VAI-TE EMBORA MEDO! - Consultas de psicologia em Braga ... · ... emoções e respostas...

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Vera Ramalho www.psiquilibrios.pt Psiquilíbrios www.psiquilibrios.pt VAI-TE EMBORA MEDO! Vera Ramalho O que é o Medo? O medo é uma emoção básica que possui uma função adaptativa ao longo do desenvolvimento da espécie humana: alertar e proteger de eventuais perigos. É, portanto, uma resposta natural a um estímulo físico ou imaginado que representa uma ameaça ao bem-estar ou segurança do indivíduo. Esta resposta natural inclui aspetos cognitivos, emocionais, fisiológicos e comportamentais. Ao nível cognitivo, ocorre a interpretação do estímulo ou situação enquanto algo ameaçador ou perigoso. Ao nível emocional, pode surgir tensão, apreensão, ou desconforto; enquanto que do ponto de vista fisiológico ocorre uma ativação do sistema nervoso autónomo que prepara o indivíduo para neutralizar ou enfrentar a ameaça através de uma resposta de “luta/fuga”. No que se refere ao comportamento, a resposta pode ser de evitamento, através da fuga, ou de aproximação e tentativa de enfrentar o perigo recorrendo à agressividade, especialmente se a pessoa estiver numa situação da qual não possa escapar. Há ainda a possibilidade de, perante uma situação de ameaça extrema, a pessoa ficar imobilizada.
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    10-Nov-2018
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    Psiquilbrios

    www.psiquilibrios.pt

    VAI-TE EMBORA MEDO!

    Vera Ramalho

    O que o Medo?

    O medo uma emoo bsica que possui uma funo adaptativa ao longo do desenvolvimento da

    espcie humana: alertar e proteger de eventuais perigos. , portanto, uma resposta natural a um

    estmulo fsico ou imaginado que representa uma ameaa ao bem-estar ou segurana do indivduo.

    Esta resposta natural inclui aspetos cognitivos, emocionais, fisiolgicos e comportamentais. Ao nvel

    cognitivo, ocorre a interpretao do estmulo ou situao enquanto algo ameaador ou perigoso. Ao

    nvel emocional, pode surgir tenso, apreenso, ou desconforto; enquanto que do ponto de vista

    fisiolgico ocorre uma ativao do sistema nervoso autnomo que prepara o indivduo para

    neutralizar ou enfrentar a ameaa atravs de uma resposta de luta/fuga. No que se refere ao

    comportamento, a resposta pode ser de evitamento, atravs da fuga, ou de aproximao e tentativa

    de enfrentar o perigo recorrendo agressividade, especialmente se a pessoa estiver numa situao

    da qual no possa escapar. H ainda a possibilidade de, perante uma situao de ameaa extrema,

    a pessoa ficar imobilizada.

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    importante distinguir entre o medo normal e adaptativo e o medo desadaptativo. O primeiro,

    pressupe uma avaliao fiel da potencial ameaa representada por um estmulo ou situao e, sendo

    um medo protetor, importante para a sobrevivncia da criana, porque faz com que esta evite os

    estmulos que o desencadeiam. So exemplos: medo das alturas, medo de animais selvagens, medo

    de atravessar a rua, etc. Por sua vez, o medo desadaptativo baseado em avaliaes imprecisas de

    ameaa ao bem-estar e causa prejuzo no funcionamento da criana e da famlia.

    Sintomas gerais

    Tal como j foi referido, o medo manifesta-se sob a forma de pensamentos, emoes e respostas

    fisiolgicas e comportamentais. So alguns exemplos: palpitaes, calafrios, tenso, suor nos ps e

    nas mos, sono intranquilo, descontrolo urinrio, diarreia e dor de barriga. As reaes

    comportamentais, como a inibio e agressividade prejudicam a rotina da criana e podem tomar uma

    proporo exagerada que foge ao controlo da criana.

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    DESENVOLVIMENTO DO MEDO E DA ANSIEDADE

    Enquanto marcadores do desenvolvimento da criana, os medos funcionam como tarefas

    desenvolvimentais, s quais cabe criana ultrapassar, resultando na promoo da sua autonomia e

    no seu desenvolvimento emocional. O enfrentar atempado dos medos evita que, a longo prazo, estes

    possam possuir uma dimenso patolgica resultante em fobias.

    A maioria dos medos infantis est relacionado com situaes que causam insegurana e que a

    criana sente que no controla. So exemplos, o medo do escuro, dos pesadelos, de ir ao mdico, de

    ser abandonada. Entre os 4 e 6 anos o medo do escuro natural, pois a criana no possui a

    capacidade de distinguir a realidade da fantasia, assim, os barulhos e sombras no quarto podem

    transformam-se facilmente num monstro terrvel.

    Embora os medos sejam tarefas desenvolvimentais que surjam em alturas especficas do

    desenvolvimento humano, a sua intensidade e frequncia podem variar de criana para criana,

    contribuindo para isto o seu temperamento, o temperamento dos seus pais ou de pessoas prximas, o

    contexto onde a criana est inserida, entre outros. Com o crescimento e correspondente maturao

    cognitiva e emocional, a criana, com a colaborao dos adultos, poder encontrar estratgias eficazes

    para lidar com os medos, pelo que, na sua maioria, acabam por desaparecer naturalmente.

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    O que fazer?

    No se deixe dominar pelo medo e procure criar oportunidades para a criana desenvolver as

    competncias necessrias para enfrentar e dominar as situaes temidas.

    Procure sempre alternativas s situaes ambguas

    Procure interpretar e ajudar a criana a interpretar as situaes temidas de uma forma menos

    ameaadora

    Adote um estilo de comunicao com a criana menos intrusivo e menos focado nos receios e

    preocupaes que apenas cabem aos adultos

    A promoo do dilogo com a criana permite deixar uma janela aberta para a procura dos pais

    (ou outras figuras de referncia) quando se sentir ameaada, ou estiver a lidar com sentimentos

    perante os quais sente dificuldades em lidar.

    Quando a criana demonstrar uma preocupao exagerada sobre algum receio, d ateno e

    explique, mas no demore tempo demais falando sobre o assunto, para evitar que a criana

    fique ainda mais ansiosa.

    Brinque com a criana, representando em brincadeiras o sentimento de medo frente a uma

    situao real, como uma ida a um hospital ou escola.

    importante demonstrar criana como agir em situaes potencialmente geradoras de medo

    ou que requerem cuidado, como por exemplo, atravessar uma rua, como estar numa piscina,

    como (no) falar com estranhos, etc..

    NUNCA ameace uma criana com elementos assustadores ou use o medo que ela tem como

    meio de obter poder.

    importante tornar as situaes previsveis para que a criana possa controlar a ansiedade

    causada por situaes novas: se ela vai a uma consulta mdica ou fazer um exame explique-lhe

    o que vai acontecer, contando sempre a verdade. Reforce o bom comportamento combinando

    uma comemorao (Vais ser uma menina crescida e a seguir vamos lanchar ao caf).

    Fale a verdade sobre os medos bons (ou amigos) para que a criana construa noes de perigo.

    Exemplo: escadas, piscinas e animais presos representam riscos. Mas faa isso sem aterroriz-

    la.

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    Os medos possuem diferentes funes que esto associados s

    tarefas tpicas do desenvolvimento, sendo esperado que apaream e

    desapaream em determinados momentos, mais ou menos

    previsveis. Por exemplo, o medo das alturas tem incio na fase em

    que a criana comea a mover-se, por volta dos seis meses, e a sua

    intensidade correlaciona-se positivamente com a mestria nesta

    capacidade de explorar o ambiente que a rodeia. Embora este medo

    possa limitar o funcionamento adequado da criana, em associao

    com a ansiedade de separao, um factor protetor dos perigos reais

    de queda e do afastamento dos progenitores na fase inicial da vida

    (Baptista, 2000; Carr, 2000).

    O medo tambm encarado como possuindo uma componente

    gentica, permevel s influncias do ambiente que, atravs de

    processos de normalizao ou de ativao, os podem fazer diminuir

    ou aumentar. Por exemplo, os medos sociais aparecem no incio da

    adolescncia, altura de maior individualizao, de afastamento dos

    progenitores, de insero nos grupos de pares e de atrao pelo sexo

    oposto. O medo ou ansiedade social so factores motivadores

    adaptativos que promovem maior preocupao e cuidado com a

    aparncia, o cuidado com a impresso causada e a opinio dos

    outros, contudo, se este medo inibir os contactos sociais ou se existir

    encorajamento familiar para a evitao, o medo ter tendncia a

    manter-se ou, pior, a aumentar transformando-se numa limitao. O

    controlo excessivo dos pais em relao aos filhos, limitando a sua

    autonomia e o seu comportamento exploratrio, contribui para

    transformar medos, que em determinados momentos so esperados,

    em ansiedade (Baptista, 2000).

    Medos mais comuns: 2-6 anos

    Escuro

    Pessoas mascaradas

    seres imaginrios (monstros,

    fantasmas)

    Maus ou ladres

    Animais (at os 4 anos)

    Perda/separao prolongada

    dos pais

    6-11 anos

    Epidemias, doenas, feridas

    (sofrimento fsico)

    Catstrofes naturais (fogo,

    inundaes, troves)

    6 anos (morte)

    medo de se expor, de falar

    nas aulas, ir ao quadro

    NUNCA critique ou

    ridicularize a criana por sentir medo

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    Influncias para o desenvolvimento dos medos/ansiedade

    1. Vulnerabilidade hereditria - a ansiedade ocorre quando os

    indivduos, hereditariamente vulnerveis, so expostos a estmulos

    ambientais ameaadores, na fase desenvolvimental crtica nos quais

    esto aptos para desenvolver medos.

    2. Contacto negativo com um estmulo: um objeto neutro

    emparelhado com um outro objeto temido e desencadeia a

    ansiedade. A exposio subsequente ao objeto que anteriormente

    era neutro provoca uma ansiedade ligeira. A repetida exposio

    breve a este objeto conduz a um aumento do medo.

    3. Ambiente familiar ou social

    As crianas podem desenvolver problemas de medo e ansiedade

    quando inseridas em contextos familiares (ou educacionais) onde os

    seus elementos induzem, modelam e reforam comportamentos e

    crenas relacionados com a ansiedade. Alm disso, transies no

    ciclo de vida da famlia e acontecimentos stressantes podem tambm

    precipitar o aparecimento de problemas da ansiedade. Estes

    problemas so mantidos por padres de interao familiar que

    reforam as crenas da criana relativamente ansiedade e os seus

    comportamentos de evitamento.

    As crenas familiares que promovem a ansiedade podem envolver: a

    interpretao de situaes ambguas como ameaadoras ou

    perigosas; que o futuro ou acontecimentos novos provavelmente

    acarretar muitos riscos, catstrofes e perigos; que acontecimentos

    do passado traro consequncias perigosas e ameaadoras; que

    algumas situaes de mal estar fsico devem ser interpretadas como

    sendo o incio de uma doena grave e inevitvel.

    A criana deve aprender a dominar o medo e no ser dominado por ele.

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    Quando os pais sofrem de perturbaes ansiosas importante que tambm sejam alvo de ajuda psicolgica. Se este vivem preocupados com mil e um fantasmas, natural que transmitam esta forma de encarar a realidade aos filhos e que tambm estes desenvolvam medos exagerados.

    Referncias

    Baptista, A. (2000). Perturbaes do medo e da ansiedade. Uma perspectiva evolutiva e desenvolvimental. In I. Soares (Ed.), Psicopatologia do desenvolvimento. Trajectrias (in)adaptativas ao longo da vida. Coimbra: Quarteto.

    Carr, A. (2000). What works with children and adolescents? A critical review of psychological interventions with children, adolescents and their families. London: Routledge.

    Livro recomendado

    Pr o Medo a Fugir: as aventuras da Joana contra o Medo. Miguel Gonalves. Braga: Psiquilibrios Edies.