Convenções de contextualizações

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John J. GumperzJohn J. Gumperz

Convenções De Convenções De ContextualizaçõesContextualizações

SociolinguísticaSociolinguística Interacional: uma introdução Interacional: uma introdução

Para começar...Para começar...

• Objeto da sociolinguística;Objeto da sociolinguística;

• Sociolinguística Interacional;Sociolinguística Interacional;

• A diversidade linguística em Gumperz;A diversidade linguística em Gumperz;

• Valor simbólico das variáveis linguísticas;Valor simbólico das variáveis linguísticas;

• Conceito de Atividade;Conceito de Atividade;

Convenções de ContextualizaçãoConvenções de Contextualização

Mas...O que são Mas...O que são elaselas, afinal?, afinal?

PistasPistas de natureza sociolinguística que utilizamos de natureza sociolinguística que utilizamos

para sinalizar os para sinalizar os nossos propósitos nossos propósitos

comunicativos ou para comunicativos ou para inferir os propósitos inferir os propósitos

conversacionais do interlocutorconversacionais do interlocutor. (RIBEIRO & . (RIBEIRO &

GARCEZ,2002)GARCEZ,2002)

...As pistas...As pistas

São todos os traços linguísticos que São todos os traços linguísticos que contribuem para a sinalização de contribuem para a sinalização de

pressupostos contextuais.pressupostos contextuais.

• Dependem do repertório linguístico Dependem do repertório linguístico historicamente determinado de cada historicamente determinado de cada participante;participante;

Exemplificando:Exemplificando:

• Mudança de código, dialeto ou estilo;Mudança de código, dialeto ou estilo;

• Fenômenos prosódicos;Fenômenos prosódicos;

• Opções lexicais e sintáticas;Opções lexicais e sintáticas;

• Expressões pré-formuladas;Expressões pré-formuladas;

• Abertura e fechamento conversacionais;Abertura e fechamento conversacionais;

• Estratégias de sequenciamento;Estratégias de sequenciamento;

• São portadoras de informação;São portadoras de informação;

• Realizam-se na Realizam-se na interação;interação;

• Diferem das Diferem das palavras;palavras;

• Emprego e reação às pistas na Emprego e reação às pistas na

interação;interação;

Problemas na ComunicaçãoProblemas na ComunicaçãoExemplo 1:Exemplo 1:

O aluno de pós-graduação tinha por tarefa entrevistar uma dona de O aluno de pós-graduação tinha por tarefa entrevistar uma dona de casa negra, residente em um bairro de baixa renda da cidade. O casa negra, residente em um bairro de baixa renda da cidade. O contato tinha sido feito por telefone anteriormente. O aluno chega,contato tinha sido feito por telefone anteriormente. O aluno chega,toca a campainha e é cumprimentado pelo marido, que abre a porta,toca a campainha e é cumprimentado pelo marido, que abre a porta,sorri e se dirige a ele: sorri e se dirige a ele:

Marido: então quer dizer que cê vai dá u'a geral na minha veia, é? Marido: então quer dizer que cê vai dá u'a geral na minha veia, é?

Entrevistador: ah, não. Eu só vim para obter algumas informações. O Entrevistador: ah, não. Eu só vim para obter algumas informações. O pessoal do escritório já ligou para, cá. pessoal do escritório já ligou para, cá.

(O marido, desfazendo o sorriso, sai sem pronunciar uma única (O marido, desfazendo o sorriso, sai sem pronunciar uma única palavra e chama a sua mulher.)palavra e chama a sua mulher.)

• Expressão pré-formulada;Expressão pré-formulada;

• Problema análise fórmula;Problema análise fórmula;

• Método Erickson e Schultz.Método Erickson e Schultz.

Análise:Análise:

Exemplo 2:Exemplo 2:

Um homem casado, sentado na sala de estar, se dirige à sua Um homem casado, sentado na sala de estar, se dirige à sua mulher. O homem é um norte-americano de classe média, e a mulher. O homem é um norte-americano de classe média, e a mulher é inglesa. São casados e residem nos Estados Unidos mulher é inglesa. São casados e residem nos Estados Unidos há alguns anos.há alguns anos. Marido: cê sabe onde tá o jornal de hoje?Marido: cê sabe onde tá o jornal de hoje? Mulher: eu pego pra você. Mulher: eu pego pra você.

Marido: tudo bem. só me diz onde ta. Marido: tudo bem. só me diz onde ta. eueu pego. pego.

Mulher: não, Mulher: não, EUEU pego. pego.

Uma mãe esta conversando com seu filho de onze anos, que está Uma mãe esta conversando com seu filho de onze anos, que está prestes a sair de casa na chuva: prestes a sair de casa na chuva:

Mãe: onde estão as suas botas?Mãe: onde estão as suas botas?

Filho: no armário. Filho: no armário.

mãe: eu quero que você ponha essas botas agoramãe: eu quero que você ponha essas botas agora

Exemplo 3:Exemplo 3:

Considerações iniciais:Considerações iniciais:

• Incapacidade em responder apropriadamente a Incapacidade em responder apropriadamente a

atos de fala indiretos;atos de fala indiretos;

• Diferenças interpretativas podem estar ligadas Diferenças interpretativas podem estar ligadas

a:a:

i.i. Gênero;Gênero;

ii.ii. Origem étnica;Origem étnica;

Exemplo 4:Exemplo 4:

Conversa telefônica entre um professor universitário branco e um Conversa telefônica entre um professor universitário branco e um aluno negro. Ambos se conhecem bem, pois o aluno havia aluno negro. Ambos se conhecem bem, pois o aluno havia trabalhado como auxiliar de escritório do professor durante vários trabalhado como auxiliar de escritório do professor durante vários anos. O telefone toca: anos. O telefone toca:

Professor: alô. Professor: alô.

Aluno: como vai a família? (pausa) Aluno: como vai a família? (pausa)

Professor: bem.Professor: bem.

Aluno: volto a conversar com você no mês que vem sobre aquilo.Aluno: volto a conversar com você no mês que vem sobre aquilo.

Professor: tudo bem. Eu posso esperar. Professor: tudo bem. Eu posso esperar.

Aluno: eu terminei o trabalho. tá sendo datilografado. Aluno: eu terminei o trabalho. tá sendo datilografado.

Professor: passe no escritório e a gente conversa a respeito.Professor: passe no escritório e a gente conversa a respeito.

Análise:

•ComunicaçãoComunicação imediataimediata

•Interferências de Origens socioculturais;Interferências de Origens socioculturais;ii.ii.interpretações diversasinterpretações diversas

• Verbo Modal “Verbo Modal “MayMay”: Inglês Indiano”: Inglês Indiano

MAIS UMA QUESTÃO DE EXPERIENCIA COMUNICATIVA DO QUE DE TEMPO NO PAÍS.

• O que é comunicação não verbal;O que é comunicação não verbal;

• Olhos, face, membros e tronco;Olhos, face, membros e tronco;

Sinaliza e reflete a transição de Sinaliza e reflete a transição de

estágio (Sheflen,1972);estágio (Sheflen,1972);

Mostra o estado emocional do falante (Ekman, 1979);Mostra o estado emocional do falante (Ekman, 1979);

•Sincronismo rítmico e regular – ( Kendon, Harris e Key, Sincronismo rítmico e regular – ( Kendon, Harris e Key,

1975) ; 1975) ;

Bases perceptuais:Bases perceptuais:

• Relação Sincronia X Assincronia e Relação Sincronia X Assincronia e

Informações apreendidas – Exemplo Informações apreendidas – Exemplo

orientadores-alunos – (Erickson e Shultz, 1982); orientadores-alunos – (Erickson e Shultz, 1982);

• Sincronia conversacional - Exemplo leitura dos Sincronia conversacional - Exemplo leitura dos

alunos falantes do inglês vernáculo africano-norte-alunos falantes do inglês vernáculo africano-norte-

americano; (Piestrup, 1973);americano; (Piestrup, 1973);

• Assincronia – Pré-fórmulas - Exemplo ArtistaAssincronia – Pré-fórmulas - Exemplo Artista

A: é como todas as partes da mão. os A: é como todas as partes da mão. os dedos operam inde[pendentemente, mas dedos operam inde[pendentemente, mas eles tem o mesmo eles tem o mesmo

B: [0B: [0

que eu gostaria de dizer é ... que eu gostaria de dizer é ...

Exemplo 8:Exemplo 8:

Numa aula filmada numa escola primaria, aNuma aula filmada numa escola primaria, a

professora mandou um aluno ler. O alunoprofessora mandou um aluno ler. O aluno

respondeu: "num quero ler". A professorarespondeu: "num quero ler". A professora

ficou irritada e disse: "esta bem, então, sente”ficou irritada e disse: "esta bem, então, sente”

Exemplo 9:Exemplo 9:

Num quero ler Num quero ler

• Paradigma pré-formulado;Paradigma pré-formulado;

• Sinais extralinguísticos e linguísticos;Sinais extralinguísticos e linguísticos;

• Comunidades que compartilham o Comunidades que compartilham o

conhecimento de um paradigma pré-conhecimento de um paradigma pré-

convencionado;convencionado;

• (Des)compasso entre as pistas prosódicas (Des)compasso entre as pistas prosódicas

e paralinguísticas;e paralinguísticas;

• Norte-americanos brancos: Recusa/ Norte-Norte-americanos brancos: Recusa/ Norte-

americanos negros: encorajamento – americanos negros: encorajamento –

Diferenças entre as comunidades Diferenças entre as comunidades

linguísticas e a produção de sentido através linguísticas e a produção de sentido através

da entoação da criança. da entoação da criança.

Retomando...A entoação:Retomando...A entoação:

• fator prosódico; fator prosódico; • função relevante na interação;função relevante na interação;• pista de contextualização; pista de contextualização;

P: James, que palavra é esta?P: James, que palavra é esta?

J: J: não seinão sei..

P: bem, se você não quer tentar, um outro P: bem, se você não quer tentar, um outro

aluno aluno

vai tentar. Freddy?vai tentar. Freddy?

F: isso é um F: isso é um pp ou ou bb??

P: (encorajando o aluno) é um P: (encorajando o aluno) é um p.p.

F: F: pena.pena.

No espaço escolar:No espaço escolar:

Exemplo 10: Eu não seiExemplo 10: Eu não sei

• James falou com uma entoação James falou com uma entoação ascendente a frase “I don’t know”ascendente a frase “I don’t know”

• Revela um pedido de incentivo, algo Revela um pedido de incentivo, algo como “Eu preciso de incentivo”.como “Eu preciso de incentivo”.

• A professora de James não identificou A professora de James não identificou esta pista. esta pista.

Análise:Análise:

Entende-se, portanto, que ela não Entende-se, portanto, que ela não compartilha da mesma realidade cultural compartilha da mesma realidade cultural

de James.de James.

A: mas se você fizesse um curso básico, um planejado pelo

departamento de Linguística e outro pelo departamento de

[Antropologia] Sociocultural, e ambos oferecessem Boas, haveria

uma conexão. então, por que é que Boas é importante nas duas

áreas? Qual é a diferença? e eu

B: você acha que é porque o pessoal da Sociocultural meio que

monopoliza o campo?

C: espera aí espera aí!

Exemplo 11: Uma ponteExemplo 11: Uma ponte

A: você faz o que precisa, não faz o pacote todo. Você escolhe A: você faz o que precisa, não faz o pacote todo. Você escolhe

o que você precisa. você não precisa da coisa toda.o que você precisa. você não precisa da coisa toda.

D: os dois se justificam. os antropólogos têm a sua própria D: os dois se justificam. os antropólogos têm a sua própria

ênfase, os linguistas têm a sua própria ênfase e...mas ah não ênfase, os linguistas têm a sua própria ênfase e...mas ah não

há há conexãoconexão. O que (. O que (nósnós) precisamos é de ) precisamos é de uma ponte uma ponte ahah......

C: talvez o problema seja que não há um único professor que C: talvez o problema seja que não há um único professor que

realmente tenha essa visão geral. realmente tenha essa visão geral.

• D. é indiano;D. é indiano;

• D. aponta que isto geralmente lhe acontecia D. aponta que isto geralmente lhe acontecia

ao falar com norte-americanos;ao falar com norte-americanos;

• Só com a intervenção de uma pessoa de fora Só com a intervenção de uma pessoa de fora

é que D pode expressar sua opinião, assim é que D pode expressar sua opinião, assim

como justificá-la;como justificá-la;

i.i. D apresenta uma prosódia diferente das D apresenta uma prosódia diferente das

convenções norte-americanas.convenções norte-americanas.

ii.ii. A segunda e terceira afirmações eram A segunda e terceira afirmações eram

contrastivascontrastivas, ,

iii.iii. D utiliza-se do mesmo léxico e sintaxe nas duas D utiliza-se do mesmo léxico e sintaxe nas duas

afirmações, mas não utiliza a ênfase tônica, o que, afirmações, mas não utiliza a ênfase tônica, o que,

para os americanos, passa a ser entendido como para os americanos, passa a ser entendido como

uma fala comum, e não uma relação contrastiva.uma fala comum, e não uma relação contrastiva.

Problemática:Problemática:

iv.iv. Nas seguintes afirmações, D enfatiza Nas seguintes afirmações, D enfatiza

tonicamente as palavras “conexão”, “nós” e tonicamente as palavras “conexão”, “nós” e

“ponte”. “ponte”.

v.v. Para os norte-americanos, estas duas Para os norte-americanos, estas duas

afirmações, por terem sido enfatizadas, afirmações, por terem sido enfatizadas,

representam o representam o posicionamento principalposicionamento principal de de

D. Desta forma, pode-se explicar a “interrupção” D. Desta forma, pode-se explicar a “interrupção”

sofrida por C na fala do falante D. sofrida por C na fala do falante D.

• Ao construir um argumento, os falantes indianos Ao construir um argumento, os falantes indianos

se esmeram se esmeram em construir a base para o que em construir a base para o que

vão dizer;vão dizer;

• Usam Usam ênfase tônicaênfase tônica contundente contundente para marcar para marcar

essa baseessa base. Depois, ao fazerem suas . Depois, ao fazerem suas

contribuições, mudam para tons graves e voz contribuições, mudam para tons graves e voz

baixa. baixa.

As estratégias retóricas dos indianos falantes do inglês são diferentes das estratégias dos

americanos:

As elocuções dos exemplos 5 (“me ajuda”),9 As elocuções dos exemplos 5 (“me ajuda”),9

(“num quero ler”) e 10 (“eu não sei”) têm (“num quero ler”) e 10 (“eu não sei”) têm

interpretações pré-formuladas semelhantes e que interpretações pré-formuladas semelhantes e que

são específicas das tradições negras são específicas das tradições negras norte-norte-

americanas. americanas.

Os norte-americanos que não reconhecem estas Os norte-americanos que não reconhecem estas

pistas de contextualização não podem interpretar pistas de contextualização não podem interpretar

corretamente o que é dito. corretamente o que é dito.

Questões de interpretação:Questões de interpretação:

““Tais diferenças (de estratégia verbal), quando Tais diferenças (de estratégia verbal), quando

permanecem despercebidas, podem ter sérias permanecem despercebidas, podem ter sérias

consequências na avaliação do desempenho das consequências na avaliação do desempenho das

crianças.” (p.180)crianças.” (p.180)

Diferença de estratégia verbal:Diferença de estratégia verbal:

À guisa de conclusãoÀ guisa de conclusão

““Problemas causados pelas convenções Problemas causados pelas convenções

de contextualização de contextualização refletemrefletem fenômenos fenômenos

sociolinguísticossociolinguísticos, desta forma, o , desta forma, o peso peso

interpretativointerpretativo é muito é muito maiormaior do que seu do que seu

significado linguístico significado linguístico conforme medido conforme medido

pelas técnicas comuns da gramática pelas técnicas comuns da gramática

contrastiva.” contrastiva.”

Portanto, para Gumperz, o estudo Portanto, para Gumperz, o estudo

sociointeracional da linguagem busca sociointeracional da linguagem busca

“[...] “[...] identificaridentificar as pistas que estão as pistas que estão

operando (na interação) e então operando (na interação) e então

determinar determinar suas origens dentro do suas origens dentro do

sistema linguístico a fim de sistema linguístico a fim de formularformular

hipóteseshipóteses sobre o que elas refletem a sobre o que elas refletem a

respeito da origem dos participantes.”respeito da origem dos participantes.”

REFERÊNCIASREFERÊNCIAS GUMPERZ, J. J. Convenções de contextualização. In: RIBEIRO, GUMPERZ, J. J. Convenções de contextualização. In: RIBEIRO,

B. T. e GARCEZ, P. M. Sociolinguística Interacional. São Paulo: B. T. e GARCEZ, P. M. Sociolinguística Interacional. São Paulo: Edições Loyola, 2002.Edições Loyola, 2002.

John J. Gumperz (1922 – 2013)John J. Gumperz (1922 – 2013)