Inclusiva superdotação tecnologia

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Ministério da Educação Secretaria de Educação Especial Altas Habilidades / Superdotação Encorajando Potenciais Angela M. R. Virgolim Brasília, DF 2007
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Ministrio da EducaoSecretaria de Educao Especial

Altas Habilidades / SuperdotaoEncorajando Potenciais

Angela M. R. Virgolim

Braslia, DF2007

Secretaria de Educao EspecialClaudia Pereira Dutra

Departamento de Polticas de Educao EspecialCludia Maffini Griboski

Coordenao Geral de Desenvolvimento da Educao EspecialKtia Aparecida Marangon Barbosa

AutoraAngela Mgda Rodrigues Virgolim

Reviso TcnicaRenata Rodrigues Maia-Pinto

Tiragem5 mil exemplares

FICHA TCNICA

Projeto GrficoMichelle Virgolim

IlustraesIsis Marques Lucas B. Souza

FotosVini GoulartJoo CampelloBanco de imagens:Stock Xchng

CapaRubens Fontes

FICHA CATALOGRFICA

Dados Interncaionais de Catalogao na Publicao (CIP)

Virgolim, Angela M. R.

Altas habilidade/superdotao: encorajando potenciais / Angela

M. R. Virgolim - Braslia: Ministrio da Educao, Secretaria de

Educao Especial, 2007.

70 p.: il. color.

ISBN 978-85-60331-13-0

1. Superdotao. 2. Identificao de talentos. 3. Educao

dos superdotados. I. Brasil. Secretaria de Educao Especial. II.

Ttulo.

CDU 376.54

4

A proposta de atendimento educacional especializado para os alunos com altas habilidades/superdotao tem fundamento nos princpios filosficos que embasam a educao inclusiva e como objetivo formar professores e profissionais da educao para a identificao dos alunos com altas habilidades/superdotao, oportunizando a construo do processo de aprendizagem e ampliando o atendimento, com vistas ao pleno desenvolvimento das potencialidades desses alunos.

Para subsidiar as aes voltadas para essa rea e contribuir para a implantao, a Secretaria de Educao Especial do Ministrio da Educao SEESP, convidou especialistas para elaborar esse conjunto de quatro volumes de livros didtico-pedaggicos contendo informaes que auxiliam as prticas de atendimento ao aluno com altas habilidades/superdotao, orientaes para o professor e famlia. So idias e procedimentos que sero construdos de acordo com a realidade de cada Estado contribuindo efetivamente para a organizao do sistema educacional, no sentido de atender s necessidades e interesses de todos os alunos, garantindo que tenham acesso a espaos destinados ao atendimento e desenvolvimento de sua aprendizagem.

A atuao do MEC/SEESP na implantao da poltica de educao especial tem se baseado na identificao de oportunidades, no estmulo s iniciativas, na gerao de alternativas e no apoio aos sistemas de ensino que encaminham para o melhor atendimento educacional do aluno com altas habilidades/superdotao. Nesse sentido, a Secretaria de Educao Especial, implantou, em parceria com as Secretarias de Educao, em todas as Unidades da Federao, os Ncleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotao NAAH/S. Com essa ao, disponibiliza recursos didticos e pedaggicos e promove a formao de professores para atender os desafios acadmicos, scio-emocionais dos alunos com altas habilidades/superdotao.

Estes Ncleos so organizados para atendimento s necessidades educacionais especiais dos alunos, oportunizando o aprendizado especfico e estimulando suas potencialidades criativas e seu senso crtico, com espao para apoio pedaggico aos professores e orientao s famlias de alunos com altas habilidades/superdotao.

Os professores formados com o auxlio desse material podero promover o atendimento e o desenvolvimento dos alunos com altas habilidades/superdotao das escolas pblicas de educao bsica e disseminando conhecimentos sobre o tema nos sistemas educacionais, comunidades escolares e famlias nos Estados e no Distrito Federal.

Claudia Pereira DutraSecretria de Educao Especial

APRESENTAO

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SUMRIO

Introduo 09

Captulo 1: Por que investir na educao de alunos com Altas habilidades/superdotao? 13O papel da famlia, da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos

Captulo 2: O que as palavras querem dizer? 21As diferentes terminologias e definies na rea

Captulo 3: Como reconhecer uma criana superdotada? 41As caractersticas cognitivas, afetivas e sociais do superdotado

Captulo 4: Encorajando potencialidades 51Desenvolvendo a superdotao na teoria e na prtica

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INTRODUO

Sempre que falamos em superdotao, o que nos vem mente a figura dos grandes gnios e visionrios da humanidade. Albert Einstein, William Shakespeare, Wolfgang Amadeus Mozart, Isaac Newton, Charles Darwin, Leonardo da Vinci, Marie Curie, Mahatma Ghandi e Pablo Picasso esto entre os relati-vamente poucos que ousaram inventar idias inteiramente novas e quebrar os paradigmas vigentes em suas reas. Todos eles se destacaram em virtude de suas realizaes criativas, deram contribuies positivas para a humanidade e elevaram o conhecimento humano, as cincias, a tecnologia, a cultura e as artes a patamares inusitados.

No entanto, chama-se a ateno, nos dias atuais, para o fato de que essas mentes extra-ordinrias, a despeito de suas potencialidades genticas, no nasceram inteiramente prontas. No h uma separao absoluta entre tais pessoas e os seres humanos comuns como eu e voc. Pesquisadores chamam a ateno para o fato de que todos temos aspectos comuns no nosso desenvolvimento e, embora nem todos ns sejamos um dia reconhecidos por nossos talentos, torna-se reconfortante pensar que podemos encoraj-los e desenvolv-los pelo menos para levarmos vidas mais produtivas e satisfatrias.

A criana entra na vida escolar, em geral, sem conscincia de seus talentos. Muitas crianas no tm a oportunidade de explorar suas poten-

cialidades em seus anos iniciais de vida e seus talentos podem ficar escondidos ainda durante os anos escolares e, s vezes, por toda a sua vida.

vital para a criana, j nas primeiras sries, sentir que aceita pelos professores e colegas de classe. No entanto, se o professor no valida ou aceita as habilidades avanadas e interesses intelectuais da criana, incorporando-os ao currculo, esta pode deixar de vivenciar sentimentos de aceitao. Da mesma forma, se a criana cedo descobre que diferente dos colegas e que a comunicao difcil devido diferena de vocabulrio e modo de se expressar, pode vir a no ser aceita pelos amigos. Assim que os primeiros anos escolares, que deveriam fomentar o mpeto para o entusiasmo e aprendizagem nos anos vindouros, pode ser um sinal, para o aluno brilhante, de fracasso e insucesso. Muito freqentemente a criana aprende a esconder ou negar suas habilidades, passando a desen-volver problemas comportamentais ou psicol-gicos, a fim de melhor se adaptar s demandas do ambiente escolar. Alm disso, a maioria dessas crianas demonstra um padro desigual de desenvolvimento cognitivo, expresso em diferenas entre o desenvolvimento intelectual e o emocional ou psicomotor, por exemplo.

Torna-se nossa tarefa, enquanto educa-dores, conhecer os pontos fortes e os interesses do aluno, suas necessidades cognitivas, sociais e afetivas peculiares, a m de dar-lhes oportunidades

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de construir seu prprio conhecimento no seu prprio ritmo. Talvez assim possamos trans-formar suas potencialidades e promessas, visua-lizadas em seus primeiros anos, em certezas e realizaes.

Muitos so os desafios que nossas escolas tm que enfrentar para poderem fornecer uma educao de qualidade e atender s demandas cognitivas de todo o seu alunado de forma inclusiva. A par destes desafios, a criao dos Ncleos de Apoio s Altas Habilidades/ Superdotao NAAH/S apresenta-se como

uma resposta adequada aos problemas propostos pela rea. Alm de atender ao alunado identi-ficado como superdotados, os Ncleos objetivam a promoo da formao e capacitao dos professores para que possam identificar e atender a esses alunos, aplicando tcnicas e estratgias de ensino para a suplementao, a diferenciao e o enriquecimento curricular. Alm disso, propem-se a oferecer acompanhamento aos pais dessas crianas e comunidade escolar em geral, e colaborar para a construo de uma educao inclusiva e de qualidade, assegurando o cumpri-

mento da legislao brasileira e o princpio da igualdade de oportunidades para todos.

O propsito deste livro o de esclarecer, principalmente os educadores que atuam nos NAAH/S, sobre o desenvolvimento de poten-ciais. Sabemos que o tema das altas habilidades/ superdotao ainda pouco discutido em nossas universidades, o que produz uma lacuna na formao dos professores. Muitos saem de seus cursos sem terem a oportunidade de conhecer esta rea to importante do desenvolvimento da criana. Para os pais, o desconhecimento

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ainda maior, uma vez que nossa sociedade ainda trata este tema como tabu. A mdia, muitas vezes, nos d uma idia estereotipada sobre a superdotao, vista principalmente sob a tica da pessoa academicamente precoce e capaz de feitos maravilhosos. O termo superdotado, alm de ser apresentado de forma deturpada, gera confuses at mesmo entre as pessoas com habilidades superiores, que no se percebem como superdotadas. Isto provavelmente se d porque a palavra as remete aos super-heris das estrias em quadrinhos que, com seus poderes sobrenaturais, as fazem se sentir diferentes dos demais.

As pessoas com altas habilidades formam um grupo heterogneo, com caractersticas diferentes e habilidades diversificadas; diferem uns dos outros tambm por seus interesses, estilos de aprendizagem, nveis de motivao e de autoconceito, caractersticas de perso-nalidade e principalmente por suas necessi-dades educacionais. Entendemos que tarefa dos educadores, sejam eles professores ou pais, compreender a superdotao em seus aspectos mais bsicos e assim se tornarem agentes na promoo do desenvolvimento dos poten-ciais, de forma a poder atender as necessidades especiais desta populao.

O primeiro captulo deste livro foi delineado em forma de uma instigante pergunta: Por que investir na educao de alunos com altas habili-dades/ superdotao? Neste captulo so discu-tidos o papel da famlia, da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos. As habilidades mentais essenciais em uma sociedade que prima

pela mudana e transformao contnuas so pontuadas, tendo como foco o papel da pessoa com altas habilidades nestas transformaes. A criatividade, o pensamento crtico e habilidades analticas devem ser combinadas para aumentar as chances de sucesso na sociedade atual. Assim, torna-se necessrio entender como os educadores podem contribuir para desenvolver o talento e o potencial dos filhos desde tenra idade, tendo em mente que o ambiente o principal promotor das capacidades superiores que um dia vo desabrochar de forma plena.

O segundo captulo vem esclarecer o significado de tantas palavras diferentes super-dotado, precoce, prodgio, gnio, entre outras. A superdotao ser assim focalizada inicial-mente pelo olhar da mdia e pelo que ela tem a contribuir com a divulgao da rea, por meio de casos que se tornaram conhecidos no cenrio mundial. Em contraponto, a viso da cincia e informaes advindas de evidncias empricas sero apresentadas, focalizando questes como heterogeneidade da populao, multipotenciali-dades, nveis diferentes de habilidades e pontos de vista diferentes sobre a importncia da gentica e do ambiente no fenmeno da superdotao.

Como reconhecer uma criana super-dotada? As caractersticas cognitivas e afetivas do superdotado, assim como suas necessidades scio-emocionais so debatidas no terceiro captulo. Torna-se importante entender alguns traos de personalidade tpicas do grupo como por exemplo, o perfeccionismo, a grande necessidade de entender o mundo sua volta, de ter a neces-sria estimulao mental, a intensidade dos senti-

mentos, o senso de humor, a no conformidade, a introverso. Pais e professores necessitam saber destas caractersticas peculiares para se colocarem em uma posio privilegiada para entender e guiar a criana em seu processo de desenvolvi-mento, de forma a ajud-la a se tornar um adulto equilibrado e saudvel.

E finalmente, o quarto e ltimo captulo focaliza o encorajamento das potencialidades, mostrando a relao da superdotao com a inteligncia e como ela vista pelos tericos nos dias atuais. Atividades prticas a serem desenvolvidas pelas crianas de acordo com as inteligncias demonstradas em sala de aula e como os professores podem aconselhar os pais a desenvolver o talento e a criatividade no contexto familiar so tambm debatidos. E finalmente, o captulo termina mostrando como a superdotao pode ser identificada e desen-volvida na prtica, assinalando os mtodos de identificao mais comuns aos diversos modelos existentes, as formas mais comuns utili-zadas na escola regular e nos programas para superdotados, e exemplificados por meio do Modelo de Enriquecimento Escolar de Joseph Renzulli e do Modelo do Aprendiz Autnomo de George Betts.

Esperamos que este livro venha a suprir as necessidades na rea apontadas por pais e professores, preocupados em fornecer uma educao de excelncia aos seus filhos e alunos, dirimindo noes estereotipadas e assinalando prticas que favorecem o desenvolvimento de potenciais.

A todos uma boa leitura.

Por que investir na educao de alunos com Altas

habilidades/ superdotao?

Captulo 1

O papel da famlia, da escola e da sociedade no desenvolvimento dos talentos

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15O desenvolvimento dos talentos e o papel dos educadores

O sculo XXI nasce como o prenncio de uma nova era, em que cada vez mais as naes percebem que os talentos humanos so seus bens mais preciosos. Os desafios do futuro exigem, sem dvida, que nossos jovens desenvolvam habilidades intelectuais fundamentais, como a capacidade de recordar rapidamente infor-maes, de desenvolver o pensamento lgico, de buscar solues eficientes para problemas e tomar decises efetivas. No entanto, a velocidade com que o conhecimento passou a ser transmitido por meios eletrnicos de uma regio do mundo outra introduziu a necessidade de constante inovao, que compreende o domnio e a conquista de novas habilidades, o desenvolvimento e aperfei-oamento de talentos e a urgncia de se agir e pensar com maior criatividade. O mundo de hoje clama por boas idias, por mudanas em nossas noes pr-concebidas, principalmente quando os velhos hbitos j no resolvem novos problemas. Essa postura exige uma combinao de inteligncias para resolvermos problemas e criarmos novos produtos necessrios ao desen-volvimento de nossa cultura. Exige tambm a integrao de aes que devem se iniciar no lar e progredir com a ajuda da escola, a fim de que possamos preparar nossos jovens para enfrentar os desafios de uma sociedade onde as transfor-maes constantes so a nica certeza.

A inteligncia, a criatividade, o entusiasmo e a habilidade das crianas constituem-se no s no bem maior de uma nao, como tambm

so uma fonte revigorante, duradoura e infin-dvel. Neste sentido, o psiclogo e neurofi-silogo David Lewis, em seu livro Mentes Abertas (Lewis, 1987) alerta para o papel dos pais e educadores na aprendizagem inicial da criana, a fim de ajud-la a dominar as habili-dades mentais essenciais para o sucesso futuro. Segundo ele, o bom xito da aprendizagem depende de trs fatores fundamentais: infor-mao, motivao e segurana. Assim sendo, os educadores devem colocar tais fatores em prtica, da seguinte maneira: (a) agindo como uma fonte de informao; (b) desenvolvendo o desejo natural da criana de aprender; e (c) proporcionando-lhe um ambiente seguro onde ela possa exercitar e aperfeioar suas habilidades mentais. E, em adio a tudo isso, estimular as crianas a manterem uma mente aberta.

A IMPORTNCIA DO DESENVOLVIMENTODE TALENTOS NA SOCIEDADE

Os educadores que querem ajudar os jovens a obterem xito no mundo atual devem estimular certos aspectos de sua personalidade que os permitam expandir seus talentos e aplic-los em algum campo do conhecimento e da cultura. Sendo assim, em adio a estas habilidades mentais essenciais j citadas reter e recordar informaes, pensamento lgico, resoluo criativa de problemas e tomada efetiva de decises , o jovem do mundo de hoje deve desenvolver outras habilidades mentais que, embora fundamentais para o xito do pensa-mento, raramente so reconhecidas como tendo um papel essencial no talento intelectual adquirido. Para perceber sua importncia, Lewis

recomenda aos educadores que considerem trs papis que a criana ter que representar, com perfeio, a fim de que seja bem sucedida no mundo do futuro: o papel do aventureiro; do artista e do atleta.

O papel de aventureiro refere-se a uma disposio interior para explorar e se aventurar por novos caminhos, descobrir novos padres e levantar diversos tipos de informaes para construir uma idia. O aventureiro aquela pessoa curiosa, que busca estratgias para

16descobrir, de forma eciente, as informaes que esto no mundo sua volta; perseverante e cona em sua percepo e intuio; tem esprito independente e mente exvel, que o levam ao desejo de conquistar, de estabelecer metas e lutar para alcan-las. Pessoas com o esprito aventu-reiro so as que buscam o conhecimento, usando seu pensamento lgico para acumular infor-maes essenciais, mas tambm usam suas habili-dades de pensamento criativo para fugir da rotina e dos velhos hbitos. Assim como o aventureiro, precisamos treinar nossos jovens para se tornarem aptos a conquistar as experincias do mundo em primeira mo, no apenas lendo sobre elas, mas manipulando, experimentando e elaborando suas prprias hipteses. Os responsveis pela educao da criana devem cultivar a sua curiosidade, motiv-la a buscar novas estratgias e construir seus prprios caminhos em busca do saber.

O sucesso no mundo que o jovem ir enfrentar no futuro depende cada vez mais da habilidade de lidar com o desconhecido, trans-formando, adaptando, imaginado outros usos e agindo sob perspectivas nicas e originais. Assim, torna-se tambm essencial agregar ao papel de aventureiro outro trao importante de nossa personalidade: o de artista. Este seria nosso personagem interior que transforma as informaes obtidas pelo aventureiro em novas idias, que enxerga o mundo por novas perspec-tivas, conceitos e idias. O artista dentro de ns no se prende rotina do que familiar e est sempre transformando, invertendo, modifi-cando, imaginando como pode fazer diferente para se tornarem produtivas em seu campo de

ao. Lewis recomenda aos educadores que estimulem nas crianas a imaginao, a intuio e a habilidade de ver alm dos limites do que , para discernir o que poderia ser.

No entanto, em um mundo essencialmente tecnolgico como o de hoje, onde as questes da prioridade e da rapidez se traduzem como vantagens competitivas no mundo do trabalho, as habilidades apresentadas pelos atletas se tornam tambm necessrias. Neste sentido, o jovem do nosso sculo deve possuir o entusiasmo, a energia criativa e a determinao dos campees esportivos para comunicar suas novas idias ao mundo. Necessitar ainda do poder de persuaso e de clareza de expresso, mostrando ao mesmo tempo sua paixo, entusiasmo e motivao pelo seu projeto. Pais e professores esto em uma posio chave para estimular nas crianas a auto-confiana e a determinao necessrias para vencer em um mundo onde a fora do raciocnio e da criatividade substituram a fora fsica como um passaporte essencial para o sucesso.

A IMPORTNCIA DO DESENVOLVIMENTODE TALENTOS NA FAMLIA

Pais afetuosos e preparados, assim como um professor motivador, enamorado pela disci-plina que ensina, podem aumentar a probabi-lidade da criana e do jovem a desenvolverem as habilidades necessrias para dar, no futuro, contribuies expressivas humanidade e, ainda, ter uma qualidade de vida mais satisfatria. Apesar de a inteligncia geral apresentar uma grande predisposio gentica, outras habili-dades cognitivas relacionadas superdotao podem desenvolver-se ou declinar-se em funo

das experincias vivenciadas. Neste ponto, a famlia aprece em posio de destaque.

Benjamin Bloom (1985) e seus colabo-radores no final da dcada de 50 desenvol-veram uma pesquisa que se tornou clssica e bastante conhecida na rea, envolvendo famlias de renomados nadadores, jogadores de tnis, pianistas, escultores, matemticos e neurolo-gistas. Este autor relata que os pais de crianas que mais tarde se tornaram adultos com habili-dades superiores acreditavam na importncia do trabalho rduo e ativo, com nfase na autodisciplina e em dar o melhor de si para se alcanar o objetivo proposto; demonstravam estar orgulhosos das habilidades dos filhos e de suas realizaes, inclusive mostrando interesses similares aos deles (como passatempos ou profisses), ajudando-os a organizar o tempo, a estabelecer prioridades e a manter altos padres para que uma tarefa fosse completada.

Bloom forneceu evidncias de que pais que tm maiores chances de inuenciar positivamente no desenvolvimento da inteligncia e do potencial de seus lhos so os que: (a) combinam apoio e altas expectativas para com o desempenho dos lhos; (b) encorajam a criana nos seus esforos para aprender novas habilidades; (c) providenciam recursos e oportunidades de aprendizagem alm daquelas fornecidas pelo ambiente escolar; e (d) estimulam seus lhos a se engajarem na rea de interesse o mais cedo possvel, escolhendo o primeiro instrutor com cuidado.

Os seres humanos nascem com um enorme potencial. No entanto, o estudo de Bloom confirma que o desempenho superior

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17aparece depois que as crianas so estimuladas e encorajadas pelos pais, e no antes, como se poderia supor. O autor parte do princpio de que, no importando quais sejam as caractersticas inatas apresentadas pela criana, a menos que haja um longo e intensivo processo de encora-jamento, afetividade, educao e treinamento, os indivduos no atingiro nveis extremos de capacidade nos campos pesquisados.

Bloom enfatiza que o encorajamento e afetividade so essenciais no caso dos primeiros instrutores ou professores dos anos iniciais da criana pr-escolar. Mais do que a disciplina e a habilidade em si, estes devem, fundamen-talmente: (a) ensinar com carinho e respeito velocidade e estilo de aprendizagem da criana; (b) transformar as lies em atividades ldicas; (c) utilizar mais o ensino individual do que o coletivo; e (d) desenvolver atividades em que os pais possam participar e demonstrar interesse no que a criana aprendeu. medida que a criana se desenvolve, progride em seu aprendizado e domina uma tcnica ou habilidade, o papel do educador tambm se modifica, tornando-se eventualmente mais centrado nas habilidades, na autodisciplina e no ensino individualizado.

O trabalho de Bloom fez importante contribuio prtica educacional, no sentido de acentuar a importncia dos anos iniciais e, consequentemente, do ensino pr-escolar no desenvolvimento precoce das altas habilidades.

A IMPORTNCIA DO DESENVOLVIMENTODE TALENTOS NA ESCOLA

No prefcio da primeira edio de seu livro Psicologia e educao do superdotado

de 1986, a professora Dr. Eunice Soriano de Alencar, pioneira na implementao do estudo das altas habilidades/ superdotao no pas, j chamava a ateo para a importncia do desen-volvimento dos talentos e para a implementao de programas educacionais direcionados a esta populao. Dizia ela:

... o futuro de qualquer nao depende da qualidade e competncia de seus profissionais, da extenso em que a excelncia for cultivada e do grau em que condies favorveis ao de-senvolvimento do talento, sobretudo do talento intelectual, estiverem presentes desde os primei-ros anos da infncia. (...) O fato de que uma boa educao para todos no signif ica uma edu-cao idntica para todos tem levado a um inte-resse crescente pelos alunos mais competentes e capazes, a par de uma conscincia de que um sistema educacional voltado apenas para o estu-dante mdio e abaixo da mdia pode significar o no-reconhecimento e estmulo do talento e, consequentemente, o seu no-aproveitamento (p. 11).

Desta forma, a eqidade na educao seria obtida no por meio do fornecimento de experincias de aprendizagem idnticas para todos os alunos, mas sim por uma ampla gama de experincias cuidadosamente planejadas e diferenciadas que levam em conta as habili-dades, interesses e estilos de aprendizagem de cada estudante (Virgolim,1998).

Nesta mesma linha de pensamento, e preocupada com o desperdcio e o desvio dos

talentos humanos, a Dr. Zenita Guenther reflete que o nosso papel, enquanto educadores, o de encaminhar o desenvolvimento de pessoas e encontrar a melhor e mais apropriada forma de prover a cada um aquilo de que ele necessita para se tornar o melhor ser humano que pode vir a ser (Guenther, 2000, p. 20). Reconhecer, estimular e aproveitar talentos humanos em desenvolvimento ou em potencial nas diversas reas do saber humano , afinal, responsabi-lidade de todos: famlia, escola e sociedade.

Nesta perspectiva, torna-se necessrio que nossas escolas encarem o desafio de guiar nossos alunos para o desenvolvimento de traos de personalidade e atitudes favorveis ao desenvol-vimento do talento; e que este possa ser correta-mente identificado, estimulado e potencializado ao mximo.

Mudanas so necessrias na estrutura escolar atual, a fim de que se promova condies apropriadas para a realizao criativa e produtiva dos alunos; engaj-los em experincias de aprendizagem que satisfaam seus interesses e estimulem sua imaginao (Alencar, 1995), assim como prepar-los para se tornarem produ-tores, e no s consumidores, do conhecimento (Renzulli & Reis, 1997a).

Neste sentido, a misso das escolas deveria ser a de encorajar a produtividade criativa e intensificar a qualidade de experincias de aprendizagem para todos os estudantes e no s para os que se destacam por suas capacidades intelectuais superiores. Assim sendo, a sua meta no seria, a priori, identificar e separar o grupo dos superdotados daqueles que no o so, mas

1 Este livro foi reeditado por Alencar e Fleith, em 2001, sob o ttulo: Superdotados: Determinantes, educao e ajustamento, ed. EPU.

18sim prover a cada aluno com as oportunidades, recursos e encorajamento necessrios para atingir o seu potencial mximo, de forma inclusiva. DESAFIOS PARA AS ESCOLAS BRASILEIRAS: PROBLEMAS E SOLUES

Embora o perfil do atendimento ao aluno superdotado tenha expressivamente se modificado nos ltimos cinco anos, vrios so os problemas que a rea da superdotao ainda enfrenta na realidade educacional brasileira (ver Quadro 1). Para Virgolim (1998), a rea se caracteriza pela falta de: (a) treinamento especializado dos profissionais; (b) materiais adequados necessidade do grupo; (c) curr-culos e programas adequados aos diferentes

nveis em escolas pblicas e particulares; (d) cursos de graduao e ps-graduao nas universidades brasileiras especficos para a rea; (e) tcnicas mais modernas de identificao; (g) maior nmero de pesquisas realizadas com esta populao para a realidade brasileira; e (h) mais literatura especializada em nosso idioma.

Vrios pesquisadores brasileiros (por exemplo, Alencar & Fleith, 2001; Fleith & Virgolim, 1999; Guenther, 2000; Sabatella, 2005; Virgolim, 1997, 2005) assinalam a neces-sidade de ampliao de servios especficos para se conhecer melhor as caractersticas deste grupo em nosso pas; de atender, no contexto escolar e familiar, suas necessidades afetivas e cognitivas

especiais; de se fazer mais pesquisas na rea; e de influenciar o desenvolvimento de polticas pblicas, no contexto brasileiro, que favoream o reconhecimento, o estmulo e o aproveitamento de nossos potenciais humanos.

Algumas pesquisas realizadas no Brasil (Fleith & Virgolim, 1999; Maia-Pinto, 2002; Virgolim, 2005) apontam para alguns desafios a serem enfrentados na rea, como a necessidade de integrao do ensino regular com o especia-lizado. Estes autores destacam a importncia do professor do ensino regular estimular a partici-pao do aluno identificado em sala de recursos e de que haja uma coordenao efetiva que se responsabilize pelo desenvolvimento destes alunos tanto no contexto da sala regular quanto na de recursos.

Tambm Reis (1986) discute a questo da responsabilidade do programa, apontando para o fato, to comum nas escolas americanas quanto nas brasileiras, da escola regular no assumir a responsabilidade pela educao total da criana ou do jovem, quando isso implica o exerccio de atividades fora da classe regular. H uma tendncia para se criar uma separao entre os dois programas, como se a criana pudesse ser superdotada apenas no atendimento especia-lizado. Esta separao tambm percebida quando o professor do ensino regular no tem conhecimento de que o aluno est participando de um programa para as altas habilidades, ou quando atribui a responsabilidade pelo desen-volvimento do potencial deste aluno apenas ao professor da sala de recursos. Conseqentemente, o programa passa a ser visto como um apndice

QUADRO 1: OS DESAFIOS DA REA

` Disseminar a rea da superdotao, aprofundando o conhecimento da sociedade sobre o tema;

` Ressaltar as necessidades cognitivas, sociais e emocionais especiais desta populao;

` Combater mitos e falcias, como o de que o superdotado no necessita de mais recursos, podendo se desenvolver sozinho;

` Proporcionar treinamento especializado aos profissionais envolvidos;

` Proporcionar materiais adequados necessidade do grupo;

` Desenvolver e utilizar tcnicas modernas de identificao;

` Adaptar e diferenciar currculos e programas aos diferentes nveis em escolas pblicas e particulares;

` Implantar cursos de graduao e ps-graduao especficos para a rea nas universidades brasileiras;

` Realizar mais pesquisas com esta populao para a nossa realidade;

` Publicar e implementar a literatura especializada em nosso idioma.

Fonte: Virgolim, 1998

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19do sistema escolar, ao invs de um servio neces-srio ou mesmo essencial (Fleith & Virgolim, 1999).

Para ilustrar este ponto de vista, tomemos o exemplo de dois alunos superdotados na rea artstica, que participam de programas especiais em seus respectivos pases: Evgeny Sviridov, russo, talentoso no violino, e Neilson Moreira da Costa, brasileiro, aluno talentoso na rea do desenho.

Em maio de 2004, os principais jornais brasileiros noticiaram a apresentao, no Brasil, do jovem violinista Evgeny Sviridov, ento com 15 anos de idade. Nascido em So Petersburgo, Sviridov comeou os estudos de violino em 1994, quando tinha apenas seis anos de idade. Dois anos depois, foi convidado a integrar o elenco da Escola Especial de Msica para Crianas Talentosas do Conservatrio Rimsky-Korsakov. Em 1998, aos 10 anos de idade, fazia o primeiro recital solo. Em 1999, conquistou o III Concurso Internacional Virtuosi do Sculo XXI em Moscou. No ano seguinte, foi o grande vencedor do II Concurso para Violinistas e Violoncelistas de Toda a Rssia, em Novosibirski e em 2001, recebeu o prmio mximo do Concurso Internacional de Televiso Bravo-Bravissimo em Milo. Estreando em Paris em 2004, foi aclamado de p durante 10 minutos ao trmino de seu recital no auditrio do Louvre.

Segundo Alencar e Fleith (2001), no decorrer desta ltima dcada houve um retro-cesso nas oportunidades oferecidas na Rssia, em comparao ao que este pas tradicional-mente oferecia aos seus jovens talentos. Mesmo

assim, interessante ressaltar que Evgeny teve a oportunidade de participar de um atendimento especializado, em So Petesburgo, e contar com uma flexibilidade curricular que permite que as crianas talentosas aprendam apenas o bsico das disciplinas tradicionais para ter mais tempo livre para se dedicar s prticas artsticas. Evgeny toca seu violino pelo menos seis horas todo dia. Sua professora e tcnica, Elena Zaitseva, a respon-svel pela escolha do repertrio e o acompanha onde quer que ele se apresente, afim de avaliar suas falhas e corrigir sua performance.

Contrapondo a esta realidade, que se pode observar em alguns pases mais desenvolvidos, muitos dos talentos brasileiros passam desper-cebido durante seus anos escolares. Nem sempre so incentivados a desenvolver suas habilidades especficas, o que ocorre por razes diversas. Este foi o caso de Neilson, que apenas aos 17 anos foi indicado para participar do Programa para Altas Habilidades da Secretaria de Estado de Educao do Distrito Federal, embora suas habilidades para o desenho fossem j excepcionais desde criana. Dinmico e comunicativo, Neilson trabalhava como caixa e empacotador de supermercado, onde tambm era estagirio na rea de compu-tao. Estudava noite para concluir o 3 ano do Ensino Fundamental. Neilson freqentava o programa 2 vezes por semana, tarde, mas s ia quando tinha oportunidade e tempo. Em seus trabalhos, Neilson gostava de usar lpis de cor, spray e grafite. Perguntado sobre suas pretenses futuras, o jovem revelou que no pretendia cursar a universidade: precisava trabalhar para garantir seu sustento e de sua famlia.

O caso desses dois talentos artsticos mencionados revela os desafios que ainda teremos de enfrentar se quisermos elevar o nvel da educao e das oportunidades oferecidas aos jovens talentosos no nosso pas. Como tantos outros jovens brasileiros carentes, Neilson no teve a chance de ser includo no atendi-mento especial quando era mais jovem; no teve oportunidades, com o seu colega russo, de desenvolver ao mximo suas habilidades arts-ticas desde tenra idade. No Ensino Fundamental e no Ensino Mdio, Neilson no usufruiu de um currculo adaptado s suas necessidades especiais, o que poderia ter-lhe proporcionando tempo para o estudo e o refinamento de sua arte. Alm disso, seus professores no ensino regular no se envolveram com o programa desenvolvido na sala de recursos, refletindo o problema do gerenciamento da responsabilidade pelo desenvolvimento integral do aluno. E por fim, observa-se que o jovem optou por sacrificar sua arte em funo da sua subsistncia imediata e da famlia. Suas habilidades artsticas, insufi-cientemente valorizadas em seu contexto scio-cultural mais imediato, no foram encorajadas fora da sala de recursos.

Guenther (2006) nos lembra que a capacidade e talento humano se desenvolvem, e se expressam em produo superior, desde que o potencial seja identificado, estimulado, acompanhado e orientado (p.31). Sem estes fatores, sem dvida, os talentos mais promis-sores em nossa sociedade sero desperdiados. Este um dos grandes desafios que teremos que enfrentar.

O que as palavras querem dizer?

Captulo 2

As diferentes terminologias e definies na rea

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23A superdotao pelo olhar do senso comum

Os indivduos que se destacam em virtude de suas altas habilidades ou feitos prodigiosos sempre foram foco da curiosidade popular. Desta forma, os meios de comunicao atuais esto sempre buscando exemplos de crianas e jovens que se destacam por seu potencial superior. Assim, em 2001, uma das crianas em destaque era Igor, um simptico garotinho de trs anos, morador de uma regio administrativa do Distrito Federal. Igor tornou-se notcia de jornal por ostentar uma habilidade precoce para uma criana de sua idade. Ainda trocando o r pelo l, Igor surpre-endeu sua professora do Maternal II, quando esta perguntou, mostrando um livrinho de estrias: Quem sabe o que est escrito aqui? Eu sei! respondeu Igor: A menina Dorminhoca! e leu todas as outras informaes contidas na capa do livrinho. Chamada na escola, a me informou que Igor, com um ano e meio, j lia anncios na rua e se exibia para pequenas platias. Os pais, de origem humilde e pouca instruo formal, explicaram que no ensinaram a criana a ler, embora tenham dado a ela oportunidade de manipular livros, oferecidos como distrao enquanto ambos estudavam. Embora orgulhosos do lho, os pais revelavam uma preocupao tpica de quem tem em casa uma criana precoce: no querem que o lho se sinta diferente ou excludo pelos colegas.

Acontece que Igor est longe de ser um caso nico, ou mesmo raro. A habilidade superior, a superdotao, a precocidade, o prodgio e a genia-lidade so gradaes de um mesmo fenmeno, que vem sendo estudado h sculos em diversos pases, como China, Alemanha e Estados Unidos.

No entanto, concepes tericas divergentes, assim como percepes estereotipadas sobre a super-dotao, em geral propagadas na sociedade, tm permeado o campo (Ziegler & Heller, 2000). Nota-se, por exemplo, na notcia de jornal sobre o caso de Igor, uma confuso entre prodgio e precoce, j no ttulo da reportagem, onde se l: Criana prodgio Igor um pequeno craque. Com um livro nas mos, o que acaba por trazer mais desinformao ao campo e confundir tambm a populao. Alm disso, ao focalizar sua ateno em demasiado na divulgao de casos raros, a mdia colabora na propagao da superdotao como uma competncia extremamente elevada em todas as reas, gerando uma expectativa de desempenho e de produo que no se observa neste grupo de forma homognea (Alencar, 2001).

Neste captulo vamos abordar as diferentes terminologias na rea mostrando, por meio de exemplos e estudos de caso veiculados pela mdia e que fazem parte do senso comum, a diferenas entre este grupo to heterogneo. Exemplos de crianas precoces e prodgios sero discutidos. A m de ilustrar os diferentes tipos de talentos focalizados na denio brasileira de superdotao, mostraremos as caracters-ticas apresentadas por pessoas que so reconhecidas como gnios. E, por m, faremos o contraponto com as denies oferecidas pelos pesquisadores da rea, analisando a superdotao por sua perspectiva cientca.

Antes de passarmos para a prxima seo, vamos esclarecer as diversas denominaes para o termo superdotado.

A CRIANA PRECOCESo chamadas de precoce as crianas que

apresentam alguma habilidade especca prematu-

ramente desenvolvida em qualquer rea do conhe-cimento, como na msica, na matemtica, nas artes, na linguagem, nos esportes ou na leitura. Sem dvida, Igor uma criana precoce, mas no se deve rotul-la como superdotada, prodgio ou gnio, sem antes acompanhar seu desenvolvimento. Mesmo a superdotao precoce, em seu grau extremo, no garantia de sucesso futuro, ou de que esta pessoa se tornar um adulto eminente.

Crianas superdotadas, para Winner (1998) so precoces. Elas progridem mais rpido do que as outras crianas por demonstrarem maior facilidade em uma rea do conhecimento. No entanto, Freeman e Guenther (2000) alertam para o fato de que nem todos os adultos que se tornaram eminentes foram crianas precoces. H mltiplos fatores que inter-ferem na trajetria de vida de uma criana precoce alm do nvel de habilidade, como os atributos de personalidade, a motivao em buscar a excelncia, o ambiente familiar propcio para o desenvolvi-mento das habilidades e as oportunidades que aparecero no decurso de sua vida. Alm disso, a motivao intrnseca, a curiosidade e a vontade de aprender, fatores essenciais para um desem-penho superior, dependem de um ambiente educacional enriquecido para se desenvolverem.

To precoce quanto Igor foi Lo Romano, que foi notcia em 2004 em uma revista semanal de informao2. De famlia modesta da zona norte de So Paulo, filho de um bancrio e uma dona de casa, Lo nunca freqentou escolas nem recebeu nenhuma orientao. No entanto, com 2 anos e meio j conhecia as letras do alfabeto,

2 Revista poca, n 343, 13 de dezembro de 2004

24lia slabas e palavras simples e demonstrava uma impressionante memria: sabia identicar as bandeiras dos Estados brasileiros e de uma centena de pases. Alm disso, memorizou fatos geogr-cos e histricos - por exemplo, sabia que a capital do Afeganisto Kabul, que Nelson Mandela foi presidente da frica do Sul e que Nero mandou atear fogo em Roma.

Divulga-se em destaque a precocidade no xadrez, chamando a ateno para dois irmos, Giovani e Giuliano Vescovi. Giovani mal havia completado dois anos quando, de tanto observar o pai, aprendeu sozinho a montar as peas em um tabuleiro de xadrez. Esta criana precoce, no entanto, recebeu toda a ateno da famlia, que se mudou do Rio Grande do Sul para So Paulo quando Giovani tinha seis anos, para que pudesse receber orientaes especcas relativas sua rea de talento. Aos sete anos obteve em Porto Rico a taa de vice-campeo do torneio mundial na categoria infantil, aps seis horas de jogo. Seu irmo menor, Giuliano, que tambm treinava xadrez diariamente desde os 4 anos, foi campeo paulista na categoria dente-de-leite. Os irmos s paravam o treino na hora de brincar que para eles muitas vezes signi-cava resolver problemas de matemtica em livros de sries mais avanadas.

A CRIANA PRODGIOJ o termo prodgio utilizado para

designar a criana precoce que apresenta um alto desempenho, ao nvel de um prossional adulto, em algum campo cognitivo especco (Feldman, 1991; Morelock e Feldman, 2000). Um clssico exemplo de uma criana prodgio, com uma habilidade excepcional, foi o de Wolfgang Amadeus Mozart,

que comeou a tocar cravo aos trs anos de idade. Aos quatro anos, sem orientao formal, j aprendia peas com rapidez, e aos sete j compunha regular-mente e se apresentava nos principais sales da Europa. Alm disso, ao ouvir apenas uma vez o Miserere de Gregrio Allegri, foi capaz de trans-crever a pea inteira de memria, quase sem cometer erros (Gardner, 1999). Nesta sesso vamos falar de alguns prodgios da atualidade que tm encantado muita gente e desaado nosso entendimento sobre o desenvolvimento humano tpico.

Feldman (1991) acredita que a existncia dos prodgios de suma importncia para entendermos o fenmeno da mente humana. Este autor reete que, mais do que nos ensinar sobre a expresso e o desenvolvimento do potencial humano, o prodgio tambm nos ensina como a humanidade chegou onde est e talvez como deva melhor coreografar essa nossa dana nica na espcie. No passado, os prodgios eram vistos como uma monstruosidade, algo fora do curso usual da natureza, como um cometa ou meteoro (p. 4), explorados para prop-sitos nanceiros e isolados dos amigos; no entanto, ainda hoje surpreende-nos por violar nossas expec-tativas sobre como o mundo deveria funcionar.

Feldman prope uma interessante distino entre o indivduo superdotado que se destaca por seu alto QI, medido por testes psicomtricos, e o prodgio. O prodgio nico no sentido de exibir uma habilidade extremamente especializada, somente expressa sob condies bastante especcas do ambiente scio-cultural. De forma contrastante, o indivduo superdotado com alto QI possui habili-dades intelectuais generalizadas que permite altos nveis de funcionamento em uma grande amplitude

de ambientes. Tanto o especialista quanto o genera-lista podem apresentar realizaes impressionantes que reetem habilidades radicalmente diferentes, como se deu no caso de Mozart e Leonardo da Vinci. Mozart o exemplo do especialista: mltiplas e profundas habilidades musicais, mas em outros aspectos uma pessoa simples e intelectualmente normal. J Leonardo da Vinci representa o perl do generalista: erudita, curioso, uma mente vigorosa que dominou e contribuiu signicativamente em uma variedade de diferentes domnios.

Os prodgios so, como um todo, especialistas extremos, especialmente bem sintonizados a um campo particular do conhecimento, demonstrando um domnio rpido e aparentemente sem esforo. Embora os prodgios possam ser ou no talentosos no sentido de uma percia intelectual mais genera-lizada, no demonstram desempenho extraordinrio por vrias reas. Sendo precoce, o prodgio revela uma tenacidade no seu envolvimento com sua rea de talento, sendo este aspecto absolutamente neces-srio para sua satisfao, expresso e bem-estar.

Desta forma, o prodgio relativamente raro e necessita da convergncia de um nmero de circunstncias nicas para permitir uma completa e especializada expresso de um poderoso potencial. O prodgio emerge em um ambiente onde convergem a tendncia altamente especca do indivduo de se engajar profundamente na rea em que apresenta precocidade com uma especca receptividade ambiental, sendo por isso mesmo infreqente e improvvel.

Ao estud-los, estaremos numa posio de melhor compreender o processo mais geral envolvido no desenvolvimento do potencial. Vejamos alguns

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25casos divulgados pela mdia brasileira e internacional.

PRODGIO NA MSICAUm tpico caso de criana prodgio o

pianista catarinense Pablo Rossi que, com apenas 11 anos de idade, gravou um CD com obras de Chopin, Bartk, Schumann, Tchaikovsky, Rachmaninov, Shostakovich e Nepomuceno, tendo sido tambm notcia na mdia impressa.3 Pablo toca com a Orquestra Sinfnica do Estado de So Paulo e treina cinco a seis horas por dia. Considerado hoje o melhor pianista jovem do Brasil, este catarinense de 17 anos foi vencedor do 1 Concurso Nacional Nelson Freire de Novos Talentos Brasileiros e acumula premiaes no Brasil e no exterior.

Pablo Rossi nasceu em Florianpolis em 1989 e iniciou os estudos musicais aos seis anos. Aos sete ganhou o concurso para piano Jovens Intrpretes, de Lages, e passou a ter aulas em Curitiba com Olga Kiun, pianista russa naturalizada brasileira, ela prpria uma criana prodgio que fez seu primeiro recital solo aos nove anos e aos doze realizou seu primeiro concerto como solista de orquestra.

Pablo acumula diversos prmios em sua curta carreira de pianista: j aos oito anos recebia o prmio revelao no XXXII Festival de Inverno de Campos do Jordo e logo em seguida recebia o primeiro lugar nos seguintes concursos: Concurso de Piano Artlivre em 1997 e em 2000; no VII Concurso Nacional Magda Tagliaferro; no IX Concurso Nacional de Piano em Governador Valadares; no XIII Concurso Internacional na cidade de Crdoba, Argentina; no XI Concurso Internacional de Piano Perfecto Garca Chornet, na Espanha; e

no I Concurso Nacional Nelson Freire para Novos Talentos Brasileiros. Com o apoio do Governo do Estado do Paran, Pablo conseguiu uma bolsa de estudos para cursar o Conservatrio Tchaikovsky de Moscou, a convite da Sociedade Rachmaninov, em novembro de 1999, quando tinha 10 anos, tendo ento a oportunidade de participar das masterclasses de Alexander Mndoyants e Viktor Merdjano.

O aclamado prodgio j se apresentou com a Orquestra de Cmara Solistas de Londrina, a Orquestra Sinfnica do Paran, a Camerata Florianpolis, a Sinfnica de Santa Catarina, a Sinfnica de Ribeiro Preto, a Orquestra Sinfnica Brasileira, alm de ter realizado recitais em cidades como So Paulo, So Jos dos Campos, Maca e Curitiba.

PRODGIO ACADMICOO americano Gregory Robert Smith tem

feitos notveis em sua biograa de apenas 17 anos4. Destacamos aqui algumas de suas realizaes: ` Aos 13 anos recebeu seu diploma de graduao

suma cum laude em Matemtica na Randolph-Macon College, em Ashland, Virginia.

` Em maio de 2006, aos 16 anos de idade, recebeu o ttulo de Mestre em Matemtica pela Universidade de Virginia, EUA. Recentemente revelou que pretende obter seu PhD em quatro diferentes reas: matemtica, engenharia aeroespacial, cincia poltica e engenharia biomdica.

` fundador da International Youth Advocates, dedicada defesa de jovens e crianas carentes e paz mundial. Em suas viagens ao exterior (j visitou nove pases em quatro continentes,

incluindo o Brasil) e dentro de seu prprio pas, Gregory d palestras sobre o m do ciclo da violncia e sobre a manuteno da paz. J se encontrou com a rainha Noor, da Jordnia, com presidentes, como Bill Clinton e Mikhail Gorbachev, lderes religiosos como o Arcebispo Desmond Tutu da frica do Sul, e educadores para discutir suas idias para a educao e para a paz.

` Foi indicado ao Prmio Nobel da Paz em 2002 (quando tinha 12 anos), continuando a concorrer nos anos posteriores (2003 a 2006).

` Quando terminou o Ensino Fundamental e o Mdio em apenas cinco anos em vez dos treze esperados de uma criana comum , virou estrela de programas populares nos Estados Unidos.Gregory foi precoce em muitas reas e de uma

forma qualitativamente diferente da grande maioria das crianas. Comeou a falar muito mais cedo que o esperado para um beb, aos 2 meses de idade. Com um ano e dois meses era capaz de nomear todos os tipos de dinossauros que j existiram e de resolver problemas simples de lgebra. Aos 2 anos j lia e corrigia a gramtica de adultos. Nesta idade ele tambm decidiu abandonar os sanduches do McDonalds e tornou-se vegetariano por conta prpria. Aos 5 anos era capaz de recitar trechos de livros de memria tinha na cabea a coleo inteira de Jlio Verne e era capaz de discorrer sobre uma enorme gama de assuntos. Seus pais comentam que, nesta idade, sua capacidade mental, medida por testes de QI, ultrapassava os limites dos prprios testes. Gregory foi acelerado nos estudos e o currculo compactado para atender suas 3 Revista poca, n 343, 13 de dezembro de 2004 4 http://www.gregoryrsmith.com/

26necessidades especiais nicas; assim, no perodo de um ano o menino cumpriu sete sries escolares (da segunda oitava), pulando toda a terceira srie e cumprindo um curso de lgebra em 10 semanas. Ele tinha sete anos quando entrou para o Ensino Mdio no Orange Park High School, na Florida.

Em entrevista ao jornal Washington Post, em 1999, quando se formava com honras no Ensino Mdio, dois dias antes do seu 10 aniversrio, Gregory comentou: Acredito que recebi um dom especial, mas no sei como ou porque ele me foi dado; apenas sei que quero usar o mximo de minhas habilidades para ajudar a humanidade. Entre as suas metas, anunciou, est a de se tornar Presidente dos Estados Unidos.

PRODGIO NA PINTURAMarla Olmstead5, atualmente com 6 anos de

idade, comeou a pintar pouco antes de completar 2 anos, com o incentivo de seu pai, tambm artista plstico. Usando pincis, esptulas, seus prprios dedos e at tubos de ketchup, a menina cria telas de aproximadamente um metro e meio, que j lhe renderam mais de US$ 300 mil, tendo cerca de 200 compradores na lista de espera.

Nascida no estado de Nova York, em Fevereiro de 2000, Marla comeou a pintar antes de 2 anos. Seu pai, gerente de uma fbrica e pintor amador, no incio achava que a pintura era apenas uma distrao para a lha, mantendo-a ocupada enquanto ele prprio pintava. No entanto, logo passou a comprar telas e tintas quando observou o senso de equilbrio, forma e composio presentes nos quadros abstra-cionistas da lha. A me, recepcionista em tempo parcial, conseguiu com um amigo que os trabalhos

da criana fossem expostos em uma lanchonete local. O primeiro quadro, vendido por 250 dlares, foi logo sucedido por outros. Em Agosto de 2004 a galeria de artes Anthony Brunelli, de Nova York, atraiu mais de 2.000 pessoas com a primeira exposio de Marla, cujos quadros foram vendidos por cerca de 6 mil dlares cada. Marla gosta de usar tintas acrlicas coloridas e, diferentemente das crianas de sua idade, constri suas pinturas em camadas e cobre toda a tela de tinta, no deixando espaos vazios. Inicialmente trabalha com largas pinceladas de tinta e com os dedos, e progressivamente outras ferramentas so incorporadas ao trabalho, como garrafas de plstico. O pai, atuando agora como seu assistente, incentiva a lha a produzir com regula-ridade e rapidez, pintando vrios quadros por ms. Segundo o pai, Marla pinta regularmente, trs vezes por semana, e em geral termina seu trabalho aps trs horas de grande concentrao.

Atraindo a ateno da mdia, e tornando-se notcia no The New York Times, Time, CBS Newse BBC News e em outras revistas, TV e jornais da Frana, Alemanha, Canad, Inglaterra, Espanha, frica do Sul, Austrlia, Brasil e Itlia, Marla tem sido comparada a grandes gnios do expressionismo abstrato, como Wassily Kandinsky e Jackson Pollock.

Em seu livro Crianas superdotadas: Mitos e realidades, Winner (1998) chama a ateno para a necessidade de se prover um ambiente enriquecido com estimulao constante e variada. Pesquisas relatam que a maioria dos adultos talentosos vm de famlias unidas que valorizam altas realizaes e de pais que revelam uma crena inabalvel no talento do lho. Embora a exigncia parental e altas expectativas estejam tipicamente associadas

com alto desempenho na vida adulta, h evidncias que crianas superdotadas param de se esforar em resposta ao excesso de presso parental e podem terminar desengajadas, deprimidas e ressentidas. A conseqncia de um pai que faz exigncias constantes, manipula a vida dos lhos e vive intei-ramente atravs de suas conquistas so relatadas em inmeras biograas de pessoas famosas que tiveram sua infncia roubada e o amor dos pais inteiramente condicionados ao sucesso prossional. No entanto, como acrescenta Winner, alto desempenho em qualquer domnio est sempre associado a altos padres estabelecidos por um adulto e que tambm modela alto desempenho. O que leva algumas crianas superdotadas a desengajar-se de seu talento jamais so as altas expectativas, mas antes, superexi-gncia, dominao, explorao e privao emocional extremas (Winner, 1998, p.161).

PRODGIO NA LITERATURADescrita como uma pequena gigante

literria pela jornalista Diane Sawyer no programa de entrevistas Good Morning America, Adora Svitak, americana, lha de me chinesa e pai checo, de apenas 8 anos, surpreende por sua facilidade em escrever. No programa de televiso, Adora demonstrou sua capacidade de digitar setenta palavras por minuto em seu laptop, escrevendo textos com uma estrutura sosticada para sua idade, respondendo perguntas e demonstrando seu processo de escrita ao vivo, com a ajuda de um projetor. Seu primeiro livro6, escrito aos 7 anos de idade, inclui nove histrias, poemas, e sua opinio sobre poltica, religio, mdia e educao. Sua me, Joyce Svitak, contribui no livro com dicas

5 http://www.marlaolmstead.com./6 Flying Fingers: Master the Tools of Learning Through the Joy of Learning. Adora Svitak, Joyce Svitak. Copyrighted material.

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27e estratgias de ensino para ajudar pais e professores em como ensinar a criana a escrever, ilustrando cada tcnica ou exerccio com as histrias escritas por Adora. Apaixonada por histria medieval e contem-pornea, losoa e mitologia, seus contos traduzem sua paixo pela leitura e escrita. Adora entende que sua misso engloba ensinar outras crianas a ler e escrever, visitar escolas e repassar para os jovens o prazer que a leitura e a escrita podem proporcionar.

Adora comeou a ler com 3 anos de idade. Seus pais, adeptos do home scooling ou ensino domiciliar, se tornaram tutores das duas lhas, ensinando as disci-plinas escolares em casa. Os pais acreditam que esta forma de ensino mais eciente, na medida em que o nvel de ateno que podem proporcionar aos lhos no pode ser replicado no ambiente escolar, sendo que o resultado desta ateno se torna bem eviden-ciado na leitura e escrita. A me de Adora relata que ensinar a menina a escrever, aos 4 anos de idade, foi um processo de tentativa-e-erro, o qual muito ensinou a ambas. Adora progrediu rapidamente em seu prprio ritmo, ultrapassando as expectativas da me. Joyce Svitak assim explica este processo de aguar a imaginao da criana atravs da escrita:

Pea a seu lho para completar uma sentena simples tal como: A casa era...... Se ele/ela no consegue elaborar, comece fazendo uma srie de perguntas. A casa feita de gelatina? A casa pode voar? Uma vez que a criana comece a contemplar as possibilidades divertidas, as palavras comearo a jorrar. Se seu lho ca animado e comea a dar muitas idias, pea a ele/ela para escrever a primeira idia antes de partir para a prxima. Claro que esta

apenas uma das atividades, mas eu geralmente sigo os mesmos princpios com a maioria dos exerccios educacionais. Eu fao perguntas, mantenho uma atitude de brincadeira, e sempre me asseguro de que meus lhos saibam que estou verdadeiramente interessada no que eles tm para compartilhar7.

Feldman (1991) argumenta que a expresso do talento em nvel excepcional envolve numerosos elementos, os quais podem ser percebidos no caso dos prodgios aqui citados, e que compreendem: um ambiente cultural favorvel; a presena de um domnio ou rea j em considervel estgio de desenvolvimento e reconhecimento na sociedade, no qual a pessoa se destaca (por exemplo, as reas de msica, artes visuais e plsticas, literatura); a presena de professores que dominam o conheci-mento especco desta rea; o reconhecimento da famlia de que se trata de um talento extremo e esto determinadas a dar total apoio e suporte criana; grandes doses de encorajamento e entendimento da extenso do talento expresso pelo indivduo.

OS GNIOS DA HUMANIDADEEm nossa sociedade, tambm comum que

as pessoas se reram a uma criana como um gnio, devido sua precocidade em uma rea especca, como na msica ou na matemtica, ou por sua facilidade em memorizar fatos, nomes e aconteci-mentos. Freqentemente o superdotado associado ao gnio, s habilidades inatas e ao desempenho excelente em todas as reas (Fleith & Alencar, 2001), numa clara demonstrao da desinformao sobre o tema em nossa sociedade.

O termo foi popularizado por Lewis Terman que, em seu livro Genetic Studies of Genius, de 1926, denia como gnio qualquer criana com um

QI superior a 140, conforme medido pelo teste Stanford-Binet (Ehrlich, 1989). No entanto, os pesquisadores da atualidade (por exemplo, Alencar, 2001; Feldhusen, 1985; Feldman, 1991) sugerem que o termo gnio deva ser reservado para descrever apenas aquelas pessoas que deram contri-buies originais e de grande valor humanidade em algum momento do tempo. Os gnios so os grandes realizadores da humanidade, cujo conheci-mento e capacidades nos parecem sem limite, incri-velmente excepcionais e nicas. So raras as pessoas que atingem patamares excepcionais. Leonardo da Vinci, Gandhi, Heitor Villa-Lobos, Stephen Hawkins e Edson Arantes do Nascimento, o Pel, esto entre os grandes gnios da humanidade, em seus campos especcos.

Em contrapartida, os termos pessoa com altas habilidades e superdotado so mais apropriados para designar aquela criana ou adolescente que demonstra sinais ou indicaes de habilidade superior em alguma rea do conhecimento, quando comparado a seus pares. No h necessidade de ser uma habilidade excepcional para que este aluno seja identicado. Essa distino se torna importante, uma vez que a palavra superdotado, como j foi pontuado neste texto, vem carregada de conotaes que nos remetem erroneamente ao super-heri, ao indivduo com capacidades excepcionais e, portanto, s habilidades raras inexistentes no ser humano comum. por esta razo que muitos pesquisadores preferem o uso de termos alternativos, como talento ou altas habilidades.

Alm disso, bom ter em mente que identi-camos as pessoas com altas habilidades/ superdotao ou talentos no pelo mero prazer de rotul-las, mas 7 http://ezinearticles.com/?expert=Joyce_Svitak

28por entendermos que os educadores tm a obrigao de oferecer experincias educacionais apropriadas e diferenciadas aos seus alunos, a m de desenvolver de forma adequada e igualitria suas habilidades e necessidades especiais.

Voltaremos aos gnios na prxima sesso, enfocando a superdotao sob o prisma da gradao de intensidade.

A superdotao pelo olhar da cincia

As habilidades apresentadas por todas as pessoas aqui citadas, sejam elas precoces, prodgios ou gnios, e outros com habilidades e potenciais menos aparentes, podem ser enquadradas em um termo mais amplo, que altas habilidades/ superdotao. Alencar e Fleith (2001) ressaltam que a superdotao pode se dar em diversas reas do conhecimento humano (intelectual, social, artstica etc.), num continuum de habilidades, em pessoas com diferentes graus de talento, motivao e conhecimento. Assim, enquanto algumas pessoas demonstram um talento signicativamente superior populao geral em algum campo, outras demonstram um talento menor, neste mesmo continuum de habilidades, mas o suciente para destac-las ao serem comparadas com a populao geral (Virgolim, 1997).

DEFINIO BRASILEIRAA denio brasileira atual considera os

educandos com altas habilidades/superdotao aqueles que apresentam grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes (Brasil, 2001,

Art. 5, III). Essa denio ressalta duas carac-tersticas marcantes da superdotao, que so a rapidez de aprendizagem e a facilidade com que estes indivduos se engajam em sua rea de interesse.Tambm, completa a apresentada pelas Diretrizes gerais para o atendimento educacional aos alunos portadores de altas habilidades/superdo-tao e talentos (Brasil, 1995), que foi construda a partir do referencial terico apresentada por Sidney Marland no relatrio ocial da Comisso de Educao ao congresso americano em 1971 e posteriormente integrado na denio brasileira.Permitiu, asim, que a superdotao ultrapassasse a tradicional viso acadmica para ser entendida em uma perspectiva mais plural. Essa denio postula que as pessoas com altas habilidades/superdotao so os educandos que apresentam notvel desem-penho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados:

a) Capacidade Intelectual Geral - Envolve rapidez de pensamento, compreenso e memria elevadas, capacidade de pensa-mento abstrato, curiosidade intelectual, poder excepcional de observao;

b) Aptido Acadmica Especca Envolveateno, concentrao, motivao por disciplinas acadmicas do seu interesse, capacidade de produo acadmica, alta pontuao em testes acadmicos e desem-penho excepcional na escola;

c) Pensamento Criativo ou Produtivo Refere-se originalidade de pensa-mento, imaginao, capacidade de resolver problemas de forma diferente e inovadora, capacidade de perceber um tpico de muitas

formas diferentes;d) Capacidade de Liderana Refere-se

sensibilidade interpessoal, atitude coope-rativa, capacidade de resolver situaes sociais complexas, poder de persuaso e de inuncia no grupo, habilidade de desen-volver uma interao produtiva com os demais;

e) Talento Especial para Artes Envolve alto desempenho em artes plsticas, musicais, dramticas, literrias ou cnicas (por exemplo, facilidade para expressar idias visualmente; sensibilidade ao ritmo musical; facilidade em usar gestos e expresso facial para comunicar sentimentos); e

f ) Capacidade Psicomotora Refere-se ao desempenho superior em esportes e atividades fsicas, velocidade, agilidade de movimentos, fora, resistncia, controle e coordenao motora na e grossa.

Esta denio vantajosa, uma vez que chama a ateno para importantes aspectos, como:

(a) a pluralidade de reas do conhecimento humano em que uma pessoa possa se destacar, no se limitando tradicional viso acadmica da superdotao;

(b) o entendimento de que as altas habilidades se relacionam tanto com o desempenho demonstrado quanto com a potencialidade em vir a demonstrar um notvel desem-penho; e

(c) a percepo de que a superdotao se modica no decurso do desenvolvimento do indivduo.

Vejamos ento como estas capacidades em

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29distintas reas podem ser observadas em pessoas que se destacaram, no cenrio mundial, pelo uso superior destas habilidades. A nossa inteno aqui justamente mostrar como caractersticas nicas de personalidade, a curiosidade, a criatividade, a persistncia e motivao intrnseca para se atingir um objetivo, aliadas s oportunidades oferecidas por um ambiente suportivo, foram fundamentais para que o indivduo chegasse a um patamar superior de realizaes. Embora focalizando nossa ateno em pessoas extraordinrias, nosso dever enquanto pais e educadores favorecer a expresso das potenciali-dades nicas de nossos lhos e alunos, por meio de um ambiente de suporte e estimulao.

HABILIDADE INTELECTUAL GERAL: STEPHEN HAWKING

O fsico ingls Stephen William Hawking (1942 - atual) doutor em Cosmologia e um dos mais consagrados fsicos tericos do mundo. Conhecido pela ousadia de suas idias e pelo humor

e clareza com que as expressa, Hawking utiliza como principais campos de pesquisa a cosmologia terica e a gravidade quntica. Seu livro, O Universo em uma casca de noz (Hawking, 2001), mostra seu poder excepcional de abstrao, a grandeza de seu pensa-mento lgico-matemtico e sua capacidade nica de ver problemas sob ngulos inusitados. Seu trabalho com relao singularidade no espao-tempo e com a relatividade geral reformulam as idias de Newton e de Einstein, o que lhe rendeu numerosos prmios e medalhas honrosas. Seus trabalhos com Buracos Negros, como a quarta Lei da mecnica de buraco negro, ocuparam grande parte de sua vida adulta. Hawking fez descobertas importantes que levaram o seu nome, como a radiao Hawking, em que faz uma analogia dos buracos negros com a termodinmica. O asteride 7672 Hawking assim chamado em sua homenagem.

Apesar de sofrer, desde os 21 anos, de esclerose amiotr ca lateral, uma rara doena degenerativa que paralisa, um a um, os msculos do corpo, inclusive a musculatura voluntria, Hawking no parou de trabalhar. Depois de sofrer uma traqueo-tomia, passou a utilizar um sintetizador de voz para se comunicar e, com seu auxlio (e muita perseve-rana), publicou mais de 180 trabalhos, entre artigos, livros e ensaios cient cos8. Hawking demonstra uma grande coragem, persistncia em atingir seus objetivos e uma enorme fora para ultrapassar as vicissitudes de sua vida. Nascido exatamente 300 anos depois da morte de Galileu, Hawking ocupa hoje o posto que foi de sir Isaac Newton, atuando como professor lucasiano de Matemtica na

Universidade de Cambridge na Inglaterra.Pela de nio de superdotao apresentada,

Hawking se encaixa perfeitamente no per l de uma pessoa com habilidade intelectual geral. Ressaltamos aqui sua capacidade de pensamento abstrato, sua curiosidade intelectual e o poder excepcional de observao dentro de usa rea. Aliados a estas caractersticas ressaltam-se aspectos de personalidade, como persistncia em atingir seus objetivos, coragem e resilncia. A resilncia se refere capacidade interior de reagir aos sofrimentos e tragdias da vida, tornando-se mais forte, criando uma couraa de proteo e fazendo do sofri-mento assumido uma alavanca para prosseguir a luta da vida. Talvez a resilncia tenha impulsionado o jovem Stephen a ultrapassar os obstculos da doena e persistir nos caminhos que sua grande potencialidade j apontava.

HABILIDADE DE PENSAMENTO CRIATIVO: LEONARDO DA VINCI

Leonardo da Vinci (1452-1519) escreveu, desenhou e fez estudos em inmeras reas: geometria, anatomia, geologia, botnica, astro-nomia, ptica, mecnica, arquitetura, projetos blicos, etc. Leonardo cou conhecido pela forma diferente e inovadora com que resolvia os mais diversos problemas em reas diferentes, assim como por sua capacidade de perceber de muitas formas diferentes um determinado assunto. Por exemplo, Leonardo via a pintura como uma cincia e desenhava com uma preciso matemtica. Para ele, o pintor deveria explorar ao mximo a capacidade que os olhos, principal via do conhecimento, tm de perceber a luz e as sombras, a posio e a distncia, o movimento e o repouso das coisas. Criou normas 8 http://www.hawking.org.uk/home/hindex.html

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rigorosas de perspectiva a partir de suas observaes sobre os efeitos da atmosfera sobre uma paisagem. Foi um observador atento dos movimentos do mundo - da gua, das nuvens, das folhas, dos animais e da anatomia humana. Seus desenhos anatmicos, produto de suas observaes e disse-caes de cadveres, so considerados superiores aos do clebre Andreas Vesalius, o grande anatomista do Renascimento9. No entanto, Leonardo sempre teve di culdades para iniciar e acabar uma obra, demonstrando no apenas um enorme desejo de perfeio, quanto ao temor de se exibir uma obra frente ao pblico, de ser julgado a partir do que fez, de entregar sua obra a mos alheias.

Alguns bigrafos de Leonardo conjecturam que o prprio Leonardo desvalorizava seu destino artstico diante do seu destino cient co (Civita, 1977). como engenheiro e arquiteto que ele se

apresenta nobreza italiana, projetando edifcios pblicos, pontes, canais, fortalezas, armas, carros de combate, embarcaes, turbinas, teares. Talvez pelo descompasso entre a mente do criador e a capacidade tecnolgica da Renascena, vrios de seus desenhos e criaes s virariam realidade nos sculos XIX e XX - mquinas voadoras, pra-quedas, escafandros, submarinos mostrando que sua capacidade de aprender com a observao do mundo, assim como sua poderosa imaginao e pensamento original o colocavam a pelo menos 4 ou 5 sculos frente de seu tempo. Por outro lado, a grande parte de seus escritos no se destinavam publicao, mas pode-se especular que, se tivessem sido publicados, poderiam ter mudado o rumo da histria das cincias.

O pensamento criativo e produtivo de Leonardo, aliado algumas de suas caracters-ticas pessoais, como percepo esttica, agudeza de observao e desejo de perfeio, assim como um ambiente cultural propcio s cincias e s artes, provavelmente foram fatores essenciais que o levaram a uma produo de mais alto nvel em sua vida adulta. Alm disso, como pontua Gruber (1986), as realizaes criativas mais importantes da humanidade foram o resultado direto de trabalho prolongado, persistncia e muitos anos dedicados tarefa que o criador tinha em mente.

HABILIDADES DE LIDERANA: GANDHIMohandas Karamchand Gandhi (1869 -

1948), mais conhecido popularmente por MahatmaGandhi (Mahatma, do snscrito grande alma), foi um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e um in uente defensor do Satyagraha(princpio da no-agresso, forma no-violenta de

protesto) como um meio de revoluo. Gandhi ajudou a libertar a ndia do governo britnico, inspirando outros povos coloniais a trabalhar pelas suas prprias independncias, para o desmante-lamento do Imprio Britnico e sua substituio pela Comunidade Britnica (Commonwealth). O princpio do satyagraha, freqentemente traduzido como o caminho da verdade ou a busca da verdade, tambm inspirou geraes de ativistas democrticos e anti-racistas, incluindo Martin Luther King e Nelson Mandela. Frequentemente Gandhi a rmava a simplicidade de seus valores, derivados da crena tradicional hindu: verdade (satya) e no-violncia (ahimsa).

Gandhi pregava a resistncia pac ca, mas ativa e provocativa, de forma a no se submeter ao mal e estar disposto a dar at a vida se necessrio for, para provar que est do lado do que justo, bom e correto. Foi assim que, de demonstrao macia em demonstrao macia, e com seu grande poder de persuaso e de in uncia levou o povo indiano, oprimido e dominado, a demonstrar ao Imprio Britnico a sua superioridade moral. Gandhi demonstra sua grande capacidade de resolver situaes sociais complexas quando sugere que a ndia pode ganhar sua independncia por meios no violentos e por via da ego-con ana. Ele rejeita a fora bruta e sua opresso e declara que a fora da alma ou amor mantm a unidade das pessoas em paz e harmonia.

Gandhi, embora se destacasse por sua capacidade verbal e de linguagem, era tmido, embora no tivesse receio em desa ar a autoridade estabelecida; assim, com sua sensibilidade inter-pessoal e atitude cooperativa empenhou-se em 9 Revista Super Interessante, Edio 226 - 05/2006

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31descobrir as foras, medos e desejos legtimos de ambas as partes, ndia e Gr-Bretanha, assim como a compreender os esteretipos negativos que ambos os lados mantinham uns pelos outros. Gandhi vivia estritamente de acordo com uma norma que estabeleceu para si mesmo: a de que agiria sempre de acordo com a verdade. Perseverando na verdade e na no-violncia, opondo-se ativamente injustia, desenvolveu uma imensa fora interior, o que atraiu muitos seguidores. Gandhi conseguiu convencer pessoas no mundo inteiro a no julgar os outros pela cor da pele ou pela histria dos antepassados, e a perceber a todos como seres humanos iguais; que era possvel haver discordncia de forma no-violenta; e que todos podem ser fortalecidos se comportarem com dignidade. No entanto, demonstrando sua habilidade de desenvolver uma interao produtiva com o povo, pedia que as pessoas o seguissem apenas se estivessem convictas do certo e do justo. No tinha nenhuma propriedade: sua riqueza era o que dava ao povo e o que dele recebia; por muito tempo pregou os ditames da honestidade e da correo. Ganhou a simpatia de inmeras pessoas pelos esforos que empreendia em seu benefcio, e exercia tamanha atrao sobre as massas, que muitos indianos o consideravam o verdadeiro smbolo da India (Nicholson, 1987). Suas frustraes pelo erro ou fracasso eram elaboradas e transformadas em oportunidades para aprender, re etir e planejar outras formas de seguir em frente. Assim, a nobreza do seu esforo e a convico de que deixaria alguma marca duradoura nas vidas futuras serviram de estmulo e energia a este poderoso in uenciador de pessoas (Gardner, 1999).

O que tornou Gandhi um grande lder foi

sua capacidade de descobrir e ressaltar o que h de melhor nas pessoas, estimulando-as a atingir aquilo que elas pensavam ser impossvel. neste sentido que Gandhi tambm se enquadra na de nio de liderana criativa que, segundo Sisk (1993), se expressa por quatro aspectos ou atributos: (a) viso, que permite ver as coisas como so e ainda v-las da perspectiva do que podem se tornar. Inclui-se aqui tambm a idia de ajudar os outros a construir e a compartilhar uma viso comum; (b) coragem para correr riscos calculados a m de por em prtica uma idia criativa; (c) absoro ou habilidade de se tornar inteiramente envolvido no ato criativo; e (d) talento e apreciao do prprio talento para se tornar um lder cirativo em algum campo do conhecimento. Estes fatores interagem com o tempo, histria e cultura em que a pessoa vive, dando forma ao tipo de liderana que ela ir desenvolver em seu contexto. Gardner (1999) tambm se refere ao lder como um grande in uenciador, que para ter sucesso necessita ter um grande conhecimento na rea pessoal, tanto no sentido de entender os outros indivduos (o que os motiva, como trabalhar em cooperao com eles e, se preciso for, como manipul-los) quanto entender a si prprio (uma arguta percepo de si mesmo, principalmente seus objetivos instveis, suas fraquezas e necessidades). Desa ar autoridades, no ter medo de se impor quando a situao assim o exige e ser determinado e assertivo (sem necessaria-mente ser agressivo), so fatores que se destacam na paersonalidade de um lder.

de extrema importncia, no contexto atual, que nossas escolas se empenhem em valorizar e desenvolver as habilidades de liderana de seus alunos. Como lderes do futuro, os alunos talentosos

precisam de estmulo para desenvolver os fatores de personalidade favorveis ao sucesso, para que possam ser coroados de xito em suas realizaes e trazer uma efetiva colaborao ao seu ambiente scio-cultural.

HABILIDADES ARTSTICAS (MSICA): HEITOR VILLA-LOBOS

Heitor Villa-Lobos (1887- 1959) recebeu sua primeira instruo musical aos seis anos, vinda do pai, que adaptou uma viola para que o lho pudesse estudar violoncelo. Sua formao musical foi muito in uenciada pela convivncia, em sua casa, de grandes nomes da poca que apareciam para cantar e tocar at de madrugada.

Alm da cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu, Villa-Lobos residiu com a famlia em cidades do interior do Estado e tambm de Minas Gerais. Nessas viagens, entrou em contato com uma msica diferente da que estava acostumado a ouvir: modas caipiras, tocadores de viola, en m, uma parte

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do folclore musical brasileiro que, mais tarde, viria a universalizar-se atravs de suas obras. As Bachianas Brasileiras surgiram quando constatou a semelhana de modulaes e contracantos do nosso folclore com a msica de Bach. Tambm seu ciclo inovador de quatorze obras, intitulado Choros, para as mais diversas formaes, nasceu de uma mescla da msica urbana, aprendida em rodas de choro cariocas, com modernas tcnicas de composio.

Aps viagens pelo Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, no nal da dcada de 1910, ingressou no Instituto Nacional de Msica, no Rio, mas no chegou a concluir o curso, devido sua desadaptao - e descontentamento - com o ensino acadmico.

Suas primeiras peas tiveram a in uncia decisiva de Stravinsky. Apesar de suas obras terem aspectos da escrita europia, Villa-Lobos sempre fundia suas obras com aspectos da msica realizada no Brasil, utilizando sons da mata, de eventos indgenas, africanos, cantigas, choros, sambas e outros gneros muito utilizados no pas. Embora no tivesse um estilo de nido, demonstrava prefe-rncias por alguns recursos estilsticos, como combinaes inusitadas de instrumentos, arcadas bem puxadas nas cordas, uso de percusso popular e imitao de cantos de pssaros10.

Entre os ttulos mais importantes que recebeu, est o de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Iorque. Foi o primeiro presi-dente da Academia Brasileira de Msica e regeu onze orquestras brasileiras e quase 70 em diversos pases. Villa-Lobos caracterizou-se como um dos maiores msicos do nosso tempo e sua genialidade hoje se incorpora ao patrimnio artstico-cultural do Brasil.

O talento artstico especial aqui exempli- cado em Villa-Lobos, na rea de msica aparece frequentemente como um mpeto criativo que impele o indivduo na direo da sua rea de interesse, seja compondo, pintando, desenhando, danando, escrevendo ou em outra expresso artstica. Gardner (1999) re ete que, muitas vezes, a veia da composio criativa tem vida prpria, sendo talvez impossvel desalojar esta veia dos prprios ritmos de funcionamento do indivduo. o que tambm Winner (1998) chama de fria por dominar11: uma interesse intenso e obsessivo em

um domnio no qual a pessoa demonstra facilidade de aprender e de se expressar.HABILIDADES PSICOMOTORAS: EDSON ARANTESDO NASCIMENTO PEL

Edson Arantes do Nascimento (1940 atual), mais conhecido como Pel, considerado o maior jogador da histria do futebol e o mais famoso. Recebeu o ttulo de Atleta do Sculo de todos os esportes em 1981, eleito pelo jornal francs LEquipe, superando outras lendas do esporte como Juan Manuel Fangio e Mohammed Ali. No nal de 1999, o Comit Olmpico Internacional COI, por meio de uma votao internacional entre todos os Comits Olmpicos Nacionais associados, tambm elegeu Pel o Atleta do Sculo.

Ainda criana, Edson manifestou a vontade de ser jogador de futebol. A alcunha Pel, que o identi cava como o maior goleador de todos os tempos, teve origem num goleiro de nome Bil, a quem o menino admirava. As pessoas prximas comearam a cham-lo de Bil. Muitas crianas, colegas do garoto Edson, tinham di culdade em pronunciar Bil e com o tempo o apelido virou Pel. Com dez anos ingressou no time infanto-juvenil, o Canto do Rio, cuja idade mnima para parti-cipar era de 13 anos elogo depois, estimulado pelo pai, montou o seu prprio time: Sete de Setembro.

Sua percepo total do jogo sempre o carac-terizou e permitiu saber o que fazer com a bola em qualquer instante. Pel apresentava fora, resistncia, exibilidade corporal, coragem e o controle total do toque na bola. Pensa, decide e executa foi o lema que aprendeu com seu pai, Dondinho.

Em qualquer parte do planeta suas qualidades como esportista e ser humano so reconhecidas por 10 http://pt.wikipedia.org/wiki/Heitor_Villa-Lobos 11 (em ingls, rage to master)

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33a cionados do futebol, entre eles reis, prncipes, chefes de estado e at o Papa. Em 1994 36 anos depois de conquistar pelo Brasil a primeira de suas trs Copas do Mundo, na Sucia em 1958 , o Rei foi rati cado por todo o continente europeu como o melhor jogador da histria do futebol. Dele, disse o escritor Nelson Rodrigues: Dir-se-ia um rei (...) sua majestade dinstica h de ofuscar toda a corte em derredor, numa crnica proftica publicada na revista Manchete Esportiva, em 8 de maro de 1958. Na Copa da Sucia, Pel deslumbrou o mundo com apenas 17 anos e passou a ser chamado de o Rei do Futebol. Pel levou o Brasil a ser conhecido e respeitado pelo menos no futebol. A Era Pel se traduziu em um tricampeonato mundial de futebol e na posse de nitiva da Taa Jules Rimet. O Rei jogou 114 partidas e marcou 95 gols com a camisa amarela. Nas quatro Copas do Mundo que disputou, nas inmeras excurses do Santos e na sua temporada pelo Cosmos, de Nova York, Pel granjeou um nmero incontvel de admiradores. De gente simples e annima a artistas como Robert Redford e William Hurt, chefes-de-estado como Mikhail Gorbatchv e Bill Clinton, papas, reis e rainhas. Todos eles prestaram suas homenagens ao Rei Pel.12

So muitas as qualidades de Pel que o elevam categoria de superdotado por suas habili-dades psicomotoras especiais. Ressaltamos aqui sua habilidade de perceber o campo em sua totalidade, assim como de perceber a exata colocao de cada jogador em um determinado momento da partida, o que lhe possibilitava estar freqentemente no lugar certo no momento certo. Sua rapidez de raciocnio

em campo, a inveno de dribles que at ento no eram comuns, jogadas inesperadas e espetaculares que surpreendiam o adversrio e passes corretos e calculados para seus colegas em campo o permitiram marcar mais de 1200 gols em 50 anos de carreira. Alm disso, em uma poca em que a tcnica estava ainda em seus primrdios, Pel j se destacava pela sua disciplina, preparao fsica e tica em campo, direcionando seu comportamento para os objetivos que estipulou para si enquanto jogador.

Neste sentido, tanto na rea dos esportes, quanto na acadmica, na artstica ou em qualquer rea da expresso do saber humano, somam-se qualidades importantssimas para que o indivduo atinja a excelncia. Destacamos aqui alguns destes traos, como a persistncia, a dedicao, a motivao intrnseca, a busca disciplinada para atingir os objetivos propostos, a obsesso em dominar perfei-tamente uma determinada rea e contribuir para ela, a criatividade na busca de soluo de problemas e a paixo pelo que se faz. Mesmo no esperando irrea-listicamente que seu lho ou aluno seja um gnio ou prodgio em determinada esfera do conhecimento, nosso papel enquanto educadores fornecer experi-ncias variadas e oportunidades para que a expresso peculiar do talento de cada um encontre um campo frtil e possa germinar. Este aspecto ser lembrado na prxima sesso. ELEMENTOS IMPORTANTES NA SUPERDO-TAO`Heterogeneidade, multipotencialidades e

nveis de habilidadesEm geral, as pessoas superdotadas no

apresentam, de forma simultnea ou mesmo em graus semelhantes, as habilidades descritas neste

captulo, conforme citadas na de nio brasileira de 1994. Um dos aspectos mais marcantes da superdo-tao relaciona-se ao seu trao de heterogeneidade.

Assim, algumas pessoas podem se destacar em uma rea, ou podem combinar vrias, como no caso j citado de Leonardo da Vinci. Podemos tambm tomar como exemplo o humorista brasileiro J Soares que, alm de exibir um pensamento criador e original, bem como um per l bem-humorado, tambm se revela na rea musical, tocando mltiplos instrumentos; no campo da linguagem, falando vrios idiomas, escrevendo livros e crnicas e se revelando um perspicaz entrevistador; no desem-penho artstico, interpretando e incorporando personagens; e ainda no setor da liderana, por seu carisma e capacidade de coordenar grupos. A essa con uncia de habilidades chamamos de multipo-tencialidades, que representa mais uma exceo do que uma regra entre os indivduos superdotados.

No entanto, o que se observa com maior freqncia so pessoas que se desenvolvem mais em 12 http://www.geocities.com/augusta/2076/pele.html

34apenas uma rea especca como poesia, cincias, artes, msica, dana, xadrez, ou mesmo nos esportes do que em vrias reas de uma s vez.

Desta forma, Pel e Ronaldinho, no futebol, Gustavo Kuerten, no tnis, Carlos Drummond de Andrade e Olavo Bilac, na poesia, Ana Botafogo, na dana, Chiquinha Gonzaga e Tom Jobim, na msica, Portinari e Tarsila do Amaral, nas artes plsticas, ou Padre Marcelo Rossi e Silvio Santos na capacidade de liderana, so exemplos de brasileiros que se destacaram em seus campos por demons-trarem habilidades especcas a um nvel superior aos seus pares, em um dado momento cultural.

Alunos superdotados diferem uns dos outros tambm por seus interesses, estilos de aprendizagem, nveis de motivao e de autoconceito, caractersticas de personalidade, e principalmente por suas neces-sidades educacionais. De acordo com pesquisadores (Davis & Rimm, 1994; Gallagher & Gallagher, 1994), sejam quais forem as armaes que se possam fazer a respeito das pessoas com altas habilidades, sempre haver alguma exceo, impedindo que generalizaes sejam feitas. Alm disso, as caractersticas apresen-tadas por esta populao no envolvem causa-e-efeito. Neste sentido, quando se fala que alunos superdotados so mais sociveis, no se pode concluir que um alto QI leva necessariamente a uma maior popularidade social. Outros fatores devem ser levados em conta nesta equao. Por exemplo, pesquisas revelam que no devemos esperar que duas caractersticas como desajuste emocional e superdotao apaream juntos; e se isso acontece, um sinal de que algo est errado. Torna-se necessria uma cuidadosa avaliao para se observar o que pode causar o desajuste emocional da criana, ao invs de se assumir que a superdotao

fatalmente leva ao desajustamento e que nada pode ser feito quanto a isso.` Inuncias da gentica e do ambiente

Falamos anteriormente que o superdotado aquele indivduo que, quando comparado populao geral, apresenta uma habilidade signicativamente superior em alguma rea da atividade e do conheci-mento humanos (Alencar, 2001). Veremos agora como outros tericos da rea percebem a superdotao.

Um dos grandes pesquisadores da rea de superdotao no cenrio mundial Jonh Feldhusen, professor emrito e diretor do Gifted Education Resource Institute da Universidade de Purdue em Indiana, Estados Unidos. Este autor tem uma viso interacionista da superdotao, percebida como uma interao entre a gentica e o ambiente. Para ele, os talentos de uma pessoa surgem, por um lado, de uma habilidade geral que nos dada por nossa disposio gentica. Assim, uma pessoa com alta capacidade em uma rea provavelmente herdou uma dispo-sio gentica dos pais ou parentes prximos. Por outro lado, a superdotao tambm dependeria das experincias no lar e na escola, dos estilos de apren-dizagem e dos interesses e motivaes nicas de cada aluno. Pensando nesta perspectiva, a predisposio gentica nos d a extenso em que uma determinada habilidade poderia se desenvolver. Exatamente por ser uma predisposio, isto no signica que seja um fator determinante; signica apenas que, dadas as condies propcias do ambiente, aquela disposio pode se concretizar (Feldhusen, 1992).

Plomin (1997), um dos maiores estudiosos deste campo na atualidade, considera que tanto a gentica quanto o ambiente seriam igualmente responsveis pelas variaes na inteligncia da

criana; no entanto, ambos devem ser vistos como propenses genticas, e no como fatores pr-deter-minados e imutveis. Isto signica que, em termos prticos, no temos como prever toda a extenso em que as potencialidades de uma criana podero ser desenvolvidas. No termos ainda, no atual estgio das pesquisas sobre o genoma humano, conheci-mento dos genes responsveis pela inteligncia. O que sabemos que, se fornecermos oportunidades adequadas para uma criana satisfazer sua curio-sidade sobre o ambiente que a cerca, seu potencial gentico poder lev-la a se desenvolver de acordo com suas capacidades. Portanto, o que est em nossas mos o fornecimento de um ambiente enriquecido e estimulador.

O que um ambiente enriquecido? Segundo a pesquisadora da Universidade da Califrnia, Marian Diamond, aquele que:

(...) inclui uma fonte constante de apoio emocional positivo; fornece uma dieta nutritiva com protenas, vitaminas, minerais e calorias su-cientes; estimula todos os sentidos (mas no ne-cessariamente todos ao mesmo tempo); tem uma atmosfera sem estresse exagerado e repleta de pra-zer intenso; apresenta uma srie