Revista memorias

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Editora UNEMAT - Edição n°0 - Ano 1 - Dezembro de 2011

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MEMÓRIAS: Projeto de Jornalismo em Revista do Curso de Jornalismo da Unemat. Maria Madalena Cardoso Macedo e Tatiane Cristina Rezende Vilela. Orientação: Orientadora: Prof. Me. Giovanna Betine e Prof. Ms. Thiago Cury Luiz (coorientador) - 2011.

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Editora UNEMAT - Edição n°0 - Ano 1 - Dezembro de 2011

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Nas próximas páginas você, leitor(a), irá mergulhar em um universo que resga-tará a história de um Colégio que tan-to contribuiu para a formação dos ara-

guaienses e de tantos outros povos que para cá vieram estudar. Memórias foi o nome escolhido para esta re-vista para que você tenha alcance visual e conclua que se trata de um veículo destinado ao resgate de algo adormecido, esquecido em memórias passadas. Desse modo, o nome representa essa lembrança. Ao ler o título você perceberá que nesta revista os as-suntos abordados se dedicarão a abordar algo que já vivenciamos um dia. Memórias. Surgiu da necessidade de fazer um veículo de comunicação, nesse caso uma revista cul-tural, que privilegiasse a história do Colégio Padre Carletti em Alto Araguaia-MT. Um dos fatores pri-mordiais para o desenvolvimento foi que após pes-quisas certificamos que não havia nada documentado de forma sucinta sobre o colégio. Outro fator é que somos araguaienses, e desde nossa infância ouvimos as pessoas contarem sobre o colégio com nostalgia,

com vontade de que essas histórias fossem do conhe-cimento das pessoas, principalmente dos mais jovens, para que dessa forma a identidade e memória não se perdessem. Então, sentimos que deveríamos produzir um material que tratasse tanto dos assuntos relevantes à permanência do colégio na cidade, com uma lin-guagem visual que contemplasse o público como uma contribuição cultural para nossa cidade. Memórias. Proporcionará o conhecimento de histórias importantes que estavam adormecidas na memória de muitas pessoas, as quais tivemos o prazer de entrevistar. As revistas contêm informações sobre o colégio, de forma paralela com os acontecimentos posteriores. Com isso, visamos atentar os leitores para o patrimônio histórico que é o prédio do Colégio Padre Carletti, atualmente ocupada pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Abra sua mente e seu coração para acolher essas páginas dedicadas à memória do Colégio Pa-dre Carletti, ou melhor dizendo, aos personagens que guardaram em sua memória fatos importantes que deram vida a Memórias. Então entre e faça uma boa viagem!

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CARTA AO LEITOR

EXPEDIENTEREPORTAGEM E EDIÇÃO

Maria Madalena Cardoso Macedo Tatiane Cristina Rezende Vilela

REVISÃO E ORIENTAÇÃOProf.ª Me.Giovanna Betine

Prof.º Me. Thiago Cury Luiz

DIAGRAMAÇÃODanymeire Carvalho

ARTIGOPeter Büttner

Dom Anuar BattistiTatiane Cristina Rezende Vilela

CAPARéulliner Rodrigues

CIRCULAÇÃOAlto Araguaia-MT

TIRAGEM20 exemplares

IMPRESSÃOGráfica

Maria Madalena Cardoso Macedo cur-sa Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade do Estado de Mato Grosso, fez estágio na Assessoria do Campus de Alto Araguaia. Foi presidente do Centro Acadêmico de Jornalismo “Assis Chateaubriand”, ges-tão 2010-2011. Apresentou comunica-ções em diversas áreas, com ênfase na

área de Comunicação e [email protected]

(66) 9994-6614

Tatiane Cristina Rezende Vilela cur-sa Comunicação Social com habili-tação em Jornalismo pela Universi-dade do Estado de Mato Grosso, fez estágio na assessoria do Campus de Alto Araguaia. Dentre as ramifica-ções do Jornalismo, a que desperta interesse é Comunicação e Política,

especificamente em Assessoria Política.

[email protected] (66) 9639-0880

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HOMENAGEADOS Homenagem pelo exemplo de doação aos professores Lourença Afonso de Melo

e Konrad Wimmer

LEMBRANÇAS A história da construção e das fases do Colégio Padre Carletti/ Histórico da Mis-

são Salesiana/ Tempo bom que não volta mais/Ensaio fotográfico Memórias

EDUCAÇÃO Pedagogia Salesiana: excelência em educação/ O ser humano condenado a ser

eterno aprendiz

ENTREVISTA O diretor que marcou as Memórias dos alunos

RELIGIÃO Religião: um bem necessário/ Educar é um risco

ESPORTE Contribuição do colégio para o esporte araguaiense

MÚSICA Banda Carajás: grande desenvolvimento de talentos musicais/ História do Hino

de Alto Araguaia-MT

REALIDADES O prédio do colégio Pe. Carletti atualmente/ Alunos Ilustres/ Lições Eternizadas,

minha escola, minha vida!

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SUMÁRIO

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HOMENAGEADOS

O depoimen-to a seguir é de Maria Afonso de Melo, dona Lili, 90 anos e irmã de Lou-rença. “Ela tinha muita amizade, a minha irmã, professora Lou-rença Afonso de Melo, 28 anos, nascida em 10 setembro de 1930, noiva, estava com o

enxoval pronto para se casar. Lecionava no Colé-gio Carlos Hugueney, no Colégio Padre Carletti e ainda costurava para fora. Ela trabalhava muito e morreu de repente. Era uma mulher muito boni-ta, a mais nova de todas as irmãs, foi professora muitos anos no colégio. Me lembro que ela estava lecionando no dia 21 de junho de 1961, ela chamou o padre diretor para ficar na sala porque ela esta-va aplicando prova, e não estava se sentindo bem, portanto quando ela foi saindo caiu. Um aluno que estava ao lado veio me chamar, ela foi levada ao hospital mas já chegou sem vida, e no laudo mé-dico a causa da morte foram problemas cardíacos. Era noiva do militar Elson que estava concluindo o curso de sargento na Academia Militar das Agu-lhas Negras. Depois que ela faleceu meu papai mandou ir buscá-lo de avião, ele veio, quando já estava enterrando, mas ainda chegou a tempo. Ela foi enterrada com seu vestido de noiva. E até hoje recebo elogio de seus alunos pela profissional que foi.

LOURENÇA AFONSO DE MELO O depoimento a seguir foi escrito pelo seu grande ami-go Peter Büttner que ficou em Alto Araguaia-MT no mesmo período e foi uma amizade por toda uma vida até sua morte em 10/04/2004. “O Pe. Conrado, ou Konrad, foi uma pessoa privilegiada em qualidades que o fizeram sobressair em relação a muitos outros. Sabia tocar vários instrumentos musicais com perfeição, sobre-tudo piano e o órgão clássico de vários manuais e pedais. Tocava fugas e outras peças dificílimas de João Sebastião Bach e outros mais. Criou um méto-do próprio para criar passo por passo uma orquestra. Era compositor e maestro de diploma com singular capacidade de criar uma orquestra com pessoas que antes não tocaram nenhum instrumento e nem sou-beram ler notas musicais. Foi o professor de mate-mática mais competente e didático que conheci em minha vida. Foi secretário de escola de extrema per-feição. O inspetor do MEC que fiscalizou durante dois dias a secretaria do Colégio Pe. Carletti, apesar de fazer questão de encontrar erros e falhas, declarou que não encontrou nada disso num trabalho de quase quatro anos. Acompanhou e orientou os professores não-salesianos a fim de trabalharem com a mesma mentalidade de dedicação aos alunos para produzir um processo de educação de qualidade. Como pa-dre foi estimado pelos seus sermões curtos, claros e práticos. Era uma pessoa cheia de humor, às vezes até um pouco sarcástico, objetivando a correção de pensamentos e atos evidentemente incorretos. Con-tribuiu no colégio com muitas ideias valiosas e com muito trabalho de alta qualidade profissional, apesar de sofrer de graves problemas gástricos. Saiu de Alto Araguaia esgotado de tanto trabalhar e decepcionado pelo fato de que não se encontraram mais salesianos que poderiam e queriam levar este trabalho para fren-te após nosso trabalho sacrificante de quadro anos, de reformas materiais, educacionais e escolares, do au-mento significativo de alunos externos e internos (o número de externos ul-trapassou 500, o de in-ternos chegou a 82, da criação do ‘segundo grau’ que poupou os pais araguaienses e de santaritenses da neces-sidade de mandar seus filhos, depois do ‘giná-sio’, a outras cidades)”.

KONRAD WIMMER

Maria Afonso de Melo, irmã da homenageada, com a camiseta do Araguaia Atlético Clube

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do, D. Antonio Malan, na praça principal da povoação”. Outro fato de importante foi a transferência de Dom Malan para a Diocese de Petrolina em Pernambuco. O que interrompeu as obras da construção da Igreja Matriz, de acordo com a página 35 do Livro: “Em 15 de maio de 1948, os alicerces da futura matriz foram continuados após uma in-terrupção de 30 anos”. Nesse con-texto da transferência do bispo, há duas citações datadas de 1924 que mencionam o colégio “... véspera da partida, no salão de acto do Colégio Salesiano...”; e “Houve declamações, diálogos e cantos executados pelos alunnos do Co-légio Salesiano...”. Como na épo-ca as Filhas de Maria Auxiliadora eram responsáveis pela educação de mulheres e o Colégio Salesiano pela educação dos homens, e no livro está mencionado “alunnos” subentende-se que se trata do Co-légio Padre Carletti. Dessa forma está documentado que no ano de 1924 o Colégio Salesiano de Alto Araguaia-MT já estava em funcio-namento. De acordo com Altair Machado de Oliveira, em seu li-vro Alto Araguaia dos Garimpos a Soja, “Em 1939, o prédio onde está localizado o Câmpus de Alto Araguaia já funcionava com o nome de Obras do Cristo Reden-tor e tinha como inspetor escolar municipal o cidadão Major Carlos Hugueney”. Em 1951, passou a se chamar Patronato Salesiano, que, em 1953, mudou para Colégio Padre Carletti, que atendia alunos

De acordo com livro Tom-bo da Igreja Matriz, em sua primeira página está

o decreto de criação da Paróquia de Alto Araguaia-MT, datada de 24 de janeiro de 1920, e assinado pelo bispo Dom Antonio Malam. Entretanto, devido à regra ortográ-fica vigente e da situação política e geográfica da época, está escrito “Decreto de Creação da Parochia de N. Sra. Auxiliadora de S. Rita do Araguaya (Mato Grosso). Mais adiante, ainda na mesma página, temos: “Limita-da assim a parochea submeterá a jurisdição e aos cuidados do dos R.R.P.P da Congressão Salesiana, na pessôa de quem, pelo superior fôr para isso apresentado...”. Des-sa forma, esse decreto representa não só a criação da Paróquia Ma-triz Nossa Senhora Auxiliadora de

Alto Araguaia-MT, mas é o marco da chegada da Missão Salesiana em terras araguaienses. Em 1920, foi dada a ben-ção solene e aconteceu o lança-mento da pedra fundamental das obras da atual Igreja Matriz, po-rém, enquanto a Igreja Matriz não fosse concluída, a Capela do Bis-po Antonio Malan, construída às margens do Rio Araguaia, ficou com os direitos e prerrogativas que cabem a uma Igreja Matriz. E ao lado dessa Capela funcionava o Colégio Salesiano. Vejamos o que está descrito na página 07: “...A Capella de D. Antonio funciona-rá como Egreja Matriz enquanto não fôr edificada a Egreja Paro-chial, cuja pedra fundamental foi solenemente benta e collocada em janeiro de mil novecentos e vinte pelo Exmo e Revmo Bispo Prela-

UM MARCO PARA A EDUCAÇÃO ARAGUAIENSE

Por Maria Madalena Cardoso Macedo

CONSTRUÇÃO DO COLÉGIO PADRE CARLETTI:LEMBRANÇAS

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nos regimes convencional e de in-ternato. Questionado sobre a cons-trução do colégio, Peter Buttner, que foi diretor do colégio durante quatro anos, afirmou que “o tre-cho em forma de ‘L’ foi construído pelo Pe. Mauricio Laport, a cons-trução mais alta pelo Pe. Nelson da Cruz, abrigando a cozinha e a enfermaria, o refeitório dos alu-nos internos com palco para assim podendo ser usado também como sala de teatro”. Com o passar dos anos as amplian-ções continuaram, ainda de acordo com Buttner “mais tarde o Pe. Domingos Val-lero anexou uma pequena construção com as insta-lações sanitárias. O prédio mais novo com a sala defi-nitiva de teatro, ainda para terminar, foi feito pelo Pe. Alfeu e seu Vice-Diretor e Ecônomo, o Pe. Eduardo Hessing”. Maria Afonso de Melo, carinhosamente co-nhecida como Dona Lili, araguaiense, 90 anos de idade, nos confidenciou sobre o colé-gio: “me lembro que quando foi para iniciar as construções houve a benção fundamental do prédio, houve uma missa campal muito bonita, tiveram as madrinhas da cerimônia, minha mãe era madri-nha, dona Maria Júlia Salguei-ro, conhecida como Dona Julica, dona Luzia”. Dotada de extrema lucidez detalhou que “a missa foi celebrada pelo Padre João Durou-re (1897-1989) e a partir daí co-meçaram as obras de construção do colégio. Acredito que foi nos anos de 1938 ou 1939. Foi muito bonito, o começo aí veio devagar, funcionando o colégio na beira do Rio Araguaia”. Sobre a verba utilizada para a construção do colégio, But-

(Centro Universitário Filadélfia), em Londrina – PR. Analisou o prédio e conclui que do ponto de vista arquitetônico “é um colégio com arquitetura correta e moderna para a época devido aos materiais utilizados como o vidro, a madeira e o concreto”. Explica que “o edi-fício foi concebido a partir de um volume retangular com varanda em toda a sua extensão. São qua-tro pavilhões que abrigam salas de

aula, capela e um anfiteatro”. Sobre a locação do prédio no terreno “possui uma forma de U, devido ao pátio estar loca-lizado no centro e o edifício a sua volta”. A respeito da técnica construtiva Fraga diz “que a técnica foi a alvenaria de tijolo e o concreto. O piso é todo em lajota de cimen-to queimado em duas cores. As janelas são em madeira e com vidro. A edificação é toda térrea, porém em sua en-trada principal há um segun-do pavimento”. Sobre alguns detalhes do prédio afirma que “sua fachada é marcan-

te por ser de esquina e apresentar elementos que destacam como a presença de uma sacada do pavi-mento superior, as janelas e o te-lhado. Pode-se perceber também o detalhe de frisos na fachada e a sacada trabalhada com elementos vazados em concreto. Outro deta-lhe importante é o uso da cor, onde o edifício foi todo pintado na cor branca dando aspecto de clareza e leveza a toda edificação”. Para fi-nalizar, Fraga ressalva que “o co-légio ainda preserva alguns traços e características originais desde a sua construção, pois ao longo dos anos o edifício sofreu algumas in-tervenções, mudando sua forma original”. Depois do encerramento das atividades do Colégio Salesia-no, em 02 de setembro de 1991, foi

tner disse: “Foi feito por recursos, tanto da Inspetoria Salesiana de Mato Grosso, quanto da própria escola. Vieram inicialmente tam-bém algumas verbas do Governo Brasileiro e ultimamente doações de instituições eclesiásticas e de parentes e amigos meus da Ale-manha”. Por outro lado, dona Lili afirmou:“Me lembro que papai ajudava muito doou diversas va-cas para o início da construção...”.

Então, subentende-se que foram feitas doações para a Missão Sa-lesiana e esta, por sua vez, utilizou parcialmente ou totalmente esse valor para a construção do colégio. No livro Tombo cita que a arrecadação da Festa de Nossa Senhora Auxiliadora do ano de 1949, foi em prol da construção do Seminário. De acordo com a página 47, “o segundo pavilhão das Obras do Cristo Redentor que passa a receber também o nome de Patronato Salesiano, está qua-se pronto faltando tão somente a varanda e o reboque exterior em fim de novembro de 1950. Em fim de dezembro a varanda e os de-mais estão prontos”. O arquiteto e urbanis-ta, Wanderley de Oliveira Fraga, formado desde 2008 pela UniFil

“Em 1939, o prédio onde está localizado o Câmpus de Alto Araguaia “já fun-cionava com o nome de

Obras do Cristo Redentor e tinha como inspetor es-

colar municipal o cidadão Major Carlos Hugueney”. ALTAIR MACHADO DE

OLIVEIRA

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inaugurada a Universidade do Es-tado de Mato Grosso em Alto Ara-guaia-MT, com funcionamento no período noturno, e por algum tem-po funcionou concomitantemente uma Escola Municipal durante os períodos matutinos e vespertinos.

enormes janelas, escultura Nossa Senhora Auxiliadora no jardim, Capela, Anfiteatro, portas, e tantos outros detalhes que acusam a pas-sagem dos Salesianos que tanto fi-zeram para a educação araguaien-se.

E ainda depois de tantos anos da construção do Colégio Pa-dre Carletti, o prédio continua sen-do utilizado para a educação, para a formação de cidadãos, para o de-senvolvimento intelectual. E ainda guarda alguns vestígios, como as

HISTÓRICO DA MISSÃO SALESIANA

Em 1º de setembro de 1894, foi aberto o Liceu São Gonçalo para o fun-cionamento regular do ensino primário. Pela falta de espaços, em 1895, os alu-nos foram transferidos para uma chácara mais ampla, onde começaram as primei-ras oficinas de serralheria, carpintaria, alfaiataria e sapataria, passando a obra a intitular-se “Liceu de Artes e Ofícios São Gonçalo”. Por conta desses fatores, O Li-ceu Salesiano São Gonçalo passou a ser a “Casa Mãe” e o ponto de referência para a nascente Inspetoria, ou Missão Salesiana de Mato Grosso. Mesmo contando com a grande extensão territorial do estado de Mato Grosso, os salesianos fundaram casas, pa-róquias e escolas em várias cidades mais populosas e, do ponto de vista das ques-tões sociais, as que apresentavam maiores problemas em relação à educação, assis-tência social, infra-estrutura básica de ser-viços, entre outros. A importância dos colégios sale-sianos para a educação em toda a região de Mato Grosso foi fundamental, pois o estado, por se situar na região centro-oes-te, tinha pouco acesso aos grandes cen-tros, o que dificultava o seu desenvolvi-mento sócio-econômico e educacional. E até os dias atuais, a Congressão Salesiana atende as Nações Bororo e Xavante, nas áreas dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em áreas consideradas de preservação cultural.

A Pia Sociedade de São Francisco de Sales foi fundada pelo Padre Giovan-

ni Bosco, ou Dom Bosco no ano de 1859, em Turim, Reino do Pielmonte Sardenha, atualmente Itália. Dom Bosco nasceu em 16 de Agosto no Colle dos Becchi. Prove-niente de uma família muito pobre, desde muito cedo se preparou para a missão de educador dos jovens pobres e abandona-dos, missão esta que foi revelada durante um sonho quando ele tinha nove anos de idade. Foi ordenado sacerdote em Turim na Igreja da Imaculada Conceição em 5 de Junho de 1841. E possui em sua vida três propósitos “Ocupar rigorosamente o tempo. Sofrer, fazer, humilhar-se em tudo, sempre que se tratar de salvar almas. A caridade e a doçura de São Francisco de Sales me guiará em tudo.” A Missão Salesiana é fundada e rapidamente multiplicam os oratórios, as escolas profissionais, os colégios e os centros vocacionais. E no ano de 1872 é fundado o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), com o objetivo de trabalhar especificamente para a juventu-de feminina. Na América Latina, a Missão Sa-lesiana chegou no ano de 1875 na Argen-tina. E somente em 10 de julho de 1883 a Missão Salesiana chega ao Brasil, na ci-dade de Niterói- RJ. Expandiu para vários Estados do país. Vindo por via fluvial do Uruguai, chega a Mato Grosso, especifica-mente a Cuiabá, em 18 de junho de 1894.

LEMBRANÇAS

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AGÊNCIA JUNIOR DE JORNALISMO

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIALUNEMAT - CAMPUS DE ALTO ARAGUAIA

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A sequência do tempo para a Obra Salesiana em Alto Araguaia teve fases que

determinaram as dedicações dos salesianos e a capacidade de con-textualizar o carisma na região; por outro lado estas fases também foram marcadas pelas idéias e po-sições dos salesianos em relação à Prelazia. Conforme prevalecia uma visão de governo ou de ho-rizonte de perspectiva a atividade salesiana progrediu se deslanchou ou ainda se modificou e assumiu outros caminhos que determina-ram mudanças, às vezes radicais, quanto ao foco do trabalho dos salesianos. Da mesma forma in-tervieram as mudanças sociais, as atividades de produção da região, as políticas desenvolvimentistas dos governos, socialização da es-cola pública e o desenvolvimento da sociedade que permitiu maior acesso aos bens que o progresso do país. Estes fatores determina-ram, às vezes um avanço ou um retrocesso nas atividades dos sale-sianos em relação à obra em Alto Araguaia. Cada fase ou postura dos salesianos em relação aos dois segmentos de atividade na re-gião, a escola ou a educação e a evangelização como atendimento religioso, refletia e influência do modo de vida que a população da cidade e das fazendas tinham as-sumido. Um espírito de adaptação e de reciprocidade animou a vida salesiana para eu ela pudesse ofe-recer respostas e, principalmente, que estivesse em postura de guia e de orientadora da vida e da edu-cação para os jovens, para as famí-lias e para a cidade. A integração

2- Fase: de 1925 a 1926 – fator de-cisivo nesta fase foram os comba-tes entre as facções políticas até a posse do novo governo em 22 de janeiro de 1926. Fase importante para a história da cidade. Pe. José Noronha deu grande ênfase e de-senvolvimento para o oratório fes-tivo.

3 – Fase: de 1934 a 1938 – A obra esteve fechada por ordem da ins-petoria.

4- Fase: de 1939 a 1953: A pre-sença salesiana se solidifica pelas atividades na escola, na “desobri-gas” e no atendimento paroquial. Novo prédio para o Colégio, a pre-sença das FMA (Filhas de Maria Auxiliadora). Mns. João Batista Couturon e D. José Selva, como pastores.

5 – Fase: de 1953 a 1969 – O co-légio pode oferecer o primário e o ginásio. Cresce o número de alunos internos e externos. Aten-dimento paroquial prossegue no mesmo ritmo. Reinício da constru-ção da atual Matriz. Aumento do prédio do Colégio. Fazenda. Inicia o longo período de governo de D. Camilo Faresin – Desmembra-mento da Prelazia e transferência da sede para Guiratinga. Em 1981 passa a ser diocese de Guiratinga.

6 – Fase: de 1970 a 1985. Tenta-tiva de estabelecer além do Giná-sio o Científico. Cresce o prestígio do Colégio, aumenta o número de alunos. Inauguração da Matriz. Auge do colégio e declínio d co-légio a partir da grande revolução

dos salesianos com a vida da cida-de sempre foi intensa e marcante. Houve época em que os salesianos se sentiam muito amparados pelas famílias de liderança na cidade e na região. A presença da escola proporcionou um reconhecimento e aceitação do espírito salesiano de forma muito simples, mas pro-fundamente arraigada na alma dos jovens e na esfera social.

As fases históricas, sem critérios basilares que as estabe-leceram, mais por presença e atu-ação dos salesianos, podem ser agrupadas segundo a seqüência:

1 – Fase: de 1920 a 1924 – fator importante foi a presença de D. Antonio Malan. Assim prescreveu o Pe. José Corazza sobre o início da Obra “Em 1920 D. Malan lan-ça a pedra fundamental da futura igreja na praça principal da vila. Em 1921, tomava posse da paró-quia o Pe. José Galbusera, acom-panhado pelo irmão coadjutor, Me. Ângelo Sordi, que além de auxiliar como vigário, foi encarregado da agência local do correio e indicado para lecionar na escola ali existen-te. Aos 26 de fevereiro de 1922, D. Malan benzeu a primeira capela, ao lado da residência salesiana e as imagens do Sagrado Coração e de Nossa Senhora Auxiliadora. A igreja paroquial não pode ser construída por oposições de polí-ticos. Ao lado da paróquia passou a funcionar uma pequena escola salesiana. Em 1922 D. Malan foi trasferido para Petrolina”. (Cora-zza, B. Informativo, nov-dez. Ano 20. Dez 1994)

A HISTÓRIA EM FASESLEMBRANÇAS

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da igreja e nas idéias provenientes do Capitulo Geral Especial. Fe-chamento do internato (1984) e das atividades da escola. Venda da Fazenda. 7 – Fase: de 1985 a 2005. A pre-sença salesiana passa a ter o foco na atividade paroquial e nos ora-tórios ou atividade de promoção social. Presença do segundo Bispo Diocesano, D. José Foralosso e do primeiro bispo diocesano não sa-lesiano a partir de 2001, D. Sebas-tião Assis de Figueiredo. A Ferro-norte e o progresso da região. O pedido do Sr. Bispo Diocesano de entrega da paróquia para os padres diocesanos.

AS FASES DA HISTÓRIA DO COLÉGIO PADRE CARLETTI – AS

MUDANÇAS NA REGIÃO E NA INSPETORIA

Ao falar exclusivamente da escola ou da presença salesiana na escola em Alto Araguaia acen-tuam-se alguns fases ou épocas:

A – De 1921 a 1934 – Os salesia-nos Pe. José Galbusera, o funda-dor, e Me. Ângelo Sordi marca-ram presença. Me. Ângelo Sordi dedica-se ao atendimento da agên-cia do Correio e leciona em uma escola pública. Neste tempo, com a presença de D. Malan, as ativi-

nos eram 105 e os externos 139, somando 244 alunos ao todo. As-sim depois da nova estrutura, o colégio progride a cada ano, em 1960 ultrapassou os trezentos alu-nos, precisamente 309, para atin-gir em 1963 509 alunos. Este teto atingido em 1963 não prosseguiu, decresceu ou estabilizou em 350 alunos em 1969. A partir de 1970 até 1972 o Ginásio Pe. Carletti passou por um verdadeiro furacão; Pe. Pe-ter Bütner e Pe. Konrad Wimmer chegaram para transformar as rela-ções educativas e promover ativi-dades de engajamento dos alunos. Por meio da Banda e da Fanfarra entusiasmaram os alunos, mas di-vidiram a comunidade. Os outros salesianos professores não aceita-ram os valores educativos propa-lados por eles e a crise de instau-rou. O desfecho aconteceu com a vinda do Pe. Nelson Pombo como diretor, eu já fora diretor em 1957-1962. O colégio voltou à normali-dade e vida escolar tomou os seus rumos tradicionais. Em 1872, por pedido das autoridades e da popu-lação foi aberto o curso Científico, porém não conseguiu, por vários motivos prosseguir e teve que ser encerrado. Nesse período houve vá-rias melhorias nos prédios do co-légio.

E – De 1973 a 1981. Neste perío-do acentuou-se por dois triênios de 1973 a 1978 a normalidade da vida no colégio. Atingiu-se no início de 1978 o maior número de internos de todos os tempos, 142. Também nesta época houve muitas melho-rias na fazenda com a manuten-ção das pastagens e com a divisão mais criteriosa para o manejo de gado. Quase toda a fazenda ficou

dades dos salesianos convergiam para o atendimento pastoral da po-pulação. Depois da presença dos dois novos diretores, Pe. José No-ronha de 1931-1933 e Pe. Colbac-chini em 1934 fechou-se a casa sa-lesiana. Também não estava mais presença D. Antônio Malan.

B- De 1938 a 1949 – Sob a inspira-ção do novo Administrador Apos-tólico Mns. João Batista Couturon, Pe. João Duroure reabre a obra com uma subscrição a muitos fa-zendeiros colaborarem com uma construção para a reabertura da casa e da escola. Estas construções iniciadas pelo Pe. João Duroure fi-cavam paralela com a igreja perto da ponte e perpendicular ao Rio Araguaia que distava dali uns trin-ta metros somente. Nesta etapa a média dos alunos matriculados por ano variou de 70 a 127.A partir de 1945, o diretor sucessor do Pe. João Duroure, Pe. Maurice Laport continua com as atividades da escola e planeja um novo pré-dio futuro prevendo a expansão do colégio e o progresso da região.Em 1949 constroem as salas de aula e alguma parte do atual prédio que fica defronte ao colégio das FMA, neste ano os alunos são 124.

C- De 1950 a 1952 – Quando as novas instalações de salas de aula, de escritórios e de dormitórios es-tão prontos como a primeira parte de um novo e amplo colégio para externos e internos, o número de alunos duplica: em 1950 são 141. Aumentando o número de alunos e tendo novas instalações, em 1952 os alunos somam 218.

D- De 1953 a 1972 – Em 1953 chega a autorização para iniciar o Ginásio e neste ano os inter-

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formada e conforme o desejo do Pe. Paulo Mohr, em 1979 refez as cercas com madeiras que duravam 99 anos. Depois iniciaram as indefi-nições, outra vez, por novas idéias e novos questionamentos sobre a educação salesiana escolar; após dois novos diretores e muitas ex-periências novas, o internato esta-va no fim e a população não olhou mais com tanta segurança para o trabalho salesiano estas novas mo-dalidades. Estas posturas levaram questionamentos ao cerne da obra, a escola em si, como escola sale-siana particular.

F- De 1982 a 1985 (1987)? – De-sativou-se o Ginásio Pe. Carletti e a escola passou a ser conveniada com o Colégio das FMA. Tanto entusiasmo durou pouco e a cons-ciência do trabalho salesiano não encontrou mais chão, teve que ser encerrada a atividade escolar sale-siana em Alto Araguaia em 1987. Os salesianos desistiram da parce-ria com as FMA e concentram-se nas atividades paroquiais. A expe-riência teve seu preço. Porém os salesianos ainda continuavam morando nas depen-dências do antigo Ginásio Pe. Car-letti. Então outros olhos e outras iniciativas se posicionaram ante o prédio do Colégio. A Prefeitura e a UNEMAT estavam de olho nes-te imóvel para suas atividades, em especial prevaleceu a atividade da UNEMAT.

O ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES EM

ESCOLA E DO GINÁSIO PE. CARLETTI

Os salesianos ainda fica-

MARCARAM PRESENÇA

Alguns salesianos torna-ram-se muito significativos nesta presença por alguns motivos dife-renciados conforme os tempos.

Dom Antônio Malan – pelo pou-co tempo e por suas intervenções corajosas.

Pe. José Glbusera- primeiro dire-tor

Me. Ângelo Sordi – pelos diversos trabalhos e atendimentos no início da obra.

Mns. Joao Batista Couturon – grande apóstolo e grande missio-nário

Pe. João Duroure – pela retomada da obra em 1938, pela sua capaci-dade de relacionar-se com as prin-cipais lideranças e como educador e como pacificador das grandes fa-mílias em litígio.

Pe. Maurice Laport – sucessor do Pe. Duroure fez o colégio pro-gredir e criar mais visibilidade. Dedicou-se na construção da nova sede do colégio e em promovê-lo Ginásio.

Pe. Alfeo Levorato- diretor por longo tempo. Procurou melhores os prédios do colégio.

Pe. Nelson Pombo Moreira da Cruz – diretor por dois períodos e promoveu o bem-estar do colégio.

Pe. Martinho Pini – o grande pá-roco de vários anos e de um aten-dimento impar junto a população. Muito piedoso e zeloso. Promoveu sempre a devoção a Nossa Senho-

ram morando ou residindo nas dependências da escola até 1991. Depois passaram para a residência da paróquia, onde residem até os dias de hoje. De 1979 a 1982 a comu-nidade teve vários diretores e a comunidade mudou a atenção ou foco pastoral deixando cada vez mais a atividade escolar se des-mantelar. Perdeu-se o centro da obra e atenção deslocou para uma atividade global: SDB, (Salesiano Dom Bosco) FMA, Cidade e pa-róquia. Uma vez perdido o foco e as motivações do trabalho sale-siano em escola, os dias estavam contados e em 1982, em nome da ação-conjunta entre FMA e SDB, passou-se a parte formal escolar para a escola das FMA que eram conveniadas com o Estado. Este fato decretou o fim da atividade escolar dos salesianos em pouco tempo. Semelhante fato ocorreu com a comunidade Coxipó que passou sua escola para o São Gon-çalo e permaneceu uma comunida-de exclusivamente pastoral social e paroquial, mudou o foco. Em Alto Araguaia contri-buiu para esse desfecho a diminui-ção dos internos, as dificuldades financeiras e salesianos que não mais se motivaram para trabalhar em escolas ou internatos. Como essa mentalidade estava dissemi-nada pela maioria dos salesianos, a anuência foi tranqüila e a história se cumpriu e suas forças assumi-das por seus agentes. Constrói-se a história pela possibilidade assumi-da e destinada a registrar-se como opção feita e executada. Assim se encerrou a atividade salesiana da educação escolar em Alto Ara-guaia.

SALESIANOS QUE

LEMBRANÇAS

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ra Auxiliadora e a Dom Bosco. Muito estimado por todos.

Pe. Firmo Pinto Duarte – Cuidou da escola e procurou manter o co-légio apesar de todas as tendências para encerrar as atividades da es-cola. Pe. Paulo M. Mohr - grande traba-lhador e dedicou-se muito em cui-dar do internato e da fazenda.

Pe. Sílvio Sartori – trabalhou aqui com muito carinho como ecôno-mo e como enfermeiro. Estimadís-simo por todos, em especial pelos alunos internos.

Pe. Domingos Valero – estima-do pelo atendimento aos alunos e atendimento na biblioteca.

Termos de Visitas Inspetoriais

Alto Araguaia, 10 de abril de 2005.

Pe. Afonso de Castro – Inspetor BCG.

O Pe. Afonso de Castro é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, graduado em Letras, Filoso-fia, Teologia e Pedagogia, Mestre em Letras pela UnB e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Unesp de Assis, SP. É autor dos se-guintes livros: Formação Salesiana - Trabalho, Educação e Ética; Relei-tura do Sistema Preventivo na Socie-dade Pós-Moderna; Carta de Roma de Dom Bosco - Reflexões; Presença Institucional Salesiana; Entre o Vale e a Imagem; Carisma para Educar e Conquistar: Espiritualidade, Alegria e Prazer na Educação Salesiana; e Ca-minhos Pedagógicos - A poética de Manoel de Barros.

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Partindo da concepção de que patrimônio his-tórico-cultural vem a ser manifestações ou testemunho significativo da cultura humana

é que torno público esse artigo. Na Revolução Francesa, em meados do sécu-lo XVIII, foi despertado o interesse de fazer com que os monumentos históricos pudessem manter-se vivos na memória dos povos, evitando cair no esquecimen-to. A partir dessa determinada época começaram os esforços e ações políticas para preservação e conser-vação de bens móveis e imóveis existentes em todo o mundo. Em Alto Araguaia, município de Mato Gros-so, cidade pacata com aproximadamente 15.644 habi-tantes (segundo último Censo do IBGE em 2010), há um monumento histórico o qual ainda é pouco conhe-cido, mas que merece todo o reconhecimento de sua população e do Estado de Mato Grosso. Monumento arquitetônico com objetos es-truturais herdados do passado, cheios de valores his-tóricos e culturais e que representa a fonte de uma sociedade intelectual vivida em meados dos anos de 1969 a 1986. Estou me referindo ao Colégio Padre Carletti, inicialmente chamado Patronato Salesiano e, nos dias atuais, funciona como prédio do campus da Universidade do Estado de Mato Grosso, pertencente aos munícipes de Alto Araguaia-MT. Quando patronato, funcionava um colégio particular em poder dos salesianos, e tinham alunos em regime de internato e externato. Com seu fecha-mento, por questões que não são finalidade desse ar-

tigo abordar, após alguns anos a Unemat, em parceria com o município de Alto Araguaia, conseguiu efetuar a compra do mesmo, tornando-o sede de um dos cam-pus da Universidade. Está cercado de histórias. Possui um enlace antropológico entre o homem e sua existência e toda a cultura de um povo ali vivida durante anos. Seus instrumentos de comunicação, as relações sociais, os comportamentos coletivos, os sistemas de valores e crenças que se tornaram referências culturais e educa-cionais. Enfim, tudo contribui para a história. São sig-nos culturais que requerem um apreço diferenciado, pois possuem valor histórico, cultural, arquitetônico e que, de certa forma, têm um valor afetivo para a população e para aqueles que puderam ver de perto a sua construção. Ao entrevistar os ex-alunos do Colégio Padre Carletti, que ficou conhecido na cidade como Colé-gio dos Padres, os mesmos mostraram total apego à vivência da época. E para os que ainda residem na cidade, maior emoção de passar em frente ao colégio e poder relembrar os bons momentos que ali viveram. São memórias coletivas que nem o tempo foi capaz de apagar. E poder ter pelo menos uma parte da história faz com que a cada dia se renove as lem-branças. São momentos marcantes em cada pessoa que passou pelo colégio. Os autores que participaram da construção dessa história de educação referencial, religiosidade que ajudou a formar cidadãos, incentivo à musica, ao esporte, ao teatro e ao cinema merecem emocionada gratidão por todas as contribuições.

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Tempo bom que não volta nunca mais

LEMBRANÇAS

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O ser humano é movido por reflexões sobre sua existência. Esse monumento traz características da cultura de um povo e auxilia na formação da iden-tidade. A História só ganha vida quando, através do patrimônio, se reconhece como identidade de um povo, de uma nação, pois é a historicidade que de-sempenha o papel de diferenciador de cada cultura. Cabe ao Estado proteger, considerando a lei vigente, pois pela Constituição Federal, os poderes federal, estaduais e municipais devem zelar por todos os patrimônios de diferentes formas. Porém, a iniciativa do tombamento, ou seja, de registrar algo que é de valor para uma comunidade, neste caso, deve partir do município, pois visa à pre-servação da memória e outros referenciais coletivos em diversas escalas da população de Alto Araguaia. São fotografias, acervos, mobiliários, que relatam toda uma história intelectual que a população viveu. Não é preciso um diploma para perceber que a preservação do patrimônio e da memória, hoje, é o que salva uma cidade de um futuro horrendo. Anali-sando alguns artigos, o de José Francisco Hillal Ta-vares Botelho, jornalista, escritor, Mestre em Letras e Delegado Regional da Defesa Civil do Patrimônio Histórico (Defender) em Bagé, um fato abordado por ele me chama e leva à reflexão. “Imaginemos agora que franceses e italianos houvessem destruído todos os seus bulevares, demo-

lido o Coliseu e as vielas de Florença, soterrado em concreto as praças de Veneza e posto abaixo a Cate-dral de Notre Dame e as escadarias de Montmartre – tudo para erguer estacionamentos, prédios comer-ciais e condomínios de trinta andares. Ao apagar seu passado, que tipo de futuro restaria a esses países?”. Reflexão melhor não haveria nesse momento. O que nós, araguaienses de berço, estamos fazendo para mudar esse cenário? Qual atitude ou iniciativa tomamos para conseguirmos ou pelo menos almejar que nosso patrimônio, prédio atual da Unemat, fosse tombado e reconhecido como patrimônio histórico-cultural de Alto Araguaia? Nada, simplesmente nada. A era “econômica” das ferrovias que hoje regem a arrecadação do muni-cípio está se findando? E ai? Ficaremos novamente no esquecimento. Veremos tudo passar de braços cru-zados? Sim, porque um povo que vende sua identida-de está condenando às futuras gerações. Não falo só da pobreza espiritual não, mas das questões imprevi-síveis da economia do município. Uma sociedade que cultiva e respeita seu pas-sado histórico, planta o alicerce de um futuro digno e mais humano. Só depende de cada um.

Artigo por Tatiane Cristina Rezende Vilela

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ENSAIOLEMBRANÇAS

Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Alunos com uniforme SalesianoPadres do Colégio Padre Carletti e Freiras do Instituto

Maria Auxiliadora em reunião com amigos

Salesianos e alunos juntos com a imagem de Dom Bosco

Prédio do colégio

Prédio do colégio

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MEMÓRIAS

Alunos com uniforme Salesiano

Alunos com diploma foto retirada em frente a fachada do prédio

Prédio do colégio

Da esquerda para a direita: Mané Catira, Ronaldo Taveira, Padre Martinho, Toninho Português, Carlos Henrique, Milton Morbeck (Miltinho) e João Bosco

Capela do colégio

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LEMBRANÇAS

Boletim Lioniê Vitório (Nico)

Formandos com o paraninfo Dr. Sebastião e sua esposa Eula

Márcia

Formandas Marinês e Ismênia junto com seus pais Nancy e João Ferreira

Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Aluno José Laerte Vieira Campos recebendo o diploma

de sua madrinha Nancy

Apresentação musical

Apresentação musical

Convite da formatura da turma ginasial de 1961

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Boletim Lioniê Vitório (Nico)

Convite da formatura da turma ginasial de 1961

Alunos, padres e bispo Dom Camilo Faresin

Avenida Carlos Hugueney

Igreja Matriz Atualmente Andaimes da construção da Igreja Matriz

Avenida Carlos Hugueney

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Sala de Aula do Colégio Padre Carletti na década de 70

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A linha educacional dos sa-lesianos é voltada para proporcionar aos seus alu-

nos uma educação integral que os prepare para uma vida social cris-tã, que vise construir uma maior igualdade de partilha e justiça numa socie-dade livre, democrá-tica e participativa, com base no Sistema Preventivo de Dom Bosco. A disciplina rígida aplicada aos seus alunos é exem-plo que faz toda a di-ferença na formação de cidadãos hones-tos e qualificados, prezando sempre pela qualidade de ensino com professores capa-citados que proporcionam conhe-cimento de alto nível, centrado nas relações de comprometimento com a transformação da realidade na qual estamos inseridas, para a indispensável formação de uma sociedade voltada para a educação dos seus, ponto culminante para a construção de cidadãos. No Colégio Salesiano Pa-dre Carletti essa era a missão dos diretores e professores que ali es-tavam a serviço do bem, orientan-do e ensinando seus alunos nos momentos de maior dificuldade, esforçando-se para entendê-los e descobrir os valores morais de cada um que ali estava. “A peda-gogia aplicada no Colégio Padre Carletti era de respeito e amor, de amizade e simpatia. Não permitia castigos violentos e agressivos. Defendia, portanto, que a punição

ências vividas na família e na so-ciedade, tendo uma educação mais reforçada para sua melhor apren-dizagem e formação, ou seja, vem a ser a continuação da Educação Infantil que requer maiores cui-

dados, para que não atrapalhe o seu pro-gresso no trabalho e em estudos futuros. Nesse período é reforçada a capaci-dade de aprender, dominando ainda mais a leitura, escrita e cálculos; conheci-mento a respeito de tecnologias, artes e valores de uma so-ciedade; e princi-

palmente o fortalecimento dos vínculos familiares, dos laços de solidariedade humana e tolerância e paciência quanto à vida social a que está o aluno se inserindo; des-pertar o senso crítico de cada um, sua capacidade de argumentação, na busca de respostas aos seus questionamentos; acompanhar o amadurecimento dos jovens que estão sofrendo transformações na vida social, auxiliando-os a serem solidários, capazes de respeitar ao próximo e as diferenças de cada um; conscientizar a preservação do meio em que vivem, da cultura, da religião, da arte, do esporte e da disciplina perante uma sociedade. E por fim o Ensino Cientí-fico onde os alunos ao concluírem estavam aptos a dar aula, porque se baseava no Magistério que hoje já não compõe a grade da educa-ção. Dividiam-se em 02 séries mi-nistradas de manhã junto com o

suficiente consiste em o educador demonstrar ao educando que sua falta prejudicou a amizade e sim-patia que tem com ele, o educa-dor”, relata o ex-padre Peter Büt-tner, diretor do colégio na época.

No período vespertino funcionava a Educação Infantil com alunos a partir de 05 anos de idade e a transmissão do conhe-cimento era feita com atividades lúdicas baseadas na alfabetização e em seus aspectos físico, psicoló-gico, intelectual e social. Visando desenvolver o seu físico, sua co-ordenação motora, o domínio de seu corpo, reflexões sobre o mun-do em que vive, em seus aspectos culturais e sociais, de forma crítica e transformadora; aprender a ler e escrever, fazer cálculos, resolver problemas, interpretar dados, fatos e situações; aprender a interagir, participar e conviver com os de-mais alunos. De manhã funcionava o gi-násio (conhecido atualmente como Educação Fundamental) sendo as séries de 5ª a 8ª geralmente a partir dos 11 anos de idade. Já nessa fase o aluno vem carregado de experi-

PEDAGOGIA SALESIANA: EXCELÊNCIA EM EDUCAÇÃO

Por Tatiane Cristina Rezende Vilela

EDUCAÇÃO

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ginásio. Dedicação exclusiva no ensino, na religião eram metas a serem cumpridas por cada profis-sional do Colégio Padre Carletti. Com aproximadamente 140 alu-nos em regime de internato e ex-ternato a tarefa a ser cumprida não era tão simples assim. Como era cobrado dos alunos o esforço, no-tas excelentes e um ótimo compor-tamento, tinham que fazer sua par-te também. “O dom de transmitir e ensinar, é uma coisa pessoal mes-mo, mas o aspecto presença, o as-pecto cumprimento de calendário, o aspecto disciplinar era rigoroso e eficiente no colégio”, relembra o ex-aluno e professor Herotides Alves da Costa que já está aposen-tado. Varavam madrugadas nas correções das avaliações para que no outro dia logo pela manhã os resultados estivessem ali, pron-tos para serem noticiados. Havia cobrança tanto dos alunos quan-to dos professores. A presteza era inconfundível, por isso fez e faz diferença até hoje seu método de ensino. Quanto aos conteúdos, es-ses sim se tornam um patrimônio histórico que devemos preservar. Não se limitavam a proporcionar aos seus alunos os melhores livros didáticos completos, diferentes dos que ora são apresentados, re-

ciplina tudo era bem controlado e quem se desviasse era chamada a atenção. E pela boa conduta e bons resultados nas provas os alu-nos eram premiados. Eu, por vezes recebi varias premiações, certifi-cados de comportamento, de apli-cação em aula, de melhores notas, tudo isso, e quem ganhasse levava o premio”, conta o ex-aluno Kle-ber Aires Fávero, servidor público aposentado prestando serviço para a Secretaria de Fazenda do Estado de Mato Grosso. E para aqueles que não conseguiam desenvolvi-mento necessário para premiação, se esforçavam mais ainda, para que na próxima vez obtivesse êxi-to. Era uma forma de ajudar os alunos a terem maior interesse em aprender, a ter conhecimentos ne-cessários e utilizados por uma vida inteira. A repressão que ali existia era para incentivá-los a crescer intelectualmente e pessoalmente, para que se tornassem pessoas de bom caráter, boa índole, distribui-dores de conhecimentos e cultura. Os salesianos assumem com total responsabilidade e se-riedade o caminho mais correto para se chegar a uma educação de qualidade. Educação é a base de uma sociedade, por isso investi-ram durante todo o seu existir no município de Alto Araguaia, em infraestrutura, diretores, professo-

sumidos. “Então o aluno que saía do colégio, terminava uma oitava serie, nos tínhamos o ginásio e o primário, então ele saia com muita competência, ele saia sabendo, ele pegava o conteúdo”, relata o pro-fessor Herotides. Esses sim eram extensos, complexos, feitos para despertar a intelectualidade dos alunos, do-mínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a pro-dução moderna, conhecimento das formas contemporâneas de lingua-gem e conhecimentos de Filoso-fia e de Sociologia necessários ao exercício da cidadania. “Hoje há uma diminuição de conteúdo, e é por isso que às vezes me chamo de radical, mas não é. Hoje dão conteúdos na oitava serie que an-tes era visto na quarta serie. En-tão fica um vazio muito grande.Naquele tempo você era obrigado a cumprir aquela meta estabeleci-da”, complementa o professor. Acompanhamento e ava-liação escolar eram feitos perio-dicamente, a fim de constatar a eficácia e eficiência dos alunos, contribuindo para sua inserção futura na sociedade cristã. Aque-les que demonstravam dedicação nos estudos e bom desempenho, eram premiados com medalhas e certificados de comportamen-to como forma de incentivo aos estudos.“Rigidez no ensino, dis-

Acolhida antes do início das aulasDesfile ao lado do colégio

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EDUCAÇÃO

res assim como autores dos livros e materiais didáticos aos seus alu-nos de forma com que os mesmos concorressem para qualificações por ora hoje quase desaparecidas no âmbito da educação no Brasil. Seu diferencial era notório em relação às demais instituições de ensino ali presentes nos muni-cípios. Seus alunos eram reconhe-cidos e possuidores de prêmios por onde passavam. Destacavam-se perante todos os lugares que vieram a percorrer. “Sinceramen-te Alto Araguaia viveu ANOS DE OURO sem sombra de dúvida, uma época intelectual jamais vivi-da, foi um ensino de qualidade que hoje dificilmente se vê, a qualida-de de ensino que tinha aqui, e eu pude vivenciar e compartilhar com os outros alunos essa educação de qualidade”, disse Donald Ferreira

de nossas crianças e jovens com o carinho que precisam e a firmeza que necessitam. Dom Bosco tinha uma idéia bastante clara do problema educativo. Escolheu, adotou como seu e propôs para os educadores salesianos um método, o Preven-tivo. O Sistema Preventivo de Dom Bosco não constitui exata-mente um sistema, no sentido de tratado científico. É a forma de ensino de qualidade, um estilo de educação particular que os salesia-nos pregam por todo o mundo. Mé-todo esse que possui consistência, convicções e conteúdos precisos, atitudes, estruturas, que deu certo com os alunos do Colégio Padre Carletti e estende-se pelo mundo inteiro, se tornando referencia em educação.

ex aluno, servidor público estadu-al. A educação salesiana está a serviço da formação integral da pessoa. Sua missão é fornecer razoes de vida e de esperança às novas gerações, mediante um sa-ber e uma cultura elaborados cri-ticamente, com base na concepção da pessoa e da vida inspirada nos valores evangélicos. Dom Bosco dizia: “quan-do se trata de educação não se pode deixar de lado a religião”. A educação aplicada pe-los salesianos se sustenta em um tripé: a razão, a religião e o cari-nho, ou seja, em explicar, ensinar, orientar no processo educativo das crianças e dos jovens. Não somos apenas carne, corpo e inteligência. Temos uma alma que necessita de cuidados, devemos amar e cuidar

Lioniê Vitório (Nico) na época em que era aluno do colégio (Nico)

Carteira do estudante Milton Morbeck Filho

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O SER HUMANO CONDENADO A SER ETERNO APRENDIZ

EDUCAÇÃO

dade, curta demais para desenvolver, por mutação e seleção, novos genes de

comportamento. Diz Harris: “Nós, os que constroem e usam computado-

res, não somos por natureza mais sábios do que os homens do tempo glacial, os quais provavelmente ob-servaram e registraram as fases da lua... Nada em nosso material genético prescreve ao nosso cérebro usar disquetes em lugar de estiletes e chapas de pe-dra. Nós dispomos de disquetes e animais domésti-cos, porque a seleção cultural se ocupa disso e não porque a seleção natural favoreceu tal coisa” Isto significa que, geneticamente, vivemos ainda na Ida-de da Pedra Lascada, no Paleolítico. O que nos dife-rencia dos seres humanos daquela época não são os genes. Bem ao contrário, a cultura conquistada pela espécie e que pode ser transmitida e adquirida por cada indivíduo através da aprendizagem. É, portan-to, a seleção cultural e não a genética que constitui o motor do desenvolvimento humano. Necessidades e acasos biológicos entram no jogo, mas são subordina-dos às invenções e providencias inteligentes dos seres humanos. O que, então, é a seleção cultural? Como na seleção natural os indivíduos se adaptam a certas con-dições do meio ambiente, no entanto não pela mo-dificação de seus genes, mas por meio do processo da aprendizagem, assim, os habitantes do clima frio desenvolveram maneiras de comportamento di-ferentes dos homens do clima tropical. Os de grandes concentrações urbanas, como São Paulo e Tóquio, aprendem a sobreviver de outra maneira que os ha-bitantes isolados nas matas de Mato Grosso ou no sertão do Nordeste. Em certos casos, desenvolvem-se até comportamentos novos e assim resultam, no decorrer de poucas gerações, também novos modelos de comportamento e formas de sociedades diferentes. É importante saber que o ser humano pode e deve liberar-se de pressões da seleção natural por meio da cultura. É indispensável agir de acordo com isso para quem se preocupa com uma nova Ética e com um paradigma de Educação capaz de modificar os comporta-mentos obsoletos, ultrapassados ou ina-dequados, e de transformar a sociedade. Isto, por sua vez, significa contribuir para num processo de globa-lização das sociedades a fim de alcançar, em longo prazo, uma comunidade global com maior justiça, segurança e paz, por meio de comportamentos eco-lógicos, consoante com uma nova Ética, nascida de

Entre os primatas não humanos, na sua esca-la mais alta, destacam-se o orangotango, o gorila e o chimpanzé. Ao estabelecer com-

paração entre eles, aparece a posição ontogenética (o que se refere ao desenvolvimento de um indivíduo desde a concepção até a maturidade) e telencefálica (o que se refere ao telencéfalo, parte superior do cé-rebro do ser humano propiciando-lhe o pensar livre crítico-criativo-cuidadoso.) especial do ser humano demonstrando seu significado e as conseqüências para as Ciências da Educação. Muitos pesquisadores deste assunto chamam a atenção para o fato de que - apesar das geralmente numerosas semelhanças físicas e concordâncias entre homem e chimpanzé - em vis-ta do tríplice volume cerebral e das duas vezes mais longa infância e fase juvenil do ser humano, este, por esta mesma razão, possui capacidade de aprender e a necessidade de aprender e ser educado como condi-ção impreterível. Konrad Lorenz demonstra a mesma convic-ção, resultado de suas pesquisas famosas. Vejamo-la: “O membro intermediário entre o animal e o homem verdadeiramente humano (o homem sapien-te), já por muito tempo procurado, somos nós (o ho-mem discente, isto é, capaz de aprender)!O primeiro grande impedimento para o homem che-gar ao conhecimento de si mesmo, a aversão de aceitar nossa descendência de animais, consiste... na ignorância ou na má compreensão da índole da criação orgânica. Fundamentalmente, pelo menos, este impedimento pode ser extirpado do mundo pelo educar e aprender”. Richard Lewontin acentua que a expansão da humanidade sobre o Globo Terrestre, bem como a criação de culturas altas e do progresso técnico, não foi uma necessidade genética. “Mas o que foi tudo isso, então?” questiona ele. “Puro acaso?” Em sua visão, criada por meio de pesquisas e estudos muito sérios e profundos, o sucesso do homem se deixa ex-plicar somente pelo seu desenvolvimento cultural e sua capacidade de aprender e ser educado: “É muito mais provável que, por exemplo, a cooperatividade, uma maneira muito inteligente, se desenvolveu como adaptação cultural às inseguran-ças manifestas do meio ambiente.” Marvin Harris defende, como Lewontin, que o desenvolvimento humano não pode ter unicamente causas biológicas, sendo isto geneticamente impossí-vel em vista da curta duração da história da humani-

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tos. Temos de conquistá-los pensando, investigando e experimentando inteligentemente. Mais ainda: não entramos neste mundo com as nossas habilidades e competências desenvolvidas, mas somente com o po-tencial dessas, o qual necessita ainda o seu desenvol-vimento pelo processo da educação e aprendizagem. Para Gisela Miller-Kipp, “aprender” compre-ende todas as explicações possíveis do conceito de educação. Ela afirma: “É incontestável que o homem pode apren-der e que ele deve aprender e isso tanto filo-historica como onto-historicamente ab ovo, compelido princi-palmente pela complexidade de seu meio ambiente e por sua maturação morfológica e neurológica retar-dada ou, falando em termos de períodos da vida, por sua infância e juventude prolongadas”. Para a mesma autora, a pesquisa humano-bio-lógica é evidente e necessária para definir, na medi-da do possível, o necessário e exigível ao aprender e educar. Em sua visão, estas investigações devem-se voltar até a história natural, sendo impossível que o aprender da espécie humana aí não teria raízes. “Como organismo vivo ela (a espécie huma-na) faz parte e é parte dum processo de aprendizagem que está durando já pelo menos dois bilhões e meio de anos - o da evolução biológica. Pode-se admitir que este processo de aprendizagem, brincando gene-ticamente, deixa e deixou marcas formais e materiais até dentro da ontogênese durante aproximadamente cem mil anos do processo da aprendizagem cultural-mente mediata, na evolução cultural.” Nesta visão, compartilhada pela maioria dos pensadores da Antropologia Pedagógica, procurei re-correr a pesquisas desta natureza, a fim de tirar delas o necessário para evidenciar que o ser humano deve aprender, de uma ou outra maneira, tudo o que tem de saber. Precisa até mesmo aprender a aprender, necessita a aprender a pensar, principalmente a pensar inteligentemente e deve pensar inteligen-temente para viver, sobreviver e conviver feliz em sociedade. Por necessidade, a educação deve, sobre-tudo, instigar e desenvolver estas habilidades, levan-do-as à competência e, ao mesmo tempo, propiciar o acesso adequado ao patrimônio cultural, àquilo que já foi experimentado e aprendido por outros indivíduos da espécie e se tornou propriedade disponível para to-dos que o buscam. Evidentemente, existem para isso diversos tipos de educação, inclusive a auto-educa-ção. Sem educação, o Homem não é propriamente humano. Isto é uma outra consequência da nossa si-tuação telencefálica, da nossa problematicidade. Esta tem como característica a imperiosa necessidade de sua educação e de sua aprendizagem do pensar inteli-gente, condenando-o a ser Eterno Aprendiz.

Artigo inédito por Peter Büttner, produzido espe-cialmente para Memórias

consensos intersubjetivos. Esta sociedade deveria ter características que permitissem aos indivíduos fracos e menos favorecidos sobreviver com dignidade. Sis-temas eficazes de saúde, de educação e de organiza-ção social e política podem alcançar isso. A técnica genética pode melhorar o patrimônio hereditário e propiciar a transmissão deste as outras gerações. Podemos pensar no caso extremo, em que o desenvolvimento cultural inverte os mecanismos da seleção natural. Lewontin exemplifica esta situação. Hoje, a maioria das crianças não nasce nos países in-dustrializados onde existe muito alimento, mas nas regiões nas quais vivem os pobres. Por esta razão, os países do hemisfério sul contribuem muito mais com genes para a espécie humana, em geral, do que os países nórdicos. Assim, as frequências genéticas do ser humano se aproximam, em longo prazo, cada vez mais daquelas que são típicas dos sul-americanos, asiáticos e africanos, tornando as diferenças das raças menores. Por meio de seu desenvolvimento cultural, o homem se fez a si mesmo gerente da evolução. Com base neste fato, Lewontin defende que o tempo dos acasos terminou e que agora os humanos devem de-cidir, eles mesmos, como sobreviver, como viver e conviver. Ele escreve: “A evolução de nosso sistema nervoso cen-tral, a da mão, do olho e da língua libertou o homem dos grilhões biológicos. Nossa consciência e nossa organização social são os meios com os quais deter-minamos o nosso futuro.” A ideia mais relevante que podemos tirar des-tes estudos é esta: da nossa herança biológica, como da cultural, temos de tirar as conclusões para uma nova e adequada visão da vida e da educação. Nosso telencéfalo é o nosso órgão da liberdade no sentido de ele poder pensar e criar tudo o que nos é necessá-rio para viver, e muito além disso. Ele não somente pode e deve substituir os programas do diencéfalo (o que se refere ao telencéfalo, parte superior do cérebro do ser humano propiciando-lhe o pensar livre crítico-criativo-cuidadoso) e tampouco apenas controlar os instintos que possuímos e que nos estimulam, seja para ações favoráveis a nós, à nossa sociedade e ao ambiente em que vivemos, seja para atitudes desfa-voráveis. Este telencéfalo maravilhoso, o melhor ór-gão que no decorrer da evolução se desenvolveu, é criativo e inventivo, pensativo e reflexivo, capaz de criar tudo aquilo que chamamos de mundo cultural humano e que abaixo da dimensão humana não exis-te. Se ele é o nosso órgão da liberdade, ele é igual-mente o nosso órgão da necessidade, pois, estar livre de programas automáticos, que em todos os animais resolvem o desenrolar da vida, significa que neces-sitamos usar as nossas habilidades do pensar e de criar para construir a nós mesmos, a nossa sociedade e o nosso mundo. Não nascemos com conhecimen-

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O Prof. Dr. Peter Büttner, nasceu na Alemanha e após concluir sua faculdade de Filosofia veio para o Brasil na década de 60, um pioneiro da Filosofia e de Filosofia para Crianças no Estado

de Mato Grosso e no Brasil. Pós-doutor em Educação pela Leopold-Franzens-Universität zu Innsbruck (LFUI), Áustria. Ainda, é professor emérito da Universidade do Estado de Mato Grosso desde o ano de 2006. Reside em Cuiabá-MT e nos concedeu essa entrevista por e-mail.

PETER BÜTTNER: O diretor que marcou as Memórias dos alunos

1- Em que ano o senhor chegou a Alto Araguaia? Conte um pou-co sobre a sua chegada e como a cidade era nesta época. Cheguei em Alto Araguaia no início de fevereiro de 1969, de ônibus. Este parou perto da Igreja Matriz, ainda em construção. Nes-se tempo, não existia a rodoviária. O que chamou a minha admiração foi a avenida dupla que percorre toda a cidade, com asfalto novo, iluminação elétrica e arborização. Foi o Pe. Alfeu Levorato, meu an-tecessor no diretorado, que me re-cebeu e levou de jipe àquela casa salesiana, que durante quatro anos ficou sob a minha responsabilida-de.

2- De que forma foi escolhido o nome do colégio? Pe. Carletti foi o superior dos Salesianos de Mato Grosso. Ele era um padre italiano muito animado e animador que soube despertar seus Salesianos, encora-já-los e estimulá-los, tanto em sua

Carletti o Colégio Pe. Carletti mi-nistrei também as aulas de Biolo-gia e Física. Esta implantação do Se-gundo Grau foi sugerida pelo Ins-petor do MEC, o Dr. Luiz Carlos Manhães, que passou conosco mais de uma semana observando e fiscalizando tudo: as aulas, o funcionamento do internato com cerca de 80 alunos, a secretaria, as reuniões de professores, as ativi-dades de alunos na horta, a cria-ção de galinhas e porcos e no trato apropriado de gado leiteiro. Ele chegou à conclusão de que Alto Araguaia se tornou de fato um centro de estudos de “Primeiro e Segundo Grau”, propiciando estes estudos não apenas para jovens de Alto Araguaia e Santa Rita do Araguaia, mas também para os ad-vindos de outros Municípios e de fazendas da região. No internato havia alunos de Mineiros, Cuiabá, Barra do Garças, Campo Grande e Goiânia. No ato da assinatura do do-cumento que autorizou a implan-tação do Segundo Grau, o inspe-tor do MEC disse que considera o Colégio Padre Carletti e o Colégio do Buriti em Chapada dos Guima-rães, como os melhores de Mato Grosso.

5- O sistema educacional dos

vivência religiosa, quanto no seu trabalho como educadores que se-guem o exemplo de Dom Bosco. Logo, o nome do Colégio é em ho-menagem a este homem, a fim de lembrar do seu exemplo e confian-do em sua intervenção, no sentido de rogar a bênção de Deus sobre esta casa Salesiana e seus alunos de todos os tempos.

3- Quais foram os anos em que o senhor permaneceu no colégio? E em quais desses anos foi dire-tor? Fiquei apenas quatro anos - de fevereiro de 1969 a janeiro de 1973 - sempre como diretor dessa escola e também da comunidade religiosa dos Salesianos. Também pertenciam a esta comunidade o Pe. Konrad Wimmer e o Pe. Teo-doro Neuhäusler, também os pa-dres vigários, a saber: o Pe. Marti-nho da Matriz, de Alto Araguaia; o Pe. José Bessemans, de Alto Gar-ças e o Pe. Higino de Ponte Bran-ca.

4- Quais as disciplinas que o se-nhor lecionou? Dei aulas de “Ciências Naturais”, “Desenho Geométri-co e Artístico”, “Religião e Artes Industriais”. A partir de 1971, em que criamos o Segundo Grau de Ensino, fazendo do Ginásio Pe.

Por Maria Madalena Cardoso Macedo e Tatiane Cristina Rezende Vilela

ENTREVISTA

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salesianos é exemplo até os dias atuais. Destaca-se sempre por ter como objetivo a formação de cidadãos honestos e competen-tes. O que o senhor poderia nos descrever sobre a convivência, os costumes e a cultura, levan-do em consideração sua ótica de educador. O sistema educacional sa-lesiano certamente não mudou. Sua prática e execução competen-te, no entanto, estão muito dificul-tadas pelo fato de não serem rea-lizadas por um número suficiente de educadores de formação sale-siana e de dedicação tão exclusiva como era há quarenta anos atrás. A presença dos salesianos nas salas de aula, no pátio, nas diversões e passeios, nas festas e nas práticas religiosas era fundamental. Dom Bosco chamou seu sistema de pre-ventivo e exigiu, por isso, a pre-sença dos salesianos, ou pelo me-nos de um, dependendo do número dos alunos. Isto foi interpretado como vigilância exagerada e não como assistência que aproveita os acon-tecimentos da convivência para orientar o desenvolvimento de há-bitos e habilidades que capacitam para a prevenção e evitando coisas adversas ao bem-estar e a felici-dade. Cultivar a alegria e manter as crianças e os jovens ocupados sempre foi um objetivo importante dos Filhos de Dom Bosco.

6- Na época havia disciplina de Artes Cênicas ou alguma que fo-mentasse o teatro? Artes cênicas como dis-ciplina do currículo escolar não havia. No entanto, um dos profes-sores de Português, o Pe. Geraldo, ocupou em certo tempo boa parte de suas aulas com ensaios de tea-tro que resultaram em excelentes apresentações cênicas, ultrapas-sando o costumeiro teatro leigo. Não me recordo que método este

e evitar gritarias indevidas.

8- E educação física? Como era tratada essa disciplina no colé-gio? Como disciplina curricular havia a Educação Física minis-trada pelo Prof. Itamar. O esporte foi organizado e supervisionado também pelo Konrad, com a aju-da de alunos por ele escolhidos. Todas as tardes de sábado e aos domingos havia torneios de fute-bol muito animados. Muitos pais dos alunos vieram assistir a estes jogos. Havia ao mesmo tempo fu-tebol de salão. Basquete e volei-bol foram mais reservados para as meninas. Durante a organização de uma das festas de São Domin-gos Sávio, provocado pela falta de vagas nestes times femininos, o Pe. Conrado sugeriu criar times femininos de futebol e com eles um torneio próprio. Foi aprovado na reunião dos professores e posto em prática. O sucesso foi fantás-tico. Nunca mais, no entanto, foi repetido, dado que algumas reli-giosas recorreram a autoridades eclesiásticas que, então, proibiram esta “diversão pecaminosa”. A so-lução foi organizar mais jogos de voleibol que não tinham o predi-cado de “pecaminosos”. No primeiro ano de nosso tempo no Colégio Pe. Carletti os dois campos de futebol tinham um declive muito grande, o que difi-cultou bastante os jogos e favore-ceu o time cujo gol se encontrou na parte mais baixa. Conseguimos o nivelamento dos dois campos com a ajuda do Sr. Onecídio, Prefeito Municipal da época, que liberou para isso a patrola da prefeitura. A criação do campo pavimentado de futebol de salão também propiciou mais possibilidades de jogar para o crescente número de alunos. Durante o ato solene de conferição do título de cidadão araguaiense que recebi em 06 de

professor usou para atender as exi-gências do teatro e ao mesmo tem-po das aulas de Português. Lembro-me que na reu-nião dos professores estas tentati-vas foram aprovadas e elogiadas, tanto como causaram ao público assistente surpresa e admiração. Sob este ponto de vista, o teatro não deixou de ser também aula de Português para muita gente e, para alguns, certa iniciação em artes cê-nicas. Lembro os nomes dos prin-cipais artistas, mas não de todos. Sendo assim, prefiro não mencio-ná-los. Um pequeno grupo de alu-nos que comigo produziu os res-pectivos cenários desenvolveu, sem dúvida, boas habilidades para isso. Apresentamos uma das nos-sas peças teatrais também em Alto Garças.

7- Conte-nos um pouco sobre o cinema do Colégio. O cinema do Colégio Pa-dre Carletti foi o primeiro de Alto Araguaia. Funcionou na sala de te-atro que no início só tinha contra-piso e paredes sem revestimento. Começamos no início do primeiro semestre de 1969. Os primeiros bancos foram feitos de tábuas de construção, até que ganhamos do Colégio Salesiano de Lucélia (SP) verdadeiras cadeiras de teatro. Os filmes foram apresentados aos sá-bados e domingos. O salão sempre foi cheio. Nosso cinema não foi con-siderado somente diversão, pois pode ser também aprendizagem e conhecimento e base de discus-sões e diálogos. Tivemos também o intuito de educar a forma ade-quada de comportamento para as-sistir bem e com proveito os filmes apresentados. Alguns alunos aprenderam manobrar a máquina e me substi-tuíram algumas vezes nesta tarefa. Outros ajudaram a manter a ordem

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outubro de 2007, vários vereado-res, ex-alunos do colégio, descre-veram o grande prazer que os fins de semana esportivos lhes propor-cionaram, muito mais do que eu na época podia imaginar. Não somente as atividades esportivas, mas também o cinema, os teatros, a banda e os desfiles, os passeios e excursões dos alu-nos internos e, sobretudo, as aulas de qualidade com a avaliação dos alunos através de conceitos qua-lificantes em vez de notas numé-ricas, contribuíram para estar no gozo de um ambiente educacional que propicia alegria, bem-estar e, principalmente, o desenvolvimen-to progressivo das habilidades e competências cognitivas, a am-pliação do conhecimento e a for-mação de cidadãos responsáveis e competentes. O Colégio Pe. Car-letti, de acordo com a afirmação do Inspetor do MEC da época, foi o primeiro de Mato Grosso que avaliou seus alunos com conceitos qualificantes.

9- O nome da nossa Revista é Memórias justamente para com-partilhar as histórias que exis-tem na memória das pessoas que fizeram parte desse momento histórico. O senhor possui em sua memória algumas histórias que gostaria de compartilhar?

Irei resumir aqui dois acontecimentos que nunca vou es-quecer. No dia da comemoração dos 50 anos dos Salesianos em Alto Araguaia houve um grande desfile com 21 carros alegóricos. Vou descrever apenas um deles: os alunos da disciplina de “Artes In-dustriais” tinham produzido uma bem proporcionada Mini-Alto Araguaia. Continha os colégios, a igreja matriz, o hospital, o Banco do Brasil, as duas pistas de asfalto com quase todas as casas e lojas e

10- O senhor possui contato com ex-aluno? Os nomes a gente sempre recorda em determinado contexto e não um após outro como numa chamada. O primeiro aluno que conheci em Alto Araguaia foi o Adalberto Fávero e, no dia seguin-te, seu irmão Kleber. Tenho certo receio de citar os nomes dos quais, neste momento, me lembro. Os demais poderiam achar que não lembro mais deles. Lembro-me também de muitos, cujos nomes não consigo recordar agora, mas que estimo tanto como os que a seguir vou ci-tar, mesmo com o medo de errar a ortografia ou de não saber o so-brenome, que deixo de lado quan-do não faz falta para saber quem é a pessoa. Assim, certamente, é com Salvi, Ary e Onicídio, Irene e Lúcia, com os médicos Wilson e Carioca, com Elias, Jordão, Je-remias, Laerte com irmão e irmã Dalma, Leda, Ademildes e Noecir, Terezinha, Clarismundo, Luciene com irmãos e Terezinha com irmãs e irmão Mauro. Outros, provavel-mente, se deixam identificar com mais certeza acrescentando seu sobrenome: Domingos Dias, Ed-son de Freitas, Zeca Toledo com suas irmãs Maria Aparecida, Ana Maria, Ângela e os irmãos João Bosco e Jânio, Diógenes Fraga, Nelson de Barros, Maia Neto e ir-mão.

11- Como educador de formação salesiana e pioneiro da Filoso-fia e de Filosofia para Crianças no Estado de Mato Grosso e no Brasil, você poderia explicitar um pouco a pedagogia aplicada pelos salesianos a fim de pro-piciar o desenvolvimento das habilidades e competências, do conhecimento e da cultura, do caráter e da personalidade de seus alunos? A pedagogia dos Salesia-

as árvores no meio. Esta maquete de alta perfeição foi montada so-bre duas carretas interligadas por duas vigas de 12 metros e chapas de compensado. Os lados foram revestidos com pano, esconden-do as rodas. Sobre o pano estava a inscrição garrafal NÓS JOVENS LEVAMOS A NOSSA CIDADE PARA FRENTE. Não foi nem jipe, nem caminhão que acionava a nossa mini-cidade, foram cerca de 20 jovens que a puxaram, cada um em uma corda. A banda tocava perto. Estando em cima do palan-que, na frente da Prefeitura, pude observar a alegria e o entusiasmo da população e dos visitantes que se manifestavam em altos gritos e veementes aplausos. Ao meu lado, dos representantes da Secretaria Estadual de Educação e de outros visitantes de Cuiabá, que não me conheceram, pude ouvir elogios “desta escola que consegue fazer isto com alunos”. A outra história aconteceu na noite do dia em que o Pe. Ins-petor, superior dos Salesianos de Mato Grosso, anunciou aos alunos que o Pe. Conrado e eu seríamos transferidos para outras escolas. Os Salesianos estavam reunidos no piso superior, quando tocou a campainha e logo mais uma sineta. Escutavam-se vozes murmurando. Saímos na sacada e vimos um ba-talhão de gente. Todos vestidos de preto. Não entendemos logo o que aconteceu. Foi quando esta turma de alunos começou a cantar e cho-rar e uma aluna fez um discurso em que, dentre outras coisas, pe-dia a permanência do Konrad e a minha no colégio. Infelizmente isto não de-pendeu de nós e não pudemos atender esta vontade. Creio que isso não é apenas uma historinha, mas parte da História de Alto Ara-guaia e Santa Rita do Araguaia, parte da nossa história.

ENTREVISTA

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nos é o método de Dom Bosco. Evidentemente o educador salesiano estuda e aplica também linhas pedagógicas e teorias da psicologia educacional de hoje en-quanto estão em sinto-nia com a essência do método de Dom Bosco ou, pelo menos, não são contraditórias. Dom Bosco não viu nas crianças e adolescentes apenas seres humanos dignos de respeito e atenção, mas imagens de Deus. Estava convicto de que tudo que fazemos a uma pessoa, diretamente a Deus fazemos e, por este motivo, deve ser feito como está certo e justo. Sua pedagogia, portanto, é de res-peito e amor, de amizade e simpa-tia. Não permite castigos violentos e agressivos. Defendeu, portanto, que a punição suficiente consiste em o educador demonstrar ao edu-cando que sua falta prejudicou a amizade e simpatia que tem com ele, o educador. Dado que o aluno não quer que aconteça isso, procu-ra corrigir-se, o que significa um progresso na educação. Na minha experiência, este tipo de punição compreensiva e construtiva fun-cionou bem, mas exige muita ha-bilidade do educador. Ele, em seu processo de formação pedagógica, tem de aprender na teoria e prática que educar é um processo cons-trutor e dignificante do educando, processo que requer amor, dedica-ção, compreensão e muitas habili-dades e competências educativas. A pedagogia salesiana foi chamada por Dom Bosco de pre-ventiva. Ela estabelece que sem-pre tenha um educador junto aos educandos no sentido de assisten-te que, como a palavra diz, assiste ao aluno, o vê e ouve, acompanha

de sobrevivência e da globalização de vida plena – o óbvio não compreendido. Em linhas gerais, como analisa a educação nos dias atuais? Graças a pais e educadores compe-tentes em educação, - espalhados pelo Bra-sil, mas em minoria, - existem muitas pesso-as educadas neste país. O assim chamado sis-tema de educação do governo, no entanto, além do nome, quase nada tem de educa-ção no sentido de uma

formação humana necessária. Na verdade é apenas um sistema de instrução e esta mal organizada e pessimamente ministrada. Além do consumismo, da criminalidade, da corrupção e de outros sistemas do gênero, o sis-tema falido da pseudo-educação gera, permite e incentiva, mais e mais, a desordem e arbitrariedade, a insegurança quase total, a desi-gualdade social etc. impedindo o verdadeiro progresso do bem-estar e da felicidade do povo deste país, verdadeiramente abençoado pelas suas riquezas naturais, seu clima, sua beleza, sua convivência de ra-ças e culturas e muitas outras van-tagens mais. Não bastam instruções – às vezes apenas copiadas ou de-coradas. Conhecimento não se pode transmitir cada pessoa pre-cisa construí-lo ou reconstruí-lo para si. Para isso é necessário e indispensável educar a capacidade enorme do pensar humano crítico-criativo-cuidadoso. Com esta base podemos promover competências no viver, conviver e sobreviver, competências para educar, traba-lhar e fazer uma política honesta e verdadeira, no sentido de orga-

e socorre quando for necessário e prevê atos e comportamentos que possam prejudicar as crian-ças ou os adolescentes, dando ou lembrando-lhes conselhos, infor-mações e sugestões. Isto foi inter-pretado e praticado, muitas vezes, como sistema autoritarista, o que não foi a intenção de Dom Bosco. A Filosofia para Crian-ças foi criada por Mathew Lip-man cerca de cem anos depois de Dom Bosco. Ela é uma educação do pensar inteligente e como esta não é contraditória ao sistema sa-lesiano, mas o complementa ex-celentemente como o demonstrou muito bem o padre salesiano Wag-ner Galvão em sua dissertação de mestrado em educação, que fez com a minha orientação. Este método objetiva edu-car o cidadão democrata com au-tonomia crítico-criativo-cuidadosa no pensar, querer, fazer e sentir para a maior eficiência na produ-ção e no manejo ético e razoável da ciência e tecnologia, do cres-cimento pessoal e social, cultural, político e econômico.

12- Você possui várias publica-ções como, por exemplo, o livro Mutação no educar: uma questão

Peter Büttner na sala da diretoria do Colégio Pe. Carletti, quando foi diretor

desde o ano de 1969 até 1973

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nização e construção do estado (polis) para a felicidade de todos – o que não depende apenas do governo, - podemos ser pessoas e profissionais éticos, habilitados e responsáveis e com uma visão e compreensão do mundo que nos faz mais humanos e garante a vida neste planeta.

13- Como era a relação de edu-cação e religião aplicada nos Co-légios Salesianos e como eram tratadas essas temáticas aqui no colégio em Alto Araguaia-MT. Um ministro da Inglaterra visitou a primeira casa salesiana em Turim e ficou admirado com o comportamento, com a alegria e o esforço nos estudos dos alunos. Perguntou, então, Dom Bosco a respeito de seu segredo para con-seguir tudo isso, uma vez que as escolas que ele conhecia estavam buscando os mesmos resultados e não o conseguiam. Dom Bosco respondeu ao ministro que o tal segredo seria a religião que não existe nas escolas das quais ele fala. As escolas salesianas, entan-to, buscam a prática da religião, a qual não deve ser confundida me-ramente com rezas, missas, procis-sões e práticas semelhantes, que também tem seu valor. Religião é muito mais do que um sistema de doutrinas, crenças e práticas ritu-ais. É, principalmente, a crença na existência de um poder ou princí-pio superior, sobrenatural, do qual depende tanto o destino do ser hu-mano, quanto à ordem do universo e ao qual se deve respeito, obedi-ência e uma postura intelectual e moral que resulta dessa crença. (Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 1.0). O Cristia-nismo inclui a fé em Jesus Cristo, sua ética e sua promessa de re-denção e eterna felicidade. Mui-tos cristãos alcançam um relacio-namento mais íntimo com Deus, conseguem viver na sintonia com

dores interpretam o referido ver-sículo do Pai Nosso assim, mas todos os bons educadores querem tornar seus alunos conscientes e competentes para contribuir a tor-nar a Terra e a nossa sociedade as-sim. No fundo de todas as nossas iniciativas e de nossos esforços no Colégio Padre Carletti estava esta intenção, mesmo que não tenha sido explicitada assim. E, como eram tratadas es-sas temáticas no colégio? Não havia aulas específi-cas para isso. Todas elas, no en-tanto, podem ser entendidas como pedras de construção desta visão do mundo. Certos alunos constru-íram mais, outros menos. Mesmo as aulas de Religião não foram da-das apenas e explicitamente nestes termos. Era costume dos Salesia-nos, desde os tempos do primeiro internato de Dom Bosco, de o di-retor ou outro educador falar al-gumas palavras construtivas após as orações da noite, antes de os alunos se retirarem para dormir, a assim chamada Boa Noite. Nos externatos esta fala foi praticada antes de cada turno de aulas e foi chamada de Bom Dia. Assim também foi no co-légio de Alto Araguaia. O objeti-vo dessas falas era ser como diz o provérbio Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura. Em geral, estas “miniaulas” partiram de um acontecimento ou exemplo que chama a atenção dos ouvintes. Se-guiram algumas dicas importantes capazes de fazer os alunos ques-tionar e julgar o fato a fim de eles mesmos chegarem a uma opinião própria sobre o caso, à visão das conseqüências e das atitudes que possam ser tomadas. Procurou-se clareza, brevidade, importân-cia e acessibilidade para que, no decorrer dos tempos, estas gotas possam furar a pedra dura. Assim se tentou tratar temáticas indispen-

Deus. Entre muitos outros temos como exemplos o próprio Dom Bosco e seu discípulo São Do-mingos Sávio. Este relacionamen-to não é exclusivo dos cristãos. É relativamente raro, mas universal na humanidade. O Budismo, por exemplo, pode apresentar muitos exemplos semelhantes. Gandi não se deixou batizar pela razão de muitos cristãos não praticarem a ética de Cristo. Ele, no entanto, a praticou e alcançou este estar em sintonia com Deus. Para relacionar religião e educação aplicadas nos Colégios Salesianos quero lembrar que o objetivo mor desses é o cidadão ético e competente. Os Salesianos buscam para este fim educar uma postura intelectual e moral que re-sulta da crença no Deus revelado na Bíblia e explicitado como pai amoroso por Jesus Cristo. Muitos pensadores críti-cos de nosso tempo ultrapassam o conceito de religião apenas no sen-tido de religação do ser humano a Deus, e chegam à concepção bem mais ampla de religação (interli-gação) de tudo a tudo, no sentido da palavra cosmos que significa unidade ordenada da diversidade interligada como a ciência de hoje o concebe. Evidentemente, Deus não está apenas presente nesta or-dem e interrelação, mas é autor e mantenedor. Teólogos cristãos contem-porâneos interpretam o versículo do Pai Nosso: “Seja feita Vosso vontade assim na terra como no céu” no sentido de que os seres humanos deveriam chegar com seus procedimentos e criações, seus comportamentos e relações humanas à perfeição como no céu, isto é, como a ordem no cosmos, entendendo que apenas assim te-remos uma Terra sadia e cheia de vida e uma sociedade justa e ajus-tada, pacífica e feliz. Certamente poucos educa-

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sáveis para, junto com as aulas do currículo, propiciar a formação de pessoas questionadoras, éticas e responsáveis, diligentes e compe-tentes.

14- Quais foram as contribui-ções que o Colégio Padre Carletti trouxe para a vida do professor Peter Büttner? Conheci mais o povo brasileiro, seus costumes, pensamentos e sentimentos, suas preocupações, sofrimen-tos e necessidades, suas ale-grias e esperanças, pois antes trabalhei em seminários onde tudo isso foi possível bem re-sumidamente. Tive a satisfação de perceber que meu trabalho junto ao dos meus colegas, digo colegas, incluindo à pe-quena turma de Salesianos os professores e professoras, os rapazes que, advindos de seminários salesianos, sou-beram trabalhar com mentali-dade e aptidão de Salesianos, tanto como os empregados, percebi que é necessário e re-conhecido, e dele está resultando, mesmo que parcialmente, o que se espera. Das conversas com alunos, seus pais e meus colegas, pude chegar à conclusão de que os votos de obediência, pobreza e castidade dos religiosos, apesar de terem seu valor diante de Deus, pouco são compreendidos e apreciados pelas pessoas leigas, mesmo que sejam cristãos fiéis e praticantes. Mais ainda, estes votos não se consti-tuem para eles como testemunho do evangelho, mesmo que sejam chamados de conselhos evangéli-cos e sejam de sabedoria e renún-cia em prol do próximo. Não perdi a visão dos valores destes votos e nem o espírito que os fundamen-ta, mas me convenci que até fiéis fervorosos não reconhecem ne-

mos de seus sermões e palestras sobre casamento, família e educa-ção. Concordamos com eles, mas sentimos dificuldades que você não sente, dado que não é pai de família. Gostaríamos, além de sua palavra, também o seu testemunho

da prática e vivência”. Li, meditei e dialoguei muito sobre isso. Cheguei à conclusão que bíblicamen-te não tem nada de adverso. Um bispo, ao qual revelei a minha idéia de encaminhar a minha vida de acordo com esta conclusão, me respon-deu: “Espera mais vinte anos, até lá a Igreja vai permitir isso. Só podia responder com um sorriso nos lábios: ‘Exce-lência, daqui a vinte anos não terei mais idade para casar e criar filhos e, além do mais, o que é certo para Deus daqui a vinte anos, em todos os tem-pos está certo’”. Casei com autorização do Papa Paulo VI, sob pena de não poder exercer o sacerdó-cio publicamente. Adquiri a experiência de esposo e pai

e posso dar o testemunho de uma família cristã, de sua convivência amorosa e feliz, do vencimento de problemas que surgem e da ajuda mútua e às pessoas menos favo-recidas. Como professor, fiz na UFMT o que não me foi permitido na Congregação Salesiana. Não pratiquei cerimônias sendo estas proibidas, para mim, mas não per-di a qualidade de sacerdote. E mais uma contribuição de Alto Araguaia: a minha esposa maravilhosa, com a qual consegui criar uma grande família feliz jun-to com as filhas e genros, incluindo duas netinhas, que alguém carac-terizou como “anjinhos que Deus mandou para alegrar os avós”. O terceiro está chegando e, prova-velmente, vai ser o nosso menino Jesus no Natal deste ano.

les propriamente um testemunho evangélico e argumentam: vocês têm o voto de pobreza, mas vivem como ricos, têm o voto de casti-dade enquanto a Bíblia certifica que Deus criou a espécie humana à sua imagem... e criou-os macho

e fêmea. (Gen. 1,27) mandando: multiplicai-vos (1,28). Apresen-tam, também, a realidade histórica de que por muitos séculos os sa-cerdotes e mesmo bispos e papas eram casados. Duvidam, em fim, que os religiosos sejam fiéis a este voto, citando exemplos negativos concretos. O voto da obediência está sendo menos questionado, sendo evidentemente não compre-endido. Mesmo não concordando com tudo o que ouvi contra a vali-dade dos votos religiosos, tinha de admitir que eles para grande parte dos fiéis não tinham mais a função de testemunho e, muito menos ain-da, para os não-fiéis. Mas, que testemunho de vida cristã se esperava de mim? Muitos me responderam: “Gosta-

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RELIGIÃO: Um bem necessário

Por Tatiane Cristina Rezende Vilela

A r e l i g i ã o surge em busca de ca-tequizar o mundo, sendo

introduzida através da fé em Jesus Cristo, sua ética e sua promessa de redenção e eterna felicidade. É o momento em que os cristãos al-cançam um relacionamento mais íntimo com Deus e vivem em sua sintonia. É baseado nessa definição de religião que Dom Bosco e seus sucessores aplicam sua pedagogia inspirada nos ensinamentos bíbli-cos, visando à formação de jovens em cidadãos amadurecidos, que têm fé, que colocam no centro da sua vida o ideal do homem novo

Colégio Padre Carletti. Trata-se de uma fé viva, feita de presença e de comunhão, da Eucaristia, Penitência e devo-ção a Nossa Senhora, com amor à Igreja e aos seus discípulos. “A religiosidade sempre foi uma das metas do colégio. Existiam aulas de catecismo, certames de cate-cismo, oratórios, tudo dentro da filosofia de Dom Bosco. O colégio sempre pregou a catolicidade em favor de Cristo, Nossa Senhora, São João Bosco, Domingos Sávio. Então o colégio sempre se pautou pela religiosidade”, relata o ex- aluno Adalberto Aires Fávero, que se tornou Ministro da Igreja e é ad-

proclamado por Jesus Cristo. “As escolas salesianas buscam a prá-tica da religião, que não deve ser confundida meramente com re-zas, missas, procissões e práticas semelhantes, que também têm seu valor. Religião é muito mais do que um sistema de doutrinas, crenças e práticas rituais. É, prin-cipalmente, a crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende tan-to o destino do ser humano quan-to a ordem do universo. A isso se deve respeito, obediência e uma postura intelectual e moral que re-sulta dessa crença”, diz o ex-padre Peter Büttner, que foi diretor do

RELIGIÃO

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“Dom Bosco é o sacer-dote zeloso que refere sempre ao fundamento revelado, tudo o que recebe, vive e doa. Este aspecto da transcendência religiosa, base do método pedagógico de Dom Bosco, não só é aplicável a todas as culturas, mas é adaptável, com fruto, também às religiões não cristãs” (João Paulo II, Carta Juve-num Patris, p.11). Durante toda sua vida ter-rena Dom Bosco mostrava atra-vés dos seus métodos de ensino a crianças e jovens que o homem formado e amadurecido é o cida-dão que tem fé, que põe no cen-tro da sua vida o ideal do homem novo proclamado por Jesus Cristo e que é testemunha corajosa das próprias convicções religiosas. No Colégio Padre Carletti sua missão foi muito bem recebi-da. Os ex-alunos reconhecem: “A religião era introduzida com muito rigor e colocava na ca-beça que ou você era religioso ou iria para o inferno”, conta Milton Morbeck Filho. “A religião era uma coisa a se pensar. Eu entendia como fator principal. Nos retiros espirituais era como se fizessem uma lava-gem cerebral, aquilo batia em você assim, o principio da religião, da moral, da paz de Cristo”, expressa Herotides Alves da Costa. “Tudo o que foi colocado em termos de valores pessoais, morais, religiosos, relacionamen-tos, tudo isso foi um ponto mar-cante não só para mim, mas eu creio que para todos que passaram pelo Colégio Padre Carletti”, opi-na Adalberto Aíres Fávero. “Eram momentos em que dedicávamos profundamente à re-flexão, e isso fazia com que nos tornássemos homens de bem. Eu tinha esse compromisso”, diz Lio-niê Vitório.

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vogado. A linha educacional do Co-légio Padre Carletti seguia junto à religiosidade, compreendia um itinerário de oração, de liturgia, de vida sacramental, de direção espiritual. Para alguns, resposta à vocação de especial consagração e para todos aqueles que crêem em Deus, a perspectiva e a obtenção da salvação eterna. A direção do Colégio, juntamente com os profissionais que ali se faziam presentes, tinha o objetivo de tornar seus alunos conscientes e competentes para a contribuição de tornar a Terra e a sociedade melhores. Não tinham aulas específicas para isso, mas existia a temática de Ensino Reli-gioso onde aprendiam os certames de catecismo e a liturgia sagrada. À noite, antes dos alunos irem para seus dormitórios, o diretor ou outro educador falava algumas palavras construtivas, a assim cha-mada Boa Noite. Nos externatos, esta fala foi praticada antes de cada turno de aulas e foi chamada de Bom Dia. Büttner afirma que “obje-tivo dessas falas era ser como diz o provérbio ‘Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura’. Em geral, estas ‘miniaulas’ partiam de um acontecimento que chamasse a atenção dos ouvintes. Assim, os alunos eram estimulados à capaci-dade de questionar e julgar deter-minado fato, a fim de eles mesmos chegarem a uma opinião própria sobre o caso, à luz das conseqüên-cias e das atitudes que podem ser tomadas”. Procurava-se clareza, bre-vidade, importância e acessibilida-de para que, no decorrer dos tem-pos, estas gotas pudessem furar a pedra dura nos corações dos alu-nos. Assim, o Colégio Padre Car-letti tentou tratar temáticas indis-

pensáveis para, junto com as aulas do currículo, propiciar a formação de pessoas questionadoras, éticas e responsáveis, diligentes e com-petentes. Tudo baseado nos passos de Dom Bosco, que introduzia em sua pedagogia de ensino a religião como base para uma vida saudá-vel, honesta, pautada pelos princí-pios divinos. Por vezes, infindáveis re-tiros espirituais eram realizados com os alunos como forma de re-flexão individual, para que cada um refletisse sobre sua moral, seu comportamento com a família, seu espírito de coletividade, de com-panheirismo e de sua vida para com Cristo. A religião é base da edu-cação salesiana porque estimu-la o desejo de viver, de ser feliz. Faz com que a pessoa descubra o sentido da vida, e se abra para receber as graças de Deus. Esti-mula a crença, a oração, o amor mútuo, paz, perdão, convivência com a natureza, caridade e com-promisso social, ética e cidadania. Incentiva a auto-estima, o afeto, a descoberta de talentos implícitos e a sobriedade. Dizia Dom Bosco: “Só a religião é capaz de começar e completar a grande obra de uma verdadeira educação”. É a força que torna o aluno capaz de assumir a proposta de ser bom cristão e honesto cidadão. A religiosidade é um hábito, porém não uma rotina. Os recursos reli-giosos ministrados no Colégio Pa-dre Carletti, tais como confissão, comunhão, piedade e instrução catequética, tornaram-se proce-dimentos educativos que fizeram com que a vida religiosa fosse guiada junto à formação intelectu-al de cada um, criando assim uma pedagogia centrada na figura de Deus, referência em todo o mun-do.

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“Averdadeira educação é aquela que educa o humano dentro de nós, uma educação do humano, do original que existe em

nós, isto é, do coração. O coração do homem é em cada um de nós, sempre uno. Encontrei essa concepção no livro ‘Educar é um Risco’. Esse é o ponto de aproximação, ou seja, a fonte di-vina, quando as pessoas, os profetas e os ho-mens religiosos têm no coração puro apega-do a Deus” (Abbel-Fattah Hassan, Ex-parlamentar da Irmandade Muçulma-na, Revista Passos - Ou-tubro 2011). Li este texto e lembrei-me do Dia do Professor. Orei por eles, agradeci a Deus por eles existirem. Ao mesmo tempo me coloquei como um deles na missão de educar pelo coração. O Mestre dos Mestres foi categóri-co ao dizer: “Será que vocês ainda não en-tendem? Vocês não compreendem que tudo o que entra pela boca desce pelo estômago e acaba indo para a privada?” Ao contrário, as coisas que saem da boca vêm do coração; e é isso que torna o homem impuro. Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que tornam o homem impuro; mas co-mer sem lavar as mãos, não torna o homem impuro (Mt 15,18-20). Jesus deixa claro que só seremos ver-dadeiros educadores quando entendermos que a missão nossa é tirar do coração toda a impureza que estraga os relacionamentos hu-manos. As coisas do coração são invisíveis aos olhos dos outros, mas sentidas e vividas com alegria ou tristeza, conscientes ou não a cada momento da vida, por todos nós. Por isso, mais que educar o cora-ção dos outros é necessário começar a cada dia edu-cando o nosso coração. Sempre procuro começar o meu dia com um momento de oração, silêncio e escuta. Falo também

e deposito no coração de Deus o meu dia, o progra-mado e o não programado, as pessoas que convivem comigo e aquelas que vou encontrar durante o percur-so. Procuro olhar as pessoas nos olhos, amá-las como

são. Mesmo oprimido pelo tempo, dedico todo o tempo para cada um. Procuro viver cada momento como se fosse o único e o úl-timo de minha vida. Às vezes, a missão exi-

ge certa violência comigo mesmo, principalmente quando quero fazer tudo ao mesmo tempo. E ao refletir sobre como lidamos com o

tempo, relacionei tudo isso ao nosso modelo educacional. Estou convencido de que a edu-cação começa no coração do educador. Edu-car o coração e com o coração. Missão que hoje se torna cada fez mais arriscada, desafiadora, mas não impossível. Recomeçar sempre, valorizar o positivo e as pequenas iniciativas, minimizar os proble-mas, ter consciência das imperfeições... são caminhos para educar o coração. O educador, sendo pai ou mãe, pro-fessor ou religioso, nessa proposta, sente-se como um facilitador da vida. É um vocacio-nado do amor, profeta das relações humanas.Carregado de afetividade e transparente em suas emoções, vibra com o crescimento do outro. Assim, entendo que seremos capazes de grandes transformações. Rogo ao Senhor o dom da sabedoria a todos vocês, educado-res. Que Deus vos abençoe nesta missão!

Artigo por Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá - PR

Dom Anuar Battisti nasceu em 19/02/1953 na cidade de Lajeado-RS, é arcebispo da Diocese de Maringá-PR. Formou-se em Filosofia pela PUC, Curitiba-PR. E em te-ologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, São Paulo-SP.

EDUCAR É UM RISCORELIGIÃO

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SISPUM - Sindicato dos Servidores Público Municipal

de Alto Araguaia

Rua Santa Rita . n° 39 Alto Araguaia-MT

CEP: 78780-000 . Fone: (66) 3481-3033

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O Colégio Padre Carletti, em Alto Araguaia (MT), motivou de forma notó-

ria as práticas esportivas. Os alu-nos internos e externos praticavam educação física três vezes por se-mana em diversas modalidades, tais como: ping-pong, vôlei, es-piribol e futebol, este último com maior ênfase. Por conta dessas aulas, eram realizados os campeonatos de futebol e as categorias eram di-vididas em infantil, juvenil e más-ter. Além de serem bem organiza-dos eram também competitivos, mobilizando a cidade para assis-tir aos torneios de futebol. “Eram meninos bons de bola mesmo. Os padres davam todo apoio para eles se tornarem grandes jogadores. Fi-caram feras e foram substituindo a gente no time do Pantera”, disse Antonio Geraldo (Totó), ex-joga-dor dos times de Alto Araguaia e fanático por futebol. Por vezes, o Pe. Afonso Ba-rone (1909-1979) narrava os jogos com os melhores lances da partida, o placar, o jogador que marcou o

e posterior-mente recebeu o convite para ir para o Rio de Janeiro jo-gar no Bangu. Morbeck foi para o Rio de Janeiro e lá foi convidado pelo bicampeão mun-dial Nilton Santos para jogar no Botafo-go, mas desistiu. “Naquela época os pais não deixavam os filhos se envolverem com futebol. Permitiam que fosse apenas no colégio porque estava sob orienta-ção dos padres. Eu, por exemplo, jogava futebol escondido aqui na cidade, e a profissão não era bem vista, e pagava-se muito mal”. Na década de 60 os times não tinham treinador, sendo a função passada para o capitão do time. Mas com a vinda do profes-sor Benedito Itamar Luiz para a ci-dade, e assumindo as aulas de edu-cação física, os alunos passaram a ser treinados por ele, que realizava

gol. Esse incentivo ao esporte fez com que muitos araguaienses fos-sem revelados no futebol. A exem-plo disso, temos o ex-aluno Mil-ton Morbeck Filho, que começou a jogar futebol no colégio, e quando tinha 16 anos iniciou no “Pante-ra do Leste”, time famoso não só na cidade, mas na época em todo o Estado de Mato Grosso. Depois foi jogar em Araçatuba (SP) em um time profissional. “No futebol eles coloca-vam mesmo a meninada para jo-gar. Não sei se era para extrava-sar ou fazer higiene mental, eles gostavam muito de campeonatos. Com isso surgiu muitos meninos bons de bola. Então, tinham os campeonatos, as taças, premiação, eu por exemplo, comecei a jogar futebol no colégio aos 16 anos, no meio dos homens no Pantera do Leste”, relata Milton Morbeck, que atribui o desenvolvimento do esporte ao colégio que lhe propor-cionou o despertar para o futebol. Em 1968, jogou as finais do campeonato da primeira divi-são do Estado de SP no Pacaembu

CONTRIBUIÇÃO DO COLÉGIO PE. CARLETTI PARA O ESPORTE ARAGUAIENSE

Por Tatiane Cristina Rezende Vilela

ESPORTE

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suas aulas às 6h da manhã.

BREVE BIOGRAFIA DE BENEDITO ITAMAR LUIZ

Benedito Itamar Luiz ini-ciou sua carreira futebolística em 1945, com apenas 19 anos, no time de Batatais. Atuou em vários times como Botafogo, Ada de Araraqua-ra, Ferroviária e Bebedouro (todos do Estado de São Paulo), e por fim no time Araguaia, no Mato Gros-so. Homenagens e reconheci-

mento são estampados por todos os times em que pas sou. Na cidade de Bata tais (SP), um restauran-

te possui um pôster com a foto do time de 1946, que foi liderado pelo professor Itamar, como fi-cou conhecido. Encerrou sua carreira como

profissional em 1957 devido a pro-

blemas no joelho. Com o fim de sua

vida profissional, pro-fessor Itamar veio para Alto

Araguaia em meados dos anos 60, e começou a dar aulas de educa-ção física no Colégio Padre Car-letti. Ele teve papel importante na formação intelectual e moral dos alunos que ali estudavam, ficando ainda responsável pelo treinamen-to dos times de futebol existentes no colégio. Ainda, destaca-se pelo período em que fora treinador do time de futebol de Alto Araguaia, o famoso Pantera do Leste, time que foi berço para muitos alunos do Colégio Padre Carletti por algum tempo. Além disso, o professor

que colecionou admiradores por todas as partes. Além disso, o Pan-tera não deixou de prestar um ser-viço relevante ao município, com a divulgação do nome de Alto Ara-guaia, propagando não somente o valor esportivo, mas evidentemen-te outros valores sociais. No ano seguinte, surge o sucessor do Pantera do Leste, o “Panterinha”, mas sua duração foi breve, dando espaço para o Grê-mio Esportivo Gabirobense, co-nhecido como “Leão da Fronteira” no ano de 1982, que se tornou um time profissional com registro na CBF. E em 1998 nasce mais um time profissional no município de Alto Araguaia, o Araguaia Atléti-co Clube, que disputou o campe-onato matogrossense na primeira divisão, sendo desclassificado na segunda fase da competição. Decorridos oito anos, uma nova diretoria compôs o time e os torcedores fanáticos do Araguaia puderam desfrutar de jogos emo-cionantes, como em sua estréia contra o União de Rondonópolis, considerado o “rival” direto, ga-nhando o jogo por 1x0 no Estádio Bilinão, todo reformado à espera de sua torcida, que fez história na região matogrossense. ”Quando surgiu o Ara-guaia Atletico Clube fiquei ani-madíssimo, eu e o meu neto Pedro não perdíamos um jogo. Às vezes estava frio, chovendo, eu não que-ria ir, mas ele insistia e a gente ia para o Bilinão ver o jogo”, se ani-ma Totó. Estreante nesse campeo-nato, o 9º lugar ficou garantido, seguindo para a Copa Governa-dor, seu primeiro titulo na história do Araguaia Atlético Clube. Com o titulo, conseguiu uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série

Itamar vive até hoje na memória de seus queridos alunos, que não cessam elogios a sua pessoa, pois a disciplina e competência por ele aplicadas contribuíram para a for-mação de crianças e adolescentes que estudavam no Padre Carletti como para a população de Alto Araguaia. Em 23 de fevereiro de 2009, aos 83 anos, morreu na ci-dade de Cuiabá, tendo levado uma vida integralmente dedicada ao esporte. Assim como disse Róbin-son Gambõa, em um artigo ao pro-fessor, “hoje, seu legado é motivo de orgulho, memória viva de uma época em que o futebol era feito por paixão, com o mérito do artis-ta responsável pela alegria de uma platéia que assistia o mundo sair de uma guerra e conhecer, a partir dali, o fantástico futebol brasilei-ro”.

BREVE HISTÓRICO DO FUTEBOL

EM ALTO ARAGUAIA-MT

Em Alto Araguaia, o pri-meiro time a ser formar foi o Ara-guaia Futebol Clube no ano de 1930, composto por integrantes da família Hugueney. E no ano de 1959 surge o saudoso Pantera do Leste, um time conhecido e imba-tível no âmbito regional, que per-durou até o inicio dos anos 70. O Araguaia Esporte Clu-be – verdadeiro nome do Pantera – nasceu através de desentendi-mentos dos times Botafogo e Fla-mengo da época, quando Pedro Rodrigues de Lima, diretor do Fla-mengo, resolveu separar os dois ti-mes e formar um novo: o Pantera do Leste, um time brilhante, de sonhos, respeitado, vitorioso, que é considerado pela população ara-guaiense uma “Marca Registrada”

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D, ficando em 6º lugar, sendo des-classificado nas quartas-de-final e perdendo a taça do campeonato estadual para o Luverdense, time da cidade de Lucas do Rio Verde (MT). “Foi uma tristeza para todos nós. Meu guri todo entusiasmado chegou até a chorar aqui, ia a todos o jogos. Que beleza aquele jogo da Copa do Brasil (Alto Araguaia 1 X 3 Grêmio-RS). Nós perdemos para eles, mas não foi vergonhoso porque a gente lutou para ganhar”, fala Totó emocionado com a lem-brança. Com o segundo lugar no Estadual, o Araguaia Atlético Clube iria participar da Copa do Brasil em 2010, mas por proble-mas financeiros e na diretoria, o time veio a se desfazer, deixando uma tristeza profunda no coração de seus torcedores inconformados com a dissolução do motivo de alegrias a cada domingo no Está-dio Bilinão. Para voltar o sorriso nos rostos dos araguaienses, em 2011 os apaixonados por futebol e pelo Araguaia reuniram-se a fim de ressurgir o time Araguaia Atlético Clube. Devido às inúmeras pen-dências existentes nesse clube, resolveram fundar um novo: Ara-guaia Futebol Clube, sob direção de Albany Berigo, que em 1993

foi presidente do Araguaia jun-

t amen te c o m

Claudio Santos. Na nova presidência, Maciel Pe-rucchi, empresário no município. “Agora estão querendo voltar. Tem muitas chances porque tem várias firmas na cidade que ajudam a patrocinar. Tomara que volte mesmo, eu torço para isso, eu apoio sempre o esporte. Meu netinho está em Ribeirão, no time do Santos, invocado jurando que vai ser um bom jogador”, alegra-se Totó. Segundo Albany, diretor do clube, o Araguaia Futebol Clu-be começará suas atividades com categorias de base. Mais tarde vi-sam a volta do time profissional na cidade, com pretensão de disputar o campeonato Matogrossense, de 2012. O Colégio Padre Carletti sempre deu total apoio a práticas esportivas. Não somente futebol, mas todas as variedades que ali existiam, para que assim seus alu-nos pudessem desfrutar do tempo que lhes era concedido, da melhor maneira possível, praticando es-portes. O Colégio contribuiu para a formação de jovens atletas que se destacaram nas competições locais, sendo suas equipes esporti-vas a base dos vários times de fu-tebol que representaram o Estado de Mato Grosso em competições nacionais. Esporte é fundamental em todas as fases do processo de cres-cimento tanto de crianças como de jovens, não somente por questões físicas e psíquicas, mas, por ajudar no distanciamento dos mesmos da criminalidade que hoje está espalhada por todo o mundo. O

esporte tem a importante e difí-cil missão de mostrar que nem sempre o caminho mais fácil é o correto. Esporte é vida, é arte.

ESPORTE

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Rua João II (Próximo ao Banco do Brasil) Alto Araguaia-MT Fone: (66) 3481-1207/3481-2002

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nas aulas teóricas, depois todos passavam pelo instrumento de repercussão e só depois que rece-biam seu instrumento definitivo”. Sobre seu teste de admissão, nos confidenciou: “quando fiz o teste fui aprovada em primeiro lugar”. A respeito dos instrumentos que tocou acrescentou: “Iniciei to-cando clarineta um instrumento de palheta para quem tem lábios finos, fiquei uns dois anos e de-pois fui tocar saxofone reto. Éra-mos aproximadamente oitenta e cinco componentes e tocávamos

à educação que vieram de Cuiabá e de outras cidades para os nossos desfiles”, finaliza Büttner. Dalma Zoé Campos Fer-nandes, estudante do colégio na década de 70, integrante da banda juntamente com mais três irmãos, José Laerte Vieira Campos, Maria José Campos Ude e Valdir Vieira Campos (in memoriam), este além de integrante da banda, foi inspe-tor dos alunos internos. Dalma ex-plicou sobre a admissão: “era feito um teste de admissão na secretaria da escola, os aprovados iniciavam

foram tocados apenas nos desfiles e nos respectivos ensaios, enquan-to a banda tocava nos ensaios de segunda a sexta-feira, no fim da tarde. Tocava em seu todo, ou em pequenos grupos, em festas e comemorações, em missas e re-cepção de autoridades, durante os quatro anos do meu tempo”. “Esta banda, durante os desfiles, podia ser ouvida pela ci-dade toda. Tocava com sonoridade e perfeição e foi, além dos carros alegóricos artísticos e originais, a grande atração de pessoas ligadas

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Um fato marcante para o Colégio Padre Carletti e para a cidade de Alto

Araguaia-MT foi a Banda Cara-jás. Dom Bosco dizia: “Um colé-gio sem banda musical não é um colégio Salesiano”. Partindo deste pensamento, Peter Bütner, diretor do colégio e da comunidade reli-giosa dos Salesianos durante feve-reiro 1969 a janeiro de 1973, nos contou: “começamos a criação de nossa banda com alguns instru-mentos básicos. A primeira apre-

diquei o nome, e tive a graça de tocar, no primeiro dia durante uma missa no Colégio das Irmãs” Professor Büttner afirmou que “no primeiro desfile no dia sete de setembro de 1969 a banda tocava com cerca de vinte instru-mentos sinfônicos e mais alguns próprios de fanfarra”. Sobre as atividades mu-sicais do colégio, Büttner expôs: “O colégio teve além de sua ban-da sinfônica também instrumen-tos de fanfarra, pois estes últimos

sentação foi no dia das mães do ano de 1969 no Colégio das Irmãs durante uma homenagem às mães dos alunos de ambas as escolas. De fato, todos esperavam mais, pois só três alunos tocaram uma peça bem curta, mas já com toda a perfeição”. Com isso, deu-se iní-cio a um período de grande desen-volvimento musical na cidade. Adalberto Aires Fávero, aluno do colégio a partir de 1969, nos revelou: “participei da banda Carajás, inclusive fui eu que in-

BANDA CARAJÁS: Grande desenvolvimento de talentos musicais

MÚSICA

Por Maria Madalena Cardoso Macedo

Banda Carajás, por volta do ano de 1971

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Banda Carajás, em dezembro de 1974

Apresentação musical, ao fundo o aluno Valdir Vieira Campos (in memoriam)

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ponsável foi Edson Freitas, que morava junto com os Sale-sianos. Nesse pe-ríodo os membros mantiveram a ban-da. Então Konrad voltou, mas quando ele realmente foi transferido, a banda encerrou suas ati-vidades. “Foi uma perda muito grande porque nós viajáva-mos apresentando e tínhamos uma pro-posta para gravar um disco com todas as músicas da ban-da, tocávamos todo tipo de música, mas tudo era na parti-

tura, bem ensaiado. Ele era um maestro de primeira linha, tanto é que quando ele saiu daqui foi ser maestro da Orquestra Sinfônica da Universidade do Estado de Mato Grosso. Então foi um prazer co-meçar e encerrar com a banda”. Uma história divertida que Ângela compartilhou foi que a banda foi apresentar-se na cida-de de Alto Garças-MT e a maioria eram crianças na faixa etária de 12 a 13 anos. Estavam na pracinha da cidade quando veio um temporal e consequentemente acabou a luz. Alguns alunos saíram correndo e com isso perderam instrumentos, outros caíram, e de repente todos eles estavam separados. Foram se encontrar no colégio onde estavam hospedados e depois que estava todo mundo reunido o maestro Konrad ficou preocupado com os instrumentos porque alguns amas-saram e outros perderam algumas peças. “Este fato marcou a nossa vida, pois foi nossa primeira via-gem sem nossos pais”, relembra Angela.

tocar na banda”. Entretanto como o Colégio era particular, Laerte nos disse “conseguiu uma bolsa de estudo com o Pe. Büttner, e em troca trabalhava no que fosse ne-cessário, porém minha obrigação diária era cuidar da cantina”. A respeito dos instrumentos que ele tocava nos disse “o primeiro ins-trumento que toquei foi trombone, depois barítono e por último bom-bardino”. Maria José Campos Ude, conhecida como Zezé, contou “quando fiz o teste meu irmão Laerte ficou em primeiro lugar e eu fiquei em segundo lugar”. Em relação a sua passagem na banda, “tocava clarineta e me recordo com saudades da época, dos des-files, das apresentações, dos en-saios, dos amigos”. Sobre a banda não hesitou em dizer “a banda foi um presente de Deus para nós”. De acordo com Adalber-to, quando o maestro Wimmer foi transferido de Alto Araguaia-MT, tentaram continuar com as ativi-dades da banda, e quem ficou res-

cinqüenta dobrados, inclu-sive o Hino Nacional que era uma música e uma par-titura difícil”. A respeito das di-ficuldades que a banda enfrentou, destacou: “a maior dificuldade era a banda ser estudantil, por-que os estudantes internos que terminavam o ginásio voltavam para suas cida-des e tinham esses des-falques na banda, porque no próximo ano tínhamos que reiniciar, então tinha uma perda grande de cres-cimento por causa disso”, finaliza Dalma. O maestro da ban-da era o padre Konrad Wimmer que ensinava com verdadeira maestria música aos alunos. Ângela Regina Ro-drigues de Melo, estudante do colégio na década de 70, afirma: “iniciei tocando trombeta e poste-riormente toquei trompete”. Per-guntada sobre o maestro Konrad, revelou: “para mim, ele foi um marco em minha vida. Foi atra-vés dele que eu aprendi partitura, tive essa experiência maravilhosa com a banda que marcou demais a minha vida e era um ótimo profes-sor”. “Lembro com saudade das viagens que fizemos. Atualmente eu toco flauta transversal, para não esquecer o que eu aprendi com ele, então resolvi comprar essa flauta e de vez em quando eu toco”. O aluno José Laerte Vieira Campos, estudante do colégio nos anos de 70 a 72, recordou “eu es-tava no Colégio Carlos Hugueney e lembro a primeira vez em que vi o ensaio da banda, minha irmã Dalma já tocava mais não tinha me dito, fiquei encantado e resolvi que gostaria de estudar no Colégio Padre Carletti, especialmente para

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Que o hino de Alto Ara-guaia-MT foi escolhido através de um concurso

realizado Secretaria Municipal de Educação e Cultura no ano de 2006? Foi montada uma Comissão Julgadora composta por músicos, professores e conhecedores da Historia do município. O processo seletivo compreendeu a primeira etapa e a etapa final, sendo a pri-meira para escolher as cinco me-lhores composições, levando em

do de Mato Grosso - Campus de Alto Araguaia, desde 1998. Téc-nico em Contabilidade, Licencia-do em Letras com pós-graduação em Contabilidade Pública e Audi-toria Governamental pela UNE-MAT- Universidade do Estado de Mato Grosso. Nascido em 09 de junho de 1961, no Município de Araguainha-MT, residente em Alto Araguaia desde 1973; filho de João Quirino de Moraes e Zamita David Moraes.

consideração as letras e gravações feitas pelos candidatos. E a etapa final, realizada no dia 13 de junho de 2006, na Câmara Municipal, e foram apresentadas ao vivo as cin-co composições pré-selecionadas e entrega do troféu e premio ao vencedor. O vencedor foi Renato David Moraes, músico, tecladista prático, Servidor Público Esta-dual - Supervisor Financeiro da UNEMAT Universidade do Esta-

Você Sabia?

Hino de Alto Araguaia-MT

sempre aumentouA cada dia, um motivo de alegriaQue beleza, estar daqui, ser feliz é bom demaisSua fauna é rica e também a sua floraNão tem quem não adora as suas bele-zas naturais.A história, de Alto AraguaiaÉ mesmo tão bonitaDesde o nascimento até aos dias atuaisAlto Araguaia é uma cidade hospitalei-raQue fica na fronteira de Mato Grosso e GoiásSeu povo amigo, cativante e envolven-teDeixa o visitante à vontade e tão con-tenteQuem a visita tem vontade de ficarQuando vai leva a saudade e o compro-misso de voltar.

Foi assim, que tudo começouUm viajante, tropeiro ou boiadeiroCansado da jornada, parava pra des-cansarAcampava, às belas margensDo Rio Araguaia ou do Córrego Boia-deiroRenovava as energias, para continuarE assim, o tempo foi passando,Riquezas encontrandoDescobriram o diamante que fez seguir avantePor conta disto, instalou-se hospeda-rias, surgiram armazénsProntos pra atender alguém, cansado de viajarTempos depois, com a criação de gadoCom a lavoura no cerrado, o progresso continuouAlto Araguaia, tem crescido tantoFelizmente o seu encanto, também

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MÚSICAPor Maria Madalena Cardoso Macedo

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Avenida Carlos Hugueney . n° 602 Centro . Alto Araguaia-MT

CEP: 78780-000 . Fone: (66) 3481-1110

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Em 1989, com o fim das ati-vidades do Colégio Padre Carletti, o prédio ficou sem

ser utilizado por um tempo. Entre-tanto, através da Resolução 023/91 do dia 02 de setembro de 1991, emitida pelo Conselho Curador da Fundação Centro Superior de Cá-ceres, homologada pelo Decreto nº 644/91 em 23 de setembro de 1991 pelo governador Jayme Veríssimo de Campos, foi criado o Núcleo de Ensino Superior de Alto Araguaia-MT. Atualmente conhecida como Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Inicialmente foi criado apenas o Curso de Licenciatura Plena em Letras no ano de 1991. Posteriormente, no ano 2000 foi criado o Curso de Licenciatura em Computação, e em 2005 o Curso de Comunicação Social com habi-litação em Jornalismo. Ano este, em que o prédio foi adquirido de-finitivamente pela UNEMAT. Em entrevista com a Coor-denadora Político-Pedagógica do Campus de Alto Araguaia, Profª Dr. Edileusa Gimenes Morales, afirmou que “a instalação da uni-versidade no município de Alto Araguaia-MT deu-se pela inicia-tiva do então na época prefeito municipal Edson da Silva Brandão e do Secretario Municipal de Edu-cação Wanderley Sebastião da Sil-

nes: “a instalação ficou firmada entre município, Estado e Uni-versidade um convênio no qual se responsabilizariam pelo paga-mento das parcelas referentes ao prédio, que pertencia à Missão Salesiana em regime de como-dato”. Anos depois, a compra do prédio concretizou-se, mais exata-mente durante o período de gestão do ex-prefeito Jerônimo Samita Maia Neto, e ex-coordenador do Campus de Alto Araguaia, Profes-sor Milton Chicalé e ex-reitor da UNEMAT, Taisir Karim, quando resolveram juntar-se em valores e sancionar a definitiva posse do imóvel. Em relação ao pagamento definitivo só ter sido feito no ano de 2005, Zinho relatou que “du-rante o mandato do Brandão foram pagas as parcelas, depois seus su-cessores pelo que parece deixaram de pagar e o que acarretou uma série de empecilhos. Na gestão do ex-prefeito Maia Neto, depois de muita negociação a Prefeitura pa-gou 150 mil reais e a UNEMAT os outros 150 mil reais, esse foi o preço que a Missão pediu pelo prédio”. Nesse mesmo ano come-çaram algumas reformas no Cam-pus, segundo a Edileusa Gimenez “esse retardamento deu-se pelo fato da universidade estar todo

va Fraga”. A forma utilizada para conseguir que o Campus viesse para a cidade foi “utilizando-se de um projeto de expansão tendo sido mapeado o Estado de Mato Grosso a fim de distinguir quais municípios que seriam pertinen-tes a implantação da universidade. Participaram então de um seminá-rio na capital do Estado para ex-porem suas estruturas, sendo Alto Araguaia a vencedora dentre os demais”. De acordo com Wanderley de Oliveira Fraga, o Zinho, Secre-tário de Educação na época, “o que ajudou muito foi para conseguir o Campus em Alto Araguaia foi que nós oferecemos na época: a estru-tura física, veículo, telefone, aloja-mento para os professores no pró-prio prédio e todo apoio necessário para a vinda da Fundação. Então acredito que por isso conseguimos ser beneficiados com a instalação da Fundação Ensino Superior de Cáceres em Alto Araguaia”. De-pois da conquista do Campus em Alto Araguaia, foi a vez de adqui-rir o prédio da Missão Salesiana.Zinho revelou que “estivemos em Campo Grande agendamos uma reunião com o inspetor da Missão Salesiana e na segunda viagem foi feito uma negociação onde a Mis-são vendeu parcelado o prédio”. O mesmo nos disse Gime-

O PRÉDIO DO COLÉGIO PE. CARLETTI ATUALMENTE

Por Maria Madalena Cardoso Macedo

REALIDADES

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esse período impossibilitada de receber recursos públicos porque o prédio ainda não era da univer-sidade, o que dificultava proceder às devidas melhoras na estrutura atual e pelas pequenas condições financeiras de assim proceder. E há cinco anos que o prédio é da universidade, desde esse tempo para cá que podemos receber essa verba publica então começaram as reformas”, complementa a coorde-nadora. Em junho de 2011 foram inaugurados o pavilhão novo, o Centro de Pesquisas e Extensão do Araguaia (CEPAIA) e o Laborató-rio de Jornalismo. E conta ainda com uma verba de R$ 600.000,00 reais disponibilizada para continu-ar a reforma a partir de Janeiro de 2012. A respeito da preservação do patrimônio história, Gimenes enaltece que “a Unemat não visa à destruição da estrutura que ali existe. Querem restaurar e preser-var o patrimônio histórico cultural que pertence ao município de Alto Araguaia”. E as mudanças ocor-reram somente no Anfiteatro, mas simbólicas visando apenas maior conforto aos

campus. A missão da Universidade pública e gratuita é desenvolver ações indissociáveis de ensino, pesquisa e extensão para a pro-dução, preservação e socialização do saber, especialmente na área de Tecnologias da Informação e Co-municação aplicadas à Educação, de maneira a promover a elevação sócio-cultural e a melhoria técni-co-profissional da população, ten-do como eixos norteadores a in-clusão social e o desenvolvimento sustentável da região de Alto Ara-guaia, bem como de um modo ge-ral. Formar profissionais para atuarem com qualidade nas áreas de Comunicação Social, Compu-tação, Comunicação Social e Tec-nologias da Informação e Comuni-cação Aplicadas à Educação. Até o presente momento a Universidade do Estado de Mato Grosso confe-riu grau para 642 Licenciados em Letras, 143 Licenciados em Com-putação, 61 Bacharéis em Comu-nicação Social com habilitação em Jornalismo. A respeito de novos cur-

sos, está previsto ainda para o final desse ano

de 2011

estudantes que desfrutarão do es-paço. Quanto às salas de aulas será feita apenas a pintura das pare-des e envernizamento das portas, mantendo o original. E por último a Capela que está sendo mantida intacta e não sofrerá nenhum tipo de reparo. Capela esta, que fora re-aberta ainda no ano de 2011 e con-ta atualmente com a presença de dois grupos de Oração: GOU Gru-po de Oração Universitário “Fé e Razão” (Católicos), que iniciou suas atividades no ano de 2008 e o CEU Culto Evangélico Univer-sitário (Evangélicos), que iniciou neste ano de 2011, buscando res-gatar o momento de meditação e encontro com Deus assim como era feito na época em que o Colé-gio Padre Carletti funcionava. “A gente vai manter a es-trutura porque ele é o único mo-numento histórico da cidade, jus-tamente para dar esse realce, essa historicidade do prédio mesmo, porque ele é o único, então é im-portante manter o patrimônio his-tórico. A ordem do Estado é para não acabar com a originalidade do prédio”, relatou a coordenadora do

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a implantação de mais cursos, de-pendendo somente do projeto em andamento por parte da Consul-toria da Universidade em verifi-car o declínio de demanda com o surgimento de novos cursos. “Se assim ficar decidido, a Unemat promoverá junto com a Vereadora Municipal Silvia Maia (PR), par-ceira na busca por novos cursos e assim evitar o fechamento do cam-pus no município, e uma audiência

identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos sociais que por ali passaram e passarão. Em suas últimas palavras a essa reportagem a coordenadora atual do campus, Edileusa Gimenes Morales, finali-za: “E esse colégio era histórico, o Brasil inteiro recebeu gente para estudar aqui no colégio Padre Car-letti que era referencia da educa-ção Salesiana no Brasil”.

publica será realizada para colocar a população araguaiense a par dos fatos e assim traçar um futuro pro-missor para a universidade no mu-nicípio”, diz a coordenadora. A Unemat e Estado são parceiros em preservar o único patrimônio histórico cultural do município de Alto Araguaia que é o prédio onde se encontra funcio-nando atualmente a universidade, porque guarda em si referencias à

REALIDADES

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Se liga, tá na hora!Se liga, tá na hora!

O campus de Alto Araguaia da Universidade do Estado de Mato Grosso oferece graduação em Computação, Jornalismo e Letras

Ensino público de qualidade

VESTIBULAR da UNEMAT

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pela FGV. Em 2002, fez um curso para executivos no INSEADE na França. Em 2007, fui agraciado pelo título de CIDADÃO GOIANO pela Assembleia Le-gislativa do Estado de Goiás.

Agenor Rodrigues de Rezende nasceu na ci-dade de Coxim-MS em 23 de agosto de 1944. É filho de Severino Rodrigues de Rezende e Jerônima Seve-rina de Rezende. Veio para Alto Araguaia aos 06 anos de idade, onde residiu até o ano de 1963, e foi morar em Mineiros-GO, vivendo por lá até hoje. Estudou no Colégio Padre Carletti durante oito anos consecutivos, no período de 1954-1962, como aluno externo. “O Colégio era rigoroso e mantinha um en-sino muito bom, através do comando dos padres, que contribui tanto no nível social quanto para a sua escolaridade, que foram as bases para a minha vida profissional e pessoal. A formação de cada um, os bons costumes, tudo isso contribuiu para a disciplina nossa como alunos no colégio. E eu particularmen-te, transmiti aos meus filhos todo o conhecimento e aprendizado que adquiri nesses oitos anos de convi-vência e estudo rigoroso com os salesianos”. Agenor fez curso de Contabilista no Instituto Erasmo Braga, na cidade de Mineiros, nos anos de 1963 a 1965. Entrou para a Faculdade de Direito de São Carlos, em São Paulo, em 1977 e se formou em 1981. Porém, sua vocação tendia para um lado dife-rente dos cursos que fez. A política foi marcante em sua vida. E tudo começou na época de aluno externo no Colégio Padre Carletti. “Gostava de política desde menino. Me lem-bro que uma vez disputei uma eleição de Prefeito de Bairro. Eu era morador do bairro Boiadeiro e concor-ria à vaga. A eleição foi concorrida, disputa acirrada, mas ganhei. Sempre gostei da política, diziam que ti-

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ALUNOS ILUSTRES

Carlos Alberto Barros de Castro nasceu em Santa Maria da Vitória, na Bahia, em 1946. “A minha infân-cia foi de 1949/1950 até 1961, morando e estudan-do em Alto Araguaia. Em 1962 e 1963, vim estudar em Goiânia, no Liceu de Goiânia. Em 1964, no Colé-gio Universitário e em 1965

entrei para a Faculdade de Engenharia da UFG, me formando em 1969. No período de 1962 a 1967 eu passava as férias em Alto Araguaia”. “O Ginásio Padre Carletti foi muito impor-tante na minha vida de estudante e profissional, pela qualidade do ensinamento e pela disciplina exemplar. O Liceu de Goiânia era um Colégio muito bom, que para entrar era necessário fazer um teste, onde pas-sei sem dificuldades. Para entrar na Escola de En-genharia da UFG a concorrência era muito grande e eu passei no primeiro vestibular. Os exemplos de disciplina, lealdade, honestidade e ética foram plan-tados na minha infância, portanto tendo uma grande participação do Colégio. Os Salesianos são famosos pelos bons colégios de formação de pessoas, e tenho certeza de que o Ginásio Padre Carletti era campeão em disseminar a cultura de formar bons cidadãos”. Formou-se em Engenharia, mas nunca exer-ceu, começando a trabalhar como programador em 1967. De 1968 a 1972 foi o responsável pela área de informática da Companhia Telefônica de Goiás - Cotelgo. De 1970 a 1972 fez parte da comissão de reforma administrativa do Estado de Goiás, fazen-do implantação da informática no Estado. Em 1970, juntamente com dois colegas, criou a POLITEC, fa-zendo serviços de informática para as empresas. A POLITEC, neste mês de setembro, foi vendida 100% de seu capital para uma empresa espanhola de nome INDRA, contando hoje com 5000 funcionários. Em 1992, partiu para o ramo de turismo construindo um hotel em Caldas Novas que entrou em operação em 1995, com o nome POUSADA DO IPÊ. Em 1998, fez um curso de pós-graduação em Administração

CARLOS ALBERTO BARROS DE CASTRO

AGENOR REZENDE

REALIDADES

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Estudou no Colégio Padre Carletti nos anos de 1981 a 1983, devido à tradição familiar de estudar em colégios salesianos e internos. Lioniê Vitório acredita que “para o Lioniê, a contribuição maior foi no aspecto espiritual, na re-ligiosidade, ter fé, acreditar em Deus, conhecer os ensinamentos, ser responsável. Já para o Nico, foi o despertar do meu talento como artista. Participa-va das encenações, fazia aulas de pintura e gostava muito de ser coroinha na Igreja Matriz na época que era estudante do Colégio. Neste período, os padres eram José Corazza (1916-1996) e Adálgiso Pio Ma-estro (1919-2002)”. Além disso, sobre sua carreira, ressalta que “lembro que Padre Firmo e o Mestre Humberto encenavam várias peças teatrais e passa-vam filmes no Anfiteatro. Foi onde eu tive a primeira oportunidade de ver filmes, e também de fazer uma peça teatral na qual eu era um soldado romano”.

Antonio Ferreira Ca-jango nasceu em 25/04/1950. Estudou no Colégio Padre Carletti no ano de 1957, como aluno externo. Fez o curso Técnico em Conta-bilidade no Colégio Carlos Hugueney e Bacharelado em Ciências Econômicas pela Universidade de Mari-lia (UNIMAR), no Estado de São Paulo. “Na época, o 1º ano

Ginasial, que atualmente corresponde à 5ª e 6ª séries, eu aprendia quatro línguas: Inglesa, Francesa, Latina e Portuguesa. E as outras disciplinas eram divididas como a disciplina de História. Era História Geral e História do Brasil. Creio que foi de suma importân-cia para meu aprendizado, meus limites e a educação nesse sentido”. Nos anos de 1983 a1988 e 1993 a 1996, tor-nou-se prefeito do município de Santa Rita do Ara-guaia-GO. E em 2007, Padre da Igreja Sirian Ortodo-xa de Antioquia, também no município. “Basicamente (o Colégio) era muito voltado para o ensino religioso, e isso eu agradeço muito a Deus e ao colégio. Tinha os Certames de Religião (prêmios para os melhores alunos) e com isso apren-di muito. O aluno tinha que ser muito dedicado. É de entristecer ver que tudo isso foi jogado por terra”.

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nha jeito para isso, até porque eu participava de todas as atividades da cidade. Foi o que ajudou a me eleger, nessa brincadeira de menino”. Sua vida política foi se ampliando. De 1982 a 1986 foi Vereador da Câmara Municipal de Mi-neiros, sendo presidente. Em 1983, foi nomeado Secretário Municipal de Administração do mesmo município. Como suplente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Agenor foi Depu-tado Estadual de Goiás de 1987 a 1991, assumindo em 06/03/1987 na 11ª Legislatura. Foi reeleito como deputado estadual, de 1991 a 1994. Na condição de Presidente da Assembléia, Agenor Rodrigues Rezen-de assume a chefia do Executivo Estadual, devido à renúncia do governador Íris Rezende Machado, que saiu para candidatar-se ao Senado da República. Agenor Rezende foi Governador do Estado de Goiás de 02 de abril a 31 de dezembro de 1994. Terminado o mandato, a partir do ano de 1998, tornou-se Conse-lheiro do Tribunal de Contas dos municípios do Esta-do de Goiás. Agenor Rezende, mesmo fora dos palanques, ajudou a eleger sua esposa, Laci M. de Rezende, como prefeita do município de Mineiros em 1º de outubro de 2000, tornando-se um marco político para o Estado de Goiás. Hoje, já no auge dos seus 67 anos, Agenor Rodrigues Rezende está aposentado de todas as fun-ções, tanto da política, quanto da advocacia e con-tabilidade. Sua atividade atualmente é no ramo da Agropecuária.

Lioniê Vitório (Nico) 39 anos, mato-grossen-se de Santo Antônio de Leverger. Nascido em 07 de março de 1970, casado, pai de dois filhos, formado em Artes pela Unic e Pós–Graduado em Patrimônio Cultural. Foi Secretário de Cultura, Vereador, Vice-Prefeito e Prefeito interino do seu município. Como ator, começou em 1986, no Grupo Ânima de Teatro na antiga Escola Técnica, hoje IFE-MT.

LIONIÊ VITÓRIO

ANTONIO CAJANGO

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que passaram no Colégio Padre Carletti tiveram essa oportunidade de uma formação de primeira linha re-almente. Na minha formação religiosa hoje eu tive a grata satisfação de viver esse tempo todo dentro do colégio salesiano e de me formar também em uma Universidade Católica, então eu vejo que tudo isso contribui e continua contribuindo sob maneira na vida das pessoas, principalmente na minha, eu digo que é uma formação que você não consegue apagar essa formação.

Kléber Aires Fávero, aluno

Kléber Aires Fávero, estudante do colégio na década de 60, servidor público aposentado e Minis-tro da Eucaristia da Igreja Católica Apos-tólica Romana em Alto Araguaia-MT. “O colégio contribui muito para minha formação, era muito rígido e realmente

havia disciplina. Lembro que chegávamos ao colé-gio e não íamos para a sala de aula antes de ter a Acolhida, que era o momento em que o Pe. Diretor nos saudava e fazíamos as orações da manhã, esse entre outros aspectos contribui para a religiosidade dos alunos. O estudo era de excelente qualidade tan-to que quando fui fazer o Científico em Goiânia-GO,

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LIÇÕES ETERNIZADAS

Adalberto Aires Fávero, aluno

Ex-aluno, hoje advogado, servidor públi-co e Ministro da Eucaristia da Igreja Católica Apostólica Ro-mana em Alto Aragua ia -MT. Estudou no Co-légio Padre Car-letti a partir de 1963, em regime externo. “O co-

légio era rígido, e isso fez a diferença dentro de todo o tempo que eu estudei. Tive um sonho. Sonho de re-ativar o colégio: quando eu retornei de Goiânia, nós ex-alunos tentamos reativar o colégio, a gente queria realmente que ficasse um sacerdote à direção do co-légio e ele poderia se tornar estadual. Estávamos eu, Ademar Fraga e sua esposa Altair Fraga, Junior (fo-tógrafo) que não estava aqui, não era ex-aluno, mas se dispôs a se juntar a nós com essa finalidade. Nós fizemos um trabalho muito grande para a reativação, alias não era reativação era para que não fosse embo-ra a direção do Colégio Padre Carletti como aconte-ce no Colégio Maria Auxiliadora.”. Para minha vida, o período de estudo com os salesianos, contribui para a minha formação, tudo que foi colocado em termos de valores pessoais, valores morais, valores religiosos, relacionamentos, tudo isso foi um ponto marcante não só para mim, eu creio que para todos

Lembranças da minha escola, minha vida!

A passagem pelo Colégio Padre Carletti é motivo de excelentes lembranças para centenas de jovens estudantes que trilharam caminho de sucesso em diversas áreas do conhecimento e atividades profissionais. Em cada um deles, a semente lançada pelos salesianos no período de sua existência no município de Alto Araguaia-MT germinou ótimos frutos, que se fortalecem a cada dia, em cada aluno, cada profissional que por ali passou. É relembrando alguns momentos desse período de aprendizagem, religião, entretenimento e disciplina que ex-alunos e ex-profissionais do ensino demonstram o seu agradecimento e encantamento com o método de ensino do Colégio Padre Carletti, que se renova constantemente.

REALIDADES

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bular para depois fazermos o quarto ano. Os alunos que estudaram no colégio muitos se deram bem pro-fissionalmente e segundo uma estimativa prévia há 27 médicos filhos de Alto Araguaia, o que é bastante considerável para 30 anos atrás. Interessante é uma coisa que me marcou muito é que o Agenor era meu colega de classe, e desde criança ele era muito extro-vertido, brincalhão, e o padre Barone um dia que ele estava conversando com o Agenor e outros alunos e falou “daqui dessa classe vai sair um político famoso um governador de Estado talvez”. E isso se conclui, Agenor Rezende é um político de grande renome no Estado de Goiás.

Herotides Alves da Costa, professor do Colégio

Lecionei no Colégio Padre Car-letti de 1963 a 1985, 22 anos de trabalho junto aos alunos. Ini-ciei como substituto, e tive dificuldades para dar aula. Era uma sala muito com-plicada, com alunos indisciplinados, como acontece nos tempos atuais. Consegui lidar

com tudo com austeridade e sem violência, contu-do a educação era repressiva, não uma educação que alunos têm hoje, era com repressão.

José Laerte Vieira Campos, aluno e funcionário do colégio

José Laerte Vieira Campos, ser-vidor público, es-tudante do colégio nos anos de 70, 71 e 72. “Estudar no colégio representou para mim a passa-gem da imaturidade para a maturidade. Eu trabalhava no colégio em tudo que fosse neces-

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porque na época ainda era o Ginásio Padre Carletti, passei no teste de admissão sem dificuldades. Para minha vida pessoal, ensinaram valores a nós alunos que carregamos pela vida toda”.

Donald Ferreira, aluno

Ex-aluno, gra-duado em Economia, funcionário público estadual da Secre-taria de Fazenda do Estado (SEFAZ), e está fazendo Licen-ciatura Plena em Letras na Unemat. “Fui estudante no Colégio Padre Car-letti durante dois ou três anos, nos anos de 1965, 66 e 67, eu

era aluno externo. Quando eu estudei aqui, eu mudei para Cuiabá e lá continuei meus estudos, estudando no colégio São Gonçalo, colégio salesiano, que para mim foi continuação dos primeiros ensinamentos da minha fase de infância e na adolescência. Para quem estudou no colégio influenciou muito na vida, com toda certeza. Para mim foi muito importante a base que eu tive na educação, porque eu vim de uma famí-lia pobre, trabalhadora, isso pra mim foi uma conduta dentro daquilo que já vinha dentro da minha família.Estou novamente estudando aqui onde foi o colégio porque todo conhecimento é valido. Olhar para o pá-tio me lembra muita coisa, muitas brincadeiras”.

Milton Pessoa Morbeck Filho,

aluno Milton Pessoa Morbeck Filho, em-presário, estudante do colégio na déca-da de 60. “Estudei no Colégio Padre Carletti concluindo o primário e ginásio, naquele tempo fazí-

amos o primário, segundo, terceiro ano, depois fazia o exame de admissão que era uma espécie de vesti-

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Maria José Campos Ude, artesã, estudan-te do colégio na década de 70.

“O colégio con-tribuiu para mi-nha formação como cidadã, nos ensinou a importância de ser responsável, bondoso e soli-dário. Aprende-mos a sermos

pontuais, assíduos, ter organização e principalmente disciplina. Recordo com alegria dos oratórios e das apresentações teatrais, principalmente as que apre-sentei junto com meu irmão Laerte. Essa foi uma das épocas mais felizes da minha vida. Sinto muito por não ter contato com meus colegas da época, depois do colégio nos afastamos, eu me casei e fui morar em Minas Gerais e sinto muito por não manter contato com eles. O que posso afirmar com toda sinceridade é que o colégio foi tudo de bom na minha vida”.

Angela Regina Rodrigues de Melo, aluna do colégio

Angela Regina Rodrigues de Melo, filha do ex- prefeito Se-verino Botelho de Melo, popu-lar Bilino, foi estudante do co-légio na década de 70, estudou todo o ginásio no colégio. “A educação tinha disciplina, o colégio tinha

muitos alunos, bons professores, era muito bom, me recordo dos professores Herotides, do Pe. Diretor Nelson Pombo, Pe. Diretor Peter Büttner e do Pe. Konrad Wimmer. Sobre a área esportiva tinha cam-peonato de vôlei, handeboll, futebol, o colégio era

sário: na cantina, de pedreiro, servente, na Chácara dos Salesianos, no barzinho do cinema, e em tro-ca eu ganhava estudo, dinheiros para os uniformes e livros. Recordo com saudades das apresentações teatrais. Lembro de uma vez em que apresentamos a peça Simplício Simplório, tínhamos que decorar todo o texto. Nesta peça estava caracterizado com uma barriga grande e com uma botina toda aberta. Minha fala era muito grande, e no meio da peça me esqueci, pensei e agora? O que vou fazer? No cenário tinha uma mesa e uma cadeira, então sentei na cadei-ra e coloquei os pés em cima da mesa e comecei a mexê-los para que a platéia pudesse visualizar até eu recordar a fala, o público ria muito, lembrei minha fala, mas tive que esperar as pessoas pararem de rir para prosseguir. Depois desse episódio fui muito elo-giado pelos colegas de elenco”.

Dalma Zoé Campos Fernandes, aluna do colégio

Dalma Zoé Campos Fer-nandes, exem-plo de uma vida toda em prol da evangelização, estudante do colégio na dé-cada de 70. “O Colégio Padre Carletti fazia apresentações culturais belís-

simas, como o desfile em comemoração à Indepen-dência no dia 07 de setembro e no Aniversário de Alto Araguaia-MT dia 26 de outubro, sem contar as apresentações teatrais. E apesar de ter recebido de berço através de minha mãe Roliman Vieira Campos, o despertar para a religião, o colégio fortaleceu e de-senvolveu minha religiosidade. Vinham alunos de vários Estados do país para internarem aqui, porque era um internato muito bom. Lamento imensamente o fim do colégio, porque lá por anos foi a minha casa, mas hoje sinto a alegria de ver que o local transfor-mou-se em uma faculdade”.

Maria José Campos Ude, aluna do colégio

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REALIDADES

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cebia deles os fundamentos da fé e as razões filosófi-cas da minha existência: Deus! Os tempos de colégio dizem muito, quer no gosto pelo estudo (reflexão), seja no prazer da pesquisa (ação). Não me apraz falar de minhas conquistas, apenas as comemoro e as di-vido com meus familiares, para mim, a aprovação há 24 anos ao cargo de Auditor-Fiscal da Receita Fede-ral do Brasil conquistado mediante concurso público de nível superior aliado ao zelo que tenho em tratar com amor, respeito e aceitação aos colegas; e, com acatamento e ética no cumprimento das ordens supe-riores, me dão a certeza de que fui muito bem prepa-rado técnica e emocionalmente no meu inesquecível Colégio Pe. Carletti”.

José Maria Vieira Cardoso, aluno do colégio

José Maria Vieira Cardoso, servidor públi-co, ministro de música na Igreja Católica Apostólica Romana, estudante do colégio no período de 1972 a 1978. “O que eu aprendi e o que sou eu devo ao co-légio. Para mim o que mais admirava era disciplina, realmente era um exemplo a forma de agir e de con-duzir o colégio. Recebi da minha família a religiosi-dade, mas o colégio foi a continuidade desse aprendi-zado. Inclusive, despertei o dom de tocar no colégio na época do Pe. Sílvio Sartori. Da mesma forma que meu irmão Moacir, eu não tinha dinheiro para pagar os estudos, então trabalhava no que fosse necessário para em troca estudar no colégio. Estudar no Colégio Pe. Carletti foi um marco em minha vida, os ensina-mentos que lá adquiri levo para vida toda, não só a formação profissional mas também e principalmente a formação de cidadão”.

muito movimentado, e além de estudarmos durante a semana aos finais de semana íamos para o colégio para participar dos oratórios e das recreações ofere-cidas e um fato bem interessante é que aos finais de semana as atividades oferecidas eram abertas a toda a comunidade”.

Moacir Vieira Cardoso, aluno do colégio

“Cheguei ao Colégio Pe. Carletti em 1972, para cursar o Terceiro Ano do Curso Primário e saí em 1976, após a conclusão do Curso Ginasial. Du-rante todo o período em que lá estive, em regime de internato, nunca paguei um centavo em dinheiro, porque não o tinha. Em contrapartida, durante o perí-odo das aulas trabalhava em diversas funções como: tratar dos animais da Chácara Salesiana, cuidar da horta, beneficiar arroz, cortar lenha na serra circu-lar, cuidar do barzinho (uma espécie de cantina do próprio Colégio que abria nos recreios e nas sessões de cinema), tocar na Banda e no Conjunto Musical do Colégio, fui responsável pela animação musical do Grupo Jovem da Matriz, das Celebrações Euca-rísticas e outras solenidades a convite do Pe. Silvio Sartori, além de ajudar na assistência aos internos da turma da tarde. No período de férias eu ficava no Colégio, para fazer o que fosse necessário, inclusive não dormia em casa, dormia no colégio e almoçava em casa. No Colégio, o exemplo de doação de tantos salesianos vindos dos mais longínquos lares, alguns bem abastados para viver apenas do necessário fez-me refletir e assimilar que o amor ao próximo não fora apenas uma profecia, em nome de Cristo eu re-

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