Luísa Costa Gomes - Contos outra vez (doc)(rev).doc

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Lusa Costa Gomes Contos outra vez

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Biblioteca Prestgio Contos Outra Vez 1997 Lusa Costa Gomes 2001 BIBLIOTEX, S. L. para esta edio Licena editorial por cortesia de Edies Cotovia, Lda. Reviso: Ignacio Vzquez Impresso e encadernao: Printer, Indosma Grfica, S. A. Abril de 2001 ISBN: 84-8130-293-7 Deposito legal: B. 19 702-2001 Tiragem: 90 000 exemplares Todos os direitos reservados

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Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

Lusa Costa Gomes Contos outra vez Grande Prmio de Conto Da associao portuguesa de escritores Uma Empresa Espiritual

ndice I Uma Empresa Espiritual A Janela da Despensa como Argumento Moral Os Trs Homens Aderem Revoluo Sentado no Deserto Costureirinha II Brandina ou o Silncio dos Produtos ltimas Notcias Grande e Francesa Hades Elegantil III O Caso dos Dois Juans O Salto de Master Campbell O Pico do Furcht Rex IV - Viagens que no fiz 1. A Islndia 2. Catorze Pases em Oito Dias 3. Encontro em feso 4. Prembulo Nova Zelndia 5. Chuva na Ilha da Vancouver 6. Algures a Sul do Bidon V 7. Terra Adormecida

I

Uma Empresa EspiritualProcure o leitor imaginar um homem. Ele h-de ser todo ao alto, encovado, o rosto proporo, ossudo e sombreado da barba. Como auxiliar, lembre-se da mstica Toledo onde cresciam como espargos essas figuras que o Greco tornou populares e que passaram, de ento para c, a ser o smbolo mesmo da vida asctica. Se julgar injusto o requisito de tanto esforo, v pelo Quixote, tire-lhe uns anos, desmonte-o do Rocinante, calce-lhe umas sandlias, o burel de um hbito, faa-lhe uma atitude um pouco menos tresloucada, traga-o ao presente onde ele vive estremunhado - e a tem o Toms Bernardino, pode muito bem ser que da Anunciao. A chamar-se assim, capaz de trazer o olhar pisado de tanto meditar para dentro, aflito de si prprio e de como servir o mundo, mais que do funcionamento e modo proveitoso de se servir dele. E afinal, que importa? No no frontispcio das intenes que se joga a mo, no final da histria que se do os votos. - Isto hoje esteve fraco - disse o Bento a limpar a boca do caf. E o almoo sempre a mesma merda. A propsito, o director quer falar consigo. Toms Bernardino ia perguntar outra vez? mas pensou melhor. Depois, perguntou: - Outra vez? O Bento encolheu os ombros. Quem se podia dar ao luxo da caridade de conversar explicadamente numa tarde daquelas? Queria era fechar os olhos e adormecer, ali mesa, arredando a chvena, ou nem isso. Mas j se abriam as portas aos grupos (ia tarde. Quartafeira, como de propsito, estavam trinta e seis graus. Discutiam, justamente ao almoo, esse fenmeno climatrico desprezado nos manuais que consiste na distino entre os trinta e seis graus quentes e os trinta e seis graus frios. Os primeiros, que ganham em

secura ao acumularem-se nas paredes durante um certo tempo, so bem mais temveis do que os trinta e seis graus novos de uma cancula, colocada ao meio de dias frescos. Eram debates que exasperavam os humores, especificamente a blis, de Bernardino, que se recolhia no silncio a organizar os alimentos no prato. Quarta-feira, portanto, havia dois espectculos, um de auto-flagelao e um de canto sacro. Uma estafadeira que os fazia despegar arrasados, a suspirar pela calma das segundas-feiras em que se fazia uma confisso pblica e ala para casa, descanso do pessoal. A manh, no entanto, como dizia o Bento, estivera fraca. A falta de pblico, mesmo considerando o calor, desencorajava-os. - No se lembram de um que esteve c uma semana, ou pouco mais, que passava o tempo a afianar que no era nada com ele? perguntou o Bento, de olhos fechados, soobrando. - Pois tambm eu j estou como ele. Esteve fraco, mas no nada comigo. - Que lhe disse o director? Que quer ele? - Ainda dar tempo para um cigarro? - quis saber o homem do lado. - Marques, ainda posso? Ou j tarde? - gritou ele para o outro canto do refeitrio, por cima do estrpito das conversas, dos ecos dos talheres, apontando o cigarro. - P - gritou o Marques de volta -, j devamos estar na sacristia, anda sempre tudo atrasado. Ningum ouviu a sineta? V l se despachas isso... - A que horas estar no gabinete? - perguntou o Bernardino, encarando primeiro o Bento adormecido e depois o homem do lado, que era novo para ele. - Consta que vive l. Faz americana, come uma bucha com a mo direita sentado secretria e continua a escrever com a esquerda. - Raio de emprego - disse o Bernardino. - Bem pago - disse o outro, limpando a cinza do hbito. Pouco esforo, criativo at. Ganha-se catorze meses, os extras parte, declara-se o mnimo por causa do imposto... Eu estou bem. Gosto. O almoo que sempre a mesma merda, nisso tem aquele toda a razo.

Olharam ambos para o Bento. - Voc tem cara de frade - disse o Bernardino com amargura -, barriga de frade, cabea de frade. No admira que esteja bem. - No preciso ofender. Tive uma banda, toquei guitarra baixo durante uma data de anos, mas nem todos podem ter sucesso. Isto ao menos seguro. A barriga e a cabea foram os aspectos que me seleccionaram. Msicos h milhares, note. Noventa por cento desempregados. - um trabalho de blasfemo - disse o homem que fazia de irmo Toms. - Um trabalho estuporado. Ao grito do Marques que os chamava pelo megafone, o Bento acordou a dizer que era j bem tempo de se ter inventado um hbito de Vero numa sarja leve e confortvel, que no desfavorecesse o espectculo. O burel teria a sua autenticidade, e a autenticidade insubstituvel na reconstituio histrica, mas quem iria reparar se o trocassem por um algodo fino, arejado? O burel, em termos estticos, era o cabo dos trabalhos. Quando ainda no estava afeito ao corpo, era teso e armava em balo, produzindo figuras muito deselegantes. Picava no peito, dava comicho nas costas. Nos casos piores, causava alergias. E pelo fim da Primavera, quando abria a estao, ainda regelavam os falsos frades, proibidos de se mostrarem ao pblico em meias de l. Toms Bernardino ia pronto para lidar o Baptista. Chamava-lhe alarve, merceeiro, filho da me, entre dentes, e raspava a mo nas paredes multisseculares. De exagero, quase corria para o gabinete do director, instalado com todos os confortos no que tinham sido os aposentos do Superior da Ordem. Parvalho das dzias, gnio do marketing, filho da me. - Pensas que se brinca com o esprito? - perguntava ao Baptista, furioso, parado diante da porta fechada do gabinete. Eu te digo se se brinca com o esprito. Bateu porta. Ouviu de dentro a voz do director dizer que entrasse. Trocaram saudaes e Bernardino sentou-se. Em cima da secretria, viu mais uma vez, abominando a estpida vaidade do outro, a placa de prata com o nome: Jos Maria Andrade Pardal Baptista, gestor e um smbolo, de

inteno herldica, que representava uma guia sobrevoando o que parecia ser a concha de um baptistrio, sups Bernardino que em aluso engrandecedora modstia da denominao Pardal. No difcil imaginar Jos Baptista. Exala-se dele o conceito mesmo de prosperidade, auto-confiana e sade. To alto quanto Bernardino, parece maior, mais denso, cheio de autoridade. Aos quarenta anos, j no tem idade certa. uma camisa s riscas azuis, uma gravata aos patos, umas calas pardas. uma energia concentrada, que no se espalha em gestos, no se gasta em subterfgios. Fixa o objectivo de frente, procura o olhar do interlocutor, regula para o familiar o volume da voz. - Sabe com certeza que o produto que vendemos delicado. Essa delicadeza exige de ns o mximo rigor, a mxima disciplina, para garantir a qualidade. No podemos, de maneira nenhuma, compactuar com os caprichos individuais dos nossos empregados. Bernardino viu passar, nos olhos do Baptista, e num instante, a fmbria de uma dvida quanto correco do compactuar>@. Mas havia algo de enternecedor nela e o falso monge teve vergonha de mostrar compaixo. - Fao-me entender? - Penso que sim - respondeu. Reparou na postura em que se sentara, obrigado pelas saias do hbito. Pernas juntas, ps juntos, magros, dedos finos, tristes, deitados nas sandlias de couro. Com as mos postas no colo, curvado para diante, tinha a impresso de ser a imagem viva do suplicante. Endireitou as costas. - Mas... - disse. - O seguro no cobre todos os riscos e ns no queremos problemas com o seguro. O espectculo de Vsperas, tera-feira, no inclui possesso pelo Demnio. O senhor podia ter-se magoado. Foi uma atitude irrepreensvel. Lamentvel. - No se brinca com o esprito - disse Toms Bernardino. - O seguro, explicita o programa de Vsperas, no cobre riscos fsicos, no cobre cabeas partidas, no cobre perfurao do pulmo. Com todo aquele espumar pela boca, o senhor podia ter-se magoado. Tem de se mostrar mais responsvel. Faz parte da sua jobdescription.

E perante o silncio ressentido do empregado, o gestor repetiu o que lhe dissera j em sermes anteriores: que encorajava a criatividade dos colaboradores, que todas as ideias eram consideradas e estudadas desde que viessem postas por escrito, mas que numa empresa daquele teor, em que o pblico era o pilar da sobrevivncia, o fundamental era seguir o programa e dar ao cliente exactamente o que ele pagara para ver. - Quem lhe garante que o pblico quer ver possessos terafeira? Tera-feira, o que que l diz no programa? Prostrao, orao em Latim, tonsura, lava-ps, beija-mo, programa em cinco partes, das dezoito s vinte, intervalo de quinze minutos. Quer um nmero exclusivo de possesso, escreva o projecto, entregue-mo, deixe-me ponderar. Agora fazer possesso sem estar no programa s confunde o pblico e os seus colegas, que ficam sem saber com o que contam. Houve quem pensasse que tinha havido alterao, que estavam a representar um exorcismo. Ora, exorcismo quinta noite. Como sabe, quinta noite. Calara-se. - Devo dizer-lhe, mais uma vez, qual a sua funo nesta empresa? O senhor foi contratado... - Sim, eu sei, o contrato. - Se quiser rever a sua situao... Ergueu-se, em todo o seu horror, diante dos olhos do esprito de Toms Bernardino, o espectro da Escola Secundria do Laranjeiro. Fora a colocado no seu devido lugar, a ensinar Histria. Tentara ensinar Histria por todos os meios ao seu dispor. Por jogos, por concursos, por desenhos animados, por palavras cruzadas, por encenaes teatrais em que ele acabava sempre por fazer de tolo da Corte. Dera prmios, dera estalos. Todo o esforo era vo, toda a estratgia baldada. No havia, nas cabeas dos meninos, a mnima noo do que pudesse ser o tempo, os sculos passados e interesse algum pelo que tivesse neles havido. No desespero, dera por acaso com o anncio: Frades, precisam-se para Empresa Espiritual. Resposta ao nmero tantos deste jornal. - Julgo que o senhor Toms no ter sido trilhado para este tipo de iniciativa. Posso libert-lo em qualquer momento e vou libert-lo

em qualquer momento. No momento em que a sua atitude individualista puser em causa o projecto do conjunto, tal como foi estipulado. Sabe que a credibilidade do espectculo depende da sua verosimilhana. O senhor, na sesso de Vsperas de tera-feira, como possesso... No estava possesso. E cometeu diversos anacronismos, disseram-me que falou de satlites, de telediscos... E logo o senhor doutor, que de Histria. - Disseram-lhe? Quem? - Relgios digitais e nada disso existia no perodo consignado. O senhor passou das marcas. Embaraou os seus colegas. Ps em risco a coerncia do espectculo, e pior do que tudo, o que verdadeiramente imperdovel que o senhor incomodou o pblico. E um cliente incomodado um cliente que no volta nunca mais. Faome entender? - Com certeza. - Tem algum problema de que me queira falar? - Nenhum. Lamento t-lo feito perder tempo. - Sempre ao dispor. - Larva! Cobardolas! - gritou ento Bernardino para si mesmo, enquanto se levantava para sair. J fora do gabinete do director, puxando o hbito que se lhe entalara na porta, desabafou, contendo a voz: - Verme da terra! - E, atrevidamente, j afastado, disse para uma pomba tresmalhada que passava fora, no momento: Isto no um mosteiro! uma fantochada! Debaixo da alta abbada, iluminada por projectores potentssimos, vermelhos, alaranjados, numa imitao credvel do Inferno, a que no faltavam os fumos-de-mquina, a congregao chicoteava-se. Os instrumentos da flagelao tinham obedecido ao duplo requisito da virtude histrica e do design sugestivo. No era bem medieval a cena e no se podia situar em nenhum sculo particular. Era um tempo imaginrio, com uma intensidade espanhola, uma inteno barroca. Havia vergastas, chibatas, chicotes, uns mais sofisticados que outros. O Bento, empunhando um belo exemplar cujas pontas ostentavam

pequenas bolas de ferro, batia de bom grado no homem que Toms conhecera ao almoo - e que se chamava, de nome artstico, Antnio -, agora retorcido em esgares e gestos expansivos. E era por todo o lado um aviar de pancada, assestada no prximo ou nos lombos prprios, um ecoar de gritos, de gemidos, de imprecaes furtivas a chamar a ateno a outrem para os excessos do entusiasmo. Da galeria, tiravam-se fotografias e registava-se em vdeo. Bernardino teve vergonha e ficou porta. Baixou os olhos para as sandlias. Lembrou-se de repente dos colegas da Escola do Laranjeiro, da troa que faziam por ser o nico a us-las, desde o dealbar da Primavera ao assentar das notas dos exames. Surgiu-lhe na memria o refro do hino que lhe tinham feito no jantar do fim do ano lectivo esses garridos jovens prematuramente condenados docncia, com o ttulo As Sandlias do Professor. Associou vileza deste pensamento a pequenez do gestor Baptista e num soluo pensou que era tudo terra e p, vaidade, vacuidade, falsidade. Da, lembrou-se de outras vezes, de outras falas, e deixou-se cair, auxiliado pelo contraste entre a sombra em que se escondera e o clamor que lhe chegava da nave, em analepse profunda. - Vou contar-lhe um pouco da histria deste projecto - dissera Jos Baptista logo na primeira entrevista -, pode ser que compreenda melhor o esprito da empresa. A histria comeava uns dez anos antes, no seio de uma multinacional, a Burotics Inc., com sede em Tucson, Arizona, e filiais nas sete partidas do mundo. Abriu-se o ramo portugus com pompa e na circunstncia elogiou-se o esmero da companhia e louvou-se a iniciativa. No havia muito mais a fazer. Meteu-se pessoal. Formatouse o pessoal de modo a entrar na disciplina do comrcio larga escala. Mandou-se embora o pessoal que no servia. Poucos foram os escolhidos. Jos Maria Baptista, trinta anos feitos e todo vontade de vencer, ficou. Importante foi, disse o gestor, a maneira de ficar. No caso de Jos Maria Baptista, fora dedicao exclusiva desde a primeira hora. Era o primeiro a chegar, o ltimo a sair e levava trabalho para se entreter em casa.

- Sentia uma ocluso de entusiasmo, vibrava com o meu trabalho. Nada mais contava. Era toda a minha vida - dissera ele e Bernardino lembrava-se de se ter perguntado em vez de que outra palavra estaria ali a ocluso. Baptista divorciara-se pouco depois. Tinha ficado s com a companhia. Deitava-se tarde, dormia pouco, acordava ansioso por mais e mais facturao no departamento das Expedies. Um departamento difcil, minado de intrigas, quezlias entre secretrias, casos de amor falhados, ambies concorrentes, para no falar da permanente revolta dos materiais, desde os erros dos computadores ao desaparecimento de arquivos. Jos Baptista a tudo se dera todo. Meu objectivo nmero um era chegar ao topo, compreende? - e o Bernardino realizara que se lhe estava a contar uma histria moral. Ficara interessado, embora contrariado. Pela devoo, fora subindo na empresa. Chegara a dirigir o departamento. Esforara-se por manter os equilbrios. Puxar por uns, acalmar outros, no ter mais ideias do que as que sabia de antemo poderem ser entendidas por todos. Mas ardia por reformar. Altas horas trabalhava num plano de escalas inteligente, que encurtasse os prazos de entrega, optimizando os percursos e os recursos. E estudara a forma de... o implementar. A implementao correra bem, mas esgotara o homem. Confundira excessivamente os servios. Causara a catstrofe informtica em computadores de natureza conservadora. E a Cher Bureau acabara recebendo uma encomenda de quarenta mil contos em que nada do que fora entregue podia aspirar corresponder ao que fora pedido. O senhor Petitot, de Bruxelas, inflamou-se pelo telefone com este erro e fez pagar a chamada no destinatrio. O Presidente Walter viu-se forado a chamar o Baptista e a prlhe diante dos olhos os custos da operao de troca do material. Eram enormes. O director do departamento das Expedies sentia sorrisos sua passagem. Aplicou-se mais e mais e a aplicao parecia virar-se contra ele. Queria reacender a chama da confiana, a chama da boa impresso; escrevia relatrios exemplares e apresentava planos prudentes - era recebido com cepticismo ou ignorado. Aquele exlio

da graa dos superiores durou dois anos. A fora de horas extraordinrias, de atitudes exemplares, estava o Baptista prestes a saldar o erro original, e o Presidente Walter j comeava a olh-lo olvidado da grande perda que sofrera, quando o contactou o advogado de uma pequena agncia marroquina, reclamando de mais uma confuso na expedio de material. Era irnico, conclua agora o gestor, que tivesse pesado mais, no seguimento das coisas, esse pequeno erro com a agncia marroquina do que a voz telefnica do senhor Petitot, um dos clientes primordiais da Burotics Inc. Porque a reclamao do advogado marroquino fora uma espcie de sinal para que sasse do nada Lima avalanche de denncias, de injrias e de acusaes, dentro e fora da empresa. Havia corrupo e o Baptista andava a dormir na forma. Algum no seu departamento, debaixo da sua gravata aos patos, andava a desviar o material destinado a marroquinos, a gregos, a cipriotas. O Baptista continuava a procurar os equilbrios, eles que no se deixavam encontrar. Tudo lhe resistia. Tudo se virava contra ele, a morder a mo que tanto organizava. E, j no fim, quando o Presidente Walter em pessoa lhe entrara no gabinete acenando uns papis e exigindo uma explicao, o Jos Baptista, esmagado pela injustia do mundo e dos conglomerados, abatera-se sobre a secretria inteiramente ergonmica num choro convulsivo. Era o amor no correspondido pela multinacional que assim o magoava fortemente. O Presidente Walter estacara pasmado a olh-lo, incerto da atitude a tomar, e sara sem fechar a porta. Mandara a secretria cham-lo pouco depois, pedira-lhe que se sentasse e anunciara que o ia mandar de frias. - Frias? - gritara ento o Baptista. Informado do processo, o Presidente Walter conclura que, em nove anos de casa, o Baptista no tirara um nico dia de frias. - Adoro o meu trabalho - afirmara. - S lhe fica bem - dissera o Presidente, que levava o snobismo ao ponto de falar o portugus sem qualquer sotaque e sem enganos, usando mesmo aqui e ali alguns regionalismos -, mas de momento essa sua adorao s nos est a causar problemas. As frias somos

ns que obrigamos, somos ns que pagamos. Que que quer, campo ou praia? - Eu, sinceramente, prefiro trabalhar. No me calha, agora. Tenho assuntos pendentes. Dentro de um ms ou dois, talvez, podemos voltar a pensar nisso. - Estamos em Junho. Escolha o stio. - muito gentil. Mas prefiro no ir. - Temos de deixar de o ver durante um ms, seis semanas. - Um ms? - Para restabelecer a ordem. Ms e meio. Vai relaxar. - E o departamento? Mas o Presidente Walter pegava no telefone e pedia que o ligassem Paradise Lost. Apesar do nome, era uma agncia de viagens em Alcntara, que tinha a particularidade de se ter especializado em stress. Conhecia bem a tendncia do quadro para o excesso de trabalho que acabava por transform-lo no fantasma da empresa. Sabia tudo, o quadro, lera todos os dossiers, todos os processos, conhecia de trs para a frente o lugar dos documentos no arquivo; falava muito, muito depressa, no se calava nem quando lho pediam, nem quando lho exigiam. As suas vises de reforma tinham de ser ouvidas sem queixas e sem perguntas, porque ele se impacientava com a pasmaceira em que os outros se compraziam. Zangava-se com toda a gente. Sozinho, dava-lhe o asco do mundo e resmungava contra as traies dos falsos amigos. Tornava-se incompreensvel e lamentava-se de que ningum o compreendia. Um dia, metia o p na argola. Perdia um processo, punha um zero a mais ou a menos num cheque, tinha uma discusso violenta com um cliente mais afoito, deixava escapar, no entusiasmo, um segredo empresarial. Iam encontr-lo a bater com a cabea na parede da casa-de-banho, incapaz de perceber como que se abria a porta. Os patres ligavam para a Paradise Lost. Pediam o catlogo dos programas de Retiro. - Junho um ms complicado - respondia a funcionria -, no se imagina como o ms de Junho complicado, parecendo que no. Deixe-me ver.

No silncio que se segue, enquanto o Baptista envia uma prece sem destinatrio para que no haja absolutamente vaga nenhuma em lado nenhum, o Presidente canta baixinho para dentro do bocal uma moda popular. - Parece que ainda temos qualquer coisa nos Irmos de Cister. Ningum tinha ouvido falar, era um programa recente, em regime experimental. - perto - dissera a funcionria, sabendo que no era um bom argumento na filosofia das viagens tursticas -, e barato. Se o argumento da proximidade era um contra - sabe-se que quanto mais remoto for o destino da viagem, mais repousante ela -, o argumento do preo tambm no contava numa empresa que queria deduzir a despesa nos lucros. - o que temos de momento - conclura ela, e ficara espera. - campo, praia, montanha? Tenho aqui um caso muito grave de excesso de trabalho. A funcionria explicara vagamente que se tratava de um mosteiro muito velho, to velho que se podia considerar antigo. rude, tosco. ambiente familiar. estilo romnico. O Presidente Walter percebeu que ela lia por alto o folheto. A congregao dedicada ao estudo. Recebe hspedes, homens, particulares. Tem pomares, h um ribeiro. - Marque-me j um ms, seis semanas. - Posso levar algum trabalho para ir adiantando? - perguntara o Baptista, com a voz a tremer. - No leva tal. Saia. E levantava-se o turista, encaminhava-se para a porta, quando se lembrou: - E, Walter, aquela entrega urgente? As divisrias para as Canrias? s despachar isso e posso ir. - Vais-te embora j - disse o Presidente Walter. E no estava a brincar. Vemos agora, pelos olhos de Bernardino, o Jos Baptista especado porta do Retiro dos Irmos de Cister. Ao Baptista, cheiralhe a quartel, cheira-lhe a hospcio e a asilo de velhos. uma correnteza disposta em quadrado volta de um ptio onde secam os canteiros. As janelas de guilhotina, no rs-do-cho, esto pintadas de

fresco por cima de muito tempo e muito caruncho. O mosteiro, sablo- depois, no ali, mas ao lado. Como instituio, tem as suas tradies, as suas glrias, colonizou e civilizou as redondezas, notabilizou-se pelas habituais tropelias do poder enquanto o teve e por uma especializao em Histria imaginativa e de autolegitimao. Se estivesse apto a ser impressionado, o viajante teria, em olhando para a Igreja, visto ao que se chama a majestade de um monumento. Mas o espao imenso da nave e a altura da abbada s o fazem sentir mais culpado e mais perdido. Quem o responsvel por estas frias? Apenas ele, mais ningum. O seu fracasso, a sua vergonha. O homem das Expedies, o mesmo que imagina o percurso das suas mercadorias por terras alheias, na maior parte hostis, que as acompanha carinhosamente nos mapas, obrigado a deslocar-se em pessoa, para sofrer a humilhao das suas frias. Comprara dois livros, uma resma de revistas da especialidade e acabara a ler com ateno as regras para se ter acesso ao pequenoalmoo, impressas numa folha sebenta, pregada com toda a fora na porta do quarto. Mas ele ainda est em frente da entrada, a resma de revistas debaixo do brao, a mala pequena pousada a seus ps. No tem coragem de fazer soar a aldraba, para no ter de saber o que fica do outro lado. Muda as revistas para o outro brao, considera fugir. Toma pouco a pouco conscincia do seu corpo (isto interpreta Bernardino, porque o gestor dissera apenas que lhe pesavam as barrigas das pernas), a causa do seu desespero, e pensa que est bem arranjado se comea ainda por cima uma crise de tipo psicolgico. Toms Bernardino v agora o objectivo da narrao do gestor. Identifica-se com o desespero do homem diante da porta e com o terror do conhecimento do lugar do exlio. V que se assemelham os seus fervores, a mesma busca da sinceridade numa vida de outro modo mole e inexpressiva. Por isso compreende aquele pnico das seis semanas de cio, em que o Baptista, forado ao relaxamento, no poderia avanar com nada de verdadeiramente curricular.

- No tinha nada que fazer durante um ms e meio dissera o gestor -, nada de construtivo. Fico com pele de galinha, ainda hoje, quando penso nisso. Foi um momento difcil que durou alguns dias. Deixei de dormir. Comecei a beber. Os irmos do Retiro olhavam-me de lado e os outros hspedes evitavam-me. Era de prever. Todos eles quadros, habituados a drogas subtis, encolhiam-se quando viam ao longe o Baptista, incerto, descomposto, cambaleando nos claustros. Eles prprios no estariam bem de sade. O gestor dizia que os observava em grupos, a combinar almoos de negcios ou a discutir um novo projecto obtido por meio de uma insnia. Mesmo embriagado, Jos Baptista tivera o bom senso de se manter equidistante desses grupos. Os Irmos do Retiro tinham suportado at onde podiam os desmandos do Baptista. Um dia tinham-lhe dado a entender suavemente que no o queriam mais ali. - Procedimento pouco cristo - dissera o Bernardino. Jos Maria exagerava, Bernardino sentia-o, com intuitos pedaggicos. No se embebedara com certeza, nem de perto nem de longe, tanto quanto queria dar a perceber. O mais natural era que bebesse pouco, mas com a regularidade que lhe permitia alcanar um estado de anestesia controlada e uma certa flexibilidade muscular. Bernardino no acreditava em alteraes que tirassem a serenidade aos Irmos de Cister. E aquelas situaes em que, como dizia o gestor, ele se tinha transcendido, deviam estar includas no rol das ofensas que os monges estavam preparados para aceitar dos seus hspedes. Dizia o gestor que aps uma semana de tortura turstica, em que se incluram inmeras voltas ao claustro, visitas a igrejas, mosteiros, miradouros e a todas as atraces das redondezas, o horror ao vazio que o deixara especado diante da porta do mosteiro dera origem a um tdio que lhe tornava graves todos os gestos. Dormia dezasseis horas, dezoito horas, incapaz de sonhar, de acordar, sem que o pudesse divertir do poo negro o mais nfimo pensamento positivo. Para ali estava, a contar os minutos que me faltavam para voltar Burotics Inc. Dormindo, sonhava que me levantava e fazia todas as aces do dia. Acordado, nada fazia. Olhava pela janela. No era fcil, ou sequer til, distinguir o sono, da realidade.

- Sei como - dissera Toms Bernardino. - No sabe. muito... - ficou procura da palavra. Em sntese, o Baptista andava um dia s voltas no claustro, contando os passos, quando parou por acaso diante de um anjo. - Penso que fosse um anjo - disse ele - ou um arcanjo. - Qual a diferena? - perguntara o Bernardino, pronto impacincia. - So palavras diferentes, senhor Toms - dissera ento o gestor. - Anjo, arcanjo, so nomes diferentes. A que reside a diferena. Este arcanjo, conhece-o Bernardino de ginjeira, no tem um ar sereno. Parece um rapazinho injustamente sobrecarregado de umas asas de pedra. Fora ele a sugerir ao Baptista a ideia salvadora, a ideia de um grande negcio. - Que lhe disse o arcanjo exactamente? - O arcanjo no me disse nada, eu que congeminei a ideia de comprar o mosteiro com os irmos dentro, ou sem eles, logo se via. Mas primeiro correra de volta para a Burotics lnc., a propor-lhe parceria no empreendimento. O Presidente Walter olhara-o sem querer reconhec-lo; e ao reconhec-lo, levantara-se sem dizer uma palavra e acompanhara-o porta. - Seis semanas - dissera -, nunca antes das seis semanas. Jos Baptista metera-se no carro e voltara para o exlio. Mas vinha animado de um projecto cem por cento seguro. A ideia no era nova: germinavam, h anos, por todo o lado, os projectos cujo forte era a reconstituio histrica - aldeias do Neoltico, castros, citanias, vilas romanas, burgos medievais, cidades oitocentistas, em que andavam os cidados nas suas vidas como se nada fosse, enquanto os turistas aprendiam como se cozia o po, como se fiava o linho e quem fazia os tamancos. Um espectculo de frades, neste contexto, oferecia apenas a ligeira diferena que lhe permitia ser novo sem ser inteiramente novo. O Baptista no sabia era quanto podia custar um mosteiro. Frades calculava que haviam de sair baratos, se ele conduzisse bem o negcio. Tinha algum capital disponvel, acumulado nos anos desferiados e, para resumir, acabara por lhe custar mais o mosteiro

em tempo e subornos do que em contado, papel e selos fiscais. Comprara, enfim, a maior igreja de Portugal. Naves, abbadas, transeptos, de podre. Montou o espectculo. Os frades estavam experincia e ainda bem porque cedo se revelou que no tinham talento que bastasse para sustentar a ateno do pblico. Cantavam, certo, e oravam em Latim, e produziam esta ou aquela iluminura, mas as confisses eram de uma pobreza franciscana. No tinham oportunidade de pecar em grande aqueles homens, era sempre a gula, a luxria, a gula, a luxria, e uma falta de imaginao que fazia bocejar as bancadas. O Baptista compreendera que precisava de investir forte para que o projecto mudasse de escala. Era preciso limpar, restaurar, remodelar, redecorar; era preciso ver-se livre daqueles frades e contratar actores, por um lado, e estudiosos que lhe pudessem dar ideias, por outro. Ele queria autos-de-f, queria procisses encapuchadas, vergastadas, gritos e gemidos; queria encenaes emocionantes, exorcismos, converses sinceras diante do pblico. Queria milagres, curas dos paralticos, dos cegos, dos deprimidos. Compreendera, numa palavra, que faltava ao projecto dimenso artstica, e que essa era cara. Correra de novo ao Presidente Walter a buscar capital. Como tinham passado seis meses, ele recebeu-o. Como se encontrava de boa disposio, ouviu-o. Quis maioria das aces da empresa. Investiu. Jos Baptista ficara com a gesto. Juntara os Irmos de Cister e expedira-os para outro mosteiro da Ordem. Procedera ao recrutamento dos seus frades, aps colocao do tal anncio em peridicos mais afeitos a massagistas e astrlogos. Munido de algumas estampas medievais, ou que lhe faziam as vezes, em que se viam monges em diferentes atitudes, o Baptista escolhera por comparao uma dzia e meia de actores, professores e estudantes - e um padeiro - que lhe pareceram de todos os mais prximos da fisionomia de religiosos idealizados. Foi assim que entraram o Bento e o Toms Bernardino numa vida que no tinham rosceas, capelas, absides, Pilares, claustros e deambulatrios, celas e refeitrio, era tudo dele. E estava tudo a cair

sonhado. Mas, por outro lado, quem que sonha vir a ser professor de Histria? Mal por mal, antes o mosteiro. E ali estava ele agora porta, recolhido, embalado nestas recordaes e no canto dos colegas que descansavam do chicote. Rapidamente se fazia o balano da sua vida. Toms Bernardino tomara a seu cargo o estudo da Teologia, embora no tivesse nascido em Terras de Bouro, nem descendesse de famlia rural de treze filhos em que algum lote excedentrio fosse doado por tradio Igreja. Adolescente, Bernardino tivera os seus problemas com a divindade e metera-se sozinho especulao. Discutira com as autoridades. Perdera a f na Igreja. Enveredara pela Histria, talvez procura dos vestgios do progressivo e misterioso desaparecimento do alegado Criador de todas as coisas. A famlia de Toms Bernardino era respeitvel, ainda que liberal. Alegrava-se daquele varo e de tudo o que lhe dizia respeito, fosse o ter boas notas, dizer o seu palavro, envolver-se em acidentes de automvel ou, no extremo, estudar Lnguas, Teologia ou Histria. Andou o Bernardino pelas Faculdades assim favorecido pela bonomia parental e houve uns ,anos em que esse favor se derramara sobre os seus actos e lhe dera a impresso de que o mundo se lhe estendia numa bandeja. Mas insensivelmente porque foi de facto insensivelmente, Bernardino comeou a deslizar para dentro da msorte e legtimo que tenha reparado, e se tenha afligido. Afligia-se com o amor, o saber, o poder, com o correr do mundo, com a magna questo da alma. O negcio da famlia despenhou-se, quanto mais se entrava na Europa mais definhava a fiao, o pai apanhou um cancro, a me morreu de medo de que o pai morresse e o pai, sobrevivendolhe uns dez anos, curava-se de umas doenas para cair nos braos de outras. Bernardino achou-se um dia, sem saber como, professor de Histria na Escola Secundria do Laranjeiro, com pouco mais em seu nome que a casa velha de Alenquer e um volkswagen novo. Depois vira o anncio do Baptista. Pondera, finalmente, se valer a pena juntar-se aos irmos que, no Coro, cantam, serficos e ps-prandiais, um Te Deum em playback. Enquanto pondera, j caminha para l. O Bento, o nico que

est treinado para dormir em p, imita, no pausado das respiraes, os compassos majestosos do canto. Abrindo e fechando a boca, o Bento dava-se a entender como o mais laudante e entretido dos frades - e se no fosse o sobressalto estremunhado com que recebeu o Toms, ningum se teria apercebido do atraso. O espectculo era de apresentao recente e viera substituir uma experincia de sesses de cpia e iluminura. Jos Baptista cedo se apercebeu de que os turistas debandavam ao fim de um quarto de hora, procura do bar do mosteiro. E embora o consumo de refrigerantes equilibrasse o oramento, o gestor sabia que, no longo prazo, esta era uma estratgia auto-destrutiva. Disse de si para consigo que a cpia de manuscritos poderia constituir uma pea educativa de um curso de Histria de Arte - e considerou comercializar as sesses em vdeo -, mas no era com certeza um espectculo no sentido estrito do termo, o nico que realmente importa. Pedira auxlio sua e imaginao de outros e montara este canto coral, que no exigia qualquer formao profissional e era s pr o disco a tocar na sacristia. Para ser tudo perfeito, era um nmero que parecia encantar os visitantes. Marques, escolhido pelo Baptista para capataz da empresa, seria competentssimo na liderana, mas tinha uma falha no seu sistema de trabalhador assalariado. Quando aprendia, era para sempre. Mas, enquanto no aprendia, dava a impresso de que nunca chegaria a aprender. Por isso, sem despegar os olhos, seguia como um co o canto na pauta, onde cada compasso era acompanhado de um boneco que indicava a exacta medida da abertura e do fechamento da boca. A chegada de Bernardino no alcanara perturb-lo mais que um instante. - O Baptista disse - murmurou Toms ao ouvido do Bento, mais por ser um ouvido que por ser do Bento - que eu desrespeitei a verdade histrica. - E fez muito bem - cantarolou o Bento -, a verdade histrica uma grande treta. - Diz que lhe foram dizer que eu estava possesso e que falei em vdeos e em telediscos. Gostava de saber quem foi a besta.

- O Baptista um director moderno - disse o Bento escolheu- de todas as actividades da vida religiosa, as que mais aptido tm para se transformar em grandes encenaes do esprito de todas as pocas. A auto-flagelao, a prdica inflamada, os cortejos coloridos, as procisses, os cilcios, as prostraes, o exorcismo, os sacrifcios vista de todos, l uma vez por outra uma grande comezaina, a confisso pblica... O Bento deixara para o fim a confisso pblica por duas razes. Primeiro, tratava-se de um tema a que Bernardino era particularmente sensitivo - fora a sua confisso extremada, fora de programa, que motivara mais esta querela com o gestor -, e em segundo lugar porque o Bento era, ele prprio, nada menos que um perito nessa modalidade de ritual religioso. O Baptista chegara a cumpriment-lo vrias vezes por isso mesmo, mostrando-lhe a relao estatstica ntida entre as suas mais vvidas confisses pblicas e os almoos dos turistas no refeitrio do mosteiro. que o Bento ensaiava confisses que se detinham, com pormenor tal, nos aspectos gastronmicos, arrependia-se da sua gula to meloso, to deliciado, que os visitantes largavam a correr para o comedouro ao primeiro toque da sineta, para se empanturrarem e pecarem at carem redondos de indigesto. Bernardino recorda as directivas internas para as confisses pblicas: temas que interessassem o comum dos mortais, sexo, violncia, pecados modernos; uma especialidade para cada colaborador, para que se pudessem preparar com seriedade. E, como que por uma espcie de comunho teleptica, o Bento acaboulhe o pensamento: - Lembre-se das confisses do Parece, so verdadeiras obrasprimas de masoquismo, so de antologia. Se o Baptista se desse ao trabalho de as analisar bem, havia de concluir que cresce proporo o nmero de turistas que se deixa atropelar sada do mosteiro depois de ouvir os delquios do Parece, nos dias em que ele est mesmo a srio. O que vende o sofrimento, isso que vende como pezinhos quentes.

- E a confisso em privado, de boca a ouvido, como Deus quer? A assistncia aos pobres? A vocao da fraternidade? - perguntava o Bernardino, elevando temivelmente a voz. - A contemplao da obra divina? A verdade histrica requer essas actividades, que eram as principais... - A principal - interrompeu o Bento, fora do compasso era encher o bandulho, sempre foi. conhecido. Por isso que eu me queixo dos almoos. Eles que desrespeitam a verdade histrica. - E os votos de pobreza, de castidade, de estudo, de obedincia? A penitncia pelos pecados do mundo? Praedicatio, oratio, contemplatio! - Amigo Toms - disse o Bento _, baixe l a voz, daqui a nada est o Marques a levantar os olhos, e somos ambos corridos da Ordem. De resto, se voc tem senso comum, logo compreender que o Baptista no podia anunciar um espectculo de contemplao... O Marques virara a ltima pgina e fazia o sinal combinado. Mais trs compassos, boca aberta em , boca semi-aberta, boquinha e estava pronto. O pblico acordava da letargia em que a msica, combinada com o calor, os tinha deixado e saa a arrastar os ps e a despegar a roupa do corpo. - No foi mal, mas ainda estamos pouco soltos - disse o Marques, em forma de apreciao global. - Mas para a prxima no quero ouvir zumbidos nas fileiras. Ests a ouvir, a atrs, Bernardino? A questo da verdade histrica, que preocupava presentemente Toms Bernardino, muito mais abrangedora e muito mais densa do que ele poderia imaginar. De modo que, quanto mais pensava nela e lhe dava as suas voltas, mais lhe dava que pensar e mais lhe parecia ficar por pensar. Conhecendo a forma peculiar do pensamento de Toms Bernardino, a saber, a sua imbrincncia na vida comum, plausvel que fosse, de facto, a indeciso a impeli-lo aos excessos de zelo que o Baptista deplorava. Toms Bernardino no duvidava s do gestor. Duvidava de si prprio, da justeza dos seus ideais. A experincia mostra que o pensamento muito fugaz. Quanto mais o perseguimos armados da pura concentrao, do amor pelas respostas, mais ele se evade e se exprime em enigmas, em frases

soltas, em ditos ambguos, deslocados. Era assim que, ao primeiro espectculo de sexta-feira, uma sesso de interrogatrio do Santo Ofcio - na segunda parte havia tortura - em que o Bento fazia no muito credivelmente de cristo-novo, passavam como relmpagos na mente de Toms Bernardino estas frases desconexas: - Tambm So Bernardo foi um dissidente! - E, da a pouco: Correr os vendilhes do Templo. Onde que isso estar na Bblia? - E, depois, sem relao aparente: - A autenticidade tambm vive do auto-sacrifcio dos actores. O que ele quer ... - E, noutro repente: Gestos verdadeiros levam a actos verdadeiros, gestos verdadeiros levam a actos verdadeiros... E esta frase repetia-se desnecessariamente. - o circo, isto um circo, no h dignidade. H ainda outra questo abrangedora e densa que preocupa igualmente Toms Bernardino, e ela a questo dos despedimentos. Ressalve-se que, enquanto tinha pouca conscincia do seu papel na cadeia assalariada e desconhecia as maiores vicissitudes do mundo do trabalho, Toms Bernardino trazia muito presente a noo da Escola Secundria da Laranjeiro. E se o Baptista corporizava o Mal, corporizava-o ainda mais, para o falso monge, devido ao facto de que a alternativa ao Mal fosse o ensino da Histria. - Um dos mais altos flagelos do nosso tempo a esperteza disse para si o Bernardino , a esperteza saloia. Para ela nada sagrado. Nem mesmo a verdade histrica. Vender bilhetes uma coisa, pensava ainda, e ficar nas galerias da Histria como autor de uma representao rigorosa, outra coisa bem diferente. E a desgraa estava em que no se podiam as duas perspectivas confundir, misturar, sequer complementar. Elas excluam-se por natureza. Preocupa-o, ento, o despedimento, no do ponto de vista do desemprego, nem da pobreza - Bernardino, sem o saber, considera que merece ser pobre , mas porque insuportvel a vergonha da derrota. Ele e o Baptista, o monge do esprito e o gestor do espectculo, encontram-se agora em combate de tits. Toms quer monges vernculos, que possam repetir ponto por ponto os rituais.

Considera que seria til para o espectculo, porque acrescentaria essa dimenso espiritual a que se chama qualidade, e mais enriquecedor para todos. Ofendia-o a distoro a que o Baptista submetia todos os fenmenos e aquela nervura central do esprito da poca que perdoa a mentira se ela tem um fim lucrativo. Da ltima confrontao - como Bernardino gostava de lhe chamar na memria lisonjeira que lhe ficara - com o Baptista, Toms reservara muito pouca da simpatia que tivera pela experincia aventurosa do gestor. O que crescia, com a passagem dos dias, era a raiva que lhe tinha. Raiva, porque o Baptista se julgava protegido pela nica verdade, o nico valor, o do sucesso do empreendimento, a que havia de sacrificar lobos e cordeiros e o que fosse preciso. Andou ali uns dias tem-te no caias, muito amuado com a poca que lhe calhara na rifa, e ora faltava aos servios, ora ia e no cantava, nem respondia quando lhe perguntava a San- ta Inquisio cousas do foro ntimo. Ficava embatucado, a remoer. No de estranhar que pensasse agora o Bernardino numa forma vindicativa que levasse a melhor sobre o Baptista, demonstrando ao mesmo tempo a superioridade da sua concepo. Mas a vingana no ser uma modalidade criminosa simples. muitssimo subjectiva. Fundamental na vingana que o objecto do dio tenha a perspiccia de dar por ela. Se cremos que nos vingmos e o outro prossegue na sua vida bonanoso, indiferente, ento no nos vingmos. Isto implica um conhecimento profundo do sujeito de quem pretendemos vingar-nos. Mas o que o nosso conhecimento do outro seno um caos de interpretaes, de pressupostos, de hipteses, de mal-entendidos, pousados eles mesmos sobre uma srie de omisses, de mscaras, de silncios, de vazios? um estranho conhecimento, uma quase ignorncia. No o medo da retaliao que nos impede a vingana. este seu aspecto contingente. Se Toms Bernardino tivesse outro temperamento, havia de querer o acaso deixar tomar conta dos seus ajustes. Mas, como foi o leitor imagin-lo? Duro, seco, srio. No ser o prprio exemplo da coragem, mas combativo, discretamente, intimamente -o. Agora apenas consequente que se queira vingar, e logo do Baptista,

principal espinho da sua conscincia, causa primeira das suas dvidas - em Baptista do tempo que ele se vinga, das coisas que ele mata. E sem mais pensamentos sobre a natureza da vingana, Toms Bernardino passou ao acto. Joo Fortunato, dito o Bondoso, era o nico empregado que se fazia passar por uma personagem histrica mais ou menos real, no caso, Bernardo de Claraval, fundador da Ordem de Cister, mas velozmente mudado num gnero de Savonaro. Ia, deitando sermes inflamados do plpito aos cristos tursticos que de baixo lhe recebiam com palmas as ameaas. So Bernardo, que fora o Doutor Melfluo fora da sua grande eloquncia, sofria aqui o tipo de adaptao histrica que o Baptista preferia. Falava num jargo bblico que o gestor garantia como seiscentista, traduzido em diversas lnguas, e macarronicamente por uma rapariga poliglota recmformada, para dentro das orelhas dos clientes, invectivando os irmos que andavam a pedi-las, outros que se no comportavam em circunstncia alguma altura da sua Humanidade e deixando cair, mas isso j dependia dos humores do Fortunato, alguma sugesto inquisitorial, alguma rosnadela persecutria, remotssimas todas das verdadeiras intenes do pobre So Bernardo e do sculo doze em que ele viveu. Esta sntese entre os lugares comuns do barroco e o nome de So Bernardo pregava, com extrema teatralidade, sermes ao sbado ao fim da tarde. Nesse dia o pblico ostentava no seu seio um padre vestido a rigor, e no se sabia se j fora integrado na representao. A ser actor, era espantosamente discreto, mantendo-se silencioso e atento, de mos postas no regao, a ouvir o sermo que lhes pregava o Fortunato. Comeava sempre da mesma forma: - Pecadores! Eu j vos tenho falado das labaredas do inferno onde caireis desamparados, longe do olhar misericordioso de Deus. O Inferno, meus irmos, que Deus voltou de ns a sua Face resplendente; nosso Pai abandonou-nos, vivemos na escurido, vivemos na abjeco, vivemos na ignomnia, vivemos na vileza dos instintos. Que podemos fazer agora que o Senhor nos lanou dele? Que fizemos ns? - Depois do silncio, em crescendo: - Hipcritas!

Bancai de inocentes, sim, bancaaai! O Senhor rejeitou sobre ns as suas pragas, as pestes, as doenas... Dos irmos, ningum ouvia. Havia uma dvida sria sobre se pagariam na prxima segunda-feira. Bichanava-se sobre o Monteiro da secretaria, dizia-se que teria fugido com o dinheiro. O Bento que, pelo hbito, dormia muito bem embalado nos sermes do Fortunato, e a quem roa tambm a dvida do salrio, notara a agitao do Bernardino. Suspirou e deitou-lhe o canto do olho. Viu como o outro retorcia as mos, como lhe tremiam as lgrimas nas pestanas, e fungava, e estremecia, numa representao quase to excessiva como a do prprio Fortunato. Pecadores, eu vos digo que vos arrependais, chorai e arrepelaivos, de rastos e de joelhos rogai, implorai o perdo que no mereceis... - e, depois que um claro artificial, ajudado por um estrondo bem mais dbil do que fora pretendido, iluminara a roscea numa sugesto de trovoada - a voz do Senhor, no temos perdo! Quando, passadas algumas invectivas amargas, o falso So Bernardo derivara das retricas um pouco do pecado para entrar na inveno duma parbola, a parte mais esperada dos seus sermes, viu-se Toms Bernardino estremecer, cerrar os olhos e palidamente ranger os maxilares com um gemido, no muito abafado. Um dia, andava Jesus na Galileia... e levanta-se o Bernardino, mas ningum ligou, salvo o Bento, que o obrigou a sentar-se com um puxo. Desamparado, T(--)ms sentou-se de novo e o Bento voltou a tentar adormecer. Nunca se pudera compreender a popularidade destas parbolas do Fortunato, que eram ininteligveis, no s por serem ditas numa algaraviada de fabrico prprio, como porque o sentido delas no era obscuro maneira das parbolas, mas era obscuro maneira do desconhecimento delas. Acabada a parbola, Joo Fortunato considerou poder avanar para as admoestaes finais, e avanou. - Pecadores - perguntou -, porque disse o Senhor no pequeis quando nos sabia fracos? Porque disse o Senhor sede bons, quando nos sabia maldosos?

Claro era apenas que a formao teolgica de Joo Fortunato deixava muito a desejar; e tudo o que ele dizia, envolto nas pregas de uma capa de tafet vermelho, estava do princpio ao fim eivado de heresias. Era nisto muito moderno, acusando a divindade do defeito da mercadoria, como algum antigo cliente da Burotics Inc. que reclamasse da entrega. - Que pecado afinal o nosso? Somos gananciosos, Senhor, verdade. Curvamo-nos diante de Ti. Batemos no peito. Mas a Tua obra divinamente apetecvel, e Tu deste-nos o desejo dela. Ns queremos as guas dos rios, os peixes dos rios, as rvores das florestas, os animais das florestas, o ouro das minas, as espcies da ndia, e tudo de paragens remotas que nos espicaam a fantasia, e logo as queremos ter. E para as possuir preciso extrair, cortar, arrancar, desenterrar, explorar, despojar, colher, matar, sacar! Queremos ter, Senhor, ter a Tua obra! Fomos feitos assim, ns, pecadores, feitos no cu, pelas Tuas mos. Uma sede de possuir a obra belssima da Tua criao, Senhor, eis o nosso nico pecado! Toms Bernardino levantou-se de um salto. - O nosso nico pecado - gritou - a falta de sinceridade. Para explicar o que segue, temos de dizer que se estava depois do almoo. E embora a antiga Disciplina dos Monges fosse clara quanto alegria que devia existir antes de comer e gravidade e circunspeco que se devia ostentar depois, para no dar a impresso de que o bever nos squeentou e espertou o falar, por o pecado da gargtoice, o facto que o Fortunato se chegava sempre mais ao tinto quando tinha sermo. De maneira que, confrontado ao improviso do Toms Bernardino, tomou-se de brios depois de um leve momento em que a perplexidade lhe inclinara a cabea e arredondara os olhos e aceitou o repto. - Quem se atreve assim, mpio, a interromper a palavra do Senhor? Quem ousa, herege, infame, sandeu e fariseu, interpelar aquele que, inspirado, fala a verdade... O Bento acordara tarde de mais, j Bernardino se chegava ao plpito e intentava apear dele o Bondoso. Joo Fortunato olhava ao redor, intrigado. Esperava um sinal dos cus, um sinal do Marques,

para saber se havia de resistir e armar uma batalha campal, se devia aceitar ser substitudo no alto ofcio por este pregador que se lhe agarrava capa e estendia as mos para o estrangular. Toms no se calava, chamava-lhe hipcrita... Caindo o Fortunato de escantilho, virou-se o assaltante para o pblico como se uma angstia horrenda o estivesse sufocando. Fez uns gestos em branco. Na igreja, o pblico, silencioso, esperava. Toms afastou um pouco os braos do corpo, como se quisesse enxotar algum animal suspeito, e disse baixo: - Podem ir, acabou o espectculo. E como ningum se mexia, excepto o Fortunato que se sentira interferido e fizera um gesto para retomar o seu posto, Toms continuou: - Ns somos falsos monges. Nada disto real. Ou melhor, real, mas no verdade. Desceu do plpito. E, de repente, sem qualquer aviso, caiu de joelhos e prostrou-se aos ps de um suo que deu um salto atnito rectaguarda. Esboou um gesto vago, humilde, de levar a mo carteira, no bolso de trs dos cales, mas pensou melhor e sorriu para o Fortunato, embaraado. Bento dizia depois, de cotovelo apoiado no balco do bar a beber uma cerveja, que Toms fora tomado de uma urgncia de comunicar. Falara da sua infncia, de incidentes sem valor. Depois entusiasmara-se, e fizera o seu sermo da autenticidade. Insultara como papalvos e burgueses embasbacados os turistas que ouviram tudo o que ele quis dizer. No final, Joo Fortunato decidira agir para proteger um americano que Toms empurrava sua frente pela nave. Acenara com autoridade a dois monges da linha da frente, um a que chamavam o Parece e outro que tinha umas semelhanas com as pagelas da catequese em que Jesus era loiro, de olhos azuis e um tanto amaneirado, e ordenou: - Levem-no! Eles avanaram como se nunca tivessem feito outra coisa na vida, apanharam o Toms Bernardino cada qual por seu brao e arrastaram-no para fora da igreja. Conhecendo por experincia que a ausncia do protagonista queria normalmente significar o fim do espectculo, um dos visitantes ps-se a bater palmas e todos o seguiram, em conformidade. Escondido pelo

reposteiro de veludo carmim da sacristia, o Baptista assistia, com sentimentos pouco lmpidos, actuao do artista. - Voc est a definhar - disse-lhe o Bento uns dias depois. - No nada comigo, como dizia aquele outro, mas eu c se fosse a si, ia-me embora. Este emprego est a mat-lo, v-se a olho nu. Toms Bernardino sentara-se a um canto do claustro e chorava. O Bento, interessado nele da forma mais geral que toma o interesse dos gordos pelos magros, seguira-o de longe, curioso e motivado pela ambio paracientfica de presenciar a manifestao do religioso e os sintomas singularmente parecidos ao quadro manaco-depressivo que ela provoca. - Despea-se, v para casa. Se no est de acordo com a orientao da empresa, se no lhe agrada o trabalho, se no aceita... - No recuso nada - dissera o Bernardino -, no recuso e no aceito. - Mas isso uma soluo muito original - rira-se o Bento. - No me diga que est convencido de que um espinho no p do sistema? Um osso de galinha atravessado na garganta do gestor? O Bento, posto o ser encantador, tinha uma particularidade nefasta, que tambm tem direito a ela. Quando achava muita graa, no era capaz de ter um riso para o exterior; parecia que lhe ficava todo nos pulmes. Bernardino assustou-se com o rumo que a cor do Bento estava a tomar, que era em direco ao roxo, mas mesmo assim respondeu: - No sei o que serei, Bento, mas no aceito porque no posso aceitar e no recuso porque a minha recusa s me condena a mim. Em termos prticos, assim. - Mas uma surpresa enorme, voc ainda est lcido! No aceita e no recusa, o que significa que anda a empatar o trabalho dos outros, no sei se ter pensado nisto desta maneira. Eu tambm no aceito e no recuso, mas aceito mais do que recuso, por isso no causo problemas a ningum e ningum chega para me criar problemas a mim. Mas voc acha que a soluo adequada insultar os turistas que nos do de comer? Empunh-los pelas camisolas e corr-los a pontap do templo, como eu sei que voc gostaria de

fazer? Ser a soluo andar a gritar pelos corredores e a incomodar as pessoas com a ideia do Juzo Final? De facto, nos poucos dias anteriores, Toms Bernardino resolvera-se a incorporar uma certa conscincia histrica e treinavase na coerncia. Era agora um anacoreta misantropo, endurecido pelas privaes, que descera ao povoado para alertar os homens para o cataclismo, o que fazia perguntando-lhes queima-roupa: - Se agora houvesses de morrer, farias isto que fazes, dirias isto que dizes e pensarias isto que pensas e cobiarias isto que cobias e queres? Interditos se entreolhavam os visitantes, de instinto agarrados s mquinas fotogrficas. No sabiam o que responder, ou mesmo se era caso de responder ou antes esgaravatar um pouco no solo, como fazem as galinhas quando se sentem embaraadas e precisam de pensar. Alguns visitantes tomavam ofensa. Um argumentou que o que ele fazia ou no fazia com o seu tempo e a sua alma no era da conta de um mongezeco miservel que no devia ter os cinco alqueires bem medidos. E quando ele passava, rasando as paredes, ou se punha, de imprevisto, a recitar passagens tremendas do Antigo Testamento, havia um burburinho entre o pblico, que tinha a sensao de que alguma coisa estava, de facto, acontecendo. Mas o que interessava em todo esse aparato, que Toms Bernardino em menos de nada se transformara numa personagem muito castia. - Quem aquele ali? - perguntou, limpando o nariz s saias. O Bento olhou. - No ningum - disse ele. - Um tipo qualquer a tirar fotografias ao anjo. Era o anjo do Baptista, o que lhe tinha sugerido a peregrina ideia de comprar o mosteiro. O Toms est agora tambm diante dele, espera. E a revelao d-se, embora o falso monge no compreenda muito bem o que lhe diz. Que os meios justificam os fins? Que no vale a pena lutar? O ridculo da sua situao? O inescapvel da sua situao? Que deve aceitar e cantar em Play-back? Que a sua recusa pode ter algum peso?

Para

revelao,

foi

deveras

confusa.

Uma

coisa

apenas

transparece claramente, a necessidade de se confessar, de se abrir inteiramente com o Jos Baptista. E j no o galarote assustado e revoltoso que se senta diante do gestor, mas o homem maduramente torturado pelas complexidades, que procura a absolvio sem estar contrito. - Dou-lhe os meus parabns - comeou o Baptista perigosamente sorrindo. - No fazia ideia de que o Toms tivesse tanto olho para o negcio. Eu assisti ao seu improviso, aquele dia, na igreja, e deixe-me dizer-lhe que fiquei um pouco cptico. A argumentao moral um assunto muito tcnico, pouco acessvel ao pblico em geral. Mas a sua encenao foi de tal modo impressionante, que eles responderam logo positivamente. H mercado para isto, Toms, voc viu isso muito bem. Toms Bernardino vinha na inteno de conversar. Sobre os seus problemas, as suas dvidas. Recorrera ao Baptista porque ele era, na sua imaginao, o outro que era preciso apaziguar para que ele mesmo tivesse sossego. Vinha na esperana de que um dilogo todo ddiva pudesse tornar o homem mais humano. Enfermando desta perspectiva, o anacoreta no pde compreender a fala do Baptista e piscou os olhos, e desejando que ele tivesse querido significar apenas um elogio, um elogio toa, disse: - Naquela tarde eu soube de certeza que estava tudo errado. Claro e resultou muitssimo bem. Da para c tenho acompanhado a sua carreira com interesse e penso que melhorou consideravelmente. A representao na igreja foi ainda muito contida, demasiado subtil. Sabe que eles gostam de muitas lgrimas, muito suor, muito rebolar de olhos, muito cuspo... Toms Bernardino ps-se a chorar. O Baptista tambm se comoveu. - Sei que tivemos as nossas divergncias, e que eu cheguei a desconfiar da sua capacidade para o lugar. Mas estava enganado e apraz-me diz-lo. Depois de um silncio, continuou:

- O senhor Marques anunciou-me que deixar a empresa para o ms que vem. Penso que o Toms ser o homem indicado para o substituir. Por entre lgrimas, sorriu Toms Bernardino ideia de ser capataz do circo dos monges do Baptista. Quem sabe se poderia estar em melhor posio para realizar algumas reformas? Teria mais poder para convencer o gestor da necessidade delas? Conseguiria torn-los a todos mais autnticos? - No precisa de abandonar as personagens que criou. O anacoreta tem um sucesso enorme. Oio as pessoas sarem daqui a discutir, a sua interveno f-las pensar.. importante, diferente. E h mercado para isso. O Bento seria o primeiro a despedir-se. Ao contar-lhe, cheio de energia renovadora, os seus planos de reformulao global da empresa em quatro fases, o Bento rira-se. - Mas isso assim vai ser preciso trabalhar muito mais! Era preciso trabalhar mais. Toms erguera-se, ajeitara o hbito em toda a volta. E inclinando levemente a cabea, sem aceitar, nem recusar, abandonara o gabinete do gestor.

A Janela da Despensa como Argumento MoralA primeira coisa que embateu nos olhos de Luisinho ao entrar foi a mesa relhena. A grande mesa oval, bem assente no meio da sala, a transbordar de doaria e delicadezas. E enquanto os outros midos se atiavam uns contra os outros e saltavam aos gritos por cima dos sofs, Luisinho fora o singular a ir direito ao que mais o comovia, e especado diante da mesa posta, religioso ficou a deixar entrar pelas retinas toda aquela pompa e grandeza. E viu, destacada do todo, antes do mais a taa de cristal, redonda, muito trabalhada, da musse de chocolate coberta de nozes; a seu lado, o monumento da tarde, um bolo imenso de claras com morangos e natas batidas, camadas de diversas naturezas sobrepostas, todas elas boas, todas elas harmoniosas, conjugadas num macio cilindro branco que fazia sonhar; vinham depois, deitadas num prato de porcelana chinesa, por cima de uma suspeita de luta entre drages, as cornucpias, recheadas com doce de ovos. Quase se embaciam os culos do Luisinho ao contemplar as taas de gelado feito em casa, na mquina de manivela, com sabores de caf, de morango, de chocolate, de natas, dispersas sobre a mesa, quase livres de irem para onde lhes apetecesse, mais para junto da travessa dos rolinhos de po-de-forma com atum e maionese, mais para longe do bolo de anans enfeitado com ziguezagues de natas, por baixo das quais se sabia estarem um po-de-l que no podia sem exagero ser mais amarelo e um creme de manteiga pecaminoso. Desfalece o corao de Luisinho, imune ao caos infantil a que na sala velozmente se chega, ao passar os olhos sobre os trs pratos grandes, cama real das sanduches aparadas, com fiambre e fuagr autntico. Recapitulou, saltando a bandeja dos biscoitos de manteiga, que comida de mido, e o palhao de gelatina, transigncia inaceitvel ao paladar selvagem. E demorou-se com prazer no bolo que ele j conhecia, musse cozida no forno,

coberta de chocolate. Na mesinha de apoio, em formao cerrada, os jarros de limonada com muito gelo, sumo de laranja para os menos exigentes, ch gelado e mazagr para as mes. Luisinho saiu do devaneio com a miudagem a chegar-se mesa. Teve um repentino movimento de irritao e afastou, em dupla cotovelada, dois rapazinhos gmeos, que repetiram o assalto. Luisinho acabou por se render evidncia de que o arranjo perfeito daquela mesa seria, da em diante, no mais que uma lembrana. Os brbaros atacavam as sanduches, davam cabo do palhao e descompunham o bolo de claras. Mas reconfortou Luisinho pensar que chegara o momento da consumao. Lanou a mo aos rolinhos de atum e, de olhos fechados, alheio agitao da sala e das mes que ofereciam delcias em altos brados, mastigou com extrema uno o po e os recheios, uma, duas cornucpias, uma fatia de bolo de claras que passara inspeco da me, uma fatia de bolo de anans, um bom pedao de bolo de chocolate, este j na completa clandestinidade, e quando, absorto, avanava para a musse, coroao de uma primeira volta abenoada, sentiu antes do mais uma sapatada ligeira nos dedos, depois o olhar reprovador: - J chega! - disse a me -, o Luisinho rebenta. Confuso e envergonhado, o menino ainda capaz a vontade muita - de balbuciar que no chegou a comer musse nenhuma. - Tenho estado a ver - disse a me -, e acho que j chega. Lembre-se do que lhe disse o doutor. - Ora - disse a me do aniversariante -, um dia no so dias. Luisinho, a quem a injustia feria para alm das palavras, manteve-se firme, de barriga encostada mesa, inamovvel, espera que algum cedesse. Olhava um a um todos os outros, demorando-se com desprezo num pequenino a quem a me enfiava o bolo de chocolate na boca colher a colher, que ele comia enjoado, contrariado! Outro deixara no prato a fatia quase inteira do bolo de claras e entretinha-se a esfaquear o palhao. Se lhe perguntavam porque no comia, respondia que no gostava! No gostava de bolo de claras com morangos! Luisinho, incrdulo, corria os olhos de um para outro e todos lhe pareciam estranhos. Loucos!

- Est gorducho, sim, mas to engraado... - dizia a amiga da me. - E esperto que ele - dizia outra. - E bonzinho - disse outra voz. - Que sorte - comentou a amiga da me -, o meu um castigo para comer. Ainda ontem tive de lhe ir fazer uns ovos mexidos... - e o resto da histria perdeu-se no zunzum da sala. Mas quanto ao assunto em referncia, a saber, autorizao para avanar para a musse de chocolate, ou mesmo para um biscoito de manteiga bem negociado, nada se conclua. - O mdico diz que no pode estar to gordo - disse a me. - Fazlhe mal. At psicologicamente. - Ele logo emagrece, quando crescer - disse algum. Luisinho no tem fome. Tem vontade de comer. Tem anseio, desejo. Sente falta. A barriga estava cheia, no se tratava de encher a barriga. Isto nele era uma devoo, no era pecado. Quieto junto mesa desafiava a me e a conscincia. Esperou que ambas se distrassem, para que o instinto prevalecesse. Os saciados foram abandonando aos poucos a mesa do lanche. Luisinho e me ficaram ss, frente a frente. - E um biscoito, posso? - quis ele saber. - Mais nada, j chega. - sempre a mesma coisa - resmungou o menino toda a gente pode comer menos eu. E amuou, visto que no lhe restava mais nada. Sentado nas escadas de pedra do jardim, o magro papo-seco com uma rstea de doce de ginja amorosamente encerrado na palma da mo, Luisinho olhava para a estrada. Esperava, como todas as tardes pela mesma hora, que a Bibi passasse, a caminho de casa. Ouvia o restolhar das galinhas na capoeira, de vez em quando a excitao do galo que carregava sobre elas sem pr-aviso. Da a pouco, o som mole de uma ameixa a esborrachar-se no cho. A Bibi vinha cansada de subir e deixou-se cair no degrau, sem flego. O Luisinho deu uma viril dentada no po e ficou a aguardar.

- Ds-me? - perguntou a Bibi. O Luisinho estendeu-lhe um cantinho do seu lanche, demarcando com os dedos a quantidade de po que ela podia tirar. - O que que foi o almoo? - perguntou. - J nem me lembro. Uma porcaria qualquer. Bifes, acho eu. Sou capaz de comer trs bifes. A minha me fica doida. - Trs bifes? E ela deixa? - Que remdio - disse a Bibi. - Eu s fao o que quero, pelo menos o que a minha me diz. Atravessou o esprito do Luisinho uma pergunta tremenda: seria possvel desobedecer me? Possvel era, com certeza, visto que havia quem dissesse que o fazia. Podia haver at quem o fizesse de facto. Desobedecer me? No fazer o que ela queria? A noo era interessante, mas dava-lhe arrepios contempl-la muito tempo. Luisinho demorava-se a acabar o po, roendo pontinha aqui, pontinha ali, temendo imaginar o que aconteceria quando no houvesse mais nada para comer. - Vamos s ameixas? - perguntou a Bibi. O Luisinho olhou em volta. A me devia estar a chegar das compras e a criada estava distrada com o rdio. Era boa altura. A Bibi levantou-se toda lesta e encaminhou-se para a rvore, pisando de propsito as ameixas cadas, sujando as meias de croch com o sumo delas. - Vais tu ou vou eu? - Sobe tu - disse o Luisinho -, eu empurro-te para cima. A Bibi era inesperadamente gil para uma menina to rechonchuda. Depois do impulso inicial, que quase soterrara o Luisinho, desequilibrado com o fardo de tanto peso, num instante estava l em cima e recolhia nos bolsos da bata as melhores ameixas. - Tu usas cales de rapaz por baixo das saias? - perguntou, curioso, o Luisinho. A Bibi acertou-lhe com uma ameixa em cheio no olho. Comeou a descer e a praguejar ao mesmo tempo. E o Luisinho sem perceber ao que vinha toda aquela fria.

- a estpida da minha av que me faz estes cales. E no so de rapaz. So para o frio. No te atrevas a dizer que so de rapaz. Agora enfrentava-o, um dos bolsos a transbordar de ameixas e o outro vazio, olhando a direito para ele, muito perto. Luisinho queria apazigu-la, sem saber corno. Ia lanar-lhe a mo cara para lhe fazer uma festa, mas a mo desviou-se e acabou junto perna da Bibi, a levantar-lhe a saia e a pedir: - Deixa-me l ver. A Bibi no perdeu tempo a defender-se. Deulhe uma palmada na mo, um empurro que o fez cair e foi-se embora a correr. Ao abrir a mo que errara, Luisinho encontra l dentro uma ameixa. Com a fora, esmagara-a de tal modo que o sumo escorria por entre os dedos. Luisinho lambeu a mo, no lhe restava mais nada. Torturado pela fome, Luisinho acorda a meio da noite de um sonho de compotas sobre fatias de po caseiro. Sem acender a luz, silencioso desce a escada em direco ao frigorfico. Ele conhecia de cor o interior do frigorfico, a arrumao que a me lhe dava, todo o seu contedo. Em cima, na porta, manteigas, margarinas; em baixo, o jarro do leite; os legumes organizados nas gavetas, os restos de jantares e almoos hierarquicamente sobrepostos por grau de antiguidade. Muito contra o seu hbito, Luisinho sucumbiu precipitao. Agarrou no que lhe pareceu maior, sem se preocupar em saber o que era. E ficou no escuro, apenas iluminado pela fraca luz do frigorfico, a escutar os barulhos da casa, segurando pela perna um frango inteiro, assado. que lhe parecera ouvir a me a descer as escadas. Ele bem suspende a respirao, mas o corao bate-lhe to depressa que no o deixa ouvir. Fecha devagarinho a porta do frigorfico sem largar o frango e d dois passos, mas sem direco determinada, posto que no sabe o que fazer. A sua primeira ideia ir para a saia, onde h mais luz, e dar ali mesmo cabo do frango. Mas a porta da cozinha fechara-se e Luisinho s a encontra no final de muita topada por armrios e esquinas de mesas e caneladas em cadeiras e banquinhos. A me era grande apreciadora da profuso dos mveis, mesmo na cozinha.

Luisinho est no sop das escadas, o gordo frango assado preso pela perna, a olhar para cima. Agora que ouviu mesmo a me acender a luz da mesinha-de-cabece ira, vestir o roupo, tossicar. O pai acordou e perguntou-lhe se no conseguia dormir. Luisinho tremeu voz serena da me: - Pareceu-me ouvir barulho l em baixo. Paralisado, sozinho no escuro, o menino teve o impulso intil de esconder o frango atrs das costas, lambuzando o belo roupo de seda que o tio lhe dera. Mas quando viu a figura da me aparecer no topo das escadas, deitou a correr pela sala, em direco porta da rua. O pai fechava-a sempre com as duas voltas da chave e punha-lhe, por maior garantia, uma corrente de segurana. Era o nico a faz-lo entre os vizinhos, gostava de citar um provrbio que Luisinho nunca conseguia reproduzir e que tinha a ver com barbas de molho e trancas porta. A me vinha a meio das escadas e viu o rapazinho colado parede. No distinguiu o que ele trazia na mo, mas percebeu imediatamente que surpreendera uma actividade ilcita. - Luisinho? - chamou ela. - O que que o menino anda a fazer? O Luisinho atravessou a sala correndo, passou em velocidade o guarda-vento que dava para a copa e procurou uma sada. E a nica sada era a janela da despensa. Luisinho empurrou a porta e entrou, naturalmente sem o costumado prazer, no quartinho onde se amontoavam as provises. s vezes, quando se sentia mais triste, pedia me para l ir com ela, s olhar e cheirar. E contemplava com saudade as prateleiras dos acares, os ovos frescos na cestinha, os belos frascos do feijo e do gro. Agora, que estava com pressa, subiu para o banquinho, foi direito janela pequena e abriu-a. Passou, em primeiro lugar e para maior segurana, o brao que continha o frango assado para o lado de fora, depois o outro brao, depois iou o peito e muito em breve percebeu que ficara entalado. O rabo do Luisinho no cabia na janela. Foi mortificado que ouviu a me abrir atrs dele a porta da despensa. Esperou que ela dissesse alguma coisa, enquanto tentava desentalar a barriga o suficiente para se deixar escorregar para dentro e receber a censura com alguma dignidade. Mas ela no dizia

nada e ele no estranhou. Imaginou o que ela via, o banquinho tombado, as pernas dele bamboleando sem apoio, o corpo disforme no roupo de seda azul, cortado ao meio pela moldura da janela. E imaginou o que ela imaginava e no via: o frango enxovalhado, preso pela perna, a apanhar ar na mo direita de Luisinho, que o empunhava como a bandeira da autntica desgraa. O meio corpo embaraado, o peso da culpa de Luisinho, era isto que ela via. A me deu-se tempo de fechar a porta da despensa e ir calmamente de roda ver o espectculo pelo lado de fora. Nessa altura j o frango se decepara pela perna, deixando o Luisinho na posse de uma nica coxa, perdido o resto no canteiro dos lrios, j ento provvel pasto de formigas e bichos sem valia. A me postou-se em frente da parte superior de Luisinho. Ele sabia que o que ela dissesse lhe havia de ficar para a vida toda. - Est a ver, meu filho querido - disse a me -, se o menino fosse mais magrinho, tinha passado na janela. E afastou-se pelo jardim, sacudida de riso, do riso imoral que o Luisinho no lhe pde nunca desculpar.

Os trs homens aderem RevoluoH uns dias que acontecia ficarmos a fumar depois do almoo e deixarmos a conversa descair at adormecermos profundamente, cada um em seu canto. Hoje no foi diferente. O Harris preocupava-se cada vez mais com a imobilidade do imobilirio e nem eu prprio, que era o principal interessado, podia j suportar as minhas lamrias sobre o preo do papel e a difcil arte da edio. O George adormecera de charuto em riste, mas nem eu nem o Harris nos dispusemos a fazer o que quer que fosse para lhe poupar o embarao das consequncias. Entreolhmo-nos em silncio. Pareceu-me a certa altura que o George cantava no sono. A princpio dir-se-ia que ressonava apenas, mas a pouco e pouco fui discernindo uma espcie de padro que se assemelhava a uma melodia, embora irreconhecvel. A minha hiptese revelou-se acertada quando o George, ainda de olhos fechados, disse: - Acordei hoje com esta msica na cabea e no consigo lembrarme do que . A memria do George j no o que era, embora eu no me lembre muito bem de como ela era. Pedimos-lhe, sem entusiasmo desnecessrio, que cantasse mais alto, o que ele fez, sem qualquer resultado. Desiludido, o Harris disse: a rotina, embota a memria. bem verdade - disse eu -, todas as faculdades precisam do seu exerccio. Se vivemos meramente de hbitos, realizamos todos os dias os mesmos gestos, dizemos as mesmas coisas como autmatos, de que serve termos memria? De que serve termos imaginao? A coisa envergonha-se at de existir e acaba por se apagar. Pensa: Como sou intil! um mero armazm de velharias, sem qualquer prstimo! Ficmos naquela sonolncia mais uns minutos, at que o George disse:

- Estamos a precisar de... - Uma mudana, j sei - concluiu o Harris, lembrado de outros tempos. - Exerccio - precisou o George. - Muito exerccio. Estvamos todos a pensar o mesmo, de maneira que o Harris se levantou e foi postar-se em frente do mapa-mndi que eu tinha pendurado na parede, atrs da secretria, numa bela moldura dourada. - Precisamos de aventura, umas frias longe das modorras e com alguns imponderveis - disse ele, sacudindo a cinza do charuto para cima dos meus manuscritos. - No vamos tomar-nos em fanticos do impondervel disse eu. H l alguma coisa pior do que um fantico do impondervel! - Um pas extico, confortvel, mas extico... - procurou o George. Assentmos que, para l dos Pirinus j era suficientemente extico; que, para aventura, bastava ultrapass-los e sobreviver. - frica... - sonhou alto o Harris. - No frica, mas quase. quente, pacfico, hospitaleiro. Levantmo-nos para ver a maravilha no mapa. Era um rectngulozito inconspcuo que parecia recortado tesoura na Pennsula. Estava pintado de um esverdinhado triste, que ficava mal ao p do azul do mar. - Portugal? - perguntou o Harris, com algum alarme. No sei se cair na classe dos pases exticos.--- disse eu. - Parece que h umas festas brbaras em que picam os touros at morte e depois distribuem os restos pelos espectadores - disse o Harris. - Todos os pases exticos tm rituais cruis e muita mosca. E neste l havemos de ter deixado alguma rstea de civilizao - disse o George. O Harris perguntou: - E como que eles se deslocam? Haver comboios? O George respondeu: - Tenho informaes de que andam de burro com imensa dignidade.

Eu

disse:

-

um

nobre

animal,

o

burro.

Infelizmente

subestimado. Ficmos a olhar o mapa, acabando os charutos. - Umas frias tranquilas num pas extico - disse o Harris, rendido. - S queria saber quanto que isso nos vai custar. - H-de ser o pas mais barato do mundo, estando como est longe de tudo. - Mas o argumento contrrio tambm era, infelizmente verdadeiro. - Uma calma aventura e o burro um excelente exerccio. - E quando iremos? - perguntei. Assentmos que havia de ser em Outubro, logo na primeira semana. j no estava calor e ainda no fazia o frio desagradvel dos pases em que no chove decentemente. Mil novecentos e dez ia ser o ano da nossa segunda viagem ao Continente.

Sentado no DesertoA televiso disse: a poca festiva que atravessamos fica sempre tristemente assinalada por um grande nmero de acidentes de viao. Marciana baixou o som e foi ver o peru. Pelo corredor, de nariz no ar, ainda distinguia o cheiro dos fritos. Detestava a comida do Natal. Espetou o bojo do peru e ouviu a porta abrir-se e o Miguel entrar, falando com algum. Foi receb-los porta da cozinha, de garfo em punho, curiosa. - Trago aqui o Pereira para jantar connosco, me. Parece que no tinha para onde ir. Num relance Marciana avaliou o vagabundo. Pensou que por mais que o limassem, mesmo esfregado e desinfectado, nunca passaria por um deles. Quando se sentaram na sala, o Pereira ponta do sof, de punhos rgidos assentes nos joelhos, o Miguel com os tnis em cima da mesinha de tampo de vidro, Marciana teve uma nusea, uma onda de pnico, e nem sequer estava ainda a pensar no que diria ao marido, aos irmos e s cunhadas. Imaginava a melhor maneira de limpar a carpete e o tempo que demoraria o cheiro a lixo que o Pereira generosamente deitava a desvanecer-se no ar. Sabia que lhe tinham arruinado o jantar de Natal e no tinha ideia do que fazer a seguir. - Talvez o senhor Pereira queira tomar um banho, mudar de roupa. Tenho um fato do teu pai que lhe deve servir. O Miguel achou bem e o indigente no se ops. Assim que o homem saiu da sala onde ardia a lareira, Marciana desodorizou o ar e escovou o sof, procurando a pulga ocasional, o piolho hediondo, outros insectos sem nome que se agarram pobreza. que o Miguel, educado no mais libertino dos atesmos, atravessava aos quinze anos uma fase de cristianismo primitivo. j

em Novembro comeara os ataques hipocrisia do esprito natalcio, denunciara consumismos, acusara de cnicos pais, tios e tias, padres, professores, figuras pblicas - at o Papa! - e anunciara que as coisas se iam passar de maneira diferente nesse Natal. Marciana levava o filho a srio, porque ele era um rapaz de convices firmes, embora naturalmente pouco duradouras, que no s tomava letra as ideias gerais como as punha em prtica de forma radical. Marciana temera o pior. Receara que ele no viesse jantar com a famlia na vspera de Natal. Afinal o pior tinha superlativo o Miguel aparecera acompanhado de um desconhecido que tresandava a vinho e a misria e que apreciara, logo entrada, com olhar excessivamente sbrio, no s a dona da casa, mas tambm as pratas e as porcelanas. Marciana fizera uma nota mental de reservar um espao na semana seguinte para mandar mudar as fechaduras. Chegavam os irmos todos juntos e as cunhadas, brilhantes e tufadas. Marciana apresentou-lhes o Pereira sem sobressalto e eles, habituados a uma tradio familiar de auto-controlo e pouco espalhafato, estenderam-lhe automaticamente a mo, os trs de seguida, apresentando-se: Qualquer Coisa de Vasconcelos. Marciana compreendia que bichanassem o nome prprio. Ainda hoje a intrigava que o pai, de costume to sensato e de perfil em outras matrias discreto, tivesse marcado os filhos para a vida com o ferro de um nome confuso de que Aureliano Auspicioso no era seno o mais equilibrado. - O teu Miguel um santo - disse uma tia, abraando Marciana na cozinha. Um Cristo, disse outra. Um anjo, disse outra. Um arcanjo, troou o tio Aureliano. Miguel entrou e pediu que fossem para a sala, que parecia mal ao Pereira. Marciana ia atrs, pelo corredor, a olhar as costas do irmo e apareceu-lhe como num ecr a imagem de um menino negro sentado no deserto. Era uma dessas fotografias de choque que passam nas notcias hora do jantar, mes esquelticas com os bebs mortos no colo, crianas deitadas na terra a olhar de frente para a cmara que as filma. Marciana lembrava-se desta imagem de h dois ou trs anos: um menino muito pequeno,

desorbitado de fome, que passa as mos no rosto uma vez s, desgraadamente, como um velho que no v sada. Sentado no deserto, ele no meio de outros, espera de coisa nenhuma. - Tambm eu tive os meus pobres quando era nova - disse a tia Adelina, de volta cozinha. - Ia s barracas levar latas de feijo e sacos de acar e coisas assim. No me esqueo da cara de espanto que faziam quando eu aparecia carregada, chuva, ao domingo. - Eu levava midos da rua a lanchar ao caf - disse Marciana. Mas depois a caridade j no se podia fazer. Havia uns ideais humanitrios que impediam os particulares de tomar conta dos pobres, era ao Estado que competia tratar deles. - O que que diz o Z? - O Z no sabe - respondeu Marciana. Afinal o Z at achou graa, quando chegou a casa. No deu importncia ao olhar de dramatismo que a mulher lhe lanara porta de entrada, ofereceu mais uma rodada ao Pereira e deu um longo abrao ao filho. Era evidente que j tinha estado a celebrar com os amigos da vela. A televiso disse: devido ao adiantado da hora este perodo noticioso ser mais breve que o usual. Mostraram distrbios de rua, um motim, algures no mundo. Marciana teve um arrepio: aquele menino sentado no deserto podia ser o dela; ela podia, ao acaso, sem razo, ter nascido destinada quele deserto. - Temos de sofrer imagens horrorosas - disse, impaciente. Pem-nos os problemas frente e no nos do os meios para os resolvermos. - muito desagradvel, de facto - confirmou o tio Refulgncio. - O To no bom nem mau, est para alm do bem e do mal disse o Z. - Sabem aquela do menino rico a quem a professora mandou fazer uma redaco sobre os pobres? - perguntou o Pereira, para desanuviar. Os irmos mexeram nas gravatas. Conte l, Pereira, pediu a tia Adelina. O Pereira no parou, e como os copitos circulavam cleres e abundantes, as anedotas foram subindo de tom at Marciana dar ordem de jantar.

- No est a correr mal, h? - disse o Miguel na cozinha, pronto a carregar reforos para a travessa do bacalhau. - No ests chateada comigo, me? S por aquele sentimento cristo do filho, dirigido sua prpria famlia, Marciana reps o prato de brculos e abraou-O. - Eu tambm j tive os meus pobres. Fizeste bem. O ideal era que ele no fizesse tanto barulho a comer. O Miguel riu-se. mesa, o Pereira contava a sua histria aos irmos que o ouviam em silncio, atentos aos pratos respectivos, e Marciana, ao entrar, respirou fundo e tomou coragem - era preciso continuar a imaginar que o Pereira no era o Pereira e que se fosse o Pereira no estava ali, no meio da famlia, a domin-los com um relato banal e lamentaes. Era preciso ver e no ver o menino, e continuar. Depois o Miguel levou o Pereira, que usava j um walkman e se despediu em gritos joviais. Nunca mais tirava os auscultadores, acabei por lho dar, disse o Miguel. Mas foi uma prenda minha, queixou-se Marciana. - Finalmente! - desabou Adelina, quando eles saram. O Z pde fazer a pergunta tradicional: se estavam todos prontos para as pastilhas contra a indigesto? Mas o Deodato achou que ainda era capaz de comer mais um sonho.

Costureirinha (uma lenda Lisboeta)Foi em 1933 que Clotilde chegou a Lisboa, para servir numa casa de famlia. Ponderou-se o que havia de fazer, mas no havia muita esperana, a comear seria, como de tradio, pelo primeiro degrau da escada. Nova, saudvel, ignorante das ruas e comrcios de Lisboa, falando, quando falava, com sotaque beiro intransponvel, logo convenceu os senhores condes do Outeirinho que no servia seno para as grossas tarefas domsticas. Clotilde no tinha sonhos e no tinha ambies. Se no levava pancada, j andava contente. E se, para cmulo, lhe davam de almoar em dias certos, no pedia mais nada porca da vida. Deve-se comear a suspeitar da existncia de um filho nesta famlia. H-o, de facto. H mesmo dois filhos. O varo, recentemente casado com os bens de uma herdeira impertinente, vivia esplndido na Lapa e pouco aparecia na casa paterna. Dir-se-ia que o xito da famlia que comeara h pouco em Octvo Outeirinho, primeiro a usar o ttulo de conde, se encarnava por inteiro nesse macho de sucesso. Mas no tivera oportunidade de vislumbrar a Clotilde a lavar as escadas ou em interessantes equilbrios sobre escadotes. Meramente por isso lhe escapara - por ele j no estar presente. O filho segundo, Orlando, coleccionava fracassos, bebia, jogava e perdia. Andava metido com rufias e mulheres da vida. Dizia que tinha o sangue quente, no pensava antes de agir. Tambm no pensaria depois de agir. Privado da afeio de seu pai ao fim de um certo tempo, vivia de querelas e de rixas. Possua um vocabulrio de quatro palavras e trs delas no se podiam reproduzir em pblico. Em resumo, era o deserdado, a ovelha ronhosa da famlia. Mas tinha um fraco pela Clotilde, que no se civilizara realmente nesses anos lisboetas, e ainda que esse fraco no bastasse para o redimir completamente, suavizou-lhe o carcter e fez dele um homem

ligeiramente melhor. Alcanou extrair-se da casa da famlia e alugou um segundo andar com dois quartitos onde passaram a viver. Embora temporariamente animado de princpios altrustas, entre eles a generosidade, Orlando no possua nada de seu e logo, num assomo de clarividncia, se deu conta do srdido da situao a que era difcil escapar. Decidiu tomar medidas. Emigrou para Angola, a fazer fortuna. Clotilde chorava muito. Chorava sobre os trabalhos de costura que fazia para se sustentar, sobre a mquina de costura, presente de Orlando - e ainda sobre o bero de Vasco, segundo presente do pai remoto. Chorava dias inteiros espera de notcias, de cartas. Assim contraiu uma tuberculose, do gnero mortal, acrescentando agora ao choro e ao rudo do pedal da Singer uma tosse que ia mudando de tonalidade aproximao da morte. j quase no fim, Clotilde recebeu a visita de um emigrante que regressava de Angola com notcias do Orlando. Dizia que o ausente ainda no tinha feito fortuna, mas j se empregara na Companhia das guas como escrevente e ao fim de dois anos, se tudo corresse bem, abria-se a possibilidade de uma promoo. O emigrante relatou sem se comprometer que Orlando estava muito bem de sade, mas que mandava dizer que antes de sete anos no lhe punham na metrpole a vista em cima. j passavam trs anos sobre a despedida dos amantes e Clotilde disse adeus ao emigrante, mandou o menino para casa da vizinha, rompeu a soluar e cuspiu a ltima gota de sangue. Hoje ainda, em Lisboa, diz-se, quando se ouve o roncar das canalizaes, que a costureirinha, o fantasma de Clotilde, que procura, pelo vazio dos canos, o seu Orlando, empregado na Companhia das guas.

II

Brandina ou o silncio dos produtosSonhou que atravessava um tnel. Reconheceu-o: era o mesmo que percorria todos os dias de madrugada no caminho para o comboio e noite, quando regressava. No sonho, o interior do tnel aparecia forrado de papel de jornal, depois transformava-se num disco voador que a fechava dentro de um espao exguo, como os grelhadores fazem s tostas mistas. S se lembrava, quando acordou s seis em ponto, de uma imagem fixa: Brandiria entrada do tnel a olhar uma luz redonda e azulada, coada pela chuva. Tinha as suas rotinas e a casa muito arrumada. Punha reservas s amizades. Mas quando a Teresa lhe pedira que a substitusse no turno, no soube recusar, apreciou aquele pedido pelo que ele era, um privilgio, uma eleio. Escolhida entre todas para fazer o trabalho da Teresa, Brandiria recebera as chaves como num acto de investidura, ungida, sria, de olhos postos na misso e num futuro mais elevado. No conhecendo os horrios da madrugada, antecipou-se. Passou pelo tnel sem ms recordaes, os sonhos pertencem outra dimenso, s fazem medo noite. O comboio levava gente de classes desconhecidas, mulheres que iam limpar, que iam cozinhar, homens que iam construir, que iam vender. Muitos fumavam sem olhar pelas janelas, virados uns para os outros, segurando na mo livre lancheiras e pastas de couro claro. Aqui e ali, a mulher tricotava. Chegou muito antes da hora. Respirou fundo antes de comear a operao de abertura. Experimentou a chave. Uma para o alarme, duas para as portas exteriores, trs para as portas interiores. Parou no escuro, a ouvir. Ao longe, a mosca intrusa ficou frita. A mesma luz roxa que se lhe mostrara sedutora, trouxera-lhe a morte numa corrente fraca, quase inofensiva. E o nico som que Brandiria ouve, o corpo da mosca ingnua a passar-se bem passado.

Brandina soubera por Teresa, que lho explicara numa voz sem entusiasmo, o procedimento a seguir. Mas tomara o cuidado de acender devagar as luzes uma a uma, para tirar todo o partido da experincia. Sentira uma fora pux-la para cima, tal o pulso de um deus potentssimo. Mas era uma fora que nascia de dentro, uma espcie de motor interino, que trabalhava para ajudar a divindade, para a aliviar do peso. Pusera as mos em cruz sobre o peito e imaginara-se uma santa visitada pela graa, que cerra os olhos e recebe em cheio a luz na face, beijada ao de leve por um xtase que no acaba. Depois passeou entre as prateleiras infinitas, solene como uma rainha que fizesse a revista das suas tropas. Mas era antes uma homenagem mtua, e muda, um elogio que faziam os produtos perfilados a quem assim os amava, a quem chegava cedo para os amar. Tocou numa embalagem e recebeu a impresso da curva do seu bojo; e foi ordenando, empilhando, retocando, distribuindo carinhos e segredos. Sozinha com as marcas, com todas as marcas do mundo que Brandiria avaliou o espao imenso depois das coisas e a respirao delas. Sentou-se, por fim, sua caixa, no meio do silncio dos produtos. Estava num templo e era vestal daquela prtica, daquela sociedade: sentada, real, fazia a conta e recebia o tributo. Passou neste devaneio ainda uma hora feliz, at inevitvel chegada dos brbaros.

ltimas NotciasO Branco foi talvez o nico que no se importou quando soube que a auto-estrada passaria a cem metros do bairro. Gostava de carros, o rudo fazia-lhe companhia. Olharam-no de vis porque recusou participar no abaixo-assinado; mas durou pouco a inimizade. Dois meses depois, quando a construo comeou, j ningum se lembrava das palavras trocadas. Fez logo grande intercmbio e criou amigos entre os trabalhadores. Nas tardes de Julho levava-lhes um jarro de vinho gelado, uma garrafa de gua e ficava a conversar sobre o que eles quisessem. Uns gostavam de se queixar, outros preferiam calar-se e olhar a distncia, medir o caminho que faltava fazer. Sentados um instante sombra, em p no meio das mquinas, os homens aceitavam o Branco. Aquele bocado da estrada era como se fosse tambm obra dele. Fez um esforo para interessar nela alguns vizinhos, que paravam a olhar o alcatro fresco e do negrume recolhiam apenas nostalgia. Diziam que a poeira fazia mal s hortas e o Branco encolhia os ombros, ele mesmo nunca tivera alfaces mais risonhas. E, de repente, as obras acabaram, vieram os carros e as velocidades. O Branco alterou as rotinas. Estava mais tempo em casa e no j