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na Pousada Misteriosa

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na Pousada Misteriosa

Captulo 1

Geo qu?

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Pedro no estava l muito satisfeito por ser obrigado a jantar em casa com uns ami-gos dos pais e ainda tentou escapar.

me, eu tinha combinado ir a casa das gmeas, o Joo e o Chico tambm vo...

Desta vez tem pacincia, mas des-combinas.

Porqu, me? Num jantar s de adul-tos eu estar ou no estar pouca diferena faz.

Claro. S que a minha amiga Ema

E da minha idade? No sei bem.A impacincia do Pedro duplicou. Se calhar uma criancinha infernal? No. mais velho. Ento l est, mais um adulto, eu a

ouvir conversas que no me interessam nada e a disfarar bocejos.

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Deixa -te de lamrias, sim? Vem mas ajudar -me a pr a mesa e eu prometo que, se for uma seca, mal acabarmos de jantar podes sair.

Enquanto o Pedro distribua os pratos e os talheres, foi fazendo mais perguntas

A sua amiga tambm mdica? . Trabalhamos no mesmo hospital. E o marido? ingls e esto separados, mas conti-

nuam a dar -se bem e quando ele passa por c saem juntos.

Lucas.Nesse momento Pedro ocupava -se do

fruteiro e decidira montar uma pirmide organizada por camadas, primeiro uma base de mas, depois laranjas e peras em crculos perfeitos que tencionava rematar encaixando no topo o anans, conforme tinha visto num restaurante.

Que ideia essa? O anans para cortar aos pedaos e servir numa taa.

Oh! Que pena! exclamou o Pedro

queria deslumbrar o Lucas com a minha arte decorativa!

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A voz transmitia claramente a vontade que sentia de se ver livre dos convidados o mais rapidamente possvel. E de algum modo uma certa embirrao contra o tal Lucas que lhe estragava a noite

Aposto que um parvalho, pensava.Pouco depois engolia aquelas pala-

vras e a m vontade, porque o Lucas era o gnero de pessoa com quem se simpatiza primeira vista. Natural, franco, de olhar direto, usava roupa normalssima, cum-primentava com um aperto de mo curto e vigoroso, parecia sentir -se vontade ali ou em qualquer lugar. No tardou que se sen-tassem lado a lado, num sof, conversa. O assunto deixou Pedro de olhos a luzir, porque Lucas tinha acabado de viver uma experincia que toda a gente gostaria de viver

Andaste mesmo um ano inteiro em viagem?

Andei explicou Lucas. O meu pai acha que conhecer o mundo to

anos, perguntou se eu estava interessado em interromper os estudos para visitar outros pases...

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E tu disseste que sim. Claro! S que o meu pai imps uma

condio. Tinha de viajar sozinho. Dava--me dinheiro, telemvel, alguns contactos, mas teria de me desenrascar por mim.

O teu pai tem ideias fora do vulgar. Pois tem. Mas no por acaso. Esta

histria da viagem faz parte da tradio em muitas famlias inglesas. Ele prprio partiu para a China meses antes de fazer 18 anos. E saiu -se bem. Quis pr -me prova.

A tua me concordou? Torceu o nariz, mas quem casa com

estrangeiros tem de se adaptar a outros cos-tumes. Ao princpio telefonava -me vrias vezes por dia. Deve ter gasto uma fortuna em telemvel.

Pedro estava quase a dizer que dinheiro no devia ser problema l em casa, pois um ano em viagem custa balrdios. Preferiu no entanto um comentrio mais vago.

Que sorte, Lucas! De facto. Mas olha que tambm pas-

sei maus bocados. s vezes sentia -me iso-lado, perdido, cansadssimo.

E fazias o qu?

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Geralmente pregava -me a dormir at me passar o incmodo. Agora na ltima etapa, como j estava habituado a girar e a resolver problemas, senti -me nas nuvens.

Em que pas? Na ndia. Sabes que ir ndia quase

o mesmo que ir a outro planeta. Casas, pes-soas, roupas, comidas, cores, cheiros, tudo to diferente! J imaginaste o que ires pela rua de carro e ao lado passar um ele-fante a correr ou uma vaca com ar pachor-rento?

Posso imaginar, mas deve ser muito mais giro ver a cena ao vivo.

A conversa prosseguiu e quando se sen-taram mesa j estavam ntimos. Lucas continuou a contar coisas engraadas, saltando de tema em tema um pouco ao acaso. Ora falava de um palcio indiano construdo no meio de um lago ora de um homem que vivia numa gruta, s vestia tnicas brancas e preparava biscoitos com

um guru. Eu estive l alguns dias a dormir na gruta entre seguidores de vrias nacionalidades. Cada um falava a sua ln-gua, mas percebi que todos acreditavam

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nas teorias do guru por mais esquisitas que fossem e at acreditavam que aqueles bis-coitos eram uma espcie de oitava maravi-lha do mundo.

Provaste? Provei e adorei baixando a voz,

acrescentou: Consegui trazer um pa-cote, mas ainda no comi nenhum.

Porqu? Porque o guru recomenda que s se

coma um de cada vez, de preferncia entre amigos e em noite de lua cheia. Resolvi seguir as instrues. O problema que um ano inteiro de viagem fez -me perder o con-tacto com os meus amigos.

No seja por isso disse logo o Pedro. Podes contar comigo e com o

reunimos amanh, noite de lua cheia. Amanh no estou c. Vou para o

norte, para um encontro de geocaching. Geo qu?

Captulo 2

Um jogo com piada

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Nunca ouviste falar em geocaching? No. um jogo de caa ao tesouro, do

mais moderno que h. E pratica -se no mundo inteiro1.

A palavra tesouro sempre sobressalta,

em vez de explicar melhor, props mostrar uma pista.

Depois de jantar damos uma volta, queres?

Quero! E se no te importas falo aos meus amigos para virem ter connosco.

No me importo nada.Meia hora depois saram para a rua.

Chico foi o primeiro a chegar. A seguir

1 livro h mais informaes sobre este jogo.

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apare ceram as gmeas, de Caracol pela trela, e depois o Joo, caminhando des- portivamente lado a lado com o Faial. Reuniram num jardim prximo, com lagui-nho ao meio e arbustos em volta dos can-teiros. Pedro garantira que Lucas era um tipo impecvel, por isso vinham dispostos a simpatizar com ele, e simpatizaram. Tam-bm ansiavam saber que tipo de caa ao tesouro lhes iria propor.

J percebi que vocs esto a pensar em caa grossa, ou seja, moedas de ouro, lingotes de prata.

No era mau comentou o Chico. Mas no nada disso. Este jogo sur-

giu h anos e espalhou -se pelo mundo a uma velocidade incrvel. H participantes de todas as idades e em todo o lado. Mas a ideia no encontrar riquezas, procurar um cache...

Cache? Bom, uma caixa pequena, muito bem

escondida, que tem l dentro um bloco de notas onde as pessoas registam o nome e a data em que conseguiram encontr -la. E tambm tem um objeto qualquer, muito simples, que a pessoa retira e substitui por

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outro de igual valor. Por exemplo, tira um porta -chaves e deixa um apara -lpis.

E qual a graa? a procura. Porque os caches

esto muito bem escondidos nos stios mais incrveis. Montanhas, cavernas,

-telos. A descoberta sempre excitante. Alm disso, quem se inscreve neste clube mundial pode criar caches. Eu prprio j criei vrios. Deixei um bem perto da gruta onde vive o guru indiano que faz

-tro duas caricas de bebidas portuguesas. A esta hora j devem ter sido retiradas e sabe -se l onde esto. Espero que no bloco de notas haja registos de nomes indianos, japoneses, coreanos, argentinos, gente que

Lucas Watson, quem deixou aquilo ali porque a primeira assinatura a minha. O mais natural que alguns tenham ten-tado imaginar como sou ou at sonhado comigo. Tem piada, no?

Eles riram -se. De facto um jogo com piada

disse o Pedro.

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E pode ser praticado na montanha mais alta do mundo mas tambm no lugar onde se vive. Querem ver?

Lucas pegou no telemvel, abriu o GPS, mostrou ao grupo o mapa daquela zona, e apontou -lhes o desenho de um quadrado com uma caixinha l dentro.

Pelos vistos, h um cache neste jardim.

As cinco cabeas juntaram -se para ver melhor, depois largaram a procur -lo con-vencidos de que seria fcil e rpido. Mas no foi. As gmeas vasculharam os arbus-tos um a um, sem qualquer sorte. Caracol acompanhou -as e ambas julgaram poder tirar concluses de alguns saltinhos e lati-

nenhum.Faial, vendo o dono rebusca, associou-

-se, farejando em torno do lago, quando desatou a ladrar furiosamente correram todos para o p dele, mas apenas desenter-rou um osso. Lucas e Pedro concentraram--se na fonte, remexeram em todos os buraquinhos possveis num frenesim de que s resultaram arranhadelas. Chico comeara por examinar o banco do jardim

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na ideia de que, se fosse ele, talvez tivesse atado a caixa com arames por baixo do assento. Apalpou a madeira, como no

com a roupa cheia de terra. E assim, envolveram -se no jogo.

Achei! gritou o Chico de repente. Onde? Ali! Aposto que est ali!Apontava o buraco no tronco de uma r-

vore que a luz da lua quase cheia iluminava. o stio ideal!Sacudiu a roupa e trepou pelo tronco,

regressando triunfante com uma caixi-nha de metal. Os amigos rodearam -no e l estava uma pequena chave de feitio anti-quado e um bloco de notas, mnimo, que todos quiseram folhear para ver quem tinha escondido o cache e quando.

Foi uma Mariana, h dois anos. Ns somos os stimos descobridores.

Entreolharam -se sem atinar por que motivo se sentiam to divertidos. Retira-ram a chave, substituram -na pelas pulsei-ras de elsticos das gmeas e depois cada um assinou o seu nome. Chico utilizando apenas maisculas.

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Ento, gostaram? Eu delirei. E eu quero inscrever -me neste clube

mundial. Como que se faz? Atravs da internet. Procura -se o site

geocaching e est l tudo explicado.Seguiam agora pelo passeio, uns mais

frente, outros mais atrs, capitaneados pelo Chico que fazia saltar a chavinha anti-quada na mo direita. Teresa arrebatou -lha e disse, na brincadeira:

Talvez esta chave nos abra as portas de uma grande aventura!

isso mesmo que vai acontecer! respondeu o Lucas, de repente muito srio.

As palavras e a atitude travaram a marcha. De que ests a falar? Do encontro de geocaching no norte

do pas, para onde eu vou amanh. E vocs vm comigo.

Olharam -no em silncio, ele perguntou: Querem? Queremos, claro! Mas como que vamos? Transporte no problema. O meu

av tem uma empresa de aluguer de carros

e carrinhas. Peo -lhe uma, a mim em- presta -me de certeza. Se as vossas famlias estiverem de acordo, preparem mochilas, preparem -se para uma longa viagem at s terras de Basto e...

E?Num tom grave, cavernoso, de criar sus-

pense, acrescentou, separando um pouco as slabas:

Preparem -se para a experincia fabu-losa de comer biscoitos indianos, com

um guru e devem ser comidos em grupo numa noite de lua cheia. Amanh temos lua cheia.

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Captulo 3

A Pousada Misteriosa

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A viagem foi longa e, como pararam vrias vezes pelo caminho, chegaram a Celorico de Basto a altas horas da noite.

As ruas esto desertas, as luzes das casas apagadas, no se v ningum, como que tencionas encontrar a pousada onde vamos dormir?

Esqueceram -se de que tenho um GPS? respondeu o Lucas apontando o ecr. At j estamos perto.

A carrinha parou adiante, junto de uma antiga estao de comboio que tinha sido aproveitada e arranjada para receber visi-tantes.

aqui. Que bom! Estou mesmo a precisar de

esticar as pernas.Apearam -se, todos igualmente satisfei-

tos, pegaram nas mochilas, soltaram os

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ces, dirigiram -se casinha onde em tem-pos funcionavam as bilheteiras.

Que gira! Lembra um brinquedo. Impecvel. Mas para pousada no ser pequena?

Ter quartos para todos? No sei disse o Lucas. Logo se v.A noite estava linda, com o cu de um

azul -escuro aveludado, lua cheia to per-feita e luminosa que transmitia energia, vontade de cantar e danar. Os ces sen-taram -se nas patas traseiras e ergueram a cabea de focinho para cima. Faial, que parecia mesmo um lobo, abriu e fechou a boca vrias vezes, mas no uivou. No entanto, era evidente que os ces tambm se sentiam felizes.

Este stio tem qualquer coisa de mgico disse a Teresa. No acham?

Lusa acenou que sim. Lucas deixou cair os braos ao longo do corpo com as palmas das mos viradas para a lua comeou a falar baixinho sobre as teorias do guru indiano.

Todos os lugares onde se cruzou muita gente conservam partculas invis-veis que as pessoas l deixaram. Partculas

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de sentimentos, de pensamentos, de ale-grias, de desgostos, de saudades, e tudo isso se vai entrelaando para formar uma espcie de campo magntico. Se for muito forte, adquire o toque mgico de que a Teresa falou. Mas s quem sensvel pres-sente ou percebe. Vocs, gmeas, talvez por serem duas pessoas iguais, foram as primeiras a captar as vibraes da atmos-fera, que aqui so fortssimas por se tratar de uma antiga estao de comboio, que ao longo dos tempos viu gente partir, gente chegar, uns a rir, outros a chorar...

Chico cruzou olhares com o Pedro e dis-farou um sorriso vagamente trocista.

Se fosse verdade, pensava. Nas esta-es das grandes cidades, no metro, nos aero-portos, a magia era tanta que rebentava.

Antes que lhe sasse pela boca fora o que pensava, apanhou uma cotovelada do Pedro e virou -se de costas para ocul-tar o sorriso brincalho. As gmeas que embarcaram logo na conversa, e de braos cados ao longo do corpo com as palmas da mo abertas para a lua, lembravam est-tuas. Joo decidiu imit -las de modo que

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No seria melhor batermos porta a ver se algum nos atende? pergun-tou o Chico, esforando -se por ser natural. Estou cansado.

Lucas concordou e foi ele prprio bater porta da casinha, mas por muito que batesse no obteve resposta.

Se calhar a pousada no aqui. , sim. Mas talvez os quartos sejam nos

outros edifcios. H mais dois.De facto, havia um edifcio em madeira

mesmo em frente e outro em pedra um pouco adiante. Chico foi espreitar o pri-meiro.

Nada feito! Neste est uma carrua-gem de modelo antigo que ocupa quase todo o espao.

Ento vamos ao outro.Cada um pegou na sua mochila, avana-

ram pela plataforma de cimento, subiram uma ligeira rampa em direo ao edifcio de pedra que devia ter sido em tempos um armazm para guardar mercadorias e que fora restaurado para funcionar como pou-sada. No tiveram tempo de bater porta, pois quando menos esperavam a porta

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abriu -se de repelo e saram l de dentro dois homens e uma mulher fortes, carran-cudos e apressados. Transportavam bici-cletas, deram um encontro s gmeas e, sem dizer ai nem ui, desapareceram a pedalar furiosamente pela pista verme-lha, a ecopista, construda no espao onde antigamente se estendiam os carris para a circulao dos comboios, que h muito tinham deixado de circular por aquelas paragens.

Quem sero estes brutamontes? E para onde que vo a estas horas a

pedalar feitos malucos? No sei, nem me interessa disse

o Chico. C por mim, se houver camas livres, instalo -me.

-tado porque ali o que mais havia era beliches. E por sorte no estava l mais ningum.

Escolham vontade, que eu j esco-lhi o meu declarou o Pedro, atirando com a mochila para a primeira cama.

Hum... como no est c mais nin-

dormem l fora.