Introdução à Filosofia - Do Mito à Razão

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23/08/22 Prof. Jorge Freire Póvoas 1 Do Mito à Razão: O Nascimento da Filosofia na Grécia Antiga

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Professor: Jorge Freire Póvoas - Introdução à Filosofia 3

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Do Mito à Razão:

O Nascimento da Filosofiana Grécia Antiga

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Há controvérsia a respeito da época em que teria vivido o poeta Homero e até se ele realmente teria existido (séc. IX a.C).

É costume atribuir-lhe a autoria de dois poemas épicos (epopéias): a Ilíada, que trata da guerra de Tróia e Odisséia que relata o retorno de Ulisses a Ítaca, após a guerra de Tróia.

As epopéias tiveram função didática importante na vida dos gregos porque transmitiam os valores da cultura por meio das histórias dos deuses e ante-passados, expressando uma determinada concepção de vida. Por isso, desde cedo as crianças decoravam passagens dos poemas de Homero.

As ações heróicas relatadas nas epopéias mostram a constante intervenção dos deuses, ora para auxiliar um protegido seu, ora para perseguir um inimigo. O homem homérico é presa do Destino (Moira), que é fixo, imutável e não pode ser alterado.

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O homem vive, portanto, na dependência dos deuses e do destino, faltando a ele a nossa noção de vontade pessoal, de livre-arbítrio. Mas isto não o diminui diante dos outros. Ao contrário, ter sido escolhido pelos deuses é sinal de valor e em nada tal ajuda desmerece a sua virtude.

A virtude do homem se manifesta pela coragem e pela força, sobretudo no campo de batalha, mas também na assembléia como no discurso, pelo poder de persuasão.

Hesíodo é outro poeta que teria vivido por volta do final do século VIII e princípios do VII a.C., que produz uma obra chamada Teogonia de (teo: deus; gonia: origem) que reflete ainda a preocupação com a crença nos mitos e relata as origens do mundo, dos deuses, e as forças que surgem como: Gaia (Terra), Urano (Céu), Cronos (Tempo).

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Mas, é no período arcaico que surgem os primeiros filósofos gregos, por

volta de fins do século VII a.C. e durante o século VI a.C.

Alguns autores costumam chamar de “milagre grego" a passagem do pensamento mítico para o pensamento crítico racional e filosófico.

Algumas novidades surgidas no período arcaico ajudaram a transformar a visão que o homem mítico tinha do mundo e de si mesmo.

São elas: a invenção da escrita, o surgimento da moeda, a lei escrita, o nascimento da pólis (cidade-estado), todas elas tornando-se condição para o surgimento do filósofo.

Os primeiros filósofos viveram por volta do século VI a.C. e, mais tarde, foram classificados como pré-socráticos (a divisão da filosofia grega se centraliza na figura de Sócrates).

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É interessante notar que Hesíodo, ao relatar o princípio do mundo e dos deuses, refere-se a sua gênese e de como as preocupações dos primeiros pensadores levam à elaboração de uma cosmologia, já que eles procuram a racionalidade do universo.

Mas, como seria possível emergir do Caos um "cosmos" ou seja, como da confusão inicial surgiu o mundo ordenado? Os pré-socráticos procuram o princípio (a arché) de todas as coisas. Buscar a arché é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas.

Já podemos observar a diferença entre o pensamento mítico e a filosofia nascente: os filósofos divergem entre si e a Filosofia se distingue da tradição dogmática dos mitos oferecendo uma pluralidade de explicações possíveis. Assim justificamos a perspectiva comumente

aceita da ruptura entre mythos e logos (razão).

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Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a Filosofia problematiza e, portanto, convida à discussão. Enquanto no mito a inteligibilidade é dada, na Filosofia ela é procurada.

A Filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos. Ainda mais: a Filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos, o debate e a discussão, racional.

Na nova abordagem do real caracterizada pelo pensamento filosófico, podemos ainda notar a vinculação entre Filosofia e Ciência. O próprio teor das preocupações dos primeiros filósofos é de natureza racional, de maneira que, na Grécia Antiga, o filósofo é também o homem do saber científico. Só no século XVII as Ciências encontram seu próprio método e separam-se da Filosofia, formando as chamadas Ciências Particulares.

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Quando se dá a passagem da consciência mítica para a racional, aparecem os primeiros sábios, sophos. Um deles, chamado Pitágoras (séc. VI a.C.), que também era matemático, usou pela primeira vez a

palavra filosofia (philos-sophia), que significa "amor à sabedoria".

É bom observar que a própria etimologia mostra que a Filosofia não é puro logos, pura razão: ela é a procura amorosa da verdade..

Para Platão, a primeira virtude do filósofo é admirar-se. A admiração é a condição de onde deriva a capacidade de problematizar, o que marca a Filosofia não como posse da verdade, mas como sua busca.

Para Kant, filósofo alemão do século XVIII, "não há Filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar". Isto significa que a Filosofia é sobretudo uma atitude, um pensar permanente. É um

conhecimento instituinte, no sentido de que questiona o saber instituído..

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A teoria do filósofo não constitui um saber abstrato. O próprio tecido do seu pensar é a existência e seus acontecimentos. Por isso a Filosofia se encontra no seio mesmo da história. No entanto, está mergulhada no mundo e fora dele: eis o paradoxo enfrentado pelo filósofo. Isso significa que o filósofo inicia a caminhada a partir dos problemas da existência, mas precisa se afastar deles para melhor compreendê-los, retornando depois a fim de dar subsídios para as mudanças.

Na ordem do saber estipulada por Platão, o homem começa a conhecer pela forma imperfeita da opinião (doxa), depois passa ao grau mais avançado da ciência (episteme), para só então ser capaz de atingir o nível mais alto do saber filosófico.

Na medida em que somos seres racionais e sensíveis, estamos sempre dando sentido às coisas. Ao “pensar espontâneo” do homem comum, costumamos chamar de Senso Comum e a compreensão crítica da realidade chamamos de Senso Crítico.

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Enquanto o Senso Comum é fragmentário, incoerente, preso a preconceitos e dogmático, o Senso Crítico ou Reflexão Filosófica é radical, rigorosa e de conjunto.

É radical no sentido de "fundamento, base“ pois busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir.

No Senso Crítico o filósofo deve dispor de um método claramente explicitado a fim de proceder com rigor, garantindo a coerência e o exercício da crítica. Mesmo porque o filósofo não faz afirmações apenas, precisa justificá-las com argumentos, por ter rigor nas suas afirmações.

As Ciências são particulares, porque abordam "recortes" da realidade, mas ainda sim se distinguem de outras formas de conhecimento como a magia, por exemplo. Já a Filosofia é de conjunto, porque examina os problemas sob a perspectiva universal, relacionando os diversos aspectos entre si.

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A Filosofia é portanto, conhecimento crítico da realidade, como da ideologia, enquanto forma ilusória de conhecimento que visa a manutenção de privilégios.

Atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia “desnudar”), vemos que a verdade é pôr a nu aquilo que estava escondido,

Aí reside a vocação do filósofo: o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.

Finalmente, a Filosofia exige coragem. Filosofar não é um exercício puramente intelectual. Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as formas estagnadas do poder que tentam manter o status.

É aceitar o desafio da mudança ou seja, saber para transformar.

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Na tragédia Édipo-Rei de Sófocles (496 c. 406 a.C. Grécia) Laio, senhor de Tebas, soube pelo oráculo que seu filho recém-nascido haveria um dia de assassiná-lo, casando-se em seguida com a própria mãe.

Por isso, Laio antecipa-se ao destino e manda matá-lo, mas suas ordens não são cumpridas, e a criança cresce em lugar distante.

Quando adulto, Édipo consulta o oráculo e ao tomar conhecimento do destino que lhe fora reservado, foge da casa dos supostos pais para evitar o cumprimento daquela sina.

No caminho desentende-se com um desconhecido e o mata. Esse desconhecido era, sem que Édipo soubesse, seu verdadeiro pai.

Entrando em Tebas, casa com Jocasta, viúva de Laio, ignorando ser sua mãe.

E assim se cumpre o destino...

A Visão Mitológica da Tragédia