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(AUTO)BIOGRAFIA: ESCRITAS DE SI E ESCRITAS DE OUTRO NO

IMAGINRIO DE FORMAO.

Lucinia Contiero (1); Gisele Pasquini Fernandes (2)

(Universidade Federal do Rio Grande do Norte / Academia da Fora Area, [email protected]);

(Universidade Estadual de Maring, [email protected])

Resumo: Este artigo discute aspectos de categorias do gnero biogrfico utilizadas no campo educacional

como construto de formao docente: a autobiografia, a memria, o dirio. Importa a esta abordagem

investigar as subespcies do gnero atentando para a pertinncia da promoo da verossimilhana narrativa e

sua implicao para a representatividade da construo identitria e do conceito reflexivo-critico-

transformador. Tencionamos abordar os parmetros factuais da construo memorialstica que muito tem

servido de base cientfica, na atualidade, como sistematizao bibliogrfica sobre a profisso docente. Para

tanto, servimo-nos do apoio terico de autores fundamentais como Ricouer, Lejeune, Sartre, Foucault,

Bachelard, Vilas Boas.

PALAVRAS-CHAVE: autobiografia; verdade factual; trajetrias de formao docente.

Pesquisas recentes apontam um grande

interesse pela categoria narrativa

autobiogrfica como apoio de formao

humana. De fato, h muito mais dilogo entre

a teoria literria e a sociologia, a antropologia,

a educao, do que tem ventilado nossa

historiografia. O desenvolvimento de novas

leituras e novos entendimentos a partir das

histrias de vida de professores representadas

por dirios, memrias, autobiografias de

formao o foco de interesse desta discusso

que se presta a abordar teoricamente os

contornos do mtodo a partir de uma breve

discusso sobre o gnero biogrfico e suas

subespcies categoriais em face da veracidade

informacional, da verdade factual. Para tanto,

servimo-nos do apoio terico de autores

fundamentais, como Ricouer, Lejeune, Sartre,

Foucault, Bachelard, Klinger, Vilas Boas.

A linguagem compreendida como

construo social e histrica, e o sujeito como

aquele que moldado nas relaes

intersubjetivas em diferentes interaes. Se

verdade que ensinar a usar a lngua e a

entender como a linguagem funciona no

mundo atual tarefa fundamental para a

construo da cidadania e da incluso

democrtica no mundo contemporneo das

comunicaes imediatas, da tecno-informao

e da possibilidade de se expor e fazer escolhas

entre discursos autnticos e variados sobre a

vida social (MOITA-LOPES; ROJO, 2004),

tambm verdade que o desenvolvimento da

prtica narrativa autobiogrfica, das escritas

de si, tem formalizado e intensificado o

desenvolvimento da (auto)conscincia do

mailto:[email protected]:[email protected]

processo de formao. Da porque vem sendo

foco de inmeros estudos e pesquisas nas ps-

graduaes de todo o pas. Partilhamos o

mesmo interesse: este trabalho resulta de um

pequeno recorte de uma investigao maior

desenvolvida pelas autoras, professoras das

reas de Cincias da Linguagem e de

Formao de Professores, que se dedicam ao

estudo da perspectiva metodolgica da

(auto)biografia de formao defendendo a

ideia de que a verdade pessoal to complexa

quanto a realidade social, esta que

constituda por pessoas que esto em um

processo de autoconhecimento contnuo.

Experincias so vivenciadas de forma

inter-relacionada e holstica. A narratividade

factual possibilita a construo de sentido de

uma vida, resultante da organizao do que

ocorreu nas experincias e aprendizagens,

com a dimenso espacial, temporal, alm das

relaes sociais (ABRAHO, 2008). Aquele

que se dedica ao estudo ou narratividade das

escritas de si trabalha com dados inexatos,

carregados de subjetividade, emoes,

impresses. Da porque o pesquisador busca a

compreenso do fenmeno estudado

considerando sempre a generalizao analtica

e no uma generalizao estatstica.

Compreende-se o presente atravs da

apreenso do passado pela experincia e

vozes dos atores sociais que as viveram

(ABRAHO, 2008). Tal compreenso tem

sido motivao de uma reviso consciente do

ser e do fazer docente como forma de

autoconhecimento e aprimoramento das

capacidades profissionais. Porm, ao voltar-se

para o passado a fim de analisar passos,

tropeos e escolhas da trajetria profissional

buscando uma reformulao ou simplesmente

a prtica consciente do mesmo percurso em

continuidade, o sujeito seria mesmo capaz de

se deparar com verdades factuais ou apenas

uma inveno ou impresso delas?

O sujeito da memria o eu, na

primeira pessoa do singular. Lembrar-se de

passagens vividas necessariamente lembrar-

se de si? Lembrar-se ter lembranas ou ir

busca delas? Sob a associao de ideias est

situada uma espcie de mescla entre memria

e imaginao. Seria, pois, legtimo nos

servirmos desse constructo na formao

profissional? Seremos capazes de reconstruir

a nossa imagem autenticamente para dela nos

servirmos socialmente criando uma

identidade profissional? Desprovidos do

compromisso de responder a esta questo,

antes tencionamos problematizar os

parmetros factuais da construo

memorialstica que muito tem servido de base

cientfica, na atualidade, como sistematizao

bibliogrfica sobre a profisso docente.

Desde muito tempo, a memria vista

como uma provncia da imaginao e, tanto

por isso, deve ser tratada com suspeio,

confirma Ricouer (2007, p. 25). A memria

pouco confivel precisamente por se tratar do

nico recurso para representar o carter

passado daquilo que constitudo o lembrar

no presente. O problema suscitado pela

confuso entre memria e imaginao

remonta filosofia ocidental: Scrates (469-

399 a.C.) elaborou uma espcie de

fenomenologia da confuso ao discutir tomar

uma coisa por outra; e Aristteles (384-322

a.C.), em seu De memoria et reminiscentia,

apresentou a memria como a representao

frgil de um tempo e que, como tal, difere

muito da realidade vivida, suscetvel a

desdobramentos e redobramentos

inesperados (apud RICOUER, 2007: p.27-8).

Etimologicamente, biografia um

termo composto por bio- indicativo da ideia

de vida e -grafia, elemento de composio

que traduz as ideias de escrever e descrever.

O gnero um ramo da literatura dedicado

descrio ou narrao da vida de algum,

geralmente com certo grau de importncia

social. Em sentido estrito, uma biografia se

reporta a toda a extenso da vida do

biografado, no apenas recontando os eventos

que a compem, mas recriando a imagem de

como ou foi e quais elementos contriburam

para a sua identidade narrada. Frise-se o

termo narrada, vez que a identidade no pode

ser expressa em palavras, ainda que fossem

usados todos os recursos discursivos possveis

para tal objetivo.

A autobiografia, por si, uma categoria

ou subespcie do gnero biogrfico (e to

antiga quanto), escrita pela pessoa de quem o

enredo fala, sob o feito de narrar a prpria

existncia. A biografia categoria literria

antiga. Est no Velho Testamento, remetendo

aos patriarcas, por exemplo. Na Grcia

Clssica, onde Aristxeno de Tarento criou a

biografia literria, Plato e Xenofonte

escreveram sobre Scrates. Entre os romanos,

Tcito, para elogiar o sogro, escreveu a

primeira biografia na acepo moderna, e

Plutarco ajudou a fixar algumas das linhas

mestras do gnero. Santo Agostinho, na

Idade Mdia (sc. IV) foi o autor da primeira

autobiografia, Confisses, de grande

repercusso. A categoria inclui manifestaes

literrias semelhantes entre si, como

confisses, memrias, cartas, dirios,

narraes que revelam sentimentos ntimos e

experincias do autor. Tanto na biografia

quanto na autobiografia, o suporte da escrita

confere materialidade aos rastros conservados

e reanimados por enriquecimento de episdios

inditos, formados atravs da imaginao

prpria ou de narrao de pessoas prximas

ao (auto)biografado1. do presente, do ato da

1 A partir deste ponto, passamos a usar a expresso

(auto)biografia quando nos referirmos s duas

categorias literrias na mesma argumentao.

escrita que se evocam todos os ls e

sensaes que fizeram parte da

referencialidade permanente do passado e que

ora so revistos e reapresentados. Ope a

biografia autobiografia, basicamente, a

hierarquizao das relaes de semelhana e

de identidade: na biografia, a semelhana

fundamenta a identidade; na autobiografia, a

identidade fundamenta a semelhana. A

identidade o ponto de partida real da

autobiografia; a semelhana, o impossvel

horizonte da biografia. O biografado um

modelo idealizado pelo bigraf