucos prazeres que ainda me atraem,mas quase nenhuma beleza a me cativar e nada ertico a me excitar.No me sinto provocado ou desafiado por nenhum crculo ou posiointelectual, filosofias ou teologias novas e no h nenhuma novaarte que prenda a minha ateno ou desperte a minha mente.Tampouco h movimentos sociais polticos ou religiosos a meestimular ou instigar. No existem homens livres a quem possasubmeter-me, nem santos em quem encontre inspirao. No hpecadores descontrolados o bastante para me impressionar oucompartilhar a minha desditosa condio. Ningum humano osuficiente para validar o estilo de vida corrente. muito difcil viverneste enfadonho mundo sem sentir-se dominado pelo tdio.O futuro est nas mos dos poucos que possuem um corao humildee passional, que buscam a Deus com abnegao, neste maravilhosomundo de redimidos e nas realidades que esto diante de ns. William McNamara1

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    O enigma a ser decifrado : por que tantas pessoas vivem deforma to ruim? Vidas no tanto caracterizadas pela maldade,mas pela mediocridade. No tanto caracterizadas pela crueldade,mas pela estupidez. H pouco a se admirar e muito menos a imi-tar nas pessoas proeminentes de nossa cultura. Temos celebrida-des, porm, no santos. Artistas famosos procuram entreter todauma nao de entediados insones. Criminosos infames praticamagresses contra tmidos conformistas. Atletas mimados e arro-gantes apresentam-se para espectadores apticos e preguiosos. Aspessoas, desesperanadas e aborrecidas, procuram distrair-se comfrivolidades e lixo. A busca pela justia ou a saga da bondade nodo notcias de primeira pgina.

    O homem moderno um mero negcio, afirma TomHoward. Para nossa decepo, descobrimos que a declarao deautonomia foi promulgada no em uma raa de homens livres enotveis, mas, ao contrrio, em uma raa que pode ser descritapor seus poetas e dramaturgos como sendo entediada, contraria-da, frentica, amargurada e queixosa.2

    Esta condio tem produzido um estranho fenmeno: indiv-duos que vivem vidas triviais engajam-se em atos malignos e re-provveis a fim de conquistar significncia para si mesmos. Assas-sinos e seqestradores buscam galgar os gigantescos degraus queos levem da obscuridade para a fama ao matar uma pessoa dedestaque ou ameaar explodir um avio cheio de passageiros. Com

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    freqncia, essas pessoas alcanam seus objetivos iniciais. A mdiapropaga suas palavras e exibe suas aes. Escritores entregam-se auma competio mtua e feroz, buscando analisar os motivos efornecer perfis psicolgicos sobre os criminosos. Nenhuma outracultura tem se revelado to vida e desejosa em recompensar tan-to o absurdo, quanto a maldade.

    Se, por outro lado, procurarmos olhar nossa volta com oobjetivo de encontrar pessoas maduras, ntegras e abenoadas, oresultado dessa busca ser nfimo. Essas pessoas esto ao redor,talvez em igual nmero que no passado, mas no so mais tofceis de identificar. Nenhum reprter se interessa em entrevist-las. Nenhum programa de televiso as apresenta. Elas no soadmiradas e, muito menos, despertam qualquer interesse. Umcarter ntegro no recebe estatuetas Oscar ou reconhecimentopblico. No fim do ano, ningum se d ao trabalho de elaboraruma lista com as dez pessoas que ostentam as melhores vidas.

    Uma sede por integridade

    Apesar de tudo, continuamos a sentir uma sede insacivel pelaintegridade, uma fome interminvel pela justia. Quando nosuportamos mais e nos sentimos totalmente revoltados com osimpostores e cretinos que nos so, diariamente, impingidos comocelebridades, alguns de ns voltam sua ateno para as Escriturasafim de satisfazer a necessidade de encontrar algum que valha apena olhar. O que significa ser um homem ou uma mulher real?Que forma a humanidade autntica e madura assume em umavida normal?

    Quando nos voltamos para as Escrituras em busca de auxlionesse assunto, bem provvel que sejamos surpreendidos. Umdos primeiros fatos a nos abalar a constatao de que, para nos-so desapontamento, os homens e mulheres bblicos no foram os

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    heris que imaginamos. No encontramos modelos impecveisde virtude. Isso sempre choca os iniciantes na Palavra de Deus.Abrao mentiu; Jac enganou; Moiss assassinou e murmurou;Davi cometeu adultrio, e Pedro blasfemou.

    Prosseguimos na leitura do texto bblico e comeamos a per-ceber a verdadeira inteno: uma estratgia consistente para de-monstrar que as maiores e mais significativas figuras da f forammoldadas no mesmo barro que ns. Descobrimos que a Escritu-ra economiza na informao que fornece sobre as pessoas, po-rm, prdiga nas informaes a respeito de Deus. A Bblia recu-sa-se a alimentar a nossa nsia por cultuar heris. Ela no se curvaao nosso desejo adolescente de juntar-se a um tipo de f-clube.Creio que a razo bastante clara. Por meio de fotografias, pe-quenas recordaes, autgrafos e viagens de turismo, estabelece-mos uma associao com algum cuja vida imaginamos sejamais empolgante e interessante que a nossa. Assim, introduzimosum pouco de diverso nossa montona existncia ao seguirmosas pegadas de algum extico.

    Comportamo-nos desta maneira porque estamos conven-cidos de que somos comuns. A cidade em que vivemos, a vizi-nhana em que crescemos, as amizades que no conseguimosterminar, as famlias ou casamentos que possumos, tudo, en-fim, nos parece sem graa. No conseguimos enxergar comoser significante em tais cenrios, mantendo tais amizades e,portanto, olhamos nossa volta buscando encontrar algumque o seja. Sustentamos nossas fantasias com imagens de umapessoa que est vivendo uma vida mais cheia de aventuras quea nossa. Na realidade, existem pessoas empreendedoras ao nossoredor que fornecem (mediante um mdico pagamento, cla-ro) o material necessrio para alimentar as chamas desse viverirreal. H um toque triste e miservel em todo este negcio.

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    Porm, apesar disso, as pessoas que o exploram continuam aprosperar.

    A Palavra de Deus, no entanto, no participa desse jogo.Algo muito diferente acontece em uma vida de f: cada pessoadescobre todos os elementos de uma aventura original e ni-ca. Somos alertados sobre os riscos de seguir as pegadas dosoutros e chamados a uma incomparvel associao a Cristo. ABblia deixa bem claro que sempre quando h uma histria def, ela completamente original. O gnio criativo de Deus inesgotvel. Ele jamais se fatigar em manter os rigores dacriatividade, lanando mo dos recursos de uma produo decpias em massa. Cada vida uma tela em branco sobre a qualDeus utiliza todas as linhas e matizes de cores, sombras e lu-zes, diferentes texturas e propores nunca antes usadas porEle.

    Ns vemos o que possvel: qualquer um capaz de viveruma vida mpar que lana fora os estereotipados padres, preco-nizados por uma sociedade inibida pelo pecado. Essas vidas fun-dem espontaneidade e propsito, tingindo uma paisagem desrticacom o verde frescor do significado. Tambm vemos como isso possvel: lanando-se a uma vida de f, participando do que Deusinicia em cada vida, explorando o que Ele est realizando em cadaevento. Os homens e mulheres que encontramos nos relatos b-blicos so notveis pela intensidade com que vivem focados emDeus, pela integridade com que todos os detalhes de sua vidaesto presente no que Deus lhes diz, nas aes divinas neles. Soessas pessoa, cuja conscincia de participar do que Deus diz e faz completa, as que so mais humanas, mais cheias de vida. Essaspessoas so a evidncia de que nenhum de ns obrigado a resig-nar-se com este viver medocre, sobrevivendo por mais umahora ou um dia.

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    Um modelo de homem

    Esta dupla qualidade das Escrituras a capacidade de intensificara paixo pela excelncia combinada a uma indiferena pelas con-quistas humanas me impacta com singular fora no livro deJeremias.

    Cleanth Brooks escreveu: Algum procura por um modelode homem em um mundo cada vez mais desumanizado, a fim derealizar-se como homem para agir como um ser responsvel,sem viver deriva como um objeto inanimado qualquer.3 Paramim, Jeremias este modelo de homem, uma vida pautadapela excelncia, que os gregos chamavam de aret. O livro deJeremias deixa claro que a excelncia o resultado de uma vida def, de estar mais interessado em Deus do que em si mesmo, e quetem pouco a ver com auto-estima, conforto ou realizaes. Aquiest uma pessoa que viveu uma vida na sua totalidade, porm noh um trao sequer de orgulho humano, sucesso mundano ourealizao pessoal na histria. Jeremias eleva a minha paixo poruma vida plena, ao mesmo tempo em que, firmemente, fecha asportas para as tentativas de alcanar isso por intermdio daautopromoo, da autogratificao ou do autodesenvolvimento.

    extremamente difcil retratar a bondade de uma forma agra-dvel; muito mais fcil tornar um canalha atraente. Todos nstemos muito mais experincia do pecado do que da bondade.Por esta razo, um escritor possui farto material para apresentarum carter mau do que um bom. Nos romances, poemas e peasteatrais as personagens mais marcantes ou so vtimas ou viles.Pessoas boas, vidas virtuosas, quase sempre so consideradas tolase sem graa. Portanto, Jeremias uma incrvel exceo. Este livrotem atrado o meu interesse durante grande parte da minha vidaadulta. A complexidade e a intensidade desse homem cativaram aminha ateno. As qualidades marcantes em Jeremias so a sua

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    bondade, sua virtude e sua excelncia. Ele viveu a vida em suatotalidade. No entanto, sua piedade no o livrou das dificulda-des, pois enfrentou esmagadoras tempestades de hostilidade e friasde dvidas amargas. No h um trao de presuno, complacn-cia ou ingenuidade em Jeremias cada msculo do seu corpo foiexigido at o limite por fadiga, cada pensamento em sua mentesubmeteu-se rejeio, cada sentimento em seu corao foi ridi-cularizado. A bondade em Jeremias no se traduzia em ser bon-zinho. A palavra mais adequada talvez fosse bravura.

    Jeremias, portanto, serviu s necessidades pessoais. Porm, eletambm exerceu grande importncia pastoral, e os interesses, tan-to pessoais quanto pastorais, convergem. Como pastor, eu enco-rajo os demais a viver na plenitude e forneo orientao para al-canar essa meta. Mas, como fazer isso sem, inadvertidamente,iniciar o orgulho e a arrogncia? Como estimular o apetite pelaexcelncia sem, ao mesmo tempo, alimentar uma determinaoegosta que inclua pisar em qualquer um que se interponha nocaminho? Em nossos dias, muitas vozes se levantam, de formainsistente, encorajando a busca por uma vida melhor. Eu dou asboas-vindas ao encorajamento. Porm, o conselho que vem apsa palavra de estmulo tem provocado danos infindveis em nossasociedade. Por esta razo, sou radicalmente contra ele. Este conse-lho apregoa que podemos alcanar a plenitude de nossa humani-dade por intermdio da total satisfao de nossos desejos. Istotem se constitudo em uma receita rumo misria para milhesde pessoas.4 O conselho bblico sobre este tema muito claro:no a minha vontade, mas a tua. Porm, como guiar as pessoasa uma negao do prprio ego, sem lev-las a uma interpretaoequivocada que as transforme em capachos nos quais os demaislimpam os ps? A dificuldade do ofcio pastoral estimular acrescerem em excelncia e a deixar o egocentrismo, ou seja, ao

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    mesmo tempo, encontrar o eu e perd-lo. Esta idia paradoxal,porm no impossvel. E Jeremias destaca-se entre aqueles queconseguiram isso. Ele apresentava um ego totalmente desenvol-vido extraordinariamente atraente, por conseguinte porm,ao mesmo tempo, era uma pessoa totalmente desinteressada de simesma e, portanto, sabiamente madura. Esse homem tem sido omeu exemplar e mentor em conversas, palestras e sermes, pormais de 25 anos.

    A busca pela plenitude

    Vivemos em uma sociedade que procura nos rebaixar ao nvel deuma formiga, de tal forma que nos apressamos em obter e consu-mir insensatamente. essencial que enfrentemos as oposies e,nesse sentido, Jeremias foi um exmio articulador: um ser huma-no bem desenvolvido, saudvel e maduro, vivendo pela f. Meuprocedimento aqui selecionar as passagens biogrficas do livrode Jeremias e refletir nelas, no mbito pastoral e pessoal, no con-texto do presente, da vida do dia-a-dia. Conhecemos mais sobrea vida de Jeremias do que de qualquer outro profeta, e sua vida muito mais significativa que o seu ensino.5 Quando Jesus per-guntou aos discpulos quem o povo afirmava ser o Filho do ho-mem, Jeremias foi um dos nomes mencionados (Mt 16.14).Creio ser este fato notvel. Ao dedicar total ateno na leitura emeditao do livro de Jeremias, eu espero alimentar uma cont-nua insatisfao por tudo que no expresse o nosso melhor. Meudesejo fornecer documentao cabal, atestando que a nicamaneira de qualquer um de ns ter vida no mximo de nossopotencial viv-la por meio de uma f radical em Deus. Todosns precisamos ser exigidos para dar o nosso melhor, serconscientizados dos nossos atos de moral dbia, ser sacudidos afim de abandonar as atividades insignificantes e triviais que nos

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    tomam precioso tempo. O livro de Jeremias atua dessa maneiraem mim. E no sou o nico. Milhes de cristos e judeus tmsido estimulados e orientados rumo excelncia ao observaremas palavras de Deus expressas por intermdio desse profeta.

    Procurei organizar as passagens que escolhi para reflexo, emordem cronolgica. A razo que o livro de Jeremias no foidisposto cronologicamente e h mais em suas pginas do queapenas biografia. Isso significa que, com freqncia, os leitoresconfundem-se com as transies e enfrentam dificuldades paraencontrar o cenrio apropriado para as profecias. No tentei deci-frar esses quebra-cabeas ou explicar as dificuldades. Tampoucodescrevi o complexo cenrio histrico internacional vigente quelapoca, um conhecimento de imensa utilidade na leitura deJeremias. Seria necessrio escrever outro tipo de livro, muito maisextenso. Para os leitores que desejam ampliar a sua compreensodeste livro bblico e guiar-se atravs do texto mais detalhadamente,recomendo trs livros: Jeremiah and Lamentations, de R. K.Harrisson (InterVarsity Press), para uma boa e agradvel introdu-o ao mundo e ao texto deste profeta; The Book of Jeremiah, deJohn A. Thompson (Eerdmans), para um exame mais profundoe avanado; Jeremiah, de John Bright (Doubleday), para um es-tudo completo do profeta e de suas profecias.

    Competindo com cavalos

    O filsofo e mrtir tcheco Vitezslav Gardavsky, morto em 1978,elegeu Jeremias como seu modelo de homem em sua campa-nha contra uma sociedade que, cuidadosamente, planejava cadadetalhe da existncia material, porm eliminava o mistrio e omilagre, extirpando toda a liberdade da vida. Ele escreveu em seulivro God Is Not Yet Dead, que a terrvel ameaa contra a vida no a morte, ou a dor, nem qualquer variedade de desastres contra

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    os quais ns, to obsessivamente, procuramos nos proteger comnossos sistemas sociais e estratagemas pessoais. A grande ameaa morrermos antes de realmente morrer, antes que a morte se tor-ne uma necessidade natural. O verdadeiro horror repousa exata-mente sobre essa morte prematura, aps a qual continuamos aviver por muitos anos.6

    H uma passagem memorvel com respeito vida de Jeremiasquando, esmagado pela oposio e mergulhado na auto-piedade,ele esteve a ponto de capitular entregando-se morte prematura.Jeremias estava pronto a abandonar seu nico chamado divino eresignado a ser apenas uma estatstica de Jerusalm. Naquelemomento crtico, o profeta ouviu esta admoestao: Se te fadi-gas correndo com homens que vo a p, como poders competircom os que vo a cavalo? Se em terra de paz no te sentes seguro,que fars na floresta do Jordo? (Jr 12.5). O bioqumico ErwinChargaff atualizou as questes: O que voc deseja alcanar? Gran-des fortunas? Comida mais barata? Uma vida feliz, mais dura-doura? poder sobre os vizinhos o que persegue? Estar vocapenas procurando escapar morte? Ou ser que voc busca mai-or sabedoria e devoo mais profunda?.7

    A vida difcil, Jeremias. Voc ir desistir diante da primeiraonda de oposio? Ir bater em retirada quando descobrir que hmuito mais por que se viver do que trs refeies dirias e umlugar seco para descansar, noite? Procurar refugiar-se em casano instante em que descobrir que multides de pessoas esto maisinteressadas em manter seus ps aquecidos do que viver sob riscopara a glria de Deus? Voc ir manter uma vida cautelosa oucorajosa? Eu o chamei para viver o seu melhor, para perseguir ajustia, manter a direo rumo excelncia. muito mais fcil,como bem sabe, ser neurtico. muito mais simples viver comoum parasita. menos complexo relaxar e deixar-se levar pelos

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    braos da maioria. Mais fcil, porm no melhor, no maissignificante, no mais recompensador. Eu o chamei para uma vidade propsito, muito alm do que voc pensa ser capaz de viver eprometi dar-lhe foras suficientes para voc cumprir o seu desti-no. Agora, ao primeiro sinal de dificuldades, voc est disposto adesistir. Se voc se sente fatigado por essa multido comum depatticas mediocridades, o que far quando a verdadeira corridacomear, contra os velozes e determinados cavalos da excelncia?O que voc realmente deseja, Jeremias? Quer arrastar-se, acom-panhando a multido ou almeja correr com os cavalos?

    compreensvel que existam desistncias, rumo excelncia,mudanas frente ao risco, quedas da f. mais fcil definir-se nomnimo (um bpede sem penas) e viver com segurana dentrodesta definio do que ser definido no mximo (pouco menorque Deus), vivendo aventuras nesta realidade. improvvel, creioeu, que Jeremias tenha sido rpido ou espontneo em sua respos-ta pergunta de Deus. Os inebriantes ideais por uma nova vidahaviam sido sobrepujados pelo cinismo mundial. A impetuosi-dade, euforia e entusiasmo juvenis no mais o estimulavam. Elepesou as opes, contabilizou os custos. Agitou-se intimamenteem hesitao. Sua resposta no foi expressa verbalmente, mas comsua biografia. A vida de Jeremias foi sua resposta: Eu correreicom os cavalos.

    Notas1 William McNamara, The Human Adventure (Garden City, N.Y.: Image

    Books, Doubleday, 1976), p. 9; e Mystical Passion ( New York: PaulistPress, 1977), p. 3.

    2 Tom Howard, Chance or Dance (Carol Stream, Ill.: Harold ShawPublishers, 1972), p. 104.

    3 Cleanth Brooks, The Hidden God (New Haven: Yale University Press,1963), p. 4.

    4 Maslow escreveu em 1968: a nica maneira de sabermos que algo

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    certo para ns que, subjetivamente, isso parece melhor do quequalquer outra alternativa; e novamente: o que parece bom tambm, no sentido crescente, melhor para ns. Nenhuma posiotem sido mais perniciosa para a sociedade moderna. Aplicar os termossentir e subjetividade como critrio para crescimento extremamente enganoso. A suposio de que algum cresce aoescolher o que parece bom, simplesmente, contraria a verdade. Emmuitos casos, o oposto que verdadeiro. Se o judeu AbrahamMaslow estivesse certo nesta sua afirmao, no haveria Israel nahistria humana. Andr Lacocque e Pierre-Emmanuel Lacocque, TheJonah Complex (Atlanta: John Knox Press, 1981), p. 106.

    5 O livro de Jeremias no s ensina verdades religiosas como tambmapresenta uma personalidade religiosa. A profecia j havia ensinadosuas verdades, seu ltimo esforo foi revelar-se a si mesmo em umavida. A. B. Davidson, citado em John Skinner, Prophecy and Religion(London: Cambridge University Press, 1963) p. 16.

    6 James Bentley, Vitezslav Gardavsky, Atheist and Martyr, The ExpositoryTimes, junho de 1980, pp. 276-77.

    7 Erwin Chargaff, Heraclitean Fire (New York: The Rockfeller UniversityPress, 1978), p. 122.