Livro Brasil Haiti Olhares Cruzados

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  • 1. BRASIL-HAITI OLHARES CRUZADOS FRECHALPORT AU PRINCE Crditos / Credits COORDENAO EDITORIAL / EDITORIAL CO-ORDINATION Dirce Carrion FOTOGRAFIAS / PHOTOS Ricardo Teles, Cabinda e Rio de Janeiro Mauro Pinto, Porto Alegre e Maputo Crianas da Escola D. Paulino F. Madeca, Cabinda Crianas do morro da Chacrinha, Rio de Janeiro Crianas da Vila dos Papeleiros - AREVIPA, Porto Alegre e do Galpo de Reciclagem Passo Dorneles, Viamo no Rio Grande do Sul Crianas do bairro de Hulene, Maputo APOIO / SUPPORT Secretaria Especial de Polticas de Promoo da Igualdade Racial PRODUO / PRODUCTION Imagem da Vida Editora Reflexo Frum Social Mundial - Porto Alegre 2005 EDIO DE FOTOGRAFIAS / PHOTOGRAPHIC EDITING Dirce Carrion DESIGN E DIREO DE ARTE / GRAPHICS AND DIAGRAMS Shadow Design Mauricio Nisi Gonalves TRADUO / TRANSLATION Graham Howells REVISO DO PORTUGUS / PORTUGUESE REVISION Gisele Gama PRODUO GRFICA / GRAPHIC PRODUCTION Shadow Design IMPRESSO E ACABAMENTO / PRINTING AND BINDING Pancrom Indstria Grfica TTULO DO LIVRO / TITLE OF THE BOOK Brasil-Haiti - Olhares Cruzados Brasil-Haiti - A Meeting of Eyes

2. 4 5 O Haiti logo al do outro lado da estrada. Crianas do Quilombo do Frechal 3. 6 7 Brasil-Haiti: Olhares Cruzados O projeto Brasil-Haiti, Olhares Cruzados vem promover o conhecimento recproco e a solidariedade entre bra- sileiros e haitianos por meio do intercmbio de ima- gens produzidas por crianas brasileiras e haitianas. Com base em experincias similares em Angola e Moambique, este trabalho apresenta de maneira ori- ginal a realidade social de crianas haitianas e brasi- leiras residentes em comunidades carentes. Alm de trabalhar o lado ldico da ao de fotografar e pintar, o projeto evidencia como a cultura, as brin- cadeiras e a maneira de interagir com a famlia e a sociedade so parecidas no Brasil e no Haiti. Mais do que um projeto, Brasil-Haiti: Olhares Cruzados uma ponte entre universos ao mesmo tempo to distantes e to prximos. Desde 2004, quando o Brasil passou a integrar com expressivo efetivo a Misso das Naes Unidas para a Estabilizao no Haiti (MINUSTAH), criou-se um forte movimento de aproximao entre os dois pases. O 18 de agosto, data do amistoso entre as selees do Bra- sil e do Haiti, passou a ser celebrado como o Dia da Paz. Para comemorar a data, em 2005, foi inaugurado um mural na Praa Saint Pierre, produzido no prprio local por pintores haitianos e brasileiros. Enquanto o mural era pintado pelos artistas, centenas de crianas de escolas pblicas e orfanatos de Porto Prncipe par- ticiparam do projeto produzindo seus prprios desenhos. Religio e cultura dos dois pases, com suas razes comuns no continente africano, tambm irmanam Haiti e Brasil. A participao brasileira na reestruturao da democracia no Haiti deixa claro nosso compromis- so com a recuperao do pas. Mais do que trazer segurana e ordem, o Brasil quer contribuir para a revitalizao das instituies e para a promoo do desenvolvimento econmico, social e cultural do Haiti. A MINUSTAH parte do princpio de que a paz no um bem gratuito. Deve-se trabalhar pela paz com afin- co. E o preo da paz a participao. O trabalho da brasileira Dirce Carrion e sua equipe visa dar a conhecer aos haitianos algo mais sobre um pas que eles tanto admiram, mas com o qual no tm tido, ainda, a oportunidade de estabelecer contatos estreitos. A iniciativa se insere na dimenso humanista que a poltica do Governo do Presidente Lula vem im- primindo diplomacia brasileira. Embaixador Celso Amorim, Ministro de Estado das Relaes Exteriores Brsil-Hati: Regardes Croiss Le projet Brsil-Hati, Regards Croiss a lintention de promouvoir la connaissance rciproque et la solida- rit entre brsiliens et hatiens au moyen de lchange dimages ralises par des enfants brsiliens et ha- tiens. Bas sur des expriences semblables en Angola et au Mozambique, ce travail prsente de manire ori- ginale la ralit sociale denfants hatiens et brsiliens habitants des communauts dfavorises. Tout en travaillant le cot ludique de laction de pho- tographier et de peindre, le projet met en vidence le fait que la culture, les jeux et la faon dinteragir avec la famille et la socit se ressemblent au Brsil et en Hati. Plus quun projet, Brsil-Hati: Regards Croi- ss sagit un pont entre des univers la fois si dis- tants et si proches. Depuis 2004, quand le Brsil sest mis intgrer avec un effectif considrable la Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Hati (MINUSTAH), un puissant mouvement dapproximation entre les deux pays sest cr. Le 18 Aot, date du match amical entre les quipes du Brsil et dHati, est maintenant clbr comme le Jour de la Paix. Pour fter la date, en 2005, une murale a t inaugure sur la place Saint Pierre, ralise sur place par des peintres hatiens et brsiliens. Pendant que luvre tait excute par les artistes, des centaines denfants dcoles publiques et orphelinats de Port-au-Prince ont particip au projet faisant leurs propres dessins. La religion et la culture des deux pays, ayant leurs raci- nes communes dans le continent africain, aussi, lient Hati et Brsil. La participation brsilienne dans la res- tructuration de la dmocratie en Hati tmoigne de no- tre engagement avec la rcupration du pays. Plus que dapporter scurit et ordre, Le Brsil entend contri- buer la revitalisation des institutions et la promotion du dveloppement conomique, social et culturel dHati. La MINUSTAH part du principe que la paix nest pas un bien gratuit. Il faut travailler pour la paix avec tnacit. Et le prix de la paix est la participation. Le travail de la brsilienne Dirce Carrion et de son quipe vise faire les hatiens dcouvrir un peu plus sur un pays quils admirent tant, mais avec lequel ils nont pas, encore, eu loccasion dtablir des liens troits. Linitia- tive sinscrit dans la dimension humaniste que la politi- que du gouvernement du Prsident Luis Incio Lula da Silva confre dernirement la diplomatie brsilienne. Ambassadeur Celso Amorim, Ministre dtat des Relations Extrieures 4. 8 9 O olhar sensvel sobre a identidade haitiana Nas ltimas dcadas tm-se ampliado os olhos e senti- dos voltados para as condies de vida que os povos de diversas localidades do mundo desfrutam. Esses olha- res, provocados por movimentos sociais, debatidos nas conferncias mundiais e por governos locais compro- metidos com a mudana, apreendem, principalmente, o exerccio da democracia como fonte de justia, cida- dania e igualdade, para alm de fronteiras polticas, econmicas, sociais e culturais. Os mesmos olhares globais que aproximam idias e formas de vida tambm esto atentos s desumanida- des histricas que separaram etnias, destronaram reis e rainhas e massacraram comunidades, transforman- do-os em mercadorias e trabalhadores escravizados. A frica me, origem e escola para estes povos es- palhados pelo mundo sob sua ascendncia e descen- dncia hoje reconstri sua histria, por meio de seus filhos: pases compostos, em sua grande maioria, por pessoas descendentes de africanos trazidos na escra- vido, que lutam pela liberdade de expressar sua iden- tidade e pelo seu desenvolvimento poltico, econmico e comercial. Brasil e frica uniram-se de maneira trgica pela es- cravido e por todo o aparato comercial instalado na costa do Atlntico, tanto l como c, para o trfico de escravos. A abolio tardou a acontecer, mas com ela nossos antepassados conquistaram a liberdade. Iniciou- se a outro ciclo que no correspondeu exatamente conquista da cidadania plena, a qual ainda continua sendo nosso intuito. Hoje, nos reaproximamos da frica por meio de con- vnios, acordos bilaterais e multilaterais, partilhando as possibilidades de crescimento econmico, poltico e social. Da mesma forma, hora de demonstrar soli- dariedade ao povo haitiano. H muito somos convida- dos para refletir sobre nossa irmandade com este povo que conquistou a liberdade poltica, quando muitos brasileiros e afro-descendentes de outras partes do mundo nem sequer acreditavam que seriam um dia tratados da mesma maneira que os outros cidados e cidads. No Haiti, a independncia chegou 118 anos antes de sua conquista no Brasil, fazendo daquele pas a primeira repblica negra do mundo, em 1804, e tor- nando-o um farol para todas as naes e culturas libertrias. Por esse motivo, o pas encontrou dificuldades para se estruturar, permanecendo isolado e sem efetivo respal- do externo. Hoje, a comunidade internacional preocu- pa-se de maneira mais enftica por que as condies de vida so inadmissveis, com profundas desigualda- des econmicas e sociais e toda a sorte de mazelas. Urge contribuir para o resgate da ousadia ancestral desse povo, que iluminou durante sculos a resis- tncia similar que ocorreu no Brasil e em outros can- tos do mundo. O governo brasileiro tem tratado a agenda da Promo- o da Igualdade Racial de maneira continuada, o que fica explcito na incorporao do Brasil ao projeto Olha- res Cruzados, que traz incontveis possibilidades. En- tre elas esse livro, que busca similaridades de nossos olhares sobre o mundo e explora a proximidade da iden- tidade haitiana com a nossa. O Brasil e o Haiti, embora naes diferentes, sofrem das mesmas seqelas deixadas pela escravido: a ri- queza concentrada, a violncia racial, a resistncia, as favelas. Infelizmente, a escravido e o colonialismo fo- ram marcas comuns na nossa histria. A verdade que ns, brasileiros, africanos e haitianos sabemos pouco ou quase nada uns dos outros, mas mantemos forte identidade. Pouco nos conhece- mos no que diz respeito s nossas produes, nossas organizaes polticas, nossas linguagens. Temos, sim, um lao ancestral e cultural que une o Brasil a pases que possuem grande contingente populacional negro, pois muito de suas identidades se assemelham. Ministra Matilde Ribeiro, Secretria Especial de Polticas de Promoo da Igualdade Racial Regard sensible sur lidentit haitienne Pendant les dernires dcennies les yeux et les sens dirigs vers les conditions dans lesquelles vivent les peuples de diverses parties du monde se sont intensi- fis. Ces regards, provoqus par des mouvements so- ciaux, dbattus dans les confrences mondiales et par des gouvernements locaux engags avec la transfor- mation, peroivent, principalement, lexercice de la d- mocratie comme source de justice, de citoyennet et dgalit, au-del de frontires politiques, conomiques, sociales et culturelles. Les mmes regards globaux qui rapprochent ides et formes de vie sont aussi attentifs aux inhumanits his- toriques qui sparent les ethnies, dtrnent rois et rei- nes, massacrent les communauts, les transformant en marchandises et travailleurs esclaves. LAfrique mre, origine et cole pour ces peuples dis- perss dans le monde sous son ascendance et des- cendance reconstruit aujourdhui son histoire par le biais de ses fils: pays composs dans leur majorit de descendants dafricains amens en esclavage qui lut- tent pour la libert dexprimer leur identit et pour leur dveloppement politique, conomique et commercial. Brsil et Afrique se sont unis de faon tragique du fait de lesclavage et tout lapparat commercial install sur la cte Atlantique, l-bas comme ici, pour la traite des esclaves. Labolition a tard, mais avec elle, nos anctres ont con- quis leur libert. Ensuite sest amorc un autre cycle qui na pas correspondu exactement la conqute de la pleine citoyennet, qui est toujours notre propos. Aujourdhui nous nous rapprochons de lAfrique au tra- vers de pactes, daccord bilatraux et multilatraux, partageant les possibilits de croissance conomique, politique et sociale. Ainsi, cest le moment de dmon- trer notre solidarit au peuple hatien. Depuis longtemps nous sommes invits rflchir sur notre fraternit avec ce peuple qui a conquis la libert politique, alors que beaucoup de brsiliens et afro-descendants dautres parts du monde ne croyaient jamais pouvoir tre trai- ts de la mme manire que les autres citoyens et ci- toyennes. Au Hati, lindpendance est arrive 118 ans avant celle du Brsil ne soit conquise, faisant de ce pays la premire rpublique noire du monde, en 1804, et le transformant en un phare pour toutes les cultures libratoires. Pour cette raison, le pays rencontra des difficults pour se structurer, restant isol et sans appui effectif externe. Aujourdhui, la communaut internationale se proccupe de faon plus emphatique car les conditions de vie sont inadmissibles, avec de profondes ingalits conomiques et sociales ainsi que toutes sortes de misres. Il est urgent de contribuer a la rcupration de la har- diesse ancestrale de ce peuple, qui pendant des si- cles a illumin la rsistance similaire au Brsil et en dautres coins du monde. Le gouvernement brsilien soccupe de lagenda de la Promotion de lgalit Raciale dune manire conti- nue, ce qui est explicite par la participation du Brsil au projet Regards Croiss, qui apporte dinnombra- bles possibilits. Entre autres, ce livre, qui recherche une similitude de nos regards sur le monde et explore la proximit entre lidentit hatienne et la notre. Le Brsil et le Hati, nations pourtant diffrentes, souf- frent des mmes squelles de lesclavage: richesse concentre, violence raciale, rsistance, favelas. Mal- heureusement lesclavage et le colonialisme ont t des marques communes de notre histoire. En vrit, nous, brsiliens, africains et hatiens, ne sa- vons que peu ou presque rien les uns des autres, mais nous maintenons une forte identit. Nous nous connaissons peine en ce qui concerne nos produc- tions, nos organisations politiques, nos langages. Nous avons, il est vrai, un lien ancestral et culturel qui uni le Brsil aux pays possdant un grand contingent de po- pulation noire, car grande partie de leurs identits se ressemblent. Matilde Ribeiro, Secrtaire Spciale de Politiques de Promotion de lgalit Raciale 5. 10 11 6. 12 13 A gua da chuva que empoa sobre a pedra Evapora ao sol A fonte que nasce dentro da terra e aflora da rocha Jamais se esgota Delege Yakpecu Abomey, 11 de fevereiro de 2006 Caminhos Cruzados Benin, Brasil, Haiti so vrtices de um mesmo tringulo que talvez apenas o olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger conseguiu registrar. Verger foi um estudioso das religies de matrizes africanas, tendo tambm viajado para o Haiti onde registrou o universo do vodu. Vem pela primeira vez ao Brasil em 1946 motivado pela curiosida- de despertada pelo livro Jubiab, de Jorge Amado. No Benim, bero do vodou, confirma a estreita relao com o candomb e, como um dos pais da antropologia visu- al, v despertado seu interesse pela saga dos aguds, descendentes de escravos brasileiros que retornaram frica aps a abolio da escravatura. Em sua perma- nncia no Brasil, durante uma visita Casa das Minas do Maranho, Verger identifica o uso da linguagem se- creta do vodou da famlia real de Abomey, o que o levou a crer que o culto l praticado tenha sido introduzido pela me de Ghezo, Rei de Ouid, que foi vendida como escrava no incio do sculo XIX. Talvez este seja um dos muitos elos da corrente intencionalmente rompida pelos mercadores de escravos que exploravam o trfico entre a frica e as colnias na Amrica na inteno de apagar ou erradicar a cultura africana. Revisitando as fotos de Verger, muitas vezes refiz a tra- vessia entre o Brasil e a frica e cada vez mais se evidenciavam suas semelhanas, impondo-se a neces- sidade de contribuir para o fortalecimento da nossa identidade africana. Mas o que era primeiramente uma meta profissional resultou num projeto de vida: os Olha- res Cruzados, desenvolvido inicialmente com crianas brasileiras e africanas em 2004, estendeu-se ao Haiti, pas onde tive a certeza de que somos todos galhos de uma mesma rvore. Cruzamos os olhares das crianas haitianas com as do quilombo do Frechal no Maranho, e mais uma vez as razes comuns foram evidenciadas quando formulei uma pergunta para as crianas: Quem sabe onde o Haiti? Ao que elas responderam: logo ali do outro lado da estrada. De fato, na poca em que a liberdade era apenas um sonho, existiu nas terras do quilombo do Frechal um lugar denominado Haiti, que tinha o signifi- cado de Terra Livre, local que foi refgio para os ne- gros que conseguiam escapar do pesadelo da escravido. Caetano Veloso e as crianas maranhenses tinham razo: O Haiti aqui. Esta no foi a ltima coincidncia, pois algum tempo depois, em Braslia, durante um encontro para acertar os detalhes do projeto Brasil-Haiti Olhares Cruza- dos, a reunio foi interrompida por um telefonema com a noticia da viagem do Presidente Lula ao Benin e a necessidade de realizar um evento cultural para a visi- ta presidencial em um espao de tempo praticamente invivel. Intervi e disse que seria possvel faz-lo, pois j havia participado de um trabalho sobre os escravos retornados ao Benin. Sugeri, ento, a realizao da ex- posio Aguds Os brasileiros do Benin, de autoria do antroplogo brasileiro Milton Guran, com quem via- jei pela primeira vez ao antigo reino de Abomey. Ao chegarmos ao Benin, novamente os caminhos se cruzam e temos um encontro com um outro antroplo- go que est pesquisando as matrizes africanas das re- ligies afro-brasileiras, que levou recentemente ao Benin um apelo da Casa das Minas do Maranho aos mes- tres do vodou de Abomey: precisavam do apoio destes para resgatar uma parte do ritual de iniciao que havi- am perdido. Por conta do cruzamento de todas estas iniciativas, a carta confirmando a vinda ao Brasil de uma delegao dos mestres do vodou, que poder evi- tar o desaparecimento de parte importante das tradi- es da Casa das Minas do Maranho, volta ao Brasil pelas mos da Ministra Matilde Ribeiro que acompa- nhou o Presidente Lula ao Benin. O jogo do If mais uma vez refaz a travessia. Dirce Carrion, Presidente da OSCIP Imagem da Vida e Coordenadora do Projeto Olhares Cruzados 7. 14 15 8. 16 17 Fantasias infantis em tempos difceis Brincadeiras e jogos so no apenas recursos essen- ciais para a construo da passagem da infncia para o mundo adulto, mas consistem nas ferramentas mais eficazes para se cuidar dos desajustes psquicos nas- cidos da instabilidade ou da desagregao dos laos sociais e familiares nos conflitos armados ou nas situ- aes de carncia econmica. Embora muitos no sai- bam, o direito s brincadeiras e aos jogos reconhecido pela Conveno Internacional sobre os Direitos da Criana. Alm das feridas concretas, mensurveis, os ambien- tes opressivos tendem a subverter um alicerce funda- mental da infncia: a crena de que os pais podem proteger os filhos em circunstncias perigosas. A po- breza e a excluso social, embora mais insidiosas que os conflitos, tambm resultam na desmontagem de fa- mlias e na desorientao ante um cotidiano hostil. margem da concepo da guerra como inerente natureza humana, das instncias em que o recurso s armas parece justo segundo o direito internacional, ou da aceitao tcita, por vezes religiosa, de que a mis- ria fruto de diferenas inevitveis entre os homens, os governos e a coletividade no podem fugir do com- promisso de suavizar o sofrimento infantil. As atividades ldicas devem levar em conta as cren- as e os valores do grupo social em que so desen- volvidas. Oficinas de fotografia pelo que da prpria natureza da fotografia tambm propiciam o resgate da fantasia e da imaginao. O equipamento inevit- vel no passa de instrumento para que as crianas e os adolescentes possam se reapropriar dos ambien- tes, costumes e roupagens que constituem os perso- nagens e cenrios de cada lugar. O resgate do imaginrio, com os recursos simblicos do ambiente cultural de cada sujeito, serve como iniciativa de re- tomada da crena no futuro, componente primrio da dignidade humana. Paulo Schiller, Pediatra e psicanalista Les fantaisies des enfants en temps difficiles Le jeu nest pas simplement un moyen essentiel pour la construction du passage de lenfance vers le monde adulte, mais cest loutil le plus efficace pour traiter les troubles psychiques issus de linstabilit ou de la dsa- grgation des liens sociaux et familiaux dans les con- flits arms ou dans les situations de carence conomique. Bien que beaucoup lignorent, le droit au jeu est reconnu par la Convention internationale sur les droits de lenfant. En plus des blessures concrtes, mesurables, les am- biances oppressives tendent bouleverser un fonde- ment essentiel de lenfance: la croyance que les parents peuvent protger leurs enfants dans des circonstances dangereuses. La pauvret et lexclusion sociale, mme si plus insidieuses que les conflits, participent aussi au dmontage de familles et la dsorientation face un quotidien hostile. En dehors de la conception de la guerre comme inh- rente la nature humaine, des instances o le recours aux armes semble juste selon le droit international, ou de lacceptation tacite, parfois religieuse, que la misre est le fruit de diffrences invitables entre les hommes, les gouvernements et la collectivit ne peuvent fuir len- gagement dattnuer la souffrance des enfants. Les activits ludiques doivent prendre en compte les croyances et les principes du groupe social o elles sont employes. Des ateliers de photographie pour ce qui est de la propre nature de la photographie favorisent aussi le retour la fantaisie et limagina- tion. Le matriel invitable nest quun instrument pour quenfants et adolescents puissent se rapproprier des ambiances, des coutumes et faades qui constituent les personnages et les dcors de chaque milieu. La rcupration de limaginaire, laide des recours sym- boliques de lambiance culturelle de chaque sujet, sert dinitiative de reprise de la foi en lavenir, composant primaire de la dignit humaine. Paulo Schiller, Pdiatre et psychanalyste 9. 18 19 HaitiBrasil 10. 20 21 11. 22 23 Ttulo Os primeiros africanos a pisar no continente america- no eram livres. Participavam de um intenso trnsito comercial que havia se estabelecido desde os primrdios da navegao entre a frica, o Brasil, e o Caribe, ento chamado de ndias Ocidentais, to rico e importante como as afamadas ndias Orientais. Se- guindo a tradio que remonta ao antigo Imprio do Mali, Abubakari II teria organizado, em 1311, a primei- ra viagem transatlntica entre a frica e o continente americano, quase dois sculos antes dos europeus. certo que as rotas s duas ndias j estavam bastante estabelecidas bem antes das viagens de Colombo, Vespcio e Da Gama, contando com a experincia de navegadores rabes, berberes, mandinka e outros afri- canos, alguns dos quais guiaram os navios europeus. Foram tambm mercadores africanos, rabes e judeus que fizeram a riqueza da Nova Amsterd dos Holande- ses, a atual Recife brasileira, e ao serem expulsos do Brasil, chegaram livres e prsperos costa norte ame- ricana para onde transplantaram a cidade que se tor- nou depois Nova York. Ao contrrio do que se pensa, a escravido foi uma instituio que cresceu atravs dos sculos XVI e XVII com a consolidao do domnio europeu. O trfico de escravos foi portanto a primeira grande operao co- mercial globalizada que levou ascendncia da hegemonia europia, s custas das vidas e dos corpos de africanos e ndios. A rpida desintegrao da popu- lao amerndia perpetrada pela guerra da conquista e pelas doenas introduzidas pelos europeus agravaram gradativamente a falta de mo-de-obra nas plantaes coloniais e levaram escravido dos povos africanos. ndios e africanos compartilharam assim a primeira ex- perincia comum do terror perpetrado pelas grandes naes europias. A partir de 1530, os Portugueses comearam a importar escravos africanos para o Bra- sil. Qui a maior sombra que pese sobre a sua hist- ria, o Brasil foi o ltimo pas do continente americano a adotar a abolio, mais de 350 anos depois. No h de fato na histria da humanidade algo to cruel e desumano como o recorde da instituio do escravagismo. Mais de 15 milhes de ndios perderiam suas vidas. Mais de 15 milhes de africanos teriam sido erradicados de suas terras e levados acorrentados s Amricas, a grande maioria ao Caribe e ao Brasil, mas tambm Amrica Hispnica, Amrica do Norte e Europa. Um nmero pelo menos duas vezes maior pereceria em alto mar, durante a passagem mdia, viagem transatlntica na qual os escravos eram encer- rados e amontoados nos cascos dos navios, cenrio de um inferno dantesco. Os africanos que conseguiam desembarcar obviamen- te no perdiam a primeira oportunidade para escapar s torturas a que eram submetidos e se juntar aos ndi- os que os haviam precedido nos territrios ainda no conquistados. Formaram-se assim os quilombos e mar- rons, smbolos da resistncia opresso e s atrocida- des do colonizador europeu, e fontes de uma cultura de resistncia. Das narrativas comuns de emancipa- o nasceria uma filosofia e esttica simbitica, resul- tado de uma grande mestiagem entre diferentes povos africanos e indgenas, mas tambm semitica, pois que serviria comunicao de uma cultura incorporada e uma religiosidade proibidas pelos limites impostos pela escravido. O imperialismo europeu s sobreviveu graas ao ra- cismo excludente e tentativa de erradicao siste- mtica da humanidade e racionalidade de uma cultura que o historiador britnico Paul Gilroy batizou como a do Atlntico Negro: uma cultura hbrida, diasprica, e globalizada, no circunscrita s fron- teiras tnicas ou nacionais. Por causa da liberdade que lhe foi negada, esta cultura fez da arte a sua histria, e da msica sua religio. No por acaso, portanto, que as bandeiras do voudou haitiano, atra- vs dos arabescos de seus veveys, ou o conceito de nao nas diversas religies afro-brasileiras, marcam no a identificao com um grupo ou lugar especfi- co, mas so signos da unificao de uma cultura que Ttulo Les premiers Africains arrivs sur le continent amri- cain taient libres. Ils participaient dun intense trafic commercial tabli ds les premiers jours de la naviga- tion entre lAfrique, le Brsil, et les Carabes, alors ap- peles Indes Occidentales, aussi riches et importantes que les clbres Indes Orientales. Suivant la tradition qui remonte lancien Empire du Mali, Abubakari II aurait organis, en 1311, le premier voyage transatlantique entre lAfrique et le continent amricain, presque deux sicles avant les Europens. Il est certain que les itin- raires vers les deux Indes taient dj tablis bien avant les voyages de Colomb, Vespucci et Gamma et que ces itinraires avaient compt avec lexprience de navigateurs arabes, berbres, mandingues, et autres Africains, certains ayant guid les navires europens. Ce sont aussi des ngociants africains, arabes et juifs qui ont fait la richesse de la Nouvelle Amsterdam des Hollandais, lactuelle ville brsilienne de Recife, et qui, aprs tre expulss du Brsil, sont arrivs libres et pros- pres sur la cte nord amricaine o ils ont transplant la ville qui plus tard deviendrait New York. Contrairement nos ides acquises, lesclavage a t une institution qui a grandi travers les XVIme et XVIIme sicles du fait de la consolidation de la suprmatie europenne. La traite des esclaves fut donc la premire grande opration commerciale globalise qui a fait las- cendance de lhgmonie europenne, au prix de vies et de corps dAfricains et dIndiens. La dsintgration rapide de la population amrindienne perptre par la guerre de conqute et par les maladies introduites par les Europens a aggrav graduellement le manque de main-duvre dans les plantations coloniales. Indiens et Africains ont partag ainsi la premire exprience commune de terreur pratique par les grandes na- tions europennes. partir de 1530, les Portugais ont commenc importer des esclaves africains au Brsil. Ceci tant peut-tre la plus grande ombre pesant sur son histoire, le Brsil a t le dernier pays du continent amricain adopter labolition, plus de 350 ans aprs. Il ny a rien, en effet, daussi cruel et inhumain dans lhistoire de lhumanit que les records de linstitution de lesclavage. Plus de 15 millions dIndiens perdraient leur vie. Plus de 15 millions dAfricains auraient t enlevs de leurs terres et emports enchans aux Amriques, la grande majorit aux Carabes et au Br- sil, mais aussi en Amrique Hispanique, en Amrique du Nord et en Europe. Un nombre au moins deux fois plus grand prirait en haute mer, pendant le passage moyen, voyage transatlantique o les esclaves taient enferms et entasss dans les cales des navires, sc- nario dun enfer dantesque. Les Africains qui russissaient dbarquer profitaient, videmment, de la premire occasion pour chapper aux tortures auxquelles ils taient soumis et rejoindre les Indiens qui les avaient prcds dans les territoires non encore conquis. Ainsi se sont forms les quilombos et les communauts marron, symboles de la rsistance loppression et aux atrocits du colonisateur euro- pen, et sources dune culture de rsistance. Les rcits communs dmancipation ont donn naissance une philosophie et une esthtique symbiotique, rsultat dun grand mtissage entre diffrents peuples africains et indignes, mais aussi smiotique, qui servirait com- muniquer une culture incorpore et une religiosit in- terdites par les limites imposes par lesclavage. Limprialisme europen na survcu qu cause du ra- cisme proscripteur et de la tentative dradication sys- tmatique de lhumanit et de la rationalit dune culture baptise lAtlantique Noir par lhistorien britannique Paul Gilroy: une culture hybride, diasporique et globali- se, non circonscrite aux frontires ethniques ou natio- nales. Parce que la libert lui a t nie, cette culture a fait de lart son histoire et de la musique, sa religion. Ce nest pas par hasard, cependant, que les drapeaux1 du vaudou hatien, travers les arabesques de leurs vvs2 , ou que le concept de nation dans les diverses religions afro-brsiliennes ne marquent pas lidentifica- tion avec un groupe ou un lieu spcifique; en effet, ce sont les signes de lunification dune culture qui a fleuri 12. 24 25 floresceu entre a frica e as Amricas, e que o euro- peu tentou fragmentar ou destruir. O que no podia virar palavra, tornou-se gesto, o que no podia criar razes, tornou-se movimento. A cultura tornou-se esprito, uma espcie de transcultura, e a humanidade implcita das divinda- des ancestrais africanas, ou nascidas na resistncia contra os opressores, foi antes expressa atravs de conceitos como o invisvel e os mistrios. Mas a re- sistncia deu lugar rebelio contra a represso e o jugo. Em 1804, o Haiti torna-se a primeira repblica inteiramente livre do continente americano, pois os Estados Unidos haviam se tornado independentes e livres apenas para os filhos e descendentes de euro- peus. Ao reconquistarem o direito palavra, grandes pensadores, artistas e autores afro-descendentes fi- zeram da recuperao da memria execrada e da autobiografia um ato de simultnea auto-criao e auto-emancipao. este processo que o projeto Olhares Cruzados visa continuar: ao dotar crianas na frica, no Brasil e no Caribe, em regies que se encontram at hoje subjugadas pela herana de colonialismos, com os meios para a articulao, a expresso e a comunicao de suas realidades, de suas culturas e de seus novos ima- ginrios, atravs de um oceano que ainda hoje mui- tas vezes silenciado, pretendemos possibilitar a continuidade da evoluo e a transformao das rela- es humanas. Marcelo Fiorini, Antroplogo e cineasta Marcelo Fiorini, Antroplogo, Universit de Paris III, Sorbonne Nouvelle entre lAfrique et les Amriques, et que lEuropen a tent de fragmenter ou dtruire. Ce qui ne pouvait pas tre exprim en mots est devenu geste, ce qui ne pouvait pas crer de racines, est de- venu mouvement. La culture est devenue esprit, une espce de transculture, et lhumanit implicite des divi- nits ancestrales africaines, ou celles issues de la r- sistance contre les oppresseurs, a t exprime travers des concepts comme linvisible et le mystre. Mais la rsistance a cd sa place la rbellion contre la r- pression et le joug. En 1804, lHati devient la premire rpublique entirement libre du continent amricain, car les tats-Unis ntaient devenus indpendants et libres que pour les enfants et les descendants dEuropens. Aprs avoir reconquis le droit la parole, de grands penseurs, artistes, et auteurs afro-descendants ont fait de la rcupration de cette mmoire excre et de lauto- biographie, un acte simultan dautocration et dauto mancipation. Cest ce processus que le projet Regards Croiss a lintention de poursuivre: en dotant les enfants dAfri- que, du Brsil, et des Carabes dans des rgions qui se trouvent jusquaujourdhui submerges par lhritage de colonialismes de moyens darticulation, dexpres- sion et de communication de leurs ralits, de leurs cultures et de leurs nouveaux imaginaires, travers un ocan qui encore aujourdhui est souvent tu, nous pr- tendons rendre possible la continuit de lvolution et la transformation des relations humaines. Marcelo Fiorini, Anthropologue brsilien Marcelo Fiorini, Antroplogo, Universit de Paris III, Sorbonne Nouvelle 13. 26 27 Haiti, une culture de resistance Hati forme avec les Carabes et le Brsil, lensemble des pays qui ont mieux conserv lhritage africain en Amrique. Cet hritage africain est le prolongement de lhritage taino vieux de prs de six milles ans qui a rsist face linvasion des Europens (5 dcembre 1492) venus voler, violer et tuer au nom du christia- nisme et de la civilisation. Mais le gnocide des Indiens a pouss ces Blancs faire chercher de force des mil- lions de noirs dAfrique, les rduire en esclavage titre de biens meubles et les intgrer dans le systme co- lonial-esclavagiste. L ces noirs sont soumis un r- gime dexploitation sauvage, un rgime doppression et de rpression brutale et un rgime de manipulation idologique sans pareil. Face cette situation aussi deshumanisante que d- gradante, les noirs esclaves ont dabord rsist et ma- nifest une lutte sans merci pour la reconqute de leurs droits humains lmentaires que le systme leur refu- sait par tous les moyens. Le marronnage dans les mor- nes (Doko) a permis la formation dune identit culturelle propre qui nest autre que le langage original des Mas- ses, le langage des frustrations socio-historiques des opprims, un langage de rsistance et un lieu dinvul- nrabilit face aux exploiteurs et aux oppresseurs. Cest avec cette culture de lutte que les noirs esclaves ont pu arriver fonder, le 1er Janvier 1804, la premire Rpublique Noire du monde ou la seconde rpublique libre de lAmrique aprs les Etats-Unis. Mais, cette exprience unique fut rapidement consid- re comme perversive et subversive de lordre colonial et esclavagiste rgnant en Amrique. La rvolution ha- tienne fut donc diabolise, endigue et touffe pour que les autres colonies de lAmrique ne suivent ce mauvais exemple dHati. Paralllement, la nouvelle lite hatienne a construit une socit base sur lapartheid sociale et lexclusion. Llite hatienne extravertie et anmie na jamais pu raliser une vritable intgration nationale et sociale. LEtat et Haiti, uma cultura de resistncia O Haiti forma com o Caribe e o Brasil o conjunto dos pases ou regies que melhor conservaram a herana africana na Amrica. Esta herana africana o prolon- gamento da herana Taino, antiga de cerca de seis mil anos, que se ops ante a invaso dos europeus (5 de dezembro de1492) que vieram roubar, violar e matar em nome do cristianismo e da civilizao. Mas o genocdio dos ndios levou estes brancos a buscar fora milhes de negros da frica, reduzi-los escravi- do a ttulo de bens materiais e integr-los ao siste- ma colonial escravocrata. Nele, estes negros foram sujeitos a um regime de explorao selvagem, a um regime de opresso e de represso brutal, bem como a um regime de manipulao ideolgica sem igual. Perante esta situao desumanizante e degradante, os escravos negros a princpio se opuseram e se manifes- taram em uma luta sem trgua para reconquistar os seus direitos humanos bsicos, o que o sistema lhes recusa- va por todos os meios. O aquilombamento nas monta- nhas (Doko) permitiu a formao de uma identidade cultural prpria que no outra seno a linguagem ori- ginal das massas, a linguagem das frustraes scio- histricas dos oprimidos, uma linguagem de resistncia e um local invulnervel contra os exploradores e os opres- sores. com esta cultura de luta que os escravos ne- gros puderam chegar a fundar, em 1o de janeiro de 1804, a primeira repblica negra do mundo ou a segunda re- pblica livre da Amrica, aps os Estados Unidos. Mas esta experincia inigualvel foi rapidamente con- siderada como pervertedora e subvertedora da ordem colonial e escravagista que reinava na Amrica. A re- voluo haitiana foi portanto demonizada, reprimida e asfixiada de modo que outras colnias da Amrica no seguissem este mau exemplo do Haiti. Paralelamente, a nova elite haitiana construiu uma so- ciedade baseada no apartheid social e na excluso. A alienada e enfraquecida elite haitiana nunca pde rea- lizar uma verdadeira integrao nacional e social. O estado e a elite haitiana sempre manifestaram uma ati- tude de desprezo no que diz respeito s massas e cultura popular. As massas haitianas retomaram outra vez a resistncia secular, inventando todas as formas e estratgias de sobrevivncia a partir do vodou, do anal- fabetismo e da oralidade, da lngua crole e de sua referncia frica... Jean Yves Blot, Diretor Geral da Instituto Nacional de Etnologia do Haiti. llite hatienne ont toujours manifest une attitude mprisante vis--vis des masses et de la culture popu- laire. Les masses hatiennes sont de nouveau replies dans la rsistance sculaire inventant toutes formes de stratgies pour survivre partir de leur vodou, leur analphabtisme et leur oralit, leur langue crole et leur rfrence lAfrique Jean Yves Blot, Directeur Gnral du Bureau National DEthnologie du Haiti 14. 28 29 Frechal - Maranho 15. 30 31 Frechal: O negro no se calou! A histria do quilombo Frechal teve incio em 1792, quan- do Manuel Coelho de Sousa recebeu, por meio de sesmaria, a gleba de terra a qual denominou Fazenda Pindobal, na poca, Municpio de Guimares (atual mu- nicpio de Mirinzal). Em seu testamento de partilha, aquela terra passou para as mos de Torquato Coelho de Sousa, junto com escravos de diversas naes africanas. Nesta poca, j existiam na regio grandes quilombos, como o de Lagoa Amarela, no municpio de Chapadinha, Limoeiro, no municpio de Turiau, e outros. Os quilombolas participavam de aes que ultrapassavam a defesa do quilombo, como no caso do movimento chamado Guerra da Balaiada, liderado por Negro Cosme, ocorrido entre 1838 e 1841. Foi nesse contexto histrico que o quilombo Frechal viveu durante 210 anos, com suas lutas e sua cultura passando de gerao para gerao . Uma comunidade cuja histria sempre esteve ligada ao prprio processo de escravido no Maranho. Mesmo aps a suposta abolio da escravido, os quilombolas de Frechal tiveram de continuar lutando por sua sobrevivncia, sua liberdade e sua indepedncia. Em 1974, teve incio um novo e intenso conflito, com a chegada na comunidade de um pretenso proprietrio que se intitulou dono daquelas terras, tra- zendo consigo o absurdo do desmatamento e muitas proibies : de roado, criao de animal domstico, construes das casas, pesca artesanal, manifestaes culturais... Ou seja, novamente a escravido... Este conflito chegou a durar 20 anos. No comeo, os habitantes de Frechal se sentiram bastante desorienta- dos, mas em 1985, cansados de sentir na pele o quan- to estavam sendo prejudicados por esta nova escravido, resolveram se organizar como um grupo, mobilizando-se contra aquela explorao. A primeira atitude a ser to- mada foi a fundao de uma associao de moradores, com participao da Igreja, do sindicato e de diversas entidades de apoio. A mobilizao estendeu-se at o Centro de Cultura Negra do Maranho e a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, onde foi elaborado um processo judicial, culminado na criao de uma re- serva extrativista, hoje reconhecida no Brasil inteiro como Reserva Extrativista, de Frechal. O reconhecimento de seus direitos e a luta por eles garantiu aos quilombolas de Frechal uma vida melhor e mais digna. A luta pela posse da terra marca a existncia e o coti- diano de todos os trabalhadores que, h sculos, vivem e cultivam no quilombo Frechal. Estes trabalhadores, descendentes de escravos, no so frutos de movimen- tos migratrios. A sua memria oral no est presa a outro lugar seno ao Frechal: eles sempre estiveram l, seus pais e seus avs nasceram e foram enterrados naquelas terras. Ivo Fonseca Silva, Coordenador Executivo da Aconeruq Associao das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranho Frechal: Le ngre ne sest pas tu! Lhistoire du Quilombo3 Frechal commence en 1792, quand Manuel Coelho de Sousa reoit, par sesmaria4 , le morceau de terre quil appelle Fazenda Pindobal, lpoque dans la commune de Guimares (aujourdhui, commune de Mirinzal). Par son testament, cette terre et ses esclaves de diverses nations africaines, passe aux mains de Torquato Coelho de Sousa. cette poque, il existait dj dans la rgion de grands quilombos, comme celui de Lagoa amarela dans la com- mune de Chapadinha, celui de Limoeiro dans la com- mune de Turiau, et dautres. Les quilombolas participaient des initiatives qui excdaient la dfense du quilombo, comme le cas du mouvement appel Guerra da Balaiada, men par Negro Cosme, de 1838 1841. Cest dans ce contexte historique que le Quilombo Frechal vcut pendant 210 ans, ses luttes et sa cul- ture passant de gnration en gnration. Une commu- naut dont lhistoire a toujours t relie au propre processus de lesclavage du Maranho. Mme aprs la suppose abolition de lesclavage, les quilombolas de Frechal ont d continuer luter pour leur survie, leur libert e leur indpendance. En 1974, un nouveau et intense conflit sest dclench, avec lar- rive dans la communaut dun prtendu propritaire qui sest intitul maitre de ces terres, apportant avec lui labsurdit du dboisement ainsi que beaucoup din- terdictions: de fauche, dlevage danimaux domesti- ques, de construction des maisons, de pche, de manifestations culturelles Soit, un nouvel esclavage Ce conflit a dur jusqua 20 ans. Au dbut, les habi- tants de Frechal se sont sentis bien dsorients, mais en 1985, lasss se voir tant prjudicis par ce nouvel esclavage, ils dcidrent de sorganiser comme un groupe, se mobilisant contre cette exploration. La pre- mire mesure prise a t la fondation dune associa- tion de rsidents, avec la participation de lglise, du Syndicat et de diverses institutions dappui. La mobili- sation sest tendue jusquau Centre de la Culture Noire du Maranho et la Socit Maranhense de Droits Humains, o un procs judiciaire a t ralis, culmi- nant dans la cration dune rserve dextraction, aujourdhui connue dans tout le Brsil comme Rserve dextraction de Frechal. La reconnaissance de leurs droits a garanti aux quilombolas de Frechal une vie meilleure et plus digne. La lutte pour la possession de la terre marque lexis- tence et le quotidien de tous les travailleurs qui, depuis des sicles, vivent et cultivent au Quilombo Frechal. Ces travailleurs, descendants desclaves, ne sont pas le fruit de mouvements migratoires. Leur mmoire orale nest lie qu Frechal: ils ont toujours vcu dans ces terres, leurs parents et grands-parents y sont ns et y sont enterrs. Par Ivo Fonseca Silva, Coordinateur Excutif de lAconeruq Association des Communauts Noires Rurales Quilombolas5 du Maranho 16. 32 33 Au Bresil jai t surpris par la trs grande diversit culturelle de ce pays. Les cultures Amrindienne, Afri- caine, Europenne se retrouvent dans ce mme pays, immense, de manire intrinsque ou mtisse, selon les villes ou les rgions ou encore les communauts. Dirce Carrion ma guid et ma fait dcouvrir quelques facettes de son pays. Aprs la grande ville de Sao Paolo nous sommes rendus dans ltat du Maranhao, o nous avons sjourn dans la communaut de Frechal o r- sident quelques centaines dhabitants qui se nomment les Quilombos. Les Quilombos ressemblent trangement aux Hatiens. Quilombos veut dire Marrons au Brsil. Pendant la priode de lesclavage, des Marrons ont pris posses- sion dun terrain et ont organis leur vie leur manire, cest -a dire, comme en Afrique et aujourdhui ils vivent en communaut, effectuent les travaux dintrt gn- ral en commun, sentraident les uns les autres et sont les gardiens de leur tradition. Jai admir le ct paisi- ble et serein et la gentillesse des habitants de cette communaut noire du Brsil. Mais ce qui ma le plus surpris cest davoir appris quil existait dans cette rgion une autre communaut de Quilombos qui sappelait Haiti. Oui, Haiti avec le mme orthographe que le ntre, sans toutefois les trmas sur le i, qui nexistent pas en portugais. Tout comme Frechal, des Quilombos ont pris possession dune terre et lont appel Hati, ce qui veut dire en vieux langage bninois, : cette terre est nous..., mais ne mavait-on pas donn une, mais une seule fois, cette signification propos de lorigine du nom de mon pays? je ne lavais pas cru. Les ateliers de photographie et de peinture avec les enfants de ces 2 communauts ont t une exprience unique, intressante et plein de sensibilit. La commu- nication a eu lieu, malgr la barrire que peut provo- quer la langue, et Frechal, tout comme au Sngal, je me suis senti chez moi. Parmi les miens. Nous nous ressemblons. Maxence Denis, Artiste plastique, photographe No Brasil, fui surpreendido pela grande diversidade cultural do pas. As culturas amerndia, africana e euro- pia se encontram nesse pas imenso, de maneira in- trnseca ou miscigenada, variando conforme as cidades, regies ou ainda comunidades. Dirce Carrion me guiou pelo Brasil e me fez descobrir algumas de suas facetas. Depois da grande cidade de So Paulo fomos para o estado do Maranho e nos hospedamos na comunidade de Frechal, onde residem algumas centenas de habitantes que so chamados de quilombolas. Os quilombolas so estranhamente pare- cidos com os haitianos. Quilombola, no Brasil, significa escravo fugido. Durante o perodo da escravido, os escravos fugidos tomavam posse de uma rea e organizavam a vida sua maneira ou seja, como na frica. Hoje, eles vivem em comuni- dade, efetuam os trabalhos de interesse geral e comum, ajudam-se uns aos outros e so os guardies de sua tradio. Admirei o carter pacfico e sereno e a gentile- za dos habitantes dessa comunidade negra do Brasil. Mas o que mais me surpreendeu foi ficar sabendo que existia, naquela regio, uma outra comunidade de quilombolas que se chamava Haiti. Sim, Haiti, com a mesma ortografia que a nossa, sem, no entanto, o tre- ma, que no usado em portugus sobre a vogal i. Assim como em Frechal, os quilombolas tomaram pos- se de uma terra e a chamaram de Haiti, o que quer dizer, na antiga lngua do Benin, esta terra nossa. Ser que alguma vez, uma nica vez, j me deram esse significado para a origem do nome de meu pas? Eu no teria acreditado... Os atelis de fotografia e pintura com as crianas des- sas duas comunidades foram uma experincia nica, interessante e cheia de sensibilidade. Conseguimos nos comunicar, apesar da barreira que a lngua pode provo- car, e em Frechal, assim como no Senegal, me senti como se estivesse em casa. Entre os meus. Ns nos parecemos. Maxence Denis, Artista plstico e fotgrafo 17. 34 35 18. 36 37 19. 38 39 20. 40 41 21. 42 43 fotos das crianas do frechal FRECHAL Ancia Ana Dalva Ana Look Aurivan Bruna Dayane rica Erick Gislainy Incio Joberth John Karina Kssia Kindara Kind Leandro Leomarcos Luciano Luis Natcio Rarianne Sidney Taciane Thamlys Vanessa Walison DESERTO Adilson Campos Vieira Aldirene Silva Velvo Ana Priscila Ribeiro Campos Andreia Silva Santos Arenildes Trindade Silva Beatrice Ferreira Ribeiro Bruna Alexandra Campos Cladenir Mafra Deuzenilde Pereira da Silva Edeilde Carvalho Ferreira Erik Jevi Carvalho Gssica Manuela Santos Moreira Gledison Lopes Gleiciene Campos Gleicivnia Jadilson Fereira Rocha Josenildes Pereira da Silva Josilene Campos Mafra Letcia Luciane Ribeiro Santos Marilha Cunha Campos Marilucy Silva Mikalle Baita Rodrigues Nelcilede Osenilde Coelho Silva Raina Fabianne Arajo Taiane Pereira Silva Taiara Ferreira Mondengo Vaneide Vieira Ferreira Vitor Augusto Ferrira dos Santos 22. 44 45 23. 46 47 24. 48 49 25. 50 51 26. 52 53 Port Au Prince 27. 54 55 Fotos que fazem falar a vida Poderamos falar de muitos pontos em comum entre o Haiti e o Brasil. Duas terras que brilham de uma mesma centelha; uma to grande como um continente, outra uma pequena quase-ilha sobre o mar das Antilhas. Poderamos comear pela Histria: a violncia do rap- to nas costas africanas, no bojo de navios negreiros, as correntes para os ps e ombros agrilhoados. Poder- amos contrapor a revolta contra a escravido, a nsia de libertar-se do inferno colonial, e as vitrias do direi- to contra as grandes injustias, para devolver mem- ria seu quinho de dignidade. Poderamos depois elaborar sobre o inventrio das imensas riquezas destas culturas cruzadas: ioruba e latina. Passando de um povo ao outro, descrevendo suas semelhanas, dos orixs aos loas, de Ogum Ogou, de Oi Agwe, de Iemanj a Erzulie. Dos rit- mos e das cores, samba e yanvalou, pintura nave e teatro total. Esta arte comum de falar, de pintar e can- tar a dor e o riso. Esta capacidade de inventar que transforma todo rudo em msica e no importa qual objeto, em obra de arte. Poderamos tambm falar da realidade social. Da con- figurao aparente das desigualdades, das faces se- melhantes da discriminao. Rio e Porto-Prncipe, cidades e favelas, e a mesma pobreza que desce as montanhas. Poderamos falar de todas as coisas comuns a estes dois pases. A dor, o herosmo. A beleza, o orgulho. A fidelidade primeira origem, a difcil chegada modernidade. O passado e a luta por um futuro melhor e um mundo mais justo. Olhemos tudo isto, habitemos ao mesmo tempo o real e o sonho. Mas ns podemos tambm nos deter. Deixar a vez infncia. No somos cegos ao sonho e realidade por- que crescemos em bairro pobre. No somos privados de talento porque a sociedade na qual vivemos se aco- moda ante nossa misria, a gera, a tolera. Des photos qui disent la vie Nous pourrions parler des multiples points communs entre le Brsil et Hati. Deux terres qui brillent dun clat commun, lune aussi grande quun continent, lautre, une petite presqule dans la mer des Antilles. Nous pourrions commencer par lHistoire: la violence du rapt sur les ctes africaines, la cale des ngriers, les chanes pour les pieds et lpaule tampe. Nous pourrions opposer la rvolte lesclavage, le vu de libert lenfer colonial, les victoires du droit contre la grande injustice, pour rendre la mmoire sa part de dignit. Nous pourrions ensuite vous dresser linventaire des immenses richesses de ces cultures croises. Yoruba et latinit. Passer dun peuple lautre, dcrire leurs ressemblances, des Orixas aux Loas, de Ogun Ogou, dOyat Agwe, de Yemanja Erzulie. Des rythmes et des couleurs, samba et yanvalou, peinture nave et th- tre total. Cet art commun de dire, de peindre et de chan- ter la douleur et le rire. Cette capacit inventive qui transforme tout bruit en musique, nimporte quel objet en objet dart. Nous pourrions aussi vous parler de la ralit sociale. De la configuration semblable des ingalits, des vi- sages similaires de la discrimination. Rio et Port-au- Prince, villas et bidonvilles, et la mme pauvret descendant des collines. Nous pourrions parler de toutes ces choses communes aux deux pays. La douleur, lhrosme. La beaut, la fiert. La fidlit lorigine premire, la difficile entre dans la modernit. Le pass et la lutte pour un avenir meilleur et un monde plus juste. Regarder tout cela, habiter en mme temps le rel et le rve. Mais nous pouvons aussi nous taire. Laisser la place lenfance. On nest pas aveugle au rve et au rel parce que lon grandit dans un quartier pauvre. On nest pas priv de talent parce que la socit dans laquelle on vit saccommode notre misre, la gnre, la tolre. As crianas do Haiti e do Brasil so seres vivos. Antes de falarmos por eles, importante escutar o que dizem, seguir seus olhares, encorajar o dilogo entre eles, de um bairro desfavorecido de Porto-Prncipe a uma co- munidade pobre do Brasil, seguir a expresso deste fundo cultural africano que se perpetua, resiste e enri- quece outras fontes culturais. As crianas do Brasil e do Haiti tm olhos que vem o mundo tal como ele e tal como ele deveria ser. Com uma cmera, eles fixaram sobre a pelcula os momen- tos de suas vidas e de seus universos, tirados de frag- mentos da vida cotidiana. Com uma cmera, elas deram um sentido aos lugares, aos objetos, s cenas, sob as quais despontam, ao mesmo tempo, suas heranas e condies, mas tambm suas ternuras e esperanas. Estas fotos revelam suas apreenses espontneas das coisas da vida, o desejo de fazer e de fazer bem, se eles tm acesso ao saber-fazer. As crianas do Brasil e do Haiti so seres humanos, Filhos da misria1 perdidos em suas Cidades de Deus2 , mas Capites de areia3 e Governadores do orvalho4 . As crianas negras do Brasil e do Haiti so pobres e ricas. To vivazes quanto vivas. Que aquele ou aquela que olhar estas fotos reconhe- am nelas o pulsar de seus coraes e tudo o quanto possvel dentro de si mesmos. Evelyne e Lyonel Trouillot, Escritores haitianos Les enfants dHati et du Brsil sont des tres vi- vants. Plutt que de parler pour eux, il est important dcouter ce quils disent, de suivre leur regard, den- courager le dialogue entre eux, dun quartier dfavo- ris de Port-au-Prince une communaut pauvre du Brsil, de suivre lexpression de ce fond culturel afri- cain qui se perptue, rsiste et senrichit dautres apports culturels. Les enfants du Brsil et dHati ont des yeux qui voient le monde tel quil est et tel quil devrait tre. Avec une camra, ils ont fix sur pellicule des moments de leurs vies et de leur univers, saisi des fragments de leur vie quotidienne. Avec une camra, ils ont donn un sens des lieux, des objets, des scnes derrire lesquels pointent la fois leur hritage et leur condi- tion, mais aussi leur tendresse et leur espoir. Ces photos rvlent leur saisie spontane des choses de la vie, lenvie de faire et de bien faire, sils ont accs au savoir-faire. Les enfants du Brsil et dHati sont des tres humains, Fils de misre1 perdus dans leurs Cits de Dieu2 , mais Capitaines des sables3 et Gouverneurs de la rose4 . Les enfants noirs du Brsil et dHati sont si pauvres et si riches. Si vivants et vivaces. Que celui ou celle qui regarde ces photos y recon- naisse llan de leur cur et tout le possible en eux. Evelyne et Lyonel Trouillot, crivain haiten 28. 56 57 Sem um espao de visibilidade e sem confiar na palavra e na ao como modo de viver juntos, nem a realidade de seu prprio eu, de sua prpria identidade, nem a realidade do mundo que nos cerca pode ser estabelecida. Hannah Arendt Ttulo Bienvenue chez nous: as boas vindas em giz colorido sobre a lousa verde espelham os olhares ansiosos dos alunos que nos recebem na escola Isidore Boisrond. Charles, Alexandra, Mireille, Wenchise, Jean-Bernard tantos nomes e sorrisos para um tempo infelizmente curto demais. Nos crachs cuidadosamente improvisa- dos alguns sobrenomes ecoam a histria da singular independncia do pas enquanto os olhos revelam a mesma curiosidade de todas as crianas do mundo. Alguns dias depois, a Escola Discrte Aumone nos aco- lhe em Bel Air com novos nomes e olhares, mas com igual curiosidade, saudvel motor de qualquer proces- so criativo e de troca. No espao de uma semana, o Brasil da camisa 9 de Ronaldo pintada na traseira dos tap-taps, das bandei- ras verde e amarela nos muros de Bel Air e nos unifor- mes da Minustah descoberto atravs das paisagens do Maranho, das festas de Bumba, dos pequenos quilombolas do Frechal, dos pssaros multicoloridos Nas pginas dos livros trazidos de to longe les ti mme conhecem um pouco mais desta terra to proxi- mamente distante. E vocs, o que podem fotografar para apresentar sua comunidade s crianas do Bra- sil? A pergunta inspira e excita: do Palais National decorao da sala de estar, dos cartazes de cinema ao lixo nas ruas, dos vendedores ambulantes ao jantar em famlia, a lista vai tenuamente traando um retrato da vida em Port au Prince. Em minha trajetria de artista mediadora esta capa- cidade da fotografia para promover a observao indi- vidual e coletiva acerca de si mesmo e seu entorno que me interessa. Instigar o olhar e a partir dele o pen- sar-se o que tem orientado meu trabalho com crian- as e jovens em diversos pases. Para alm do manuseio Sans avoir un espace de visibilit et sans croire laction et la parole comme un moyen pour vivre ensemble, ni la realit de soi-mme, ni de sa propre identit peut tre tablie. Hannah Arendt Ttulo Bienvenue chez nous: le message en craie colori sur le tableau vert reflte les regards anxieux des lves qui nous reoivent lcole Isidore Boisrond. Charles, Alexandra, Mireille, Wenchise, Jean-Bernard ... tant de prnoms et des sourrires retenir pendant un temps malheureusement si court. Sur les insignes soigneuse- ment improviss quelques noms de famille ramnent lhistoire singulire de lindpendance du pays tandis que les yeux revlent la mme curiosit de tous les enfants du monde. Quelques jours aprs, Bel Air, des nouveaux prnoms et les mmes regards curieux, im- pulsion tous les processus criatifs, nous accueillent l cole Discrte Aumone. Pendant une semaine, le Brsil de la chemise 9 de Ronaldo peint larrire des tap-taps, des drapeaux jaune et vert peints sur les murs de Bel Air et acrochs sur les treillis de Minustah, est dcouvert travers les paysa- ges du Maranho, les ftes du Bumba, les images des petits descendants des esclaves noirs, les quilombolas du Frechal, les oiseaux au vif coloris... Sur les pages des livres ramns de si loin, les ti-mmes connais- sent un peu plus de cette terre si lointaine et trange- ment si proche. Et vous, que pourriez-vous photographier pour presenter votre communaut aux enfants du Br- sil ? La question inspire et excite: du Palais National la dcoration de la salle de sjour, des enseignes du cinma aux dechets dans les rues, des vendeurs ambu- lants au dner en famille, la liste trace fragilement un portrait de la vie Port au Prince. Dans mon parcours dartiste mdiatrice ce qui mintresse est cette capacit de la photographie promouvoir lobservation, individuelle mais aussi colective, sur son propre Moi et sur ce qui mentoure . Provoquer le regard comme instigateur de la rflexion 29. 58 59 das mquinas fotogrficas esta reflexo criativa que d sentido ao processo. Se num primeiro momento, a mquina fotogrfica oferece uma oportunidade de re- tratar o mundo sua volta sob seu prprio ponto de vista, com tempo e cuidado, a fotografia pode tornar- se no s uma forma de expresso mas tambm uma ferramenta de empoderamento e de desenvolvimento de uma conscincia coletiva que permite ocupar e ga- rantir um espao social prprio. Em Port-au-Prince, as imagens sem censura das cri- anas, espontneas no enquadramento e tecnicamen- te cruas, falam mais de suas comunidades e de suas vidas do que qualquer ensaio fotogrfico que eu po- deria ter feito no meu curto tempo de estrangeira em solo haitiano. moldura da janela do automvel que me conduz pela cidade as crianas respondem com o marco da porta do quarto, altura do Urutu que me leva at Bel Air, elas contrapem os dois ps bem plantados no cho de uma estreita viela, distncia de passagem elas respondem com uma proximidade quase palpvel, uma intimidade que salta aos olhos exclamando: esta a minha vida! Os bichos de pel- cia que comem sobre a cama, a me de seios desnu- dos, as pinturas do pai orgulhosamente exibidas, a lio de casa feita sobre os degraus da escada de cimento, os bibels sobre a cmoda recoberta por um tecido florido, os colegas a caminho da escola sob um cu cinza fragmentos de tantas famlias, de tantas histrias compondo um mosaico mais do que revelador de uma cidade. tamanha riqueza, s posso acrescentar alguns poucos retratos, cheios de respeito e ternura, testemunhas desse encontro com esses jovens haitianos, com o desejo de que seu fu- turo seja mais esperanoso do que este presente to marcado pela dificuldade, pela violncia e pela falta de perspectivas. Marie Ange Bordas, Artista plstico e fotgrafo sur soi-mme, cest cela que oriente le travail que jaccompli dans des differents pays auprs des enfants et des jeunes. Il sagit daller au-dl de la simple utili- sation des appareils photo pour arriver cette rflexion cratrice qui donne du sens au processus. Ainsi, si dans un premier temps lappareil photo offre lopportunit d apprhender un image personalis du monde qui nous entoure, la photo peut devenir, si on lui consacre du temps et une attention soigneuse, pas seulement un mode personnel dexpression mais aussi un instrument pour se prende en charge empowering et de dvelop- pement dune conscience collective qui permet doccuper et de garantir un espace social comum. A Port au Prince, les images sans censure, prises par les enfants, spontans dans le cadrage et sans procupations techniques, mieux que nimporte quel essai photographique que jaurai pu produire en si peu de temps en sol haitien, nous parlent de leurs commu- nauts et de leurs vies. lencadrement de la vitre de lautomobile qui me conduit en ville les enfants rpon- dent avec le cadre de la porte de la chambre; la hau- teur du char blind, lUrutu qui mamne Bel Air, elles opposent leurs deux pieds bien enfoncs dans la terre dune rue troite ; lloignement du passage elles r- pondent par une proximit quasiment palpable, une inti- mit qui saute aux yeux, qui sexclame: Cest celle-l ma vie ! Les peluches qui mangent sur le lit, les seins dnuds de la mre, les peintures du pre rgueilleusement exhibes, le devoir dcole rpondu sur les marches de lescalier en ciment, les bibelots sur le meuble recouvert dun tissu fleurs, les copains qui marchent vers lcole sous un ciel gris... tous des frag- ments de tant de familles, tant dhistoires, composer un mosaique unique pour rvler une ville. A une si grande richesse, je ne peux offrir sinon quelques por- traits, pleins de respect et de tendresse, tmoins de cette rencontre avec ces enfants et jeunes haitiens, ainsi que mes voeux pour que lavenir leur apporte beaucoup plus despoir de changer ce present si durement marqu par les difficults, la violence et le manque de perspectives. Marie Ange Bordas, Artiste plastique, photographe 30. 60 61 31. 62 63 32. 64 65 33. 66 67 34. 68 69 fotos das crianas de port au prince ESCOLA ISIDORE BOISROND Aderna Desvarieux Alexandra Borgella Alexandra Toussaint Anderson Charles Cadet Re Calixte Jean Bernard Florence Joseph Jean Gulles Lenes Jean Widner Franois Josiane Theodore Kensy Franois Ketia Francisque Lens Jean Sission Max Junior Barthelmy Michel Isamaelle Mireille Jules Mirlanda Joseph Nathalie Civil Saint-Aime Peterson Schylla Dawine Sheena Richard Steffi Kenya Maignant Vanessa Casseus Vanessa Narcisse Wanson Fleurantin Wenchise Toussaint ESCOLA DISCRETE AUMONE - BELAIR Bettyna Volcy Claudine Hipolite Darline Petion Delva Boaz Etienne Luckner Fabiola Desir Farah Rochefort Formela Ruth Getro Moise Illysse Frantzpy Ivonne Pierre James Joseph Julanie Beauvic Juslene Moise Linda Joseph Lucien John Marie Micheline Brevil Marise Ismael Max Du Frere Mythil Daphta Ralph Bissnith Ricardo Descoches Saatona Chevy Ulysse Makenzy 35. 70 71 36. 72 73 37. 76 77 38. 78 79 pinturas das crianas de port au prince pinturas das crianas de frechal ESCOLA ISIDORE BOISROND Aderna Desvarieux Alexandra Borgella Alexandra Toussaint Anderson Charles Cadet Re Calixte Jean Bernard Florence Joseph Jean Gulles Lenes Jean Widner Franois Josiane Theodore Kensy Franois Ketia Francisque Lens Jean Sission Max Junior Barthelmy Michel Isamaelle Mireille Jules Mirlanda Joseph Nathalie Civil Saint-Aime Peterson Schylla Dawine Sheena Richard Steffi Kenya Maignant Vanessa Casseus Vanessa Narcisse Wanson Fleurantin Wenchise Toussaint ESCOLA DISCRETE AUMONE - BELAIR Alci Jean Vitesse Alfred Islande Angeline Buteau Antoine Noulie Beatrice Joseph Cerve Ivens Charles Ester Elism Junior Jerry Roland Joseph Wodan Joseph Schneider Julio Alexandre Noxmal Nona Oinaese Nona Osner Jean Baptiste Ralph Doug Rolanda Vital Ronald Doctring Roseline Seragne Silta Isaac Stentia Celestin Stephania Charles Wisly Romanae FRECHAL Ancia Ana Dalva Ana Look Aurivan Bruna Dayane rica Erick Gislainy Incio Joberth John Karina Kssia Kindara Kind Leandro Leomarcos Luciano Luis Natcio Rarianne Sidney Taciane Thamlys Vanessa Walison DESERTO Adilson Campos Vieira Aldirrene Silva Velvo Ana Priscila Ribeiro Campos Andreia Silva Santos Beatrice Ferreira Ribeiro Bruna Cladenir Mafra Deuzenilde Pereira da Silva Edeilde Carvalho Ferreira Elissandra Campos Silva Erik Jevi Carvalho Gssica Manuela Santos Moreira Gleicivnia Gleydison Lopes Gleyiene Campos Jadilson Fereira Rocha Josenilde Coelho Silva Josenilde Pereira da Silva Joycilene Campos Mafra Letcia Luciane Ribeiro Santos Lucivania Marenilde Trindade Silva Marilha Cunha Campos Maryluce Silva Myalle Baita Rodrigues Nelcilede Raina Fabianne Arajo Taiane Pereira Silva Thyara Ferreira Mondengo Vaneide Vieira Ferreira Vanuzia Vitor Augusto Ferreira dos Santos 39. 80 81 Pour un pont vivant entre Haiti et le Brsil! A la faveur dune conjoncture gopolitique, voil que des changes culturels entre la Rpublique dHati et le Br- sil se concrtisent. Lanne 2005 a inaugur une srie dvnements, dont la visite du ministre de la culture du Brsil, le clbre Gilberto Gil, nest pas des moindres. Quest-ce qui rapproche nos deux peuples? Lhistoire Lancienne colonie franaise de Saint- Domingue et la province de Bahia ont en commun lco- nomie de plantation, et, son corollaire la traite ngrire. Le fait religieux, par ses diverses variantes populaires, le culte des saints catholiques associ ou intgr celui des divinits africaines, un panthon qui prsente bon nombre dquivalences, objets dtudes rcentes, par ailleurs, est le plus vident. Sur la musique, ont pourrait stendre longuement, tant la place du Brsil dans le paysage sonore hatien est une constante, depuis les annes cinquante. Il est regrettable que les travaux dun Grald Merceron, critique et com- positeur musical hatien, disparu il y a une vingtaine dan- nes, ne soient pas accessible au grand public. Fils de diplomate, il avait vcu au Brsil et, revenu au pays, tout ptri de culture brsilienne, avait tent par ses composi- tions une fusion originale des deux traditions. Plus rcemment, Sergio Otanazetra, artiste brsilien, vivant en France, pouss par la simple curiosit, a s- journ en Hati pendant une quinzaine de jours. Aujourdhui, cest par la force des enjeux macropolitiques que le Brsil, puissance rgionale, multiplie les signaux de son intrt pour Hati. Le sjour du plasticien, crateur multimdia hatien, Maxence Denis, au Brsil, en novembre 2005, lini- tiative de la Fondation Africa-Brsil est une premire du genre. En effet, dans le domaine des arts plastiques, en dehors dirrgulires participations la Biennale de Sao Paolo (le sculpteur Patrick Vilaire, linstallateur Mario Benja- min, le peintre Edouard Duval-Carri) et de quelques initiatives, qui se limitent lart naf hatien, cest la toute premire occasion, fournie un artiste contemporain dHati, dexplorer et dapprofondir lunivers brsilien. Maxence, qui sintresse aux phnomnes urbains con- temporains, quil sagisse des Rave Berlin ou en France, des installations spontanes pratiques par le commerce informel dHati ou du Sngal, reprsente la nouvelle gnration de plasticiens hatiens. Par sa matrise des nouvelles technologies, form laudio-visuel et au milieu professionnel de la tlvision franaise, Maxence, qui a particip la dernire Bien- nale de Venise avec une sculpture anime par des moyens numriques, intitule Kwa Bawon, est le cra- teur hatien le mieux outill pour tablir la jonction en- tre ce pays-continent, le Brsil, et cette demi-le de la Carabe lhistoire complexe et mouvemente entre les modes dexpression du jour: linstallation, la vido, la cration numrique et les genres plus traditionnels de la photographie et de la sculpture. Il est souhaitable que de plus amples initiatives, ta- blissent le rle de pont entre le monde Carabe, Hati en loccurrence, et le Brsil. Barbara Przeau Stephenson, Prsidente de la Fondation AfricAmricA, responsable Carabes et Amrique Latine et Vice-prsidente AICA / Carabes du Sud Por uma ponte viva entre o Haiti e o Brasil! Graas conjuntura geopoltica, eis que trocas cultu- rais entre a Repblica do Haiti e o Brasil se concreti- zam. O ano de 2005 inaugurou uma srie de eventos, entre eles a visita do Ministro da Cultura do Brasil, o famoso Gilberto Gil, o que no pouca coisa. O que aproxima nossos dois povos? A histria: a antiga colnia francesa de So Domingos e a provncia da Bahia tm em comum a economia de plantation e seu corolrio, o negcio negreiro. Alm disso, o fato religioso, por suas diversas variantes populares, o culto de santos catlicos associado ou integrado ao das divindades africanas, um panteo que apresenta um bom nmero de equivalncias, objeto de estudos recentes, o mais evidente. Sobre a msica, poderamos nos estender longamente, de to constante que o espao do Brasil na paisa- gem sonora haitiana, desde os anos 1950. lamen- tvel que o trabalho de uma pessoa como Grald Merceron, crtico e compositor musical haitiano, mor- to h vinte anos, no sejam acessveis ao grande p- blico. Filho de diplomata, ele vivera no Brasil e, de volta ao pas, totalmente repleto da cultura brasileira, tentara, por suas composies, fazer uma fuso origi- nal das duas tradies. Mais recentemente, Sergio Otanazetra, artista brasilei- ro que vive na Frana, levado pela simples curiosidade, passou uma temporada de quinze dias no Haiti. Hoje, pela fora dos negcios macropolticos que o Brasil, potncia regional, multiplica os sinais de seu interesse pelo Haiti. A temporada no Brasil do artista plstico e criador multimdia haitiano Maxence Denis, em novembro de 2005, por iniciativa da Fundao frica-Brasil, a pri- meira do gnero. De fato, na rea de artes plsticas, afora as participa- es irregulares na Bienal de So Paulo (o escultor Patrick Vilaire, o artista Mario Benjamin e o pintor Edouard Duval-Carri) e algumas iniciativas limitadas arte naf haitiana, foi a primeira verdadeira ocasio, oferecida a um artista contemporneo do Haiti, de ex- plorar e aprofundar o universo brasileiro. Maxence, que se interessa pelos fenmenos urbanos contemporneos sejam eles as raves de Berlim ou da Frana, ou as instalaes espontneas praticadas pelo comrcio informal do Haiti ou do Senegal , re- presenta a nova gerao de artistas plsticos haitianos. Pelo seu domnio das novas tecnologias, formado pelo audiovisual e pelo meio profissional da televiso fran- cesa, Maxence, que participou da ltima Bienal de Veneza com uma escultura animada por meios digitais, intitulada Kwa Bawon, o criador haitiano mais equi- pado para estabelecer a conexo entre esse pas-con- tinente, o Brasil, e essa meia-ilha do Caribe, de histria complexa e movimentada, pelos meios de expresso atuais: a instalao, o vdeo, a criao digital e os g- neros mais tradicionais da fotografia e da escultura. desejvel que existam iniciativas mais amplas que estabeleam o papel de ponte entre o mundo caribenho, o Haiti no caso, e o Brasil. Barbara Przeau Stephenson, Presidente da Fundao AfricAmricA, responsvel pelo Caribe e Amrica Latina e Vice-presidente AICA / Sul do Caribe 40. 82 83 41. 84 85 42. 86 87 43. 88 89 44. 90 91 45. 92 93 46. 94 95 Agradecimentos Ao expressarmos nossos agradecimentos, lembramo- nos de muitas pessoas que nos ajudaram a concretizar nosso trabalho. Mas no podemos deixar de mencionar o nome de algumas cujo apoio foi indispensvel para que realizssemos este projeto. Assim, o nosso primeiro pensamento vai para as crian- as, diretores e professores da Escola Discrete Aumone no bairro de Belair, e da Escola Isidore Boisrond, em Porto Prncipe; alunos e professores das Escolas das Comunidades do Quilombo do Frechal e do Deserto, no Maranho; Jacques Bartoli, Brbara Prezeau, Lyonel Trouillot, Yves Blot, Jean Lherisson, Capito Lenidas, Marcelo Fiorini, Milton Guran, Jociene da Silva Gomes, Dona Jovina da Silva Gomes, Jonailson da Silva Go- mes, Francisco Gomes, Ivo Fonseca da Silva, Denise Paiva, Christian Knepper, Cleber Trindade; Aline Mag- na, Selvino Hech, Rosa Miriam Ribeiro, Ricardo Teles, Charles, nosso motorista em Porto Prncipe, entre tan- tas outras pessoas que nos apoiaram e nos receberam em todos os lugares por onde passamos. A realizao deste projeto tambm s foi possvel por- que contamos com o apoio de diversas entidades, en- tre elas Ministrio da Cultura do Haiti; Ministrio da Educao do Haiti; Ministrio das Relaes Exteriores do Haiti; Museu do Panteo Nacional do Haiti; Bureau Nacional de Etnologia; Departamento Cultural do Mi- nistrio das Relaes Exteriores do Brasil; Embaixada do Brasil em Porto Prncipe; Secretaria Especial de Polticas de Promoo da Igualdade Racial; Associa- o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranho; Misso das Naes Unidas para a Estabili- zao no Haiti, em especial o General Urano da Matta Bacellar (in memorian), alm dos oficiais e soldados brasileiros que nos apoiaram para a realizao do tra- balho no bairro de Belair. Fils de misre, roman de Marie Thrse Colimon Capitaines des sables, roman de Jorge Amado Gouverneurs de la rose roman de Jacques Roumain Vous ajouterez pour moi le nom de lauteur de la cit de Dieu, je ne lai ps sous la main 1 Le principe du vaudou est ladoration de lwas (ou loa, cest phontique) qui sont des divinits immortelles. Les vvs sont ces dessins si bizarres que les vaudous dessinent la craie un peu partout. Chaque lwa un vv particulier, un peu comme un drapeau ou un blason qui lui serait ddi. 2 Vv: dessein trac mme le sol, base de farine de mas, reprsentant le symbole de lesprit que lon veut invoquer. 3 Communaut desclaves fugitifs 4 Terres cdes par les rois de Portugal comme rcompense aux nobles, navigateurs ou militaires dans le but de peupler le Brsil. 5 Habitant dun quilombo Filhos da Misria, romance de Marie Thrse Colimon Capites da Areia, romance de Jorge Amado Governadores do Orvalho, romance de Jacques Roumain Cidade de Deus, romance de Paulo Lins 47. Impresso no Brasil, vero de 2006 / Printed in Brazil, summer 2006 DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAO NA PUBLICAO (CIP) (CMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL) Brasil-frica : olhares cruzados : Cabinda e Rio de Janeiro, Porto Alegre e Maputo / [coordenao editorial/editorial co-ordination Dirce Carrion; traduo/translation Graham Howells]. So Paulo: Reflexo Texto e Foto, 2005. Vrios fotgrafos. Edio bilinge: portugus/ingls. Apoio: Secretaria Especial de Polticas de Promoo da Igualdade Racial. ISBN: 85-88120-03-8 1. frica - Relaes - Brasil 2. Brasil - Relaes - frica, 3. Fotografias I. Carrion Dirce. 05-0008 CDD-303.4828106 NDICES PARA CATLOGO SISTEMTICO: 1. Brasil-frica : Relaes culturais : Sociologia 303.4828106