SANTOS, André de Melo - As Manifestações Em 2013 No Brasil e o Black Blocs

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2 Revista Sociologia em Rede, vol. 4, num. 4, 2014 As Manifestações em 2013 no Brasil e o Black Blocs André de Melo Santos * Em 2013 ocorreram manifestações em várias cidades como Goiânia, Florianópolis, São Paulo, Brasília e outras, estas foram inicialmente motivadas pelo aumento da passagem de ônibus que ocorriam nestas cidades. O Movimento Passe Livre que puxou os protestos, mas devido à heterogeneidade dos participantes outros elementos se juntaram ao aumento da passagem. Corrupção, protestos contra os gastos com a copa do mundo, violência policial e outras demandas da sociedade brasileira vieram à tona. No bojo destes protestos surgiram em cena figuras que se tornaram conhecidas nos protestos do movimento antiglobalização na década de 1990, o Black Blocs, vestidos de preto, expressando uma posição anticapitalista (PUPUIS-DÉRI, 2014), depredando símbolos, como bancos e redes multinacional, do capitalismo e enfrentado a violência policial. Agindo desta forma durante os protestos logo se tornaram um prato cheio usado pela mídia para descaracterizar os mesmos. Essas manifestações, que se iniciaram em São Paulo, com o foco na questão do transporte (POMAR, 2013) foram crescendo e surpreenderam pela capacidade de mobilizar e a grande quantidade de pessoas que foram às ruas. Se os estudantes foram às ruas para protestar contra o aumento da tarifa do transporte, outros setores da sociedade * Doutor em Sociologia pela UnB; Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG – Universidade Federal de Goiás.

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Em 2013 ocorreram manifestações em várias cidades como Goiânia, Florianópolis, São Paulo, Brasília e outras, estas foram inicialmente motivadas pelo aumento da passagem de ônibus que ocorriam nestas cidades. O Movimento Passe Livreque puxou os protestos, mas devido à heterogeneidade dos participantes outros elementos se juntaram ao aumento da passagem. Corrupção, protestos contra os gastos com a copa do mundo, violência policial e outras demandas da sociedade brasileiravieram à tona. No bojo destes protestos surgiram em cena figuras que se tornaram conhecidas nos protestos do movimento antiglobalização na década de 1990, o Black Blocs, vestidos de preto, expressando uma posição anticapitalista (PUPUIS-DÉRI, 2014), depredando símbolos, como bancos e redes multinacional, do capitalismo eenfrentado a violência policial. Agindo desta forma durante os protestos logo se tornaram um prato cheio usado pela mídia para descaracterizar os mesmos.

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  • 2Revista Sociologia em Rede, vol. 4, num. 4, 2014

    As Manifestaes em 2013 no Brasil e o Black Blocs

    Andr de Melo Santos*

    Em 2013 ocorreram manifestaes em vrias cidades como Goinia,

    Florianpolis, So Paulo, Braslia e outras, estas foram inicialmente motivadas pelo

    aumento da passagem de nibus que ocorriam nestas cidades. O Movimento Passe Livre

    que puxou os protestos, mas devido heterogeneidade dos participantes outros

    elementos se juntaram ao aumento da passagem. Corrupo, protestos contra os gastos

    com a copa do mundo, violncia policial e outras demandas da sociedade brasileira

    vieram tona. No bojo destes protestos surgiram em cena figuras que se tornaram

    conhecidas nos protestos do movimento antiglobalizao na dcada de 1990, o Black

    Blocs, vestidos de preto, expressando uma posio anticapitalista (PUPUIS-DRI,

    2014), depredando smbolos, como bancos e redes multinacional, do capitalismo e

    enfrentado a violncia policial. Agindo desta forma durante os protestos logo se

    tornaram um prato cheio usado pela mdia para descaracterizar os mesmos.

    Essas manifestaes, que se iniciaram em So Paulo, com o foco na questo do

    transporte (POMAR, 2013) foram crescendo e surpreenderam pela capacidade de

    mobilizar e a grande quantidade de pessoas que foram s ruas. Se os estudantes foram s

    ruas para protestar contra o aumento da tarifa do transporte, outros setores da sociedade

    * Doutor em Sociologia pela UnB; Professor da Faculdade de Cincias Sociais da UFG Universidade Federal de Gois.

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    se juntaram aos protestos levando bandeiras contra a corrupo, gastos com a copa do

    mundo e outras. Fato interessante que na diversidade de grupos e reivindicaes uma

    era clara, a recusa dos partidos polticos (POMAR, 2013), inclusive os da esquerda,

    mais ligados aos movimentos sociais, foram rechaados, logo saram criticando as

    manifestaes pela falta de organizao e, neste ponto se juntaram mdia nas crticas

    da falta de agenda dessas.

    Este texto tenta analisar o motivo do surgimento dessas manifestaes, qual a

    perspectiva poltica que o MPL tem e, principalmente o Black Bloc, buscando

    responder se estes so anarquistas, autonomistas, defendem a revoluo? E

    principalmente qual a contribuio que deram para as manifestaes, com suas tticas

    de enfrentamento do aparato policial e o papel que a mdia lhes denominando como

    vndalos, passando para a populao a ideia de que eles atrapalham o debate poltico

    visto que no existe possibilidade de dialogar com esse grupo, pois eles no respeitam

    os princpios democrticos, se que estes existem.

    Crise Econmica

    As manifestaes so o sintoma de uma crise financeira econmica, esta iniciada

    em 2008 nos EUA (HARVEY, 2011) teve efeitos em vrios pases que mantm relaes

    comerciais entre si. A crise tambm um indicio do acirramento da luta de classes e

    consequncia da implementao do regime de acumulao atual, o regime de

    acumulao integral (VIANA, 2009). Este regime caracterizado pela reestruturao

    produtiva, Estado neoliberal e neoimperialismo, surgiu nos anos 1980 (VIANA, 2009)

    com o propsito de reestabelecer a acumulao de capital em condies favorveis para

    este, ou seja, aumentar os lucros, consequentemente aumentando o poder da burguesia e

    ao mesmo tempo reduzir os ganhos e o poder de barganha dos trabalhadores.

    A reestruturao produtiva, tambm caracterizada por toyotismo ou modelo

    japons, se caracteriza por flexibilizar as relaes de trabalho, embora para os

    trabalhadores estejam condies se tornam inflexveis. Caracteriza-se por terceirizar a

    produo, permitir a subcontratao criando as condies para o capital negociar com os

    trabalhadores em condies desfavorveis para estes. Outra caracterstica o

    deslocamento geogrfico, onde as empresas saem de locais onde a mo de obra mais

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    organizada e procura lugares com mo de obra barata e no sindicalizada. Este fator

    contribui para explicar a industrializao do Brasil nos ltimos anos.

    Junto com essa reestruturao produtiva vem o neoimperialismo, denominado

    geralmente como globalizao. O termo globalizao surgiu com o fim da Unio

    Sovitica e sinalizava a hegemonia do capitalismo. Essa ideologia alegava que a

    integrao entre os Estados era a forma de evitar conflitos e, contribuir para o

    desenvolvimento dos mesmos. O que no revela que a globalizao mascara o real

    significado, um novo imperialismo, que destruiu empresas em pases subordinados e

    aumentou os mercados das empresas oligopolistas, sediadas nos pases centrais. Como

    consequncia teve fechamento de fbricas e o aumento do desemprego a nvel mundial.

    Por fim temos o Estado neoliberal que o complemento desse regime de

    acumulao. Este se caracteriza pelas privatizaes, o chamado Estado mnimo,

    desregulamentao da economia e das leis trabalhistas, alm da reduo de gastos

    sociais se ajustando as polticas austeridade elaborada por mecanismos internacionais

    com FMI e Banco Mundial (MILLET; TOUSSAINT, 2006).

    Desta forma a insatisfao no mundo cresceu e os movimentos contestatrios

    comearam a se organizar por volta do fim dos anos 1990 (LUDD, 2002), o chamado

    movimento antiglobalizao foi o primeiro na onda de manifestaes que ocorrem com

    intensidade no incio dos anos 2000 e depois entraram em refluxo.

    O Brasil como um pas de capitalismo subordinado, estas polticas de orientao

    neoliberal chegaram uma dcada depois de iniciadas nos pases centrais (ALVES,

    2000). O neoliberalismo chegou ao Brasil na dcada de 1990 com governo de FHC,

    durante seu mandato a ofensiva neoliberal abriu o mercado, fez reformas na previdncia

    social, privatizou empresas estatais nos setores de energia e telefonia. Essas medidas

    tiveram a oposio dos partidos da dita esquerda, que fez muito barulho se opondo a

    essas medidas. Com o tempo essa esquerda chegou ao poder e mudou o discurso. Alm

    de mudar o discurso o neoliberalismo vivia outro momento, pois a onda inicial de

    privatizaes j tinha passado agora o capital estava interessado em obter lucros no

    mercado interno. Uma das grandes bandeiras foi o crescimento da renda, uma ideologia

    que dizia que as pessoas estavam vivendo melhor, pois tinham acesso a consumo de

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    produtos que antes no tinham condies de adquirir. De eletrodomsticos, automveis

    e casas tudo foi possvel, financiado.

    Harvey (2011) coloca que as polticas neoliberais estrangulam os salrios e

    consequentemente o poder de compra dos trabalhadores. Ao mesmo tempo a produo

    crescente de mercadorias precisa ser vendida para completar o ciclo. A sada encontrada

    pelo capital foi dar crdito, multiplicaram formas de financiamento, com prazos a perder

    de vista, com taxas de juros exorbitantes. Desta forma, o governo do PT pode sustentar

    uma falsa prosperidade. Com o crescimento do endividamento da populao junto com

    a precarizao das relaes de trabalho a insatisfao tende a aumentar nas classes mais

    atingidas por estas polticas.

    Ao mesmo tempo comeou a surgir nos anos 2000 (POMAR, 2013) um

    movimento de estudantes que protestavam contra o aumento da tarifa do transporte e,

    exigiam passe livre para os estudantes, no incio dessa dcada este movimento foi

    ganhando fora, e em capitais como So Paulo, Goinia e outras comearam a organizar

    passeatas exigindo passe livre e melhorias no transporte coletivo. Destas manifestaes

    que culminaram com as grandes manifestaes de junho de 2013, que foram alm da

    questo do transporte e envolveram no apenas estudantes, tambm outros setores da

    sociedade insatisfeitos com outros problemas que assolam a sociedade brasileira.

    As Manifestaes

    No fim do primeiro semestre de 2013 foi um perodo em que ocorreriam

    aumentos dos valores das tarifas de nibus em vrias cidades brasileiras. Com a

    alegao de que os valores estavam abaixo e que as empresas trabalhavam com

    prejuzos, justificativa do aumento era dada pelas empresas e os governos. Apesar da

    populao se mostrar insatisfeita com o servio e ser radicalmente contra o aumento da

    tarifa.

    No Brasil as polticas de transporte no favorecem ao transporte pblico, pelo

    contrrio a indstria automobilstica tem prioridade nessa poltica, tudo pensado para

    o automvel, o caos no trnsito das grandes cidades um efeito dessas polticas. Desta

    forma o transporte pblico repassado para a iniciativa privada, muitas vezes sem

    licitaes e regras claras, o que favorece os esquemas de corrupo.

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    No comeo dos anos 2000 comearam a surgir movimentos em vrias cidades

    que questionavam os aumentos e exigiam passe livre. Um movimento formado por

    estudantes universitrios no ligados na sua maioria a partidos e sindicatos. Segundo

    Pomar (2013) a revolta do buzu em Salvador em 2003 e Florianpolis no ano seguinte

    foram os marcos iniciais desse movimento. Um movimento que se caracteriza por

    princpios como: autonomia, a independncia, a horizontalidade e o apartidarismo. Se

    analisarmos estes princpios veremos que claramente se opem as formas como partidos

    e sindicatos se organizam, os trs primeiros princpios vo neste sentido, pois no existe

    direo, logo todo indivduo tem voz, as decises so coletivas, e as aes so

    orientadas no sentido de buscar os objetivos do movimento, e no outros1. Por

    apartidarismo percebemos que o movimento composto por indivduos oriundos de

    partidos, pois eles, principalmente os da esquerda capitalista2, tem nos movimentos

    sociais um terreno frtil para angariar votos e capital poltico. Recusar os partidos

    polticos um passo para romper com as armadilhas da democracia burguesa. Contudo

    preciso entender que existe uma luta de classes na sociedade capitalista e que a

    omisso favorece a quem est no poder. Para Marx, no texto sobre a Guerra Civil na

    Frana (2011) a emancipao da classe trabalhadora obra da classe trabalhadora. As

    correntes que se denominavam marxistas, como a socialdemocracia e o leninismo,

    inverteram este propsito ao defender a intermediao do partido como condutor da

    classe trabalhadora. Para estas correntes a classe trabalhadora no era capaz de sozinha

    conduzir um processo de transformao, necessitando da figura do militante

    revolucionrio que conduziria a classe para o comunismo. A revoluo Russa um

    exemplo de como o leninismo contrarrevolucionrio. O marxismo autntico

    revolucionrio e defende a auto-organizao dos trabalhadores.

    Sendo organizado desta forma o Movimento Passe Livre aps algumas vitrias,

    ganhou visibilidade e foi se espalhando pelo pas. Aproveitando-se do espao vazio de

    oposio deixado pelo fato de boa parte da esquerda capitalista ter chegado ao poder, o

    movimento cresceu nas organizaes estudantis que eram dominadas por partidos de

    1 Existe uma vasta bibliografia sobre partidos e sindicatos, Tragtenberg (2006), Viana (2003). Tantos os

    partidos como os sindicatos so cooptados pelo capitalismo, logo acabam por defender interesses prprios em vez da categoria, no caso do sindicato, e da classe no caso do partido poltico.

    2 Este o termo usado por Ludd (2002) para definir a esquerda partidria, que de esquerda no tem nada, veja o caso do PT no Brasil.

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    esquerda que no conseguiram justificar um discurso crtico e radical ao mesmo tempo

    em que estavam governando. Segundo Pomar:

    O levante tambm serviu para lanar luzes sobre aspectos importantes daquele momento histrico, como a insuficincia poltica das direes estudantis tradicionais, afastadas das bases e das lutas sociais, e em dissonncia com essas; e a necessidade de organizar o movimento social de maneira autnoma e independente, ousada e sbria, capaz ao mesmo tempo de dialogar com as novas linguagens e formas de organizao da juventude e de fazer politica na sociedade, sem se deixar submeter a interesses outros que no os da prpria luta. (2013, p. 9)

    Em 2011 houve uma grande mobilizao contra o aumento da tarifa em So

    Paulo e na ocasio o PT que era oposio ao prefeito participou ativamente dos

    protestos (POMAR, 2013). Quando em 2013 o Movimento convocou novas

    manifestaes contra o aumento, o PT que j estava no governo condenou as

    manifestaes e tentou desqualificar o movimento. Ao mesmo tempo, existiam

    insatisfaes relacionadas aos problemas da sade pblica, educao, junto com os

    gastos excessivos do governo com a copa do mundo que ocorreria em 2014 e outras

    demandas como o combate corrupo, desemprego, etc.

    Quando o MPL convocou as manifestaes provavelmente no tinha ideia da

    dimenso que as manifestaes iriam tomar. Naturalmente os meios de comunicao

    omitiam ou, desqualificavam os protestos, contudo as manifestaes de 12 de junho

    (POMAR, 2013) tem um efeito inverso, a violncia policial desencadeia nas redes

    sociais uma solidariedade com os manifestantes, relatos de brutalidade da ao policial,

    que espancava at indivduos que nada tinham a ver com os protestos obrigaram at a

    mdia a mudar o discurso, os que antes eram os vndalos, agora comeam a condenar a

    violncia policial, porm comearam a separar os manifestantes entre os pacficos e os

    vndalos, desclassificando os ltimos.

    Nesse tempo o Movimento Passe livre lanou uma nota na internet justificando

    os motivos das manifestaes:

    Por que estamos nas ruas

    Calcula-se que so 37 milhes de brasileiros excludos do sistema de transporte por no ter como pagar. Esse nmero, j defasado, no surgiu do nada: de vinte em vinte centavos o transporte se tornou de acordo com o IBGE o 3 maior gasto da famlia brasileira, retirando da populao o direito de se locomover. O impacto violento do aumento no bolso da populao faz as manifestaes extrapolarem os limites do prprio movimento. E as aes

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    violentas da polcia militar, acirrando os nimos e provocando os manifestantes, levaram os protestos a se transformar em uma revolta popular. O prefeito Haddad, direto de Paris, ao lado do Governador Alkmim, exige que o movimento assuma uma responsabilidade que no nos cabe. No somos ns os que assinam os contratos e determinamos os custos do transporte repassados aos mais pobres. No somos ns que afirmamos que o aumento est abaixo da inflao sem considerar que, de 1994 para c, com uma inflao acumulada em 332%, a tarifa deveria custar 2,16 e o metr 2,59. Alm disso, perguntamos: e os salrios da maior parte da populao acompanharam a inflao? A discrepncia entre o custo do sistema e o quanto, como e quando se cobra por ele evidenciam que as decises devem estar no campo poltico, no tcnico. uma questo de escolha: se nossa sociedade decidir que sim, o transporte um direito e deve estar disponvel a todos, sem distino ou tarifa, ento ela achar meios para tal. (...) a demanda popular imediata a revogao do aumento e nesses termos que qualquer dilogo deve ser estabelecido. A popualo j conquistou a revogao do aumento da tarifa em Natal, Porto Alegre e Goinia. Falta So Paulo.(POMAR, 2013 pg 88-89).

    Essas manifestaes desencadearam grandes manifestaes de 14 de junho, em

    todo o pas vrias pessoas foram s ruas para protestar contra a violncia policial, por

    democracia3, contra as condies precrias nos hospitais pblicos, qualidade da

    educao pblica, corrupo e tambm o aumento da tarifa, que ficou engolida no meio

    de tantas reivindicaes. Outro ponto a ser salientado foi que nestas manifestaes

    houve uma recusa de partidos e sindicatos, em muitas manifestaes indivduos

    segurando bandeiras de partidos foram expulsos ou agredidos. Isso suscitou a raiva dos

    partidos da esquerda capitalista, que no tendo como dirigir o movimento, e ainda sendo

    alvo das criticas fizeram como a blogueira do PT Maria Fr (POMAR, 2013), associar

    os manifestantes a fascistas, pois estes no recorrem aos meios democrticos.

    Assim que as manifestaes entraram em refluxo, os meios de comunicao e o

    Estado puderam retomar a ordem, inicialmente defendendo o carter democrtico das

    manifestaes e, fazendo promessas de que seriam atendidas as vozes das ruas...

    Atendidas e enroladas, pois prometeram reformas polticas, aumentos de gastos sociais,

    etc. No fim das contas nica medida colocada em prtica foi revogao do aumento

    da tarifa. Em Goinia, foi prometido passe livre para estudantes, algo que at agora no

    se concretizou.

    3 Lgico que reivindicavam a democracia burguesa, que em nossa opinio no passa de uma ditadura

    velada (VIANA, 2003). A maioria da populao no tem conscincia de que lutam por algo que noexiste, e sua defesa intil.

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    Blacks Blocs

    As manifestaes de 2013 trouxeram o Black Blocs para a discusso poltica

    local. Estes grupos j existiam h muito tempo na Europa e EUA, j so bem

    conhecidos da mdia desde os protestos antiglobalizao no fim da dcada de 1990.

    Taxados de vndalos, criticados pela mdia por destrurem o patrimnio, tanto pblico

    como privado, antidemocrticos, so adjetivados como um mal que surgiram nas

    manifestaes mais recentes e precisam ser combatidos, pois segundo a mdia e partidos

    polticos, renunciar ao dilogo vai contra a tradio democrtica e no por esses meios

    que o movimento social consegue seus objetivos.

    Essas adjetivaes dadas aos BB revela que suas aes preocupam tantos os

    partidos polticos bem como os meios de comunicao. Porm quem so o Black Blocs,

    o que pensam sobre a sociedade capitalista, sobre a esquerda capitalista e, o que

    fundamental a mensagem que eles tentam passar para as classes oprimidas so eficazes

    para aglutinar pessoas s manifestaes ou, suas tticas servem de combustvel para a

    mdia desqualificar os protestos.

    Os Black Blocs so compostos por agrupamentos pontuais de indivduos ou grupo de pessoas formados durante uma manifestao. A expresso designa uma forma especfica de ao coletiva, uma ttica que consiste em formar um bloco em movimento no qual as pessoas preservam seu anonimato, graas, em parte, s mscaras e roupas pretas. (...) o principal objetivo de um Black Bloc indicar a presena de uma crtica radical ao sistema econmico e poltico (DUPUIS-DRI, 2014, p.10).

    Segundo Dupuis-Dri (2014) o Black Blocs surgiu na Alemanha nos anos 1980,

    derivada de grupos autonomistas que tinham influncias do marxismo, anarquismo,

    ambientalismo e feminismo. Apesar dessa diversidade de influncias, os Black Blocs

    so geralmente associados ao anarquismo, talvez pela forma como se comportam nas

    manifestaes e, tambm porque as deformaes do marxismo4 ,tal como a

    socialdemocracia e o leninismo se intitulam os representantes legtimos deste,

    4 O marxismo autntico o que a partir dos escritos de Marx que expresso terica do movimento

    proletrio. Pannekoek, Tragtenberg e Viana so autores que criticam as deturpaes do marxismo, que podem ser resumidas ao leninismo e a socialdemocracia. O primeiro a ideologia de uma classe de revolucionrios que conduzir a classe trabalhadora ao comunismo, mas que no passa de uma ideologiaque favorece que a burocracia partidria atinja o poder e, uma vez nele se volte contra os trabalhadores. A segunda defende que o proletariado precisa se organizar no partido para fazer esse chegar ao poder e fazer as reformas que vo de interesse da classe trabalhadora, outra falcia que a histria comprovou a inutilidade dessa perspectiva para a classe trabalhadora.

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    burocratizando este e fazendo com seja visto como algo superado. Tambm os

    anarquistas tm restries aos marxistas, desde os debates entre Marx e Bakunin no

    sculo XIX, essas duas correntes libertrias entraram em confrontos, muitas vezes

    prejudiciais para o prprio objetivo que buscam a revoluo.

    O Black Blocs comeou a aparecer na mdia, aps as manifestaes do que ficou

    conhecido como Movimento Antiglobalizao, ocorrido no fim dos anos 1990 e incio

    dos anos 2000. Este movimento marcou uma nova onda de protestos nos pases

    capitalistas como no aconteciam desde o maio de 1968 (LUDD, 2002). O Black Bloc

    um grupo de afinidade se rene sem uma organizao prvia, geralmente estes

    encontros so marcados pela internet, logo qualquer pessoa disposta pode participar de

    um Black Bloc. Diferente de outras formas de militncia poltica, que pressupe a

    formao dos militantes e que sua ao vai para alm da participao em manifestaes,

    onde os militantes participam de debates, organizam manifestos, panfletos, enfim

    tentam passar a sua perspectiva para outros setores da sociedade.

    Segundo Dupuis-Dri (2014) principal objetivo de um Black Bloc passar sua

    mensagem anticapitalista, na viso deles, atravs da destruio de empresas smbolos

    deste, bem como o enfrentamento as foras policiais. Essas aes quando no esto

    ligadas a uma causa revolucionrio, no fazem sentido. Da que suas aes acabam

    sendo um prato cheio para a mdia, vida por imagens de violncia para jogar a culpa

    nos manifestantes e aproveitar para jogar a opinio pblica contra estas. No caso das

    manifestaes no Brasil em 2013, isso ficou evidente, se no fossem as redes sociais

    para fazer o contraponto, a grande maioria da populao teria uma imagem muito

    negativa destas.

    As aes dos Black Blocs despertam a crtica de vrios setores da sociedade

    como a polcia, pois agora tem que lidar com manifestantes dispostos a ir para o

    enfrentamento, polticos que defendem que o caminho no o confronto mais sim

    jogarem o jogo da democracia e intelectuais tanto de esquerda que associam as aes

    dos Black Bloc com os fascistas e de direita que ficam raivosos com a perturbao da

    ordem. E claro, os grandes meios de comunicao, que defendem as instituies, pois

    dela se beneficiam.

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    A principal acusao a de que eles promovem a violncia, e esta, no contribui

    para o debate poltico, segundo Ludd:

    Se levarmos em conta que as aes deles nessas manifestaes-bloqueio feriam sem gravidade alguns policiais, enquanto milhares de manifestantes saram feridos pelas investidas policiais, tach-los de violentos deveria ser algo risvel, que s demonstra o quanto aqueles que assim os rotulam se encontram imersos e devedores da moral e da ordem burguesa (LUDD, 2002, p.12)

    Esses crticos se esquecem de que o Estado Moderno fundado na violncia, ou

    no se lembram de como foram separadas a cabea e o corpo do rei da Frana depois da

    revoluo? Ou se esquecem de que este mesmo Estado sem envolve em guerras, e

    outros conflitos que no tm nada de pacfico. Claro que do ponto de vista da burguesia

    tudo pode ser justificado.

    Os BB tambm so alvos da esquerda capitalista, pois no buscam os meios

    legais para negociao, no utilizam os mecanismos oferecidos pelo Estado, no caso os

    partidos polticos e os sindicatos. Estas instituies so legitimadas pela democracia

    burguesa para defenderem os interesses das classes oprimidas, mas no fazem e nem

    podem faz-lo e, se fizessem isso provavelmente no ocorreriam protestos. Assim

    movimentos espontneos como estes causam crise de legitimidade, tambm retiram sua

    base de influncia nas instituies que so legitimadas pelo Estado, da que combatem o

    Black Blocs bem como suas prticas e manifestaes. No caso do Brasil, durante as

    manifestaes ocorreu teve a recusa da mediao de partidos e sindicatos. Porm depois

    que passaram as manifestaes, o discurso dos partidos foi, de que as vozes das ruas

    devem ser ouvidas, mas devemos respeitar a democracia e as instituies do Estado.

    As manifestaes dos anos 2000 no Brasil representam uma renovao da luta

    poltica, pois as instituies oficiais da democracia burguesa ficaram em xeque diante

    do que foi chamada pela mdia, uma crise de representatividade, embora esta nunca

    tenha existido alm da fachada. O Black Bloc visto por uns como afoitos em relao

    ao processo revolucionrio e que suas tticas favorecem o discurso dos meios de

    comunicao ao cham-los de vndalos. Embora sejam questionveis os adjetivos

    atribudos ao Black Blocs, no temos certeza se sua ttica atrai a classe trabalhadora e o

    lumpemproletariado. Estes no foram identificados nas manifestaes, suas bandeiras

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    foram engolidas por bandeiras que estampavam combate a corrupo, enfim bandeiras

    de classes auxiliares da burguesia e que no almejam a revoluo.

    Consideraes Finais

    A estabilidade que o regime de acumulao integral implantado a partir da

    dcada de 1980 (VIANA, 2009) buscava foi curta e a sociedade capitalista se v diante

    de dificuldades econmicas em todos os pases. Estas abriram a possibilidade do

    surgimento de reivindicaes contra o modelo de poltica adotado no atual regime do

    capitalismo. Algumas crticas, nos pases centrais buscam a retomada do Estado de bem

    estar, como setores mais radicais buscam mostrar que o problema o capitalismo e,

    portanto necessrio destru-lo. A esquerda capitalista que se encontrava no poder,

    como no caso do Brasil, pouco tem a oferecer contra uma ordem que cada vez mais

    oprime as pessoas, concentra a riqueza e aumenta a misria pelo mundo.

    As organizaes burocrticas que dizem defender os trabalhadores no tm mais

    desculpas diante de uma degradao das condies de vida dos trabalhadores, diante da

    reestruturao produtiva que arrasta trabalhadores para a informalidade, para a

    subcontratao, a terceirizao dos empregos. Junto a isso o fato de que os partidos

    polticos no tem propostas alternativas. Antes quando estavam na oposio era possvel

    at fazer um discurso radical, agora no poder tm que jogar o jogo da burguesia. Mesmo

    que o atual governo apele para medidas destinadas assistncia de minorias oprimidas,

    como cotas para negros, mulheres e etc. Fica cada vez mais evidente a ineficcia dessas

    polticas e, fragilidade do discurso que as sustentam.

    Porm, o movimento revolucionrio no pode cometer os erros do passado, se

    bem claro que a perspectiva leninista e socialdemocrata so destinadas ao fracasso, pois

    seu modelo vanguardista serve apenas para conduzi-los ao poder, como na Rssia, e

    instalar um capitalismo de Estado5. Tambm no podemos cair na iluso de seguir a

    classe trabalhadora em suas aes e seremos revolucionrios. O reboquismo que

    5 Capitalismo de Estado foi o termo usado por Fromm (1970) para definir a natureza do regime sovitico,

    pois se chamava de socialista, que na prtica era um Estado capitalista, sem a burguesia, o controle era exercido pela burocracia bolchevique, quem tambm tinha privilgios por estar na direo do Estado.Outros autores como Pannekoek, Mattick tambm definiram o regime implantado na Unio Sovitica como capitalismo de estado.

  • 13Revista Sociologia em Rede, vol. 4, num. 4, 2014

    defende que onde a classe trabalhadora estiver os militantes tem que estar juntos.

    Segundo Viana:

    O reboquismo tem uma concepo mstica da revoluo e do proletariado. Para a maior parte dos adeptos do reboquismo, o proletariado tem a misso revolucionria e por isso preciso seguir seu movimento e ele libertar a todos. (VIANA, 2014, p.68-69).

    A classe proletria no capitalismo se encontra numa situao determinada pelo

    capital. Logo suas aes so dentro dessa ordem, o que significa que ela no busca a

    revoluo. Os leninistas usam esta justificativa para defenderem a ao da vanguarda. A

    classe trabalhadora reivindica melhorias salariais, condies de trabalho, diante do

    quadro colocado pelo atual regime de acumulao, a insatisfao das camadas

    oprimidas da sociedade tende a aumentar. A classe operria pode como em outros

    momentos histricos radicalizar e passar a ser autodeterminada, quando as lutas se

    voltam contra seus exploradores e o perodo revolucionrio ascende.

    Exemplos histricos como a Revoluo Russa, a Revoluo Alem de 1919, o

    Maio de 1968 em Paris, so momentos em que as lutas emergem, e a classe em si e para

    si. Contudo, para chegar revoluo a classe trabalhadora defronta-se com a burguesia,

    o Estado e os aparatos utilizados por estes para a manuteno do capitalismo. At hoje

    infelizmente a burguesia conseguiu manter a ordem. Cabem aos militantes que buscam

    a revoluo lutar contra a sociedade capitalista, como Viana denominou a luta cultural,

    de combate s instituies, as ideologias burguesas para que a classe operria possa no

    momento adequado instaurar a autogesto social, acabando com o capitalismo.

    Referncias

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  • 14Revista Sociologia em Rede, vol. 4, num. 4, 2014

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