Biblia lider

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  • 1. NDICE Prefcio ..............................................................................1 Instrues para uso deste material......................................3 Introduo ao Antigo Testamento......................................4 1. Vale a pena ler o Antigo Testamento? .........................22 2. J: soberania e dor........................................................30 3. Deuteronmio: um sabor agridoce...............................40 4. Salmos: espiritualidade em cada nota .........................47 5. Eclesiastes: fim da sabedoria .......................................58 6. Profetas: resposta de Deus para o mundo ....................66 7. Isaas: a nao e o servo...............................................76 Bibliografia ......................................................................85

2. Comunidade Presbiteriana Chcara Primavera Ministrio de Grupos Pequenos Agosto de 2011 Produzido para uso interno Contatos: [email protected] www.chacaraprimavera.org.br (19) 3254-4500 Equipe de produo Texto Ana Lusa de Mello e Silva Marco Antonio Gomes Da Silva Newton R. B. Oppermann Superviso e reviso Jonathan Lus Hack Marco Antonio Gomes Da Silva 3. A Bblia que Jesus lia 1 Prefcio Estudaremos nos grupos pequenos, nessa srie que voc tem em mos, o Antigo Testamento, que a Bblia que Jesus lia. Ser uma experincia gostosa, como se estivssemos deslizando graciosa- mente sobre um lago congelado. Particularmente, tenho um enorme prazer em apresentar esse material amplamente pesquisado e escrito por vrias pessoas. O ttulo muito desafiador e a escolha de escrever cada estudo, feita por Deus. A denominao Antigo Testamento o modo pelo qual nos re- ferimos primeira parte da Bblia. A expresso testamento vem do latim testamentum, traduo do hebraico berit e do grego diatheke, significando pacto, acordo, contrato, aliana. Tudo isso est ligado ideia da aliana feita entre Deus (Jav) e Israel, atravs de Moiss. O Antigo Testamento (AT) uma coleo de livros que o povo de Deus reconheceu como Sagradas Escrituras reveladas pelo prprio Senhor. Esta coleo chegou at ns por meio do judasmo, e tambm o cristianismo e o islamismo reconhecem estes livros como sagrados. Com a vinda de Jesus e sua nova aliana (Novo Testamento), a expresso Antigo Testamento foi usada para designar os tempos ante- riores a Cristo (veja 2Co 3:14). O AT a escritura usada pelos cristos no princpio, pois so- mente aos poucos que foi surgindo o Novo Testamento. O prprio Jesus reconhece e reafirma a autoridade do Antigo Testamento como Palavra de Deus. Num sentido mais restrito, o AT a histria do povo de Deus diante do pacto com seu Deus. Esta histria marcada pela fidelidade de Deus mas, por outro lado, pela infidelidade constante do povo. Essa infidelidade traz, sucessiva e inevitavelmente, um merecido cas- tigo. Mesmo assim Deus continua fiel aliana feita com seu povo. 4. 2 A Bblia que Jesus lia O Novo Testamento (NT), porm, marca o incio da nova alian- a (por isso, Novo Testamento). Esta no baseada em sangue de bodes e de carneiros, como a antiga, mas no sangue do Filho, Jesus. O AT a preparao de Deus para o NT; a antiga aliana nos conduz nova aliana! Mas o AT no pode ser compreendido completamente sem a luz do NT sobre ele. Os dois, juntos, formam uma nica revela- o do plano de Deus para seu povo! De igual modo, o AT que tor- na o NT compreensvel e aceitvel; a segunda parte da Bblia s pode ser entendida luz da revelao da primeira. Jesus disse queles que no criam ser ele o Messias: Se vocs cressem em Moiss, creriam em mim, pois ele escreveu a meu respeito (Jo 5:46). Cristo abriu a mente dos discpulos para o entendimento das Escrituras (Lc 24:25). Tambm Paulo argumenta sobre o vu que cobre as mentes dos judeus quando leem o AT e diz que este vu s retirado em Cristo (2Co 3:14). Existe, portanto, no Antigo Testamen- to um contedo que somente a f crist est em condies para com- preender e julgar.1 Concluindo, quero destacar que o Antigo Testamento: a histria que prepara o advento de Cristo; a histria das intervenes de Deus na vida do homem pa- ra realizar seu plano redentor; uma exposio doutrinria e religiosa que prepara o sur- gimento do cristianismo; uma pedagogia religiosa: a lei nos conduz at Cristo; uma figura do Novo Testamento. Bem, ento vamos encarar este desafio de estudar o Antigo Tes- tamento, a Bblia que Jesus lia. Marco Antonio Gomes Da Silva 1 Teodorico Balarini, Introduo bblica, p. 25. 5. A Bblia que Jesus lia 3 Instrues para uso deste material Os temas e as datas listados abaixo apresentam o calendrio previsto para uso desse material nos grupos pequenos: 2 a 4 | agosto = Vale a pena ler o AT? 9 a 11 | agosto = J, soberania e dor. 16 a 18 | agosto = Deuteronmio, um sabor agridoce. 23 a 25 | agosto = Salmos, espiritualidade em cada nota. 30 | agosto a 1 | setembro = Eclesiastes, fim da sabedoria. 6 a 8 | setembro = Profetas, resposta de Deus ao mundo. 13 a 15 | setembro = Isaas, a nao e o Servo. O material de cada encontro seguir o padro abaixo: Objetivos: conceitos chaves abordados no estudo; Introduo ao assunto em questo; Estudo: Conjunto de perguntas para debater o assunto; Para refletir e praticar; Leituras sugeridas para o prximo encontro; Lista de oraes: espao para anotar os motivos de oraes do grupo naquele encontro; Lista de presena: espao para registrar as presenas dos par- ticipantes naquele encontro. Marco Antonio Gomes Da Silva 6. 4 A Bblia que Jesus lia Introduo ao Antigo Testamento Leio a Bblia como qualquer leitor comum, interagindo com o contedo, procurando entender a inteno do autor. Por ganhar a vida como escritor, dou uma espiada por trs das cortinas para especular a razo na qual o autor usou determinada ilustrao, escolheu uma metfora incomum ou comeou aqui e no ali.2 A Bblia pode ser descrita como uma coleo de livros escri- tos que a igreja reconhece como inspirados; ns os chamamos de Es- crituras, Escritura Sagrada ou de Testamentos (Antigo e Novo). A palavra Bblia vem at ns do grego atravs do latim. A ex- presso grega ta biblia, que quer dizer os livros. No latim tardio, a palavra tomada por emprstimo biblia (plural neutro em grego) foi considerada como um substantivo latino, feminino, singular, signifi- cando o livro. Este significado dado, porm, no satisfaz, posto que a Bblia uma biblioteca de livros com diversos autores humanos (em torno de 40) e um autor divino, atravs da inspirao do Esprito San- to. dividida em duas partes: o Antigo e o Novo Testamentos. Esta palavra testamento indica uma caracterstica fundamental da revelao, isto , a aliana de Deus com seu povo. Esta aliana era um contrato, visto que o povo tambm aceitou certas condies, espe- cialmente na obrigao de ser fiel a ele, o nico Deus verdadeiro. 2 Philip Yancey, A Bblia que Jesus lia, p. 9. 7. A Bblia que Jesus lia 5 O texto do Antigo Testamento A) Formao do texto bblico A formao do Antigo Testamento foi um processo bastante longo. Muito do que sabemos sobre o mundo antigo est baseado na tradio oral que passava de pais para filhos, de contadores de hist- rias para crianas, de mestres para alunos, etc. Assim foi preservada a histria, por exemplo, do princpio de todas as coisas. Moiss escreveu no sculo XIII a.C., mas relatou his- trias do sculo XIX a.C. sobre Abrao e seu chamado por Deus. Aceitando 1280 a.C. como data da entrada em Cana,3 e sabendo que Moiss no entrou na Terra Prometida, podemos concluir que ele escreveu os seus livros antes disso. A histria do Antigo Testamento se encerra com os relatos de Neemias no ano 434 a.C. e as profecias de Malaquias. Isto significa um perodo total de 800 a 900 anos para o surgimento dos escritos do AT em sua forma original. Os sculos seguintes so denominados de Perodo Interbblico (ou Perodo Intertestamental = entre os dois testamentos). um per- odo de silncio proftico de 400 anos. Contudo, podemos acompa- nhar os acontecimentos histricos em livros que so parte da tradio de Israel e de outros povos. Aps este perodo chega a plenitude dos tempos, o ponto central da histria da humanidade: o Deus Criador se encarna entre ns como ser humano na pessoa de Jesus. A vida e o ministrio de Jesus so relatados por escrito aps sua morte e ressurreio. Juntamente com narrativas e cartas sobre a vida da igreja, tais escritos foram reconhe- cidos como Palavra de Deus e agrupados no Novo Testamento. Abrangem desde o livro de Tiago (cerca de 50 d.C.) at os escritos de Joo, j no final da era apostlica (cerca de 100 d.C.). Assim, enquanto o AT levou mais de 800 anos para ser forma- 3 Os estudiosos divergem quanto s datas exatas dos acontecimentos antes da poca de Saul e Davi. Por isso, tais dataes devem ser assumidas com cautela. 8. 6 A Bblia que Jesus lia do, o NT aparece em apenas 50 anos. Obviamente, a oficializao destes documentos levou mais tempo (veja abaixo). Toda a formao do Antigo Testamento passa logicamente pela formao do povo de Israel e, consequentemente, pela famlia forma- da a partir de Abrao. Abrao aparece na histria da humanidade por volta de 2040 a.C.4 O nome Abrao (Abamram) aparece em textos babilnicos da Primeira Dinastia e possivelmente nos textos das Exe- craes, enquanto que nomes contendo os mesmos componentes so encontrados em Mari.5 Estas citaes so importantes, pois situam Abrao e a narrativa bblica dentro do contexto da histria geral e permitem propor uma data aproximada para seu nascimento. A Bblia no fornece tais detalhes, pois seu foco no est na exatido cientfica ou histrica, mas na explanao teolgica sobre os fatos ocorridos. B) Cnon do Antigo Testamento O processo de canonizao desta coleo de livros sagrados le- vou sculos para ser completado. Foi uma tarefa rdua e difcil. No AT, muitos livros foram rejeitados por uns e aceitos por ou- tros, de acordo com tradies de cada regio. Aos poucos um consen- so foi formado e os judeus da Palestina definiram seu cnon (conjunto fixo de livros). Os judeus gregos (que no viviam na Palestina) inclu- ram outros livros em sua traduo do hebraico para o grego (chamada de Septuaginta).6 Este debate, entretanto, continuou dentro da igreja, chegando at os dias da Reforma Protestante.7 Tais livros passaram a 4 Joseph Angus, Histria, doutrina e interpretao da Bblia, p. 328. 5 John Bright, Histria de Israel, p. 96. 6 Tem este nome, segundo a lenda, por ter sido preparada por 70 ancios no reinado de Ptolomeu Filadelfo, por volta de 285-246 a.C.. Por isso ficou conhecida como a traduo dos Setenta (LXX ou Septuaginta). 7 O cnon palestino conhecido como Cnon Hebraico. O Cnon Alexandrino resultou na traduo da LXX. Os protestantes seguem estritamente o cnon palesti- no; os catlicos, por deciso do Conclio de Trento, adotam o Cnon Alexandrino, mas reconhecem que tais adies no tm o mesmo valor inspirado dos demais livros (da a denominao de deuterocannicos, querendo indicar de segunda li- nha ou segundo cnon). 9. A Bblia que Jesus lia 7 ser denominados como deuterocannicos. Muitos outros livros, rejei- tados por ambos os grupos de judeus, so denominados de apcrifos. No foi apenas uma atividade humana que determinou se o que foi escrito era ou no Palavra de Deus. Pensar assim deixar de lado a soberana ao do Esprito Santo que inspirou o texto bblico e o preservou durante os sculos posteriores at hoje. Este processo longo e penoso certamente foi guiado por Deus, mas o homem tambm to- mou parte deste processo, por meio de sua pesquisa, conhecimento e processos de desenvolvimento histrico, lingustico e cultural. Deus agiu de forma soberana no processo de formao da palavra, assim como esteve na sua preservao e no processo histrico de sculos para definir este cnon. C) Informaes adicionais sobre o cnon Para voc que deseja entender melhor este assunto, seguem abaixo alguns detalhes adicionais a respeito da canonizao das trs partes principais do Antigo Testamento: Lei (Pentateuco ou Tor): o processo histrico do cnon se iniciou em 621 a.C., quando o rei Josias fez uma reforma em Israel e o livro de Deuteronmio foi encontrado no templo. A partir da houve um resgate dos livros antigos e maior cuidado com sua preservao. Os incidentes descritos em Gnesis exigem grande conhecimento de causa e certamente foram baseados em tradies e documentos antigos. xodo afirma 75 vezes que disse o Senhor a Moiss, demonstrando que estes livros esto baseados na vontade revelada do Senhor e que Moiss foi o mediador desta revelao. Por isso o Pentateuco tambm denominado como os livros de Moiss. Profetas: evidncias histricas mostram que entre 250 e 175 a.C. os profe- tas j eram considerados escritos sagrados. Isso inclui os livros de Josu, Juzes, Samuel e Reis (so denominados de profetas anteriores); Isaas, Jeremias e Eze- quiel (profetas posteriores) e os doze profetas menores. Os escritos dos profetas se distinguiam tanto dos outros que logo eram considerados autoritrios (ou seja, ins- pirados por Deus, com autoridade de Deus). Em quase todos vemos a frmula: Assim disse o Senhor. Escritos: esta foi a parte com mais disputas e mais demorada a concluir. Aqui se incluem os livros poticos de Salmos, Provrbios, J e os cinco rolos usa- dos nas festas de Israel: Cantares, Rute, Lamentaes, Eclesiastes e Ester. H 10. 8 A Bblia que Jesus lia tambm os livros histricos de Daniel, Esdras-Neemias e Crnicas. Os livros de Ester e de Lamentaes foram os ltimos a serem aceitos como cannicos, por volta de 160-105 a.C.8 J os livros de Cantares, Eclesiastes e Ester foram os que permaneceram mais tempo como disputados! At o Snodo de Jmnia, em 90 d.C., alguns rabinos ainda no aceitavam o livro de Ester porque o nome de Deus no mencionado nenhuma vez em todo o livro. O mais antigo e decisivo testemunho o do historia- dor judeu Flvio Josefo, que cerca do ano 90 d.C. escreve o seguinte: Porque ns no temos (isto , como os gregos) mirades de livros discordantes e contraditrios entre si, mas apenas 22... juntamente aceitos. Cinco so os livros de Moiss, que compre- endem as leis e as tradies da origem da humani- dade at a morte dele. Os profetas que foram depois de Moiss escreveram em 13 livros o que sucedera no tempo em que viveram. Os 4 livros restantes en- cerram hinos a Deus e preceitos para a conduta do homem. O grupo dos 22 livros est provavelmente disposto justamente como o temos hoje na Bblia sem os apcrifos, na Bblia protestante que segue o cnon hebraico ou palestino... O testemunho de Jo- sefo impressionante porque ele escreve em grego para os gregos. Estes e ele conheciam muito bem a LXX (Septuaginta), mas escrevendo ele, como por- ta-voz da sua nao, limita formalmente o cnon do AT aos escritos contidos nas Escrituras hebraicas.9 D) Informaes adicionais sobre os livros apcrifos O termo apcrifo vem do grego apokrufe que quer dizer oculto, secreto, mis- terioso. No incio da igreja, o termo era usado para designar livros de autoria incer- ta, ou escritos sob pseudnimos,10 ou ainda aqueles livros que tinham sua autorida- 8 Entretanto, Josefo, um historiador posterior dos hebreus, afirma que o cnon j estava fechado na poca de Esdras, por volta de 450 a.C.. Veja tambm a citao dele no pargrafo seguinte. 9 Joseph Angus, Histria, doutrina e interpretao da Bblia, p. 14-15. 10 Apelidos ou nomes usados para esconder o verdadeiro nome do autor ou mesmo para se passar pelo autor mais famoso. Exemplo: Evangelho de Pedro. 11. A Bblia que Jesus lia 9 de cannica posta em dvida. Assim, o termo apcrifo tomou o sentido de esprio, no autntico, indi- cando at hoje os livros no cannicos. J vimos que os livros aceitos pelos judeus palestinos so os mesmos da Bblia protestante; enquanto os judeus gregos aceita- vam outros livros, como hoje encontramos na Bblia catlica (Septuaginta). Nos sculos iniciais, os cristos tinham em alta conta os livros no canni- cos acrescidos na LXX. No ano 400 d.C., Jernimo lhes atribuiu uma classificao inferior, separando-os dos demais. Em 1548, a Igreja Catlica oficializou estes acrscimos como cannicos e os inseriu na Vulgata, apesar de Jernimo t-los deixado de fora anteriormente. Mantiveram fora apenas os livros de I e II Esdras e a Orao de Manasss. H inmeros livros apcrifos. Veja a lista a seguir com os livros apcrifos e deuterocannicos em ordem cronolgica: 250 a.C. 220 a.C. 183 a.C. 181-145 a.C. 180 a.C. 180 a.C. 180-100 a.C. 150 a.C. 150 a.C. 105 a.C. 105 a.C. < 100 a.C. 100 a.C. 100 a.C. 100 a.C. 100 a.C. 100 a.C. 80-50 a.C. 80-50 a.C. 80-50 a.C. 80-50 a.C. 40 a.C. 40 a.C. 40 a.C. 50 a.C. - 10 d.C. 50 a.C. - 50 d.C. 50 a.C. - 70 d.C. Aikar Tobias I Enoque Adies a Ester Sabedoria de Jesus Ben Sirac (Eclesistico) Testamento dos 12 patriarcas Judite I Baruque Cntico dos trs jovens I Macabeus Fragmentos Sadoquitas I Esdras Manual de Disciplina Guerra dos filhos da Luz e Trevas II Macabeus Orculos sibilinos III Salmos da seita de Qumran Susana Epstola de Jeremias Bel e o Drago Carta de Aristias Vida dos Profetas Comentrio sobre Habacuque 1.2 Salmos de Salomo Sabedoria de Salomo III Macabeus IV Macabeus 12. 10 A Bblia que Jesus lia 4 a.C. - 28 d.C. 1 d.C. 1 d.C. 1-66 d.C. 1-66 d.C. 1-66 d.C. 1-66 d.C. 10-100 d.C. 66 d.C. 88 - 117 d.C. 100 d.C. 100 d.C. Assuno de Moiss Martrio de Isaas Orao de Manasss Crnicas de Jeremias Vida de Ado e Eva Apocalipse de Moiss II Baruque Ditos dos Pais II Enoque II Esdras Apocalipse de Abrao III Baruque Bibliografia sugerida para estudos posteriores Se houver interesse, voc pode obter mais detalhes sobre a formao do texto bblico e o processo de canonizao nos livros abaixo: A inspirao e inerrncia das Escrituras: uma perspectiva reformada, Hermisten M. P. da Costa, Cultura Crist Documentos do AT: sua relevncia e confiabilidade, Walter Kaiser, Cultu- ra Crist Havendo Deus falado, J. I. Packer, Cultura Crist Inspirao e canonicidade da Bblia, Robert L. Harris, Cultura Crist Introduo bblica, Norman Geisler, Vida Merece confiana o AT?, Gleason Archer, Vida Nova Merece confiana o NT?, F. F. Bruce, Vida Nova. Contexto histrico e social do AT A) Lngua e literatura Lngua: os livros do AT foram escritos na lngua hebraica, a lngua dos hebreus.11 Esta era a lngua comum de Cana e da Fencia. Pode-se considerar o hebraico como sendo o dialeto israelita da ln- 11 O qualificativo hebraico para a lngua dos hebreus ocorre em primeiro lugar no livro apcrifo de Eclesistico (cerca de 130 a.C.). Josefo se utiliza da expresso lngua dos hebreus para o antigo hebraico. Os Targuns (parfrases judaicas dos livros do AT) chamam o hebraico de a lngua sagrada. 13. A Bblia que Jesus lia 11 gua cananeia. Israel estava cercado de povos que falavam o aramaico, lngua correlata de Aram territrio que abrangia parte da Mesopotmia, Sria e extensa poro da Arbia. Com a queda de Samaria (722 a.C.), as tribos semticas que falavam o aramaico passaram a exercer ainda maior influncia na regio. O hebraico comeou a decair como lngua at se extinguir como lngua falada. No tempo de Neemias, ainda era a lngua falada em Jerusalm (Ne 13:24), em cerca de 430 a.C., mas muito tempo antes de Cristo a lngua franca falada na regio era o aramaico. A literatura em hebrai- co era apenas para os eruditos. Assim, o aramaico se propagou e era a lngua falada por Cristo e seus apstolos. Alguns trechos do AT fo- ram escritos em aramaico Ed 4:8 a 6:18; 7:12-16 e Dn 2:4 a 7:28.12 Todas as lnguas semticas13 so de grande importncia para o estudioso do AT em sua lngua original.14 Literatura: com o surgimento da imprensa em 1477, foi feita a primeira impresso da Bblia Hebraica: o livro de Salmos. Em 1488 toda a Bblia Hebraica j estava impressa. Antes destes textos impres- sos, o texto bblico era registrado em manuscritos (MSS), copiados com muita fidelidade.15 Por volta do ano 800, os massoretas inventaram o sistema de acentuao, que dava a pronncia e exata conexo entre palavras, produzindo a cadncia para leitura e recitao nas sinagogas. Estes 12 Tambm os Targuns tambm esto em aramaico. 13 O siraco uma verso do aramaico de Edessa, na Mesopotmia tambm importante; h importantes verses siracas do NT. O rabe, outra lngua semtica, tambm possui vasta e rica literatura. O rabe moderno difere do antigo nas suas formas; de um dialeto rabe, o himiartico, deriva-se o etipico. 14 Nenhum dicionrio hebraico pode se considerar satisfatrio se no fizer meno constante aos significados dos termos nas lnguas cognatas. O hebraico passou por vrias modificaes durante o perodo do AT. 15 H nos MSS curiosas indicaes sobre esta fidelidade. Mesmo certas marcas que no se entendem, talvez feitas por erro ao manusear a pena, so duplicadas fielmen- te em cada cpia. 14. 12 A Bblia que Jesus lia sinais foram escritos em um corpo de tradies, a Massora, colecio- nado e transmitido por eles. Por isso este texto chama-se texto masso- rtico. Houve em Israel um longo perodo de tradio oral antes da es- crita.16 Isso vale especialmente para os livros mais antigos (Gnesis- Josu, Cnticos e Provrbios). Foram inicialmente transmitidos de lugar para lugar, tribo para tribo, e de gerao para gerao. Entretan- to, desde tempos remotos, juntamente com a tradio oral havia uma tradio escrita, que era usada principalmente para textos jurdicos, listas e documentos. Por exemplo, os anncios profticos provavel- mente foram transpostos para a escrita pouco tempo depois de suas pregaes orais. B) Formao cultural do povo A Palestina, em virtude da natureza do seu terreno, no uma regio de povoamento isolado, ou seja, homognea e fechada. Ela formada por plancies costeiras e regies montanhosas perto do Jor- do, alm de estar recortada em depresses, vales, plancies e patama- res altiplanos. Isto favoreceu o desenvolvimento do pas por setores, levando ao agrupamento dos moradores em blocos com suas prprias caractersticas. Alm disso, a Palestina ponto estratgico no caminho entre o Egito e o Oriente, entre a Mesopotmia e o mar Mediterrneo, entre frica e sia. Por esta razo, esteve no meio de disputas entre estes povos durante sculos. Quando o povo de Israel chegou Palestina, j havia ali diver- sos povos instalados na terra. Os filisteus habitavam em cidades cos- teiras e dominaram seus vizinhos por alguns perodos. Contudo, os habitantes da terra (cananeus) influenciaram Israel mais do que os filisteus, pois os cananeus se fundiram cultura israelita, influencian- 16 Veja, por exemplo, Nm 21:27. Havia cantores de stira que propagavam as tradi- es orais; homens e mulheres que recitavam cnticos fnebres e transmitiam a outros o seu conhecimento (Jr 9:16-17 e Am 5:16). 15. A Bblia que Jesus lia 13 do na lngua, costumes e religio.17 Os seminmades hebreus necessi- taram se adaptar cultura agrcola, habitando inicialmente nas regies montanhosas.18 Com o tempo desenvolveram tambm o comrcio. Diante disto tudo, de toda essa mistura, de se admirar que Is- rael tenha desenvolvido uma cultura homognea, centralizado em torno de sua religio. A f javista (f em Jav que os tirou do Egito e os fez entrar na terra da promessa) foi o fator preponderante para manter intacto este povo frente a tantas influncias, sem sucumbir e tornar-se algo diferente do que foi projetado a princpio. C) Informaes adicionais sobre o Oriente Antigo No terceiro milnio a.C., temos uma histria documentada pela escrita, a partir dos documentos mesopotmicos. Sumria: na Idade Clssica sumeriana, a terra era organizada em sistema de cidades-estados, mas no existia uma unificao permanente e total da terra. Este foi um tempo de relativa paz, posto que as guerras eram espordicas e locali- zadas; assim a vida econmica e o comrcio puderam se desenvolver. Em volta dos templos (numerosos), as escolas de escrita eram estabelecidas e produziam literatura abundante, narraes de feitos picos e lendas que eram transmitidas oralmente nos sculos anteriores. A religio sumeriana era um politesmo altamente desenvolvido e o chefe deste panteo de deuses era Enlil, senhor da tempestade. Os sumrios tinham um alto senso de certo e errado e as leis aplicadas na terra eram para eles um reflexo das leis divinas. Mesopotmia: Os acdios,19 que so os semitas na Mesopotmia, eram seminmades. No h evidncia de conflitos raciais com os sumrios. Ao contrrio, podemos supor que houve uma grande miscigenao de raas. O primeiro verda- deiro imprio do mundo foi o Imprio de Akkad (2360-2180 a.C.). Seu fundador foi 17 Estudiosos argumentam que o comrcio de sal, enxofre e betume (abundantes na rea do Mar Morto) foi a base da economia de Jeric, uma importante cidade de Cana. Tudo isso j acontecia por mais de 5.000 anos antes de Abrao! Conforme Bright, Histria de Israel, p. 20. 18 Os hicsos, predominantemente habitantes de cidades-estado, permaneceram at o reinado de Davi e Salomo como fator preponderante na formao histrica. A conquista da terra no eliminou diversos povos e cidades-estado presentes, como se l em Juzes. Em muitas regies, esta convivncia durou sculos (at Davi). 19 So denominados de acdios por causa da sede do seu primeiro imprio Akkad. 16. 14 A Bblia que Jesus lia Sargo, e ele submeteu toda a Sumria at o Golfo Prsico. Seus dois filhos o sucederam, bem como um neto seu Naramsin, que era bravo como Sargo, seu av. Dominaram toda a Alta Mesopotmia alm da Sumria. Naramsin conquistou Magan (nome do Egito) e tambm entrou em negociaes com Meluhha (Nbia) e seus domnios chegaram at o vale do rio Indo. As tradies informam que o poder do imprio derivava de Enlil, o rei dos deuses. Egito: floresce na 3 Dinastia (2600 a.C.). Foi a idade das pirmides. A Pi- rmide dos Degraus a mais antiga, construda pelo fundador da 3 Dinastia em Mnfis para ser um templo morturio. a mais antiga construo de pedra lavrada que se conhece at hoje. As pirmides de Quops, Qufrem e Miquerinos, da Quar- ta Dinastia, tambm foram construdas em Mnfis. A Grande Pirmide tem 147m de altura e uma base quadrada de 217m; em sua construo foram usados 2.300.000 blocos de pedra lavrada, com um peso mdio de 2,5 toneladas cada. Foram trans- portados atravs de fora dos braos, sem emprego de nenhuma mquina e com uma margem de erro praticamente nula.20 O fara no era apenas um rei, ou um vice-rei que governava sob eleio divina; ele era considerado deus. Era Horus visvel entre os homens, entre seu povo.21 Palestina: no quarto milnio, o urbanismo desenvolve-se grandemente e as cidades que conhecemos so predominantemente semticas e bem fortificadas, como indicam as escavaes de Jeric (reconstruda depois de um longo perodo de abandono), Megido e Ai. Os habitantes da Palestina na poca eram praticamen- te canaanitas e o hebraico era um dialeto de sua lngua. Na Mesopotmia, Ur fundada. Sumrios e semitas estavam completamen- te misturados. Este o tempo de nascimento de Israel Abrao nasce num mun- do j antigo, com cultura, comrcio, economia, lngua, escrita e religio j desenvolvidos. Enquanto o Egito passava por crises (depois de mil anos de cres- cimento), a Palestina era invadida por nmades que destruram todas as grandes cidades, com horrvel violncia. Sabe-se que Israel no era de origem indgena na Palestina, mas sim tinha vindo de alguma parte e tinha conscincia disso. Atravs de um repositrio de tradies sagradas, inteiramente sem paralelo no mundo anti- go, Israel lembrava-se da conquista que ele fizera de sua terra, da longa peregrina- o atravs do deserto para chegar a ela e das maravilhosas experincias que tivera, e antes de tudo isso, dos anos de escravido no Egito; tambm se lembrava como, em sculos mais recuados ainda, os seus antepassados tinham vindo da 20 Segundo J. A. Wilson, The burden of Egypt, p.54ss, o erro no chega a 0,09% quanto quadratura e o desvio do nvel menos de 0,004%. 21 Bright, Histria de Israel, p.39. 17. A Bblia que Jesus lia 15 Mesopotmia, peregrinando at a terra que agora eles chamavam de sua.22 Entre 2000 e 1750 a.C., o poder de Ur sobre a Mesopotmia acaba sem dei- xar sucessor. Outras cidades independentes ganhavam destaque, como Elam, Asshur (Assria) no Alto Tigre e Mari no Mdio Eufrates. Mari foi uma cidade impor- tante durante todo o 3 milnio; sua populao foi predominantemente semita do noroeste (amoritas). Os amoritas, ascendentes do povo de Israel, eram habitantes de tendas, seminmades, segundo antigas listas dos reis assrios. Aproveitando a confuso em Ur, a 1 dinastia babilnica surge em 1830 a.C., em Babilnia, cidade da qual at ento pouco se tinha ouvido.23 Assim, conclui-se que os povos que foram para a Palestina, nmades semitas do noroeste, no trouxeram mudanas significativas para a terra canaanita, pois eram da mesma origem semtica. Na luta pelo poder na Mesopotmia, o grande Hammurabi triunfa. Alm de grandes vitrias sobre Mari e Assria, Hammurabi obteve um grande florescimento cultural e legal, com o cdigo de leis que publicou no seu reinado. Era uma compi- lao de tradies orais do passado, muito semelhante ao Cdigo de Leis da Bblia (em xodo); certamente vieram da mesma fonte. Enquanto isso, o Egito desmoro- nava. Os hicsos (chefes estrangeiros) infiltraram-se ali; provavelmente eram de origem noroeste-semtica. Eles adoravam os deuses canaanitas ou amoritas e seu deus principal era Baal. Por volta de 1540 a.C., os invasores hicsos foram expulsos do Egito pelo fundador da 18 Dinastia. Babilnia no tem a mesma sorte que o Egito e cai pelas mos dos cassitas e finalmente dos hititas (1530 a.C.). D) A poca dos patriarcas Os patriarcas da histria de Israel (Abrao, Isaque e Jac), a partir de Gnesis 12, relatam que vieram da Mesopotmia e que ti- nham peregrinado pela terra que mais tarde seria deles. Nenhum povo antigo tem mais tradio do que este, em sua beleza histria, literria, teolgica, sem paralelo em nenhuma tradio histrica de povos da antiguidade. Por muito tempo a tradio histrica da poca moderna conside- rou Abrao, Isaque e Jac como figuras pertencentes a um mito. Di- zia-se que tinham sido criados pela tradio antiga de Israel para dar consistncias s suas crenas. Hoje, porm, depois de muitas desco- 22 Bright, Histria de Israel, p.52. 23 Bright, Histria de Israel, p.55. 18. 16 A Bblia que Jesus lia bertas arqueolgicas,24 percebe-se que a Bblia sempre teve razo! O contexto das narrativas patriarcais de tal forma verossmil, diante das evidncias registradas, que hoje so consideradas narrati- vas histricas. Por exemplo, no 2 milnio aparecem nomes que se enquadram perfeitamente com o nome dos patriarcas: Jac = Yaqub-el, nome de um chefe hicso num texto do 18 sculo na Alta Mesopotmia e tambm numa lista (de Tut- mosis III) do 15 sculo na Palestina. Abrao = Abamram, aparece em textos babilnicos, nos tex- tos das Execraes e em texto de Mari. Terah = Til-turakhi, em textos assrios das proximidades de Har. Benjamim = banu-yamina (povos do sul ou yaminitas), aparece como sendo uma grande confederao de tribos. Alm disso, Zebulon encontrado nos textos das Execra- es; nomes com as mesmas razes de Gad e Dan so conhe- cidos em Mari; Levi e Ismael ocorrem em Mari; Aser e Issa- car so nomes encontrados numa lista egpcia do 18 sculo. As peregrinaes dos patriarcas e seu modo de vida no devem ser confundidos com o modo de vida dos nmades que peregrinavam em camelos, os quais s aparecem na Bblia na poca de Gideo (em Juzes). Os patriarcas eram criadores de pequeno gado, seminmades, com roupas multicoloridas, levando seus pertences e filhos em lombo de burros; os contratos e tratados eram sempre firmados com a morte de um asno,25 como vemos pintados num tmulo do 10 sculo em 24 Textos como os de Mari (25.000 textos de 1800 a.C); milhares de textos capad- cios do 19 sculo; milhares de documentos da 1 dinastia babilnica (19 ao 18 sculo); textos de Nuzi do 15 sculo; placas de Alalakh, do 17 e 15 sculos; pla- cas de Ras Shamra do 14 sculo, mas com material muito mais antigo; textos das Execraes e outros documentos do Mdio Imprio Egpcio (do 20 ao 18 sculos); e muitos outros. 25 Por isso os habitantes de Siqum so chamados de filhos do asno (ben hamr), numa referncia aliana feita. Seu deus era Baal-berith Senhor da Aliana. 19. A Bblia que Jesus lia 17 Beni-Hasan, no Egito. O nome hebreu vem da designao do nome de Hber (Gn 11:14-17). O termo ibri26 achado em diversos documentos desta poca. Hebreu como nome para o povo foi usado principalmente a partir do Egito. O nome judeu (algum proveniente da nao de Jud) s foi usado aps o cativeiro Babilnico, pois apenas esta parte do antigo Israel sobreviveu. E) Informaes adicionais sobre os pressupostos culturais Os hebreus sofreram influncias de diversas civilizaes, como Mesopot- mia, Egito e os povos cananeus. Acrescenta-se a isto o fato de Israel ter-se manti- do permanentemente vinculado ao Egito a cuja esfera de influncia cultural e por vezes tambm poltica pertencia a Palestina. Por fim, as potncias do Oriente dei- xaram a tambm os seus vestgios, desde os sumrios, babilnios e assrios at os persas, seja por intermdio das migraes dos israelitas seminmades, seja atra- vs do cananeu, ou mais tarde por um contato direto.27 Diante disso, pode se concluir que a cultura oriental antiga formava um s bloco como hoje a cultura europeia. Mas, ao olhar de perto, veremos claramente as diferenas culturais, H muitas influncias diretas e indiretas umas nas outras, porm h pontos caractersticos, diferenas e contrastes em cada uma delas. O desenvolvimento cultural na Mesopotmia ajusta-se ao trmino da Era Neoltica (da Pedra); comea a Era Calcoltica (da pedra e do cobre), que vai do 4 milnio at os umbrais da histria do 3 milnio. Esse foi um perodo em que a cultura mesopotmia floresceu grandemente. A agricultura desenvolveu-se para atender a densidade populacional. A drenagem e a irrigao tiveram avanos im- portantes e medida que o comrcio e a vida econmica se desenvolviam que surgiram as mais antigas cidades-estados. No progresso cultural e artstico to bem desenvolvido entra a criao da escrita (3300 a.C.). Por este tempo os vales ribeiri- nhos da Alta Mesopotmia eram bastantes povoados. Deste tempo h numerosas estatuetas de barro encontradas em escavaes, com figuras de animais e princi- palmente de mulheres em posio de parto o que indica provvel venerao deusa me. Em outros lugares, as estatuetas de barro mostram mulheres de c- 26 Significa do outro lado, pois Abrao (descendente de Heber), o pai da raa, veio do outro lado do mundo para a sua terra. 27 Georg Fohrer, Introduo ao Antigo Testamento, p. 19. 20. 18 A Bblia que Jesus lia coras, indicando culto fertilidade.28 Por volta do 2 milnio a.C., os fencios desenvolveram uma escrita, adap- tando-a de caracteres cuneiformes (babilnicos). Era uma escrita consonantal, com caracteres prprios. Da veio o alfabeto hebraico antigo e tambm o grego por volta do sculo IX a.C. A lngua aramaica provavelmente se origina de um dialeto que evoluiu no leste da Sria ou noroeste da Mesopotmia. Isto nos mostra que os ante- passados de Israel eram do mesmo tronco tnico e lingustico que os arameus; portanto Israel podia lembrar sua origem na plancie de Aram e falar do seu pro- genitor como sendo um arameu errante (Dt 16:5). Os israelitas conheciam bem a profuso literria, tanto egpcia quanto babilnica, profuso esta que no se esten- dia em grandes tratados histricos, mas em pequenos feitos literrios em abundn- cia. A literatura pica canania forneceu bastante acervo aos hebreus. Apesar de tudo isso, prevalece ainda a f javista permeando e purificando a literatura de Isra- el. A crena de que Deus controla o destino das naes determinante para a formao de um composto literrio rico, nico e homogneo, sem as influncias perniciosas da literatura externa. F) Religiosidade em Israel e pases vizinhos Os hebreus desde o comeo tiveram uma religio revelada. No era uma religio natural ou filosfica como vemos em muitos povos da antiguidade. A histria de Israel sempre esteve intimamente ligada vontade de Deus, tudo dependendo das reaes do povo de Israel, em anun- cia ou desobedincia. At os seus reis so vistos em primeiro lugar no por suas conquistas ou poderio econmico, mas so medidos principalmente pela sua fidelidade (ou a falta dela) para com Deus. 28 Isso nos remete para o tempo em que Ado e Eva pecaram e em que foi lanado por Deus o fundamento do evangelho, o nascimento do Messias atravs da mulher. Esse Messias viria para libertar, para pisar a cabea da serpente. Atravs dos scu- los que se seguiram deu-se importncia procriao porque se pensava sobre o nascimento do Messias atravs de uma mulher. Era uma busca do filho varo, cultu- ra essa que influenciou todos os povos que conhecemos at hoje, em que se valoriza mais o varo que a varoa. Muitas vezes a mulher simples objeto, que pode ser comprado e disposto da maneira como quer. Esta presena de culto fertilidade, ou culto deusa me, retrata muito bem a presena da esperana, ainda que de maneira errada, no nascimento do Messias. Era o Messias sendo esperado por todos os po- vos da terra! 21. A Bblia que Jesus lia 19 O monotesmo o conceito central da religio bblica: Jav o nico Deus. A Lei de importncia central nesta religio, pois expli- ca e determina a vontade de Jav.29 A f javista constitui a fora determinante que, ao contrrio dos pressupostos desfavorveis, pos- sibilitou a formao de uma literatura israeltica autnoma, que se distingue fundamentalmente das demais literaturas do Antigo Oriente pelo seu pensamento religioso. Trata-se, na realidade de um processo que se prolonga ao longo dos anos, por vrios sculos e seria por demais simplificar as coisas, se quisssemos limit-lo poca que vai at os reis. Neste perodo, encontram-se apenas as razes de onde, pouco a pouco, se desenvolveu a teologia israelita, onde se torna claro que as foras propulsoras da f javista so as ideias da sobera- nia divina e da unio com Deus.30 A religio patriarcal era uma religio sacerdotal, posto que o chefe do cl, ou o pai de famlia era o seu sacerdote. Quando chega a Moiss, esse ofcio institucionalizado e uma tribo em Israel esco- lhida para fazer os servios dos sacerdotes. Esta f veio lutando con- tra a idolatria desde o seu surgimento.31 uma religio que enfatiza a responsabilidade moral pessoal; cr na recompensa, como cr no cas- tigo; a salvao pessoal uma doutrina que se desenvolveu natural- mente a partir da crena na ressurreio do corpo. Por isso tudo, dada a diferena entre a religio em Israel e nos povos vizinhos, a f judaica se tornou etnocntrica (voltada apenas para seu povo). Os fariseus ensinavam que a salvao s podia ser obtida pela f judaica, atravs da leitura e observncia cuidadosa da lei mosaica dada exclusivamente a Israel. Infelizmente, isto uma 29 A religio dos patriarcas era centrada em Jav, apesar de a Bblia s usar o nome Jav quando chega em Moiss. Antes usa apenas Elohim (Deus) e seus compostos El Shaddai, El Elyon, El Olam, El Roi, Jav Jhir, El Bethel. O Deus dos patriarcas era representado por diversos nomes: o Deus de Abrao (eloh abraham) Gn 28:13; 31:42, 53; o Temido de Isaac (pahad Yishaq) Gn 28:42,53 e o Poderoso de Jac (abir Yaqob) Gn 49:24. 30 Fohrer, Introduo ao Antigo Testamento, p.22. 31 Abrao veio de um povo politesta e, com certeza, teve influncias disso em sua vida. Tambm ele e seu povo peregrinaram por terras idlatras. 22. 20 A Bblia que Jesus lia deturpao do princpio de Deus, pois ele planejou ser glorificado com a salvao de pessoas dentre todos os povos. As religies da antiguidade assumem diversas formas, mas so em geral politestas (poli = muitos; theos = deus; muitos deuses) ou henotestas (heno = um; um deus). No henotesmo cr-se que h vrios deuses, mas o fiel adora apenas um deus. Vemos um exemplo disso no Egito: o fara Iknathon promoveu a adorao exclusiva a Aton, o deus-sol, mas os demais deuses no foram descartados. So- mente em trs religies no mundo encontramos o monotesmo (s existe um Deus): no cristianismo, no islamismo e no judasmo. Abrao no era idlatra, mas vivia rodeado de idolatria. No princpio, o homem tinha um s Deus; no Jardim viveu em comunho com ele at que o pecado veio para subverter a raa humana. Desta forma, diversas manifestaes do pecado tomaram a natureza como tendo vida em si mesma. A partir da, desenvolveram-se teorias diver- sas sobre seres deificados, homens transformados em seres divinos, numa clara demonstrao da atuao de Satans no meio da histria para confundir e prevalecer contra o povo de Deus, induzindo-os a olharem para a criatura no lugar do criador. Apesar de o pai de Abro ser idlatra (Js 24:2) e tambm os seus conterrneos, Abrao demons- tra ser monotesta, sem dvida por divina revelao. Ou seja, Deus manifestou-se a ele pessoalmente, numa revelao direta. Em meio ao pecado e s influncias culturais que nos cercam, somente a revelao direta do nosso gracioso Deus pode nos colocar no caminho certo! Para o prximo encontro Como lder, leia o captulo 1 do livro A Bblia que Jesus lia, de Philip Yancey, editora Vida. 23. A Bblia que Jesus lia 21 24. 22 A Bblia que Jesus lia VALE A PENA LER O ANTIGO TESTAMENTO? F no o apego a um santurio, mas uma peregrinao infindvel do corao. Espera audaciosa, cnticos ardentes, planos ousados, um mpeto inundando o corao, invadindo a mente tudo isso o impul- so que nos leva a amar aquele que toca o corao como um sino. Abraham Heschel Objetivos deste estudo Estimular a leitura do Antigo Testamento ao descrever seu valor para ns hoje Compreender o plano divino ao formar um povo escolhido Introduo Existem muitas barreiras para a leitura do Antigo Testamento e para sua boa compreenso nos dias de hoje. Uma das barreiras prin- cipais que os textos no parecem fazer muito sentido hoje. Quando conseguimos entender o que o texto diz, isto muitas vezes agride o nosso ouvido ps-moderno. Mas essencial que leiamos o Antigo Testamento (AT), pois ele amplia a viso que temos do Deus Criador e de seu relacionamen- to conosco. O AT muito atual, pois nos ensina sobre o nosso mundo e sobre o propsito de nossa existncia. Outro motivo para estudarmos o AT que ali percebemos o tipo 1 25. A Bblia que Jesus lia 23 de histria que o Senhor Deus est escrevendo. Ele no se impressio- na com tamanho, poder ou riquezas, mas sim com a sinceridade de corao e a devoo a ele. A lio mais importante do AT que nosso Criador deseja se relacionar intimamente conosco, suas criaturas. Ainda outra lio significativa do AT que ele narra histrias sobre pessoas complicadas e pecadoras, assim como ns. Ningum perfeito at mesmo Moiss cometeu diversos erros! O AT nos ofe- rece uma histria da qual ns podemos fazer parte, pois ele apresenta um Deus gracioso que nos aceita como somos e nos desafia trans- formao em meio caminhada diria com ele. Qual o valor do AT para ns? Contrrio viso de muitos evanglicos, o Antigo Testamento no uma parte das Escrituras superada pelo evangelho de Jesus ou com valor menor luz da graa de Deus. Uma viso assim contrria ao alto valor atribudo pelos reformadores a toda a Bblia (tanto Lute- ro quanto Calvino). Toda a Escritura nos til (veja 2Tm 3:16) e ela forma um todo que aponta para Cristo: Aponta para a predio de sua vinda desde a criao do ser humano por Deus e sua opo de desconexo e rebeldia para com este mesmo Deus Criador; Aponta para o entrelaamento de todos os eventos da histria humana por um Deus nico. Ele Senhor da histria e da sua criao, por isso tais eventos so misteriosamente usados para realizao dos seus objetivos; Aponta para sua morte sacrificial e substitutiva em favor do ser humano na cruz como Servo de Deus; Aponta para a salvao obtida por alto preo preo de san- gue ali na cruz e para a ressurreio do prprio Cristo den- tre os mortos. Esta salvao disponibilizada por meio da graa (favor imerecido) de Deus a todo aquele que cr na 26. 24 A Bblia que Jesus lia eficcia perdoadora e regeneradora de sua obra, a qual nos d nova vida e propsito. A f o meio de apropriao desse favor imerecido; Aponta para o estabelecimento de uma comunidade nica dos que creem ao longo da histria. Ela uma nao santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (1Pe 2:9-10), e res- ponsvel por: o Anunciar essa reconciliao com Deus que est dispo- nvel a todos os que creem; o Implantar e promover os valores do Reino de Deus neste mundo, espalhando redeno em Cristo a todas as esferas da vida humana e sua criao; o Adorar o Deus trino. E aponta para a derradeira restaurao da histria humana, para a qual caminhamos e pela qual ansiamos. Neste mo- mento Cristo ter a vitria final sobre o inimigo (Satans) e sobre todos os reinos humanos. Ali cessar todo sofrimento decorrente da rebelio inicial de sua criao. Seremos, en- fim, transformados e aperfeioados para desfrutarmos para sempre da comunho com Deus face a face. Ao lermos as Escrituras, no podemos negligenciar esta com- plementaridade entre o Antigo e o Novo Testamento. Caso contrrio, deixaremos de perceber a coerncia dos propsitos eternos divinos. Esta coerncia se manifesta claramente pela revelao progressiva de Deus humanidade. Por exemplo, os profetas do AT so fundamentos da f crist, particularmente Isaas. Jesus, aps sua tentao no deserto, d incio ao seu ministrio na Galilia falando nas sinagogas. Em Nazar, onde morava, leu na sinagoga o texto de Isaas 61 sobre a obra do Messias (o Servo do Senhor) aguardado at ento. O Servo apresentado co- mo a pedra fundamental da igreja tanto em Ef 2:20 como em 1Pe 2:4- 10, juntamente com o ensino dos apstolos e dos profetas. O livro de Isaas muito rico em significados teolgicos. Fala 27. A Bblia que Jesus lia 25 sobre a natureza de Deus e seu carter, e sobre seu controle sobre a histria humana e a histria de seu povo. Ensina sobre o pecado e a necessidade de julgamento, mas tambm sobre o renascimento de seu povo atravs do remanescente. Profetiza a natureza do ministrio do Messias e a consequente reconciliao do ser humano com Deus. Discorre sobre a soberania, santidade, justia e graa divinas. Explica que esta graa se manifesta na pessoa do Servo sofredor, rei, sacerdo- te e profeta, o qual est empenhado em obedecer ao Pai e ser o resga- tador de seu povo, a preo de sangue. Assim, ler o texto de Isaas nos permite conhecer mais profun- damente a necessidade do Messias e a natureza de seu ministrio. Permite-nos compreender melhor o NT e apreciar o cumprimento das muitas profecias sobre o Messias contidas em Isaas. Este mesmo princpio se aplica a praticamente todos os demais livros do AT! Estudo 1. Quais so as barreiras que voc encontra para ler o Antigo Testamento? Explore com o grupo as possveis dificuldades que j tiveram em entender os textos do Antigo Testamento. Anot-las um bom exerccio, mas no tente explic-las! Elas so basicamente devidas s grandes diferenas culturais entre nossa civilizao ocidental e as civilizaes daquela poca. O material exposto no captulo anterior a este pode ajud-lo a entender um pouco mais sobre o assunto. 2. Por que, ento, voc deveria ler o Antigo Testamento? O Antigo Testamento apresenta, a partir de Gnesis 12, a for- mao do povo de Deus e suas diversas peregrinaes num labirinto de lnguas, povos e culturas distintas. Mas o texto bblico tambm mostra que a mo divina estava presente ali, levando-os de lugar para lugar e de cultura para cultura, mas preservando o que queria e dei- xando claro o que no era para ser assimilado pelo seu povo. Paulo, em 1Co 10:11, explica que as experincias do povo de Deus no AT foram escritas para que aprendssemos com elas. 28. 26 A Bblia que Jesus lia No meio de povos politestas, Deus formou um povo centrado em um s Senhor. Apesar de muitos problemas em seu prprio meio (quedas, idolatria, tentativa de abandono de Deus e de seu governo sobre eles), este povo de Deus continuamente disciplinado e amado por Deus. O Senhor os leva a continuarem sua caminhada de f e a retornarem ao culto e adorao voluntria ao Criador do universo. No meio das diversas influncias do mundo antigo, a eterna e soberana vontade de Deus separou e preservou esta cultura israelita, dando a este povo as suas caractersticas peculiares. Por qu? Porque Deus desejava que este povo fosse luz para todas as naes, anunci- ando as virtudes do seu Criador (veja 1Pe 2:9). Observe que este tam- bm o nosso chamado como povo de Deus hoje! Temos, portanto, muito a aprender com o povo de Deus do passado. 3. Mas o que o Antigo Testamento tem a ver com Jesus? Deus preparou este povo para poder se encarnar em meio a eles por meio de seu Filho Jesus. Por meio da descendncia de Abrao todas as famlias seriam abenoadas (Gn 12:1-3). Isaas proclama que a partir de Israel o Senhor Deus oferece salvao a todas as naes do mundo (2:1-5; 60:1-3; 49:5-6). Isto acontece por meio da vida e da obra de Jesus. Jesus o suprassumo da revelao da Palavra de Deus, da sua vontade, de seu amor, da sua bondade, do seu propsito, de sua redeno, do projeto de salvao para o seu povo. Jesus tambm est no centro da mensagem do Antigo Testamento! 4. Israel tinha clara conscincia de ser um povo escolhido. Co- mo isto afeta nossa vida hoje? A conscincia de ser um povo escolhido por Deus sempre foi muito forte em Israel. Esta mesma conscincia deve servir de base para lidarmos com nossa prpria vida! este mesmo Deus que nos escolheu antes da fundao do mundo para sermos dele em amor (Ef 1:4) e nos predestinou para sermos conforme a imagem de seu Filho (Rm 8:29). Fomos gerados por meio da graa que h em Cristo para a f, perseverana e glorificao final em Cristo Jesus. Somos levados por Deus, numa demonstrao de livre propsito e soberana vontade, 29. A Bblia que Jesus lia 27 para habitar na sua presena na eternidade, para a glria dele! Observe que, assim como o povo de Israel, ns fomos escolhi- dos com um propsito: viver missionalmente. Ou seja, viver para anunciar s pessoas ao nosso redor as glrias do nosso Deus! Para refletir e praticar 1. O Antigo Testamento ocupa da sua Bblia! Deus se revela de muitas maneiras atravs destes textos. Voc tem se dedi- cado a ler e estudar os livros do AT? 2. Como voc pode implementar esta conscincia de ter sido escolhido para uma misso em sua vida? O que isto muda no seu cotidiano? Para o prximo encontro Leia, por favor, J 1-3. Como lder, leia o captulo 2 do livro A Bblia que Jesus lia, de Philip Yancey, editora Vida. Lista de oraes ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ 30. 28 A Bblia que Jesus lia ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ Lista de presena ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ 31. A Bblia que Jesus lia 29 Detalhe da Obra Abrao e os Trs Anjos de Giovanni Battista Tiepolo 32. 30 A Bblia que Jesus lia J: SOBERANIA E DOR Que vantagem tem o leo em meter medo no ratinho? Carl Jung. Objetivos deste estudo Aprender um pouco mais sobre a soberana graa de Deus Entender e rejeitar a doutrina da retribuio divina Aceitar a dura verdade de que Deus tambm glorificado atravs do sofrimento de seus servos fiis Introduo O livro de J se concentra no problema do sofrimento huma- no. Ele nos frustra ao rejeitar respostas simples e nos mostrar uma nova direo. O livro trata da disputa pela f de J. Ser que ele vai confiar em Deus ou neg-lo? J est no banco dos rus. Embora revele que J nada fez de errado e que sofre por causa de uma disputa celestial, o autor mantm o mistrio de como J reagir. A acusao feita por Satans implica que Deus no digno de ser amado em si mesmo, que as pessoas o seguem somente porque ganham algo com isso. Em seu desafio, Satans se revela como o primeiro grande behaviorista. Ele argumenta que J est condicionado a amar a Deus. Deus permite o duro teste com J. J se sente trado por Deus e deixa transparecer protestos irados contra seu Criador. Mas o segredo 2 33. A Bblia que Jesus lia 31 que J est certo! J aprovado no teste por agarrar-se crena em Deus, mesmo com evidncias em contrrio. No final do livro, o dis- curso de Deus surpreende por aquilo que ele no diz: evita completa- mente o tema do sofrimento e ainda critica J por sua viso limitada. O livro de J nos ensina que, quando a f parece impossvel, exatamente a que mais precisamos dela. Deus se importa mais com nossa f do que com nosso prazer. O fato que a fidelidade da pessoa faz toda a diferena. Somos soldados rasos numa batalha espiritual de relevncia csmica. Nunca vamos saber o significado completo das nossas aes aqui. Informaes adicionais sobre o livro Data e autoria:32 o livro no indica autor nem data de composio. Trata-se de uma obra annima; qualquer afirmao sobre autor ou data s pode ser inferida a partir de evidncias externas. Estudiosos conservadores tratam o livro como um todo literrio.33 Alguns at citam a tradio judaica mais antiga, a qual afirma que o livro foi escrito por Moiss. Tal datao antiga concorda com a viso de que um livro histrico tende a ser mais confivel se escrito prximo aos eventos que relata. Como o livro de J narra sobre um perodo antigo, fcil acreditar que tambm foi escrito naquele perodo.34 Alguns estudiosos conservadores, entretanto, tm datado o livro no perodo salomnico, no VIII sculo, ou deixado a data em aberto.35 Esta ltima opo a 32 Dillard e Longman, An Introduction to the Old Testament, p. 200. 33 Outros estudiosos menos conservadores acreditam que os dilogos (J 3-21) formam o corao do livro, ao qual foi adicionada mais tarde prosa popular como moldura (veja abaixo). Ainda outros estudiosos defendem que os discursos de Eli e Jav e o poema sabedoria (cap. 28) foram adies posteriores. Na verdade, h pouca concordncia na comunidade acadmica sobre o que constitui o texto original do livro e o que foi adicionado posteriormente a ele. 34 Muitos defendem que a linguagem do livro mais recente e que, portanto, o livro teria sido escrito muito depois do que se acredita. Porm, no h razo para duvidar que o livro possa ter sido atualizado em termos de linguagem. De qualquer forma, as evidncias so ambguas e h forte defesa da escrita em uma poca mais antiga. 35 Alguns conceitos religiosos do livro podem ter surgido apenas mais tarde na histria de Israel. Embora seja errado adotar uma viso evolucionria rgida do desenvolvimento dos conceitos religiosos no AT, por outro lado tambm verdade 34. 32 A Bblia que Jesus lia mais vivel tendo em vista a falta de evidncias. Como afirma Elmer B. Smick, No sabemos quem escreveu o livro, mas seu trabalho tem testemunhado s al- mas dos fiis atravs dos tempos de que divinamente inspirado.36 Contexto e histria: o pano de fundo histrico no prov pistas sobre a da- ta de composio, mas o enredo est definitivamente colocado no perodo dos patriarcas. J um patriarca gentio como Abrao. A grande fortuna de J medida em termos de nmero de cabeas de gado de sua posse e servos que ele emprega (J 1:3; 42:12). Ele tambm era o cabea de uma famlia grande, da qual ele servia como sacerdote, tanto quanto Abrao o fez por sua famlia. Por exemplo, J ofere- cia sacrifcios (1:5), um ato impensvel aps o estabelecimento do sacerdcio for- mal pelas instrues divinas a Moiss no monte Sinai. Alm disso, a idade de J excede em muito a dos patriarcas: ele viveu ainda mais 140 anos aps sua restau- rao (J 42:16). O mais interessante que J no um Israelita. Uz, embora no possa ser localizada de forma definitiva,37 estava fora dos limites de Israel. Em termos da linha de progresso em direo ao plano redentor de Deus para a humanidade, J mais bem compreendido como tendo vivido antes do es- tabelecimento da aliana de Deus com Abrao, a qual vai delimitar a comunidade da aliana para uma famlia especfica (Abrao e seus descendentes). Estrutura: o texto de J apresenta uma moldura de prosa (J 1-2 e J 42:7- 17) envolvendo um contedo em forma potica. A estrutura do livro propicia um esboo claro:38 J 1-2 Prlogo em prosa: introduz personagens e enredo J 3-31 Dilogos de J com seus trs amigos39 que a Bblia descortina vagarosamente a verdade na medida em que a histria da redeno progride. A angelologia presente no livro, incluindo a viso sobre Satans, surgiu provavelmente num perodo mais tardio da histria (ps-cativeiro). Feliz- mente, nada significativo est em jogo neste livro por falta de data de composio. 36 Elmer B. Smick, Job, The Zondervan NIV Bible Commentary, p. 742. 37 Uz uma regio de difcil localizao, quer seja a partir da histria sagrada ou da secular. Entretanto, referncias bblicas e da tradio oferecem indicaes para sua localizao: 1) Era uma terra de muitas pastagens (J 1:3); 2) Pores da terra eram adequadas agricultura (J 1:14); 3) Estava prxima ao deserto (J 1:19); 4) Era suficientemente vasta para ter um nmero de reis ou Sheiks (ancios) sobre muitas tribos ou povos (Jr 25:20); 5) Estava situada de forma a estar mais ou menos prxima das tribos de Tem, Su , Naamate , Buz (32:2) e Ded (Jr 25:23). 38 Dillard e Longman, An Introduction to the Old Testament, p.201. 39 David Clines sugere englobar os captulos 3 a 42 como dilogos, em F. F. Bru- 35. A Bblia que Jesus lia 33 J 3 O lamento de J J 4-27 Trs ciclos de dilogos J 28 O poema sobre sabedoria divina J 29-31 O ltimo discurso de J J 32-37 O monlogo de Eli J 38-42:6 Jav fala do meio da tempestade J 42:7-17 Eplogo em prosa: leva a narrativa ao final J os trs ciclos de dilogos entre J e seus amigos (captulos 4 a 31) po- dem ser representados da seguinte maneira: Primeiro Ciclo Segundo Ciclo Terceiro Ciclo40 Elifaz (J 4-5) J (6-7) Bildade (8) J (9-10) Zofar (11) J (12-14) Elifaz (J 15) J (16-17) Bildade (18) J (19) Zofar (20) J (21) Elifaz (J 22) J (23-24) Bildade (25) J (26:1-27:12) Zofar (27:13-23) J (28-31) Gnero literrio: que tipo de livro J? Difcil de responder, pois nada igual a ele, o livro nico. Prosa, poema sabedoria, literatura de sabedoria? A melhor definio para este gnero nico seria debate da sabedoria. Isto descre- veria tanto sua forma como o contedo. No corao do livro est a questo da fonte de sabedoria (veja abaixo); as vrias falas no livro tanto clamam para si a sabedoria quanto disputam a sabedoria dos outros. A discusso sobre ser um livro histrico ou ficcional no fcil de ser res- pondida, pois um livro pode ter um centro histrico sem uma preocupao por pre- ciso histrica. Diversos fatores indicam que J no seja pura fico, mas que este- ja sim arraigado num evento histrico. As primeiras linhas de um texto oferecem pistas importantes para identificao do gnero do mesmo. No caso de J, seus primeiros versos so similares aos de Jz e 1Sm, duas passagens que comunicam eventos histricos. Alm disso, o homem J mencionado 3 vezes fora do livro, sendo 2 ao lado de outras figuras histricas do AT: No e Daniel (Ez 14:14-20). Assim, h uma inteno histrica no livro. Devemos entender J como uma ce (ed.), New international Bible commentary. 40 Os discursos dos amigos de J ficam mais curtos no ltimo ciclo, refletindo que os trs talvez estejam sem ter o que mais falar! 36. 34 A Bblia que Jesus lia pessoa de verdade que viveu no passado e que sofreu. O uso de poesia eleva o livro desde um evento histrico especfico para uma histria com aplicao univer- sal. O livro deixa de ser uma crnica histrica, torna-se sabedoria, que deve ser aplicada a todos os que o ouvem. Mensagem do livro Alguns autores dizem que os principais personagens do livro so J, Elifaz, Bildade, Zofar e Eli. Porm, Deus o ser sempre pre- sente ao longo de toda a narrativa. Ele o personagem principal. Os acontecimentos com J foram permitidos por ele, embora fomentados pela inveja de Satans. Ningum escapa s dores da vida. Todos anseiam por compre- ender a razo dos problemas enfrentados. No livro, J questiona: por que estou sofrendo?. Embora Deus no d a resposta a esta questo, ainda assim aprendemos muito neste livro sobre o sofrimento. O livro no formula uma explicao racional para o problema do mal, especialmente em termos da relao da bondade de Deus e sua soberania com o sofrimento do inocente.41 J no busca restaura- o e cura: seu interesse mais prtico, ou seja, ser validado e reco- nhecido como homem correto e justo. Ele no pede a Deus explica- es racionais sobre as causas de seu sofrimento. Nem havia algum pecado horrvel pelo qual ele estava sendo punido. Quando Deus fi- nalmente repreende a J, o faz devido sua ignorncia (38:2) e pre- suno enquanto defendia sua causa (42:2), no por J ter uma vida dissoluta. Deus diz a J que o ser humano no conhece o suficiente a res- peito dos seus caminhos para fazer julgamentos relativos sua justi- a. J percebe ento que Deus no necessita de conselho para contro- lar o mundo e que nenhum sofrimento extremo d o direito de algum questionar a sabedoria de Deus ou sua justia. Por isso, J se arrepen- de (42:2-6). Ao se aperceber do poder e da glria de Deus, a atitude rebelde de J se dissipa e seu ressentimento desaparece. Ele obtm 41 Este conceito chamado de teodiceia na teologia. 37. A Bblia que Jesus lia 35 seu desejo: ser vindicado diante de seus amigos e declarado inocente. Com isso, a viso deles do sofrimento de J refutada. Curiosamente, ao aperceber-se da grandeza, poder e majestade de Deus, J no questiona as razes de seu teste. Nem Deus lhe diz isto voluntariamente. J teria que andar pela f mesmo aps ter sido declarado justo diante de seus amigos. O fato de Deus jamais conside- rar falso o carter de J prova que Satans havia falhado. Embora J no tenha pedido restaurao, Deus, tendo alcanado seu propsito maior, agora o restaura. Em seu sofrimento, a despeito de momentos de fraqueza, a correta atitude de J superou em muito a de seus detra- tores, os quais no haviam sofrido como ele. Aps todas as suas dvi- das e amargura sim, J as sentiu e expressou , J cresce em direo maturidade espiritual, e assim ainda pde orar por aqueles que lhe foram abusivos (42:10). Estudo 1) Os amigos de J defendem uma ideia de causa e efeito no sofrimento. Ou seja, voc pecou e por isso est sofrendo. Em qual contexto isso verdadeiro? O livro de J desautoriza a crena comum chamada de doutrina da retribuio. Sua premissa bsica apresentada no livro pelos ami- gos de J: Se voc pecar, voc vai sofrer; se est sofrendo, porque pecou. Este um argumento ainda ouvido hoje em muitas igrejas. H um pouco de verdade nessa premissa; a Bblia ensina que tanto obedincia como pecado tm suas consequncias prprias. A aliana estabelecida com Abrao e, subsequentemente, ampliada com Moiss a referncia para isto. Ela estabelece leis que, quando obe- decidas, encontram bnos mas, quando desobedecidas, resultam em maldies (Dt 28). Os livros histricos tambm deixam claro que os pecados dos reis (e do povo) levaram ao exlio todo o povo. Alm disso, Provrbios ensina, entre muitos outros textos, que aquele que segue o caminho de Deus, o caminho da sabedoria, viver em segu- rana e estar tranquilo, sem temer nenhum mal (Pv 1:33). 38. 36 A Bblia que Jesus lia Mas os trs amigos de J exageraram. Eles reverteram a relao de causa e efeito para chegarem ideia de que Se voc sofre, ento voc pecou. Assim, ao deduzir que J sofre, portanto ele pecou, eles afirmam que todo sofrimento causado pelo pecado. Embora o pecado produza sofrimento, errado deduzir que todo sofrimento causado por pecados da pessoa envolvida. 2) Leia Jo 9:1-5. Como Jesus explica a cegueira deste homem? Como isto se relaciona com o caso de J? O livro de J o corretivo das Escrituras contra o pensamento distorcido da doutrina da retribuio. O livro nos adverte a no lermos demais nas entrelinhas das situaes e vai contra a aplicao mecni- ca de uma teologia de retribuio. O livro faz isso mostrando um ho- mem que sofre por razes outras que no seu pecado. O leitor j sabe desde o prlogo que o sofrimento de J no causado por seu pecado. J sofre pelo mesmo motivo do homem que nasceu cego em Jo 9:1-5: Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele (Jo 9:3). A dura verda- de que Deus glorificado atravs do sofrimento de seus servos fiis. 3) Analise as motivaes de J para andar com Deus. Satans as questiona em J 1:9. Por qu? A dvida colocada por Satans em relao s motivaes de J em andar com Deus (1:9) , na verdade, uma afronta prpria nature- za do carter de Deus. O questionamento das motivaes de J ques- tiona indiretamente as motivaes de Deus em sua relao com seu adorador. Ele insinua que Deus abenoa as pessoas para receber em troca a adorao delas. Satans sempre busca desqualificar a Deus, atacando suas moti- vaes, santidade, amor, bondade e propsitos. Como Deus faz o que ele , atacar suas motivaes atacar sua pessoa. No h contradio alguma entre o que Deus faz e sua pessoa santa; suas aes so exten- so do que ele em seu carter. No final das contas, Deus no respondeu a todas as questes de 39. A Bblia que Jesus lia 37 J sobre seu sofrimento, mas a simples presena divina fez com que suas dvidas desaparecessem. J descobriu que Deus se importava com ele de forma ntima, e que ele governa soberanamente o mundo. Isto lhe foi suficiente. Foi como se ele tivesse ouvido de Deus: A minha graa te basta (2Co 12:7-10). E para ns hoje, basta-nos a graciosa presena de Deus? Ou precisamos de algo mais? Para refletir e praticar 1. Busque conhecer mais a Deus antes de emitir conceitos so- bre a justia divina. 2. Busque andar pela f, como J, sem se preocupar com nada, s crendo na soberania de Deus. 3. A restaurao na vida de J no foi consequncia da sua obedincia, mas sim da graciosa soberania de Deus. Para a prxima reunio Leia por favor, Dt 1-2, 7, 28-29 e 34. Como lder, leia o captulo 3 do livro A Bblia que Jesus lia, de Philip Yancey, editora Vida. Lista de oraes ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ 40. 38 A Bblia que Jesus lia ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ Lista de presena ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ 41. A Bblia que Jesus lia 39 O Shem, credo principal de Israel (Dt 6:4-9) Shem Yisrael (Ouve, Israel) YHWH Elohnu, YHWH echd. (Jav [] nosso-Deus, Jav [] nico!) Veahavt et YHWH Elohka (E-amars Jav teu-Deus) bekol levavek (de-todo teu-corao) uvekol nafshek (e-de-toda tua-alma) uvekol meodka (e-de-toda tua-fora.) Vehayu ha-devarim hale (E-estejam as-palavras estas) asher anoki metsavek hayom (que eu te-ordeno hoje) al levavka (sobre teu-corao.) Veshinantam levanka (E-tu-as-inculcars a-teus-filhos) vedirbat bam (e-falars sobre-elas) beshivtek bevetka (ao-sentares em-tua-casa) uvlechtek vadrek (ao-andares no-caminho) uv-shokbek uvcumka. (e-ao-deitares e-ao-levantares.) Uqshartam leot al yadka (E-tu-as-atars como-sinal sobre tua-mo) vehayu letotafot ben enka (e-sero como-smbolos entre teus-olhos) Uktavtam al mezuzt (E-tu-as-escrevers sobre os-umbrais) betka uvisharka. (da-tua-casa e-em-teus-portes.) 42. 40 A Bblia que Jesus lia DEUTERONMIO: UM SABOR AGRIDOCE H duas tragdias na vida. Uma no realizar o desejo do corao. A outra realiz-lo. George Bernard Shaw Objetivos deste encontro Compreender que Deus deu as leis para seu povo para o pr- prio bem deles (e nosso). Perceber a importncia do contato contnuo com a Palavra de Deus para no esquecermos do que o Senhor nos ordenou. Introduo Deuteronmio42 o quinto livro bblico; pertence ao conjunto denominado Pentateuco. Moiss escreveu o livro, e este uma cole- o de seus sermes a Israel pouco antes de atravessarem o Jordo (veja 1:1).43 Estes sermes foram dados durante o perodo de 40 di- as44 antes de Israel entrar na Terra Prometida. Aps os anos no deserto, uma nova gerao de israelitas estava 42 O nome Deuteronmio deriva do ttulo grego na Septuaginta (LXX), que signifi- ca segunda lei, repetio da lei. Origina-se do termo usado em Dt 17:18, traduzi- da por cpia da lei. O nome do livro em hebraico Devarm (Palavras), tirado da frase inicial do texto. 43 Obviamente, atribui-se a Josu a redao de Dt 34, que fala da morte de Moiss. 44 O primeiro sermo foi proferido no 1 dia do 11 ms (1:3), e os israelitas atra- vessaram o Jordo 70 dias depois, no 10 dia do 1 ms (Js 4:19). Subtraia 30 dias de luto pela morte de Moiss (Dt 34:8) e sobram 40 dias. O ano era 1410 a.C. 3 43. A Bblia que Jesus lia 41 prestes a entrar na Terra Prometida. Esta multido no havia experi- mentado do milagre no Mar Vermelho ou escutado a Lei sendo dada no Sinai, e eles estavam prestes a entrar numa nova terra com muitos perigos e tentaes. O livro de Deuteronmio foi dado para lembrar o povo sobre as leis de Deus e do seu poder. As lembranas que Deute- ronmio traria aos israelitas seriam basicamente quatro: a fidelidade de Deus, a santidade de Deus, as bnos de Deus e as advertncias de Deus. Alm do Shem (em Dt 6:4-9), outro texto significativo de Deu- teronmio est em 32:46-47. Em resumo, os 3 primeiros captulos recapitulam a viagem do Egito para a sua localizao atual, Moabe. O captulo 4 um chama- do obedincia, a ser fiel ao Deus que foi fiel a eles. Do captulo 5 ao 26 apresenta-se uma repetio da lei: os dez mandamentos, assim como leis sobre sacrifcios e dias especiais e o resto da lei. Bnos so prometidas aos que obedecem (5:29; 6:17-19, 11:13-15) e fome prometida queles que infringem a lei (11:16-17). O tema de bno e maldio continua nos captulos 27-30. Es- ta parte do livro termina com uma escolha bem definida que apre- sentada a Israel (veja 30:19). O desejo de Deus para seu povo encon- tra-se no que ele recomenda: escolhe, pois, a vida. Nos captulos finais, Moiss exorta o povo, comissiona aquele que ir substitu-lo (Josu), registra uma cano e d a bno final a cada uma das tribos de Israel. No captulo 34 relatada a morte de Moiss. Ele subiu ao monte Nebo, onde o Senhor lhe mostrou a Terra Prometida, na qual ele no poderia entrar. Aos 120 anos, mas ainda com boa viso e fora da juventude, Moiss morreu na presena do Senhor. O livro de Deuteronmio termina com um curto obiturio sobre este grande profeta. Muitos temas do Novo Testamento esto presentes no livro de Deuteronmio. O principal deles a necessidade de manter perfeita- mente a lei mosaica e a impossibilidade de faz-lo. Os sacrifcios in- findveis e necessrios para a expiao dos pecados do povo encon- trariam seu cumprimento final de uma vez por todas no sacrifcio 44. 42 A Bblia que Jesus lia de Cristo (Hb 10:10). Por causa de sua obra expiatria na cruz, no mais precisaramos oferecer sacrifcios pelo pecado. A escolha de Deus dos israelitas como seu povo especial pre- nuncia sua escolha daqueles que viriam a crer em Cristo (1Pe 2:9). Em Dt 18:15-19, Moiss profetiza sobre outro profeta o maior pro- feta de todos, o Messias. Assim como Moiss, ele iria receber e pre- gar revelao divina e conduzir o seu povo (Jo 6:14; 7:40). Estudo 1) Durante o seu teste no deserto em Mt 4, Jesus citou Deutero- nmio trs vezes. Quais so essas citaes e o que Jesus quis dizer ao cit-las? As citaes so: Dt 8:3 (Mt 4:4), 6:16 (Mt 4:7) e 6:13; 10:10 (Mt 4:10). Ao faz-lo, Jesus ilustrou a necessidade de esconder a Pa- lavra de Deus em nossos coraes para que no pequemos contra ele (Sl 119:11). 2) Deuteronmio ressalta a importncia da Palavra de Deus. Obedincia e pecado tm suas prprias consequncias. Nin- gum est acima da lei. Moiss, profeta escolhido por Deus, tinha tambm a obrigao de obedecer. Qual foi a razo para Moiss no entrar na Terra Prometida? A razo pela qual ele no entrou na Terra Prometida foi sua de- sobedincia ordem clara do Senhor em Nm 20:8 (leia o trecho de Nm 20:2-13). 3) Como os sermes em Deuteronmio transmitiram as leis mo- saicas nova gerao? Por que era necessria esta reviso? Em Dt, Moiss passou ao povo a mensagem bsica: Lembrem- se!. Aparentemente, nada incomoda mais a Deus do que o simples fato de ser esquecido. No deserto, obrigados a depender de Deus dia- riamente, os hebreus no podiam se dar ao luxo de esquecer. Logo, porm, iam se esquecer de Deus aps entrarem na Terra Prometida. O sucesso o maior perigo que ronda o servo de Deus. Cada runa sig- 45. A Bblia que Jesus lia 43 nificativa ocorre ao tomarmos o poder em nossas mos em vez de confiarmos em Deus. Os sermes de Deuteronmio vm nos recordar que a vida com Deus nunca to fcil e to estruturada como gostaramos que fosse. preciso progredir enfrentando novos inimigos a cada curva. Contu- do, temos um Deus que intencionalmente se esquece de nossos peca- dos e se lembra de nossa fragilidade. Temos um Deus de graa, que ama incondicionalmente. Assim como Israel se lembrou da fidelidade de Deus, tambm devemos fazer o mesmo. A travessia do Mar Vermelho, a presena sagrada no Sinai e a bno do man no deserto devem ser um incen- tivo para ns tambm. Uma tima maneira de continuar seguindo adiante tirar um tempo para olhar para trs e ver o que Deus fez. Temos tambm uma bela imagem em Deuteronmio de um Deus amoroso que deseja um relacionamento com seus filhos. O Se- nhor aponta o amor como o motivo pelo qual ele tirou Israel do Egito com mo poderosa e os remiu (Dt 7:6-11). 4) Leia Mt 17:1-8. luz de Dt 34, qual a importncia deste mo- mento para Moiss? A cena da transfigurao de Jesus contm um fato que passa despercebido de muitos cristos. Moiss no pde entrar na Terra Prometida.45 Mas, naquele momento, Moiss finalmente concretizou o sonho de sua vida: ficou de p no topo de uma montanha bem no meio da Terra Prometida!46 45 De acordo com alguns estudiosos, Moiss no entrou na Terra Prometida porque ele representa a Lei, que nos conduz at a porta, mas no nos faz entrar no descanso de Deus. Neste sentido, Josu representa a graa divina, pois seu nome (o mesmo de Jesus) significa salvador. S a graa nos conduz at a Terra Prometida onde alcanamos descanso na presena de Deus. 46 Philip Yancey, A Bblia que Jesus lia, p.102. 46. 44 A Bblia que Jesus lia Para refletir e praticar 1. A vida de Moiss narrada em Deuteronmio repete constan- temente foi Deus que fez. Tudo na nossa vida foi Deus que fez. Como tem sido sua atitude diante das dificuldades j que Deus quem fez e far? 2. Leia Dt 28:1-14.47 Diante de tantas bnos prometidas, co- mo voc escolhe se posicionar diante de Deus? 3. Aprenda esta msica:48 Se tu guardares o que Deus te ordenou, se o amares de todo teu corao, se andares nos seus caminhos, se inclinares os teus ouvidos para obedecer, todas as bnos te alcanaro: longevidade e multiplicao sobre ti e tua descendncia. Escolhe a vida e possuirs a terra das promessas. Deus te prope hoje: a vida e o bem, a morte e o mal. V se escolhe hoje o melhor que Deus tem para que vivas e possuas a terra que te prometeu o Senhor. Ame o Senhor, apegue-se a ele (4x). Ame o Senhor, ame o Senhor, Ame, ame, ame, ame, ame o Senhor. Disto depende a tua vida, disto depende a tua famlia, disto depende a tua vida, disto depende a tua vida... Deus te prope hoje: a vida e o bem, a morte e o mal. V se escolhe hoje o melhor que Deus tem para que vivas e possuas a terra que te prometeu o Senhor. 47 Dt 28:1-2.... = Jo 10:3 e 16 com aluso a Rm 10:17-18. 48 Ana Paula Valado, Deuteronmio 11, CD Diante do Trono 11. 47. A Bblia que Jesus lia 45 Para a prxima reunio Leia, por favor, os Salmos 1 e 51. Como lder, leia o captulo 4 do livro A Bblia que Jesus lia, de Philip Yancey, editora Vida. Lista de oraes ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ Lista de presena ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ ________________________________________________________ 48. 46 A Bblia que Jesus lia 49. A Bblia que Jesus lia 47 SALMOS: ESPIRITUALIDADE EM CADA NOTA Naquela madrugada, por uma porta entreaberta, vi o pastor Bonheffer ajoelhado diante de Deus. A maneira submissa e confiante da orao des- se homem extraordinariamente simptico abalou-me profundamente. An- tes da execuo, ele fez ainda uma breve orao. Depois subiu para a forca com coragem e serenidade. A morte ocorreu em poucos segundos. Nos quase 50 anos de exerccio da medicina, jamais vi um homem morrer em tal submisso a Deus. 49 H. Fischer-Hllstrung Objetivos desse encontro Entender os salmos como poesia que permite s pessoas abrir seus coraes diante de Deus. Reconhecer os lamentos como maravilhosas oraes para apresentar a Deus dvidas, aflies e crises. Introduo Pelo fato de conter apenas oraes, h um livro que se dis- tingue de todos os demais nas Escrituras. o livro de Salmos.50 O livro de Salmos um dos mais importantes da Bblia, um dos mais 49 Dietrich Bonheffer, Orando com os Salmos, p. 10 e 13. 50 Parece admirvel encontrarmos um livro de oraes na Bblia, sendo esta a Pala- vra de Deus dirigida a ns. Oraes so palavras humanas. Como elas podem cons- tar da Bblia? Mas os Salmos tambm so Palavra de Deus. So oraes dirigidas a Deus que so inspiradas pelo prprio Esprito Santo. A verdadeira orao flui por meio do Esprito que vive em ns, dirigidas a Deus Pai, por meio de Jesus. 4 50. 48 A Bblia que Jesus lia lidos em nossas Igrejas. Os Salmos sempre foram usados pelas pesso- as para exprimir sua adorao ao Criador ou quando atravessavam vales escuros, enfrentando terrveis crises de dvidas ou perseguies atrozes movidas por inimigos sedentos de sangue. Joo Calvino51 costumava pregar 2 ou 3 vezes aos domingos em Genebra (Sua), e um dos sermes era no livro de Salmos52 . tambm o livro do AT citado com mais frequncia no NT!53 Os Salmos so como uma amostra de dirios espirituais, como cartas pessoais dirigidas a Deus. Eles do exemplos de pessoas co- muns, lutando freneticamente para harmonizar sua f com sua experi- ncia cotidiana. So to difceis, desordenados e bagunados quanto a prpria vida. Mas juntos, os salmos oferecem uma mistura revigoran- te de realismo e esperana. Os salmos no tentam abrandar a raiva por meio da racionalizao, nem do conselhos abstratos sobre a dor; em vez disso, manifestam as emoes de forma clara e audvel, direcio- nando seus sentidos principalmente a Deus. Eles nos ensinam que temos o direito de levar a Deus qualquer tipo de sentimento. No pre- ciso disfarar. No h reas proibidas: inclua Deus em todas as reas da sua vida! Eles tambm nos ensinam a adorar e louvar. Louvor o bem-estar interno fazendo-se audvel com espontaneidade afetuosa. 70% dos salmos so lamentos, mas estes tm pouco em comum com lamria e reclamaes. Os salmistas lamentavam que a vontade de Deus no estivesse sendo cumprida na terra como no cu. Davi e os outros poetas fizeram de Deus o centro gravitacional da vida deles. Para eles, a adorao era a atividade central da vida. Esses poetas estavam matriculados na escola avanada da f. Informaes adicionais sobre o livro O livro de Salmos conhecido um conjunto de livros de poesia hebraica pa- ra serem cantadas. A poesia hebraica apresenta muitas caractersticas interessan- 51 Reformador, telogo e pastor. Seu sistema teolgico estruturou as ideias do mo- vimento Reformado, o qual deu origem mais tarde Igreja Presbiteriana. 52 Van Halsema, Joo Calvino era assim. 53 Matthew Henry, Concise commentary on the Bible. 51. A Bblia que Jesus lia 49 tes, tais como: a. Linguagem figurada: para expressar o que se quer encontramos nos Sal- mos muitas personificaes, metforas, smiles, metonmia, etc. A linguagem figu- rada busca encontrar paralelos no mundo conhecido para embelezar ou expressar conceitos de difcil expresso. b. Paralelismo: em geral uma repetio de ideias54 que expande o conceito inicialmente formulado usando outras palavras (Sl 49:1; Sl 104 = paralelismo sino- nmico). Algumas vezes traz uma complementao (Sl 55:6 = paralelismo sinttico) ou um contraste (Sl 1:6 = paralelismo antittico). Pode ainda gerar um clmax (Sl 55:12-13 = paralelismo climtico) ou misturar com diferentes tipos de paralelismo (Sl 45:1 = binsfico). c. Ritmo: no um ritmo tal como os gregos usam, contando slabas e me- dindo as palavras, mas sim na entonao a acentuao das palavras dita o ritmo ao se ler. Todavia, os hebreus no possuam regras rgidas a este respeito. d. Msica: muitos Salmos foram musicados, mas isso no significa que to- dos o eram.55 Muitos salmos eram usados no culto do templo de Israel. e. Recursos estilsticos: dentre vrios, convm destacar a inverso, um des- vio da sequncia verbal para enfatizar algo colocado no texto, e a repetio de palavras para salientar certos conceitos. Autoria e data: A base do saltrio uma coleo de hinos do rei Davi. Aps a constituio desta primeira coleo, outras colees como a dos salmos levticos, a de Cor (Sl 42 a 49) e a de Asafe (Sl 50; 73 a 83). Algumas se originaram nas principais escolas de cantores (veja 1Cr 6:31 e 39); outras receberam seus ttulos como indicao do estilo ou do lugar de origem. A estes grupos foram acrescenta- dos uns poucos salmos annimos (Sl 33; 84 a 89) e tambm o Sl 1, introdutrio. Nota-se nos salmos uma reverncia profunda pela Tor (Pentateuco), como se expressa no Sl 119. Devemos estender essa devoo a toda a Palavra de Deus. No possvel explicar como esses grupos de salmos foram selecionados, 54 A poesia em portugus se caracteriza pela harmonia de sons ao final das frases poticas. A poesia hebraica se caracteriza pela harmonia e/ou contraste de ideias. Muitas vezes a mesma ideia expressa em 2 frases com palavras diferentes (por exemplo, Sl 2:3). 55 Havia cnticos em outras partes, que no eram necessariamente msicas religio- sas (Nm 21:17-18 se refere ao um cntico do poo que parece ter sido uma es- pcie de coro empregado pelos cavadores de poos para se encorajarem enquanto ocupados em um trabalho rduo como esse). 52. 50 A Bblia que Jesus lia coordenados e finalmente combinados numa grande coleo. A poucos deles pode- se atribuir uma data definida; uns so de Davi, outros so distintamente ps- exlicos. Outros salmos aparecem dispersos pelo AT (por exemplo, Ex 15:1-21; Dt 32; Jn 2; Hc 3 e at Nm 23-24).56 Propsito e destinatrios: Philip Yancey diz que durante muitos anos no teve prazer em ler os Salmos, pois no entendia bem o propsito do livro ou porque eram tantos. Finalmente concluiu que lhe faltava um prisma pelo qual ver o livro. Entendeu que devia l-los como que por cima dos ombros de algum, pois o pbli- co-alvo no era outro seno o prprio Deus. Mesmo os Salmos para uso em pblico foram preparados como oraes coletivas; nesse caso tambm Deus era o principal destinatrio.57 Gneros literrios: determinadas caractersticas distintivas permitem classi- ficar os salmos em grupos para fins de estudo. Gneros usuais:58 1. Hinos de louvor: facilmente reconhecveis pelo exuberante louvor ao Se- nhor. Deus louvado pelo que ele e pelo seu poder e misericrdia. Por exemplo, Sl 8; 24; 29; 33; 47 e 48. 2. Lamentos: expressam uma emoo oposta quela do louvor. No lamento, o salmista abre o seu corao sincera e honestamente diante de Deus; um corao muitas vezes cheio de tristeza, medo ou mesmo ira. Salvo poucas excees, os lamentos voltam-se ao Senhor com confiana no final. Por exemplo, Sl 13; 25; 39; 51; 86; 102; 120. 3. Ao de graas: aps a resposta de Deus a uma orao de lamento. Os trs primeiros tipos de Salmos formam uma espcie de trade. O salmista entoa hinos quando ele est em paz com Deus, profere lamentos quando est em desar- monia com ele e d graas quando o bom relacionamento restabelecido. Por ex., Sl 18; 66; 107; 118; 138. 4. Cnticos de confiana: tem na confiana seu sentimento principal. Fre- quentemente curtos e com alguma metfora marcante que capta a atitude de confi- ana do salmista. Por exemplo: Sl 23; 121; 131. 5. Salmos reais: uma vez que Deus, o Rei do universo, o tema dos salmos e uma vez que Davi, o rei humano, tanto o salmista como o tema de muitos sal- mos, o tema do rei um conceito importante no saltrio. Existem alguns salmos 56 F. Davidson, O novo comentrio da Bblia, vol. 2, p. 497-498. 57 Yancey, A Bblia que Jesus lia, p. 103. 58 Bblia de estudo de Genebra, p. 614. 53. A Bblia que Jesus lia 51 profticos que apontam para o Messias de Israel, que haveria de vir, Jesus, profeta, sacerdote e rei. Alguns poucos salmos se destacam pela intensidade com que focalizam a realeza de Deus (Sl 24; 93) bem como o rei humano (Sl 20; 21 e 45). 6. Salmos sapienciais: trabalham temas encontrados nos livros de sabedoria (como o contraste entre o justo e o mpio), tais como orientaes prticas sobre como Deus quer que vivamos. Exemplos: Sl 1, 37 e 49. Esboo do livro: divide-se em cinco volumes - Sl 1 a 41, Sl 42 a 72, Sl 73 a 89, Sl 90 a 106, e Sl 107 a 150.59 Estudo 1) Leia o Salmo 1. Ele uma introduo ao livro, contrastando a maneira de viver dos justos com a das pessoas que andam se- gundo a cultura do mundo. Como voc tem procurado viver? Resposta pessoal. 2) Releia o verso 1. Como se desenvolve o compromisso de uma pessoa com o mal? Como podemos evitar esta armadilha? Note que o verso 1 retrata trs aes a se evitar caso desejemos alcanar a felicidade. Elas apontam para um grau crescente de envol- vimento com o mal: andar no conselho de quem no teme ao Senhor; deter-se em agir conforme os que fazem coisas erradas; e finalmente tornar-se parte do grupo das pessoas que tm prazer no mal. Estes ridicularizam o que certo, zombam dos que temem a Deus, menos- prezam a Palavra de Deus e seus preceitos. Contudo, pela ao do Esprito Santo em ns, em geral ns te- mos claro em nossas mentes o que so bons e maus conselhos. Por exemplo: j que muitas pessoas roubam, e at alguns governantes, por que no dar alguns golpes de vez em quando? Esse um exemplo de 59 O nome do livro em hebraico tehilim, que significa cnticos de louvor. Os ttulos classificam os salmos em