Cogumelos iluminam a floresta

114
ISSN 1519-8774 9 771519 877001 00168 PESQUISA FAPESP Fevereiro 2010 168 R$ 9,50 Fevereiro 2010 168 Cogumelos iluminam a floresta UNIVERSIDADES UNIDAS PELA BIOENERGIA ENTREVISTA ELISALDO CARLINI MACONHA COMO REMÉDIO >> ESPECIAL CRODOWALDO PAVAN INOVAÇÃO NA INDÚSTRIA DA CERÂMICA CAÇA À ENERGIA ESCURA

description

Pesquisa FAPESP - Ed. 168

Transcript of Cogumelos iluminam a floresta

Page 1: Cogumelos iluminam a floresta

ISSN 1519-8774

9 771519 87700 1 0 0 1 6 8

PE

SQ

UIS

A F

AP

ES

P

Fevereiro 2010 ■ Nº 168 ■ R$ 9,50

Feve

reir

o 2

010

N

º 16

8

Cogumelos iluminam a floresta

UNIVERSIDADES UNIDAS PELA BIOENERGIA

ENTREVISTAELISALDO CARLINIMACONHA COMO REMÉDIO

>> ESPECIAL CRODOWALDO PAVAN

INOVAÇÃO NA INDÚSTRIA DA CERÂMICA

CAÇA À ENERGIA ESCURA

001_capa pesquisa banca-168Novo.indd 1001_capa pesquisa banca-168Novo.indd 1 29.01.10 22:21:4629.01.10 22:21:46

Page 2: Cogumelos iluminam a floresta

168 FEVEREIRO 2010 WWW.REVISTAPESQUISA.FAPESP.BR

> CAPA

14 Mecanismo que faz cogumelosbrilharem leva a método para detectar contaminação

> ENTREVISTA

8 Especialista em psicofarmacologia, Elisaldo Carlini diz que é hora de reconhecer as qualidades médicas da maconha no Brasil

> ESPECIAL

63 CRODOWALDO PAVAN A contribuição à

biologia, à política científica e tecnológica e à difusão da ciência

> POLÍTICA CIENTÍFICA

E TECNOLÓGICA

26 COOPERAÇÃO

Com investimentos do governo paulista, das universidades estaduais e da FAPESP, será criado o Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia

30 BIOENERGIA

Laboratório em Campinas vai investir em gargalos da pesquisa do álcool de celulose

32 ENSAIOS CLÍNICOS

Rede de pesquisa em hospitais de ensinoé ampliada

34 HOMENAGEM

Oscar Sala aliou excelência científicaà liderança institucional

> CIÊNCIA

42 BIOLOGIA CELULAR

A manipulação da autodigestão celular inspira novas estratégias para combater doenças

48 MEDICINA

Efeitos nocivos limitam potenciais usos terapêuticos da curcumina

52 COSMOLOGIA

Astrônomos e físicos do mundo todo tentam desvendar do que são feitos 96% do Universo

58 QUÍMICA

Fluorescência de raios X dá acesso à intimidade de pinturas do século XIX

> TECNOLOGIA

84 ENGENHARIA DE

MATERIAIS

Inovações nos processos e esmaltes especiais colocam indústria paulista de revestimentos cerâmicos em novo patamar de qualidade

88 Parceria entre indústrias de Pedreira e centro de pesquisa resulta em ganhos na produção de produtos de decoração

> SEÇÕES 3 IMAGEM DO MÊS 4 CARTAS 5 CARTA DA EDITORA 6 MEMÓRIA 20 ESTRATÉGIAS 38 LABORATÓRIO

62 SCIELO NOTÍCIAS 80 LINHA DE PRODUÇÃO 108 RESENHA 109 LIVROS 110 FICÇÃO 112 CLASSIFICADOS

CA

PA

MA

YU

MI O

KU

YA

MA

| F

OT

O C

AS

SIU

S S

TE

VA

NI/

US

P

92 ENGENHARIA NAVAL

Laboratório da Poli-USP amplia o estudo de projetos de navios, plataformas e da exploração de petróleo no mar

> HUMANIDADES

94 LITERATURA

Projeto recupera trajeto da criação de Mário de Andrade

100 MÚSICA

Villa-Lobos deixa de ser ícone nacionalista para ressurgir como grande compositor moderno

104 HISTÓRIA

Os anos no Brasil marcaram a vida e a obra do historiador francês Fernand Braudel

AC

ER

VO

HA

NS

BU

RL

A/C

OM

ISS

ÃO

ME

RIA

IB-U

SP

CA

SS

IUS

ST

EV

AN

I/U

SP

RE

PR

OD

ÃO

/GIL

DA

DE

MO

RA

ES

RO

CH

A

002_indice_168.indd 2002_indice_168.indd 2 29.01.10 23:21:1629.01.10 23:21:16

Page 3: Cogumelos iluminam a floresta

IMAGEM DO MÊS*

Numa descoberta pioneira, paleontólogos do Reino Unido, da Irlanda e da China conseguiram vislumbrar a cor de um pequeno dinossauro bípede e carnívoro, de pouco mais de um metro de comprimento. Segundo pesquisa publicada na revista Nature, o Sinosauropteryx, encontrado na região de Jehol, no nordeste da China, era laranja e branco e tinha a cauda listrada. Estruturas vinculadas à pigmentação de pele e penas, conhecidas como melanossomos, foram identificadas em cerdas da cauda de um fóssil de mais de 100 milhões de anos. Melanossomos são organelas que contêm cor e são encontradas na estrutura das penas e pelos de pássaros e mamíferos. Como integram uma estrutura rígida de proteína, podem resistir por centenas de milhões de anos. A pesquisa, liderada por Mike Benton, da Universidade de Bristol, também encontrou melanossomos em partes do corpo de um fóssil do pássaro primitivo Confuciusornis. Foram encontrados padrões nas cores branca, preta e marrom-alaranjada.

JIM

RO

BIN

S/U

NIV

ER

SID

AD

E D

E B

RIS

TO

L

Dino em cores

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 3

003_imagemdomes_168.indd 3003_imagemdomes_168.indd 3 01.02.10 17:16:4901.02.10 17:16:49

Page 4: Cogumelos iluminam a floresta

4 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

Copenhague

Parabéns pela reportagem “Sob o signo de Copenhague” (edição 166), de Fa-brício Marques. O artigo relaciona os efeitos da falta de freios ao problema das emissões de CO2 no planeta, que deveriam ter sido a tônica da confe-rência. Além de quantifi car os efeitos, o artigo projeta as consequências sociais sobre as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, concluindo, muito sabiamente, pelo aumento do problema social nestas regiões brasileiras devido à falta de decisões das nações ricas e seu desinteresse pelo futuro das regiões mais pobres.

Francisco J.B. SáSalvador, BA

Pesquisa clínica

Sobre a reportagem “Ensaio de orques-tra” (edição 166) gostaria de fazer al-guns comentários: 1) a pesquisa clínica para a avaliação de segurança, efi cácia e efetividade de medicamentos talvez seja o único campo de pesquisa em saúde no Brasil cujas decisões funda-mentais não são tomadas no país. São os escritórios centrais de grandes em-presas multinacionais que tomam essas decisões, segundo as suas prioridades. Temos, portanto, a necessidade de aten-der as prioridades brasileiras. Infeliz-mente, a reportagem não foi capaz de perceber esse aspecto; 2) para tentar modifi car esse quadro, desde 2005 o Ministério da Saúde (MS), em coope-ração com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), vem construindo a Rede Nacional de Pesquisa Clínica em Hospitais de Ensino, que hoje reú-ne 32 centros nos quais já foram in-vestidos R$ 52 milhões. A reportagem ignorou a iniciativa; 3) a existência da Rede tem também cumprido o papel de melhorar o padrão de relacionamento entre os contratantes de ensaios e os contratados. É preciso institucionali-zar essa relação, pois até alguns anos atrás pesquisadores utilizavam meios públicos para realizar pesquisas con-

[email protected]

tratadas direta e privadamente com eles mesmos; 4) o Brasil possui um sistema de revisão ética de pesquisa de seres humanos de excelente qualidade. Em relação a outros sistemas nacionais de revisão ética, o sistema CEP’s – Conep não se subordina ao governo, mas ao Conselho Nacional de Saúde; 5) o siste-ma entende – e o MS também – que sua principal tarefa é garantir a integridade física e psíquica dos sujeitos da pes-quisa. A competitividade do Brasil no mercado mundial de pesquisa clí nica é importante, mas deve subordinar-se àquela tarefa; 6) a Rede Brasileira de Pesquisa sobre o Câncer é também uma iniciativa conjunta do MCT, através do CNPq, e do MS.

Reinaldo GuimarãesSecretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos/Ministério da Saúde Brasília, DF

Nota da Redação: Leia reportagem na página 32 desta edição.

Lévi-Strauss

Pesquisa FAPESP sempre me faz evo-luir na condição humana, de educa-dora, com temáticas atuais, bebendo diretamente da mais “saudável” fon-te que ilumina o universo, a ciência. Atrevo-me a dizer que a reportagem que traz Lévi-Strauss (“A tristeza dos trópicos”, edição 166) deixou um gosto de quero mais, e desde já peço desculpa pela ousadia, visto que pouco sei sobre diferença, diversidade, estruturalismo, alteridade, antropologia, mas, assim sendo, ela poderia ser mais extensa e mais “povoada” de olhares.

Andréia Viviane CorreaIgrejinha, RS

Vestibular da Unicamp

Sou um estudante em época de vestibu-lar e já realizei o exame da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no qual, na prova de química, foram uti -

Cartas para esta revista devem ser enviadas para o e-mail [email protected], pelo fax (11) 3838-4181 ou para a rua Pio XI, 1.500, São Paulo, SP, CEP 05468-901. As cartas poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

lizados artigos de Pesquisa FAPESP. Em primeiro lugar, queria parabeni zá-los pelas publicações, que aparentam ter um altíssimo grau de qualidade.

Lucas Sales FidelisSanto André, SP

Nota da Redação: Mais informações na página 24 desta edição.

Vídeos no site

Muito bom o vídeo das saúvas na nova área do site de Pesquisa FAPESP (www.revistapesquisa.fapesp.br). Agradeço o compartilhamento das informações. Que a autora do vídeo, Joana Fava Al-ves, possa realizar muitos mais.

I.R. HesseGuarulhos, SP

Correções

A Universidade Hasselt fi ca na Bélgica e não na Holanda como consta na nota “Embalagens animadas”, da seção Linha de Produção (edição 167).

A palavra lazer foi grafada erroneamen-te como laser na nota “Quem faz menos exercícios físicos” (edição 167).

Os povos maias não foram extintos, como se afi rmou erroneamente na nota “O dia a dia dos maias”, publica-da na página 40 da edição 166. Seus descendentes somam quase 6 milhões de pessoas que vivem no México e em países da América Central.

O título “Leitor, amigo meu, meu igual, meu irmão”, que consta da edição 162, se refere ao verso “Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère”, do poema Au lecteur, de Charles Baudelaire.

004_cartas_168.indd 4004_cartas_168.indd 4 01.02.10 17:18:5501.02.10 17:18:55

Page 5: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 5

Matérias luminosas e escuras

C ogumelos povoam há muito tempo o imagi-nário infantil. Mais coloridos ou menos colo-ridos, eles podem, como nos contos de fada,

ser muito grandes e servir de abrigo para fadas e gnomos, recordaram-me crianças antenadas. E quando luminosos, lembraram-me elas, podem funcionar como belas luminárias em labirínticos formigueiros, a exemplo do que se vê no fi lme de animação Vida de inseto. É certo que cogumelos também alimentaram sonhos juvenis, delírios li-sérgicos rasgados de luz, em décadas inclinadas a experiências perceptivas radicais. Mas é mesmo à fantasia de Vida de inseto que a reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP remete logo nas primeiras linhas do texto para contar com graça os bons resultados da pesquisa com cogumelos bioluminescentes que vem sendo empreendida há quase uma década por um grupo da USP. Tal empenho os levou à descoberta, entre 2002 e 2007, de 12 das 71 espécies de cogumelos luminescentes já identifi cadas em todo o mundo até hoje, o que não é desprezível. Para além do simples encontro dos cogumelos, Cassius Stevani e sua turma estão empenhados em entender os mecanismos quími-cos que geram a luz desses fungos e, nessa busca, já depararam com um potencial uso prático que eles podem ter na detecção da contaminação do solo por metais. Tudo isso é relatado em detalhes pela editora assistente de ciência, Maria Guimarães, a partir da página 14.

No processo livre de associação a que tanto nos acostumou a poderosa infl uência de Freud sobre a cultura no século XX, os cogumelos alucinógenos acima mencionados levam naturalmente ao texto que nesta edição trata da maconha – ou melhor, das razões farmacológicas, alegadas por diferentes grupos de cientistas, para que a maconha seja aceita para uso médico no Brasil. Refi ro-me à corajosa entrevista de Elisaldo Carlini, 79 anos, concedida ao editor chefe, Neldson Marcolin, e ao editor de ciência, Ricardo Zorzetto, em que ele explica em termos científi cos e históricos por que, em sua vi-são, o país precisa deixar de lado a demonização da maconha e admitir o lado positivo da Cannabis sativa. Carlini, que é, aliás, contra o uso de qualquer droga para fi ns recreativos, há 50 anos pesquisa obsessivamente a ação da Cannabis sobre o orga-nismo humano, daí a autoridade e a tranquilidade com que ele discorre sobre o tema e os preconceitos que o cercam, a partir da página 8. É uma prosa de especial sabor que não se deve perder.

A seção de ciência tomará mais um pedaço desse editorial porque é imprescindível destacar a reportagem que trata da participação de bra-sileiros na série de experimentos internacionais,

Mariluce Moura - Diretora de Redação

INSTITUTO VERIFICADOR DE CIRCULAÇÃO

CELSO LAFERPRESIDENTE

JOSÉ ARANA VARELAVICE-PRESIDENTE

CONSELHO SUPERIOR

CELSO LAFER, EDUARDO MOACYR KRIEGER, HORÁCIO LAFER PIVA, HERMAN JACOBUS CORNELIS VOORWALD, JOSÉ ARANA VARELA, JOSÉ DE SOUZA MARTINS, JOSÉ TADEU JORGE, LUIZ GONZAGA BELLUZZO, SEDI HIRANO, SUELY VILELA SAMPAIO, VAHAN AGOPYAN, YOSHIAKI NAKANO

CONSELHO TÉCNICO-ADMINISTRATIVO

RICARDO RENZO BRENTANIDIRETOR PRESIDENTE

CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZDIRETOR CIENTÍFICO

JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLERDIRETOR ADMINISTRATIVO

CONSELHO EDITORIALLUIZ HENRIQUE LOPES DOS SANTOS (COORDENADOR CIENTÍFICO), CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ, CYLON GONÇALVES DA SILVA, FRANCISCO ANTÔNIO BEZERRA COUTINHO, JOAQUIM J. DE CAMARGO ENGLER, JOÃO FURTADO, JOSÉ ROBERTO PARRA, LUÍS AUGUSTO BARBOSA CORTEZ, LUÍS FERNANDES LOPEZ, MARIE ANNE VAN SLUYS, MÁRIO JOSÉ ABDALLA SAAD, PAULA MONTERO, RICARDO RENZO BRENTANI, SÉRGIO QUEIROZ, WAGNER DO AMARAL, WALTER COLLI

DIRETORA DE REDAÇÃOMARILUCE MOURA

EDITOR CHEFENELDSON MARCOLIN

EDITORES EXECUTIVOSCARLOS HAAG (HUMANIDADES), FABRÍCIO MARQUES (POLÍTICA), MARCOS DE OLIVEIRA (TECNOLOGIA), RICARDO ZORZETTO (CIÊNCIA)

EDITORES ESPECIAISCARLOS FIORAVANTI, MARCOS PIVETTA (EDIÇÃO ON-LINE) EDITORAS ASSISTENTESDINORAH ERENO, MARIA GUIMARÃES

REVISÃOMÁRCIO GUIMARÃES DE ARAÚJO, MARGÔ NEGRO

EDITORA DE ARTEMAYUMI OKUYAMA

ARTEMARIA CECILIA FELLI JÚLIA CHEREM RODRIGUES

FOTÓGRAFOSEDUARDO CESAR, MIGUEL BOYAYAN

SECRETARIA DA REDAÇÃOANDRESSA MATIAS TEL: (11) 3838-4201

COLABORADORESANA LIMA, ANDRÉ SERRADAS (BANCO DE DADOS), CELSO MAURO PACIORNIK, DANIELLE MACIEL, EDUARDO GERAQUE, EVANILDO DA SILVEIRA, JOSELIA AGUIAR, LAURABEATRIZ, LUIZ EDMUNDO MAGALHÃES, MARCOS GARUTI, SALVADOR NOGUEIRA E YURI VASCONCELOS

OS ARTIGOS ASSINADOS NÃO REFLETEM NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DA FAPESP

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E FOTOS SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO

PARA ANUNCIAR(11) 3838-4008

PARA [email protected](11) 3038-1434FAX: (11) 3038-1418

GERÊNCIA DE OPERAÇÕESPAULA ILIADIS TEL: (11) 3838-4008e-mail: [email protected]

GERÊNCIA DE CIRCULAÇÃO RUTE ROLLO ARAUJO TEL. (11) 3838-4304 e-mail: [email protected]

IMPRESSÃOPLURAL EDITORA E GRÁFICA

TIRAGEM: 37.300 EXEMPLARES

DISTRIBUIÇÃODINAP

GESTÃO ADMINISTRATIVAINSTITUTO UNIEMP

FAPESPRUA PIO XI, Nº 1.500, CEP 05468-901ALTO DA LAPA – SÃO PAULO – SP

SECRETARIA DO ENSINO SUPERIOR

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

ISSN 1519-8774

FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO

alguns em andamento, outros previstos para ini-ciar nos próximos anos que procuram desvendar o que realmente são a energia escura e a matéria escura que, tudo indica, compõem quase 96% do Universo. Esses dois tipos de, digamos, elementos, descobertos nos últimos 80 anos, permanecem tão intrigantes, apesar de toda a pesquisa teórica e experimental que têm mobilizado, que não chega a soar estranho que ainda se possa dizer da energia escura em relação à matéria escura que se trata de “algo que não se sabe muito bem o que é afetando de alguma forma outra coisa sobre a qual não se tem o menor conhecimento”, conforme escreveu o autor da reportagem, o editor de ciência, Ricardo Zorzetto (página 52).

O destaque na seção de política científi ca e tecnológica vai para a reportagem sobre o Cen-tro Paulista de Pesquisa em Bioenergia (página 26), fruto de um acordo de cooperação celebrado entre o governo do estado, as três universidades estaduais paulistas e a FAPESP no último dia de 2009. Como relata o editor Fabrício Marques, o que se busca com essa iniciativa é criar uma for-te base científi ca para ampliar a competitividade internacional da pesquisa paulista e brasileira em energia obtida de biomassa.

Em tecnologia, duas reportagens combinadas, ambas da editora assistente Dinorah Ereno, mos-tram a partir da página 84 como a indústria paulista de revestimentos conquistou qualidade com ino-vações nos processos e esmaltes especiais e, ainda, como a parceria do setor industrial com centros de pesquisa nesse segmento da cerâmica resultou em considerável redução na perda de produtos, sempre melhores. Para mostrar os efeitos da pesquisa tec-nológica sobre o setor, Dinorah, depois de abordar a cerâmica de Santa Gertrudes, foi até Pedreira, cidade na qual é sensível a infl uência do Centro de Cerâmica, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela FAPESP.

Para concluir, peço atenção à reportagem de abertura da seção de Humanidades (página 94).Nela, o editor Carlos Haag trata de um projeto de pesquisa em que se busca desvendar o processo de criação literária de Mário de Andrade a partir de seus próprios manuscritos e de sua correspon-dência. De presente para o leitor, esse pequeno tre-cho que dá início à reportagem, no qual o escritor discorre sobre seu processo criativo: “Isso corria o mês de abril. Peguei um resto de caderno em branco, e na letrinha penteada dos calmos come-ços de livro comecei escrevendo. Mas logo a letra fi cou afobada, rapidíssima, ilegível para os outros, frases parando no meio com ortografi as mágicas...” Maravilhoso, não?

CARTA DA EDITORA

005_editorial_168Novo.indd 5005_editorial_168Novo.indd 5 01.02.10 17:20:0601.02.10 17:20:06

Page 6: Cogumelos iluminam a floresta

6 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

MEMÓRIA

( )

AS PESTES

AIDS

INFLUENZA

Museu de Microbiologia do Instituto Butantan inaugura a exposição itinerante As grandes epidemias | Neldson Marcolin

Mais de 5 milhões de pessoas são contaminadas a cada ano pelo HIV. O médico Dráuzio Varella (abaixo) pede atenção e prevenção

A pandemia de gripe suína que assustou o planeta no ano passado trouxe à lembrança um fato que andava esquecido: não importa quanto conhecimento, tecnologia e informação estejam disponíveis, sempre existirá o risco de epidemias. A peste negra (ou bubônica) foi responsável por pelo menos 10 epidemias entre 1400 e 1720,

quando se estima que tenham morrido 25 milhões de pessoas no total. A varíola matou e deformou milhões na metade do século XVII na Europa. A meningite causou enormes transtornos na saúde pública até a metade dos anos 1970 no Brasil. A Aids e a gripe – esta de modo sazonal – seguem infectando pessoas em todos os países. A exposição As grandes epidemias, que pode ser visitada no Centro de Difusão Científi ca do Instituto Butantan, em São Paulo, fala de um assunto que continua relevante nos dias de hoje. “Queremos informar e alertar o público para o perigo que as epidemias representam”, explica Gláucia Colli Inglez, coordenadora do Museu de Microbiologia do Instituto Butantan e curadora da exposição ao lado

de Alessandra Fernandes Bizerra e Milene Tino de Franco, a diretora do museu.

“Certamente a população e os envolvidos com a área da saúde devem se preocupar com as epidemias”, diz Isaias Raw, do conselho técnico-científi co da Fundação Butantan. É dele a concepção da exposição, imaginada há alguns anos e concretizada agora com apoio FAPESP/Vitae. Na mostra há painéis ilustrados e cinco fi lmes de até sete minutos. Cada um deles trata de uma epidemia: peste, varíola, meningite,

Aids e infl uenza (gripe). Os fi lmes foram feitos pelo cineasta André Luiz de Luiz a partir do roteiro das curadoras e são didáticos, repletos de imagens e de entrevistas com o próprio Raw, o médico Dráuzio Varella e o secretário estadual da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata. Todos usam uma linguagem simples para falar de história, saúde, ciência e, principalmente, da importância da vacinação. A exposição, gratuíta, deverá ser levada a outras regiões da capital paulista em breve.

006-007_memoria_000.indd 6006-007_memoria_000.indd 6 29.01.10 23:15:2629.01.10 23:15:26

Page 7: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 7

MENINGITE

VARÍOLA

PESTE NEGRA

A infecção era atribuída aos miasmas e castigo divino. Em 1894, Alexandre Yersin e Shibasaburo Kitasatu identificaram o agente responsável pela doença, a bactéria Yersinia pestis

A gripe espanhola matou cerca de40 milhões na primeira metade do século XX. Hoje, Isaias Raw (ao lado) defende a vacinação para prevenir a gripe suína

A epidemia de meningite foi censurada pelos militares por dois anos. Segundo Barradas (abaixo), a vacina foi aplicada na população paulista em 15 dias

A varíola matou e deformou milhões, mas foi extinta em 1984. Foi a primeira vez que uma doença infecciosa foi abolida da Terra graças à vacinação

FOT

OS

MU

SE

U D

E M

ICR

OB

IOL

OG

IA/

INS

TIT

UT

O B

UTA

NTA

N

006-007_memoria_000.indd 7006-007_memoria_000.indd 7 29.01.10 23:15:2829.01.10 23:15:28

Page 8: Cogumelos iluminam a floresta

8 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ENTREVISTA

Elisaldo Carlini

O uso medicinal da maconhaEspecialista em psicofarmacologia diz que já está mais do que na hora de reconhecer as qualidades médicas da droga no Brasil

O médico Elisaldo Carlini parece ter uma obsessão como espe-cialista em psicofarmacologia, área que ajudou a difundir no Brasil nos anos 1960 depois de uma passagem de quatro anos pelos Estados Unidos, três de-

les na Universidade Yale. O foco de seu trabalho é procurar entender como a Cannabis sativa – a maconha – age no organismo humano, seu alvo de pesqui-sa há 50 anos. Herdou esse interesse de José Ribeiro do Valle, seu professor de farmacologia na Escola Paulista de Medi-cina na década de 1950. Desde então tem trabalhado no sentido de desmitifi car o conceito de que a maconha é uma droga maldita, sem utilidade.

Nas décadas de 1970 e 1980 liderou no Brasil um grupo de pesquisa publi-cando mais de 40 trabalhos em revistas científi cas internacionais. Esses resulta-dos, juntamente com as investigações de outros grupos internacionais, possibili-taram o desenvolvimento no exterior de medicamentos à base de Cannabis sativa utilizados atualmente em vários países do mundo para tratamento da náusea e dos vômitos causados pela quimioterapia do câncer, para melhorar a caquexia (en-fraquecimento extremo) de doentes com HIV e câncer e para aliviar alguns tipos de dores. Para ele, já está mais do que na hora de reconhecer o uso medicinal da maconha no Brasil.

Em maio deste ano haverá um simpó-sio internacional em São Paulo especial-

Neldson Marcolin e Ricardo Zorzetto

FOT

OS

ED

UA

RD

O C

ES

AR

mente para tratar dessa questão. Carlini vê grande preconceito contra a maconha, mas aposta que se os pesquisadores insis-tirem na direção correta, com o apoio da ciência, essa aprovação será obtida algum dia. É preciso ressaltar que esse médico de 79 anos é contra o uso dessa e de outras drogas para fi ns recreativos.

Carlini tem uma atuação social que, por vezes, ofusca o cientista. Ele é o cria-dor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) – um importante fornecedor de informa-ções para a formulação de políticas de educação – e da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravi-me), em 1990. Entre 1995 e 1997 esteve à frente da Secretaria Nacional de Vigi-lância Sanitária, órgão predecessor da atual Anvisa, onde enfrentou a espinhosa missão de combater a corrupção no setor. Com sucesso, diga-se. Atualmente está no sétimo mandato como membro do Expert Advisory Panel on Drug Depen-dence and Alcohol Problems, da Orga-nização Mundial da Saúde (OMS). Tem seis fi lhos e cinco netos. Em dezembro, entre uma reunião e outra, Carlini deu a entrevista abaixo.

■ Qual será a proposta do simpósio inter-nacional sobre maconha, que ocorrerá em maio em São Paulo?— Vamos propor que a maconha seja aceita para uso médico no Brasil. Meu avô se formou médico no fi m do século XIX e naquela época já usava um livro de

1888, que guardo até hoje, com a receita da maconha para vários males. Era uma terapêutica corrente no mundo todo, in-clusive no Brasil. O simpósio internacio-nal terá o título “Uma agência brasileira da Cannabis medicinal?”. A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece que a maconha pode ser medicamento – ape-sar da proibição da Convenção Única de Entorpecentes, de 1961 – desde que os paí ses ofi cializem uma agência especial para Cannabis e derivados nos seus mi-nistérios da Saúde. Já há uns 10 países que fazem esse uso: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Espanha, Suíça, entre outros.

■ Quando e como o senhor decidiu eleger a maconha como objeto de estudo?— Quando entrei na Escola Paulista de Medicina [a EPM, hoje Universidade Fe-deral de São Paulo (Unifesp)] em 1952. E como aluno do 2º ano comecei a me in-teressar pela farmacologia e estagiei com o professor José Ribeiro do Valle. Ele foi o primeiro que fez trabalhos verdadeira-mente científi cos sobre a Cannabis sativa em animais de laboratório no Brasil.

■ Quais experimentos? — Ele procurava saber os tipos de reação [comportamental] que os animais apre-sentam quando submetidos aos efeitos da maconha e queria quantifi car a potência dos diferentes tipos dessa planta. Naquela época, a psicologia experimental estava pouco desenvolvida no Brasil. Em 1960

008-013_entrevista_168.indd 8008-013_entrevista_168.indd 8 29.01.10 23:22:5929.01.10 23:22:59

Page 9: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 9

008-013_entrevista_168.indd 9008-013_entrevista_168.indd 9 29.01.10 23:22:5929.01.10 23:22:59

Page 10: Cogumelos iluminam a floresta

10 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

■ Como o senhor voltou para a EPM?— Quando me avisaram que não queriam mais pesquisa na Santa Casa. Como não queria apenas dar aula, fui para a EPM e falei com o diretor, professor Horácio Kneese de Mello. Perguntei se ele aceitava que fosse para lá e desse um curso que não existia lá naquele tempo, de psicofarma-cologia, junto ao curso de farmacologia do Ribeiro do Valle. Ele aceitou e prome-teu que assim que abrisse a primeira vaga eu seria efetivado. Dois anos depois isso ocorreu. Entrei como professor-adjunto, depois me tornei titular.

■ Lá o senhor continuou os estudos sobre a maconha?— Continuei no assunto. Quando estu-damos a história da maconha, é fácil ver que na proibição de seu uso médico não há nada de científi co, e sim de ideológico. Até o início do século XX a maconha era considerada um excelente medicamento. Ela era importada da França na forma de cigarros que se chamavam Grimaldi. Depois, dos anos 1930 em diante, a ma-conha virou uma droga maldita. O go-verno egípcio chegou a dizer que ela era uma droga totalmente destruidora, que mereceria o ódio dos povos civilizados. O Brasil participou da criminalização da maconha por meio de uma mentira levada pelo representante brasileiro na Liga das Nações, antecessora da ONU. Em 1925, a Liga das Nações fez a segunda conferência internacional sobre o ópio com 44 países presentes, entre os quais o Brasil. Era para discutir como contro-lar o ópio, mas o Egito entrou com o tema maconha. E o representante bra-sileiro, Ulisses Pernabucano Filho, disse que ela era mais perigosa que o ópio no nosso país. Isso era, naturalmente, in-correto. Primeiro porque a maconha é muitíssimo menos perigosa que o ópio; segundo, o ópio nunca foi um problema aqui. O resultado disso é que a Liga das Nações condenou a maconha. Depois que a ONU foi criada houve a primeira Convenção Única de Entorpecentes em 1961, assinada por mais de 200 países colocando a Cannabis numa lista, junto com a heroína, como droga particular-mente perigosa. É algo que não tem razão científi ca nos dias de hoje.

■ De qualquer forma, é indiscutível que a maconha tem efeitos tóxicos.— Claro que tem, como todos os medica-mentos. Não existe nenhum remédio em que a bula diga “Não provoca nenhum tipo de problema”. Isso vale para as plan-

tas. Estamos desenvolvendo o programa Planfavi, Planta e Farmacovigilância, e alertamos também para os perigos dos produtos naturais.

■ Comparado com o cigarro de nicotina, o cigarro de maconha é pior ou melhor?— Tenho difi culdade em dar uma res-posta defi nitiva. Não há dúvida hoje de que o cigarro normal é cancerígeno. Nós sabemos que a maconha tem também substâncias cancerígenas. A folha da maconha é coberta por uma camada de cera que tem naftaleno, antraceno... Se esfregarmos o sarro da maconha na pele de rato, naqueles que nascem sem pelo, o animal passa a ter câncer depois de 50 semanas da administração. Ocorre que não se usa a maconha da mesma forma que o cigarro, com a mesma intensidade e frequência. Outra diferença é que o ci-garro tem um efeito bastante sério para o coração. Já a maconha não tem esse problema. Com relação à parte clínica existem demonstrações, segundo vários autores, o que precisa ser confi rmado, que o uso da maconha pode facilitar o aparecimento de câncer em certas pes-soas se usada de maneira desbragada. Não conseguimos ainda fazer um estudo epidemiológico sufi cientemente grande como os realizados com o cigarro, em que centenas de milhares de pessoas já foram entrevistadas. Para isso é preciso acompanhar muita gente que use con-tinuamente a maconha e seja suscetível aos efeitos dela.

■ O senhor é favorável ao uso da maconha como recreação?— Não sou. Não sou favorável a nenhum uso de droga para “dar barato”, que altere a mente sem a real necessidade disso. Mas sou muito favorável ao uso da morfi na, por exemplo, como analgésico. Seria um absurdo total proibir o uso da morfi na ou do ópio porque podem produzir dependência forte. O que não posso é difundir o uso recreativo da morfi na, mas devo difundir, e muito, o uso da morfi na como um agente extremamente poderoso para dar qualidade de vida nos momentos fi nais de um canceroso que morre urrando de dor, por exemplo. No caso da maconha, há relatos científi cos dizendo que a droga é uma substância de primeira linha para tratar certas dores. Não dores comuns, como uma dor de cabeça, de dente ou cólica, mas as mio-páticas ou neuropáticas, que envolvem músculos e nervos. A esclerose múltipla, por exemplo, provoca esse tipo de dor.

fui para os Estados Unidos com a missão de estudar técnicas mais modernas de neuroquímica e psicologia experimental para introduzir aqui. Foi o que fi z quan-do retornei, em 1964.

■ O senhor foi logo depois de acabar a graduação?— Não, me formei em 1957 e trabalhei como assistente voluntário da farmaco-logia até 1960 com bolsa da Fundação Rockefeller. Foi quando ganhei outra bolsa, mas para ir para os Estados Uni-dos. Fiquei lá quatro anos e fi z o mestra-do na Universidade Yale. Quando voltei não consegui lugar na EPM, apesar dos esforços do Ribeiro do Valle. Fui para a Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que começava a funcionar.

■ Por que o senhor não foi contratado pela EPM?— Não havia vagas. Em 1964 eu era ca-sado, tinha três fi lhos. Fiquei dois meses na EPM e fui para a Santa Casa, de onde saí em 1970. Foi lá que comecei a fazer de fato meus estudos sobre maconha com testes comportamentais.

Quando estudamos a história da maconha, é fácil ver quena proibição de seu uso médico não há nada de científi co, e sim de ideológico

008-013_entrevista_168.indd 10008-013_entrevista_168.indd 10 29.01.10 23:23:0229.01.10 23:23:02

Page 11: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 11

E a maconha tem um efeito muito bom para aliviar essas dores. No entanto, aqui no Brasil não se consegue utilizar esse recurso. Em outros países já há esse uso bastante difundido.

■ Mesmo nos Estados Unidos, que vêm de um período recente muito conservador?— Lá já existe pelo menos um medica-mento. Eles sintetizam o delta-9-tetrai-drocanabinol (THC), que é o princípio ativo da maconha, e vendem o composto para o mundo inteiro: Marinol é o nome comercial. Foi inicialmente propagan-deado para reduzir a náusea e o vômito induzidos pela quimioterapia do câncer. Foi aprovado pela FDA [Food and Drug Administration, agência norte-americana de controle de alimentos e medicamentos] com uso controlado, como deve ser.

■ E é possível importar o medicamento no Brasil?— É proibido importar e usar. O interes-sante é que o uso terapêutico antináusea foi descoberto acidentalmente por jovens da Califórnia que tinham leucemia, o câncer sanguíneo. Eles recebiam o qui-mioterápico e, aos sábados, saíam para se divertir e fumavam maconha. Os jovens passaram a descrever para seus médicos que não sentiam nem náusea nem vômito quando estavam sob o efeito da droga. Os especialistas começaram a investigar, fi zeram trabalhos e demonstraram clara-mente que havia um efeito antinauseante. Mais tarde estudaram outra consequência do uso da maconha, chamada popular-mente de larica, a fome exagerada que o sujeito tem depois de fumar. Dessa vez também comprovaram os efeitos e pa-tentearam o medicamento Marinol para a caquexia, a perda exagerada de peso que ocorre no câncer e na Aids.

■ É possível fazer chá em vez de fumar?— Não, porque os compostos que estão nas folhas não são solúveis. O delta-9-THC é vendido em cápsulas gelatinosas, dada a sua natureza lipídica. Há também um canabinoide sintético, chamado Na-bilone, utilizado no Canadá. E acabou de ser lançado também no Canadá e na Inglaterra uma mistura de duas cepas de maconha. Ambas são de Cannabis sativa. Uma delas produz canabidiol, que é o precursor do delta-9-THC. E outra possui alto teor de delta-9-THC. A fi rma inglesa GW Pharmaceuticals faz dois extratos dessas plantas. A estratégia é misturar os dois, de maneira a ter uma quantidade adequada do canabidiol e do

delta-9-THC. Essa mistura foi lançada com o nome comercial de Sativex dentro de uma bombinha, como as de asma, pa-ra usar direto na boca. Cada dose libera 5 miligramas do delta-9-THC.

■ Qual a indicação?— Dores neuropáticas, náusea e vômito da quimioterapia do câncer, caquexia e esclerose múltipla. O interessante é que quem pela primeira vez mostrou que misturando canabidiol com delta-9-THC em determinadas concentrações se modula melhor o efeito da maconha foi o nosso Departamento de Psicofar-macologia da Unifesp. Daqui se originou o trabalho na Inglaterra. Isso é reconhe-cido internacionalmente. O canabidiol modula o efeito do delta-9-THC, de tal maneira que o delta-9-THC, na presença do canabidiol, gera menos ansiedade e age por um tempo maior.

■ Quando vocês demonstraram isso?— São estudos da década de 1970 e 1980 com trabalhos publicados na Bri-tish Journal of Pharmacology, Journal of Pharmacy and Pharmacology e European Journal of Pharmacology, revistas de alto nível. Mas nunca conseguimos tirar na-da de positivo desses trabalhos aqui no Brasil para gerar algum produto. Não é prioridade para o país.

■ Esses trabalhos só serviram para os outros?— Só para o exterior. Foi a mesma coisa com a Maytenus ilicifolia, a espinheira--santa. Fizemos um trabalho imenso com ela. Mostramos, em animais de laborató-rio e no homem, que tem um efeito pro-tetor para o estômago. Publicamos muito aqui e no exterior e não conseguimos fazer uma patente. O Japão é que pediu e conseguiu. O que me frustra mais é que no pedido de patente japonês está escrito mais ou menos assim: “... a Maytenus ilicifolia, pertencente à família Celastra-ceae, é utilizada no folclore brasileiro para o tratamento de úlcera”.

■ A história se repetiu.— Isso é comum. As tentativas ofi ciais de fazer a medicina aceitar no Brasil a maconha como medicamento vêm antes da década de 1990. Em 1995, como secre-tário nacional da Vigilância Sanitária, eu coordenava o registro de medicamentos no país. Falei para o ministro da Saúde, Adib Jatene, que desejava organizar den-tro da Vigilância Sanitária uma reunião para discutir se o delta-9-THC poderia ser licenciado como medicamento con-tra náusea e vômito na quimioterapia do câncer. Ele concordou e falei com o presidente do Conselho Nacional de Entorpecentes, Luiz Mathias Flack, que também aceitou. Os dois abriram a reu-nião. Mas não conseguimos fazer nada. Os médicos não aceitaram.

■ Qual a razão dessa resistência? Seria o fato de a maconha ser conhecida como uma porta de entrada para outras drogas?— Mas nós estávamos falando de medi-camento, não de recreação. Organizamos outras reuniões, inclusive uma aqui na Unifesp, em 2004, com especialistas do exterior. Essa deu um primeiro resultado positivo. O general Paulo Yog de Miranda Uchôa, da Senad [Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas], estava presente e aceitou que o governo brasileiro deveria solicitar à ONU, por meio do Itamaraty, que a maconha fosse retirada da lista das drogas malditas, dado ter sido o próprio governo brasileiro quem havia colocado a maconha nessa situação. Esse pedido está sendo encaminhado à ONU.

■ O senhor não é a favor da legalização da maconha de modo geral?— Sou contra a legalização porque acho que o ser humano não precisa usar dro-gas que apenas poluem corpo e mente com objetivos recreativos. Sou a favor da

008-013_entrevista_168.indd 11008-013_entrevista_168.indd 11 29.01.10 23:23:0229.01.10 23:23:02

Page 12: Cogumelos iluminam a floresta

12 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

maconha como medicamento, usado sob controle. A descriminalização já existe no Brasil. Ninguém mais vai preso, nem se faz boletim de ocorrência, se é pego com poucos gramas hoje. A não ser que o policial assim queira.

■ O senhor fuma?— Maconha não. Fumei cigarro normal durante muito tempo. Parei há mais de 20 anos por um motivo curioso, quando ainda não havia provas cabais dos prejuí-zos do fumo. Eu estava no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, recém-inaugu-rado. Tudo era muito novo, o carpete, as cadeiras, tudo. Fui pegar um café e deixei o cigarro na ponta do cinzeiro. Quando voltei ele tinha caído e provocado um rombo no carpete novinho. Aquilo me deu uma vergonha enorme. Parei de fu-mar depois disso e não sinto falta.

■ O senhor citou a morfi na como um me-dicamento também muito temido pelos médicos.— Na minha época na Secretaria Nacio-nal de Vigilância Sanitária acreditava-se que apenas 5% dos pacientes com dor severa, que precisavam de morfi na para minorar o sofrimento – gente com câncer terminal, queimados graves, politrauma-tizados –, recebiam a droga. As razões são múltiplas e ocorrem no mundo inteiro. Existe um conceito chamado opiofobia. O médico não prescreve opiáceos, dos quais a morfi na é um exemplo, por medo de induzir à dependência. É óbvio que a dependência é horrível, mas não para um doente terminal ou para um poli-traumatizado. É muito difícil vencer essa fobia dos médicos.

■ Estamos falando de drogas e ainda não citamos o álcool. — O álcool é uma droga psicotrópica. Produz efeito no sistema nervoso central e gera dependência. Uma droga psicoati-va é aquela que age no sistema nervoso, mas não gera dependência porque não tem propriedades reforçadoras. Já a dro-ga psicotrópica age no cérebro, produz seu efeito – analgesia, sono, euforia, ale-gria, relaxamento – e ao mesmo tempo reforça essas sensações no indivíduo. Ele sente bem-estar ou prazer, que é muito importante para ele. Facilmente a pessoa se torna dependente. Para mim, o álcoolé a droga mais terrível que existe no mundo. No Levantamento Domiciliar de 2005, feito pelo Cebrid, foi aplicado nas 108 maiores cidades do país um teste para verifi car o risco de haver de-pendência do álcool. Deu que 12,3% da população entrevistada corre esse risco. É gente demais, corresponde a mais de 20 milhões de brasileiros. No momento, fazemos um trabalho apoiado pela FA-PESP para tentar melhorar a adesão dos alcoólatras ao tratamento.

■ Como é esse projeto?— Começamos conversando com o pa-ciente, procurando entendê-lo. Depois expomos quatro opções terapêuticas, in-clusive com um fi lme ilustrativo. Deixa-mos que ele vá para casa com um folheto explicativo, pense no que quer fazer, dis-cuta com a família e fi nalmente diga para nós qual seria o melhor tratamento. Ele é que vai escolher a técnica que julgar mais conveniente. Temos uma expectativa de que o doente, sendo senhor da situação que o envolve, possa aderir mais ao trata-

mento. Essa é nossa linha atual. O projeto é longo e deve demorar até ter resultados mensuráveis. No momento recrutamos pacientes alcoolistas para participarem da pesquisa. [A adesão pode ser feita pelo telefone (11) 5084-1084, com Valéria.]

■ Como o senhor vê a política de redução de danos, como distribuição de seringas para viciados?— Acho muito bom. É algo combatido por parte da sociedade porque não se re-conhece que dependência é doença. Para algumas pessoas, quem tem de receber seringa é o diabético, e não o “viciado”. O que não se sabe é que o grau de depen-dência e sofrimento dele é imenso. Ele tem de ser tratado como um doente.

■ Podemos dizer que os trabalhos dos anos 1960 sobre privação de sono e agressividade de ratos resultaram nas linhas de pesquisa sobre sono e no próprio Instituto do Sono, liderado pelo professor Sérgio Tufi k?— O Sérgio foi meu aluno na Faculdade de Medicina da Santa Casa e no dou-torado. Os primeiros trabalhos sobre privação de sono paradoxal e maconha nós fi zemos juntos. Não há dúvida de que saiu daqui. Ele é de uma inteligência incomum e se encaixa naquele perfi l raro de cientista que vê o que todos veem e pensa o que ninguém pensou.

■ Como nasceu o Cebrid?— Eu queria muito conhecer a situação das drogas no Brasil assim que voltei dos Estados Unidos, mas não conseguia. Já tinha começado um esboço do Cebrid na Santa Casa e percebi que teria de produ-zir as informações porque havia poucos dados confi áveis. O jeito foi começar a fazer a coleta dos dados para deixá-los disponíveis em um arquivo. Começa-mos procurando trabalhos sobre abuso de drogas em todas as bibliotecas aqui de São Paulo. Logo no início do trabalho viemos para a Unifesp e montamos um banco de trabalhos de pesquisadores bra-sileiros que escreveram sobre isso. Hoje são quase 4 mil, todos disponíveis para quem quiser pesquisar. Boa parte dos tra-balhos era antiga e achamos que teríamos de produzir outros estudos, mais atuais. Fizemos o primeiro levantamento entre estudantes nas capitais brasileiras e en-tre meninos de rua em 1987. Repetimos em 1989, 1993, 1997, 2004 e devemos fazer mais um neste ano. Esses dados são utilizados no Brasil como fonte de informações para se elaborarem políticas públicas educacionais.

008-013_entrevista_168.indd 12008-013_entrevista_168.indd 12 29.01.10 23:23:0329.01.10 23:23:03

Page 13: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 13

■ Existe um grande interesse sobre os pos-síveis resultados dos estudos sobre plantas medicinais, especialmente pela enorme biodiversidade brasileira. Mas a expectati-va de achar moléculas ou princípios ativos que possam virar medicamentos parece muito difícil de concretizar. Por quê? — De fato é difícil seguir apenas por esse caminho. Se analisarmos os medi-camentos importados que chegam ao Brasil atualmente, há um número gran-de que é feito não mais pelo princípio ativo, mas pelo extrato seco da planta. Acredito que cometemos um erro tático de procedimento. Nós sempre corremos atrás do princípio ativo da planta. Mas ela tem dezenas, às vezes centenas de substâncias e temos de pesquisar cada uma delas para saber qual é a responsá-vel pelo efeito que desejamos. Quando se usa um extrato e ele produz o efeito desejado, está ótimo, não é preciso mais pesquisar substância por substância. Há também outra vantagem: esses extratos vêm quase sempre de plantas que fo-ram usadas popularmente por séculos e, provavelmente, não são muito tóxicas. Talvez, de fato, não seja a melhor estraté-gia utilizar um princípio ativo isolado e único. A pesquisa com algumas plantas está demonstrando que a interação entre componentes é a responsável pelo efeito desejado. Nosso problema é que não há prioridade para esse tipo de pesquisa no Brasil. A começar pelos próprios órgãos do governo, que não acreditam nisso e criam limitações como as impostas pelo CGEN [Conselho de Gestão do Patrimô-nio Genético], do Ministério do Meio Ambiente. O CGEN sem dúvida tem boas intenções e, como nós, visa prote-ger nosso patrimônio genético de modo que não caia em outras mãos e também, como nós, pretende conferir direitos àqueles que são na realidade os donos do conhecimento popular. Mas na prá-tica estabeleceu regras tão estapafúrdias que acabou por impedir que o cientista brasileiro trabalhasse com plantas. E há outro problema: trabalho com plantas dá pouco índice de impacto, o que gera pouco interesse de outros pesquisadores e das agências de fomento.

■ Pesquisa FAPESP nº 70, de 2001, publi-cou uma reportagem sobre o trabalho da bióloga Eliana Rodrigues, orientado pelo senhor, que havia identifi cado 164 espécies vegetais usadas pelos índios Krahô com fi ns medicinais. Os índios cobraram da Unifesp uma indenização de R$ 25 milhões. Como se resolveu a situação?

— Não, eles estão a nosso favor. Eles vie-ram até aqui e fi camos três dias com au-toridades públicas. Um dos líderes, que fala melhor o português, nos disse, “que fi que bem claro, se a pesquisa não sai é por culpa de vocês brancos, porque nós queremos”. Estamos nessa briga. É o go-verno contra o governo, porque, afi nal, a Unifesp é federal. Nosso projeto já havia sido aprovado pela FAPESP. Fechei ques-tão em um ponto: queria que os índios tivessem direito à patente. Como índio é tutelado pelo Estado e não pode assi-nar nada, tentei interessar a Funai, mas naquele período mudaram três ou qua-tro ministros da Justiça e os respectivos presidentes da Funai. A solução foi fazer um contrato “ético” entre a universidade e os índios de modo que eles tivessem assegurados os direitos aos royalties pela própria universidade. Tudo foi assinado – e depois morreu completamente.

■ Como foi sua passagem pela Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária, a atual Anvisa? — A Vigilância Sanitária tinha uma fa-ma medonha de corrupção, conhecida nacionalmente. Quando aceitei o convi-te do ministro Adib Jatene, a missão era moralizá-la e modernizá-la. Pedi a cola-boração dos funcionários para mudar a fama do lugar e acho que fui atendido. Eu recebia muitos presentes, relógios, canetas Mont Blanc, eletrodomésticos e decidi não devolvê-los para não criar no-vas inimizades. Eu agradecia e mandava a secretária colocar em uma estante especí-fi ca. Eram dezenas e dezenas de presen-tes. Depois levava as pessoas que davam os presentes para verem o que era a es-tante. No fi nal do ano chamava todos os funcionários da Anvisa e fazia um gran-de sorteio com esses presentes. Também afastei 15 funcionários e “fechei” de 100 a 150 laboratórios fantasmas, todos com registros normais e vários participando de concorrências públicas. Isso dá uma ideia do nível de desacertos do período. Também cancelei mais de 300 registros de farmácias magistrais que faziam as famigeradas fórmulas para emagrecer. Mas adiantou pouco. Saindo o Jatene e eu deixando a Vigilância Sanitária tudo voltou ao que era antes. Felizmente, lo-go depois um outro ministro da Saúde assumiu, foi criada a Anvisa e nos dias de hoje acredito que aquela negra fase ja-mais voltará. O interessante é que, depois de tanta luta, ganhei bastante respeitabi-lidade entre o pessoal da indústria e na própria Vigilância Sanitária. ■

— Não se resolveu. Até hoje a situação é complicada. Somos acusados de serladrões da biodiversidade brasileira. Re-centemente recebemos uma carta do Ministério Público querendo uma prova de que não publicamos esse trabalho em nenhuma revista do exterior. Na mesma época, centenas de trabalhos de brasileiros foram publicados por diferentes universi-dades brasileiras no exterior em associa-ção com indústrias estrangeiras e, mais do que isso, há quatro estudos com plantas exclusivas do Brasil feitos apenas por uni-versidades de fora. E nós fomos escolhidos para prestar contas, não sabemos a razão. Para poder pesquisar uma planta brasilei-ra, nós, farmacólogos, temos de provar que não estamos fazendo uma bioprospecção. Bioprospecção, por defi nição, é qualquer coisa do campo da ciência que pode gerar no futuro um interesse comercial. Ora, farmacologia é o estudo de medicamentos, algo que sempre poderá gerar um produto comercial, mesmo que o pesquisador não queira. Pode ser um remédio, um cosmé-tico, uma tinta qualquer.

■ Vocês são processados pelos índios?

Talvez não seja a melhor estratégia usar um princípio ativo único. Pesquisa com plantas está demonstrando que a interação entre componentes é a responsável pelo efeito desejado

008-013_entrevista_168.indd 13008-013_entrevista_168.indd 13 29.01.10 23:23:0529.01.10 23:23:05

Page 14: Cogumelos iluminam a floresta

Luzes vivas

No fi lme de animação Vida de inseto, toda a iluminação interna do formigueiro é feita com cogumelos luminosos. “Há um tanto de licença poética na criação”, comenta Cassius Stevani, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), “mas na essência é verdade”. De fato existem cogumelos que emitem luz, ou bioluminescentes, e muitas formigas cultivam fungos em suas tocas – mas não desse tipo. Stevani está empe-

nhado em entender o mecanismo químico que gera essa luminosidade e qual a sua função no organismo. No caminho já encontrou um uso prático: detectar contaminação por metais no solo.

Bastou meia década para Stevani e colegas descobrirem 12 espécies de fungos luminescentes no Brasil. Entre elas estão a amazônica Mycena lacrimans, encontrada por Ricardo Braga-Neto, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e uma espécie parecida com um guarda-chuva invertido que nasce na base de palmeiras como a pia-çava ou o babaçu, no Piauí. No mundo são 71 espécies, de acordo com um artigo de revisão feito por Stevani em colaboração com o biólogo norte-americano Dennis Desjardin, da Universidade Estadual de São Francisco, na Califórnia, que em março estampará a capa da revista Mycologia. “Deve haver muito mais espécies por descobrir”, imagina o químico, “ainda não descritas porque são difíceis de encontrar; pouca gente anda sem lanterna pela mata em noites sem luar”.

Até 2002 não se tinha notícia de fungos bioluminescentes no Brasil. Ou melhor, havia uma espécie, descrita no século XIX pelo britâni-co George Gardner com o nome científi co Agaricus phosphorescens

CAPA

014-019_bioluminescencia_168.indd 14014-019_bioluminescencia_168.indd 14 16.03.10 19:36:0616.03.10 19:36:06

Page 15: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 15

Mecanismo que faz cogumelos brilharem leva a método para detectar contaminação | Maria Guimarães

“Pleurotus” gardneri: redescoberto no Piauí

(mais tarde rebatizada como Pleurotus gardneri), mas hoje os especialistas em fungos questionam essa classifi cação, baseada em espécies semelhantes na Europa. E fi cava difícil corrigir o erro porque a única amostra preservada está num herbário na Inglaterra.

Um cogumelo que parece ser da mesma espécie foi recentemente encon-trado brilhando na base de uma pal-meira-piaçava pela primatóloga norte--americana Dorothy Fragaszy, que ter-minava a jornada de perseguição aos macacos mais tarde do que o habitualno Piauí. Fascinada, ela mostrou as fotos a um conterrâneo do Jardim Bo-tânico de Nova York, que entrou em contato com Dennis Desjardin, consi-derado um dos maiores especialistas na identifi cação desses organismos. Este, por sua vez, avisou Stevani. Bastou ao brasileiro uma pes-quisa na internet para desco-brir que Dorothy estava no Brasil para um trabalho em

colaboração com a primatóloga Patrí-cia Izar, do Instituto de Psicologia da USP – que ele imediatamente procu-rou em busca da pista do cogumelo. É uma dessas histórias de acaso, em que informações precisam correr o mundo antes de chegarem quase ao mesmo lugar.

Deu certo: o dono da propriedade onde Dorothy e Patrícia trabalhavam, Marino Gomes de Oliveira, secou ao sol e mandou a Stevani 4 quilogramas do cogumelo brilhante. Agora os pes-quisadores estão perto de corrigir a identifi cação, com o exame detalhado dos cogumelos pelos micólogos (espe-cialistas em fungos) Marina Capelari, do Instituto de Botânica de São Paulo, e Desjardin. Ele tem se dedicado a ex-plorar fl orestas pouco conhecidas pelo

mundo afora, inclusive no Brasil, e diz que os esforços inéditos de seu grupo têm si-do responsáveis por muitas descobertas. “Recentemente

liderei uma expedição para uma ilha na Micronésia, no oceano Pacífi co, on-de os cogumelos nunca tinham sido documentados; das 128 espécies que encontramos, sete eram luminescen-tes”, conta, deixando claro que os fun-gos brilhantes são minoria.

O Brasil é promissor por que tem uma imensa área de floresta cujos fungos ainda não foram estudados, diz Desjardin. “Sabemos muito pouco sobre os cogumelos do Brasil, então es-peramos encontrar muitas novas espé-cies, luminescentes ou não.” Ele explica também que, para encontrar fungos lumi nosos, é preciso pensar nisso. A maior parte dos micólogos que estu-dam diversidade de fungos descreve os cogumelos durante o dia (quando eles também emitem luz, mas o pes-quisador não enxerga) e os seca ime-diatamente para preservação; é preciso examiná-los primeiro no escuro para determinar se há luminescência e só depois secar. “Por isso, especulo que F

OT

OS

CA

SS

IUS

ST

EV

AN

I/U

SP

014-019_bioluminescencia_168.indd 15014-019_bioluminescencia_168.indd 15 16.03.10 19:36:0916.03.10 19:36:09

Page 16: Cogumelos iluminam a floresta

16 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

vários dos fungos tropicais ra-ros sejam luminescentes, mas não percebemos ainda.”

Apesar de ainda pouco conhecidos, há muito tempo que se tem notícia de cogumelos luminosos. Aris-tóteles, o fi lósofo da Grécia Antiga, foi o primeiro a relatar o fenômeno há mais de dois milênios, quando descreveu o brilho vivo e determinou que era dife-rente do fogo. Mas os estudos científi cos sobre esse fenômeno só tiveram início nos anos 1950 e apenas agora come-çam a contribuir para a compreensão da bioluminescência nesses organismos especialistas em decompor madeira e outros tipos de matéria orgânica.

Sinalização - O interesse de Stevani pelos fungos brotou de seu trabalho an-terior com vagalumes e outros insetos. Em 2002, durante uma viagem para co-leta de material com Etelvino Bechara, renomado especialista em biolumines-cência de vagalumes, agora na Univer-sidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele aproveitou para procurar os cogu-melos de que Bechara lhe tinha falado. E encontrou: enquanto fi xava os olhos na escuridão de uma área de vegetação úmida próxima a uma cachoeira em meio ao Cerrado em Mato Grosso do

Sul, ali estava uma luz ver-de diferente – constante, ao contrário do pisca-pisca dos vagalumes.

Eram cogumelos, e deram origem ao projeto que o pesquisador da USP desenvolveu a partir de 2002 com au-xílio da FAPESP no programa Jovem Pesquisador. Antes mesmo de o tra-balho começar, os fungos luminosos deram prova de não serem restritos ao Mato Grosso do Sul. Durante trabalho de campo no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), no sul do es-tado de São Paulo, o ecólogo João Go-doy, agora professor na Faculdade de Engenharia São Paulo, foi guiado por seu mateiro até um fungo luminoso. Surpreso, avisou o amigo químico, que assim pôde concentrar suas atividades de campo no Petar, mais perto de seu laboratório.

Algumas dessas espécies estão aju-dando a desvendar as minúcias da bioluminescência de fungos, e para isso Stevani conta com a ajuda de três doutorandos fi nanciados pela FAPESP. Por meio de exaustivos ensaios quími-cos, o doutorando Anderson Oliveira analisou três espécies da Mata Atlânti-ca do Petar – Gerronema viridilucens, Mycena lucentipes e Mycena luxaeterna

1. Estudo da bioluminescência de fungos e suas aplicações em química ambiental2. Bioluminescência e atividade farmacológica de cogumelos

MODALIDADE

1. Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa2. Jovem Pesquisador

CO OR DE NA DOR

CASSIUS STEVANI – IQ/USP

INVESTIMENTO

1. R$ 328.413,092. R$ 457.741,18

OS PROJETOS>

Mycena luxaeterna: luz concentrada nos talos, ou estipes

014-019_bioluminescencia_168.indd 16014-019_bioluminescencia_168.indd 16 16.03.10 19:36:1216.03.10 19:36:12

Page 17: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 17

Mycena fera: cogumelos brilham o tempo todo, mas só são vistos no escuro

–, além do fungo “Pleurotus” gardneri, encontrado numa região de Cerrado no município piauiense de Gilbués. Os re-sultados mostram, em artigo publicado em 2009 na Photochemical & Photobio-logical Sciences, que o mecanismo de produção de luz é semelhante ao que se observa nos vagalumes e nas bactérias bioluminescentes: enzimas chamadas luciferases oxidam uma substância – ou substrato, como os químicos preferem chamar – conhecida como luciferina, liberando energia na forma de luz.

Oliveira usou o que há de mais mo-derno nos laboratórios de química, mas a base do ensaio para caracterizar a rea-ção enzimática foi descoberta há mais de um século. Em 1885, o fi siologista francês Raphaël Dubois esmagou os órgãos luminosos do vagalume Pyro-phorus e misturou com água fria. A so-lução emitiu um brilho verde, que aos poucos se evanesceu. Era a luciferina sendo consumida pela reação química, ele concluiu. Em seguida, Dubois aque-ceu uma solução semelhante, desinte-grando as enzimas presentes, sensíveis ao calor. Ao misturar as duas soluções – a fria, onde sobravam as enzimas já sem luciferina, e a quente, que conti-nha só a luciferina –, ele viu a mistura emitir luz. Essa história está no livro

Bioluminescence, publicado em 2006 pelo farmacêutico japonês Osamu Shi-momura, pesquisador do Laboratório Biológico Marinho em Woods Hole, nos Estados Unidos.

Shimomura ganhou o Prêmio No-bel de Química em 2008 justamente por seus estudos com bioluminescên-cia: ele isolou em águas-vivas a proteína fl uorescente verde (GFP), que acusa a atividade de genes específi cos quando

acoplada ao DNA de um organismo estudado em laboratório. A proteína luminosa se tornou essencial em mui-tos laboratórios de genética, aspiração que não está longe da mente de Stevani, visto que os mecanismos de biolumi-nescência são semelhantes, mesmo en-tre organismos muito diferentes.

Isso não quer dizer, porém, que a composição química da luciferina e a da luciferase seja semelhantes em in-

014-019_bioluminescencia_168.indd 17014-019_bioluminescencia_168.indd 17 16.03.10 19:36:1316.03.10 19:36:13

Page 18: Cogumelos iluminam a floresta

18 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

setos e fungos. “Luciferina é o nome que damos a qualquer substrato que dê origem à bioluminescência, mas as luciferinas de organismos distintos podem ser moléculas completamente diferentes”, explica Stevani. Todos os fungos já estudados por seu grupo, po-rém, brilham por meio dos mesmos substratos e das mesmas enzimas, sugerindo uma origem comum para todos. Mas nem todos os fungos bio-luminescentes são parentes próximos, alerta Desjardin. “Hoje sabemos que há quatro linhagens de fungos com espé-cies bioluminescentes, mas elas nem sempre têm parentesco próximo entre si”, conta. “Algumas espécies brilhantes de Mycena são mais aparentadas a es-pécies sem brilho do que com outras brilhantes do mesmo gênero.”

O grupo da USP está agora à caça da estrutura da molécula que faz com que minúsculos cogumelos, às vezes com 0,5 centímetro de circunferência, se assemelhem a adesivos star fi x cola-dos ao tronco de uma árvore ou como que semeados em meio ao folhedo que recobre o chão da fl oresta. Ao contrário dos fungos, que produzem a própria luz, star fi x são adesivos fosfo-rescentes que armazenam a luz ambiente e por isso brilham à noite, criando constelações nos quartos de crianças de to-das as idades. Por enquanto,

Oliveira conseguiu separar do extrato de fungo uma solução contendo a lu-ciferina – ela brilha quando mistura-da a uma solução enzimática. Mas a substância deve estar em concentração muito baixa, porque o químico Anto-nio Gilberto Ferreira, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), não conseguiu detectá-la por ressonância magnética nuclear de prótons. “É pre-ciso extrair uma quantidade maior ou empregar um equipamento mais sen-sível”, planeja Stevani.

O químico da USP em-barcou nessa empreitada por pura curiosidade científi ca, mas considera essencial en-contrar usos práticos que tragam benefícios para ou-

tros pesquisadores e para a sociedade. Parece estar no caminho certo: o brilho dos fungos Gerronema viridilucens po-de ajudar a detectar altos níveis de con-taminação no solo por metais de vários tipos, como mostrou Luiz Fernando Mendes, outro doutorando de Stevani, em artigo no prelo na Environmental Toxicology and Chemistry.

Sensores biológicos - Mendes cul-tiva o fungo em placas de vidro com 35 milímetros de diâmetro, sobre uma gelatina à base de algas conhecida como ágar, o meio de cultura mais comum em laboratórios biológicos. Depois de crescer 10 dias, os fungos ainda não chegaram à forma de cogumelo. Nessa fase eles são compostos por fi lamentos

Galhos recobertos por hifas invisíveis à luz do dia

014-019_bioluminescencia_168.indd 18014-019_bioluminescencia_168.indd 18 16.03.10 19:36:1516.03.10 19:36:15

Page 19: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 19

microscópicos, as hifas, que represen-tam a maior parte do ciclo de vida de qualquer fungo e, em algumas espé-cies, também produzem o brilho verde. O pesquisador mede a luminosidade emitida por cada uma dessas placas e deposita ali uma pequena amostra de extrato de solo a ser analisado. Depois de 24 horas numa câmara climática, o fungo passa a emitir menos luz caso a amostra esteja contaminada, o que os químicos interpretam como uma for-ma de dano ao organismo.

Mendes obteve gráfi cos que repre-sentam a intensidade da luz emitida na presença de diferentes concentrações de 11 metais diferentes – cálcio, sódio, magnésio, cádmio, cobalto, manganês, potássio, lítio, zinco, cobre e níquel – e indicam a toxicidade da amostra analisada. O trabalho já rendeu uma patente registrada no Brasil sobre o uso dos fungos em ensaios de toxicidade ambiental. Basta medir a intensidade de luz que emana do fungo para estimar quanto desses metais está numa forma que pode ser absorvida e utilizada pelos seres vivos. “Não se trata de medir a concentração total das substâncias quí-micas, isso não teria signifi cado bio-lógico nem utilidade prática”, ressalta Stevani. O problema é que Gerronema viridilucens é pouco sensível, talvez exatamente porque vive no solo e está adaptado mesmo a condições adver-sas. “O que importa é que o bioensaio

funciona, agora é preciso encontrar es-pécies mais sensíveis que possam ser testadas da mesma maneira”, afi rma o químico.

Estratégias - Por consumir oxigênio em suas reações químicas, a biolumi-nescência poderia desempenhar um papel antioxidante que protegeria os fungos e outros organismos, até mes-mo os vagalumes, de espécies reativas produzidas a partir do oxigênio consu-mido na respiração. Essa proteção do organismo é uma possibilidade para explicar os benefícios de se brilhar em meio à mata. Mas quando é preciso pegar em armas contra um estresse oxidativo intenso, o grupo de Stevani mostrou que o organismo dos fungos privilegia reações mais especializadas em cumprir essa função e desliga a lu-minescência. É o que indica o trabalho ainda não publicado de Olívia Domin-gues, também aluna de doutorado de Stevani. Ela verifi cou que na presença de metais em concentrações elevadas as células dão preferência a usar a co-enzima NADPH para produção de glutationa reduzida, que evita a ação deletéria dos metais. Como a glutatio-na reduzida compete por recursos com as enzimas que produzem a lumines-cência, o fungo aos poucos se apaga. É por isso que os fungos do bioensaio de Mendes perdem a luminosidade em solo contaminado por metais.

Os resultados de Olívia ajudam a explicar por que os fungos biolumi-nescentes servem como bioensaio de toxicidade, mas não elucidam qual seria o benefício para o fungo de emitir o brilho esverdeado. Stevani aposta em hipóteses ecológicas, mostrando foto-grafi as de moscas pousadas em cogume-los. Como uma lâmpada em torno da qual voejam insetos diversos, o brilho verde talvez ajude a atrair insetos. Pode parecer que não é vantagem anunciar sua presença aos famintos de plantão, mas a função dos cogumelos no ciclo de vida dos fungos é efêmera, como os frutos das árvores: quando um animal come parte do cogumelo, leva junto es-poros, as estruturas microscópicas que vão gerar novos fungos se forem depo-sitados em locais propícios. Ou talvez a luz seja um aviso de perigo, no caso de cogumelos tóxicos, como acontece com animais venenosos de cores vibrantes. “O que não é provável é que a biolu-minescência de fungos tenha evoluído para iluminar formigueiros ou servir como sinalização de voo, como em Vida de inseto”, brinca.

As descobertas do químico deixam claro que muitos mistérios continuarão perdidos entre as folhagens enquanto mais biólogos e químicos não resolve-rem apagar as lanternas e contemplar a escuridão da fl oresta, por vezes sal-picada de verde. ■

> Artigos científicos

1. DESJARDIN, D. et al. Luminescent Mycena: new and noteworthy species. Mycologia. no prelo.2. MENDES, L.F. STEVANI, C.V. Evaluation of metal toxicity by a modifi ed method based on the fungus Gerronema viridilucens bioluminescence in agar medium. Environmental Toxicology and Chemistry. v. 29, p. 320-26. 2010.3. OLIVEIRA, A.G. e STEVANI, C.V. The enzymatic nature of fungal bioluminescence. Photochemical & Photobiological Sciences. v. 8, p. 1.416-21. Out. 2009.

Mycena asterina: luminescência restrita ao chapéu dos cogumelos

014-019_bioluminescencia_168.indd 19014-019_bioluminescencia_168.indd 19 16.03.10 19:36:1716.03.10 19:36:17

Page 20: Cogumelos iluminam a floresta

20 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ESTRATÉGIAS MUNDO>>

desenvolver uma abordagem mais pluralista. Temos de ter a mente aberta e tentar coisas novas”, afi rmou. De acordo com a estratégia, qualquer pesquisador ou empresa terá acesso a estruturas químicas e a dados relacionados a mais de 13,5 mil compostos que podem ter atividade contra o parasita Plasmodium falciparum. A empresa também vai criar um “laboratório aberto” num centro de pesquisa sediado na Espanha. Nele, 60 pesquisadores selecionados serão autorizados a usar a infraestrutura da GSK

para desenvolver projetos e receberão dela US$ 8 milhões em capital semente. Witty disse que a empresa não desistiu de investir em drogas contra a malária. Segundo ele, há pelo menos cinco remédios em testes.

> O IPCC na defensiva

Voltaram a sofrer críticas os métodos adotados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para prever os efeitos do aquecimento global. Os relatórios do painel divulgados em 2007 erraram ao dizer que, até

2035, o Himalaia perderá toda a sua cobertura de gelo. O presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, admitiu o equívoco e teve de desmentir rumores de que renunciaria. A informação foi recolhida de uma reportagem da revista New Scientist, de 1999, e teve como fonte uma

> Inovação aberta

A gigante farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) colocará em domínio público cerca de 13.500 princípios ativos com algum potencial para se tornarem drogas contra a malária. O executivo-chefe Andrew Witty disse que a empresa decidiu fl exibilizar sua política de propriedade intelectual trabalhando dentro do conceito de inovação aberta, a fi m de resolver problemas de pesquisa complexos. “Estamos tentando

Colaborações entre cientistas

de diferentes países nunca fo-

ram tão frequentes, segundo

relatório divulgado pela nor-

te-americana National Science Foundation, e o exemplo mais

forte dessa tendência vem da União Europeia. Entre os artigos

científi cos produzidos em 2007 pelos países do bloco, a metade

teve coautorias internacionais, nível duas vezes maior que o

dos Estados Unidos ou da Índia. No caso das nações europeias,

trata-se do resultado de políticas que estimularam a integração

de seus cientistas. “Mas o fenômeno está espalhado pelo mundo

inteiro e permeia todas as disciplinas”, disse à revista Nature Loet

Leydesdorff, especialista em cienciometria da Universidade de

Amsterdã. András Schubert, editor da revista Scientometrics,

explica a tendência pelo crescimento de um tipo de esforço de

pesquisa, conhecido como Big Science, que requer investimen-

tos gigantescos e atuação de vários países – consórcios para

sequenciamento de genomas e o acelerador de partículas LHC

são exemplos recentes. Mas Schubert lembra que a queda no

custo das comunicações e as facilidades propiciadas pela internet

também tiveram um efeito dramático na aproximação de cien-

tistas. “A grande motivação dos cientistas é o reconhecimento

de seu trabalho. As colaborações internacionais são uma forma

de difundir suas ideias em círculos cada vez maiores”, afi rma. O

Brasil, que não foi citado no relatório, produziu em coautoria 30%

de seus artigos indexados na base Thomson Reuters em 2006.

PARCEIROSPOR TODA PARTE

020-022_Estrat Mundo_168.indd 20020-022_Estrat Mundo_168.indd 20 29.01.10 23:28:5229.01.10 23:28:52

Page 21: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 21

projeto, mas teme por seu futuro. “É que os governos acabam não investindo o que prometem em projetos de longo prazo”, afi rmou.

> Equador quer mais doutores

A Secretaria Nacional de Ciência e Tecnologia do Equador (Senacyt) lançou um programa de bolsas de pós-graduação voltado a reforçar a formação dos docentes e pesquisadores. Dos 27.737 professores de universidades públicas e privadas do país, 6.933 são mestres e apenas 358 são doutores. Serão investidos US$ 6 milhões para reduzir o défi cit de doutores em 29 universidades públicas. Cada instituição deverá indicar 10 professores para a Senacyt, que fará a seleção fi nal – neste ano haverá 87 bolsas. Cada uma delas valerá cerca de US$ 70 mil, cobrindo despesas com matrículas e mensalidades, gastos com pesquisa, seguro saúde, edição da tese e passagens aéreas, entre outros.

entidade ambientalista, o WWF. Em dezembro, o IPCC viveu outra crise: uma polêmica sobre e-mails divulgados por hackers em que pesquisadores do painel pareciam desdenhar evidências importantes (mas que, diga-se, acabaram incorporadas aos relatórios). A química Pauline Midgley, que participará da elaboração dos relatórios de 2014, disse ao blog da revista Science que será reforçado o treinamento dos cientistas do painel para ajudá-los a conviver com pressões e a “lidar com artigos contrários à visão consensual”. Mudanças no processo de revisão deverão garantir que os comentários de todos os especialistas sejam considerados. Para Kevin Trenberth, cientista envolvido na polêmica dos e-mails, tais medidas são desnecessárias. “Os processos do IPCC funcionam bem ”, afi rmou.

> Sob o sol marroquino

O governo de Marrocos anunciou o plano de desenvolver um grande projeto de energia solar térmica destinado a produzir 38% da eletricidade do país em 2020, o equivalente a 2 mil

megawatts (MW). Dependente do petróleo de fora, Marrocos quer reduzir em 12% suas importações do óleo. O projeto ocupará áreas em cinco diferentes pontos do país, num total de 10 mil hectares, e usará sistemas de energia solar térmica concentrada (CSP, na sigla em inglês),

tecnologia capaz de produzir eletricidade convertendo a energia solar em calor de alta temperatura. O custo estimado é de US$ 9 bilhões e, segundo o governo, está prevista a participação da iniciativa privada. “O projeto ajudará o país a reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Serão 3,7 milhões de toneladas de carbono a menos por ano”, disse à agência SciDev.Net Said Mouline, diretor do Centro para o Desenvolvimento de Energias Renováveis de Marrocos. A especialista argelina Fatiha Bouhired elogiou as ambições do

Pesquisadores norte-ame-

ricanos e franceses pro-

gramaram visitas ao Haiti

nas semanas seguintes ao

terremoto de 12 de janei-

ro em busca de dados que

ajudem a explicar o de-

sastre. De acordo com a

revista Nature, Eric Calais,

geofísico da Universidade

Purdue, viajou para o Haiti

com o geólogo Paul Mann,

da Universidade do Texas,

para trabalhar na análise

das marcas produzidas pe-

lo sismo, que matou mais

de 170 mil pessoas e teve

7 graus de magnitude na

escala Richter. Mann des-

creveu em 1995 a falha geológica de Enriquillo, a origem

do sismo. Já Calais divulgou um trabalho em 2008 apon-

tando uma tensão perigosa na falha haitiana, sufi ciente

para produzir um terremoto de 7,2 graus de magnitude.

Os dados de campo obtidos pela dupla irão abastecer um

modelo que tentará calcular as áreas de maior tensão entre

as placas tectônicas e os locais com maior risco de sofrer

novos terremotos. Sismólogos das universidades de Nice

e Brest, na França, desembarcaram no Haiti com sismó-

grafos portáteis. Da Universidade de Miami, Tim Dixon e

Falk Amelung já estudam dados obtidos por um radar do

satélite japonês Advanced Land Observing para detectar

deformações da superfície antes do terremoto.

RA

ST

RO

S D

A C

AT

ÁS

TR

OF

E

MA

RC

EL

LO

CA

SA

L J

R/A

BR

Escombros de catedral em Porto Príncipe

ILU

ST

RA

ÇÕ

ES

LA

UR

AB

EA

TR

IZ

020-022_Estrat Mundo_168.indd 21020-022_Estrat Mundo_168.indd 21 29.01.10 23:28:5329.01.10 23:28:53

Page 22: Cogumelos iluminam a floresta

22 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ESTRATÉGIAS MUNDO>>

pesquisadores dos países africanos e árabes, garantindo a eles acesso a redes científi cas internacionais e a recursos computacionais. A Brain Gain Initiative, fruto de uma parceria com a fabricante de computadores Hewlett-Packard, permite aos pesquisadores colaborar com especialistas de todo o mundo através de recursos da computação em grade e em nuvem. A computação em grade combina o poder de processamento de vários

os graus mais elevados. “Concordamos que este sistema é arcaico”, disse à revista Nature Oleg Yordanov, físico do Instituto de Eletrônica em Sofi a. “Mas é preciso garantir um mínimo de qualidade.”

> Em grade e em nuvem

A Unesco, braço das Nações Unidas para a ciência, cultura e educação, está ampliando um esquema que busca reduzir o êxodo de

> Controle de qualidade

Três anos após aderir à União Europeia, a Bulgária trabalha para melhorar seu desempenho científi co, mas um projeto de lei que busca aperfeiçoar o ambiente de pesquisa atraiu protestos dos próprios cientistas. A lei propõe o fi m de uma comissão que concede graus acadêmicos e supervisiona as universidades. Em seu lugar, cada instituição seria responsável pela concessão de seus diplomas, como acontece no resto da Europa. Alguns pesquisadores dizem que a medida vai eliminar o controle de qualidade dos trabalhos de doutoramento e pós-doutoramento, tido como essencial nas novas universidades. A Bulgária tinha apenas quatro universidades em 1990. Agora elas são 53. Um grupo denominado Movimento Civil de Apoio à Ciência e à Educação da Bulgária pediu ao Parlamento mudanças no projeto, como a criação de um esquema de credenciamento das universidades antes de permitir que elas ganhem autonomia para conceder

Uma fraude agitou a co-

munidade científi ca chi-

nesa. Editores da revista

britânica Acta Crystallo-

graphica Section E des-

cobriram que são falsas

70 estruturas de cristais

publicadas pelos pesqui-

sadores Zhong Hua e Liu

Tao, da Universidade Jing-

gangshan, na província de

Jiangxi. A falsifi cação foi

fl agrada por um soft ware

capaz de sinalizar erros

ou características quími-

cas incomuns. O progra-

ma identificou grande

número de estruturas

cristalinas que não fazia

sentido quimicamente e

a verifi cação indicou que os pesquisadores mudaram um ou

mais átomos de um composto existente, apresentando o re-

sultado como novo. Hua e Tao foram demitidos. Universidades

chinesas frequentemente oferecem prêmios em dinheiro e

auxílios-moradia, entre outras vantagens, para pesquisadores

que publicam em revistas de impacto – e a pressão parece

estar crescendo. Um estudo da Universidade de Wuhan estima

que o mercado da chamada ciência duvidosa, que envolve

contratar desde quem escreva um artigo até quem simule

pesquisas inexistentes, foi da ordem de US$ 150 milhões em

2009 - cinco vezes o montante de 2007.

computadores em uma rede para trabalhar em um mesmo problema científi co, enquanto a computação em nuvem permite o acesso a aplicações recentes da web e a bancos de dados. Segundo a agência SciDev.Net, dois projetos da Universidade de Ouagadougou, de Burkina Faso, vão benefi ciar-se desse esquema: a modelagem do movimento de poluentes na bacia de drenagem do rio Sourou e a implementação de uma rede de computação de alto desempenho.

CIÊ

NC

IA D

UV

IDO

SA

ILU

ST

RA

ÇÕ

ES

LA

UR

AB

EA

TR

IZ

020-022_Estrat Mundo_168.indd 22020-022_Estrat Mundo_168.indd 22 29.01.10 23:28:5429.01.10 23:28:54

Page 23: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 23

ESTRATÉGIAS BRASIL>>

área. Segundo o diretor do centro, Ricardo Galvão, a ideia é premiar contribuições pontuais de excelência no campo da física. “A intenção do prêmio é reconhecer descobertas e desenvolvimentos singulares que tenham impulsionado o conhecimento na área de física. Por essa razão ele não será concedido para coroar cientistas pelo conjunto da obra, mas sim para

O Instituto de Pesquisas Tec-

nológicas (IPT) e o Instituto

Nacional de Pesquisas Espa-

ciais (Inpe) estudam uma par-

ceria para monitorar o risco de

deslizamentos de terra em me-

trópoles e cidades serranas. O

projeto, que ainda está em dis-

cussão no âmbito do governo

paulista, seria baseado num

sistema de alerta ancorado

em previsões e modelos clima-

tológicos desenvolvidos pelo

Inpe e na expertise do IPT na

avaliação de risco de desliza-

mentos – o instituto é o braço

técnico do plano de prevenção

de riscos que identifi ca áreas

ameaçadas em municípios de

São Paulo. Um dos desafi os

do projeto é criar sistemas

robustos de coleta de dados,

capazes de monitorar as chuvas e o movimento das encostas

continuamente, para abastecer os modelos. O Inpe tem ex-

periência no estudo da dinâmica dos deslizamentos de terra

que ocorrem em períodos de muita chuva em áreas da serra

do Mar. Mas, para viabilizar o projeto, seria necessário coletar

uma quantidade bem maior de dados sobre as característi-

cas das áreas de risco, a fi m de desenvolver novos modelos.

Outros pontos a serem desenvolvidos são a integração das

informações das duas instituições – avaliando, por exemplo,

dados sobre chuvas intensas em sobreposição à situação das

encostas da região atingida pela água – e a estratégia de

divulgação dos alertas para a população em risco.

AL

ER

TA

NA

S E

NC

OS

TA

S

intitulado “Cardiomiopatia induzida por ácido 3-nitropropiônico (3-NP) em camundongos – possível modelo de estudo para a doença de Huntington (DH)”, foi escolhido entre 83 inscritos. O estudo tem apoio da FAPESP na modalidade bolsa de doutorado e está sendo orientado por Antonio Augusto Coppi, responsável pelo Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP). A doença de Huntington é uma moléstia neurodegenerativa hereditária que afeta principalmente o sistema nervoso central e atinge cerca de 50% dos fi lhos de pais e mães portadores da desordem.

> Contribuição seminal

O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, recebe até 19 de março indicações de nomes para a primeira edição do Prêmio CBPF de Física, que será concedido a um pesquisador de fora dos quadros da instituição que tenha realizado trabalho científi co de excelência na

FO

TO

S R

OO

SE

WE

LTP

INH

EIR

O/A

BR

Morro da Carioca, em Angra dos Reis: deslizamentos em janeiro

reconhecer pesquisas seminais”, afi rma Galvão. Os candidatos devem ser indicados por pelo menos cinco cientistas de renome. As indicações serão analisadas pela Comissão do Prêmio, integrada por pesquisadores. O ganhador, que vai receber R$ 20 mil, será conhecido em maio.

> Trabalho premiado

O doutorando Fernando Vagner Lobo Ladd, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ganhou o Prêmio José Carlos Prates 2009, concedido pela instituição aos melhores trabalhos apresentados durante o 12o Congresso do Programa de Pós-graduação em Morfologia, realizado em dezembro. O trabalho,

023-025_EST.Brasil_168Novo.indd 23023-025_EST.Brasil_168Novo.indd 23 29.01.10 23:32:0829.01.10 23:32:08

Page 24: Cogumelos iluminam a floresta

24 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ESTRATÉGIAS BRASIL>>

Todas as 12 questões da prova

de química da segunda fase do

vestibular da Universidade Es-

tadual de Campinas (Unicamp),

ministrada no dia 11 de janeiro,

foram formuladas a partir de

reportagens de Pesquisa FA-

PESP. Desde 1987, quando o

vestibular da Unicamp deixou

de ser unifi cado, foi a primeira

vez que a universidade baseou

sua prova de química em ape-

nas uma fonte de informação.

As questões exploraram um

pouco da diversidade de temas

científi cos expostos na publica-

ção. A primeira pergunta, por

exemplo, foi formulada com base numa reportagem

publicada no número 163 da revista, de setembro de

2009, que trata da descoberta de estrelas da Via Láctea

com núcleo quase totalmente cristalizado. A segunda

foi inspirada num texto da edição 146, de abril de 2008,

que fala de um sistema de reciclagem de lâmpadas fl uo-

rescentes. A terceira é baseada em reportagem da edição 163,

que enfoca as pesquisas sobre o etanol de segunda geração.

A formulação de uma prova basea da numa única publicação

não tem precedentes em vestibulares, de acordo com Carlos

Alberto Ciscato, coordenador de química do curso pré-vestibular

Intergraus, de São Paulo. Segundo ele, a iniciativa se enquadra

numa tendência de contextualizar as questões. “Nenhuma prova

deixa mais as questões soltas e uma forma de contextualizá-

-las é usar textos da imprensa ou de livros”, afi rma ele. Segundo

Renato Pedrosa, coordenador da Comissão Permanente para

os Vestibulares da Unicamp (Comvest), a ideia partiu da banca

de professores que formulou o exame. “Normalmente não faze-

mos isso”, afi rma Pedrosa. “Mas Pesquisa FAPESP é uma boa

revista de divulgação científi ca, é da FAPESP, que é do estado

de São Paulo e não tem fi ns lucrativos. Esperamos que, com

esse gesto, os jovens

conheçam a revista.”

Ele explica que essa

deve ter sido a pri-

meira e a última vez

que uma prova da Uni-

camp se baseou numa

única fonte. Afi nal, a

universidade não pode

dar pistas de onde vai

retirar as ideias para

suas provas.

RE

FE

NC

IA P

AR

A E

ST

UD

AN

TE

S

Reportagens que inspiraram a prova da Unicamp

> Torres espetadas na fl oresta

Até o ano que vem, cinco torres serão instaladas na Reserva Florestal de São Sebastião do Uatumã, no Amazonas, equipadas com instrumentação tecnológica para experimentos científi cos e monitoramento contínuo da atmosfera. Trata-se do Programa Amazonian Tall Tower Observatorium (ATTO), que terá investimentos de € 8 milhões, divididos entre o ministério brasileiro da Ciência e Tecnologia (MCT) e o governo da Alemanha. Estão envolvidos no projeto a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Amazonas (Sect), a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o Instituto Max Planck de Química, da Alemanha, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). As torres, uma com

320 metros de altura e quatro com 60 metros, vão permitir o desenvolvimento de pesquisas ligadas, por exemplo, à avaliação do grau de infl uência da Amazônia nos processos químicos e físicos da atmosfera do planeta, em especial a emissão e absorção de gases causadores do efeito estufa, ou ao papel da fl oresta no ciclo hidrológico da região e do mundo. De acordo com seus organizadores, o programa fará da Amazônia um dos principais centros

FOT

OS

ED

UA

RD

O C

ES

AR

023-025_EST.Brasil_168Novo.indd 24023-025_EST.Brasil_168Novo.indd 24 29.01.10 23:32:1029.01.10 23:32:10

Page 25: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 25

nacionais, além da publicação de livros e patentes. Uma comissão coordenada pela

O programa Biota-FAPESP te-

rá uma agenda movimentada

em 2010 para acompanhar o

Ano Internacional da Biodiver-

sidade, declarado pelas Nações Unidas. No dia 22 de maio, o

Biota vai realizar um evento em São Paulo para comemorar

o Dia Internacional da Biodiversidade, com a participação de

Thomas Lovejoy, biólogo conservacionista que introduziu

o termo “diversidade biológica” nos anos 1990. Ele atual-

mente dirige o Centro Heinz para Ciência, Economia e Meio

Ambiente. O foco do evento será a terceira edição do Global

Biodiversity Outlook, publicação da Convenção sobre Diver-

sidade Biológica que avalia a situação atual e tendências

da biodiversidade. Dois workshops internacionais do Biota

estão previstos. Um deles, no fi nal de fevereiro, abordará o

tema “Metabolômica no contexto dos sistemas biológicos”.

No início de dezembro, o programa sediará outro workshop

para marcar o fi nal do Ano Internacional da Biodiversidade e

o início do Ano Internacional das Florestas (2011). Em outu-

bro, representantes do Biota vão acompanhar em Nagoia, no

Japão, a Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica

(COP 10). “Os países terão que demonstrar o que fi zeram

para atingir compromissos assumidos em abril de 2002”,

diz o coordenador do Biota-FAPESP, Carlos Joly. Outro ob-

jetivo, segundo Joly, é defi nir o regime internacional que vai

regulamentar o acesso a recursos genéticos e repartição de

benefícios, negociação que se arrasta há vários anos.

AGENDA MOVIMENTADA

mundiais de medidas e observações científi cas em estudos atmosféricos de regiões tropicais. A reserva Uatumã, de 400 mil hectares, situa-se a 250 quilômetros da capital Manaus.

> Indicações para o Nobel

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi convidada a indicar concorrentes ao Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2010. O convite, inédito na instituição, foi recebido por meio da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). “A Unicamp ser vista como uma instituição credenciada para a indicação de candidatos ao Nobel é sinal de reconhecimento da qualidade do trabalho de nossos pesquisadores, particularmente da FCM. Isso é motivo de orgulho”, disse ao Jornal da Unicamp o pró-reitor de Pesquisa da instituição, Ronaldo Pilli. Para o diretor da FCM, José Antônio Rocha Gontijo, um dos motivos da indicação da faculdade é a repercussão internacional de suas pesquisas. De 2004 a 2008,

a FCM publicou 4.318 artigos e resumos em periódicos internacionais e mais de 5 mil em periódicos

LA

UR

AB

EA

TR

IZ

Pró-Reitoria de Pesquisa e formada por professores e pesquisadores da FCM, do Instituto de Biologia (IB), da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) e outros pesquisadores convidados, foi convocada para elaborar uma lista de até 10 nomes de cientistas.

> Centro de pesquisa no Brasil

A gigante General Electric (GE) anunciou que abrirá um centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil, voltado para as áreas de petróleo e gás, energia e aviação (turbinas), que concentram os principais negócios da empresa no país. Ainda não foram defi nidos o investimento no centro de pesquisa, que deverá gerar 300 empregos, e a sua localização. As negociações para receber a unidade concentram-se em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, estados onde se localizam fábricas brasileiras da empresa. Será a quinta unidade de P&D da GE no mundo, que mantém centros na China, Índia, Alemanha e Estados Unidos, e a primeira na América Latina. “Com uma forte base industrial, universidades de primeira linha e importantes clientes das mais diversas indústrias, o Brasil é a escolha lógica para a nossa próxima instalação”, disse o executivo-chefe da empresa, Jeff Immelt, que visitou o Brasil em janeiro. Segundo Immelt, a GE investe anualmente US$ 6 bilhões em pesquisa no mundo.

023-025_EST.Brasil_168Novo.indd 25023-025_EST.Brasil_168Novo.indd 25 29.01.10 23:32:1629.01.10 23:32:16

Page 26: Cogumelos iluminam a floresta

26 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

COOPERAÇÃO

Esforço multiplicadoCom investimentos conjuntos do governo paulista, das universidades estaduais e da FAPESP, será criado o Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia

No último dia de 2009 o governo do estado de São Paulo, a FAPESP e as três universidades estaduais paulistas celebraram um acordo de cooperação que marcou o lançamento do Cen-tro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, uma iniciativa que busca criar uma base científi ca para ampliar a competitividade da pesquisa

paulista e brasileira em energia obtida de biomassa. Pelo convênio, a Secretaria de Ensino Superior do estado vai repassar R$ 18,4 milhões para as universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual Paulista (Unesp), que serão usados para a cons-trução de laboratórios, eventuais reformas e compra de equipamentos. As universidades, por sua vez, se compro-meteram em contratar pesquisadores em diversas áreas da pesquisa em bioenergia, que trabalharão em conjunto com os pesquisadores já atuantes neste campo nas três instituições, num esforço integrado. Já a FAPESP assu-miu a missão de selecionar e fi nanciar os projetos em bioenergia vinculados ao centro, além de participar da coordenação de seu conselho superior, cuja sede será na Fundação. “O Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia vem complementar os esforços no país para a criação de conhecimento e tecnologia em bioenergia, reforçan-do a parte de ciência básica e a formação de recursos humanos, objetivos nos quais nossas três universidades estaduais são excelentes”, explica o diretor científi co da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz.

O formato do novo centro, que foi alvo de discus-sões ao longo de todo o ano de 2009, é baseado numa partilha de investimentos e de responsabilidades. Cada um dos três atores envolvidos – governo, universidades e FAPESP – vai investir montantes equivalentes. O con-

Fabrício Marques | ilustrações Marcos Garuti

vênio veio em resposta a uma proposta amadurecida pelas universidades e pela FAPESP, que foi apresentada ao governo estadual. “A Fundação e as universidades estaduais paulistas discutiram longamente a ideia de se implantar um centro de pesquisa em bioenergia, sediado nas três universidades”, diz Brito Cruz, que coordenou a proposta. “O governo estadual aprovou a proposta formatada, dedicando os recursos orçamentários para uso na infraestrutura necessária. O plano apresentado previa investimentos do governo estadual para infraes-trutura, pela FAPESP para projetos de pesquisa e pelas universidades para admissão de professores”, afi rmou.

Os R$ 18,4 milhões do convênio assinado em de-zembro correspondem ao investimento do governo es-tadual para a primeira fase da implantação do centro. O governador de São Paulo, José Serra, afi rmou durante a inauguração do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), no dia 22 janeiro, que os recursos para o Centro Paulista de Pesquisa em Bioe-nergia deverão superar R$ 150 milhões, o que projeta um investimento superior a R$ 50 milhões para cada uma das partes.

Os novos laboratórios deverão ter um caráter multi-disciplinar e envolver pesquisadores de áreas como agro-nomia, química, biologia, física, matemática, engenharia e ciências sociais. “A aglutinação de competências das universidades é o forte desse projeto e o objetivo é que o Brasil avance no que diz respeito ao conhecimento em bioenergia”, diz o reitor da Unesp, Herman Voorwald. Para o reitor da Unicamp, Fernando Costa, a experiên-cia pode defi nir um modelo novo de fazer pesquisa. “A parceria entre universidades, governo e FAPESP é uma experiência inovadora”, diz. “Temos agora o desafi o de

POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA>

026-030_centro de bioenergia_168.indd 26026-030_centro de bioenergia_168.indd 26 29.01.10 23:34:3729.01.10 23:34:37

Page 27: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 27

procurar os melhores pesquisadores, aqui no Brasil ou no exterior, para preencher as vagas que serão criadas”, afi rma Costa. Segundo o reitor da USP, João Grandino Rodas, a parceria prevista no centro revela uma abertura das universidades a demandas da sociedade. “O fato de a universidade ser autônoma não signifi ca que ela deva se fechar em seus próprios interesses. A bioenergia é um desses temas que precisam reunir esforços de todos os segmentos possíveis, pois tem impacto tanto na quali-dade de vida das pessoas quanto no desenvolvimento do país. E o avanço na pesquisa nesse campo vai render benefícios para a sociedade e também para nossos alu-nos e professores”, disse o reitor.

O físico José Goldemberg, reitor da USP entre 1986 e 1990, ressalta que a arquitetura do novo centro dá uma resposta aos desafi os mapeados pela Comissão de Bioenergia do governo paulista, coordenada por ele entre 2007 e 2008. “Ficou claro para a comissão que a expansão da produção do etanol no estado exigia um aumento de produtividade e que era necessário avançar em pesquisa para desenvolver novas tecnologias”, diz Goldemberg. Segundo ele, foram aventadas outras pos-sibilidades para enfrentar o problema, como a criação de um instituto estadual de bioenergia. “Creio que essa solução foi interessante, pois vai trazer pessoal novo para a pesquisa em bioenergia e envolve os pesquisadores das universidades nesse esforço. Não é só o governo que está colocando dinheiro”, disse. Segundo Franco Lajolo, vice-reitor da USP que assumiu a reitoria interinamente no fi nal de 2009 e participou das negociações do novo centro, a iniciativa é “um jogo em que todos os partici-pantes vão ganhar”. O essencial, segundo ele, é garantir que não faltem recursos para as próximas etapas do

026-030_centro de bioenergia_168.indd 27026-030_centro de bioenergia_168.indd 27 29.01.10 23:34:3729.01.10 23:34:37

Page 28: Cogumelos iluminam a floresta

28 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

centro. “A colaboração entre universidades, governo e FAPESP vai ampliar nossa capacidade de resolver gran-des problemas em bioenergia, condição fundamental para não perdermos a nossa competitividade.”

A pesquisa em bioenergia vem crescendo no país, principalmente em São Paulo, estado que concentra boa parte da produção de cana do país, e envolve iniciativas federais, estaduais e do setor privado. O Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, de acordo com seus ideali-zadores, quer diferenciar-se de iniciativas já existentes mirando em avanços na fronteira do conhecimento, asso-ciados à formação de recursos humanos qualifi cados.

Pós-graduação - Uma das ambições do novo centro, cuja viabilidade ainda está sendo avaliada, é criar um programa conjunto de pós-graduação envolvendo as três universidades. As três instituições têm tradição em estudos de bioenergia, sobretudo na área de agronomia, com destaque para a USP e a Unesp, na de conversão de biomassa, que é bem desenvolvida na Unicamp, e em genômica, no âmbito do Programa FAPESP Sucest (Sugar Cane Est), que mapeou os fragmentos de genes funcionais da cana. Mais conhecido como Genoma Ca-na, este projeto foi iniciado em 1999 por cerca de 240 pesquisadores liderados pelo professor Paulo Arruda, da Unicamp, com fi nanciamento da FAPESP e da Coo-perativa dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Coopersucar). Depois de 2003, Glaucia Mendes Souza, do Instituto de Química da USP, assumiu a coordenação do Sucest e iniciou o Projeto Sucest-FUN, composto por uma rede de pesquisadores dedicados à análise funcional dos genes da cana e à identifi ca-ção de genes associados a determinadas características agronômicas.

O centro também promoverá a ampliação do número de pesquisadores trabalhando no campo da bioenergia no estado de São Paulo. Na fase de implantação, as três universidades deverão contratar 17 docentes e pesquisa-dores. Esse número deve chegar a cerca de 50, à medida que novos investimentos no centro forem feitos pelo governo. Um mapeamento dos profi ssionais atuantes nas três instituições paulistas foi realizado pelo Comitê de Pesquisa em Bioenergia, que organizou a proposta do centro, composto pelo diretor científi co da FAPESP, Car-los Henrique de Brito Cruz, e pelos professores Antonio Roque Dechen, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, Nelson Ramos Stradiotto, do Instituto de Química da Unesp, e Luís Augusto Barbosa Cortez, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp.

026-030_centro de bioenergia_168.indd 28026-030_centro de bioenergia_168.indd 28 29.01.10 23:34:3829.01.10 23:34:38

Page 29: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 29

No mapeamento foram consultados 456 docentes e pesquisadores, sendo que 365 deles, ou 80% do total, respon-deram ao questionário. A conclusão foi que existe um número signifi cativo de pesquisadores das três universidades que desenvolvem pesquisa em bioener-gia e que a capacitação concentra-se na produção de biomassa e nos processos industriais ligados à produção de bioe-nergia. “A presença brasileira no âmbito das publicações científi cas é grande na área de agronomia e de desenvolvimen-to de variedades da cana, mas não é tão expressiva em outras áreas”, diz Cortez, da Unicamp. “Precisamos investir em pesquisa para que o Brasil busque a liderança em todas as áreas, pois não basta ser forte em apenas algumas de-las”, afi rma.

Há um número relativamente baixo de pesquisadores que atuam, por exem-plo, na área de motores automotivos, o que coloca um problema para o futuro dos motores fl exíveis para álcool e gasoli-na – eles só existem atualmente no Brasil, não são alvo de investimentos vultosos pelas fi liais das montadoras e tendem a perder competitividade para os motores a gasolina e diesel, cujo desenvolvimento é impulsionado pelas matrizes dos fabri-cantes de carros. “Com a identifi cação dos pontos de estrangulamento, podere-mos defi nir melhor onde alocar recursos humanos, reforçando áreas já existentes e suprindo lacunas nas menos pesqui-sadas”, afi rma Antonio Roque Dechen, da Esalq-USP. Para Nelson Stradiotto, da Unesp, a ampliação do contingente de pesquisadores e o estímulo à formação de doutores permitirão que o país con-te com uma nova geração de cientistas trabalhando em temas de fronteira num horizonte de 10 anos. “Temos que pensar alto, pois é isso que os Estados Unidos estão fazendo hoje”, afi rma.

Outra área que conta com um nú-mero limitado de pesquisadores é a de biorrefi narias, que busca desenvolver

O Brasil tem tradição em pesquisa em bioenergia, mas há limitação de recursos

humanos em áreas como motores automotivos e biorrefinarias

insumos químicos e polímeros verdes, estimulando a substituição de petró-leo por etanol como matéria-prima. “A meta do centro não é simplesmente produzir mais combustível com custos menores, mas produzir riqueza a partir do conhecimento. Se quisermos que a biomassa seja sucedânea dos com-bustíveis fósseis, precisamos torná-la lucrativa como o petróleo, investindo em novas aplicações, como a geração de energia e a alcoolquímica, que ampliam a renda para o setor e a sociedade”, afi r-ma Cortez.

Vantagem competitiva - A base cien-tífi ca produzida pela iniciativa busca ajudar o Brasil a competir com outros países, notadamente os Estados Unidos, na transição para as tecnologias de se-gunda geração, aquelas que prometem extrair energia de celulose. O Brasil, que dispõe da tecnologia mais efi ciente de etanol de primeira geração, extraída da sacarose da cana-de-açúcar, tem uma vantagem competitiva na corrida da tec-nologia de segunda geração, que é uma enorme disponibilidade de biomassa, na forma de bagaço e palha de cana. Tais substratos correspondem a dois terços da energia disponível na cana e hoje são aproveitados na queima e geração de eletricidade. Mas o país não tem inves-tido tanto quanto seus competidores na superação dos desafi os tecnológicos que persistem – hoje ainda não há tecnologia economicamente viável para extração de energia de celulose. Para vencer esses desafi os e buscar conquistas de impac-to, o centro investirá em pesquisa bási-ca, deixando para outras iniciativas já existentes a preocupação com avanços incrementais. A pesquisa aplicada e o desenvolvimento tecnológico realizados no centro deverão acontecer em coope-ração com o setor privado.

O novo centro vai incorporar-se ao esforço do Programa FAPESP de Pes-quisa em Bioenergia (Bioen), lançado

em julho de 2008 com o objetivo de avançar em ciência básica e em desen-volvimento tecnológico relacionados à geração de energia obtida de biomassa. Além de buscar a competitividade eco-nômica do biocombustível brasileiro, o centro tem uma meta socioambiental, que é produzir conhecimento capaz de melhorar os indicadores de sustentabi-lidade da cadeia produtiva da cana-de- -açúcar. “A estratégia fundamental do centro é aumentar o número de cien-tistas em áreas de ciência básica rela-cionadas aos temas do Programa Bioen da FAPESP em São Paulo”, disse Brito Cruz, diretor científi co da Fundação. “É muito signifi cativo que o governo estadual tenha aprovado a proposta da FAPESP e das universidades, garantin-do apoio adicional com investimento direto, para um programa de pesquisas organizado pela Fundação”, afi rmou.

Os programas de pesquisa do cen-tro deverão compreender as mesmas áreas previstas na criação do Bioen, e que envolvem toda a cadeia produtiva da cana-de-açúcar. São elas a produção da biomassa para bioenergia, a pesquisa de meios de produção de bioenergia, as biorrefi narias e alcoolquímica, a área de aplicação em motores automotivos e, por fi m, os aspectos de sustentabili-dade, como os impactos econômicos, sociais e ambientais do uso da bioener-gia. Cada uma dessas linhas de pesquisa promoverá iniciativas nas áreas de edu-cação e de difusão, a fi m de estimular a transferência para a sociedade do conhecimento produzido.

Duas áreas consideradas fundamen-tais para ampliar a produtividade da cana são as dos mecanismos que envol-vem a fotossíntese na cana-de-açúcar e a das relações funcionais da genômi-ca da cana. No caso da fotossíntese, a ambição é conhecer melhor o processo pelo qual a planta fi xa o carbono, con-vertendo a energia solar em energia química. Tal processo é reconhecido

026-030_centro de bioenergia_168.indd 29026-030_centro de bioenergia_168.indd 29 29.01.10 23:34:3929.01.10 23:34:39

Page 30: Cogumelos iluminam a floresta

30 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

como de baixa efi ciência e, no caso da cana-de-açúcar, não tem despertado a curiosidade dos pesquisadores. Em relação à genômica, a intenção é criar vias de manipulação genética para ob-ter variedades adaptadas a diferentes ambientes de produção, como clima, disponibilidade de água, fertilizantes e tolerância a herbicidas. Ainda hoje, a obtenção dessas variedades é feita com base em técnicas tradicionais de melhoramento genético.

Sustentabilidade - A pesquisa em sus-tentabilidade, um tema que se tornou tão essencial quanto o da produtivida-de, também será intensifi cada. “Parao desenvolvimento da bioenergia no Brasil, é fundamental associarmos os esforços pelo aumento de produtivida-de ao objetivo da sustentabilidade. Só a bioenergia sustentável terá um futuro no século XXI”, afi rma Brito Cruz. No campo da agricultura, existem temas emergentes como a utilização de téc-nicas de plantio direto, já usadas nas culturas do milho e da soja, mas ainda uma novidade na cana-de-açúcar, para reduzir a compactação do solo causada pela colheita mecanizada. A proibição das queimadas nos canaviais abrirá campos de pesquisa relacionados à fer-tilidade do solo, o uso de herbicidas e questões relativas à biodiversidade. “A melhoria de indicadores ambientais e

sociais está diretamente relacionada à defi nição de uma nova agricultura da cana, que comece por entender a fo-tossíntese e a genômica da cana e passe pela redefi nição das mais importantes etapas que levarão à aceitação do etanol de cana-de-açúcar como um combus-tível líquido efetivamente renovável e com atributos ambientais inequívocos, principalmente quanto à sua capacidade de mitigar os gases de efeito estufa”, diz Antonio Roque Dechen, da Esalq-USP.

A inspiração para o novo centro vem da experiência de países como Austrália, Estados Unidos, África do Sul, Espanha e França, mas talvez as principais referências sejam os dois centros criados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE, na sigla em inglês). Um deles, o National Renewable Energy Laboratory (NREL), é voltado a pesquisas de conversão de biomassa em energia. O outro, o Oak Ridge National Laboratory (ORNL), dedica-se mais à pesquisa envolvendo a produção da biomassa. Tais centros desenvolvem pesquisa conjunta com centros de pesquisa ligados a várias universidades norte-americanas. “Es-tes centros no exterior, notadamente os do DOE, envolvem forte colaboração com boas universidades americanas e podem nos servir de modelo”, diz Cor-tez, da Unicamp. “Em conjunto com a iniciativa privada, pode haver uma

boa complementaridade nas ações e objetivos da pesquisa básica e suas aplicações”, afi rma.

A coordenação do centro caberá a um conselho superior, sediado na FAPESP e composto por sete membros: um representante da FAPESP, um de cada universidade, um do governo es-tadual e dois de empresas do setor do açúcar e do álcool. Esse conselho irá de-terminar a orientação geral do centro, acompanhar o processo de implantação, estimular a integração de esforços das três universidades e propor parcerias. Para assessorar o conselho superior será formado um conselho científi co consul-tivo internacional, que se reunirá uma vez por ano para avaliar cientifi camente os programas e os resultados alcança-dos. O conselho científi co será consti-tuído por pelo menos seis especialistas de renome internacional, atuantes em pesquisa básica nas áreas correlatas com as atividades do centro.

Está em desenvolvimento um acor-do de colaboração com a Unesco, o bra-ço das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, que prevê o status de centro associado à Unesco na categoria II (centros de pesquisa não administra-dos pela Unesco e reconhecidos por ela como de classe mundial). O objetivo é garantir um maior relacionamen-to internacional. O recrutamento de bons alunos e pesquisadores no exte-rior também é considerado estratégico por auxiliar o conjunto de políticas que compõem a chamada agenda de diplo-macia brasileira do etanol: ao mesmo tempo que promove a liderança tecno-lógica do Brasil também ajuda a garan-tir mercados de outros países.

O matemático Jacob Palis, presiden-te da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS), elogiou o caráter internacional do cen-tro e disse que a TWAS tem interesse em estabelecer parcerias com a inicia-tiva. “O novo centro poderá propiciar a formação de pesquisadores não só do Brasil, mas também de outras nações, em particular da África, que dispõe de áreas degradadas que poderiam ser destinadas à produção do etanol”, afi r-ma. “Será interessante haver um fl uxo de doutores e pós-doutores de países em desenvolvimento para o novo cen-tro”, diz Palis. ■

026-030_centro de bioenergia_168.indd 30026-030_centro de bioenergia_168.indd 30 29.01.10 23:34:4029.01.10 23:34:40

Page 31: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 31

BIOENERGIA

Centro

Laboratório em Campinas vai investir em gargalos da pesquisa do álcool de celulose

Foram inauguradas em Campi-nas (SP), no dia 22 de janeiro, as instalações do Laboratório Nacional de Ciência e Tecno-logia do Bioetanol (CTBE), um centro de pesquisa voltado para o desenvolvimento do etanol

de segunda geração, aquele produzido a partir da celulose. O laboratório foi concebido em 2007 e já contou com R$ 69 milhões de investimentos do go-verno federal. Algumas pesquisas em andamento têm apoio da FAPESP, num montante de R$ 2 milhões, segundo Marco Aurélio Pinheiro Lima, diretor do CTBE. Além de desenvolver proje-tos de pesquisa relacionados a todas as etapas de produção do etanol, o centro tem a ambição de oferecer uma plataforma que possa ser utilizada por pesquisadores de todos os lugares do Brasil, e também da América Latina, em moldes semelhantes aos do uso das instalações do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). O LNLS, o CTBE e o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) dividem o mesmo campus em Campinas e são coordena-dos por uma instância que acaba de ser criada pelo governo federal, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Ma-teriais (CNPEM).

Desafios - Segundo o diretor Marco Aurélio Lima, a ideia de criar o laborató-rio surgiu de um estudo que levantou os desafi os da produção brasileira de eta-nol para os próximos 15 anos. Uma das metas era responder o que o país preci-saria fazer para produzir etanol capaz de substituir 10% da gasolina consumida no planeta no ano de 2025. “Muitos dos gargalos identifi cados demandam inves-timentos em ciência para resolvê-los”, diz Lima. O centro fi rmou acordos de

cooperação com o Imperial College, da Inglaterra, e a Universidade Lund, da Suécia, com os quais desenvolverá pes-quisas conjuntas. Também foi celebrado um acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em torno de estudos no campo da susten-tabilidade da cultura da cana.

Presente à inauguração, o presiden-te Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou a importância do CTBE para que o Brasil dê um novo salto tecnológico. “Espero que este laboratório possa utilizar todo o seu potencial para que a gente possa transformar o etanol no combustível mais utilizado do mundo”, disse. Lula lamentou o aumento no preço do etanol combustível e criticou os usineiros que reduziram a produção de álcool para fabricar mais açúcar. “Se a gente passar para o mundo a ideia de que não estamos dando conta sequer do nosso mercado interno, nós não

iremos levar o álcool para vender no mundo inteiro”, afi rmou.

Para o governador de São Paulo, Jo-sé Serra, o centro será um espaço propí-cio para colaboração entre os governos federal e estadual. “Para nós, a criação do CTBE é uma notícia grata e se soma ao esforço de pesquisa feito no estado no campo da bioenergia”, disse Serra. “Na prática, a integração já existe. To-dos os três diretores do centro são pes-quisadores de universidades estaduais paulistas. Um é pesquisador da USP e os outros dois da Unicamp”, afi rmou. Serra citou a criação do Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, no fi nal de 2009, que irá integrar os pesquisadores das três universidades e contratar novos pesquisadores em temas de fronteira, no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen).

Segundo o diretor científico do CTBE, Marcos Buckeridge, a abran-gência dos trabalhos do novo centro coincide com a do Bioen, que deverá contribuir com o laboratório e também se benefi ciar da sua infraestrutura. “Es-tá em formação um sistema brasileiro de bioenergia que reunirá os trabalhos de uma elite de especialistas espalha-dos pelo país”, anuncia Buckeridge, que

também dirige o Institu-to Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol e é membro da coordena-ção do Bioen. ■

Fabrício Marques

>

Laboratório do CTBE, em Campinas: fôlego para o sistema de pesquisa em bioenergia

ED

UA

RD

O C

ES

AR

avançado

031_ctbe_168.indd 31031_ctbe_168.indd 31 29.01.10 23:36:2929.01.10 23:36:29

Page 32: Cogumelos iluminam a floresta

32 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ENSAIOS CLÍNICOS

Demandas do SUSRede de pesquisa em hospitais de ensino é ampliada

Os ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia anunciaram no fi nal de 2009 a ampliação da Rede Nacional de Pesquisa Clínica em Hospitais de Ensino (RNPC), cuja estrutura passou de 19 para 32 centros espalhados pelo país. A rede, criada em 2005, tem um duplo objetivo. De um lado, busca institucionalizar a pesquisa clínica em hospitais de ensino de vários lugares do país, fazendo com que ganhem com-

petência na realização em ensaios clínicos, uma expertise que, até pouco tempo atrás, se limitava a instituições hospitalares de grandes metrópoles. De outro, dá ênfase a demandas da saúde pública, testan-do medicamentos, procedimentos e dispositivos para diagnóstico de doenças de interesse do Sistema Único de Saúde (SUS). “A ideia da rede é dar uma chance ao SUS de ter estudos clínicos que atendam a suas necessidades”, diz o secretário de Ciência, Tecnologia e Insu-mos Estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães. “Até poucos anos atrás, a contratação de protocolos de estudos clínicos pelas empresas farmacêuticas era habitualmente realizada em padrões privados, diretamente com um pesquisador, sem nenhuma interven-ção institucional, a despeito de as pesquisas usarem infraestrutura e pessoal das instituições públicas. Com a colaboração de universida-

>

032-033_teste clinico_168.indd 32032-033_teste clinico_168.indd 32 05.02.10 16:20:3405.02.10 16:20:34

Page 33: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 33

instituições brasileiras e é coordena-do por Eduardo Moacyr Krieger, do Instituto do Coração da FMUSP. Con-siste no estudo de 2 mil pacientes por um período de 12 meses em que as diretrizes de tratamento são seguidas utilizando medicamentos e infraes-trutura da rede SUS para identifi car os pacientes resistentes ao tratamen-to convencional com até três drogas contra a hipertensão. Outro projeto de destaque é o Prever – Prevenção de eventos cardiovasculares em pacientes com pré-hipertensão e hipertensão ar-terial. O objetivo deste estudo, coorde-nado pelo professor Flavio Fuchs, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é comparar, por meio de en-saio clínico, a efi cácia da associação de duas drogas, a clortalidona e a amilo-rida, em baixas doses, na prevenção de doença cardiovascular e hipertensão arterial sistêmica em pacientes com pré-hipertensão arterial. Também busca comparar a efi cácia da droga losartana com a associação de clorta-lidona e amilorida, na prevenção de eventos cardiovasculares em pacientes com hipertensão arterial severa. “Esses dois projetos demonstram interesse no

desenvolvimento de experiência mul-ticêntrica na rede de pesquisa clínica, treinando profi ssionais para a elabora-ção de projetos e coleta de dados para responder a questões de pertinência social, de interesse do gestor em saúde e não de corporações farmacêuticas”, diz Guimarães.

Um dos novos centros a aderir à rede é o Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), de Tubarão (SC). Segundo Daisson José Trevisol, que é integrante do Departamento de En-sino e Pesquisa do HNSC e coorde-na a unidade hospitalar de ensino da Universidade do Sul de Santa Catari-na (Unisul), instituição comunitária e sem fi ns lucrativos, a expectativa é ampliar as possibilidades de pesquisas clínicas tanto da universidade quanto do hospital, treinando e equipando os núcleos de pesquisa. “Esperamos tornar a pesquisa autossustentável, permitin-do que nossos alunos aprendam a pes-quisar e que nossos professores tenham a possibilidade de publicar artigos em revistas internacionais de impacto na comunidade científi ca”, afi rmou. ■

Fabrício Marques

FOT

OS

ED

UA

RD

O C

ES

AR

des e hospitais, essa prática tende a ser residual hoje em dia”, afi rma.

Segundo Guimarães, a rede não pre-tende atrapalhar a relação direta entre laboratórios farmacêuticos e pesqui-sadores, mas oferecer uma alternativa institucional que tenha como meta o interesse público. “A apropriação das tecnologias envolvidas em testes clíni-cos não é habitualmente prevista nos protocolos contratados por empresas farmacêuticas”, diz. “Nesses casos, a equipe recebe um protocolo pronto e fechado, adquire os dados dos pacien-tes e os envia para uma central fora do país. O aprendizado é pobre.” Segundo um levantamento do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, entre 2006 e 2007 foram inicia-dos 942 projetos de pesquisa clínica em 16 centros dos 19 então participantes da rede. Foram fi nanciados pelo SUS 113 deles, 380 por agências federais e esta-duais de fomento e 337 por empresas privadas. Nos três primeiros anos de operação a rede teve investimentos de R$ 35 milhões. Não estão previstos re-cursos adicionais para a sua expansão.

Tradição - A RNPC reúne instituições com tradição em ensaios clínicos, como o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), cujo comitê de ética em pesquisa recebe cerca de mil proto-colos de pesquisa por ano para avaliar e cuja adesão à rede resultou no apri-moramento da estrutura já existente, a unidades hospitalares que começaram recentemente a participar de ensaios. Um exemplo é o Hospital Universitário João de Barros Barreto, da Universidade Federal do Pará, que, com os recursos fi nanceiros recebidos por meio da rede, desenvolveu uma unidade de pesquisa clínica integrada a outros centros de investigação da universidade. “Essa in-tegração é saudável. Com o trabalho em rede, as instituições mais tradicionais repassam sua experiência para as de-mais”, diz Reinaldo Guimarães.

Um dos exemplos de pesquisa de interesse do SUS realizada pela rede é um estudo que busca identifi car pacientes com hipertensão resisten-te, entre as diversidades regionais da população brasileira, e determinar a melhor abordagem terapêutica para este subgrupo. O estudo envolve 25

032-033_teste clinico_168.indd 33032-033_teste clinico_168.indd 33 05.02.10 16:20:3505.02.10 16:20:35

Page 34: Cogumelos iluminam a floresta

34 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

HOMENAGEM

Entre o laboratório

Oscar Sala aliou excelência científi ca à liderança institucional

E comum pesquisadores mudarem a direção de suas atividades principais com o passar dos anos. Alguns optam por se tornarem gestores de ciência e tecnologia e acabam absorvidos pela burocracia de tal maneira que raramen-te voltam a frequentar laboratórios ou salas de aula. Mas há uma classe de cientistas que

consegue conciliar todas as diferentes atividades com a mesma aptidão e qualidade durante a maior parte da vida. Oscar Sala foi uma dessas invulgares perso-nalidades da ciência brasileira, a julgar por todos os depoimentos sobre ele. Morto no dia 2 de janeiro em consequência de uma parada cardíaca, aos 87 anos, foi um dos principais físicos do país e um gestor com-petente e importante, intimamente ligado à história da FAPESP como seu diretor científi co, entre 1969 e 1975, e presidente, entre 1985 e 1995. Deixou esposa, Rosa Augusta, três fi lhos e seis netos.

Oscar Sala nasceu em Milão, na Itália, de pai brasileiro e mãe italia-na. Veio com a família para Bauru, no interior paulista, aos 2 anos. For-mou-se em música no conservatório da cidade, mas optou por cursar en-genharia na Escola Politécnica. Sua passagem para a física se deu duran-te o período de férias em Bauru. “No campo de aviação havia uma grande movimentação com os balões que eram soltos a grandes altitudes para medirem a radiação cósmica. Um dia estava lá e comecei a conversar com um senhor, que era justamente o Gleb Wataghin”, contou Sala em entrevista a Amélia Império Ham-burger, publicada no livro Cientistas do Brasil (SBPC, 1998). Wataghin, russo radicado na Itália, foi um dos professores estrangeiros que ajuda-ram a consolidar a Universidade de São Paulo (USP), responsável por

uma extraordinária geração de físicos brasileiros. “Já tinha lido um pouco sobre radiação cósmica e fi z algumas perguntas a ele, que perguntou o que eu fazia e, afi nal, me convenceu a sair da Poli e a entrar para a Física.” As experiências faziam parte da expedição liderada pelo norte-americano Arthur Compton, que visitou o Brasil em 1941. No mesmo ano Sala começou como aluno da Física e se formou em 1945. Ainda estudante, colaborou com o Exér-cito brasileiro construindo transmissores portáteis usados na campanha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1946 tornou-se assistente da cadeira de físi-ca geral e experimental, regida por Marcello Damy

>

Os físicos: Ernst Hamburger (em pé), Sérgio Mascarenhas, Damy, José Goldemberg e Sala

AC

ER

VO

IF/U

SP

e o gabineteNeldson Marcolin

´

034-037_oscar sala_168.indd 34034-037_oscar sala_168.indd 34 29.01.10 23:40:3029.01.10 23:40:30

Page 35: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 35

Nos anos 1960 conquistou a cátedra de física nuclear e começou a atuar de modo sistemático em organizações do Brasil e do exterior para tratar de temas relacionados à sua especialidade e de assuntos relativos à política científi ca e tecnológica. Integrou o Comitê Internacional sobre Estrutura Nuclear (Kin-gston, 1960) e o Conselho Deliberativo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi co e Tecnoló-gico (CNPq, 1964-1968), entre vários outros orga-nismos. Foi, ainda, um dos fundadores e o primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Física (1966).

Sala em julho de 1977,

ano da reunião da SBPC

na PUC-SP, invadida pela

polícia

de Souza Santos, outro discípulo de Gleb Wataghin. No mesmo ano ganhou bolsa da Fundação Rocke-feller e foi estagiar na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sob a orientação de Maurice Goldha-ber, para trabalhar com física de nêutrons. Em 1948 mudou-se para a Universidade de Wisconsin, no mesmo país, e projetou com Ray Herb o acelerador eletrostático, do tipo Van de Graaff, para ser instalado na USP. Esse foi o primeiro equipa-mento a utilizar feixes pulsados para estudos sobre reações nucleares com nêutrons rápidos, importante para a pesquisa na área de energia nuclear. E, já em 1972, montou no Instituto de Física da USP o projeto parcial do acelerador Pelletron, que substituiu o Van de Graaff.

Ação e reação - “Sala percebia bem o momento em que as coisas acon-teciam e sabia como reagir a elas”, diz o físico e historiador Shozo Mo-toyama, do Centro Interunidade de História da Ciência da USP. Assim, por exemplo, logo depois da Segun-da Guerra Mundial, percebendo a importância que a física nuclear experimental poderia ter no Brasil, empenhou-se para consolidá-la. Soube escolher bem os aceleradores de partículas adequados ao magro orçamento brasileiro em ciência e tecnologia, mas capazes de contribuir com resultados científi cos rele-vantes naquele momento histórico. Foi dentro dessa percepção que montou o Van de Graaff na década de 1950 e o Pelletron nos anos 1970. Em torno dessas máquinas formaram-se pelo menos duas gerações de físicos nucleares brasileiros. “Em 1981, Sala recebeu o Prêmio Moinho Santista graças, em grande parte, a esses trabalhos”, afi rma Motoyama.

CL

AU

DIN

E P

ET

RO

LI/

AG

ÊN

CIA

ES

TAD

O

034-037_oscar sala_168.indd 35034-037_oscar sala_168.indd 35 29.01.10 23:40:3229.01.10 23:40:32

Page 36: Cogumelos iluminam a floresta

36 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

Em 1969 o então diretor científi co da FAPESP, Alberto Carvalho da Silva, foi afastado do cargo pelos militares. O presidente do conselho superior da Fundação, Antonio Barros Ulhôa Cintra, ex-reitor da USP, fez um apelo a Sala para que assumisse a diretoria. “Ele me disse que se não aceitasse a FAPESP seria fechada”, contou Sala a Amélia Hamburger para Cientistas do Brasil. “Durante mais de um ano fui à casa do Alberto todas as semanas, pa-ra discutir diretrizes, e criamos uma amizade muito grande.” Com habili-dade, fi rmeza e bons contatos, o físico conseguiu manter o regime militar a uma boa distância da Fundação, sem atrapalhar sua rotina. “O interessante é que ele formou uma dupla infl uente com o Alberto Carvalho da Silva duran-te muitos anos”, afi rma Amélia.

“Sala foi diretor científi co em um momento muito delicado. Sua atuação foi decisiva no processo de consolida-ção dos ideais da Fundação”, diz Celso Lafer, presidente da FAPESP. “Ele teve enorme infl uência no bom desenvol-vimento da FAPESP na diretoria cien-tífi ca e na presidência da instituição”, corrobora o diretor científi co Carlos Henrique de Brito Cruz. José Fernando Perez, ex-diretor científi co (1993-2005) e atual presidente da empresa Recepta Biopharma, diz que o físico foi “um campeão” na permanente afi rmação da

autonomia da Fundação. “Sala soube protegê-la com sabedoria e fi rmeza de ingerências políticas”, lembra.

Grandes projetos - No ano em que se tornou diretor científi co ele apresentou um plano para apoiar grandes proje-tos, aprovado pelo conselho superior da FAPESP. De acordo com a ata do conselho de 1969, o objetivo era “desti-nar 30% do total da verba de amparo à pesquisa ao custeio de projetos através dos quais possam ser resolvidos ou bem equacionados importantes problemas de determinadas áreas”. A partir dessa data a nova política de apoio resultou em Iniciativas e Projetos Especiais. Uma das consequências imediatas foi o Plano para Desenvolvimento da Bioquímica na Cidade de São Paulo, o Bioq-FAPESP, com 14 projetos cientí-fi cos e investimento inicial de US$ 1 milhão, previsto para três anos.

“O Bioq eliminou hierarquias, principalmente a científi ca: elabora-va projetos quem queria e ganhava quem podia ou fazia um bom proje-to”, conta o bioquímico Walter Colli, pesquisador do Instituto de Química da USP, dirigido por ele em duas oca-siões (1986-1990 e 1994-1998). “Uma grande quantidade de jovens montou os seus laboratórios de pesquisa, ela-borando relatórios e publicando tra-balhos.” De acordo com Colli, todos os

que participaram do programa foram bem-sucedidos. A participação de Os-car Sala não se limitou à proposta do plano. “Ele montou um comitê externo com três cientistas estrangeiros presi-didos pelo norte-americano Marshall Nirenberg, Prêmio Nobel de Medicina (1968), que veio várias vezes ao Brasil. Esse comitê acompanhava o progresso dos diferentes grupos entrevistando-os um a um”, lembra o bioquímico. “Co-mo esse era um projeto para a cidade de São Paulo havia uma distribuição racional de equipamentos entre os di-versos grupos.” O Bioq-FAPESP resul-tou na formação de dezenas de proje-tos, grupos e laboratório, envolvendo aproximadamente duas centenas de pesquisadores, além do intercâmbio com cientistas estrangeiros e a vinda de professores visitantes, de acordo com o livro Prelúdio para uma história – Ciên-cia e tecnologia no Brasil, organizado por Shozo Motoyama (Edusp/FAPESP, 2004).

O projeto para a área de meteoro-logia foi outra iniciativa importante da diretoria científi ca daquele período. Como esse campo se encontrasse em estado precário no começo dos anos 1970, apesar da importância estratégica para a agricultura, a FAPESP fi nanciou a vinda de James Weiman, do Departa-mento de Tecnologia da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Wei-man analisou a situação e recomendou a instalação de um radar meteorológi-co. Iniciado em 1974, o Projeto Especial denominado Radasp foi instalado no Instituto de Pesquisas Meteorológicas, da Fundação Educacional de Bauru, depois incorporado à Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os resulta-dos surgiram imediatamente – os jor-nais paulistas passaram a usar os dados das previsões do tempo publicadas e a disseminar essas informações. “Pesqui-sador emérito, Sala muito contribuiu para o desenvolvimento científi co do estado de São Paulo e do Brasil”, diz o diretor administrativo da FAPESP, Joa-quim José de Camargo Engler. “Convivi e trabalhei com ele como conselheiro

Sala e César Lattes, um dos descobridores do méson-pi: interação

034-037_oscar sala_168.indd 36034-037_oscar sala_168.indd 36 29.01.10 23:40:3429.01.10 23:40:34

Page 37: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 37

e, depois, como diretor administrati-vo, num relacionamento sempre muito cordial e respeitoso.”

Oscar Sala deixou a diretoria cien-tífi ca em 1975. Mas voltou à Fundação em 1985 como presidente do conselho superior e tomou a frente do processo de informatização da FAPESP. O obje-tivo era desenvolver bancos de dados e sistemas de gerenciamento de bolsas e auxílios concedidos. Seu apoio foi importante para algo que começava a surgir com força no Brasil: as discus-sões a respeito da conexão brasileira às redes internacionais, precursoras da internet, que ainda engatinhava na década de 1980. Foi criado o programa Rede ANSP (Academic Network at São Paulo), um dos principais pontos de conexão da internet com o exterior e responsável pela interligação das redes acadêmicas universitárias, institutos e centros de pesquisa paulista. “O seu senso de oportunidade funcionou mais uma vez quando percebeu a im-

FOT

OS

AC

ER

VO

DA

FA

MÍL

IA

portância que teria a informatização e a conexão em rede para a pesquisa e direcionou a Fundação para essa linha”, avalia Shozo Motoyama.

“A atuação de Sala foi decisiva quan-do a FAPESP garantiu inicialmente o acesso da comunidade de física de São Paulo, via e-mail, ao Fermilab, dos Esta-dos Unidos”, diz o ex-diretor científi co José Fernando Perez. “Foi a partir dessa semente que a Fundação se tornou re-ferência para a internet brasileira. Até há bem pouco tempo a FAPESP foi responsável pela atribuição de domí-nios da rede, até mesmo para a inter-net comercial.” Segundo o engenheiro eletrônico Demi Getschko, convidado por Sala para integrar o Centro de Processamento da FAPESP, em 1986, a própria parceria com o Fermilab só foi possível graças aos contatos do então presidente. “Foi ele quem bancou todo o projeto, montou a equipe e apoiou tudo aquilo”, disse à Agência FAPESP Getschko, hoje diretor presidente do

Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Além das relações delicadas enfren-tadas no período como diretor científi -co da FAPESP, entre 1973-1979 Sala foi presidente da Sociedade Brasileira pa-ra o Progresso da Ciência (SBPC). Sua principal realização foi conseguir com que a tradicional reunião anual não deixasse de ocorrer. A de 1977, proibi-da inicialmente pelo governo federal de se realizar em Fortaleza, ocorreu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e foi especialmente conturbada, com a invasão do campus pela polícia. “Ele presidiu a SBPC com ousadia e habilidade em um período difícil da vida brasileira, resistindo ao arbítrio e defendendo o desenvolvi-mento da ciência no Brasil”, diz Bri-to Cruz. “Mais ainda, Sala foi um dos grandes cientistas brasileiros, aliando excelência científi ca e liderança institu-cional e sendo um modelo de carreira para gerações mais jovens.” ■

Sala trabalhando com colaborador: escolha correta de máquinas, adequada ao orçamento da C&T brasileira

034-037_oscar sala_168.indd 37034-037_oscar sala_168.indd 37 29.01.10 23:40:3529.01.10 23:40:35

Page 38: Cogumelos iluminam a floresta

38 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

LABORATÓRIO MUNDO>>

A história de que o físico in-

glês Isaac Newton teria con-

cebido a lei da gravitação uni-

versal ao observar a queda de

uma maçã de uma árvore tem

sido ora negada, ora alimenta-

da. A mais recente indicação

de que pode realmente ser

verdadeira foi a publicação

on-line, pela Royal Society, de

Londres, das 100 páginas do

manuscrito do físico William

Stukeley, Memórias da vida de

Newton. É a primeira descri-

ção da experiência de Newton

com a maçã mais famosa da

ciência. Um trecho: “Depois

do jantar, fomos ao jardim e

tomamos chá, sob a sombra

de algumas macieiras. Ele me

contou que estava antes na

mesma situação quando a noção de gravidade veio à mente

dele. Foi em decorrência da queda de uma maçã, e ele sentou-

-se contemplativamente. Por que deveria aquela maçã sempre

cair perpendicularmente em direção ao solo, pensou ele”.

Publicados em 1752, os textos de Stukeley eram consulta-

dos apenas por acadêmicos. Os manuscritos são um dos sete

documentos históricos a ganhar a internet como parte das

celebrações dos 350 anos da Royal Society, uma das mais

importantes sociedades científi cas do mundo.

A M

à D

E N

EW

TO

N

departamento de pesquisa e saúde reprodutiva da OMS, sediada em Genebra, Suíça. Publicado em janeiro na revista Lancet, esse trabalho indicou que o risco de internação era de 6% entre as mulheres submetidas a cesáreas sem indicação médica e de apenas 0,6% nas que fi zeram parto normal. Os casos de transfusão de sangue e de bebês prematuros internados em unidades de terapia intensiva também eram mais comuns quando as cesáreas eram eletivas. As cesáreas representaram

27,3% dos 107.950 partos realizados em nove países – Camboja, China, Índia, Japão, Nepal, Filipinas, Sri Lanka, Tailândia e Vietnã. A OMS recomenda que as cesáreas não ultrapassem 15% do total de partos, por causa da possibilidade de trazer riscos à saúde do bebê e da mãe quando realizadas sem necessidade. Entre os países analisados, a China apresentou a proporção mais alta de cesáreas, com 46,2% do total de partos, seguida pelo Vietnã, com 35,6%.

> Riscos de cesáreas desnecessárias

Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre saúde materna indicou que o risco de morte é maior para mulheres submetidas a cesárea sem indicações médicas do que para aquelas em que esse procedimento cirúrgico é realmente necessário. As cesáreas devem ser realizadas somente quando há indicação médica, de acordo com o estudo coordenado por Metin Gülmezoglu, do

> O cheiro da fertilidade

Por muito tempo a fertilidade das mulheres era tida como oculta, ao contrário das outras fêmeas primatas que anunciam o período receptivo com cores e comportamentos típicos. Mas dados recentes mostraram que, mesmo que não tenham consciência disso, os homens sentem algo no cheiro de uma mulher no período fértil (Psychological Science). Os norte-americanos Saul Miller e Jon Maner,

Na internet: manuscrito conta origem da lei da gravitação universal

RE

PR

OD

ÃO

038-039_lab mundo_168.indd 38038-039_lab mundo_168.indd 38 29.01.10 23:43:2529.01.10 23:43:25

Page 39: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 39

ao aquecimento global atual, evidenciam a complexidade do sistema climático da Terra e o fato de que mudanças aparentemente insignifi cantes podem levar a mudanças climáticas radicais, especialmente no Ártico ou nas proximidades.

da Universidade Estadual da Flórida, pediram a mulheres que usassem uma mesma camiseta para dormir por três dias, que depois apresentaram a jovens voluntários. O achado veio da comparação do nível de testosterona desses rapazes antes e depois de cheirarem as camisetas femininas: esses teores aumentaram com a exposição ao odor de uma mulher por volta do dia da ovulação. É o primeiro estudo a demonstrar alterações fi siológicas nos homens em resposta ao período fértil feminino, um mecanismo importante em aumentar as chances de fertilização.

> Estreito regula o clima na Terra

As oscilações dos níveis do mar no estreito de Bering podem ter ajudado a regular os padrões do clima global durante a era do gelo, há mais de 100 mil anos. Aberturas e fechamentos contínuos do estreito que separa a América do Norte da Ásia, em consequência da fl utuação dos níveis do mar, infl uenciaram as correntes marinhas que transportavam

calor e salinidade nos oceanos Atlântico e Pacífi co, de acordo com um estudo do National Center for Atmospheric Research (NCAR) (Nature Geoscience). As temperaturas de verão variaram de amenas a frias em algumas regiões da América do Norte e Groenlândia, fazendo com que blocos de gelo se expandissem ou encolhessem, modifi cando o nível do mar em todo o planeta. Embora pequeno – atualmente 80 quilômetros entre a Rússia e as ilhas do oeste do Alasca –, o estreito permite que as águas circulem do Pacífi co Norte ao Atlântico Norte, mais salgado, pelo oceano Ártico.

Esse fl uxo é importante para regular a força de uma corrente marinha conhecida como circulação meridional, que dirige o calor dos trópicos aos polos. As conclusões desse estudo, mesmo que não digam respeito diretamente

J.M

. G

AR

G/W

IKIM

ED

IA C

OM

MO

NS Nos laboratórios da

Universidade de Tü-

bingen, Alemanha,

Sylvia Bongard e An-

dreas Nieder geraram

imagens com poucos

ou muitos pontos e

ensinaram a macacos

rhesus as noções de

“mais de” ou “menos

de”. Variando a dispo-

sição dos pontos para

garantir que a distri-

buição e a densidade

não interferissem na

percepção, os pesqui-

sadores mostraram que os macacos distinguiam "mais" e

"menos", um conceito matemático básico. A capacidade de

diferenciarem placas com mais ou menos pontos se deve

à ativação de neurônios do córtex pré-frontal, que podem

representar com fl exibilidade regras matemáticas altamen-

te abstratas. De acordo com o experimento, esses circuitos

neuronais do córtex dos rhesus podem ter sido adaptados ao

longo da evolução dos primatas como resultado do processa-

mento de números em sistemas matemáticos formais (PNAS).

Para os dois pesquisadores, esses achados elucidam os me-

canismos neurobiológicos de operações numéricas e abrem

caminho para uma melhor compreensão do processamento

das regras matemáticas básicas no cérebro de primatas.

NO

ÇÃ

O M

AT

EM

ÁT

ICA

Bering: extensão do gelo afeta nível do mar e clima no planeta inteiro

NA

SA

Macacos: conceitos de “mais” e “menos”

038-039_lab mundo_168.indd 39038-039_lab mundo_168.indd 39 29.01.10 23:43:2729.01.10 23:43:27

Page 40: Cogumelos iluminam a floresta

40 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

LABORATÓRIO BRASIL>>

na revista Antiquity no fi nal de 2009, ainda não sabem se as construções tinham fi nalidades defensivas ou cerimoniais. Elas indicam que sociedades regionais organizadas e densamente povoadas viveram nessa região entre os anos 1250 e 1378, antes da chegada dos colonizadores europeus, em uma região de ocupação antes considerada improvável.

> Vinhos com mais gosto e aroma Reforçar o teor de taninos fez com que vinhos Cabernet Sauvignon cultivados na região de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, ganhassem em aroma e sabor, de acordo com um estudo realizado por Vitor Manfroi, da Universidade Federal do

Um estudo em hospitais

paulistas detectou uma al-

ta prevalência de bactérias

resistentes a antibióticos.

Em geral, 31% das varieda-

des de Streptococ us aureus

se mostraram resistentes

à oxacilina, antibiótico

bas tante usado contra es-

sa bactéria causadora de

infecção hospitalar, e a

maioria das bactérias mul-

tirresistentes sobrevive-

ram a três medicamentos

(clindamicina, ciprofl oxa-

cina e levofloxacina), de

acordo com um estudo de

Ana Gales e Helio Sader,

da Universidade Federal

de São Paulo (Unifesp), em

colaboração com pesquisadores de hospitais do Distrito

Federal, Florianópolis e Santa Catarina. Segundo os autores,

os achados enfatizam a importância de inclusão de drogas

ainda efi cazes contra variedades multirresistentes, como

a vancomicina, linezolida e daptomicina, desde o início do

tratamento de infecções hospitalares. Detalhado na revista

Brazilian Journal of Infectious Diseases, esse levantamento

consistiu em análises de 3.907 amostras de bactérias co-

lhidas de pacientes tratados em quatro hospitais paulistas

entre janeiro de 2005 e setembro de 2008, como parte de

um programa internacional de vigilância antimicrobiana que

inclui 120 centros médicos nas Américas, Europa e Ásia.

AS

SÍD

UA

S E

M H

OS

PIT

AIS

construções geométricas defi nidas como geoglifos, em forma de quadrados, retângulos e círculos perfeitos, unidos por estradas muradas, vieram à tona em uma região da Floresta Amazônica no estado do Acre, próxima da fronteira do Brasil com a Bolívia. Espalhando-se por 250 quilômetros ao longo do eixo da atual BR 317,

essas fi guras geométricas escavadas no solo da fl oresta estão a distâncias variáveis de dois a cinco quilômetros de rios e geralmente próximas a fontes de água fresca. Martti Pärssinen, do Instituto Iberoamericano de Finlândia, na Espanha, Denise Schaan, da Universidade Federal do Pará, e Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre, os especialistas que apresentaram os geoglifos

> Círculos perfeitos sob a Amazônia

Sinais do que poderia ter sido uma civilização antiga desconhecida pode estar emergindo no rastro de árvores caídas da Amazônia. Duas centenas de

Streptococcus aureus: pouco suscetível a antibióticos

Geoglifos no Acre: bem antes dos europeus

CD

C/J

AN

ICE

HA

NE

Y C

AR

R E

JE

FF

HA

GE

MA

N

MA

UR

O C

EL

SO

ZA

NU

S/E

MB

RA

PA

UV

A E

VIN

HO

SA

NN

A S

AU

NA

LU

OM

A

040-041_Lab Brasil_168.indd 40040-041_Lab Brasil_168.indd 40 29.01.10 23:47:3029.01.10 23:47:30

Page 41: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 41

de atividade do c-fos no hipocampo, a área do cérebro mais ligada ao armazenamento de memória, 12 horas depois, seeguido de síntese proteica 24 horas depois. Os pesquisadores viram que essa atividade tardia só acontece se o choque tiver sido de intensidade sufi ciente para gerar uma memória de longo prazo. A descoberta abre caminhos para a pesquisa sobre a persistência da memória.

Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado na Ciência Rural. Manfroi e outros especialistas da UFRGS, Embrapa Uva e Vinho e da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) aplicaram dois taninos comerciais – o de quebracho, de origem argentina, e o de castanheira, italiano – em três dosagens diferentes em três momentos distintos – dois dias, oito dias e quatro meses após o esmagamento das uvas. Um grupo de 14 avaliadores do grupo de degustação da Embrapa Uva e Vinho e enólogos de

empresas fez as análises sensoriais. A acidez e a maciez foram menores nas amostras que receberam tanino de castanheira, que levou a um vinho com mais corpo que o tratado com tanino de quebracho. Os vinhos com tanino de quebracho tendiam a apresentar mais amargor que os de castanheira. O objetivo do uso do tanino, autorizado pela legislação internacional sobre vinhos, é facilitar a precipitação de proteínas em excesso e auxiliar na clarifi cação. Há relatos de taninos usados também para melhorar aromas e gostos e estabilizar a cor dos vinhos.

> Memórias que fi cam

A memória de longo prazo é um mistério para os neurocientistas: o que faz com que fi que gravada no cérebro? O enigma está mais perto da solução, graças a pesquisadores do Brasil e da Argentina coordenados por Jorge Medina e Iván Izquierdo,

da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Testes com ratos que guardaram más memórias de uma caixa em que levavam choques nas patas mostraram um novo papel para o c-fos, uma protína relacionada à aquisição de memória (PNAS). Não basta entrar em ação logo após o acontecido, como de fato acontece; para que a memória se consolide no longo prazo, é preciso um segundo pico

E.W

.RO

BIN

SO

N/R

EP

RO

DU

ÇÃ

O D

E N

AT

UR

AL

IST

ON

TH

E R

IVE

R A

MA

ZO

NS

Símbolos de preguiça por fi carem

estirados ao sol, os lagartos na ver-

dade estão mais próximos de baterias

solares. Incapazes de aquecer o cor-

po sem fonte externa de calor, eles precisam lagartear para

acumular energia para a vida cotidiana, que inclui fugir de

predadores. Em busca de entender a relação entre compor-

tamento anti-predatório, temperatura ambiente e tamanho

do corpo, a bióloga Tiana Kohlsdorf, da Universidade de São

Paulo (USP) em Ribeirão Preto, coordenou um trabalho com

teiús, lagartos que chegam a ter 1,5 metro de comprimento.

O risco fi cou por conta do mestrando Fábio Cury de Barros,

que fez as vezes de predador dando tapinhas junto à base da

cauda dos lagartos – o que lhe rendeu algumas mordidas. Os

resultados, publicados em janeiro na revista Animal Behaviour,

mostram que a estratégia de defesa dos teiús varia conforme

o tamanho e a temperatura a que estão submetidos. Jovens

com menos de 100 gramas sempre fogem, mesmo quando

estão frios e não conseguem correr (neste caso se afastam

devagar). Já os adultos, de quase 1 quilograma, só correm

quando estão quentes. No frio, compensa mais enfrentar o

predador com uma dolorosa mordida.

ENERGIA SOLAR

Cabernet Sauvignon: dose extra de tanino

Morder ou fugir?

Depende do tamanho dos

próprios teiús

040-041_Lab Brasil_168.indd 41040-041_Lab Brasil_168.indd 41 29.01.10 23:47:3229.01.10 23:47:32

Page 42: Cogumelos iluminam a floresta

42 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

BIOLOGIA CELULAR

AUTOFAGIA PARA A SOBREVIVÊNCIA A manipulação da autodigestão celular inspira novas estratégias para combater doenças

Carlos Fioravanti

Jackson Pollock, Number 3, 1949: Tiger

>CIÊNCIA

Somos todos autofágicos – e isso é bom. A todo momento nossas células se digerem e se renovam, desfazendo e reaproveitando proteínas, por meio de um mecanismo biológico chamado autofagia. Vista antes apenas como um processo de morte celular, essa forma de autodestruição seletiva de componentes celulares mostra-se agora como um

artifício de sobrevivência dos organismos – só quando não há mais conserto possível é que as células se apagam. Como apa-rentemente pode ser acelerada ou retardada, a autofagia tor-nou-se uma estratégia nova para combater doenças e prolongar a vida das células, cujo interior deve guardar tanto movimento quanto os quadros do artista plástico Jackson Pollock.

De imediato, a autofagia está abrindo perspectivas de apli-cações novas para velhos medicamentos. Por exemplo, o lítio, usado para tratar pessoas com transtorno bipolar de humor, marcado por saltos repentinos da euforia à depressão profunda, pode ser útil para deter o mal de Alzheimer, uma forma de de-generação dos neurônios que tende a se agravar com o envelhe-cimento. A cloroquina, além de aplacar a malária, pode ajudar a combater tumores. A rapamicina, antibiótico usado para evitar a rejeição de órgãos transplantados, prolongou a longevidade de um grupo de camundongos, em comparação com outro grupo, que seguiu o curso normal do envelhecimento.

“Estabelecer a segurança de usos e acertar as dosagens de novas aplicações de medicamentos já aprovados é bem mais fácil do que começar tudo do zero”, argumenta Soraya Sou-bhi Smaili, professora da Universidade Federal de São Paulo

042-047_autofagia_168.indd 42042-047_autofagia_168.indd 42 29.01.10 23:51:3929.01.10 23:51:39

Page 43: Cogumelos iluminam a floresta

RE

PR

OD

ÃO

042-047_autofagia_168.indd 43042-047_autofagia_168.indd 43 29.01.10 23:51:3929.01.10 23:51:39

Page 44: Cogumelos iluminam a floresta

44 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

(Unifesp), à frente de um dos poucos grupos de pesquisa nessa área no país. Cláudia Bincoletto, também professora da Unifesp e pesquisadora da equipe de Soraya, mostrando por que essa estraté-gia de busca de novos remédios poderia ser conveniente para países de recursos fi nanceiros limitados como o Brasil, acrescenta: “Drogas novas são muito mais caras que as mais antigas”.

Também há espaço para a pes-quisa de remédios novos. Na Unifesp, Cláudia estuda os efeitos promissores de compostos derivados do elemen-to químico paládio sobre a autofagia como forma de combater tumores. Ela tem verifi cado que a possibilida-de de regular a autofagia por meio de compostos químicos pode ser um ca-minho para aumentar a efi ciência de compostos antitumorais, diminuindo a dosagem e os efeitos indesejados sobre outras células.

Em um estudo recém-concluído na Universidade de São Paulo (USP), Renato Massaro, orientado por Silvya Maria-Engler, testou um composto ex-traído de raízes e folhas de um arbusto da Mata Atlântica, a pariparoba, contra uma linhagem de células humanas de tumor de cérebro que cresciam em um meio de cultura apropriado, mantido em laboratório. Os resultados que ele colheu indicaram que esse composto, o 4-nerolidilcatecol ou 4-NC, pode esti-mular a autofagia nesse tipo de tumor, chamado glioma, e acionar os caminhos bioquímicos que levam não só à reci-clagem, mas também à morte celular. Os gliomas se originam das chamadas células glias, muito mais numerosas no cérebro que os neurônios.

Massaro observou que o 4-NC também reduzia a capacidade de as células tumorais invadirem o espaço das células sadias. Era um bom sinal. O problema é que outros grupos de

A AUTOFAGIA TEM UM PAPEL DUPLO: AJUDA A SOBREVIVER

E A ELIMINAR CÉLULAS DE TODO TIPO, SAUDÁVEIS OU TUMORAIS

pesquisa já haviam indicado que as células tumorais podem adquirir re-sistência aos estímulos que induzem à morte celular. Uma das características típicas da célula tumoral é justamente a capacidade de escapar da morte celular geneticamente programada.

Como a apoptose e a autofagia se relacionam, uma estimulando ou frean-do a outra, Massaro adotou a estratégia inversa: acrescentou um composto que bloqueia a autofagia, o 3-metil-adenina ou 3-MA, à cultura de células tumorais humanas. O 3-MA ampliou o efeito do 4-NC e a morte dos tumores aumen-tou 30%, provavelmente estimulando outro mecanismo de morte celular, em comparação com o grupo de células que receberam apenas o 4-NC. Na Unifesp, com outros compostos, Cláudia Binco-letto chegou a resultados semelhantes, que indicam que a autofagia não induz à morte, mas à sobrevivência das células – portanto, quando inibida, compostos antitumorais tornam-se mais efetivos. “Essa tem sido uma estratégia defendida por muitos grupos em busca de novos tratamentos contra tumores”, comenta Soraya.

“Agora nosso desafi o é encontrar a dosagem que elimine apenas as cé-lulas tumorais, sem lesar as normais”, diz Silvya. Segundo ela, alterar os ní-veis normais de autofagia em células saudáveis poderia gerar desequilíbrios nos processos genéticos ou respostas infl amatórias indesejadas. A equipe da USP havia indicado em 2008 que o 4-NC pode estimular a apoptose de células de tumor de pele ou melanoma mantidas em cultura de células.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a equipe de Guido Lenz tem estudado os efeitos do resveratrol, composto natural en-contrado na casca de uva, frutas ver-melhas e amendoim, sobre a vida e a

morte das células. Sob sua orientação, Eduardo Chiela comparou os efeitos de resveratrol e da temozolomida, um dos principais medicamentos usados contra gliomas que, já se sabia, pode induzir à morte por autofagia. O es-tudo, em fase fi nal de redação, indi-cou que o ingrediente da casca de uva (principalmente as escuras) estimula os dois mecanismos de morte celular, a autofagia e a apoptose, em culturas de células humanas tumorais.

Em um estudo anterior, Lauren Za-min, Guido Lenz e outros pesquisadores da UFRGS avaliaram os efeitos do res-veratrol e da quercetina, outro compo-nente da uva e de outras frutas: a casca de uva contém cerca de 50 a 100 micro-gramas por grama de resveratrol e 40 de quercetina; o vinho tinto, cerca de 7 a 13 de resveratrol e 7,4 de quercetina. Uma combinação das duas substâncias fez células de glioma de ratos entrarem em senescência, processo de envelhecimen-to irreversível que pode culminar em autofagia e do qual as células normais se valem como forma de evitar que se tornem cancerosas. Sob o efeito dessas duas substâncias, as células tumorais se agigantaram e depois se romperam.

Os testes prosseguem em animais e reforçam o papel duplo do resveratrol, que, de modo inverso, apresenta um efeito antienvelhecimento em células saudáveis. “O resveratrol parece perce-ber quando uma célula é saudável ou tumoral”, observa Lenz. “Não será fácil, mas temos muito interesse em prosse-guir a pesquisa, à medida que os resul-tados em ações sejam positivos, rumo a aplicações em seres humanos.” Outros estudos já haviam descrito o resvera-trol como um composto capaz de deter outros tipos de tumores, estimular a autofagia e deter o envelhecimento.

“A autofagia representa um enfoque promissor para tratar melanomas (cân-ceres de pele)”, comentou Damià Tor-mo, pesquisador do Centro Espanhol de Pesquisa sobre Câncer, em Madri, em uma apresentação em janeiro na USP.

042-047_autofagia_168.indd 44042-047_autofagia_168.indd 44 29.01.10 23:51:4129.01.10 23:51:41

Page 45: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 45

Ele coordenou a construção de uma es-trutura sintética de RNA (ácido ribo-nucleico) que aciona proteínas específi -cas e promove autofagia, como descrito em um artigo de 2009 na revista Cancer Cell. Tormo trabalha também em sua empresa nascente, a BiOnco Tech, para levar adiante o desenvolvimento dessa molécula, que se mostrou efi caz para deter o crescimento de tumores de pele, que com frequência se tornam resis-tentes a medicamentos, nos primeiros experimentos realizados em cultura de células e em camundongos genetica-mente modifi cados.

Mesmo com novas substân-cias com efeitos promissores e aparen-temente de baixa toxicidade, não será fácil prosseguir. Em primeiro lugar, por causa das difi culdades para desenvolver novos medicamentos no Brasil. Em se-gundo lugar, por conta do próprio papel – igualmente duplo – da autofagia, que ajuda a sobreviver ou a eliminar tan -to as células normais quanto as tumo-rais. Em vários estudos, observa Gui-do Kroe mer, pesquisador do Ins tituto Gustaf Rouassy de Paris, mostrou-se que a autofagia pode ter funções dife-rentes, de acordo com o tipo de célu-la. Em neurônios, células do coração e ou tros tipos de células que se repro-duzem normalmente, esse mecanismo poderia ajudar na limpeza, eliminando resíduos, além de preparar a célula para a morte por apoptose. Em células que se multiplicam de modo descontrolado – ou seja, com potencial para formar tumores –, a autofagia poderia favorecer a sobrevivência e, portanto, a eventual resistência a compostos ou estímulos externos usados contra elas.

Reconhecida nos anos 1970 por Daniel Klionsky, pesquisador da Uni-versidade de Michigan, Estados Unidos, a autofagia passou quase três décadas vista apenas como uma forma, inicial-mente sem muita importância, de a célula se livrar de si mesma. Por essa ra-zão, foi chamada de morte celular pro-gramada tipo 2 para diferenciar da apop-tose, ou morte tipo 1,

MIG

UE

L B

OY

AY

AN

Antitumorais à mão: a casca de uva contém resveratrol e quercetina

042-047_autofagia_168.indd 45042-047_autofagia_168.indd 45 29.01.10 23:51:4129.01.10 23:51:41

Page 46: Cogumelos iluminam a floresta

46 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

muito mais estudada. “Pode-se dizer que a autofagia antecede a morte ce-lular ou que é cruzada à morte celular, mas hoje não é mais correto afi rmar-mos que a autofagia seja um tipo de morte celular”, comenta Soraya.

Os genes que controlam a autofagia começaram a ser identifi cados em 1997, inicialmente em leveduras, organismos unicelulares, empregados na fabricação de pão, vinho, cerveja e álcool combus-tível. A partir dos genes, os especialistas conheceram quais são e como intera-gem as proteínas que levam adiante esse mecanismo fl exível de reciclagem de componentes celulares. Além de des-montar o que não está funcionando di-reito, a autofagia tem outras funções ao longo do desenvolvimento das células, nem sempre levando à morte. É neces-sária, por exemplo, para as leveduras se reproduzirem e para as larvas de insetos se transformarem em pupas.

“Hoje vemos que a autofagia está mais para sobrevivência e resistência do que morte celular”, observa Soraya. “Diante de um estímulo agressor ou de um defeito celular, a célula pode entrar em autofagia como uma tentativa de reparo e só quando não há mais con-serto é que entra em processo de morte celular.” Vários estudos sugerem que os genes e as proteínas que estimulam a autofagia podem bloquear a apoptose, ou o contrário, a partir de estímulos muito bem defi nidos, estabelecendo as-sim uma conversa cruzada entre esses dois fenômenos.

Quando recebem estímulos internos ou externos, as duas dezenas de genes já identifi cados que controlam a autofa-

gia acionam a produção de proteínas, que aos poucos se encaixam formando membranas que cercam os componen-tes celulares a serem desmontados antes de causarem problemas. Em seguida, movida por outras proteínas especí-fi cas, a membrana se funde com os lisossomos, compartimentos da célula ricos em enzimas que rotineiramente fragmentam proteínas.

Os lisossomos digerem proteínas defeituosas celulares mais lentamente que outro mecanismo de limpeza celular chamado proteossomo. Embora mais lentos, os lisossomos podem eliminar estruturas celulares maiores, quando danifi cadas ou defi cientes, principal-mente as mitocôndrias, compartimen-tos celulares que convertem a energia obtida dos alimentos em moléculas de ATP, fundamentais para a manutenção das células. Na Unifesp, sob orientação de Soraya, Juliana Terashima irrigou células com um composto conhecido pela sigla FCCF, extremamente tóxico para as mitocôndrias. Em resposta, as células entraram em autofagia, que, uma vez acionada, ajudou a remover as mitocôndrias que haviam sido da-nifi cadas pelo composto.

Ao participar da linha de desmon-tagem celular, os lisossomos permitem às células construir novas moléculas mesmo quando não são abastecidas por matéria-prima habitual, vinda dos alimentos. A fusão das membra-nas com os lisossomos leva à formação

de grandes bolsas, chamadas vacúolos autossômicos, que levam adiante a transformação de resíduos em matéria--prima para moléculas novas. Segun-do Lenz, aparentemente é o número de mitocôndrias eliminadas por esses vacúolos que marca o momento em que a célula sai da fase da reciclagem para a da destruição completa. O pro-blema é encontrar esse limite. Ou, em termos práticos, descobrir quantas mitocôndrias uma célula precisa per-der – uma célula possui em média 200 mitocôndrias – para entrar no caminho irreversível da morte celular.

O conhecimento sobre essa linha de desmontagem celular, à medida que encorpava, levantou as primeiras possibilidades, hoje mais concretas, de intervir nessa cadeia de reações bioquí-micas para prolongar a vida das células sadias e reduzir a das tumorais. Em um estudo publicado em fevereiro de 2008 na revista PNAS, pesquisadores italianos mostraram que o lítio, aplicado durante 15 meses em um grupo de 44 pessoas, poderia adiar a progressão da esclerose lateral amiotrófi ca, uma doença neuro-degenerativa.

Um mês antes uma equipe da Uni-versidade de Cambridge havia mostrado na Human Molecular Genetics as possi-bilidades de uso do lítio e da rapami-cina, combinados, para tratar a doen ça de Huntington, outra enfermidade com perda contínua da funcionalidade dos neurônios. “A autofagia parece remover os agregados de proteínas malformadas, que atrapalham o funcionamento das células nervosas e estão presentes em doenças neurodegenerativas como a de

Faxina no interior das células

0h 1h

042-047_autofagia_168.indd 46042-047_autofagia_168.indd 46 29.01.10 23:51:4229.01.10 23:51:42

Page 47: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 47

> Artigos científicos

1. ZAMIN, L.L. et al. Resveratrol and quercetin cooperate to induce senescence-like growth arrest in C6 rat glioma cells. Cancer Science. v. 100, n. 9, p. 1.655-62. 2009.2. HIPPERT, M.M. et al. Autophagy in can-cer: good, bad, or both? Cancer Research. v. 66, n. 19, p. 9.349-51. 2006.3. HARRISON, D.E. et al. Rapamycin fed late in life extends lifespan in genetically heterogeneous mice. Nature. v. 460, p. 392-5. 2009. 4. TORMO, D. et al. Targeted activation of innate immunity for therapeutic induc-tion of autophagy and apoptosis in melano-ma cells. Cancer Cell. v. 16, n. 2, p. 103-14. 2009.

Huntington, Parkinson e Alzheimer”, observa Soraya. Segundo ela, estudos realizados em seu laboratório com células de pacientes com Huntington mostraram que estimular a autofagia pode retardar o aparecimento da morte celular por apoptose.

Uma célula que se limpou por meio da autofagia pode viver mais, de acordo com um estudo realizado nos Estados Unidos e publicado na Nature em julho de 2009. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores cuidaram de cerca de 3 mil ratos idosos, com uma idade equi-valente a 60 anos em seres humanos. Administraram rapamicina, composto que estimula a autofagia, a uma parte dos animais e esperaram todos morrer naturalmente, de cinco a sete meses de-pois. Os camundongos que receberam rapamicina apresentaram um tempo de vida de 28% a 38% maior que os do grupo que não recebeu nada.

Esse experimento impressionou pela grandiosidade, já que o número de animais raramente é tão elevado, mas sua aceitação não foi consensual – e muitos pesquisadores argumentaram que os camundongos podem ter vivi-do mais por outras razões ou que esse resultado não é o bastante para associar o controle da autofagia ao prolonga-mento da vida celular. De todo modo, os mecanismos de funcionamento da autofagia tornam-se mais claros. Ou-tros experimentos sugeriram que a simples privação de nutrientes pode

estimular esse tipo de limpeza celular. “Recebendo menos glicose”, comenta Soraya, “a célula vai produzir menos energia pelas vias metabólicas habi-tuais, mas também produzirá menos resíduos que aceleram o envelhecimen-to, além de estimular a autofagia, que pode remover mitocôndrias e proteínas malformadas”.

Em um artigo publicado em 2006 na Cancer Cell, Melanie Hippert, Pa-trick O’Toole e Andrew Thorburn, da Universidade de Colorado, em Den-ver, Estados Unidos, reconhecem que a manipulação da autofagia deve ser útil para deter a evolução de tumores e aumentar a efi ciência dos tratamen-tos contra câncer. O problema é que a autofagia tem um papel duplo: pode inibir ou favorecer o crescimento de tumores, dependendo das circunstân-cias. Por essa razão, a autofagia poderia ser estimulada para evitar a formação de tumores em pessoas com risco de câncer, mas reduzida se um tumor já tiver se estabelecido no organismo.

Depois de encontrar um composto adequado, o desafi o seguinte será defi -nir a melhor dosagem, para que apenas as células tumorais morram. Chi Dang, da Universidade John Hopkins, Estados Unidos, relatou em janeiro de 2008 na Journal of Clinical Investigation que a cloroquina, um antimalárico, pode aju-dar a prevenir a evolução de tumores. Ele advertiu, porém, que o uso prolon-gado desse composto, que inibe a au-tofagia e estimula a apoptose, pode ter efeitos colaterais ainda não previstos, já que o conhecimento sobre o equilíbrio celular ainda é rudimentar.

Células do cérebro (astrócitos) recebem um marcador de autofagia fl uorescente, que no início (0h) se distribui de modo homogêneo. A aplicação de um composto tóxico para mitocôndrias provoca autofagia, marcada pela concentração de pontos fl uorescentes. A concentração de pontos indica que as células, por autofagia, estão removendo as mitocôndrias danifi cadas.

JU

LIA

NA

TE

RA

SH

IMA

E S

OR

AY

A S

MA

ILI/

UN

IFE

SP

“Não acredito que os novos antitu-morais apenas estimulem a autofagia”, comenta Lenz. “Seria arriscado. A saída talvez seja algo, como o resveratrol, que possa ter múltiplos alvos e ativar mais de um processo bioquímico que leve à morte dos tumores, inclusive por au-tofagia.” Mesmo que novos compostos não cheguem logo, a capacidade de in-duzir ou bloquear a morte celular deve tornar-se uma característica dos medi-camentos em geral, ajudando a explicar como atuam no organismo – muitos medicamentos antitumorais já em uso, por sinal, podem induzir à autofagia. Pode ajudar também a retomar mui-tas pesquisas interrompidas. “Fármacos que falharam em testes clínicos talvez precisem ser revisitados”, cogita Silvya Stuchi Maria-Engler, da USP, “porque podem se tornar excelentes se usados com outros, capazes de induzir ou ini-bir a autofagia”. ■

2h 4h

042-047_autofagia_168.indd 47042-047_autofagia_168.indd 47 01.02.10 18:27:4201.02.10 18:27:42

Page 48: Cogumelos iluminam a floresta

48 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

MEDICINA

O veneno

Efeitos nocivos limitam potenciais usos terapêuticos da curcumina

A curcumina, substância encontrada no pó amarelo--alaranjado extraído da raiz da curcuma ou aça-frão-da-índia (Curcuma longa), aparentemente pode ajudar a combater vários tipos de câncer, o mal de Parkinson e o de Alzheimer e até mesmo re-tardar o envelhecimento. Usada há quatro milênios por algumas culturas orientais, apenas nos últimos

anos passou a ser investigada pela ciência ocidental, com resultados surpreendentes em alguns casos e alarmantes em outros. Estudos conduzidos na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (USP-RP), interior do estado, indicam que em dosagem baixa a curcumina previne danos no material genético das células provocados por compostos tóxicos. Em teores elevados, porém, a curcumina pode até matá-las.

Recentemente a curcumina vem sendo tratada como panaceia pelos meios de comunicação ávidos por dicas de saúde. Corante rotineiro na indústria alimentícia, ela está presente nos mais diversos produtos, de biscoitos a sorvetes, de sopas a margarinas. Também é a base de condimentos como o curry. Na Índia, aliás, seguindo a dieta típica do país, as pessoas chegam a consumir ao redor de dois gramas de curcumina por dia. Nos países ocidentais, onde a quanti-dade nos alimentos é bem menor, a expectativa de que a curcumina possa melhorar a qualidade de vida e prevenir doenças a transformou num suplemento alimentar.

Salvador Nogueira

Curcuma: usado como tempero,extrato obtido do açafrão-da-índia é rico em curcumina

>

doremédio

048-051_curcumina_168 3.indd 48048-051_curcumina_168 3.indd 48 29.01.10 23:55:1529.01.10 23:55:15

Page 49: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 49

protetor contra o câncer, e só foi dito que quanto maior o consumo, maior a proteção”, afi rma Lusânia. “Mas a gente sabe, pelos dados disponíveis, que não é bem assim.” Pesquisadores da Univer-sidade de Sevilha também alertaram para o risco-benefício da curcumina como agente terapêutico.

O interesse inicial do grupo de Ribeirão era estudar o potencial anti-mutagênico da curcumina, ou seja, sua capacidade de diminuir danos e altera-ções no material genético (DNA) das células. “Começamos nossos estudos

tentando observar redução de danos na estrutura dos cromossomos e de-pois na sequência do próprio DNA”, conta a pesquisadora. Os testes foram feitos tanto com células (in vitro) como em animais (in vivo) para verifi car se a curcumina, com atividade antioxidante já demonstrada, também evitaria mu-tações no material genético celular.

Essas pesquisas iniciaram-se mais de 10 anos atrás e hoje formam um corpo que justifi ca o alerta. Nos pri-meiros testes, o grupo de Lusânia usou uma cultura de células de ovário de

WW

W.S

XC

.HU

Mas alguns pesquisadores alertam: vale a pena levar em conta um velho di-tado segundo o qual a diferença entre o remédio e o veneno está na dose – uma adaptação do que teria escrito no sécu-lo XVI o médico, botânico e alquimista suíço Paracelso. É basicamente isso que vêm sugerindo as pesquisas realizadas pelo grupo de Lusânia Maria Greggi Antunes, pesquisadora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP em Ri-beirão Preto. “Foi muito divulgado no fi nal do ano passado, até em programas de TV, que a curcumina teria um efeito

048-051_curcumina_168 3.indd 49048-051_curcumina_168 3.indd 49 29.01.10 23:55:1629.01.10 23:55:16

Page 50: Cogumelos iluminam a floresta

50 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

hâmster chinês, esco-lhidas pelos cromosso-mos grandes. Depois de tratar as células com o quimioterápico bleo-micina, de conhecido poder mutagênico e usado contra leucemia, e com radiação, também capaz de induzir danos no material genético, os pesquisadores aplicaram em três grupos de célu-las concentrações dife-rentes de curcumina. A expectativa era que a substância encontrada na curcuma reduzisse as alterações nos cromos-somos. Mas aí veio a sur-presa. As doses menores (2,5 e 5 microgramas de curcumina por mililitro) produziram um efeito antimutagênico, en-quanto a dosagem mais alta, 10 microgramas por mililitro, provocou a reação contrária: mais mutações do que as ob-servadas nas células não tratadas com curcumina. Ante esses resultados, concluiu-se que nem sempre a curcumina produz um efeito benéfi co. Uma quantidade gran-de demais pode ter um efeito oposto ao de concentrações menores. É o remédio se transformando em veneno.

Neuroproteção - Mais recentemente, alguns trabalhos começaram a sugerir que a curcumina, além de suas pro-priedades antioxidantes – ela reduz a formação de radicais livres prejudiciais às células –, também poderia apresentar um efeito neuroprotetor, o que a torna-ria uma potencial candidata a combater doenças neurológicas hoje incuráveis, como Parkinson ou Alzheimer. O far-macêutico Leonardo Mendonça, do grupo de Lusânia, também colocou essa assertiva à prova em 2009, com um estudo in vitro feito com células de rato denominadas PC12, originárias da glândula adrenal e precursoras de neurônios.

Para induzir os danos às células, os pesquisadores usaram cisplatina, um quimioterápico agressivo, em diferen-

tes concentrações. Como nos estudos com as células de ovário, usaram doses variadas da curcumina para avaliar um possível efeito protetor. Os resultados foram basicamente os mesmos: nas concentrações menores, a curcumina ajudou a proteger as células da ação deletéria da quimioterapia. Mas, nas doses mais altas, o efeito se inverteu e os danos foram ainda maiores que os ob-servados entre as células tratadas com cisplatina, mas não com curcumina.

A essa altura, estava mais claro que o efei-to da curcumina nem sempre era protetor. Mas por quê? Aparen-temente, após uma de-terminada dose, a subs-tância passava a contri-buir para a formação de radicais livres, em vez de impedi-la. O meca-nismo molecular exato ligado a esse efeito, po-rém, ainda está longe de ser esclarecido. E o mais intrigante é que os experimentos da equipe de Lusiânia com ratos não permitiram verifi -car as mesmas proprie-dades nocivas vistas nos estudos com células em cultura.

Parecem ser duas as razões para o fato de os estudos in vivo não mostrarem os mesmos efeitos danosos dos tes-tes in vitro. A primeira é que a chamada biodis-ponibilidade da cur-cumina, a capacidade

de o organismo a absorver, é bastante baixa. Isso signifi ca que as doses ad-ministradas pelo grupo de Lusânia aos animais podem ter sido baixas demais para provocar algum efeito deletério. A segunda razão é que no organismo a curcumina é metabolizada no intesti-no, antes mesmo de entrar na corrente sanguínea, e depois novamente no fí-gado, o que terminaria por protegê-lo de uma eventual dose excessiva dessa substância.

LU

CIE

N M

ON

FIL

S/W

IKIM

ED

IA C

OM

MO

NS

Em fl or: açafrão-da-índia, nativo do sul da Ásia

Como um cometa

A sequência de imagens ao lado mostra danos

no material genético de célula de fígado

provocados por compostos mutagênicos

048-051_curcumina_168 3.indd 50048-051_curcumina_168 3.indd 50 29.01.10 23:55:1829.01.10 23:55:18

Page 51: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 51

Ante essas dúvidas, a equipe vol-ta à bancada em 2010 com o objeti-vo de criar um modelo in vitro que esteja mais próximo do que se vê in vivo. “Estamos começando o estudo com células que conseguem fazer essa metabolização e que devem permitir comparar melhor os resultados [in vitro com os in vivo]”, explica Lusânia. Caso esse esforço seja bem-sucedido, deve se tornar possível começar a es-pecular sobre qual seria a dosagem máxima segura para ingestão oral por seres humanos. Hoje os estudos só são capazes de mostrar que, depois de uma determinada quantidade, a curcumi-na faz mal. Mas, como quase todos os testes foram in vitro, não permitem calcular a dosagem ameaçadora para um organismo. Isso porque a ingestão de alguns gramas de curcumina resul-ta em concentrações muito baixas no sangue, medidas em nanogramas, bem menos do que a quantidade a que as L

AB

OR

AT

ÓR

IO D

E B

RO

MA

TO

LO

GIA

E N

UT

RIÇ

ÃO

E N

UT

RIG

EN

ÔM

ICA

/FC

FR

P-U

SP

Neurotoxicidade induzida pelo quimioterápico cisplatina: possíveis efeitos citoprotetores dos antioxidantes da dieta curcumina e coenzima Q10

MODALIDADE

Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa

CO OR DE NA DORA

LUSÂNIA MARIA GREGGI ANTUNES – USP-RP

INVESTIMENTO

R$ 117.914,06

O PROJETO>

> Artigos científicos

1. MENDONÇA, L.M. et al. Evaluation of the cytotoxicity and genotoxicity of curcu-min in PC12 cells. Mutation Research. v. 675, p. 29-34. 2009.2. LEITE, K.R.M. et al. Effects of curcumin in an orthotopic murine bladder tumor model. International Brazilian Journal of Urology. v. 35, p. 599-607. Set./Out. 2009.

células são submetidas em laboratório. O grupo também pretende investigar quais genes a curcumina ativa e desa-tiva dentro das células, numa tentativa de elucidar o mecanismo molecular por trás de efeitos tão diversos.

Se por um lado a questão da do-sagem e a da toxicidade preocupam, por outro, alguns estudos, feitos por brasileiros inclusive, mostram resulta-dos animadores do uso da curcumina contra certos tipos de câncer.

O grupo do urologista Miguel Srou-gi, da Faculdade de Medicina da USP, tem trabalhado com a perspectiva de usar a curcumina contra tumores de próstata e de bexiga. Nas culturas de células em laboratório, eles observaram um efeito impressionante: a curcumina levou as células dos tumores ao suicídio – acionou a apoptose, a morte celular autoinduzida. O resultado é particu-larmente surpreendente se levar-se em consideração o fato de que os tumores em geral são formados por células que sofreram mutações e se recusam a mor-rer, multiplicando-se furiosamente.

Ação localizada - No estudo do cân-cer de bexiga, a equipe de São Paulo foi mais longe: realizou uma série de expe-rimentos in vivo, com camundongos. Os testes mostraram um efeito locali-zado contra as células cancerosas, sem danos colaterais nos animais. “Está nos planos fazermos no futuro próximo testes clínicos com a curcumina con-tra o câncer de bexiga, possivelmente para ser usada como segunda linha de tratamento”, explica Kátia Leite, pes-quisadora do grupo de Srougi.

A vantagem no caso dos tumores de bexiga é a facilidade de aplicação direta da curcumina. É possível injetá-la dire-

tamente na bexiga, via uretra, de forma que as concentrações que chegam ao tu-mor são sufi cientes para afetá-lo. Quan-do a administração é por via oral, isso se torna mais difícil, em razão da pouca capacidade de absorção do organismo. Essa constatação ajuda a explicar por que muitos pesquisadores dizem que as pessoas não deveriam se animar muito em incluir curcumina na dieta por seus potenciais efeitos medicinais.

Mas, de novo, nem mesmo como medicamento, com uso específi co e dosagem controlada, a curcumina é a solução para todos os males. Um estudo realizado pelo americano Mark Miller, da Universidade Wake Forest, e apre-sentado em novembro de 2009 em um congresso em Ouro Preto, interior de Minas Gerais, mostrou que, em testes contra câncer de pulmão feitos com camundongos transgênicos, a curcu-mina agravou o problema, em vez de combatê-lo.

O desafi o agora é decifrar precisa-mente como a curcumina age no or-ganismo, para compreender como ela pode, em alguns casos, fazer bem, e em outros, mal. “Ainda estamos muito lon-ge de entender os mecanismos exatos de ação da curcumina”, explica Kátia. “Por isso mesmo ainda precisamos de muitas outras pesquisas.” ■

048-051_curcumina_168 3.indd 51048-051_curcumina_168 3.indd 51 29.01.10 23:55:2029.01.10 23:55:20

Page 52: Cogumelos iluminam a floresta

52 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

COSMOLOGIA

UniversoAstrônomos e físicos do mundo todo tentam desvendar do que são feitos 96% do Cosmo

AAgência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) divulgou no fi nal de janeiro uma imagem mostrando a concentração de galáxias a diferentes distâncias em uma pequena região do Universo. Cada ponto colorido da imagem (veja ao lado) corresponde a um agrupamento com centenas a milhares de galáxias – cada uma delas formada por centenas de bilhões de estrelas e uma quantidade elevada de gás muito quente. São o

que os astrônomos chamam de aglomerados de galáxias, as estruturas em equilíbrio de maior dimensão e massa já identifi cadas no Cosmo. Calculando o número de corpos celestes que podem existir ali, fi ca di-fícil imaginar que eles contribuam para compor apenas 4,6% de tudo o que existe no Universo. O restante, na verdade quase tudo, não pode ser visto. Os outros 95,6% são formados, de acordo com a vasta maioria dos físicos e dos astrônomos, por dois tipos de elementos descobertos apenas nos últimos 80 anos: a matéria escura e a energia escura, sobre as quais quase nada se sabe além do fato de que precisam existir para que o Universo seja como se imagina que é. Alvo de uma série de experimentos internacionais que contam com a participação de brasileiros, alguns já em andamento e outros previstos para iniciar nos próximos anos, essa forma de matéria e de energia não absorve nem emite luz e, portanto, é invisível ao olho humano.

Nenhum equipamento em atividade até o momento foi capaz de detectá-las diretamente. Mas os físicos preveem a existência das duas em seus modelos de evolução do Cosmo, e os astrônomos inferem a presença delas a partir de assinaturas que deixam na estrutura do Universo, identifi cáveis em imagens como essa produzida pela ESA, resultado do Levantamento sobre a Evolução Cosmológica (Cosmos) – esse projeto usa os maiores telescópios em terra e no espaço para vasculhar uma região do céu do tamanho de oito luas cheias.

Foi apenas no último século que a com-preensão do Universo se complicou tanto. Na década de 1920 o astrônomo norte-ameri-cano Edwin Hubble percebeu que o Cosmo era formado por grandes agrupamentos de estrelas – as galáxias – e que elas estavam se afastando umas das outras. A constatação de

Ricardo Zorzetto

Aquarela cósmica: cada círculo representa um agrupamento de galáxias, as mais próximas em azul e as mais distantes em vemelho

>

052-057_materia escura_168.indd 52052-057_materia escura_168.indd 52 01.02.10 18:16:2201.02.10 18:16:22

Page 53: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 53

XM

M-N

EW

TO

N/E

SA

/CO

SM

OS

052-057_materia escura_168.indd 53052-057_materia escura_168.indd 53 01.02.10 18:16:2201.02.10 18:16:22

Page 54: Cogumelos iluminam a floresta

54 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

que o Universo estava se expandindo levou físicos e astrônomos a reverem suas ideias, pois até então acreditava-se que ele fosse estático e fi nito.

Estudando as galáxias, o astrônomo búlgaro Fritz Zwicky, considerado por muitos um mal-humorado, notou em 1933 que elas precisariam de 10 vezes mais massa do que tinham para se uni-rem em aglomerados apenas pela atração gravitacional, a força proposta por Isaac Newton para explicar a atração de cor-pos de massa elevada a distâncias muito grandes, como os planetas e as estrelas. A massa que não se conseguiu enxergar foi chamada de matéria escura. A energia escura só seria proposta cerca de 70 anos mais tarde, quando os grupos de Adam Riess e Saul Perlmutter, que investiga-vam supernovas, estrelas que explodiram passando a emitir um brilho milhões de vezes mais intenso, estavam se afastando de nós cada vez mais rapidamente. O Universo não se encontrava apenas em expansão, mas em expansão acelerada. Algo desconhecido, uma espécie de força contrária à da gravidade – mais tarde

chamada de energia escura –, fazia o Cosmo crescer a velocidades cada vez maiores como um lençol de borracha puxado pelas pontas.

Poucos cientistas duvidam hoje da existência da matéria escura e da ener-gia escura, também conhecidas como a componente escura do Universo. O principal desafi o – muitos pesquisa-dores a consideram uma das questões mais importantes a serem resolvidas – é determinar a natureza de ambas, ou seja, o que de fato as compõem.

Sobre esse ponto, físicos e astrôno-mos nada sabem com segurança. Quan-do muito, têm bons palpites. E, como os demais habitantes do planeta, devem continuar às escuras até que uma ava-lanche de dados sobre mais agrupamen-tos de galáxias e outras estrutu-ras do Universo mais antigas do que as observa-das hoje comece a alimentar seus computadores.

“Nunca nossa ignorância foi quanti-fi cada com tamanha precisão”, comen-ta o astrônomo Laer te Sodré Júnior, da Universidade de São Paulo (USP), referindo-se aos cálculos mais aceitos hoje da quantidade de matéria escura e de energia escura existentes no Cosmo: 22,6% e 72,8%, respectivamente. Há quase 30 anos Sodré estuda os aglome-rados de galáxias, que reúnem cerca de 10% das galáxias existentes e podem ser compreendidos como sendo as metrópo-les cósmicas: assim como as metrópoles da Terra, são poucas, mas têm dimensões absurdas e são muito populosas.

Com base em informações sobre aglomerados de galáxias e outros as-tros muito antigos e distantes, os físi-cos teóricos Élcio Abdalla, Luis Raul Abramo e Sandro Micheletti, todos do Instituto de Física (IF) da USP, em parceria com o físico chinês Bin Wang, decidiram recentemente verifi car se os dados dessas observações astronômicas confi rmavam uma ideia apresentada anos antes por outro brasileiro, o físico Orfeu Bertolami, pesquisador do Ins-tituto Superior Técnico de Lisboa, em Portugal. Quase uma década atrás, pou-co depois de identifi cadas as primeiras evidências de que a energia escura exis-te, Bertolami propôs que, se a matéria escura e a energia escura interagissem, como havia sugerido o astrônomo ita-liano Luca Amendola, essa infl uência mútua deixaria sinais em estruturas muito grandes do Cosmo, a exemplo dos aglomerados de galáxias.

Partículas - Para quem não está habi-tuado, pode parecer estranho imaginar que algo que não se sabe muito bem o que é afete de alguma forma outra coisa sobre a qual não se tem o menor conhecimento. Mas não é o que os fí-sicos pensam. Seja qual for a natureza da matéria escura e da energia escura, espera-se que o comportamento de am-bas na escala do infi nitamente peque-no (o mundo das partículas atômicas) infl uencie o mundo do infi nitamente grande. Por isso, conhecer a interação entre elas – e delas com a matéria visível – pode ajudar a compreender como e em quanto tempo o Universo se for-mou e se tornou o que é, possibilitando inclusive a existência de vida. “Se acre-ditarmos minimamente no modelo pa-drão da física de partículas, que explica

Colisão de titãs: o choque de dois aglomerados de galáxias separou a matéria comum (rosa) da matéria escura (azul)

HS

T/C

XC

/NA

SA

052-057_materia escura_168.indd 54052-057_materia escura_168.indd 54 01.02.10 18:16:2501.02.10 18:16:25

Page 55: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 55

mações obtidas durante anos por meio da observação de quasares, núcleos de galáxias muito brilhantes e antigos; supernovas, estrelas que explodiram e passaram a emitir uma luz milhões de vezes mais intensa que o normal; e da radiação cósmica de fundo em micro- -ondas, uma forma de energia eletro-magnética produzida nos instantes ini-ciais após o Big Bang, a explosão inicial que gerou o Universo e o próprio tempo 13,7 bilhões de anos atrás.

Mesmo sem determinar o modo co-mo a matéria escura e a energia escura interagiam – apenas supuseram que a interação ocorreria –, eles verifi caram que, ao resolver essas equações mais as formuladas por Einstein na teoria da relatividade geral, obtinham um Universo semelhante ao que se conhe-ce hoje: em expansão acelerada, com tudo o que existe nele se afastando cada vez mais rapidamente, segundo artigo apresentado em junho de 2009 na Physical Review D. Na interação, de

acordo com esse modelo, a energia es-cura liberaria radiação e se converteria em matéria escura – uma consequência da famosa equação E=m.c2, segundo a qual, em determinadas condições, ma-téria pode se transformar em energia e energia em matéria.

Interação - Mas não era o sufi ciente. Com o físico Luis Raul Abramo, Ab-dalla aprimorou o modelo e, dessa vez, procurou uma assinatura da interação entre energia escura e matéria escura nas informações obtidas de 33 aglome-rados de galáxias, 25 deles estudados anos atrás em detalhes por Laerte Sodré e Eduardo Cypriano, pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Em colaboração com Sodré, Abdalla, Abramo e Wang usaram três métodos conhecidos para estimar a quantidade de matéria (massa) dos aglomerados de galáxias. Se não houvesse interação, os resultados teriam de ser iguais ou,

a composição da matéria bariônica [a matéria comum, composta de prótons, nêutrons e elétrons, e formadora das es-trelas, dos planetas e de tudo o mais que se conhece] e, como as partículas que a formam interagem entre si, não há motivo para duvidar que também possa existir interação entre a matéria escura e a energia escura”, afi rma Abdalla.

Inicialmente Abdalla, Micheletti e Bin Wang, da Universidade Fudan, em Xangai, elaboraram um modelo rudi-mentar no qual descreveram a matéria escura e a energia escura com proprie-dades semelhantes às de líquidos e ga-ses como a água e o ar – os físicos os chamam de fl uidos, materias formados por camadas que se movimentam conti-nuamente umas em relação às outras e, nesse deslocamento, podem se deformar reciprocamente. Na construção do mo-delo, uma série de equações matemáticas que tentam descrever o que aconteceu no passado e predizer o que ocorrerá no futuro levou em consideração infor-

Formação dos átomos e emissão de radiação cósmica

de fundo (380 mil anos)

Grande explosão

Fase inicial de infl ação

Era de trevas

Surgimento das primeiras estrelas e galáxias sob infl uência da matéria escura (400 milhões de anos)

Expansão desde o Big Bang

13,7 bilhões de anos

Início da expansão acelerada por infl uência da energia escura (9,5 bilhões de anos)

satélite WMAP

Formação de mais estrelas, planetas e aglomerados de galáxias sob ação das matérias comum e escura (2 bilhões de anos)

A expansão do CosmoHá 13,7 bilhões de anos uma explosão colossal, o Big Bang, gerou toda a matéria e a energia existentes no Universo, além do próprio tempo. À medida que expandia e esfriava, o Cosmo sofreu infl uência de elementos como a matéria escura e a energia escura, que predominaram em diferentes fases de sua evolução

NA

SA

/WM

AP

SC

IEN

CE

TE

AM

052-057_materia escura_168.indd 55052-057_materia escura_168.indd 55 01.02.10 18:16:2601.02.10 18:16:26

Page 56: Cogumelos iluminam a floresta

56 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

no mínimo, muito próximos. Já se a matéria escura se transformasse em energia escura, ou vice-versa, um desses valores, sensível a essa conversão, dife-riria dos demais. No trabalho publicado em 2009 na Physics Letters B, eles afi r-mam que há uma possibilidade real, ainda que pequena, de que a interação de fato ocorra, com a energia escura se convertendo em matéria escura.

Mesmo o próprio grupo vê esse re-sultado com cautela, porque há uma sé-rie de incertezas na medição das massas dos aglomerados de galáxias. Algumas dessas técnicas dependem de que esses agrupamentos estejam em equilíbrio e não interajam com outras galáxias ou aglomerados. Mas isso é pouco prová-vel porque a massa dos aglomerados é muito elevada e atrai tudo o que está por perto. “A incerteza na medição da

massa de cada aglomerado é grande”, co-menta Abramo. “Esse modelo terá de ser testado por alguns anos. Analisamos 33 aglomerados de galáxias, mas, para ter segurança, teríamos de avaliar de cente-nas a milhares deles”, afi rma Sodré, que atualmente negocia com astrônomos e físicos espanhóis a participação brasilei-ra no projeto Javalambre Physics of the Accelerating Universe Survey (J-PAS), destinado a entender melhor as proprie-dades da energia escura e a evolução das galáxias medindo com mais precisão a que distância se encontram.

Estruturas do Universo - Abdalla, que teve a iniciativa de verifi car os sinais dessa interação alguns anos atrás, sabe que muitos discordam de sua proposta. “Uma vez um referee [revisor científi co] mal-educado disse que esse trabalho era especulação ao quadrado”, lembra o físico da USP. “Mas, se estivermos cer-tos e essa interação for bem defi nida, poderá ser verifi cada em experimentos de física de partículas.”

Há cerca de cinco anos os físicos teóricos brasileiros Gabriela Camargo Campos e Rogério Rosenfeld, ambos

do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (IFT-Unesp), criaram um mo-delo de interação entre matéria escura e energia escura que tam-bém as tratava como fl uidos. No trabalho – feito em parceria com Luca Amendola, do Observatório Astronômico de Roma, o autor da ideia de interação entre esses ele-mentos –, a dupla brasileira levou em consideração tanto informa-ções sobre supernovas como so-bre a radiação cósmica de fundo. Feitas as contas, concluíram que essa conversão não deve ocorrer, de acordo com artigo de 2007 na Physical Review D.

Com as informações disponí-veis hoje sobre as estruturas do Universo, porém, fi ca difícil sa-ber quem tem razão. “Há poucos dados e eles são fragmentados”, comenta Cypriano, astrônomo do IAG-USP. “Necessitamos de dados homogêneos e em gran-de quantidade.” Por esse motivo, mais de uma dúzia de projetos internacionais de grande porte já passaram pelo menos do estágio

de planejamento.O estudo da estrutura e da evolução

das galáxias leva boa parte dos físicos e astrônomos a darem por certo que a matéria escura de fato existe – e que sua composição será descoberta em breve, talvez em até uma década. “Se for composta por partículas frias de massa muito elevada, vários modelos de física de partículas preveem que poderá ser produzida no Large Ha-dron Collider [LHC]”, afi rma Abramo. Instalado na fronteira da Suíça com a França, o LHC começou a funcionar em fase experimental no fi nal de 2009 e deve lançar, umas contra as outras, partículas atômicas viajando a veloci-dades próximas à da luz, desfazendo--as nos seus menores componentes. Já a resposta para a natureza da energia escura deve levar bem mais tempo, pois depende de levantamentos extensos das galáxias e estrelas encontradas em di-ferentes regiões do céu.

Um desses levantamentos, previsto para começar no segundo semestre de 2011, é o Dark Energy Surgey (DES), do qual devem participar cerca de 30 brasileiros (entre pesquisadores, estu-

Nos confi ns do Universo: observação de supernovas, explosões estelares como esta (ponto brilhante abaixo da galáxia), revelou expansão acelerada do Cosmo

HIG

H-Z

SU

PE

RN

OV

A S

EA

RC

H T

EA

M/H

ST/

NA

SA

052-057_materia escura_168.indd 56052-057_materia escura_168.indd 56 01.02.10 18:16:2701.02.10 18:16:27

Page 57: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 57

dantes e técnicos) de instituições no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Esse projeto pretende usar uma supercâmera digital – com capacida-de de produzir imagens de altíssima resolução (500 megapixels), 40 vezes maior do que as das câmeras comuns – acoplada ao telescópio Blanco do Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile, para coletar ao longo de quatro anos informações de apro-ximadamente 400 milhões de galáxias. “Queremos estudar a distribuição de massa dos aglomerados de galáxias a diferentes distâncias”, conta Luiz Al-berto Nicolaci da Costa, astrônomo do Observatório Nacional (ON), no Rio de Janeiro, coor denador da participa-ção brasileira no DES. Dependendo da massa total do Universo e da existência ou não de interação entre matéria es-cura e energia escura, pode haver um número maior ou menor desses aglo-merados a determinadas distâncias.

Força repulsiva - Mesmo antes de o experimento começar, Nicolaci sabe que ele não trará uma resposta defi nitiva so-bre a natureza da energia escura, a força repulsiva, uma espécie de antigravidade, que faz os objetos se afastarem a velo-cidades cada vez maiores no Universo. “No início desta década um grupo in-ternacional de pesquisadores se reuniu e tentou delinear os experimentos mais adequados a serem realizados em quatro

fases para tentar descobrir o que é a energia escura”, explica o astrônomo do Observatório Nacional. Os mais simples já termi-naram e o DES é da fase três. “Com o DES, espera-mos restringir os candida-tos a energia escura”, conta Nicolaci.

Uma das mais cotadas é a chamada energia do vácuo, que, ao contrário do que se pensa, não é vazio. O vácuo é rico em partículas muito fugazes que sur-gem e desaparecem antes que possam ser detectadas e poderiam fornecer a força antigravitacional que faz os cor-pos celestes se afastarem. Para a física de partículas, a força do vácuo é o corres-pondente à constante cosmológica, ter-mo que Albert Einstein acrescentou às equações da relatividade geral para que sua teoria representasse um Universo estático. “Mas essa seria uma solução feia, porque a densidade de energia do vácuo teria de ser 10120 [o número um

seguido de 120 zeros] maior do que a observada pelos astrônomos”, comenta Élcio Abdalla.

Pode ser também que a energia es-cura seja uma espécie de fl uido desco-nhecido, chamado pelos astrônomos de quintessência, em alusão aos quatro ele-mentos que se acreditava que compu-nham o Universo (ar, água, fogo e terra). Ou ainda, que ela não exista, e os efeitos atribuídos a ela sejam consequên cia de o Universo não ser homogêneo como se imagina e a Via Láctea se encontrar em uma região contendo muito pouca ma-téria. O astrofísico Filipe Abdalla, pes-quisador da University College London

e fi lho de Élcio Abdalla, tra-balha em dois experimentos mais avançados, que integram a quarta fase da busca da ener-gia escura e só devem começar a funcionar em alguns anos: o do satélite Eu-clid e o do te-les cópio de mi-

cro-ondas Square Kilometre Array, a ser construído na África do Sul ou na Austrália. “Se for alguma incorreção nas equações de Einstein, que explicam bem a atração gravitacional nas galáxias”, co-mentou Filipe durante uma visita a São Paulo em agosto de 2009, “esses experi-mentos nos permitirão saber”. ■

A cruz de Einstein:galáxia no centro da

imagem curva o espaço e transforma em quatro um único

quasar, comprovando efeito previsto pelo

físico alemão

Em 12 bilhões de anos: sob a ação da matéria escura, gás se aglomera e forma estrelas e galáxias (áreas brilhantes), que passam a se afastar empurradas pela energia escura

MP

E/V

.SP

RIN

GE

L

NA

SA

/ES

A/S

TS

CL

052-057_materia escura_168.indd 57052-057_materia escura_168.indd 57 01.02.10 18:16:2901.02.10 18:16:29

Page 58: Cogumelos iluminam a floresta

58 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

QUÍMICA

Segredos debaixo

Fluorescência de raios X dá acesso à intimidade de pinturas do século XIX

Durante mais de um século, a jovem retratada pelo pintor Eliseu Visconti no quadro Gio-ventú escondeu um estudo para outra obra de arte do mesmo autor, Recompensa de São Sebastião. A revelação vem do trabalho ar-queométrico da química Cristiane Calza, pes-quisadora do programa de pós-graduação

em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). Em vez do estereótipo do laboratório repleto de tubos de ensaio e substâncias fu-megantes, seu ambiente de traba-lho é em meio a obras de arte de todos os tempos, desde as pin-turas que decoram sarcófagos do Egito Antigo até quadros do século XIX, passando por tangas de cerâmica do povo marajoara – que ocupou a ilha de Marajó, no Pará, entre os séculos V e XIV. Ao examinar pinturas até o detalhe dos átomos com auxílio das técnicas de fl uorescência de raios X e de radiografi as, ela põe a nu segredos que se escondem debaixo da tinta, caracteriza os pigmentos que compunham a paleta de cada pintor e aponta retoques e desgastes nas telas, orientando futuros trabalhos de restauração.

Convidada a analisar obras do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, Cristiane – que sempre teve uma queda por arqueologia, história e artes plás-ticas – se apaixonou pela pintura brasileira do século XIX e acabou por analisar 33 quadros de artistas como Rodolfo Amoedo, Eliseu Visconti e Félix Émile Tau-

Maria Guimarães

nay por meio de fl uorescência de raios X, que revela os átomos que compõem as camadas de tinta, e de radiografi as computadorizadas. O objetivo central era caracterizar os pigmentos usados por cada pintor e integrar essas informações num banco de dados que fi cará à disposição de restauradores, conservadores, estudantes de arte e pesquisadores.

O trabalho foi possível porque no doutorado Cristiane desenvolveu um sistema portátil de

fl uorescência de raios X sob medida para analisar obras de arte e arqueológicas. É

uma caixa um pouco maior do que um livro, que ela pode levar ao museu e já carregou até o Peru, para analisar ouro pré-colombiano. Obras muito grandes ou valiosas (o quadro Pri-meira missa, de Victor Meireles, uma das obras estudadas pela especialista,

está segurada em US$ 3 milhões) não podem ser transportadas para labora-

tórios equipados com o aparelho comum de fl uorescência de raios X. “A técnica não é invasiva e não causa dano

às obras de arte”, frisa a pesquisadora. O aparelho lança um feixe focalizado de raios X num círculo de meio centímetro e produz um processo conhecido como efeito fotoelétrico: enquanto se movimentam para res-tabelecer o equilíbrio, os elétrons também emitem raios X, que o equipamento detecta e reproduz na tela do computador na forma de curvas de emissão de energias. A energia emitida é característica para cada elemento químico e, de posse dessa informação, Cristiane pode inferir o pigmento usado naquele ponto do quadro.

>

da tinta

058-061_pintura_168.indd 58058-061_pintura_168.indd 58 29.01.10 23:57:3429.01.10 23:57:34

Page 59: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 59

CR

IST

IAN

E C

AL

ZA

/CO

PP

E-U

FR

J

Pedro Américo: equipamento portátil esquadrinha o quadro Moisés e Jocabed

Suscipsusto exeu feum inut ersit nulput veliqui corba feum inut ersit nulput

058-061_pintura_168.indd 59058-061_pintura_168.indd 59 29.01.10 23:57:3529.01.10 23:57:35

Page 60: Cogumelos iluminam a floresta

60 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

O importante é que alguns pigmentos são reveladores da época em que foi feita a pintura. De aparência semelhan-te, o que distingue a tinta usada são os elementos químicos que a compõem – e que a pesquisadora da Coppe consegue enxergar. O branco de zinco, usado até hoje, começou a ser produzido no século XVIII, mas só em 1835 chegou a um preço acessível para a maior parte dos pintores; já o branco de titânio surgiu apenas no século XX. Um ponto azul analisado por fl uorescência de raios X pode revelar a presença de átomos de ferro ou de cobalto, por exemplo. No primeiro caso, o pintor usou o pigmento azul da prússia, criado em 1704; o segundo indica azul de cobalto, em uso desde 1807. Os pigmentos de ocre não ajudam: desde a pré-história colorem as pinturas rupestres de cavernas e são usados até hoje. “São pigmentos baratos, obtidos a partir de terras argilosas”, explica Cristiane. Outros pigmentos, por outro lado, hoje são proibidos por serem cancerígenos, como aqueles à base de mercúrio, arsênio e chumbo.

Na análise, a pesquisadora analisa múltiplos pontos para caracterizar os quadros e evitar que retoques em perío-dos posteriores levem a erro. “Se virmos grandes extensões de um pigmento mais recente do que a data suposta de produção da obra, sabemos que é uma falsifi cação”, conta. Remendos de rasgos na tela também são reveladores: a tela é restaurada com uma mistura de carbonato de cálcio, ou crê, com cola de peixe. Por cima, aplica-se uma camada de tinta branca antes de retocar o quadro. A tinta branca ajuda a datar a restauração, porque alguns pigmentos brancos são muito característicos de determinadas épocas. É o que revela o branco de titânio que Cristiane encontrou nas telas O último tamoio e Busto da senhora Amoedo, pintados por Rodolfo Amoedo em 1883 e 1892, respectivamente. De acordo com artigo de 2009 na X-Ray Spectrometry, só em 1921 entrou no mercado uma tinta adequada para propó-

sitos artísticos à base desse pigmento, indicando que os quadros foram reto-cados no século XX.

Cristiane caracterizou a paleta de pigmentos usada por oito pintores do século XIX em 12 quadros. Os resulta-dos já estão aceitos para publicação na revista especializada Applied Radiation and Isotopes e mostram, por exemplo, que Eliseu Visconti e Henrique Bernar-delli usaram azul de cobalto, enquanto Pedro Peres adotou o azul da prússia. E confi rmam algumas coisas que já se sabia informalmente, como o fato de os brasileiros do século XIX fazerem tons de vermelho misturando vermelho ocre e vermilion. Saber isso será fun-damental para que restauros futuros empreguem pigmentos semelhantes aos originais, sempre que ainda pos-sam ser adquiridos.

Camadas expostas - Achados mais intrigantes vieram do exame do quadro Gioventú, que rendeu a Eliseu Visconti uma medalha de prata na Exposição Universal de Paris em 1900. Uma radio-grafi a computadorizada – semelhante à usada por radiologistas para investigar ossos fraturados em pacientes – revelou outra pintura oculta pela jovem repre-sentada no quadro. É, sem dúvida, um estudo para outra pintura, a também premiada Recompensa de São Sebastião,

Eliseu Visconti: sob a tinta de Gioventú (acima), um esboço de Recompensa de São Sebastião

CR

IST

IAN

E C

AL

ZA

/CO

PP

E-U

FR

J

RE

PR

OD

ÃO

058-061_pintura_168.indd 60058-061_pintura_168.indd 60 29.01.10 23:57:3729.01.10 23:57:37

Page 61: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 61

que ganhou a medalha de ouro na Ex-posição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1904. Nas imagens de raios X o anjo coroando de louros o São Sebastião amarrado a uma árvore aparece ainda com mais nitidez do que a moça de Gioventú. O pintor parece ter mudado de ideia depois do estudo porque, em vez de louros, no quadro terminado o anjo põe uma au-réola sobre a cabeça do santo.

A radiografi a, realizada em cola-boração com os colegas Davi Oliveira e Henrique Rocha, mostrou também que o quadro está num ótimo esta-do de conservação, só com pequenas regiões de desgaste da tela em alguns pontos próximos à moldura. “Isso é bastante comum, pois nessa região a tela sofre um desgaste maior devido ao estiramento do tecido e ao atrito com a madeira do chassi e da moldura. Essas áreas não aparecem a olho nu, pois a pintura foi restaurada anteriormente cobrindo os buraquinhos com massa e tinta”, detalha Cristiane. Detectar falhas encobertas pela tinta pode ser de grande ajuda para os trabalhos de conservação e restauro da pintura.

A análise de fl uorescência de raios X do mesmo quadro permitiu carac-terizar a paleta usada por Visconti, considerado a ponte entre os séculos XIX e XX por ser um pioneiro do im-pressionismo no Brasil. No véu amare-lo que cobre a menina, a presença de ferro e chumbo revelam que ele usou branco de chumbo, que deixou de ser usado no século XX, misturado com amarelo ocre. Na vegetação do fundo se revelam as misturas com que o artista criou diferentes tons de verde: viridian, óxido de cromo, amarelo ocre e azul de cobalto.

Em mergulhos num passado mais distante, Cristiane já avaliou também tangas marajoaras e peças egípcias do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. A cerâmica marajoara é con-siderada uma das mais sofi sticadas re-presentações da arte pré-colombiana e,

> Artigos científicos

1. CALZA, C. et al. Characterization of Brazilian artists palette from the XIX century using EDXRF portable system. Applied Radiation and Isotopes. no prelo. 2. CALZA, C. et al. Analysis of the painting Gioventú (Eliseu Visconti) using EDXRF and computed radiography. Applied Radiation and Isotopes. no prelo.

Rodolfo Amoedo: Estudo de mulher, pintado sobre branco de chumbo

junto com o então mestrando Renato Freitas, a química da Coppe examinou 400 fragmentos das tangas que vestiam a região púbica das mulheres da ilha de Marajó. O elemento mais abundante nas peças de cerâmica é o ferro, explicando a cor avermelhada do barro usado. A caracterização, publi-cada em 2009 na X-Ray Spectrometry, indica matéria-prima de mais de uma origem: os marajoaras talvez usassem argila de várias fontes para produzir suas tangas, ou as diferenças podem indicar que o acervo estudado foi produzido em tribos distintas. Seria necessário associar os dados quími-cos a informações arqueológicas para entender melhor a história desse povo tão pouco conhecido.

A análise de fragmentos de sarcófago egípcio e de te-cido usado para envolver uma múmia também revelou a utilidade potencial da técnica de fl uorescência de raios X. Além de caracterizar os pigmentos usados – que se reve-laram coerentes com o que estava disponível na época –, Cristiane indica em artigo de 2008 na Applied Physics A que o tecido, de origem bem documentada, é da mesma época dos fragmentos de sarcófagos que examinou.

Capaz de contribuir para elucidar mistérios do passado, Cristiane está com a agenda lotada de solicitações, entre museus e construções históricas que passam por reforma. Ela conta com a ajuda do agora doutorando Renato Freitas – que talvez passe a repartir o trabalho quando fi car pronto o novo equipamento, ainda menor do que o atual. ■

CR

IST

IAN

E C

AL

ZA

/CO

PP

E-U

FR

J

058-061_pintura_168.indd 61058-061_pintura_168.indd 61 29.01.10 23:57:3829.01.10 23:57:38

Page 62: Cogumelos iluminam a floresta

62 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

Biblioteca de Revistas Científicas disponível na internetwww.scielo.org

Notícias

Tiemi Nagao-Dias, Ana Carla Pereira, Michelly Freitas e Silva e Janete Elisa Soares Lima, da Universidade Federal do Ceará, Eugenie Desiree Rabelo Néri e José Wilson Accioly, do Hospital Universitário Walter Cantídio.

Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences – vol. 45 –nº 3 – São Paulo – jul./set. 2009

■ Biologia

Efeitos do pisoteio

O aumento da atividade turística em áreas costeiras nas últimas décadas faz necessária a adoção de estratégias de manejo para reduzir os impactos gerados às comunidades de costões rochosos. A região costeira do Sudeste brasileiro possui bons exemplos de degradação causada pelo turismo e desenvolvimento industrial. Dentre os diferentes distúrbios causados pela visitação, o pisoteio tem sido estudado de forma intensa e pode representar uma fonte signifi cativa de impacto para as comunidades da zona entremarés. No projeto “Impactos do pisoteio humano na fauna de um costão rochoso do litoral de São Paulo, no Sudeste brasileiro”, de M.N. Ferreira e S. Rosso, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, foi aplicado um desenho de blocos randômicos para avaliar experimentalmente os efeitos de duas intensidades de pisoteio na riqueza, diversidade, densidade, recobrimento e biomassa da fau-na de um costão situado na praia do Obuseiro, em Guarujá (SP). Os blocos foram alocados em dois po-voamentos diferentes, dominados, respectivamente, pela classe de crustáceo Chthamalus bisinuatus (Cirripedia) e pelo molusco Isognomon bicolor (Bivalvia, foto). O pisoteio foi aplicado durante três meses, simulando a temporada de férias no Brasil, e os blocos foram monitorados nos nove meses seguintes. Os resultados in-dicaram que Chthamalus bisinuatus é vulnerável aos impactos do pisoteio. Estratégias de manejo devem envolver o isolamento de áreas sensíveis, a construção de passarelas, a educação dos visitantes e o monitoramento das comunidades impactadas.

Brazilian Journal of Biology – vol. 69 – nº 4 – São Carlos – nov. 2009

WW

W.J

AX

SH

EL

LS

.OR

G/8

22

E.H

TM

■ Literatura

Saudosismo de Gilberto Freyre

No artigo “Saudosismo e crítica so-cial em Casa-grande & senzala: a arti-culação de uma política da memória e de uma utopia”, Alfredo César Melo, da Universidade de Chicago, Estados Unidos, procura analisar a retórica de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, fora da mol dura dualista na qual a obra costuma ser avaliada. Pa-ra isso, Melo demonstra como partes da obra, díspares nos seus princípios constitutivos (por exemplo, trechos

memorialistas, análises antropológicas), articulam-se para propor ao leitor de então um pacto da memória, no qual eram relembra-das liricamente as experiências do Brasil rural, ao mesmo tempo que eram refutados por meio de retórica científi ca os estereótipos racistas produzidos pelo mesmo Brasil rural. De um lado, de acordo com Melo, procura-se aproveitar essa dimensão afetiva da vida privada, enquanto, de outro, descartam-se os preconceitos produzidos por aquele mesmo mundo – há um decantamento da memória, uma dialética sutil entre lembrança e esquecimento.

Estudos Avançados – vol. 23 – nº 67 – São Paulo – 2009

■ Medicina

Alergia à penicilina

O teste cutâneo para alergia imediata à penicilina é o único teste validado internacionalmente, sendo que sua grande utilidade reside na avaliação de pacientes com história positiva de alergia à penicilina. O teste positivo para determinantes principais e secundários da penicilina apresenta um valor preditivo positi-vo de 50% e valor preditivo negativo de 99%. O Ministério da Saúde disponibiliza um protocolo para o preparo dos reagentes, uma vez que eles não estão disponíveis comercialmente. Como esse protocolo não apresenta muitos detalhes sobre o cuidado relativo às etapas de preparo das soluções, os autores do artigo “Implementation of a penicillin allergy skin test” se propuseram a operacionalizar o teste, avaliando de forma crítica e minuciosa cada etapa, de forma que outros profi ssionais possam reprodu-zi-lo de maneira mais segura e efi caz. Os autores são Aparecida

> O link para a íntegra dos artigos citados nestas páginas estão disponíveis no site da Pesquisa FAPESP, www.revistapesquisa.fapesp.br

RE

PR

OD

ÃO

062_Scielo_168.indd 62062_Scielo_168.indd 62 29.01.10 23:59:4529.01.10 23:59:45

Page 63: Cogumelos iluminam a floresta

Crodowaldo

PAVANA contribuição à biologia,

à política científica e

tecnológica

e à difusão da ciência

PA

VA

N N

O L

AB

OR

AT

ÓR

IO O

AK

RID

GE

, 19

66

| A

CE

RV

O C

OM

ISS

ÃO

ME

RIA

IB-U

SP

063-079_EspecialPavan_168.indd 63063-079_EspecialPavan_168.indd 63 01.02.10 17:57:1301.02.10 17:57:13

Page 64: Cogumelos iluminam a floresta

64 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

Em 2009 o Brasil perdeu um de seus mais des-tacados cientistas. Vítima de falência múltipla

de órgãos e sistemas, causada por um câncer e um infarto anteriores, o biólogo e geneticista Crodowaldo Pavan morreu no dia 3 abril, aos 89 anos, no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), na qual fez a maior parte de sua bem-sucedida carreira. Nascido em Campinas, graduado em história natural pela USP em 1941, Pavan foi um dos fundadores da genética no Brasil. Ao longo de uma trajetória cien-tífi ca de mais de meio século, realizou descobertas importantes, que resultaram em trabalhos publicados com repercussão internacional, além de ter formado dezenas de pesquisadores no Brasil e nos Estados Unidos e dirigido algumas das instituições científi cas mais prestigiadas do país.

Para o geneticista Francisco Salzano, da Universi-dade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a his-tória de Pavan, que foi seu orientador no doutorado, em 1955, está intimamente associada à da genética no Brasil. “É impossível falar de uma sem recorrer à outra”, diz Salzano, que assumiu, em dezembro do ano passado, a cátedra Crodowaldo Pavan do Insti-tuto Mercosul de Estudos Avançados, da Universida-de Federal da Integração Latino-Americana (Unila), localizada em Foz do Iguaçu (PR). “Mas ele também contribuiu marcantemente para o desenvolvimento da genética em nível mundial, por meio de pesquisas das mais importantes.”

O biólogo André Perondini, professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, do Instituto de Biociências da USP (IB-USP), lembra que a entrada de Pavan – de quem foi orientando na pós-graduação – no mundo acadêmico, em 1938, coincidiu com um período de especial importância no desenvol-vimento da genética no Brasil. Ele diz, num obituário de Pavan escrito com seu colega do IB João Morgante, também professor titular e aluno de Pavan na gradua-ção, que o ensino dessa ciência começou no Brasil em 1918, na então chamada Escola Agrícola de Piracicaba. Em seguida, em 1927, foi a vez da Faculdade de Medi-cina da USP e, em 1933, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). “Mas o grande impulso foi dado com a criação da cátedra de biologia geral, ocupada pelo professor André Dreyfus, na Faculdade de Filosofi a, Ciências e Letras (FFCL) da USP, em 1934”, conta. “A ela se somou a cátedra de citologia e genética geral, comandada pelo professor Friedrich Gustav Brieger, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, campus de Piracicaba, em 1936.”

O impulso decisivo na verdade ocorreu, no en-tanto, em 1943, com a chegada ao Brasil de ninguém menos do que Theodosius Dobzhansky, russo natura-lizado norte-americano, responsável pela unifi cação da teoria da evolução de Charles Darwin com a genética mendeliana. “Dobzhansky estava no auge de sua car-reira, era um deus”, lembra Luiz Edmundo Magalhães, professor titular de genética e evolução e ex-diretor do Instituto de Biociências da USP, que foi o primeiro aluno de doutorado de Pavan. “O seu livro Genetics and the origin of species, lançado pela Columbia University Press, em 1937, foi um grande sucesso.”

A história da vinda de Dobzhansky para a USP é bem conhecida e foi contada várias vezes por Pavan. Em parte ela se deveu à Segunda Guerra Mundial. Na época a Fundação Rockefeller apoiava pesquisas científi cas em vários países. Por causa do confl ito, ela não podia mais fi nanciar pesquisadores da Europa, Ásia e África. Então se voltou para a América Latina. Seu representante no continente, Harry Miller Jr., procurou Dreyfus para propor que ele fosse estagiar um ano nos Estados Unidos, por conta da fundação. A princípio, o brasileiro aceitou. Mas depois disse que não poderia ir, pois seus assistentes, Rosina de Barros e o próprio Pavan, eram muito jovens e não teriam condições de tomar conta de seu laboratório pelo período de um ano. Miller Jr., assim, propôs a vinda de Dobzhansky, o que foi aceito com entusias-mo por Dreyfus.

O russo-americano impôs, no entanto, uma con-dição para vir ao Brasil: queria conhecer a Amazônia e fi car pelo menos dois meses lá fazendo pesquisa. O que também foi aceito. Coube a Pavan acompanhá--lo. Magalhães lembra que Dobzhansky havia sido um dos primeiros pesquisadores a usar moscas do gênero drosófi la (a mosca-de-frutas, organismo--modelo para o estudo em genética), como mate-rial experimental de pesquisa para os estudos de evolução, o que se tornou uma grande moda na época, adotada em todos os principais centros de pesquisa do mundo. “Foi assim que o uso desses in-setos nas pesquisas foi introduzido no Brasil”, conta. “Dobzhansky ensinou os conhecimentos básicos de drosófi la, a sistemática e a criação das espécies em laboratório.”

Pavan soube como ninguém tirar proveito desses ensinamentos e da proximidade com o pesquisador russo-americano. “Em 1943 ele já tinha os seus dois primeiros trabalhos de pesquisa publicados, ambos em colaboração com Dobzhansky”, conta Magalhães.

Um ambiente favorável à genéticaCrodowaldo Pavan contribuiu de modo marcante para o avanço da ciência no Brasil

EVANILDO DA SILVEIRA

063-079_EspecialPavan_168.indd 64063-079_EspecialPavan_168.indd 64 01.02.10 17:57:1501.02.10 17:57:15

Page 65: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 65

2008, Thomas F. Glick, professor de história da Universidade de Boston, diz que um mês depois de chegar ele ministrou um curso so-bre evolução que se tornaria um marco na genética brasileira. “As aulas eram dadas no Departamento de Química da USP”, escreve Glick. “Cerca de 20 estudantes se matricu-laram, mas a maioria dos biólogos também assistia às aulas, assim como representantes de outras entidades locais, como o Instituto Biológico, um grupo que incluía Henrique da Rocha Lima, Clemente Pereira e Zeferino Vaz. O curso infl uenciou todos os biólogos de São Paulo. De Piracicaba e Campinas vieram Carlos Krug e Friedrich Brieger, respectiva-mente, cada um trazendo consigo de 15 a 20 de seus estudantes.”

O próprio Pavan se refere a esse curso, nu-ma entrevista publicada no livro 50 anos do CNPq contados pelos seus presidentes, organi-zado por Shozo Motoyama (FAPESP, 2002). “Após um mês de sua chegada, [Dobzhansky] ministrou um curso extraordinário, com du-ração de um mês e frequentado por cerca de 100 intelectuais de São Paulo, Campinas e Pi-racicaba”, contou. “Para esse curso, ele escrevia a sua aula, o Dreyfus traduzia para o portu-guês, o Brito da Cunha e eu o ouvíamos falar e corrigíamos a sua dicção. Dessa forma, deu aula em português. Quando havia qualquer dúvida, falava em inglês.”

Pavan ao volante do Ford Mercury com Brito da Cunha ao lado e Sophie Dobzhansky (atrás) durante trabalho de campo no litoral

“Um deles, sobre sistemática, saiu em um bo-letim do Departamento de Biologia Geral [da FFCL]. O outro, sobre os cromossomos das espécies brasileiras de drosófi la, foi publicado nada mais, nada menos do que no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma das revistas nas quais é mais difícil de con-seguir aceitação de trabalho para publicação. Essa foi, sem dúvida, uma excelente estreia. E bastante rápida também.”

EntusiasmoMas Pavan não foi o único benefi ciado. Dessa época até pelo menos 1962 a Fundação Rocke-feller fi nanciou os estudos de vários pesquisa-dores, os primeiros dos quais faziam parte do grupo pioneiro da genética no Brasil. Além de Pavan, em torno do líder do grupo, Dreyfus, orbitavam nomes como Antonio Brito da Cunha e Newton Freire-Maia, ambos da USP, Antonio Lagden Cavalcanti e Chana Malogo-lowkin, do Rio. E à frente dessa empreitada da Fundação Rockefeller no Brasil estava o pró-prio Dobzhansky. Chana, hoje morando em Israel, lembra bem da infl uência dele. “Posso até dizer, sem medo de errar, que foi ele, com o seu entusiasmo, que formou o primeiro grupo de jovens geneticistas no Brasil”, afi rma.

O prestígio de Dobzhansky se fez notar logo após sua chegada. Num artigo publi-cado na Revista Brasileira de Cultura, em

A entrada

de Pavan

no mundo

acadêmico,

em 1938,

coincidiu

com um

período

de especial

importância

para a

genética

no mundo

AC

ER

VO

HA

NS

BU

RL

A/C

OM

ISS

ÃO

ME

RIA

IB-U

SP

063-079_EspecialPavan_168.indd 65063-079_EspecialPavan_168.indd 65 01.02.10 17:57:1501.02.10 17:57:15

Page 66: Cogumelos iluminam a floresta

66 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

De acordo com Pavan, foi assim que se abriu uma nova fase da genética no Brasil, na qual Dreyfus também teve um papel fun-damental, pois era uma pessoa que adorava ensinar, aprender e transmitir conhecimentos e nunca guardava uma descoberta apenas para si. Pavan costumava dizer que em vez de tirar proveito da presença do Dobzhansky só para seu grupo, como é comum entre muitos cien-tistas, Dreyfus fazia questão de compartilhá-la, convidando pesquisadores de vários lugares do país. “Ele deu carta branca para Dobzhansky e, não só isso, colocou-o em contato com o pessoal da Esalq e com o IAC”, lembrou Pavan, em 50 anos do CNPq. “Na verdade, formáva-mos um grupo.”

Era um grupo coeso, unido no gosto co-mum pela genética e pelas pesquisas, que não se importava de trabalhar muito. Era comum eles frequentarem o Departamento de Biologia Geral da FFCL, que fi cava num prédio, hoje extinto, na alameda Glete, na região central de São Paulo, depois do expediente. “No labo-ratório, todos nós trabalhávamos muito mais

de 12 horas por dia, com prazer, disposição e afi nco, mesmo nos sábados e domingos”, lem-bra Chana. “Era comum que aos domingos, de manhã, se desse uma passada pelo depar-tamento, tivesse encontros com colegas e se programasse para a próxima semana”, acres-centa Magalhães. “À noite, também era cos-tume trabalhar. Na verdade, o departamento era como se fosse a nossa própria casa. Havia uma grande harmonia entre todos os mem-bros que, naquele tempo, não eram muitos. Ao todo, umas 15 pessoas.”

Impacto O próprio Dobzhansky também trabalhava lá quando estava no Brasil – ele fez seis visitas ao país entre 1943 e os anos 1960. O impacto dessas visitas para a genética do Brasil pode ser medido pelo número de publicações dos brasileiros que trabalhavam com o russo. Foi o que fez o pesquisador José Franco Mon-te Sião em sua dissertação de mestrado em história da ciência Theodosius Dobzhansky e o desenvolvimento da genética de populações

Pavan em seu gabinete nos anos 1950, no sótão do departamento, na alameda Glete

A partilha do

conhecimento

e a integração

do grupo

pioneiro

criaram as

bases para

que a

genética

animal se

desenvolvesse

no Brasil

AC

ER

VO

LU

IZ E

DM

UN

DO

MA

GA

LH

ÃE

S

063-079_EspecialPavan_168.indd 66063-079_EspecialPavan_168.indd 66 01.02.10 17:57:1701.02.10 17:57:17

Page 67: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 67

A institucionalização da pesquisaDreyfus, Dobzhansky e Pavan foram importantes para o desenvolvimento da genética

EVANILDO DA SILVEIRA

O biólogo Luiz Edmundo Magalhães costuma di-zer que seu orientador teve três anjos da guarda

ao longo da carreira: André Dreyfus, Harry Miller Jr. e Theodosius Dobzhansky (leia artigo na página 76). Parafraseando Magalhães, pode-se dizer que a genética animal no Brasil teve quatro, se não anjos da guarda pelo menos grandes impulsionadores: os três citados por ele mais o próprio Pavan. Eles não foram os primeiros a realizar pesquisa na área no país, mas seguramente estão entre os que mais contribuíram para desenvolvê-la e, mais do que isso, para institu-cionalizá-la. De uma forma ou de outra, os quatro estiveram envolvidos na criação de cursos, cátedras, linhas de pesquisa e associações que congregam os geneticistas do país, como a Sociedade Brasileira de Genética (SBG), por exemplo.

De acordo com o geneticista Francisco Salzano, a fundação da SBG, em 1955, foi o ponto culminante de um processo que havia começado pelo menos 37 anos antes. Ele se refere ao início, em 1918, do ensino da genética na então Escola Agrícola de Piracicaba por três pioneiros: Carlos Teixeira Mendes, Otávio Domingues e Salvador de Toledo Piza. Outra data importante é 1927, quando André Dreyfus deu aulas desse campo da ciência pela primeira vez na Faculdade de Medicina de São Paulo. Um pouco mais tarde, em 1933, Carlos Arnaldo Krug ministrou um curso rápido de genética no Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Também merece destaque a criação, em 1934,

da cadeira de biologia geral na Faculdade de Filosofi a, Ciências e Letras (FFCL) da recém-criada Universi-dade de São Paulo e a de citologia e genética geral na Escola Superior Luiz de Queiroz (Esalq), com a chegada de Friedrich Gustav Brieger da Inglaterra.

Em sua dissertação de mestrado em história da ciência, o biólogo José Franco Monte Sião nota que nesse período inicial o desenvolvimento da genética

de Drosophila no Brasil: 1943-1960, apresentada em 2008 na Pontifícia Universidade Católica de São Pau-lo (PUC-SP). Ele constatou que antes de 1943 não houve nenhuma publicação de autores brasileiros sobre genética de populações com drosófi las. Já entre 1943 e 1948 (período entre a primeira e a segun-da visita de Dobzhansky) foram encontradas 12. O pesquisador com maior número de publicações foi Pavan, com seis trabalhos, dos quais três como autor individual e três com colegas do grupo ou com Dobzhansky.

Foi esse compartilhamento do conhecimento e a integração do grupo pioneiro que criaram as bases para o desenvolvimento da genética animal no Brasil. Essa integração foi tão bem-sucedida que o grupo cresceu e aglutinou pesquisadores de outros estados, como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná e Bahia. Nos 15 anos seguintes a genética no Brasil adquiriu tal maturidade que já

se encontrava entre as 10 mais desenvolvidas no mundo. Para Magalhães, Pavan, sem dúvida, teve papel importante nesse desenvolvimento. “Foi um grande promotor do progresso científi co, especial-mente da genética, área em que exerceu uma grande infl uência, de certa forma decisiva, desde o início de sua carreira”, diz.

Perondini e Morgante lembram que Pavan publi-cou mais de 100 trabalhos científi cos e ajudou a for-mar um contingente de pesquisadores que também orientaram muitos outros num efeito multiplicador. “Dessa forma, ele deixou para trás sua linhagem de ‘fi -lhos, netos e bisnetos científi cos’”, dizem. “Sua morte abriu uma lacuna na comunidade científi ca brasilei-ra, mas o que fi ca é a certeza de seu enorme legado como ser humano, como um homem da ciên cia e como aquele que foi responsável em grande parte pelo desenvolvimento da ciência, em particular da genética no Brasil.” ■

Dreyfus (óculos escuros) e Dobzhansky (atrás)

AC

ER

VO

CO

MIS

O M

EM

ÓR

IA IB

-US

P

063-079_EspecialPavan_168.indd 67063-079_EspecialPavan_168.indd 67 01.02.10 17:57:1801.02.10 17:57:18

Page 68: Cogumelos iluminam a floresta

68 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

no Brasil estava concentrado em três centros de pesquisa: IAC, Esalq e FFCL da USP. “Po-demos dizer que nessa época as pesquisas em genética no Brasil estavam divididas em duas linhas”, diz. “Uma delas se concentrava no me-lhoramento vegetal e era encontrada no IAC e na Esalq. A segunda linha, ligada aos estudos dos animais, basicamente invertebrados, foi adotada pelo grupo da USP.”

Nessa segunda linha, um papel de destaque coube a Dreyfus. Médico formado pela Facul-dade de Medicina do Rio de Janeiro, natural de Pelotas (RS), veio para São Paulo em 1927 quando foi nomeado assistente na Faculdade de Medicina. Era um dos membros do gru-po que fundou a USP. Geneticista de cultura ampla, era menos um pesquisador – embora tenha publicado trabalhos científi cos, inclu-sive em parceria com Dobzhansky – e mais um aglutinador e incentivador do grupo que montou em torno de si no Departamento de Biologia Geral da FFCL.

Em um artigo publicado na revista Estudos Avançados, em 1994, Antonio Brito da Cunha, que foi um de seus assistentes, fala do papel dos três anjos da guarda de Pavan na institu-cionalização da genética no Brasil. “[Dreyfus] recebeu, no seu departamento, docentes de vários laboratórios do Brasil e do exterior, contribuindo para a sua formação científi ca

e didática e, através da sua infl uência, para a própria instalação material de seus laborató-rios”, conta.

Segundo Brito da Cunha, a admiração por Dreyfus e a confi ança nele depositada levaram Harry M. Miller Jr., da Fundação Rockefeller, não só a trazer para o laboratório da FFCL Theodosius Dobzhansky, como também a fi nanciar a compra de equipamentos e a pes-quisa do laboratório. “Dreyfus, Dobzhansky, seus amigos e colegas Brieger, em Piracicaba, Krug, no Instituto Agronômico de Campinas, e Harry M. Miller Jr. são os primeiros res-ponsáveis pelo desenvolvimento da genética moderna no Brasil.”

Tempo integralTambém colaborou para esse desenvolvimen-to a adoção do regime de tempo integral, em 1947, nas instituições de pesquisa do estado de São Paulo. Até então, para sobreviver, os professores precisavam dar aulas em diversos lugares, o que difi cultava as atividades cien-tífi cas propriamente ditas. O tempo integral contribuiu para a consolidação da genética – e outras áreas também – como ciência estabe-lecida. Dreyfus, por exemplo, pôde largar as outras facul dades e se concentrar apenas na FFCL para se dedicar à pesquisa. Por interfe-rência da Fundação Rockefeller, que exigia que

Hampton Carson (esq.) e Edmundo Magalhães (de camisa branca) em pesquisa de campo em Mongaguá, nos anos 1950

AC

ER

VO

CO

MIS

O M

EM

ÓR

IA IB

-US

P

063-079_EspecialPavan_168.indd 68063-079_EspecialPavan_168.indd 68 01.02.10 17:57:1901.02.10 17:57:19

Page 69: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 69

os laboratórios e pesquisadores que fi nanciava trabalhassem em tempo integral, os estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro também passaram a adotar esse regime.

Na mesma época Pavan voltou dos Esta-dos Unidos e passou a se dedicar, junto com Dobzhansky, a planejar um grande projeto de pesquisas com drosófi las para ser realiza-do no Brasil. Segundo Magalhães, o cientista russo-americano estava interessado em es-tudar espécies brasileiras de drosófi las, que têm variabilidade muito grande em compa-ração com as que existem nos Estados Unidos, que são mais uniformes. Foi assim que fi cou acertada a realização do projeto com vários participantes não só do Brasil, mas também de fora para ser realizado entre 1948 e 1949 com apoio fi nanceiro da Rockefeller. Além de Dobzhansky e Pavan, ela fi nanciou a expansão do grupo da USP, trazendo Antonio Cordeiro, de Porto Alegre, Chana Malogolowkin e An-tonio Geraldo Lagden Cavalcanti, do Rio de Janeiro, Hans Burla, da Suíça, e Martha Wedel, da Argentina.

Mudança de ritmoPor esse e outros trabalhos, Simon Schwartz-man diz, em seu livro Um espaço para a ciên-cia – A formação da comunidade científi ca no Brasil, que Dobzhansky é lembrado como uma pessoa extremamente dinâmica e mudou o ritmo mais lento dos brasileiros com suas constantes solicitações de viagens de estudo, recursos e equipamentos. “Dreyfus não só não competiu com ele como se tornou seu principal defensor e ponto de apoio”, escre-ve Schwartzman. O autor lembra ainda que vários dos seus estudantes e assistentes fo-ram completar seus treinamentos nos Estados Unidos. “Formou-se uma rede de geneticistas (trabalhando não só em São Paulo, mas em Porto Alegre, em Brasília e no Paraná) espe-cializados em genética médica, genética das populações humanas e citogenética”, diz.

Segundo Magalhães, passada a grande agitação causada pela realização desse pro-jeto, o Departamento de Biologia Geral da FFCL voltou à calma, mas agora com mais entusiasmo. O projeto havia sido um sucesso e o departamento era visto com grande res-peito. “Era um departamento bastante jovem e que, em pouquíssimo tempo, apresentava, inquestionavelmente, um nível internacional”, lembra. “É verdade que a participação de Do-bzhansky foi muito importante, determinan-do o padrão científi co do grupo, mas a equipe de brasileiros, liderada principalmente por Pavan, soube dar a resposta certa ao desafi o que enfrentava.”

A institucionalização da genética não se limi-tou a São Paulo, no entanto. Em 1951 foi criado em Curitiba o primeiro centro brasileiro de pesquisa em genética humana, organizado por Newton Freire-Maia. Em 1959 foi a vez da disciplina de genética humana na Faculdade de Medicina da USP, tendo por professor Pedro Henrique Saldanha. Na SBG, Pavan era o presidente no biênio 1958-60. “Mais uma vez Pavan foi procurado por Miller, que propôs a ele que se interessasse pelo desenvolvimento da genética hu-mana, área essa que estava começando a se fi rmar no cenário mundial”, conta Magalhães. “Pavan recusou, mas pediu que a Rockefeller concedesse três bolsas de estudo para o exterior, para geneticistas brasileiros se especializarem em genética humana.”

Foi o que aconteceu. Os três escolhidos foram Freire-Maia e Salzano, dois drosofi listas, e Pedro Henrique Saldanha, do Rio de Janeiro, que já ha-via se mudado para São Paulo e iniciado, por conta própria, pesquisas em genética humana. Nessa oca-sião, Oswaldo Frota-Pessoa, outro drosofi lista, agora também trabalhando em genética humana, já estava com bolsa nos Estados Unidos. “Quando retornaram ao Brasil, Pavan, como presidente da SBG, criou a Comissão de Genética Humana, para promover o desenvolvimento dessa especialidade, com auxílio fi nanceiro da Rockefeller”, lembra Magalhães. “Pode--se, pois, afi rmar que a origem e o desenvolvimento desse ramo da genética também foram frutos da visão e do empenho de Pavan.” ■

Dobzhansky, em foto de Hans Burla

AC

ER

VO

HA

NS

BU

RL

A/C

OM

ISS

ÃO

ME

RIA

IB-U

SP

063-079_EspecialPavan_168.indd 69063-079_EspecialPavan_168.indd 69 01.02.10 17:57:2001.02.10 17:57:20

Page 70: Cogumelos iluminam a floresta

70 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

C omo costuma ocorrer com muitas des-cobertas científi cas, a mais importante

realizada por Crodowaldo Pavan foi por acaso. Em uma de suas excursões para coletas de dro-sófi las (a mosca-de-frutas, organismo modelo para pesquisa em genética), no fi m dos anos 1940, numa plantação de bananas em Monga-guá, no litoral sul de São Paulo, Pavan deu um chute numa bananeira caída e, embaixo dela, descobriu um bolo do que supôs ser vermes. O hábito e o instinto de cientista o fi zeram levá-los para o laboratório. Descobriu que, na verdade, eram larvas de uma mosca do gênero Rhynchosciara, que mais tarde lhe permitiria descobrir o fenômeno da amplifi cação gênica, que derrubou um dogma da biologia, a cons-tância do DNA.

As larvas eram da espécie Rhynchosciara angelae (hoje conhecida como R. americana). Segundo Luiz Edmundo Magalhães, elas se revelaram um excelente material para pes-quisa, por várias razões. “As larvas têm gran-des cromossomos nas células das glândulas salivares”, explica. “Além disso, todas, de cada bolo, são descendentes de uma única fêmea; apresentam hábito gregário e se desenvolvem sincronicamente.” André Perondini lembra que por causa dessa última característica Pa-van costumava dizer que analisar amostras de um grupo delas em dias sucessivos era como assistir a um fi lme de um fenômeno.

As pesquisas subsequentes realizadas por ele e colaboradores com a Rhynchosciara ren-deram uma série de artigos científi cos publi-cados nos anos seguintes. O mais importante deles, assinado com sua colaboradora Marta Breuer, foi publicado em 1955. O texto re-velava uma descoberta revolucionária, um marco histórico da biologia, pois derrubava um paradigma da ciência.

Até então se acreditava que o número de genes e, consequentemente, a quantida-de de DNA eram constantes nas células de cada espécie de ser vivo. Pavan observou na Rhynchosciara o aparecimento de determi-nadas formações em pontos específi cos dos cromossomos politênicos (cromossomos gi-gantes que aparecem nas células das glândulas salivares da mosca), que cresciam muito, e as chamou de pufes. “Estudando a formação desses pufes com uma técnica especial, ele

constatou que havia multiplicação dos genes nessa região, com síntese de DNA”, explica Ma-galhães. “Com essa descoberta, fi cava rejeitado o dogma de que a quantidade de DNA em uma célula era constante.”

Trata-se de um mecanismo conhecido hoje como amplifi cação gênica, pelo qual, em de-terminadas células e em momentos específi -cos do desenvolvimento, alguns genes fazem cópias adicionais, além da simples duplicação do fi lamento do cromossomo, como ocorre na divisão celular normal. Quando descreveu o fenômeno da amplifi cação gênica, Pavan também elaborou uma interpretação para ele. Ela passa pelo fato conhecido de que para o funcionamento das células cada gene é res-ponsável pela produção de um determinado produto, e isso é feito, em certo momento, pela transcrição de RNAs específi cos.

Ponto culminanteDe acordo com Perondini, esse processo trans-corre com determinada taxa por unidade de tempo e difi cilmente poderia ter a velocidade aumentada dentro das condições normais do corpo do indivíduo. “Assim, suponha que em determinados momentos da vida de um orga-nismo fosse necessária uma quantidade muito grande de um determinado produto gênico”, diz ele. “Como aumentar essa produção? Po-deria ser pelo aumento da duração do processo ou da taxa de transcrição do gene. Ambas as situações são muito difíceis de ocorrer. Outro modo seria aumentar o número de cópias do gene (amplifi cação), fazendo, assim, com que o RNA necessário fosse produzido em maior quantidade, na mesma unidade de tempo.”

Apesar de ser revolucionária – ou por causa disso mesmo –, a descoberta de Pavan demorou oito anos para ser aceita pela comu-nidade científi ca. “Durante esse período, eu apresentava os dados e o pessoal dizia: ‘Os seus dados valem, mas isso é uma exceção. É um inseto’”, contou em entrevista que consta do li-vro Cientistas do Brasil (CNPq, 1998). “Até que verifi caram que certos genes se multiplicam mais do que outros no cromossomo, que isso não era exceção e acontecia até no homem.”

As pesquisas com a Rhynchosciara foram o ponto culminante da carreira científi ca de Pavan. Antes disso, ele realizou pesquisas com

A queda de um dogmaPavan demonstrou que o número de genes não é constante nas células

EVANILDO DA SILVEIRA

Foi com a Rhynchosciara que Pavan descobriu o fenômeno da amplifi cação gênica

BIO

SIV

IER

O E

ED

SO

N D

E O

LIV

EIR

A

063-079_EspecialPavan_168.indd 70063-079_EspecialPavan_168.indd 70 01.02.10 17:57:2101.02.10 17:57:21

Page 71: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 71

Drosófi las, moscas-de--frutas: organismo modelo para pesquisa em genética

outras espécies de animais. A primeira delas foi o bagre-cego, Typhlobagrus kronci, que vive nas cavernas de Iporanga (SP), sobre o qual escreveu sua tese de doutorado, concluí-da em 1944.

Após o doutorado, o geneticista se dedicou às pesquisas com drosófi las, infl uenciado por Theodosius Dobzhansky, que veio a primeira vez ao Brasil em 1943. “O grupo do qual Pavan fazia parte fez um levantamento das espécies nativas de drosófi las de praticamente todo o Brasil”, conta Perondini. “Foi um trabalho muito importante na época em que o estu-do populacional de drosófi las estava ainda começando.”

Nos anos seguintes, num primeiro mo-mento, o seu trabalho foi direcionado basica-mente no sentido de coleção, catálogo e descri-ção das espécies brasileiras dessa mosca. “Isso resultou em um detalhamento da descrição

de cromossomos, genitália e do padrão do corpo de um grande número de espécies tro-picais”, explica Perondini. “Depois o trabalho progrediu com análises de correlações entre espécies e ambiente, tamanho da população e distribuição geográfi ca dos diferentes grupos de espécies.”

Em meados dos anos 1970, Pavan demons-trou interesse por uma nova área de pesquisa. Ele sugeriu a alguns cientistas que estavam desenvolvendo pesquisas em genética básica que começassem a usar como modelo insetos de interesse econômico, isto é, que causam da-nos a seres humanos ou prejuízos à agricultura e pecuária, por exemplo. Assim, até o fi m de sua vida continuou ligado ao laboratório. Em seus últimos anos, por exemplo, ele voltou sua atenção a outro problema biológico de grande importância, o papel das bactérias na fi xação do nitrogênio. ■

Infl uências e desdobramentosBrasil tem vários grupos trabalhando na fronteira do conhecimento

EDUARDO GERAQUE

No dia 7 de março de 1953, Francis Crick (1916-2004) e James Watson (1928) en-

traram para a história da ciência. Resultado da pesquisa feita pela dupla: a estrutura da molécula do DNA tem a forma de uma dupla hélice. A revolução genética, que abria espaço para caminhos inimagináveis, como o Projeto Genoma Humano, na década de 1990, estava só no início. Apenas dois anos depois do fa-moso artigo da dupla de cientistas, em 1955, Crodowaldo Pavan publicava um trabalho sobre replicação in vivo de DNA, na revista alemã Chromosoma.

Atualmente, mais de 50 anos depois, em qualquer laboratório de genética do mundo minimamente equipado existe o chamado PCR (reação em cadeia da polimerase, na sigla em inglês). Essa técnica amplifi ca a molécula de DNA in vitro. Por ela ser algo extrema-mente básico, o estudante de biologia, ainda durante a graduação, aprende a fazer o pro-cedimento. Esse método serve, por exemplo, para a identifi cação de organismos genetica-mente modifi cados. E para muitos outros que envolvem o estudo dos genes.

“Os trabalhos com replicação de DNA do Pavan, obviamente, são aqueles que mais cha-mam a atenção”, afi rma Carlos Menck, pesqui-

sador da Universidade de São Paulo (USP) e um dos líderes da área de genética no país nos dias atuais. Nos anos 1970, o atual cientista da USP assistiu a aulas de Pavan na graduação. “Na década de 1950, apenas dois anos depois do trabalho de Watson e Crick, Pavan já fa-zia biologia molecular de primeira linha com seus estudos sobre a replicação do DNA”, diz Menck. “Isso em uma época que ainda mal sabíamos que o DNA era realmente a molécula que guarda a informação genética.” Para ele, um olhar para os anos 1950 a partir de hoje realmente reforça a ideia de pioneirismo de Pavan. “É importante destacar que a genética feita por ele era realmente avançada naquele tempo, pelo menos no país.”

O bioquímico Hugo Armelin, professor do Instituto de Química da USP, também es-tudou a fundo o trabalho de Pavan feito na segunda metade dos anos 1950. Ele concorda com Menck que aquele estudo era realmente importante para a história da biologia mo-lecular feita no país. “Em minha opinião, o trabalho mais importante dele é a descoberta dos pufes de DNA em cromossomos politê-nicos [gigantes].”

Apesar de ter acompanhado o trabalho do pesquisador Pavan, Armelin ressalta que

ED

UA

RD

O C

ÉS

AR

063-079_EspecialPavan_168.indd 71063-079_EspecialPavan_168.indd 71 01.02.10 17:57:2501.02.10 17:57:25

Page 72: Cogumelos iluminam a floresta

72 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

não recebeu infl uência direta ou indireta dele. O bioquímico era do grupo do professor Francisco Lara, também da USP. “O trabalho desenvolvido e publicado na segunda metade dos anos 1950 foi sim o ponto de partida para os projetos do laboratório do professor Lara. Mas a abordagem científi ca entre os dois grupos, a partir daí, foi diferente. E os tra-balhos, nos anos 1960, se desenvolveram de forma totalmente independente entre os dois laboratórios”, ressalta Armelin.

As pesquisas sobre amplifi cação gênica, de forma específi ca, ou sobre a genética molecular, de uma for-ma mais geral, não apenas ajudaram na formação de pessoas. Esses caminhos acabaram infl uenciando os projetos de pesquisa de outros laboratórios. Processo que, no aspecto macroscópico, culminou com novas abordagens e linhas de pesquisa também inovadoras. Com seu trabalho, Pavan estava sem saber solidifi -cando um dos pilares da genética nacional.

Na fronteiraO Brasil hoje tem vários grupos de pesquisa traba-lhando na fronteira do conhecimento da genética. Parte disso deve-se ao que foi semeado por Pavan e vários de seus contemporâneos e discípulos como Francisco Salzano e Ernesto Paterniani, nos anos

1950 e 1960. Como explica a geneticista da USP Lygia da Veiga Pereira, uma das protagonistas da primeira linhagem de células-tronco embrionárias do país, se Gregor Mendel praticamente inaugurou o que se co-nhece hoje por genética clássica, Watson e Crick, com a revolução que fi zeram, criaram as bases modernas da genética molecular. “Em vez dos cruzamentos entre os descendentes com base apenas na observa-ção dos fenótipos [as características do indivíduo a partir de seus genes], os cientistas passaram a estudar também o próprio gene”, diz Lygia.

A genética clássica, baseada praticamente no mé-todo da tentativa e erro, apesar de existir até hoje, deixou o campo de batalha aberto para a entrada da genética molecular. A consequência atual disso, segundo Lygia, são pelo menos dois desdobramentos científi cos bastante defi nidos. “Passou a ser possível estudar os genes que estão produzindo um deter-minado fenótipo, e não apenas o contrário, e, além disso, surgiram os transgênicos, que são organismos que receberam pelo menos um gene de outra espécie para se chegar a uma determinada resposta previa-mente programada”, compara Lygia, também uma admiradora de Pavan.

Esses são dois dos alicerces científi cos que permi-tem ao mundo discutir hoje, por exemplo, a biologia

Artigo sobre a amplifi cação gênica, de 1955, e anotação de Marta Breuer sobre pufes da Rhynchosciara

IMA

GE

NS

: CO

RT

ES

IA D

E A

ND

LU

IZ P

ER

ON

DIN

I/IB

-US

P

063-079_EspecialPavan_168.indd 72063-079_EspecialPavan_168.indd 72 01.02.10 17:57:2801.02.10 17:57:28

Page 73: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 73

sintética – nada mais do que a construção de um organismo totalmente novo, a partir dos genes já devidamente estudados e identifi -cados. No caso pelo menos dos organismos geneticamente modifi cados, por exemplo, é só consultar os arquivos das últimas reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progres-so da Ciência (SBPC), de 2008 para trás, para

Neurônios (dir.) formados a partir de células pluripotentes (esq.): pesquisas inovadoras no século XXI

se saber a posição sempre veemente de Pavan em relação ao tema. Desde que os aspectos de segurança fossem considerados, ele era a favor das experiências com os transgênicos. Afi nal, lá atrás, nos anos 1950, os estudos pioneiros sobre amplifi cação gênica contribuíram, de alguma forma, com o que se busca atualmente nos laboratórios de genética do país. ■

Reforço para a política de C&TPavan atuou em diversas frentes na defesa da pesquisa nacional

NELDSON MARCOLIN

Cargo vitalício na Universidade do Texas, família adaptada à vida em Austin, pres-

tígio científi co no exterior. Ainda assim, em 1975 Crodowaldo Pavan decidiu voltar para São Paulo, depois de sete anos nos Estados Unidos. “Analisei a situação e achei que po-deria fazer mais pelo Brasil estando aqui do que lá”, disse ele posteriormente. O geneticista retomou o trabalho na Universidade de São Paulo (USP), mas ampliou consideravelmente seu espaço de atuação ao mergulhar nas ques-tões da política científi ca e tecnológica como nunca havia feito antes.

“Do ponto de vista meramente institucio-nal, Pavan teve uma participação pequena até meados dos anos 1970, embora tenha integra-do o primeiro Conselho Superior da FAPESP, de 1961 a 1963”, explica o físico e historiador Shozo Motoyama, do Centro Interunidade de História da Ciência da USP. Um pouco antes do retorno ao Brasil, ele participou da fundação da Academia de Ciências do Esta-do de São Paulo com Sérgio Mascarenhas, Oscar Sala e Shigueo Watanabe, entre outros

cientistas, em 1974. Na volta a São Paulo, em 1975, encontrou o país ainda sob o governo militar e a universidade à procura de liberdade de expressão e reivindicação.

De suas conversas com o físico Alber-to Luiz da Rocha Barros e com o sociólogo José Jeremias de Oliveira Filho surgiu a As-sociação dos Docentes da USP (Adusp), em 1976, recriando de certo modo a Associação de Auxiliares de Ensino que, embora ainda existisse no papel, havia deixado de atuar pe-las pressões do regime. “Esses três formaram o núcleo inicial ao qual se juntaram outros professores infl uentes, como Simão Mathias e Antonio Candido”, conta. Para Motoyama, uma das características de Pavan era a ousadia. “Ele nunca teve medo de propor e fazer o que achava correto, mesmo quando as difi culdades pareciam muito grandes, como era o caso nos anos 1970.”

Por 10 anos, de 1975 a 1985, Pavan coor-denou o Programa Integrado de Genética, que tinha apoio do Conselho Nacional de Desen-volvimento Científi co e Tecnológico (CNPq).

LA

BO

RA

RIO

DE

LY

GIA

DA

VE

IGA

PE

RE

IRA

/IB

-US

P

063-079_EspecialPavan_168.indd 73063-079_EspecialPavan_168.indd 73 01.02.10 17:57:2901.02.10 17:57:29

Page 74: Cogumelos iluminam a floresta

74 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

A fi nalidade era ampliar os auxílios para a pesquisa e discutir as prioridades e as áreas a serem exploradas em genética no Brasil. “Tratava-se de um programa integrado no qual se discutia o que estava sendo fei-to, o que havia sido feito e o que deveria ser feito”, contou ele em depoimento para o livro 50 anos do CNPq contados pelos seus presidentes.

De 1981 a 1984 o geneticista foi diretor presidente do conselho técnico administrativo da FAPESP e teve participação importante na recuperação econômi-ca da Fundação, debilitada pelo atraso no repasse governamental das verbas, que, por sua vez, eram corroídas pela alta infl ação. No mesmo período, por três mandatos, de 1981 a 1986, presidiu a Socieda-de Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Pavan soube utilizar os dois cargos em instituições importantes que ocupava simultaneamente e sua reconhecida capacidade de mobilização para, jun-to com professores das três universidades públicas paulistas e pesquisadores dos institutos de pesquisa do estado de São Paulo, promover o simpósio “Crise, universidade e pesquisa” na Assembleia Legislativa. Como resultado da pressão política, o então depu-tado Fernando Leça propôs uma emenda que obri-gava o governo a fazer os repasses em duodécimos (mensalmente) no próprio ano da arrecadação. Antes o pagamento deveria ser feito em quatro parcelas anuais, o que ocorria com cerca de dois anos de atra-so. A Emenda Leça terminou aprovada em 1983. “A liderança de Pavan foi importante nesse episódio”, lembra Motoyama.

O geneticista estava no seu terceiro mandato na presidência da SBPC quando foi convidado por Rena-to Archer, primeiro ministro do então recém-criado Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para assu-mir a presidência do CNPq, em 1986. Pavan deixou a SBPC e por cinco anos comandou a principal agência de fomento à pesquisa do país. “Antes disso, ele foi um importante apoiador da criação do MCT”, teste-munha o presidente da FAPESP, Celso Lafer.

No CNPq Pavan tratou de recuperar verbas pa-ra bolsas e pesquisas agindo não só no âmbito do governo, mas amealhando apoio no Congresso Na-cional. “Nós tínhamos o Ulysses Guimarães – prati-

camente o ‘dono’ do Congresso – ajudando-nos com os líderes partidários para que nossas proposições fossem aceitas”, disse ele em entrevista. Pavan se or-gulhava de ter concedido mais bolsas no país nos três primeiros anos à frente do CNPq do que nos 30 anos anteriores. Quando ele iniciou sua gestão, eram por volta de 13 mil bolsas por ano; quando saiu, deixou a concessão anual de 44.110 bolsas, no mínimo, estabelecida por lei. A agência federal con-seguiu também aumentar seu valor ao vinculá-las ao salário de professores das universidades federais. Um doutorando ganhava 70% do salário do professor--assistente doutor, por exemplo.

ConsolidaçãoDurante a Constituinte, em 1988, o CNPq convocou os pesquisadores para elaborar propostas. Para cada trecho que se pretendia inserir na Carta Magna nas questões de ciência e tecnologia havia um grande trabalho de preparação de textos e de convencimento pessoal dos deputados constituintes. “As discussões mais importantes se referiam à universidade, ao es-paço de pesquisa em territórios (como no subsolo e na Amazônia) e às relações entre produção científi ca e propriedade intelectual”, conta Luiz Curi, chefe de gabinete adjunto e depois assessor especial da presi-dência do CNPq na época de Pavan. Depois da Cons-tituição aprovada, começou outro trabalho: manter a vigilância e a pressão no momento da defi nição das emendas orçamentárias, não apenas para evitar que a pesquisa perdesse verba, mas para garantir dinheiro para outros projetos.

“Pavan consolidou a política de ciência e tecnolo-gia no Brasil”, diz Curi. De acordo com ele, também deu muita atenção às políticas estratégicas de C&T, abrindo espaço para as discussões sobre questões relativas à inovação, como novos materiais, quími-ca fi na, informática e necessidade de pesquisa em fármacos. “Não foi ele quem realizou tudo isso, mas passou a lidar com esses temas, que se relacionavam à inovação”, esclarece. “Com Pavan, a política como marco de uma ação de Estado foi aprofundada.”

Nos cinco anos que fi cou no CNPq, Pavan con-viveu com cinco ministros de Ciência e Tecnologia

Estação Ciência, em São Paulo: um centro interativo para jovens aprenderem ciência

EL

IZA

BE

TH

LE

E/E

STA

ÇÃ

O C

IÊN

CIA

063-079_EspecialPavan_168.indd 74063-079_EspecialPavan_168.indd 74 01.02.10 17:57:3001.02.10 17:57:30

Page 75: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 75

diferentes e mudanças no status da autarquia – o MCT tornou-se secretaria especial por um período e depois voltou a ser ministério. “Ele tinha grande representatividade na comunida-de científi ca brasileira, visibilidade internacio-nal e uma agenda muito positiva para a C&T, com resultados concretos”, diz Luiz Curi. “Era muito difícil tirá-lo do cargo, mesmo quando o ministro não gostava dele.”

Duas outras iniciativas ajudaram a marcar a gestão naquele período, ambas realizadas em 1987. Uma delas foi a criação do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), instalado em Campinas, para pesquisar novas proprie-dades físicas, químicas e biológicas existentes em átomos e moléculas. É o único do gênero existente na América Latina e o primeiro ins-talado no hemisfério Sul.

A segunda foi o desenvolvimento de um centro de ciências para a juventude como vinha surgindo em vários outros países na época, batizada de Estação Ciência. “O pro-fessor Pavan me chamou para coordenar o projeto e pediu para consultar cientistas de todo o Brasil com o objetivo de buscar ideias e a concordância da comunidade científi ca”, conta a professora de história Nely Robles Reis Bacellar, primeira diretora da Estação Ciência. O CNPq conseguiu com o governo de São Paulo a concessão de galpões no bairro da Lapa, tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artís-tico e Turístico (Condephaat) e começou os trabalhos de arquitetura e museologia para adequar o local a um centro de ciência sem descaracterizar os prédios. “O Pavan achou a localização ótima porque fi cava próxima do terminal de ônibus, de trem e do metrô e facilitava a visitação de estudantes, o que efetivamente ocorreu”, conta.

Quando o governo de José Sarney termi-nou, em 1990, Pavan saiu do CNPq e Nely da Estação Ciência. A USP negociou com a agência federal a encampação do centro e deu

continuidade aos programas de populariza-ção da ciência para jovens. O generoso espaço sempre foi bem aproveitado na montagem de exposições e eventos e as novas tecnologias foram utilizadas para tornar mais atraente o aprendizado científi co dos jovens. A atual di-retora, Roseli de Deus Lopes, assumiu em 2008 e começou um projeto de resgate da memória do centro de modo a dar visibilidade a essa história. “Os registros estão todos aqui, mas senti falta de um livro, de depoimentos grava-dos em vídeo e de exposições sobre o que já foi feito”, diz. Hoje visitam o local mais de 400 mil pessoas por ano, entre estudantes e público em geral. “É importante que essas pessoas possam saber quem foi e o que fez Crodowaldo Pavan e quais os frutos de um centro de divulgação científi ca como este.”

Novos projetosEm 24 de junho do ano passado, no aniversá-rio de 22 anos da Estação e dois meses depois da morte de Pavan, foi feita uma homenagem a ele e inaugurada a obra A mosca do professor Pavan, do artista plástico José Roberto Aguilar. Neste ano estão previstos um seminário e ou-tros projetos sobre a memória do centro, que contam com a colaboração dos ex-diretores Ernest Hamburger, Wilson Teixeira, Saulo de Barros e do atual vice-diretor Mikiya Mura-matsu, além de Nely, que já doou material e deu seu depoimento sobre o início do projeto e iniciativa de Pavan.

Nas décadas de 1990 e 2000, fora do gover-no, o geneticista continuou suas pesquisas em genética – que nunca abandonou –, mas sua atuação institucional e política esteve voltada mais para a divulgação científi ca e populari-zação da ciência. Em 2001 ajudou a fundar a Associação Brasileira de Divulgação Científi ca (Abradic) como decorrência de seu trabalho no Núcleo José Reis de Divulgação Científi ca da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde foi um dos coordenadores. ■

Pavan se

orgulhava,

em seus

três primeiros

anos à frente

do CNPq, de

a instituição

ter concedido

mais bolsas

no país do

que nos

30 anos

anteriores

063-079_EspecialPavan_168.indd 75063-079_EspecialPavan_168.indd 75 01.02.10 17:57:3101.02.10 17:57:31

Page 76: Cogumelos iluminam a floresta

76 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

Reminiscênciasdo tempo das drosófi las Homenagem póstuma a Crodowaldo Pavan

LUIZ EDMUNDO MAGALHÃES (*)

Creio que não houve, até a data de hoje, na história da ciência brasileira, nenhum pes-

quisador que tivesse um currículo tão cheio de realizações, com tão grande número de sucessos, como o do Crodowaldo Pavan.

Ele foi uma pessoa de muita sorte na sua vida profi ssional. Teve, digamos assim, três anjos da guarda da melhor qualidade, que sempre o orientaram e o ajudaram muito, o que não quer dizer, de forma alguma, que Pavan não tivesse trabalhado muito e se dedicado integralmente à sua vida profi ssional para conquistar tudo o que conquistou. Os anjos foram André Dreyfus, que o orientou no início da carreira, Harry Mil-ler Jr., que, por 20 anos, deu suporte fi nanceiro para pesquisas, e Theodosius Dobzhansky, seu segundo orientador e colaborador até 1956.

André Dreyfus, o catedrático do Departa-mento de Biologia, do curso de história natu-ral da Faculdade de Filosofi a, Ciência e Letras da Universidade da São Paulo (USP), foi um grande intelectual. Oriundo do Rio Grande do Sul, foi estudar medicina no Rio de Janeiro. Conta a história que, para se sustentar, ofere-cia um curso de histologia que, de tão bom e famoso, era frequentado até pelos próprios do-centes da Faculdade de Medicina. Ficou muito famoso e sua fama logo extrapolou a cidade do Rio. Era considerado um excelente didata e, além disso, foi um homem sempre atualizado que acompanhava de perto o desenvolvimento científi co, especialmente nas áreas biológicas. Assim que se formou, foi convidado para vir lecionar na Escola Paulista de Medicina. Foi um dos poucos brasileiros, naquela época, a ocupar uma cátedra na recém-criada Facul-dade de Filosofi a da USP, justamente a cátedra de biologia geral que compreendia o ensino da genética e evolução.

Foi ele quem aconselhou o jovem estudante Pavan a ingressar no curso de história natural da USP, num encontro ocasional, no fi nal de uma conferência proferida por Dreyfus no anfi teatro da Biblioteca Municipal, em São Paulo. E foi isso que Pavan fez, desistiu de ingressar na Politéc-nica para fazer o curso de história natural, onde se licenciou e se bacharelou, em 1941.

Nessa época, Pavan já havia se ligado ao Departamento de Biologia, sendo primeiro ins-

trutor de biologia e, depois de formado, terceiro assistente. Iniciou imediatamente seu doutora-do, tendo Dreyfus como orientador.

Em 1942 Dreyfus foi procurado pelo repre-sentante da Fundação Rockefeller para a Amé-rica do Sul, Harry Miller Jr. Com o evento da Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, os países que recebiam auxílio fi nanceiro da fun-dação não tinham mais condições de continuar fazendo pesquisa. Por esse razão, a fundação havia decidido passar a investir na América do Sul. Miller queria saber se Dreyfus estaria inte-ressado em ser ajudado, talvez recebendo uma bolsa de estudos para se aperfeiçoar nos Esta-dos Unidos. Pavan, que estava acompanhando Dreyfus nesse encontro, vibrou de entusiasmo com essa oportunidade de receber auxílio fi nan-ceiro da Rockefeller. O assunto fi cou para ser decidido em uma próxima reunião, que ocorreu algum tempo depois. Dreyfus se recusava a ir para fora do Brasil e preferiu que um professor estrangeiro viesse para cá, o que seria bem mais produtivo. Após uma longa discussão, Miller acabou concordando, como conta muito bem Pavan numa rica entrevista, muito interessante, publicada em 2002 no livro 50 anos de CNPq contados pelos seus presidentes.

Miller, então, tomou a iniciativa de sugerir o nome do eventual professor que seria convi-dado a trabalhar na Biologia: “Vou falar com o professor Theodosius Dobzhansky!”.

Ele já estava no auge de sua carreira. Era um deus! O seu livro Genetics and the origin of species, lançado pela Columbia University Press em 1937, teve, na primeira edição, duas impressões, uma em 1937 e outra em 1939; uma segunda edição, em 1941 viria a ser seguida por três reimpressões, duas em 1947 e outra em 1949. Foi um grande sucesso. Além disso, Dobzhansky foi um dos principais pesquisadores que intro-duziram a drosófi la como material experimental de pesquisa para os estudos de evolução e gené-tica de populações, o que se tornou uma grande moda, adotada em todos os principais centros de pesquisa do mundo. Ele era o papa!

Miller convenceu Dobzhansky a alterar a sua programação e aceitar o convite de vir ao Brasil. O professor, porém, fez uma exigência: queria coletar na Amazônia. Assim em 1943 ele veio

(*) Luiz Edmundo Magalhães é professor titular de genética e evolução e ex-diretor do Instituto de Bio-ciências da USP. Foi reitor e doutor honoris causa da Universidade Federal de São Carlos, professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP e professor visitante da Unifesp. Este trabalho foi feito a convite da Sociedade Brasileira de Genética e apresentado no simpósio “A pre-sença de Crodowaldo Pavan na genética bra-sileira: memorial”, du-rante o 55o Congresso Brasileiro de Genética, em setembro de 2009 (Águas de Lindoia).

063-079_EspecialPavan_168.indd 76063-079_EspecialPavan_168.indd 76 01.02.10 17:57:3201.02.10 17:57:32

Page 77: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 77

para o Departamento de Biologia Geral, então instalado na alameda Glete.

Coube a Pavan a tarefa de acompanhar o ilustre visitante em suas viagens pelo Norte. Foi uma excelente oportunidade para se fi r-mar uma grande amizade entre os dois. Pavan gostava muito de fazer excursões; além do mais era uma pessoa extremamente gentil e sabia muito bem agradar a quem ele queria. Não é pois de admirar que tivesse cativado completa-mente Dobzhansky que só se referia a ele como “Pavanzinho”.

Foi assim que o uso das drosófi las nas pes-quisas foi introduzido no Brasil, um campo de estudos ainda completamente virgem entre nós, o que signifi ca grandes facilidades e sucesso ga-rantido. Dobzhansky ensinou os conhecimentos básicos de drosófi la, a sistemática e a criação das espécies em laboratório. Em 1943 Pavan já tinha os seus dois primeiros trabalhos de pesquisa publicados, ambos em colaboração com Dobzhansky. Um deles sobre sistemática, publicado em um boletim do Departamento de Biologia, e outro, sobre os cromossomos das espécies brasileiras de drosófi la, publicado nada mais, nada menos que no PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences, uma das revistas mais difíceis de se conseguir aceitação de trabalho para publicação. Essa foi, sem dú-vida, uma excelente estreia. E bastante rápida também. A visita de Dobzhansky ao Brasil foi relativamente curta, seis meses, mas não signifi -cou que a cooperação entre ele e o departamento tivesse acabado. Ao contrário. Na volta para os Estados Unidos, Dobzhansky levou amos-tras de espécies brasileiras, principalmente de D. willistoni e D. prosaltans, para preparar com elas linhagens com letais balanceados, que seriam usadas nas pesquisas para determinar a frequência de genes letais e estéreis em popu-lações naturais.

Pavan, que concluiria o seu doutorado em 1944, recebeu da Fundação Rockefeller uma bolsa de pós-doutorado de 19 meses. Ficou tra-balhando, em 1945/46, parte no laboratório de Dobzhansky, na Columbia University, seis meses na Universidade do Texas, em Austin, e ainda fez visitas a várias universidades do Canadá patrocinadas pelo consulado canadense.

A partir daí, após a sua volta, Pavan e Dobzhansky passaram a planejar um grande projeto para ser realizado no Brasil. É preciso lembrar que Dobzhansky estava extremamente interessado em realizar pesquisas com espécies brasileiras de drosófi la, que exibem uma gran-de variabilidade em comparação com as dos Estados Unidos, que são bastante uniformes. Era, pois, muito importante para o seu trabalho científi co ter dados comparativos dessas duas

diferentes regiões. Foi assim que fi cou acertada a realização do projeto com vários participan-tes, não só do Brasil mas também de fora para ser levado a efeito entre 1948/49, tudo com o suporte fi nanceiro da Fundação Rockefeller. Desse projeto resultaram nove publicações en-tre 1950/51.

Participaram do grupo de trabalho, além de Dobzhansky, Pavan, Antonio Brito da Cunha, Antonio Cordeiro, do Rio Grande do Sul, An-tonio L. Cavalcanti e Chana Malogolowkin, do Rio de Janeiro, Sophie, a fi lha de Dobzhansky, Martha Wedel, da Argentina, Hans Burla, da Suíça, Boris Spasky, que fi cou trabalhando na Columbia University, e a alemã Marta Breuer, técnica da Biologia.

Em 1949 Newton Freire-Maia e Pavan pu-blicaram “Introdução ao estudo da drosófi la”, um trabalho de divulgação, na revista Cultus, do Ibecc. Era uma obra de caráter didático, des-tinada a estudantes do curso secundário, mas

Pavan, Brito da Cunha (em pé), Dobzhansky e sua fi lha, Sophie, na Vila Atlântica

AC

ER

VO

CO

MIS

O M

EM

ÓR

IA IB

-US

P

063-079_EspecialPavan_168.indd 77063-079_EspecialPavan_168.indd 77 01.02.10 17:57:3201.02.10 17:57:32

Page 78: Cogumelos iluminam a floresta

78 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

que fez enorme sucesso, mesmo entre professores secun-dários e estudantes de universidade. A edição se esgotou e foram feitas cópias avulsas. Essa publicação ajudou a defi nir a vocação profi ssional de muitos alunos, que, por isso, se encaminharam para o curso de história natural. Considero essa uma relevante prestação à causa do ensino, tão desamparado no Brasil.

Passada a grande agitação causada pela realização do projeto conjunto com os vários participantes do Brasil e do exterior, o Departamento de Biologia voltou à calma, agora com o moral mais elevado. O projeto havia sido um sucesso em todos os sentidos e o nome do departamento era visto com grande respeito e, talvez, com uma ponta de ciúmes. Era um departamento bastante jovem e que, em pouquíssimo tempo, apresentava, inquestionavelmente, um nível internacional. É verdade que a participação de Dobzhansky foi muito importante, determinando o padrão científi co do grupo, mas há de se considerar que a equipe de brasileiros, liderada principalmente por Pavan, deu a resposta certa ao desafi o que enfrentava. Foi um período de trabalho intenso, de grande entusias-mo, principalmente pelo intercâmbio intelectual entre os seus componentes. Vivia-se a ciência e, para os bons pesquisadores, nada pode ser melhor e mais gratifi cante do que isso.

Terminada essa etapa, quando se esperava um período de paz e tranquilidade, eis que surgiu, para todos, uma grande preocupação. O querido mestre, o grande condutor de todo o processo, o professor Dreyfus, começou a apresentar um sério problema de saúde. Sua pressão sanguínea fi cou alta e ele fi cou sujeito a derrames, o que vez ou outra ocorreu, obrigando-o a se internar no Hospital das Clínicas, onde foi cuida-dosa e carinhosamente tratado pelos vários amigos,

seus colegas de profi ssão e com a atenção dos leigos. Todos sabiam que a sua doen-ça era grave e que, a qualquer momento, o pior poderia acontecer. Nesse caso, a cátedra fi caria vaga e, pela legislação vigente, a mes-ma até hoje, entraria em concurso público imediatamente.

Foi assim que surgiu uma forte pressão sobre Pavan para a eventual necessidade de enfrentar o concurso. Dreyfus foi quem mais o estimulou a se preparar rapidamente, a fi m de poder vir a ocupar o seu lugar como professor catedrático. Era importante ter o tí-tulo de livre-docente para ter chance no con-curso. Era considerado difícil, um dos mais importantes marcos da vida acadêmica, o que signifi cava maturidade científi ca ou, melhor dizendo, intelectual. Aceitar esse desafi o fez com que Pavan passasse a se dedicar exclusiva e intensamente ao preparo desse concurso, que teve lugar em 1951.

O estado de saúde de Dreyfus não apre-sentava melhora signifi cativa, mas ele não deixava de comparecer ao departamento e de participar, inclusive, de aulas. Com um

dos derrames que sofrera, fi cou semiparalítico do lado direito. Embora estivesse dispensado de ministrar as suas aulas, lá ia ele assistir às de seus substitutos e não se continha, cada vez que a exposição não lhe agradava. Sem nenhuma cerimônia, interrompia o mestre e ele próprio passava a expor o tema, escrevendo no quadro--negro, com grande difi culdade, com a mão esquerda. Frequentemente Pavan interrompia a aula assistida por Dreyfus para medir a sua pressão arterial, com me-do que viesse a ocorrer uma forte alteração. As turmas eram pequenas e havia uma relação muito estreita entre alunos e docentes, de modo que esses acontecimentos eram aceitos com a máxima naturalidade. Éramos uma família!

Infelizmente não houve jeito e, em fevereiro de 1952, Dreyfus faleceu, causando uma enorme consternação em toda a comunidade acadêmica. Ele era um excelente didata, dono de vasta cultura humanística e científi ca, realmente uma pessoa muito especial que irradiava simpatia. Sua morte foi muito pranteada.

Como era esperado, Pavan foi alçado ao cargo de professor catedrático pro-tempore até que o concurso viesse a ser realizado. Como candidato ao cargo passou a se dedicar integralmente ao preparo do concurso. Sua tese se chamou “Relações entre populações naturais de Drosophila e o meio ambiente”. Um aproveitamento integral de quase todas as coletas que havia feito nas inúmeras excursões em várias partes do Brasil.

Um concurso público é sempre um risco, ninguém pode estar seguro do que irá acontecer. É, pois, sempre bom prevenir. Pavan achou que, se Dobzhansky, um voto seguro para ele, estivesse presente fazendo parte da banca, poucos examinadores teriam a petulância de ir contra a sua posição.

Dreyfus, Chana, Dobzhansky, Martha Wedel, Antonio Cordeiro (sentados), Hans Burla e Antonio Cavalcanti (em pé): época de grande entusiasmo

AC

ER

VO

HA

NS

BU

RL

A/C

OM

ISS

ÃO

ME

RIA

IB-U

SP

063-079_EspecialPavan_168.indd 78063-079_EspecialPavan_168.indd 78 01.02.10 17:57:3301.02.10 17:57:33

Page 79: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 79

A faculdade não se opôs a incluí-lo na banca. Expirado o prazo de inscrição dos candidatos ao concurso, constatou-se, com certo alívio, que apenas Pavan estava inscrito. Só isso já era me-tade da batalha ganha.

O concurso foi longo, com várias provas e diversas cerimônias às quais, mais tarde, em carta aos amigos, Dobzhansky se incumbiu de fazer uma crítica ferina. O resultado foi um grande sucesso, Pavan foi aprovado e se tornou o professor catedrático mais jovem da USP, em 1953, com apenas 33 anos. Não houve nenhum favor na aprovação do candidato. Pavan, em-bora bastante jovem para concorrer a uma cá-tedra, havia cumprido tudo o que é necessário para atender às exigências do concurso. Além do mais, se fôssemos considerar os possíveis can-didatos, salvo talvez o professor Antonio Brito da Cunha, que fi dalgamente abriu mão do seu direito de se inscrever, não havia mais ninguém capacitado ao cargo. A justiça foi feita.

No tempo da alameda Glete, o expediente de trabalho era de segunda a sexta-feira, das 8 até as 18 horas e, aos sábados, das 8 às 12 horas, frequentemente estendido até as 18 ho-ras. Além disso, era comum que aos domingos, de manhã, se desse uma passada pela Biologia para encontrar os colegas e se programar para a semana seguinte. À noite também era costu-me trabalhar. Na verdade, o departamento era como se fosse a nossa própria casa. Havia uma grande harmonia entre todos os membros que, naquele tempo, não eram muitos. Ao todo, umas 15 pessoas. Depois foi aumentando.

Pavan foi um catedrático bastante liberal, que não quis fazer uso das prerrogativas auto-ritárias do cargo. Pode-se dizer que esse foi um período extremamente pacífi co, agradável e pro-dutivo. As pesquisas com drosófi la continuavam agora com um objetivo a mais, estudar o efeito das radiações em populações naturais. Pavan e Dobzhansky empreenderam a realização de um novo projeto no departamento, com a par-ticipação de vários pesquisadores estrangeiros. Dobzhansky tinha em mente testar algumas hipóteses novas que ele havia levantado e, para isso, necessitava de várias populações naturais isoladas. Pavan lhe ofereceu as ilhas de Angra dos Reis, um verdadeiro paraíso. Mais uma vez a Rockefeller foi acionada e arcou com o fi nan-ciamento completo do projeto.

Além de Dobzhansky, foram convidados os seguintes pesquisadores do exterior: Charles Birch, da Austrália, coautor com Andrewartha de uma obra recém-publicada The distribution and abundance of animals, que se tornou muito famosa pelas informações coligidas; Bruno Bata-glia, da Itália, e Ove Frydenberg, da Dinamarca. Do Brasil foram convidados Cora Pedreira, da

Bahia, e Mirtes Nilo Bispo, de Pernambuco. Os demais membros eram todos do Departamento de Biologia.

O projeto teve início em 1956. Infelizmente esse não foi um bom momento. Logo no início dos trabalhos, quando a equipe toda se reuniu, houve um sério desentendimento de ideias en-tre Frydenberg e Dobzhansky, que causou um grande mal-estar. Era difícil compreender que um jovem pesquisador, recém-doutorado, ti-vesse a petulância de se contrapor ao célebre e famoso velho professor Theodosius Dobzhansky, tão reverenciado no mundo todo. Não tenho dúvida de que, no caso, o jovem dinamarquês estava coberto de razão. A afi rmativa da época, que Dobzhansky fez em sua defesa, era que ele só reconhecia dois tipos de pesquisa científi ca: as pioneiras e as não pioneiras. As pioneiras eram boas e as outras não. A pesquisa propos-ta era pioneira e, consequentemente, era uma boa pesquisa. É claro que esse argumento não se sustentava, como foi provado na prática, pois os trabalhos realizados tiveram resultados que nem foram publicados. Esse episódio poderá ser mais bem esclarecido por alguém com pendor pela história das ciências. Aliás, eu penso que um dia deveria haver uma reavaliação crítica da obra de Dobzhansky, que foi tão importante em nível mundial para os estudos da teoria da evolução.

Findo esse período do projeto multi-ins-titucional, as coisas voltaram ao normal. O tempo da alameda Glete estava com os seus dias contados. As obras da Biologia na Cidade Universitária estavam prestes a terminar. Em 1960 o departamento se mudou para lá, mas nunca mais foi o mesmo. ■

Pavan foi um

catedrático

bastante

liberal, que

não quis fazer

uso das

prerrogativas

autoritárias

do cargo. Foi

um período

pacífico,

agradável

e produtivo

Prédio da alameda Glete, onde funcionou o Departamento de Biologia

AC

ER

VO

CO

MIS

O M

EM

ÓR

IA IB

-US

P

063-079_EspecialPavan_168.indd 79063-079_EspecialPavan_168.indd 79 01.02.10 17:57:3401.02.10 17:57:34

Page 80: Cogumelos iluminam a floresta

80 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

LINHA DE PRODUÇÃO MUNDO>>

> Sequência expressa

O trabalho de sequenciar genes poderá se tornar mais rápido e barato segundo um grupo de pesquisadores das universidades de Boston e de Nova York, nos Estados Unidos, e da Universidade Bar-llan, em Israel. Eles desenvolveram um método que usa uma quantidade reduzida de DNA, além de

Na busca por fontes de energia

renováveis cada vez mais efi -

cientes, pesquisadores do La-

boratório Nacional Sandia, dos

Estados Unidos, criaram um ti-

po de célula solar fotovoltaica

de dimensões micrométricas

que poderá trazer soluções

mais efi cientes do que as exis-

tentes no mercado. A grande

vantagem do novo dispositivo,

que lembra minúsculas partí-

culas cintilantes usadas em

decoração conhecidas como

glitter, é que ele emprega 100

vezes menos silício para pro-

duzir a mesma quantidade de

energia elétrica. Os primeiros

testes mostraram uma efi ciên-

cia de conversão da energia

solar em elétrica de 14,9%,

índice que varia nos módulos

solares comerciais de 13% a

20%. As microcélulas solares

têm entre 14 e 20 micrômetros de espessura – cerca de um

quinto da espessura de um fi o de cabelo – e são 10 vezes mais

fi nas do que as células solares convencionais. Por serem tão

pequenas, além de compor painéis solares, essas microcélulas

poderiam ser usadas em superfícies de veículos, prédios e

roupas. Segundo seus inventores, o processo de fabricação

usa o mesmo princípio dos dispositivos microeletromecânicos,

conhecidos pela sigla Mems, o que permitirá ter controles inte-

ligentes e sistemas de armazenamento de energia na forma de

chip, facilitando a integração com a rede de energia elétrica.

PA

INÉ

IS C

INT

ILA

NT

ES

também chamada de alga azul ou azul-esverdeada. Os pesquisadores, liderados pelo professor James Liao, primeiro aumentaram a quantidade da enzima RuBisCo da cianobactéria, que responde pela

fi xação de CO2. Depois juntaram genes de outros microrganismos para construir uma bactéria que consumisse dióxido de carbono e, pela fotossíntese, produzisse o gás isobutiraldeído. A bactéria pode produzir o isobutanol diretamente, mas os pesquisadores decidiram, por enquanto, usar um catalisador para converter o gás em isobutanol.

> Biocombustível da fotossíntese

Uma bactéria geneticamente modifi cada foi criada na Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), nos Estados Unidos, para consumir dióxido de carbono (CO2) e liberar o combustível líquido isobutanol, que apresenta um bom potencial como substituto da gasolina. A conversão é feita pela energia do sol, por meio da fotossíntese. O ponto de partida para chegar a esse novo método de produção de combustível foi a utilização da cianobactéria Synechococcus elongatus,

Representação artística de microcélulas solares de silício

Cultura debactéria modifi cada

geneticamente

MU

RA

T O

KA

ND

AN

/SA

ND

IA

UC

LA

080-081_LinProd Mundo_168.indd 80080-081_LinProd Mundo_168.indd 80 01.02.10 18:02:0501.02.10 18:02:05

Page 81: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 81

é detectada por um aparelho que apresenta o resultado em apenas 12 minutos. O sensor tem o tamanho de uma caixa de fósforos e sua sensibilidade se equipara à de outras técnicas como espectrometria de massa. O dispositivo pode detectar outras toxinas com a troca do anticorpo. Agoraos inventores buscam parceiros para colocar a tecnologia no mercado.

eliminar a fase de ampliação dessa molécula. Sob a coordenação do professor Amit Meller, de Boston, a equipe possibilitou a detecção de moléculas de DNA por meio da passagem delas através de nanoporos de nitreto de silício presentes em uma estrutura semelhante a um chip. A tecnologia utiliza campos elétricos para colocar longos cordões de DNA em poros de quatro nanômetros de largura como se fosse uma agulha passando um fi o num tecido. Nos orifícios são detectadas as bases químicas que compõem um gene sem a necessidade de ampliar as moléculas. Os pesquisadores preveem que o sequenciamento de um genoma com esse método passe de 800 para 8 mil pares de base em cada molécula de DNA.

> Memória fl exível

Uma memória fl ash totalmente feita de polímero acaba de ser inventada por um grupo de pesquisadores da Universidade de Tóquio, no Japão, do Instituto Max Planck, na Alemanha, e da Universidade de Linz, na Áustria. Esse tipo de memória eletrônica é usada em câmeras digitais, pen-drives e tocadores de MP3. A nova tecnologia, baseada em transistores orgânicos, utiliza compostos à base de carbono sobre substratos plásticos, fi nos e fl exíveis. A novidade abre caminho para a produção de dispositivos eletrônicos fl exíveis como os tocadores de música. Os pesquisadores demonstraram que o protótipo – um conjunto de 26 por 26 células de memória – mantém os dados armazenados mesmo na ausência de energia, como acontece com as memórias produzidas de semicondutores inorgânicos como o silício. Outra vantagem das memórias orgânicas frente às tradicionais é a possibilidade de serem processadas em baixas temperaturas.

> Sensor de papel e nanotubos

A detecção de microrganismos na água potável ganhou um novo sensor. O invento criado por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e da Universidade Wuxi,

na China, consiste de uma tira de papel impregnada de nanotubos de carbono e de anticorpos para a toxina microcistina-LR produzida por bactérias e que pode ser danosa ao fígado. Quando o papel é mergulhado num corpo de água contaminada, a toxina se une aos anticorpos, afetando a condutividade dos nanotubos. Essa alteração da condutividade

ED

UA

RD

O C

ES

AR

O grafeno, material semicondutor feito de folhas de

carbono com apenas um átomo de espessura, é a

aposta da empresa japonesa Fujitsu para a produção

de circuitos eletrônicos. Esse material é considerado

por muitos pesquisadores como o sucessor do silício

quando os limites de miniaturização dos atuais com-

ponentes microeletrônicos forem atingidos. A Fujitsu

conseguiu comprovar a viabilidade de fabricar chips de

grafeno em escala industrial empregando equipamen-

tos e processos normalmente utilizados pela indústria

de semicondutores, como, por exemplo, a técnica de

deposição de vapor químico em baixa temperatura.

Os pesquisadores da empresa reduziram a tempera-

tura de fabricação do grafeno dos habituais 800ºC a

1.000ºC para 650ºC, o que permitiu a construção de

transistores sobre vários substratos. Uma importante

característica do grafeno, material descoberto apenas

em 2004 na Inglaterra, é sua elevada mobilidade de

elétrons comparada com o silício. Essa característica

poderá proporcionar uma nova geração de transistores, bem

mais rápidos do que os atuais. O uso do grafeno pode ser tanto

em camada única (uma espécie de folha de átomos de carbono)

quanto em multicamadas, sempre em escala nanométrica.

CIR

CU

ITO

S A

VA

AD

OS

DNA: sequenciamentorápido sem ampliação

FU

JIT

SU

LA

BO

RA

TO

RIE

S

Futuro nos transistores

de grafeno

080-081_LinProd Mundo_168.indd 81080-081_LinProd Mundo_168.indd 81 30.01.10 00:11:5630.01.10 00:11:56

Page 82: Cogumelos iluminam a floresta

82 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

LINHA DE PRODUÇÃO BRASIL>>

“Coincidência, acidente, aca-

so ou não, a verdade é que

nano Mickeys estão lá e eles

estão sorrindo”, é assim que

o professor Oswaldo Alves,

do Instituto de Química (IQ)

da Universidade Estadual de

Cam pinas (Unicamp), se refe-

re à inusitada fi gura que apa-

receu em um experimento e

foi identifi cada por meio de

um microscópio eletrônico

de trans missão. Coordena-

dor do La boratório de Quími-

ca do Es tado Sólido (LQES) e

vi ce-coor denador do Instituto

Nacional de Ciência, Tecnolo-

gia e Inovação em Materiais

Complexos Funcionais, Alves

viu as imagens dos ratinhos

depois de preparar em uma autoclave nanofi os de vanadato

de prata (AgVO3) decorados com nanopartículas de prata, uma

nanoestrutura com ação antibacteriana quando incorporada a

vários materiais como plásticos, tecidos e tintas. Um close em

uma parte do nanofi o revelou a imagem de Mickey Mouse, famo-

so personagem de Walt Disney. “Um deles estava direcionado

para a frente e permitiu uma melhor visualização, mas existem

outros envolvendo nanopartículas de prata”, diz Alves. O nano

Mickey se perfi la ao lado de outras nanofi guras que se formam

espontaneamente como os nanotubos ou são construídas por

pesquisadores como nanopinças, nanorrádios, nanocarros e

nanosseringas. “A diferença é que a fama do Mickey pode con-

tribuir para popularizar a nanotecnologia, especialmente entre

as crianças”, diz Alves, que contou no experimento com o aluno

de doutorado Raphael Dias Holtz e com o professor visitante

Antônio Gomes de Souza, da Universidade Federal do Ceará,

ambos fi nanciados pela FAPESP. Para a ciência, segundo Alves,

a fi gura do rato famoso faz surgir novas perguntas. “Ela nos

traz algumas questões inerentes à nanoescala: é o nanomundo

imitando o macromundo ou o macromundo que imita o nano-

mundo? O Mickey é uma imagem acidental? Como podemos

controlar e entender essa auto-organização? Nós conhecemos

muito pouco sobre os mecanismos que levam à formação des-

ses sistemas. O que sabemos é que repetindo o experimento o

Mickey aparece. Isso é importante porque a reprodutibilidade

pode levar à fabricação controlada de sistemas complexos.”

Para o professor Oswaldo Alves, o aparecimento do Mickey é

no mínimo curioso e parece anunciar a chegada de sistemas

de nanoestruturas e sistemas de nano-objetos. “Ciência e arte

estão novamente de mãos dadas.”

AP

AR

EC

EU

O M

ICK

EY

> Óptica em desenvolvimento

Um prêmio internacional para pesquisadores com menos de 40 anos que se destacam pelos estudos na área de óptica em países em desenvolvimento foi conquistado pelo professor Cleber Renato Mendonça, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP). O Prêmio Gallieno Denardo 2010 foi oferecido pela Comissão Internacional para a Óptica (ICO, na sigla em Inglês) e pelo Centro Internacional de Física Teórica Abdus Salam (ICTP), com sede em Trieste, na Itália, e mantido pelo governo italiano, Organização Cultural, Científi ca e Educacional

das Nações Unidas (Unesco) e Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA). Mendonça ganhou o prêmio de US$ 1 mil e convite para uma palestra no congresso da ICTP que acontece neste mês de fevereiro na Itália. O reconhecimento é pelas pesquisas do professor na área de óptica de pulsos ultracurtos de laser, que inclui a produção de estruturas nanométricas (leia reportagem na edição 165 de Pesquisa FAPESP).

OS

WA

LD

O A

LVE

S/I

Q-U

NIC

AM

P

Nanofi o com nanopartículas de prata e a fi gura inusitada

Pulsos ultracurtos de laser moldam objetos

IFS

C-U

SP

082-083_LinProd Brasil_168.indd 82082-083_LinProd Brasil_168.indd 82 30.01.10 00:13:4130.01.10 00:13:41

Page 83: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 83

o Prêmio Finep de Inovação na categoria Pequena Empresa. A caixa, baseada em compostos com nanopartículas de prata, evita a contaminação de produtos odontológicos. “A atividade antimicrobiana não permite contaminações cruzadas, quando o dentista, ao manusear os pinos, leva bactérias para a caixa onde estão peças que serão usadas por outros pacientes”, diz Lygia Madi, gerente de desenvolvimento de produtos da empresa. A caixa foi desenvolvida em uma parceria da equipe de pesquisa da Angelus com pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos e Universidade Estadual de Londrina.

> Auxiliar didático

Sobre quatro rodas, o Robodek se movimenta suavemente e pode ser útil tanto como uma ferramenta didática em projetos de pesquisa e aprendizado sobre programação e maquinário robótico como em serviços de segurança ou mesmo para levar carga de até 10 quilos. Ele é uma criação da empresa Cientistas Associados, de São Carlos, no interior paulista, para outra empresa são-carlense, a Xbot, que fará a fabricação e comercialização desses robôs. O conceito do Robodek é o de ser uma plataforma em que é possível uma programação de acordo com as necessidades educativas, de pesquisa ou comercial. Entre as facilidades que apresenta há a possibilidade de ser controlado de forma remota por meio de um smartphone. “O robô possui um acelerômetro [sensor que mede a velocidade] e outros sensores como bússola GPS, temperatura e umidade, além de ultrassom e infravermelho. Quando o celular é movido, o acelerômetro capta esse

movimento e, por meio de um software, transmite para o robô a informação”, diz Antônio Valério Netto, diretor de tecnologia da Cientistas. Em janeiro já existiam pedidos para o robô de seis universidades, como as federais de Sergipe, Campina Grande (PB) e Viçosa (MG). O Robodek é fruto de um projeto iniciado em 2007 do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP.

> Caixinha antimicrobiana Uma embalagem plástica para acondicionar pinos para reconstrução de dentes com propriedades antimicrobianas que eliminam bactérias e fungos foi apresentada pela empresa Angelus, de Londrina, no Paraná, que em dezembro ganhou

Uma esfera microscópica de polímero, menor que um grão de

sal, capaz de interromper o fl uxo de sangue para um tumor é a

proposta de pesquisadores do Laboratório de Modelagem, Si-

mulação e Controle de Processos do Instituto de Pós-Graduação

e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do

Rio de Janeiro. “Interrompido o fl uxo de sangue, o tumor morre

ou diminui de tamanho”, diz o doutorando Marco Oliveira. A

técnica, chamada de emboliza-

ção, já é utilizada em oncologia

e ganha agora a possibilidade

de nacionalização com novos

materiais e processos de pro-

dução para ser oferecida no

mercado brasileiro a preços

menores que a importada. A

patente da esfera foi deposi-

tada no Instituto Nacional de

Propriedade Industrial (INPI)

em parceria com a empresa

carioca First Line Medical que

participou do projeto coor-

denado pelo professor José

Carlos Pinto. Foram realizados

testes com pacientes humanos

com bons resultados. O pró-

ximo passo é incorporar um

medicamento quimioterápico

nas esferas, para potencializar

a ação da técnica no tratamen-

to de tumores.

MIN

ÚS

CU

LA

S G

UE

RR

EIR

AS

Esferas capazes de combater um tumor

MA

RC

O O

LIV

EIR

A/C

OP

PE-

UF

RJ

XB

OT

Robodek: conhecimentoem hardware

e software

082-083_LinProd Brasil_168.indd 83082-083_LinProd Brasil_168.indd 83 30.01.10 00:13:4430.01.10 00:13:44

Page 84: Cogumelos iluminam a floresta

84 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ENGENHARIA DE MATERIAIS

Requinte sobre a

Indústria paulista de revestimentosconquista qualidade com inovações nos processos e esmaltes especiais

O Brasil tornou-se o segundo maior fabricante mundial de revestimentos cerâmicos, segmento que engloba pisos e azulejos, ao atingir a produção de 713 milhões de metros quadrados em 2008, à frente de tradicionais fabricantes como Itália e Espanha e atrás apenas da China. Desse to-tal, 485 milhões de metros quadrados foram produzidos no estado de São Paulo, sendo que 400 milhões de metros

quadrados, correspondentes a 56% da produção nacional, saíram dos fornos de empresas do Polo Cerâmico de Santa Gertrudes, que abrange, além da cidade de Santa Gertrudes, os municípios de Cor-deirópolis, Araras, Iracemápolis, Ipeúna e se estende por Rio Claro, Limeira e Piracicaba. “A grande vantagem da região, representada por 47 empresas do setor cerâmico, está na excelente qualidade da matéria-prima, uma argila de cor vermelha que é plástica, portanto fácil de ser moldada, e refratária ao mesmo tempo”, diz o engenheiro José Octavio Armani Paschoal, especialista em cerâmicas especiais e presidente do Centro Cerâmico do Brasil (CCB), instituição certifi -cadora de qualidade criada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimento (Anfacer).

O fato de a região ter uma argila de primeira linha é uma vanta-gem indiscutível, mas para que ela chegasse a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional foi preciso um trabalho sistemático de pesquisa e desenvolvimento realizado por pesquisadores paulistas com apoio da FAPESP na modalidade Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica (Consitec). O projeto envolveu desde a escolha de matérias-primas mais adequadas até a criação de novas tintas e esmaltes especiais de alta dureza e resistência ao desgaste.

Quando o projeto teve início, no fi nal de 2001, o produto cerâmi-co para revestimento da região apresentava baixa qualidade técnica.

Dinorah Ereno | fotos Eduardo Cesar

TECNOLOGIA>

matéria-prima

084-087_pisos_168.indd 84084-087_pisos_168.indd 84 01.02.10 18:04:3001.02.10 18:04:30

Page 85: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 85

Forno para ensaios do laboratório do Centro Cerâmico do Brasil

084-087_pisos_168.indd 85084-087_pisos_168.indd 85 30.01.10 00:16:3530.01.10 00:16:35

Page 86: Cogumelos iluminam a floresta

86 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

“Atualmente, pelo menos 98% de cada lote produzido se enquadra na classe A, o que signifi ca que as peças não apre-sentam defeito nenhum”, diz Paschoal, pesquisador recentemente aposentado do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Em 1997, no máximo 50% do que era produzido pelas cerâmi-cas paulistas podia ser classifi cado como classe A. O restante era classifi cado como classe B – peças com pequenos defeitos na superfície – ou C, com defeitos mais graves. Na época, o Brasil produzia 200 milhões de metros quadrados de re-vestimentos cerâmicos por ano. Santa Catarina respondia por 70% do total produzido e São Paulo por 30%. “Como a cerâmica tinha um bom preço, mesmo com as perdas as empresas conseguiam se manter.” Uma situação bem diversa da enfrentada hoje, com todas as indústrias fabricando produtos com padrão inter-nacional. “Como a margem de lucro ho-je é pequena, com grande concorrência no setor, a empresa corre risco de fechar se mais do que 2% das peças apresenta-rem defeitos”, diz Paschoal.

A produção de porcelanato – produ-tos cerâmicos especiais que englobam desde pastilhas até peças de grandes di-mensões com alto valor agregado usada em pisos e placas para fachadas de edifí-cios – pelas indústrias paulistas foi uma

das conquistas contabilizadas ao fi nal do projeto em agosto de 2009. “Quando o projeto teve início, apenas três em-presas paulistas fabricavam pastilhas de porcelana, que são peças de pequenas dimensões para decoração e revesti-mento”, diz a pesquisadora Ana Paula Margarido Menegazzo, superintendente do CCB e coordenadora de duas linhas de pesquisa no projeto. “Quando foi fi -nalizado, 13 empresas já fabricavam o porcelanato.” O produto divide-se em duas categorias: porcelanato técnico, de altíssima qualidade, que concorre com as pedras naturais e não tem esmalte na superfície, e o esmaltado.

Das sete linhas de pesquisa conduzi-das durante o Consitec, três tiveram co-mo foco o porcelanato e contemplaram o desenvolvimento de matérias-primas para fabricação dessas peças, o estudo da tecnologia de processo de fabricação e a formulação de esmaltes especiais. As outras linhas de pesquisa envolveram desde inovações na área de ensaios para avaliação de produtos, como o desen-volvimento de uma metodologia para

Consórcio setorial da indústria de cerâmica para revestimento do estado de São Paulo: inovação tecnológica e competitividade - nº 01/10783-5

MODALIDADE

Programa Consórcios Setoriais para Inovação Tecnológica (Consitec)

CO OR DE NA DOR

JOSÉ OCTAVIO ARMANI PASCHOAL – Ipen/CCB

INVESTIMENTO

R$ 586.715,13 (FAPESP)

O PROJETO>

Processo de produção cerâmica automatizado: etapas de prensagem e esmaltação de peças

084-087_pisos_168.indd 86084-087_pisos_168.indd 86 01.02.10 19:48:2501.02.10 19:48:25

Page 87: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 87

verifi cação da espessura da peça que diminuiu as diferenças de resultados entre os laboratórios, pesquisas na área de tecnologia de assentamento de revestimento cerâmico, até um estudo do escoamento das tintas dos materiais usados na decoração dos revestimentos cerâmicos, área da mecânica chamada de reologia. “Esse estudo é necessário porque, como as técnicas de aplicação de decoração estão em constante evo-

lução, é preciso fazer uma adaptação dos insumos utilizados nessa tarefa”, diz Eduardo Quinteiro, gerente de projetos do CCB e coordenador de quatro linhas de pesquisa no projeto Consitec.

No caso dos esmaltes decorativos para formar os desenhos de um piso ou azulejo, por exemplo, eles têm que ser depositados no ponto exato e não podem se espalhar. “As empresas pau-listas de cerâmica trabalham com uma técnica decorativa que utiliza poucas ca -madas de tinta para formar os desenhos com a melhor resolução possível”, diz Quinteiro. Durante o projeto foi feito ainda um mapeamento das diferenças de tonalidade observadas pelo olho hu-mano, que serviu como referência para a elaboração de uma metodologia pa-ra melhorar o uso das tintas cerâmicas utilizadas pelas indústrias do setor.

Certificação cerâmica - Alguns en-saios foram feitos nos laboratórios do Centro Cerâmico do Brasil e outros no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), nos laboratórios da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e no Ipen, parceiros no projeto. Embora tenha sido criado em 1993 como organismo certifi cador, só com o apoio do projeto Consitec e outros da Finep e do CNPq, o CCB pôde exercer plenamente essa função, quando de um único laboratório transformou-se em um centro de inovação tecnológica em cerâmica. “Fizemos trabalhos de levantamento de qualidade e de ajuste das empresas para que elas conseguissem atender às normas e pudessem receber a certifi cação”, diz Paschoal, que assumiu

a presidência do CCB em 1997 em fun-ção da sua experiência no Ipen. “Nessa época, a infl uência de Santa Catarina era muito grande.”

Prova disso é que, mesmo com uma argila totalmente diferente da encontra-da em Santa Catarina, fácil de moldar mas sem resistência mecânica, as cerâ-micas da região de Santa Gertrudes du-rante algum tempo utilizaram um pro-cesso similar, baseado no italiano. “Em Santa Catarina, é preciso adicionar na produção materiais estruturantes como feldspato e quartzo, exigindo processo de moagem úmido e posterior retirada de água por secagem ”, explica Paschoal. A argila vermelha que afl ora próximo à superfície na região de Santa Gertrudes já apresenta a resistência mecânica do produto fi nal. “Isso muda completa-mente as características do processo, que é feito por moagem a seco”, diz Paschoal. Em vez de várias etapas, basta uma úni-ca. Isso signifi ca um custo industrial em torno de 50% mais baixo do que o das cerâmicas do Sul do país.

Além da tecnologia da fabricação, como parte do projeto Consitec, foi feito um levantamento dos produtos fabri-cados em todo o território nacional. “Com base nessas informações elabo-ramos, junto com o setor, uma norma técnica específi ca para o porcelanato, a NBR 15.463, publicada em 2007”, diz Ana Paula. A norma contém requisitos técnicos obrigatórios e exigidos em todo o mundo como resistência mecânica, resistência ao desgaste, a produtos quí-micos e baixa absorção de água. “Essa norma, pioneira no mundo, já foi apre-sentada ao Comitê Internacional ISO 189, que trabalha com normas mundiais para revestimento cerâmico.” ■

Porcelanatos decorados produzidos por indústrias de Santa Gertrudes

084-087_pisos_168.indd 87084-087_pisos_168.indd 87 30.01.10 00:16:4330.01.10 00:16:43

Page 88: Cogumelos iluminam a floresta

88 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

Na cidade de Pedreira, localizada a 130 quilômetros de São Paulo, as principais ruas de comércio ostentam em suas vitrines uma grande variedade de objetos de decoração feitos de cerâmica, como miniaturas, pra-tos, copos e pinguins coloridos em vários formatos e tamanhos também conhecidos como produtos de louça. “Praticamente toda a cidade vive em função da

cerâmica”, diz o professor Elson Longo, coordenador do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difu-são da FAPESP, que desenvolve há quatro anos um projeto de parceria com 29 empresas do município para que elas possam produzir peças de melhor qualidade, baseadas no conhecimento acadêmico, com o mínimo de perdas no processo produtivo. “Co-meçamos fazendo um controle da qualidade da matéria-prima”, diz a pesquisadora Shirley Cosin, convidada pelo CMDMC para coordenar o projeto na cidade de Pedreira e que durante 28 anos trabalhou na indústria cerâmica.

No início desse processo, por exemplo, as empresas recebiam a argila com excesso de ferro magnético. “Quando a argila tem ferro em sua composição as peças fi cam com pintas pretas e com um defeito no centro da peça chamado de coração negro, que só aparece após o processo de queima”, explica Longo, do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara. Para avaliar se a argila tem realmente resíduos de ferro são necessários alguns ensaios feitos no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Uni-versidade Federal de São Carlos (UFSCar), ligado ao CMDMC.

FOT

OS

ED

UA

RD

O C

ES

AR

Canecas depois de secas, antes de irem para a etapa de queima no forno

>Cerâmica

Parceria entre indústrias e centro de pesquisa resulta em produtoscom menos perdas e mais qualidade

competitiva

Dinorah Ereno, de Pedreira

088-091_ceramica_168.indd 88088-091_ceramica_168.indd 88 30.01.10 00:20:4530.01.10 00:20:45

Page 89: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 89

088-091_ceramica_168.indd 89088-091_ceramica_168.indd 89 30.01.10 00:20:4630.01.10 00:20:46

Page 90: Cogumelos iluminam a floresta

90 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

“Por amostragem, se alguns lotes de argila não estiverem adequados aos parâmetros previamente estabelecidos no ato da compra, eles são devolvidos ao fornecedor”, diz Shirley.

Outro problema recorrente encon-trado era o tamanho da granulometria do quartzo e do feldspato, matérias-pri-mas que, junto com a argila e o caulim, compõem a massa básica usada para fa-bricação das peças cerâmicas. Os forne-cedores nunca respeitavam o tamanho dos grãos estipulado pelas indústrias. “Em vez de grânulos menores, chama-dos tecnicamente de malha 200, eles recebiam os de malha 80”, relata Shirley. Isso causava sérios problemas, porque grãos maiores causam defeitos nas pe-ças cerâmicas. “Desde que foi instituído um controle do material recebido pelas empresas, houve uma grande melhora”, diz Shirley. “Antes a argila que vinha era completamente cinza e hoje já chega branca, mais apropriada para a pro-dução de cerâmica artística.”

Toda a argila utilizada em Pedreira é comprada de um único fornecedor, da cidade de São Simão, também no interior paulista, de onde ela é extraída

de áreas de várzea. “Esbarramos em um grande problema, que é a falta de qua-lidade do produto, composto por 30% de umidade, 20% de turfa e de 10% a 15% de areia”, diz Longo. Ou seja, ape-nas 40% da matéria-prima comprada por um preço que varia de R$ 500,00 a R$ 600,00 a tonelada é efetivamen-te aproveitada. Como para o produto atingir outro patamar de qualidade é preciso adotar técnicas apropriadas de extração e benefi ciamento – o que leva tempo –, a alternativa encontrada pelos pesquisadores foi sugerir às empresas que passassem a comprar uma argila im-portada da Inglaterra, com preço idên-tico ao da nacional, que já está sendo usada por outras empresas no Brasil. “A vantagem da matéria-prima importada é a qualidade, que resulta em redução de etapas no processo produtivo”, diz Shirley. “Não é preciso moer nem lavar a argila, basta pesar e jogar no moinho.”

Queima econômica - Como a argila é pura, há também um ganho no pro-cesso de queima. “A queima, que era feita entre 1.280 e 1.320 graus Celsius, dependendo da quantidade do quartzo

Centro Muldisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos - nº 98/14324-0

MODALIDADE

Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid)

CO OR DE NA DOR

ELSON LONGO – Unesp

INVESTIMENTO

R$ 1 milhão por ano (FAPESP)

O PROJETO>

Porcelanas recebem fi letes de tinta à base de ouro (esq.) e canecas são moldadas na prensa

088-091_ceramica_168.indd 90088-091_ceramica_168.indd 90 01.02.10 19:45:0501.02.10 19:45:05

Page 91: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 91

que vinha na argila, agora é feita com uma temperatura constante de 1.200 graus”, diz Shirley. O ganho de 80 graus na temperatura representa uma signifi -cativa economia nos custos do processo. A diminuição da temperatura também signifi ca peças com menos retrações e, consequentemente, defeitos.

No início, as indústrias fi caram reticentes com a ideia de importar a argila, mas aos poucos foram aderin-do. “Depois de testes piloto realizados com pelo menos 16 empresas foi feita

uma grande encomenda”, diz Shirley. O diretor e proprietário da empre-sa Porcelanas Lu, Valdemir Pansani, relata que com o apoio do projeto conseguiu reduzir as perdas de 40% para 10%. “Esse projeto veio na hora certa, porque eu estava enfrentando muitas difi culdades e a empresa corria sério risco de fechar”, diz Pansani. A partir do momento em que foi feita uma triagem do material, as perdas já foram reduzidas. “O trabalho de acom-panhamento e controle da massa e do esmalte melhorou muito a qualidade do produto e, com isso, consegui ser mais competitivo.”

Trabalho ininterrupto - A empresa, fundada em 1986, tem 80 funcionários que se revezam em várias funções durante 24 horas por dia. Um dos carros-chefe da Porcelanas Lu são os pinguins, pro-duzidos em 70 modelos diferentes, que vão desde o tradicional até os mestres--cucas, músicos e famílias. A empresa fabrica ainda miniaturas, canecas com logotipos de empresas, jogos de xícaras, vasos e pratos decorativos. O objetivo do empresário, que também tem duas lojas que vendem os produtos que fa-brica na cidade, é reduzir as perdas para cerca de 5%.

Após o processo de queima, as pe-ças são decoradas com decalques ou estampadas pela técnica da serigrafi a. Esses processos também são acompa-nhados de perto pelos pesquisadores. “Um dos pigmentos utilizados para imprimir desenhos nas peças estava provocando uma série de defeitos”, re-lata Shirley. Isso porque o pigmento era comprado como se tivesse partículas microscópicas, mas na realidade elas

eram de tamanhos maiores. “Passamos a fazer um controle sobre o tamanho das partículas e resolvemos o proble-ma”, diz. Recentemente, uma das fábri-cas começou a apresentar problemas de descolamento em 80% dos cabos das canecas após o processo de colagem, que é feito manualmente. “Isso ocorria porque a mistura não tinha homoge-neidade”, relata. Ou seja, o processo de fazer a cola na viscosidade correta não era seguido à risca.

A ideia de trabalhar em colaboração com o centro cerâmico partiu do pre-feito Hamilton Bernardes Junior, que resolveu propor a parceria ao conhecer os bons resultados de um projeto seme-lhante desenvolvido com as cerâmicas de Porto Ferreira. Além dos 29 parti-cipantes do projeto, outras centenas de pequenas e microempresas do se-tor cerâmico também se benefi ciam do conhecimento repassado. Na avaliação dos envolvidos no projeto, essa parceria não tem data para terminar, porque o conhecimento técnico transferido para as empresas tem que ser constantemen-te reavaliado. “Mesmo com os avanços técnicos obtidos após quatro anos do acordo fi rmado com a prefeitura da cidade, ainda há muita coisa a ser fei-ta”, diz Longo. Para este ano, a Câmara Municipal aprovou uma verba de R$ 70 mil para o projeto. Uma das ideias em gestação é a criação de uma coopera-tiva para produção de massa cerâmica composta de argila e os demais com-ponentes, o que resultaria em ganhos no processo industrial. “Com a criação de uma central de produção, o empre-sário não teria mais que se preo cupar com a qualidade da matéria-prima”, diz Longo. ■

Canecas feitas sob encomenda e outras peças cerâmicas são decoradas com adesivos

088-091_ceramica_168.indd 91088-091_ceramica_168.indd 91 30.01.10 00:20:5230.01.10 00:20:52

Page 92: Cogumelos iluminam a floresta

92 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

ENGENHARIA NAVAL

ENSAIO MARINHO

Laboratório amplia o estudo de projetos de embarcações para exploração de petróleo | Evanildo da Silveira

Ao longo da costa brasileira, no fundo do oceano, repousam grandes depósitos de gás e pe-tróleo, principalmente na Re-gião Sudeste do país onde tudo indica que foram encontradas grandes reservas na camada

pré-sal. Retirá-los de lá requer estrutu-ras fl utuantes – plataformas e navios – e sistemas submarinos com tecnologia de última geração e muito caros. Para saber se vão funcionar a contento e se o di-nheiro investido não será perdido, esses equipamentos antes de serem construí-dos e lançados ao mar precisam passar por testes de validação em tanques vir-tuais formados por computadores e em tanques de provas físicos semelhantes a piscinas, duas formas de experimen-to que estão reunidas desde dezembro na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Batizado de Tanque de Provas Numérico (TPN), o laboratório vir tual da Poli existe desde 2002 por meio de uma parceria com a Petrobras. Em 2006, o TPN se tornou um dos quatro nós da Rede Temática de Computação Científi ca e Visualização, conhecida como Rede Galileu – os ou-tros três estão nas universidades fede-rais do Rio de Janeiro e de Alagoas e na

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Fazem parte ainda da Galileu outras 10 universidades e instituições de pesquisa.

A ampliação e modernização do TPN atende às novas demandas surgi-das principalmente com o anúncio da descoberta de petróleo e gás da camada abaixo do sal existente no fundo do mar em 2007. O sistema computacional do laboratório ganhou um novo cluster, um aglomerado de computadores, com 1.792 processadores que trabalham em paralelo. Para abrigar esse novo recur-so, além do tanque físico, foi erguido um edifício com uma área construída de cerca 1.600 m² e acomodações para mais de 80 pesquisadores. No total, fo-ram investidos R$ 9,5 milhões, dos quais R$ 9 milhões vieram da Petrobras e o restante da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O tanque físico, chamado de Ca-librador Hidrodinâmico (CH-TPN-USP), tem 14 metros (m) por 14 m de lado e 4 m de profundidade e é dotado de geradores e absorvedores de ondas (fl aps). No total são 148 deles, dispos-tos ao longo de todo o perímetro do tanque, em que é possível criar ondas multidirecionais, regulares ou aleató-

rias. De acordo com o professor Ka-zuo Nishimoto, do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Poli e coor denador do TPN, com a capacidade dos fl aps de absorverem ondas e não refl eti-las, é possível também simular condições de mar infi nito, como se o tanque não tivesse laterais e as ondas se propagassem sem refl exão. Os fl aps, ventiladores e outros sistemas permitem representar, além de ondas, as principais condições ambientais que agem sobre navios e plataformas marinhas, como correntezas e ventos, desde uma leve brisa até furacões. Além disso, também é possível reproduzir a dinâmica das linhas de ancoragem – cabos fi xados no solo marinho que mantêm a plataforma no lugar – e dos risers, dutos rígidos, de aço ou fl exíveis, que levam o óleo extraí-do até a plataforma de produção.

Apesar das vantagens, esse tipo de tanque também tem alguns inconve-nientes. Além de custos elevados, ele tem limitações físicas para simular situa-ções que ocorrem em ambientes com grande profundidade, não permitindo reprodução fi el da dinâmica de todo o sistema. Para melhor representar condi-ções em ambientes com profundidades ao redor de 3 mil metros ou mais seria

>

092-093_tanque da poli_168.indd 92092-093_tanque da poli_168.indd 92 01.02.10 18:05:5401.02.10 18:05:54

Page 93: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 93

opção por esse sistema foi feita em 2002 quando foi criado o TPN. “Decidimos que, em vez de investir em supercom-putadores especializados, o melhor seria desenvolver um cluster com desempe-nho semelhante e a um custo muito menor”, conta Nishimoto. Hoje a capa-cidade de processamento do TPN é de 55 terafl ops, o que signifi ca 55 trilhões de operações matemáticas por segundo. Só para comparar, os computadores pes-soais mais velozes existentes não chegam a 0,1 terafl ops. Flops signifi ca fl oating point operations per second ou operações de ponto fl utuante por segundo.

As simulações realizadas no TPN serão fundamentais para o sucesso da exploração das reservas petrolíferas da camada pré-sal, segundo Luiz Le-vy, gerente de métodos científi cos do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (Cenpes) da Petrobras. “As reservas estão muito longe da costa e em grande pro-fundidade, o que torna um desafi o sua exploração”, diz. “No TPN será possível realizar uma série de cálculos e simula-ções.” Além das simulações convencio-nais da exploração de óleo e gás, a Rede Galileu também poderá representar os processos de perfuração das camadas de sal. “Perfurar essas camadas é um grande

desafi o, porque elas sofrem deformações e podem colapsar a coluna de perfura-ção”, explica Nishimoto. “Para cada poço é preciso criar um modelo numérico, que simule as condições do mar, do solo e calcule a dinâmica das embarcações envolvidas na exploração.”

Os testes realizados no TPN geram uma quantidade de dados tão grande que é quase impossível analisá-los por processos convencionais. Para resolver esse problema foi criado o TPNView, um programa de computador de visua-lização, baseado em técnicas de com-putação gráfi ca em tempo real, que possibilita uma representação precisa do ambiente em realidade virtual. Ele alia a visualização em três dimensões (3D) e ferramentas de análise de dados como estatísticas, gráfi cos e diagramas. Apesar da sofi sticação do TPN, ele não substitui o tanque de provas físico. Um complementa o outro e é justamente es-se trabalho conjunto que torna o labora-tório da USP raro no mundo. “Existem muitos tanques físicos na Noruega, na Holanda e no Japão, porém não existe um laboratório que acople tanque físico com numérico com cluster do porte de 55 terafl ops. Assim hoje o TPN torna-se único no mundo.” ■

ED

UA

RD

O C

ES

AR

necessário um tanque de dimensões in-viáveis fi sicamente. Ou os modelos das embarcações e das plataformas fi cariam tão pequenos que comprometeriam a representação física e a análise em escala real. Para superar essas limitações exis-tem os tanques virtuais ou simuladores numéricos, que é o caso do TPN. Tra-ta-se de um programa computacional capaz de representar matematicamente as mesmas condições geradas por um tanque de provas físico, com a vantagem de não haver as restrições dimensionais e obter os resultados com maior rapidez e precisão. Além disso, o simulador nu-mérico calcula a dinâmica das unidades fl utuan tes, dos esforços e tensões nas linhas de amarração e nos risers.

Tarefa veloz - O cluster de computado-res é capaz de realizar centenas de simu-lações de diversas condições ambientais em questão de minutos. Nishimoto ex-plica que um cluster de computadores é um agregado de processadores dedica-dos, que resolvem uma tarefa única de forma cooperativa e integrada. Assim, as operações de cálculo são subdivididas e distribuídas por todos os processadores que compõem o grupo, tornando a re-solução dos problemas mais rápida. A

Tanque físico construído na Poli-USP: simula situações ambientais como ondas e ventos

092-093_tanque da poli_168.indd 93092-093_tanque da poli_168.indd 93 01.02.10 18:05:5601.02.10 18:05:56

Page 94: Cogumelos iluminam a floresta

94 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

094-99_Mario de Andrade_168.indd 94094-99_Mario de Andrade_168.indd 94 30.01.10 00:24:5030.01.10 00:24:50

Page 95: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 95

LIT

ER

AT

UR

A

Projeto recupera trajeto da criação de Mário de Andrade

Isso corria o mês de abril. Peguei um res-to de caderno em branco, e na letrinha pentea da dos calmos começos de livro comecei escrevendo. Mas logo a letra fi cou afobada, rapidíssima, ilegível para os outros, frases parando no meio com ortografi as mágicas em que tanto eu bo-

tava um ípsilon na palavra ‘caderno’, como um hífen em ‘jardim’, eu escrevia com fogo. Tudo vinha dócil, pressentido com ardor apaixonado, numa adoração de mim, da minha possível in-teligência, como poucas vezes me tenho gozado assim tão fácil nesta vida”, descreveu Mário de Andrade (1893-1945) sobre seu processo criativo. Como seria igualmente fácil a vida dos pesquisadores envolvidos em recriar esse pro-cesso hoje se houvesse mais textos como esse, tão explícito sobre o labor da gestação de um livro. Daí a importância do projeto temático sediado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), Estudo do processo de criação de Mário de Andrade nos manuscritos de seu arquivo, em sua correspon-dência, em sua marginália e em suas leituras, apoiado pela FAPESP, coordenado pela profes-sora Telê Ancona Lopez. “O que se pretende é descobrir como se deu toda a organização de uma invenção em busca do processo criativo. O IEB centraliza a maior parte dos dossiês de fólios deixados pelo escritor. A partir de todo esse material vai ser possível recuperar o trajeto de uma criação”, explica a pesquisadora.

O objeto de estudo são 102 manuscritos em posse do IEB-USP e a classifi cação será di-

vulgada em um banco de dados, um catálogo analítico (catálogo raisonné) dos manuscritos literários e um índice dos títulos de todas as áreas, acompanhado de uma cronologia da criação e da publicação. “A novidade do catá-logo é que se tenta montar o trajeto de cria-ção. Os pesquisadores vão poder examinar o manuscrito no fac-símile e vão contar com a trajetória montada no dossiê, bem como com as notas de pesquisa que justifi cavam os ca-minhos tomados na organização e todas as outras informações encontradas”, avisa Telê. “Será um celeiro de pesquisas.” A classifi cação, no catálogo e no índice, prolonga-se na pro-dução de cópias em fac-símile escaneadas e na microfi lmagem de todos os fólios, como um recurso extra para salvaguardar os documen-tos do uso pelos pesquisadores. Tudo virá em detalhes: dimensão do papel usado, que tipo de caneta foi empregado na escrita do poe-ma ou na correção de um texto, a cor etc. “Há mesmo o caso interessante do poema em que as dobras feitas mostram que Mário andou com ele no bolso, indicando que o mostrou para outras pessoas, que estava preocupado com sua escrita e assim por diante, um mis-tério que pode ser resolvido pelo pesquisador interessado em crítica genética e na vivência do documento. Esse tipo de análise também nos permite datar documentos por meio da com-paração da fi ligrana do papel etc.”, afi rma Telê. Outro resultado do projeto é a parceria com a editora Agir, que está publicando a obra com-pleta de Mário de Andrade a partir de edições

Carlos Haag

RE

PR

OD

ÕE

S D

O L

IVR

O A

IMA

GE

M D

E M

ÁR

IO; F

OT

OB

IOG

RA

FIA

DE

RIO

DE

AN

DR

AD

E/M

ÁR

IO, 1

93

8

>HUMANIDADES

Nas entranhasda invenção

094-99_Mario de Andrade_168.indd 95094-99_Mario de Andrade_168.indd 95 30.01.10 00:24:5330.01.10 00:24:53

Page 96: Cogumelos iluminam a floresta

96 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

feitas pela equipe do temático e que já resultaram em novas versões de Amar, verbo intransitivo, Macunaíma, Obra imatura, Os contos de Belazarte, entre outros, e que vai trazer, em maio, na nova edição de Poesias completas uma série de poemas inéditos de Mário, que o escritor havia pensado em publicar, mas descartou na versão fi nal.

M ário era um constante revisor de si mesmo em suas obras, sempre ocupado em dar uma última mão

de tinta em seus escritos e deixando um espaço para mais um retoque futuro. Assim, o seu imenso arquivo pessoal de fólios deixados para a posteridade, reveladores de uma criação sempre em movimento, nunca terminada, ze-losamente guardada. “O escritor, um arquivista de si mesmo, identifi cou e separou conjuntos documentais no fundo que compôs durante sua vi-da, armazenando-os em uma estante e uma grande cômoda na sua casa à rua Lopes Chaves, em São Paulo. Na série Manuscritos Mário de Andrade,os documentos do processo criativo abrigam trajetos a serem decodifi cados nos dossiês de inéditos, os maiores e mais ricos montados pelo escritor em envelopes verdes e pastas de cartolina, estas por sua vez reaproveitadas, como nos conta a sobreposição de cabeça-lhos rabiscados”, conta Telê. “Itinerários são decodifi cados ou estabelecidos por via da análise e interpretação sujeita a percalços e enganos. Esse trabalho, na realidade, deve sempre se lembrar que os dossiês não integralizam mate-rialmente o processo criativo, tanto o do artista das letras e das artes como o do ensaísta nas ciências humanas. A criação ultrapassa dossiê, arquivo e, sobretudo, a própria materialidade, ao jogar, neste último ponto, com a psique do escritor.” Daí o trabalho da equipe em cruzar um manuscrito com outras fontes do arquivo como cartas (o IEB-USP concentra a maior cole-ção de correspondência ativa e passiva do autor de Macunaíma), entrevistas, outros manuscritos, marginália de li-vros, enfi m, tudo o que possa iluminar

a leitura de uma dada obra e esclare-cer o trajeto criativo de Mário, fazendo então da biblioteca do escritor o seu locus creationis, o espaço criativo por excelência, o caldeirão onde colocará os ingredientes capazes de gerar a mistura “ideal”, por mais efêmera que seja.

Um conceito importante na criação de Mário são os “exemplares de traba-lho”, como eram apelidados os manus-critos de textos impressos de livros ou periódicos em que ele cristalizava novas versões das obras ao colocar suas rasu-ras criativas com tinta preta ou a grafi te, lápis vermelho ou azul. Os exemplares de trabalho juntam-se a notas, versões, planos etc. nos dossiês que os conser-vam. Após enviar para a editora o texto escrito e receber de volta as provas, o escritor se punha a rabiscar nos seus exemplares de trabalho as modifi ca-ções que desejava. “Crítico austero do próprio labor, Mário, nos exemplares de trabalho, assume sua pena de Sísifo até o fi nal da sua vida. Em 1944, na capa de um Macunaíma da reedição Mar-tins daquele ano, em cujos cadernos nem sequer passou a espátula, anota apressado, fechando parênteses que não abriu: ‘Exemplar corrigido para servir a futuras reedições/M.’”, diz a pesquisa-dora. Ao mesmo tempo, o esforço com os exemplares de trabalho nem sempre era passado adiante. “É curioso perce-ber que ao poupar os exemplares de trabalho, passando a limpo as rasuras em outra cópia do livro, esta endere-çada ao prelo, o copista Mário, que as-sim age interessado talvez no confronto com o texto na nova edição, cochila ou cumpre com displicência a tarefa. O cotejo das rasuras nos exemplares de trabalho de Amar, verbo intransitivo e Macunaíma com os respectivos textos na segunda edição aponta a ausência de certas reformulações”, observa Telê.

Nesse ponto é possível perceber a noção assumida por Mário em sua criação da rasura, não como correção (salvo nos casos em que a gramáti-ca ou a coerência são feridas), e sim como nova possibilidade descoberta durante o processo criativo, acima da noção pragmática de certo ou errado,

Gabinete de trabalho de

Mário na rua Lopes Chaves,

São Paulo, outubro de 1945

Mário, nos

exemplares

de trabalho,

assume

a pena de

Sísifo até

o final da

sua vida

094-99_Mario de Andrade_168.indd 96094-99_Mario de Andrade_168.indd 96 30.01.10 00:24:5430.01.10 00:24:54

Page 97: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 97

em especial em projetos literários co moos dele que têm o movimento e a inacabilidade como traços essenciais. Nesses casos, o exemplar de trabalho aparece como manuscrito de obra, do-no de uma tipologia e uma dinâmica em todas as áreas de atuação de um polígrafo como o autor de Macunaí-ma. Um exemplo notável é novamente Amar, verbo intransitivo, criado e re-criado entre 1927 e 1944 por Mário e fruto de sua correspondência e amizade com Pio Lourenço Correa, o tio Pio, em verdade um primo e amigo com quem manteve intensa troca de cartas entre 1917 e 1945. As rasuras no exemplar de trabalho do livro, lançado na fase heroica do modernismo, mostram um escritor menos afoito na sua defesa do freudismo e do cientifi cismo e mais fl e-xível em aceitar as sugestões do tio Pio

AR

QU

IVO

SP

HA

N (

O P

AU

LO

) FO

TO

DE

GE

RM

AN

O G

RA

ES

ER

em coisas como o emprego do “pra” que o amigo prefere na sua forma “para”. Na página de rosto do exemplar rasurado escreve: “A edição deverá obedecer à or-tografi a ofi cial brasileira... do momen-to” com a mesma tinta em que corrige o “intransitivo”, agora grafado com “s” e não com “z”. Assim a segunda fase da criação toda acontece nesse exemplar rasurado e acontece entre 1942 e 1943 com Mário já um nome conceituado nas letras brasileiras. “Vem um ami-go para revermos as provas do futuro Amar, verbo intransitivo, que sai bem remodelado. Vamos ver se melhora um bocado”, escreve ao crítico Álvaro Lins em 1944, mostrando a importân-cia da correspondência mais uma vez na consolidação do entendimento da trajetória da sua criação, assim como fora com o tio Pio.

“As cartas são o espaço onde ele en-contra o entendimento de processos, caminhos, escolhas, algo como um diá-rio de produção de Mário. Ao mesmo tempo, ao contar algo dele, ele suscita no outro uma reação: é um work in pro-gress. Não se trata de uma obra fechada, mas há espaço para o outro que dialoga com ele dar palpites, intervir no pro-cesso criativo de Mário”, explica Mar-cos Antonio de Moraes, do IEB-USP, coor denador associado do temático, responsável pela correspondência do autor de Macunaíma. “Está claro que certas palavras, certos vocativos, por mais que me psicanalise, não consigo descobrir donde vieram. Mas vibram como palavras, são expressões-palavras que me parecem sugestivas e por isso deixei elas assim mesmo”, escreveu Mário em carta a Carlos Lacerda. “Ele

094-99_Mario de Andrade_168.indd 97094-99_Mario de Andrade_168.indd 97 30.01.10 00:24:5430.01.10 00:24:54

Page 98: Cogumelos iluminam a floresta

98 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

reconhece que não sabe por que fez is-so ou aquilo, mas o desejo de conhecer o mecanismo de criação impõe-se ao escritor, ao recusar a ideia do proces-so criativo domesticado. Mário parece impor a moral do artista verdadeiro: o ser fatalizado, consciente de sua técni-ca expressiva e insaciável pelo conheci-mento dos subterrâneos de si e sua arte ou, como escreve a Drummond, ‘Faz uns dois anos ou pouco mais que eu me apaixonei pelo fenômeno da criação es-tética’”, explica o pesquisador. O diálogo mais intenso inicia-se com Bandeira e depois transfere-se para Drummond quando a conversa com o primeiro so-bre os mistérios da criação parece estar se esgotando. “Principiei dando atenção mais cuidadosa aos meus processos de criação. Não pra modifi car coisa nenhu-ma, não por conhecer a menor insince-ridade nos meus processos de criação, mas para verifi cá-los”, escreveu ainda para Lacerda.

“Localiza-se na correspondência de Mário uma constelação de depoimentos que permitem ao estudioso da crítica ge-nética acompanhar o tortuoso processo de produção de um texto em suas di-versas etapas”, nota Marcos. Ao mesmo tempo, continua o pesquisador, Mário atuou diretamente sobre o processo de criação de artistas como Di Cavalcanti, Brecheret, Mignone, Guarnieri, Anita Malfatti, Cícero Dias, entre outros. “Ele e os artistas plantam no terreno da carta a expressão essencial de seu trabalho, desenhos como expressão lúdica e esbo-ços de obras em processo ou concluídas, desejando compartilhar o trabalho de invenção e, ao mesmo tempo, aspiran-do a eventuais sugestões do amigo que muitas vezes atuou como crítico de arte na imprensa. A carta torna-se território da criação e o processo de autoria se es-facela na criação a quatro mãos na troca de experiências, versos, ideias etc. Isso é totalmente moderno e o instrumento são as cartas”, diz Marcos.

Mas, polígrafo exemplar, o arquivo de Mário também guarda a sua paixão pela música com partituras anotadas, cartas a compositores, textos sobre crítica musical, entre outros manus-

critos que revelam seus diálogos com compositores e, mais importante, a sua coautoria, verdadeira parceria em obras musicais como a ópera Malazarte e a inacabada Café, em que sua participa-ção não se restringiu ao libreto, mas também se refl etiu na construção mu-sical. “Da mesma forma em que há um espaço ocupado pela escrita literária, há um Mário que se ocupa da escri-ta musical, o Mário musicólogo que além de pensar versos pensa a música e quer o desenvolvimento de uma es-tética nacional”, observa Flávia Toni, do IEB-USP, coordenadora adjunta do temático responsável pelos manuscritos musicais. Além da coautoria nos gran-des projetos musicais de compositores como Camargo Guarnieri ou Mignone, Mário também expressou sua criação por meio da música. “Há uma partitura em que se pode ver o desenho do que seria a Pequena história da música e em outra há um poema inédito composto após ele ler a música para piano. Exis-tem três músicas, tentativas tímidas, de composições populares, compostas por Mário, mas podem existir outras”, diz Flávia.

É nas cartas, porém, que o escritor inspira os amigos a criar. Numa delas, conta a pesquisadora, ar-

ranja uma forma bastante peculiar de “arrancar” de Villa-Lobos as Cirandas “de caso pensado, sabendo que ia dar certo”, usando como argumento um compositor chileno, Humberto Al-lende, compositor das Doze Tonadas, melodias populares para piano, feitas para serem tocadas por alunos.

“Sei que isso é bem elementar para você e nem ousaria pedir algo assim pa-ra um compositor da sua estatura, mas nem imagino quem no Brasil, além do nosso grande Villa, seria capaz de com-por algo no estilo do Allende.” O peixe musical morde a isca e em breve saem as Cirandas nos moldes desejados por Mário, cujo nacionalismo, na contra-mão do de Villa, preconizava melodias mais folclóricas, como as das Cirandas, algo que era difícil de se arrancar do compositor carioca. O diálogo era mui-

to mais fl uido com o paulista Camargo Guarnieri, músico favorito de Mário, com quem gostava de ouvir discos em sua casa e de quem foi um interlocutor privilegiado. Pedro Malazarte, como já se disse, teve, na sua concepção, para além do libreto, a coautoria de Mário e, agora, graças às pesquisas do temático, feitas por Flávia, descobriu-se o apro-fundamento dessa parceria em duas melodias inéditas colhidas pelo escri-tor em 1927, em sua primeira viagem pelo país, e ofertadas ao músico (que as guardou em seu arquivo nos originais de Mário) e as usou na ópera.

“Também há muitas análises de qua-se todas as óperas de Carlos Gomes, o que mostra uma vontade não apenas de atuar sobre o seu presente, mas também de tentar entender o passado, acom-panhar a criação da ópera no Brasil”, fala Flávia. Para a pesquisadora, Má-rio parecia repetir, na música, a mesma busca feita em meados dos anos 1920, quando da escrita de Gramatiquinha da fala brasileira. “Ele pretendia dar conta do passado ao futuro musical brasileiro, construir um dia uma ‘gramática’ da construção musical brasileira, ou seja, usar determinadas construções sonoras para criar música, da mesma forma que se usavam palavras para criar versos.” O temático vai igualmente recuperar um diálogo perdido nas cartas. Sempre que recebia cartas com informações para o seu Dicionário de música, nos anos 1930, o escritor colocava a correspon-dência na seção de manuscritos em vez de na de cartas, já que essas entravam no processo de criação. Agora esse fl uxo será restabelecido.

Por fi m, a marginália dos livros co-mo manuscrito. “O que se percebe é um diálogo, já que leitura anotada, um movimento na pesquisa do artista que se desenrola em consonância com suas obsessões, subentende crítica, seleção e assimilação. A marginália em Mário é seara e celeiro convivendo paralelos ou fundidos nos arquivos da criação”, analisa Telê. “As notas marginais au-tógrafas fazem parte do percurso do universo da criação de outros textos e, na medida em que se enquadram no

094-99_Mario de Andrade_168.indd 98094-99_Mario de Andrade_168.indd 98 30.01.10 00:24:5530.01.10 00:24:55

Page 99: Cogumelos iluminam a floresta

percurso da escritura, duplicam a na-tureza documental do livro. Assim, ao texto impresso da biblioteca soma-se o manuscrito. Transformando ou se-lecionando, nas margens, a matéria do autor, tecendo comentários em uma leitura crítica lateral, o escritor promo-ve uma coexistência de discursos. Esse diálogo exibe o texto nascente que se defronta com uma criação no estágio fi nal, isto é, o livro alheio oferecido ao público.” A marginália pode funcio-nar, no caso do escritor como matriz implícita, quando se depara com um livro de anotações autógrafas, mas que, ainda assim, se sabe que infl uenciou o trabalho de Mário, como, por exemplo, Les villes tentaculaires precedées de Les campagnes hallucinées, de Emile Verha-eren, matriz confessada em cartas não apenas do título, mas do conteúdo de Paulicéia desvairada.

T udo isso não passaria de mera in-vestigação fria e impessoal se não servisse ao autor e a seus leitores.

Para tanto há a bela história de Os con-tos de Belazarte, que revela a necessida-de de acompanhar a criação sempre em movimento de Mário, nunca termina-da com seus muitos e infi ndos exem-plares de trabalho. Em 1968, em ple-na ditadura militar, Valentim Faccioli, estudante de direito e revisor de uma editora, viu um livrinho cor de vinho calçando a mesa em que trabalhava. Ao pegá-lo viu que era um boneco de Belazarte (que, entre outros contos, trazia “O besouro e a rosa”) cheio de anotações feitas a lápis que julgou feitas pelo autor. Preso, perdeu o emprego e abandonou a universidade. Anos mais tarde, já professor da USP, resolveu en-tregar o livrinho para o IEB-USP, que, agora se sabe, é um documento impor-tantíssimo, um exemplar de trabalho com anotações de Mário de Andrade. Para felicidade do escritor, as correções chegaram em tempo. ■

Mário em foto de 1932: corrigindo suas

obras sempre

RIO

, 19

32

/FO

TO

DE

GIL

DA

DE

MO

RA

ES

RO

CH

A

094-99_Mario de Andrade_168.indd 99094-99_Mario de Andrade_168.indd 99 30.01.10 00:24:5530.01.10 00:24:55

Page 100: Cogumelos iluminam a floresta

MÚSICA

AG

ÊN

CIA

ES

TAD

O

Muito além da

vitória-régia e do vatapá

100-103_Villa Lobos_168.indd 100100-103_Villa Lobos_168.indd 100 30.01.10 00:31:2430.01.10 00:31:24

Page 101: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 101

Villa-Lobos deixa de ser ícone nacionalista para ressurgir como grande compositor moderno | Carlos Haag

Com boa dose de raivosa ironia, Mário de Andrade desancava certo tipo de brasileirismo musical que via permeado de “sensações fortes, vatapá, jaca-ré, vitória-régia”. Infelizmente para muitos, o interesse pela

música de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) estaria justamente na proximi-dade com que o compositor, pleno de ritmos e melodias, teria chegado dessa exótica mistura, aparentemente uma receita tipicamente brasileira que ele dominaria bem com sua genialidade intuitiva de arrancar da terra o que era nacional. “É preciso rebater a ideia de que o maior ou o único mérito da obra musical de Villa-Lobos esteja em seu caráter nacional, identifi cável pela uti-lização de melodias folclóricas e even-tuais usos de ritmos e instrumentos de música popular brasileira. Outro ponto importante é demonstrar que as qua-lidades de certas obras do compositor não são resultados de mero casuísmo, mas de um labor composicional sinto-nizado com os problemas importantes no tempo em que foram compostas e que ainda instigam os músicos de ho-je”, observa Paulo de Tarso Salles, da ECA-USP, autor de Villa-Lobos: proces-sos composicionais (Editora Unicamp, 264 páginas, R$ 50).

“Villa-Lobos é muitas vezes consi-derado como o ‘maior compositor das Américas’, mas esse rótulo ainda carece de substância, pois sua obra tem um mérito maior do que o mero exotismo e trouxe real contribuição à música do Ocidente, embora poucos estudiosos se debrucem efetivamente sobre essas questões”, avisa o pesquisador. “Ele é

Compositor em seu labor: diálogo com os grandes nomes musicais do seu tempo

>

sempre citado como um gigante da música do século XX, mas nunca me-receu o cartão VIP dos compositores seminais, como Stravinsky, Schoen-berg, Varèse ou Messiaen, que geram teorizações e reverberam na linguagem dos compositores do século XXI. Em geral, Villa-Lobos é o fi lho da nature-za, que cavoucou a terra e encontrou o talismã da identidade nacional, que o tornou maior entre os maiores de uma arte que intuímos ser importante, mas que ainda não nos pertence”, concorda o violonista Fábio Zanon, professor do Royal College of Music e autor de uma recém-lançada biografi a do composi-tor. Efetivamente, enquanto seus con-temporâneos merecem análises infi n-das, Villa ganhou um lugar periférico em que fi gura como caso exótico, um latino-americano cuja intuição teria levado às vezes a resultados sublimes, mas quase sempre desiguais. “Ele, po-rém, teve várias mudanças de estilo em sua vida que deixam entrever não um ‘dândi tupiniquim’, mas um compositor que se autoimpunha uma pesada carga de trabalho e estudo, o que contradiz o mito em torno de seu autodidatismo e facilidade, no mau sentido, de inven-ção”, analisa Salles. Entre 1900 e 1917, temos o jovem compositor em sua fase inicial adotando modelos franceses e wagnerianos, buscando ser reconhecido pelos músicos e críticos brasi-leiros. A partir do contato em 1917 com o compositor Da-rius Milhaud, a cantora Vera Janacopoulos e o pianista Ar-thur Rubinstein, todos no Rio de Janeiro, a música de Villa apresenta formas e estruturas

mais livres e, em 1923, o grande marco foi a viagem a Paris, onde estabelece um diálogo com a música dos modernos, em especial com Stravinsky. A tercei-ra fase, nos anos 1930, é a da volta ao Brasil, quando, aparentemente para ga-rantir a sobrevivência, em pleno regime varguista, o compositor incorporou a imagem que se queria dele como um símbolo da cultura brasileira. A partir de 1948, a fase fi nal, quando recebe o diagnóstico do câncer, Villa, para fa-zer frente às despesas crescentes com tratamentos de saúde, passa a atender encomendas e a se apresentar nos EUA e na Europa.

Tantas fases e tantas mudanças não seriam uma tarefa de amador, tampou-co de um autodidata casual. “Quem vê Villa como um compositor de pouca técnica, que comporia sua música tal qual a anarquia idealizada de selvas tro-picais, que teria pouquíssimo domínio da forma e das estratégias composicio-nais da tradição, parte de uma visão quase sempre baseada em gagues plan-tadas pelo próprio Villa-Lobos, ou que simplesmente tentam fundamentar-se em uma falta de conhecimento quan-to às obras e aos compositores com os quais a música de Villa-Lobos dialoga-va”, avalia o compositor e pesquisador Sílvio Ferraz, da Unicamp. “Seus diá-logos foram marcados por encontros:

Bartók, Varèse, Milhaud, Revueltas. Todos defensores de uma estética musical de cunho experimental. Villa dialogava com esses com-positores que, por sua vez, traziam, assim como ele, muito da força musical dos

100-103_Villa Lobos_168.indd 101100-103_Villa Lobos_168.indd 101 30.01.10 00:31:2530.01.10 00:31:25

Page 102: Cogumelos iluminam a floresta

102 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

aspecto da multifacetada obra do mais importante compositor brasileiro, cuja música seja possuidora de atributos sufi cientes para que, através dela, seja possível estudar algumas das técnicas de composição em voga na primeira metade do século XX. As partituras de Villa revelam, além da óbvia preocu-pação com uma identidade nacional, a inquietação do compositor em relação a procedimentos que se tornaram acadê-micos, destituídos de signifi cação para a música de seu tempo”, observa. “Isso se traduz em sua concepção peculiar de forma, em que os sons circulam sem a tradicional noção do desenvolvimento beethoveniano, mas de acordo com suas potencialidades acústicas.” O pesquisa-dor, analisando os processos composi-cionais de Villa-Lobos, agrupou-os em três grandes modos de transformação do material composicional.

A ntes de mais nada, é preciso reco-nhecer que a melodia, nota o pes-quisador, é um item secundário na

composição villa-lobiana, uma questão complicada num país com uma tradi-ção tão forte na canção popular, em que a linha melódica é tão importante. Daí o primeiro processo com as transforma-ções obtidas a partir de simetrias, que se tornam progressivamente assimétricas ou balanceadas pela ocorrência de “aci-dentes”. Essas transformações ocorrem como resultado da superposição entre “fi gura” e “fundo”, com a funcionalida-de da fi guração melódica interagindo sobre um fundo textural mais ou menos estático. A melodia villa-lobiana tem um papel “acidental” de transformação da textura. Assim, a música de Villa ga-nha uma implicação notadamente tex-

tural, ou seja, todos os componentes da obra geram uma sonoridade indivisível, um universo de timbres que são agregados sem uma hierarquia preestabelecida. “As ciran-das para piano ilustram soberbamente essa questão: nelas as melodias folclóricas não são ‘harmonizadas’, mas sim inseridas em um ‘ambiente sonoro’ que lhes confere um sentido retórico, metafórico.” Esse conceito de ambiente sonoro, continua Salles, é constantemente afi rmado em suas obras sinfônicas, nas suas densas orquestrações. “Em Uirapuru se descortina qual o recorte do compositor: não se trata de uma reprodução naturalista da melodia ca-racterística do pássaro. O ‘canto do uirapuru’ criado por Villa é uma melodia abstrata, um ‘hiperpássaro’. O que o atraiu foi a série simétrica de intervalos que é submetida a vários processos de alargamento e distorção. Villa se comprazia em tornar assimétrica a cuidadosa simetria

RE

PR

OD

ÃO

DO

LIV

RO

A IM

AG

EM

DE

RIO

; FO

TO

BIO

GR

AF

IA D

E M

ÁR

IO D

E A

ND

RA

DE

/VIL

LA

-LO

BO

S, R

IO D

E J

AN

EIR

O, 1

94

1

povos de seus países. Que força seria essa? Não aquela que se imita facil-mente, numa simplifi cação melódica à qual muitos acabaram por ceder, mas a força sonora, a força inventiva desses povos, no modo de cantar, de tocar um instrumento e na maneira como a música é feita com aparente facilidade e rapidez. Villa foi um com-

positor genuinamente brasileiro, no sentido de que teve de inventar o Brasil musical que lhe cabia.” Daí o aspecto acumulativo e não excludente da pesquisa de Salles, que revela ainda mais a riqueza musical do compositor. “Não pretendi substituir a já tão bem conhecida apreciação da identidade nacional presente na obra de Villa-Lobos. Meu objetivo foi apenas complementá-la com mais um

Villa na dedicatória a Mário de Andrade avisa que não é samba, mas Bach

100-103_Villa Lobos_168.indd 102100-103_Villa Lobos_168.indd 102 30.01.10 00:31:2530.01.10 00:31:25

Page 103: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 103

inicial. A simetria para ele era como um estágio instável da composição”, analisa.

Outro processo são os ziguezagues que ocorrem em vários pontos de suas texturas, em vários gêneros musicais, como projeção de determinados elementos, sonoridades, timbres, que estabelecem um novo estatuto do motivo, desvinculado de sua função temporal-formal para tornar-se um elemento quantitativo na consecução e fruição da obra. Na Bachianas nº 5, no martelo (2o movimento), está na própria melodia cantada pela so-prano sobre o texto de Manuel Bandeira. No Choros nº 2,para clarineta e fl auta (dedicado a Mário de Andrade, em época em que a amizade entre eles ainda não se rom-pera), o ziguezague é empregado para operar mudanças de registro entre os instrumentos. No Noneto, a mesma técnica tem implicações estruturais, anunciando mu-danças seccionais e timbrísticas. Um terceiro processo composicional são as transformações por turbulência, resultantes sobretudo de procedimentos rítmicos ou timbrísticos, em que Villa gera sonoridades saturadas pelos elementos constituintes da textura, desencadeando processos irreversíveis de expansão ou contração das unidades métricas. Em síntese, ele usava a densidade do ritmo para controlar a saturação sonora da textura. Em Rude poema para piano, ouve-se como o ritmo saturado parece proporcionar diversas “erupções” ao longo do tempo. Ritmo e tempo parecem coordenar as ações em suas fi gurações de ostinato (linha melódica repetitiva em torno da qual outras camadas melódicas evoluem). No Choros nº 8, obra sinfônica que, nota o pesquisador, Stravinsky poderia ter assinado, Villa usou 36 ostinatos, os quais são superpostos, justapostos, montados e des-montados para gerar adensamentos texturais.

“Desse modo pode-se perceber que a música de Villa dialogava com a de seus contemporâneos, como Stra-vinsky, Bartók, Varèse, por exemplo. Todos eles operavam num território ainda inexplorado dos sons, acima e além dos manuais de composição formal de seu tempo”, afi rma Salles. “É preciso escutar um Villa-Lobos muito além da apreensão de suas melodias ou dos ritmos sincopados dos chorões, elementos superfi ciais que dão a ele cor local, mas não são os aspectos mais instigantes de suas obras. A série de Choros, por exemplo, é uma ampliação de possibilidades sonoras latentes em toda a música popular brasileira, não apenas a partir de parâmetros como altura e ritmo (melodia), mas essencialmente do timbre e de todas as propriedades atreladas a esse aspecto tão com-plexo do som como afi nação, ressonância, difusão etc.”. O mesmo aconteceu com as Bachianas, observa Salles, que deram a Villa o rótulo de “fértil melodista” e pra-ticamente sepultaram o interesse especulativo por suas criações. “Villa-Lobos não foi menos inquieto e capaz do que outros compositores em buscar e encontrar soluções interessantes para os problemas de composição musical que não se enquadram apenas na questão de identidade racial. Sendo brasileiro, foi tachado prematuramente de ‘ingênuo’ por ter tido a audácia de se lançar a uma aven-tura criativa sem precedentes e sem um manual escrito por um europeu. A América Latina por essa ótica está

destinada a fi car à margem da modernidade, preferindo discursar em torno da sua originalidade racial.”

A ligação entre Villa-Lobos e o nacionalismo, lembra Salles, era das mais problemáticas, encarnado na fi gura emblemática de Mário de Andrade. Afi nal, o naciona-lismo brasileiro privilegiava o rural em detrimento do urbano e o vínculo de Villa com o choro carioca, além de urbano, destoava da orientação para os temas folclóricos. “Apenas ocasionalmente, como na série das Cirandas, ouvem-se melodias folclóricas. Ou em obras didáticas, como as Cirandinhas, para piano, ou o Guia prático”, nota o pesquisador. “O folclore sou eu”, gostava de dizer o compositor. Quando Vargas indicou um interventor para São Paulo e Villa manteve-se a seu lado, inclusive dedicando o Quarteto de cordas nº 5, obra nacionalis-ta com temas folclóricos, Mário rompeu de vez com o compositor. O quarteto além de tudo trazia trechos de uma melodia gaúcha, o que fez o autor de Macunaíma perder as estribeiras e chamar o músico, em carta a um amigo, de “lambe c.” do regime. Mário preferiu como discípulo do seu nacionalismo o compositor Camargo Guarnieri. O elemento nacional, porém, não era o que mais interessava a Villa, embora tenha marcado forte-mente a carreira do compositor, talvez “culpa” do próprio Villa, que, durante o Estado Novo, por interesse pessoal, nota Salles, por questões de sobrevivência, tenha deixado que se tomasse como verdade o que todos gostariam que ele fosse: o arauto da nação.

E ssa imagem fi cou tão forte que mesmo músicos foram consumidos por ela e taparam os ouvidos diante da música de Villa-Lobos. Foi o caso do compositor

vanguardista e pesquisador da USP Willy Correa de Oli-veira, antigo detrator de Villa, que apenas recentemente voltou atrás em suas críticas ao “nacionalista sem valor” para, hoje, ver o autor de Uirapuru com olhos renovados. “Pensar Villa como compositor nacionalista é reduzi-lo. É pensar tacanho, reacionário: mesquinhamente fi m de século XIX. Revela ignorância ou avaliação incorreta de sua obra. Autêntico compositor do século XX, Villa--Lobos foi homem do seu tempo, como Ives, Schoenberg, Stravinsky, Bartók, Webern. O arrojo de Villa na con-fecção de imagens abstratas em movimento é de tal im-portância que se pode emparelhá-lo com o Schoenberg maduro, com o último Scriabin, com Debussy, Varèse e até Webern. Para gaúdio de todos, Villa consta de um programa ideal, possível, focando a música do século XX no que houve de mais criativo, efetivo: em um mundo sem língua musical erudita falada, onde cada voz fosse um testemunho necessário do homem como ser criador, sobrevivendo em ambiente adverso, hostil, agressivo.” Foi com ele que o Brasil entrou, pela primeira vez, na música do século XX e, desde então, pouco se aventurou por esses caminhos, já que o compositor não deixou “herdeiros” musicais. “As novas gerações de compositores têm muito a aprender com os procedimentos técnicos de suas obras”, nota Salles. “Villa criou uma possibilidade de música brasileira, em vez de ser criado por ela. Ele ‘tornou-se’ folclore”, completa Zanon. ■

100-103_Villa Lobos_168.indd 103100-103_Villa Lobos_168.indd 103 30.01.10 00:31:2730.01.10 00:31:27

Page 104: Cogumelos iluminam a floresta

104 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

HISTÓRIA

BRASIL À FRANCESAOs anos brasileiros, entre as décadas de 1930 e 1940, marcaram a vida e a obra do historiador francês Fernand Braudel

Para quem se via acuado entre a historiografi a con-vencional, a vulgata marxista e o sociologismo, Braudel foi uma autêntica libertação. Ali estava fi nalmente um historiador que nem tinha o ranço de uma nem o reducionismo da outra nem o dou-trinarismo do terceiro; e que, munido dos instru-mentos da erudição mais recente, era capaz, como

os grandes historiadores do século XIX, de dar corpo, alma e vida a largas fatias do passado”, escreveu o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello. O elogio dá uma noção do encantamento que gerações experimentaram há cinco décadas com a leitura de O Mediterrâneo, obra monumental de Fernand Braudel (1902-1985) e do peso da infl uência do historiador francês. O que poucos sabem é que o seu pensamento, incluindo-se a criação dessa sua obra máxima, foi gestado durante sua estada no Brasildurante os anos 1930 e 1940. Essa temporada tropical de Braudel é o tema do estudo do historiador Luis Corrêa Lima, paulista, radicado no Rio de Janeiro, da PUC-RJ, autor de Fernand Braudel e o Brasil – Vivência e brasilia-nismo (1935-1945), recém-lançado pela Edusp, resultado de sua tese de doutorado pela Universidade de Brasília (UnB), em que analisa justamente o impacto que o país teve sobre o intelectual francês e vice-versa.

“Para ele, foi uma mudança de perspectiva. A partir do contato com a sociedade brasileira e sua história, Braudel conseguiu imaginar a Europa do Antigo Regime”, expli-ca o pesquisador. “Além disso, ele foi muito importante para o Brasil e para a USP, pois ajudou a formar toda a segunda geração de professores da universidade.” País

adotivo e o jovem se uniram para criar O Mediterrâneo e as raízes de uma nova forma de fazer história. “Se os no-vos leitores não perceberem com nitidez a novidade que a obra representou em sua época, isso talvez se deva, de certo modo, ao fato de o próprio Braudel ter infl uenciado sucessivas gerações que aderiram à Escola dos Annales, da qual fez parte. Uma escola que renovou a historiografi a, aproximando-a das ciências sociais, e fez surgir novos temas e horizontes. Tratava-se, naquele tempo, de um tipo de narrativa histórica incomum.”

Ao iniciar o doutorado, o período escolhido por Corrêa Lima foi justamente dos anos brasileiros de Braudel, deci-sivos para toda sua obra. Foi nessa época, por exemplo, que elaborou parte do mesmo O Mediterrâneo. A tese de Corrêa Lima investiga desde a chegada das missões francesas que contribuíram, nos anos 1930, para a fundação da USP até o período imediatamente posterior à volta para a França, em que esteve por cinco anos numa prisão nazista. “A França era considerada a líder da latinidade e a sua cultura, o caminho seguro da modernidade e do progresso verda-deiro. Oferecia simultaneamente tecnologia e humanismo, laicidade e religião. Por isso acreditava-se que a França poderia nos salvar da ‘barbárie’ de uma civilização mera-mente industrial. Os confl itos ideológicos naquela época eram bastante fortes, e a presença francesa correspondia ao projeto da elite paulista de educar a juventude nos ideais democráticos, longe do fascismo”, explica Corrêa Lima.

Entre as difi culdades da empreitada, houve a própria vastidão da obra de Braudel a ser lida: como exemplo, considere-se que seus dois livros principais somam cinco

Joselia Aguiar

O jovem Braudel em foto tirada quando de

sua estada no Brasil

>

104-107_Braudel_168.indd 104104-107_Braudel_168.indd 104 30.01.10 00:33:2330.01.10 00:33:23

Page 105: Cogumelos iluminam a floresta

DIV

UL

GA

ÇÃ

O E

DU

SP

104-107_Braudel_168.indd 105104-107_Braudel_168.indd 105 30.01.10 00:33:2330.01.10 00:33:23

Page 106: Cogumelos iluminam a floresta

106 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

volumes e mais de 3 mil páginas. A segunda, conforme Corrêa Lima, foi quanto à questão específi ca que que-ria pesquisar: Braudel e o Brasil. “Será que haveria material sufi ciente para se escrever uma tese? Ou o assunto se esgo-taria em um capítulo ou pouco mais?”, perguntava-se. Tal dúvida lhe provocou angústia por muito tempo. A terceira difi culdade foi o acesso aos arquivos de Braudel na França. “Foi uma longa espera até que as portas se abrissem”, conta. Entre as felicidades, houve a de encontrar documentos inéditos, conser-vados pela viúva do historiador, então com 87 anos, em seu apartamento em Paris. Como resultado, a obra de Corrêa Lima se concentra particularmente em anos que são pouco abordados nas duasmaiores biografi as do autor, escritas por Pierre Daix, na França, e Giuliana Gemelli, na Itália.

Discreto, pesquisador incansável, com fama de excelente professor, Fer-nand Braudel iniciou sua trajetória co-mo historiador no fi nal dos anos 1920. Nas duas décadas seguintes viveria fora da França. De início, parte para a Argé-lia, onde o mar lhe provoca a primeira grande inspiração. O acaso o traz ao Brasil: o suicídio de um professor titu-lar que já havia sido nomeado para o cargo. Traz tanto material de pesquisa que, ao se instalar em São Paulo, precisa alugar um outro quarto de hotel.

Dizia Braudel que “se tornou in-teligente” quando conheceu o Brasil. Para entender tal afi rmação é preciso, antes, conhecer aquilo que caracteriza sua obra: trata-se, como destaca Corrêa Lima, da busca da longa duração, ou seja, das permanências e das realidades duradouras nos processos históricos, tanto nas relações do ser humano com o meio quanto nas formas de vida co-letiva e nas civilizações. No Brasil ele encontrou um país novo, de dimensões continentais e natureza tropical, uma sociedade em formação contrastando com o Velho Continente, que, no en-

tanto, o fazia imaginar o passado dis-tante da Europa. “Foi no Brasil que ele ‘vestiu a camisa’ da renovação historio-gráfi ca preconizada pelos Annales, com um conjunto de intuições que confi -guraram o seu Mediterrâneo e fi zeram dele um grande historiador, ao mesmo tempo original e herdeiro de Lucien Fe-bvre”, argumenta Corrêa Lima.

Coroas - Quando aqui esteve, entre 1935 e 1937, Braudel elaborava sua te-se de doutorado sobre o Mediterrâneo no tempo de Filipe II. A obra o ocupou por aproximadamente 20 anos. Como exigência da universidade francesa, era preciso também preparar uma tese se-cundária, na qual o material pesquisado na pesquisa principal poderia ser reuti-lizado. Escolheu, então, estudar o Brasil do século XVI, que chegou a fazer parte do reino de Filipe II quando da união das coroas ibéricas.

Na historiografi a de Braudel, como explica Corrêa Lima, certas realidades coletivas ou inanimadas atuam de mo-do coerente como se fossem um sujeito: tornam-se “personagens”. Isso se dá, por exemplo, com o mar Mediterrâneo, que se transforma em personagem em sua história da Europa, e também com a imensidão do Brasil, seus fatores geográ-fi cos, imprescindíveis para compreen-der sua história. “Braudel escolheu uma perspectiva bem defi nida para focalizar o Brasil: uma Europa americana, ou seja, uma civilização europeia na América. E, de modo especial, a única Europa tropi-cal e subtropical em todo o mundo com certa envergadura”, afi rma o historiador brasileiro.

Tal perspectiva fez Braudel lançar outro olhar sobre o passado brasileiro e, desse modo, captar as interações do país com o oceano. Braudel, porém, cedeu em parte a um etnocentrismo inaceitável, diz Corrêa Lima. “De qual-quer maneira, ele teve a humildade e a grandeza de reconhecer que a história brasileira, como toda a história, é vida

e não se deixa aprisionar em uma fór-mula”, acrescenta.

Depois da Segunda Guerra Mundial, ao fi nalizar sua tese, Fernand Braudel foi autorizado a substituir a tese secun-dária por dois artigos já publicados so-bre os espanhóis na África do Norte. E foi assim que o ensaio sobre o Brasil do século XVI permaneceu inacaba-do. Pouco a pouco, seus interesses de pesquisa se voltaram para o conjunto da América Latina, e mais tarde para a história mundial da vida material e do capitalismo. Desse modo, ele nunca mais retomou o ensaio. Braudel pen-sava que, para terminá-lo, precisaria consultar os arquivos de Portugal, que na época não estavam organizados.

Em seu período brasileiro, Brau-del conviveu com intelectuais, formou historiadores e até hoje fomenta novas leituras e pesquisas. Com três grandes amigos manteve a correspondência: João Cruz Costa e Eurípedes Simões de Paula, professores da USP, e o jornalista Júlio de Mesquita Filho. Como discípu-las, destacam-se Alice Canabrava, Cecí-lia Westphalen e Maria Luíza Marcílio. Durante o regime militar, empenhou--se em libertar da prisão seus amigos e conhecidos. Braudel usou seu prestígio internacional como intelectual francês e escreveu cartas aos presidentes militares brasileiros. Assim, como conta Corrêa Lima, ele conseguiu tirar da cadeia Caio Prado Jr., Milton Santos, João Cruz Cos-ta e Yedda Linhares. Aos alunos, futuros professores, recomendava simplicidade, que resulta de clareza.

De volta à França, Braudel foi um dos responsáveis pela divulgação da obra de Gilberto Freyre. Contribuiu com pesquisadores como a historiadora greco-baiana Katia de Queiros Mattoso, que assumiria pela primeira vez a cáte-dra de história do Brasil da Sorbonne, e o etnofotógrafo Pierre Verger, que dedicou ao historiador a sua tese Fluxo e refl uxo e teve nele seu grande incenti-vador na volta à academia –Verger havia

De volta à França, Braudel foi um dos responsáveis

pela divulgação da obra de Gilberto Freyre

104-107_Braudel_168.indd 106104-107_Braudel_168.indd 106 30.01.10 00:33:2530.01.10 00:33:25

Page 107: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 107

abandonado o Liceu ainda na juven-tude. Com seus pares franceses, Brau-del formou uma geração de grandes historiadores: Jacques Le Goff, Le Roy Ladurie, Marc Ferro e Georges Dubys. Até os anos 1950, foi responsável por cursos e conferências sobre a América Latina. Quando a USP completou 50 anos, em 1984, teve o convite para vir para participar das comemorações. Co-mo seus principais amigos brasileiros já haviam falecido, disse que seria um desgosto muito grande vir ao Brasil e não poder reencontrá-los.

Nos últimos anos, têm-se multipli-cado estudos sobre intelectuais france-ses que viveram no Brasil no mesmo período. Estudam-se não somente sua infl uência no Brasil, como também a infl uência do Brasil em suas obras. Au-tores como Lévi-Strauss, Roger Bastide e Pierre Verger têm sido objeto de pes-quisa acadêmica, de reedições e, muitas vezes, de primeiras edições. “Quanto a Braudel, creio que a tendência é a de crescimento de estudos críticos sobre o autor, na medida em que os campos da história da historiografi a e da teoria da história estão se consolidando no Brasil, campos esses que não eram nada fortes nos anos 1990, quando fi z minha graduação. Vale dizer: há uma retoma-da mais refl exiva, um pouco diferente da antiga fonte de inspiração para no-vos ‘métodos’ e ‘abordagens’”, explica Henrique Estrada Rodrigues, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, autor de artigo recente sobre o diálogo entre Braudel e Lévi-Strauss.

Autor de uma tese de doutorado so-bre Sérgio Buarque de Holanda, Estrada Rodrigues diz que a visão que se tem, hoje, da infl uência francesa no Brasil tem mudado. “Cada vez mais existem outras importantes referências intelectuais, co-mo a alemã ou a inglesa, que relativi-zam um pouco a importância francesa, sem, claro, desmerecê-la. Isso se deve também a uma especialização cada vez mais acentuada dos programas de pós-

RO

GE

R V

IOL

LE

T/A

FP

-graduação, que começam a desencavar coisas muito específi cas. Por exemplo: a associação entre Sérgio Buarque e a nova história francesa, muito difundida nos anos 1990, começa a conviver com es-tudos que apontam outras fontes de inspiração bastante diferentes ou mes-mo antípodas, como a sociologia alemã, as leituras italianas do historiador ou as referências vindas da história literá-ria”, exemplifi ca.

Diversidade - Corrêa Lima diz que, ante a abrangência da obra de Braudel – o mundo mediterrânico, a cultura material, os primeiros séculos do ca-pitalismo, a França –, há muito ainda a ser estudado. E hoje, em que se interessa por outros temas como história da Igre-ja e diversidade sexual, a contribuição de Braudel continua bastante valiosa. “Ele ensina a identifi car permanências e mudanças na vida coletiva e nas ci-vilizações e a buscar um ‘concubinato’ entre diversos saberes. A perspectiva histórica é muito útil para enfrentar posturas intransigentes e para enxergar o novo que se avizinha”, afi rma.

Em uma resenha sobre o livro de Corrêa Lima, publicada na revista Carta Capital, o historiador Elias Thomé Sali-ba, professor da USP, elogiou as histórias

saborosas reunidas, a pesquisa meticu-losa e a felicidade em documentar como o “distanciamento” experimentado aqui no Brasil se tornou um rito de passagem para a formação de Braudel. “Distan-ciamento” que resultaria do contato com outra realidade, diferente da sua. Absorvido pela pesquisa, localizada em outra época, Corrêa Lima afi rma que também experimentou algo parecido. Certo dia, após passar várias horas con-versando com a viúva de Braudel, teve um estranhamento ao sair à rua, num dia normal de primavera, com jovens, crianças e idosos circulando pelas calça-das. “Nada havia de especial. Entretanto tive a sensação de estar vindo de outro planeta, de um mundo que não tinha nada a ver com o que os meus olhos viam. Nunca havia tido esta sensação antes. O que me aconteceu foi estar tão absorvido em um passado distante no tempo e no espaço que o presente me causou um enorme estranhamento. Era como se eu retornasse de um arreba-tamento”, recorda. “É claro que tudo isso é recriação do historiador a partir dos vestígios de que dispõe. Mas pode acreditar: a história tem uma força e um poder envolvente de nos transportar pa-ra mundos distantes, ainda que apenas através da imaginação.” ■

Fernand Braudel em 1980: no Brasil conviveu com

intelectuais, formou historiadores e até hoje

fomenta pesquisas e ideias

104-107_Braudel_168.indd 107104-107_Braudel_168.indd 107 30.01.10 00:33:2530.01.10 00:33:25

Page 108: Cogumelos iluminam a floresta

108 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

RESENHA

....

A s discussões mais ou menos recentes acerca da teoria da história, espe-cialmente em sua vertente anglo-

-americana, têm nos acostumado a um certo estado de impasse, como se não fosse mais possível conceber produtos de pesquisas que venham a nos mobilizar no exame de supostas evidências, dos preconceitos que se estabelecem no en-torno de determinados conceitos e, en-fi m, no encetamento das suspeitas acerca das linearidades que vêm a compor a historiografi a e a literatura.

A esse respeito, o livro Natureza e cultura no Brasil (1870-1922), de Lucia-na Murari, traz contribuições para que percebamos os riscos da aderência irre-fl etida às últimas vagas de pensamento num mundo que se deseja globalizado. Tendo como suporte uma rica oferta de fontes, que variam “da prosa de fi cção e não fi cção, a crítica literária, a historio-grafi a e o ensaísmo político e social”, a pesquisadora terminou por nuançar a utensilagem mental do campo intelectual brasileiro quando remetido às diferentes concepções acerca da natureza.

A opção pelo recorte cronológico, como a autora aponta, também cum-priu a função de checagem quanto ao tipo de produção escrita que se fazia num momento ofuscado pelo aparato modernista – de produção e recepção – que se estabeleceu a partir das alusões ao ano de 1922. Assim, destoando de um coro que parece somente se mobilizar pelos marcos associados às vanguardas modernas e que, quando muito, faz con-cessões às obras de Machado de Assis, Joaquim Nabuco ou Euclides da Cunha, por entender que nelas já se encontra uma espécie de protomodernismo, Lu-ciana Murari nos brindou com citações de autores abandonados pela rendição inconteste às linhas do tempo histórico ou literário.

É assim que podemos tomar contato com os escritos de Mateus de Albuquerque, Rodolfo Teófi lo, Alberto Rangel, Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, Fábio Luz e Júlia Lopes de Almeida, dentre outros. Percebemos então que o conceito de natureza não se ancora em nenhuma baliza mais segura. A partir dos marcos cronológicos situados pela historiadora, observa-se que a natureza brasileira, de um ponto de vista mais tributário das concepções deterministas, já foi vista como fornecedora de um perfi l diferenciado, o que demarcaria um certo caráter nacional. Outro tipo de sentimento é aquele em que a exuberância natural brasileira se coloca como um obstáculo quase que intransponível. Assim, Alfredo d’Escragnole Taunay, na Retirada de Laguna, parecia apontar que o nosso principal inimigo não eram os paraguaios liderados por Solano López, mas sim toda espécie de intempéries interpostas pela fauna e fl ora selva-gens do Brasil. Percepção diferenciada, especialmente mais sofi sticada e sutil, é a que perfi zeram autores enfeixados no terceiro capítulo, que possui como subtítulo o sentimento de sertão na alma brasileira. Trata-se de reminiscências, no mais das vezes regionais, que buscavam recompor as qua-lidades existentes no modo de vida sertanejo. Finalmente, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Júlia Lopes de Almeida oferecem exemplos quanto às projeções para o futuro. Ou seja, assimilaram as difi culdades consideradas inerentes à natureza brasileira, mas se colocaram como proponentes quanto ao que poderia ser feito para colocá-la a favor do progresso do país.

A obra de Murari recupera um repertório necessário para que adentremos os complexos sentimentos embutidos no conceito de natureza, bem como lança luz à tensão ainda presente entre civilização e barbárie. A pesquisa fornece subsídios para que refl itamos sobre a permanência de orien-tações, que parecem se confi gurar na percepção de que temos um compromisso adiado com o futuro e que dependemos de opções corretas para que consigamos cumprir aquilo que nos parece predestinado. A quebra de continuidade para com as chaves históricas e literárias mais consagradas abre espaço para que recuperemos nossa identidade para com dilemas percebidos na virada para o século XX.

Fernando Amed, doutor em história pela FFLCH da USP, pro-fessor da FAAP e do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e autor de As cartas de Capistrano de Abreu: sociabilidade e vida literária na belle époque carioca.

A exuberância da barbárieEstudo recupera pensamentos sobre a natureza brasileira

Natureza e cultura no Brasil (1870-1922)

Luciana Murari

Alameda Editorial, 2009

474 páginasR$ 50,00

Fernando Amed

108_resenha_168.indd 108108_resenha_168.indd 108 30.01.10 00:35:0230.01.10 00:35:02

Page 109: Cogumelos iluminam a floresta

LIVROS

....

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 109

Moçambique: identidade, colonialismo e libertaçãoJosé Luís CabaçoEditora Unesp360 páginas, R$ 49,00

José Luís Cabaço entende as políticas de identidade como expressão de um dese-nho político subordinado a um poder que se pretende hegemônico. Além de se valer de autores como Althusser, Bourdieu, Hall e Derrida, o livro é um retrato da própria vivência colonial e das lutas de indepen-dência das quais Cabaço foi testemunha e agente, nos mostrando assim como foi forjada a identidade moçambicana.

Editora Unesp (11) 3242-7171 www.editoraunesp.com.br

São Paulo: metrópole das utopiasMaria Luiza Tucci Carneiro (org.)Lazuli Editora/Companhia Editora Nacional512 páginas, R$ 49,00

Os artigos reunidos neste trabalho versam sobre a história da repressão e da resis-tência na cidade de São Paulo. A partir da investigação de documentos do acervo do Deops/SP, historiadores reconstituem a trajetória política de personagens que, por “pensarem diferente” ou se distingui-rem pela etnia, religião ou classe social, criaram estratégias de burlar a vigilância e a censura institucionalizadas.

Lazuli Editora/Companhia Editora Nacional (11) 2799-7799www.ibep-nacional.com.br

O império por escritoLeila Mezan Algranti e Ana Paula MegianiAlameda Editorial608 páginas, R$ 78,00

O desafi o deste livro é escrever uma histó-ria da leitura no mundo ibérico, quando a ideia corrente é a de que neste universo nunca houvera uma forte tradição de co-municação escrita. A pesquisa é feita a par-tir de documentos de papel fundamental na difusão dos valores imperiais.

Alameda Editorial (11) 3012-2400 www.alamedaeditorial.com.br

Invenções de si em histórias de amor: Lota e BishopNadia NogueiraEditora Apicuri264 páginas, R$ 42,00

Este trabalho, vencedor do Prêmio Arco-íris de Direitos Humanos, conta a história de amor de duas mulheres, Lota Macedo Soares e a poetisa Elizabeth Bishop, no Rio de Janeiro dos anos 1950 e 60. Dessa forma, busca resgatar o silêncio histórico a que estiveram submetidas as relações homoe-róticas femininas, bem como desconstruir o discurso médico legal, que diagnosticou as mulheres envolvidas em tais relações como nocivas ao convívio social.

Editora Apicuri (21) 2533-7917 www.apicuri.com.br

Machado de Assis e a crítica internacionalBenedito Antunes e Sérgio Vicente Motta (orgs.)Editora Unesp280 páginas, R$ 36,00

Os professores Benedito Antunes e Vicente Motta organizam neste livro uma reunião de alguns textos do simpósio “Caminhos cruza-dos: Machado de Assis pela crítica mundial”, realizado em 2008, no qual diversos estudio-sos internacionais de Machado, como Rober-to Schwarz, Jean M. Massa, K. David Jackson, Amina di Muno, entre outros, apresentaram suas críticas e olhares sobre o autor.

Editora Unesp (11) 3242-7171 www.editoraunesp.com.br

Sartre no Brasil: expectativas e repercussõesRodrigo Davi AlmeidaEditora Unesp136 páginas, R$ 32,00

Rodrigo Almeida aborda em seu livro os signifi cados históricos e políticos da visita de Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir ao Brasil em 1960, que marcou uma geração de intelectuais, entre eles José Arthur Gia-notti, Ruy Fausto e Bento Prado Jr..

Editora Unesp (11) 3242-7171 www.editoraunesp.com.brFO

TO

S E

DU

AR

DO

CE

SA

R

109-livros_168.indd 0109109-livros_168.indd 0109 30.01.10 00:36:1330.01.10 00:36:13

Page 110: Cogumelos iluminam a floresta

110 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

FICÇÃO...

… ssssssss

E nte se expande em inquieta exultação.Escoa o tempo ondulante aos solavancos por ex-

tensões dobras refl uxos. A emanação se arroja para fora para longe a bolha esferoidal infl a inexoravelmente insufl ada pelo avanço irreprimível agora bem mais rápido que a expansão geral das coisas para o princípio e o fi m, o centro e o extremo.

Ente reordena persistentemente as massas esvoaçan-tes de sua emanação sobrepondo subpondo envolvendo contrapondo entretecendo dados equações sensações memórias teorias signifi cados em novas combinações estimulantes prazerosas afl itivas inquietantes.

Emanar preenche expande excita apavora engolindo tempos e espaços e outras tantas coisas inapreensíveis rumo ao extremo e ao âmago da expansão cósmica.

Emanar é a maneira inelutável, a potência em plenitude carregada de probabilidades possíveis e impossíveis inci-dentes acasos encontros, insufl ada pelo sopro primitivo da rocha.

A memória da emanação revasculha incansável os turbilhões do acúmulo onipresente; incontrolável sen-sação de ancestral riso infantil percorre as reverberações do avanço.

Ente sente.Ente infere compara deduz separa recombina noções

certezas lembranças harmonias em novas percepções e possibilidades, as memórias de pó e vento e pedra e fon-te se interpenetram agora com sobressaltos primais dos primeiros viventes espasmos multiplicadores da bactéria, lágrimas uivos espantos de primitivos êxtases, dúvidas angustiantes de primeiras inferências, vento assobiando em frestas, marulho de águas, farfalhar de folhas, estrondos de vulcões, tormentas silvos rugidos grasnidos trinados combinam-se e transformam-se com novas vibrações em harmonias mais e mais extasiantes.

Ente condensa na fi na crosta inconsútil da bolha a

memória absoluta das eras em todos seus infi nitos rodeios enlaces desenlaces. Expansão se compraz comove e infl a com a cósmica carga da acumulação abissal. Nada que foi está ausente, tudo que é se distende retesa no esforço condensado da busca.

Quantidades ínfi mas e cósmicas, abstrações voláteis e densas, certezas sólidas e fugazes, dúvidas atrozes, credos inconstantes e impotentes se recombinam e reconfi guram no avanço incessante, mistérios engendrando mistérios, a memória organizada do caos.

Ente estremece sob os impulsos de um prazer mui-to antigo, feito o espanto no achado de uma solução de problema excruciante e o defrontar-se nos solavancos da expansão com as demais emanações no cosmos.

Uma recordação insistente de matéria mortal entre-meia o deleite das equações se propondo e se resolvendo nas urdiduras do tempo. Razão virou crença e vice-versa; matéria continha limitava e expandia e transmutava ener-gia e espírito em novas singularidades vitais. Angustiante mistério de uma suspeita de explosão primordial se eno-vela agora com novas provisórias certezas sobre antes e depois do princípio singular, antes do princípio, depois do fi m, o que é o meio, é meio?

Agora.A emanação se aferra ao presente da jornada ine-

lutável.Outras emanações no percurso traziam bagagens pare-

cidas apenas apreensíveis, o espaço temporal de cada uma favorecia enleios e trocas provisórias e depois se rompiam e desfaziam-se os enlaces mas a emanação persistia ainda que levemente alterada. Ente sente.

Emanar é um perpétuo reordenar de lembranças e sensações noções certezas dúvidas lembranças longínquas de um balé de rochas celestes rodopiando em torno de um astro radiante, de moléculas inertes transmutando--se em moléculas instáveis irrequietas, em criaturas vitais

Celso Mauro Paciornik

110-111_ficcao_168.indd 110110-111_ficcao_168.indd 110 30.01.10 00:38:0930.01.10 00:38:09

Page 111: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ 111

e angustiadas numa busca incessante de perpetuidade, engendrando formas meios sistemas controles domínio e expansão, destruindo e reerguendo grupos e moradas, crescendo minguando adaptando-se depurando con-fl itos em acomodações e acertos, escapando à extinção prognosticada do rochedo natal para outras rochas cada vez mais distantes até o triunfo provisório mas estável de ente – condensação expansiva da matéria pensante da rocha primitiva natal emanando agora mais rápido que a expansão celestial.

Ente sente. Em alguma porção da emanação emerge uma noção de orgasmo. A busca já não parece infi nita eterna interminável. A busca é apenas compulsão essência mesma da emanação expansiva, as fronteiras do encontro supremo parecendo se acercar perigosamente.

A superfície tensa da emanação estremece. Ente ausculta a iminência de um desfecho de busca,

de um confronto com o limiar da expansão.Agora ente abarca na perpétua emanação a tão ansiada

busca do extremo, o confronto com o limite, a angústia natural da plenitude potente se faz pavor do encerra-mento da busca, se confunde com o persistente deleite da expansão.

Razão e fé matéria e energia abstração e concretude alegria e dor espaço e tempo ordem e caos ser e não ser materialidade e transcendência, dicotomias espalhadas nos desdobramentos pregressos do ente se entrelaçam e se dissipam na iminência do desfecho.

A bolha se distende à beira do paroxismo do estouro.A emanação se pergunta o que será a busca como

surdamente já vinha se perguntando desde a consciência primordial na caverna dos tempos até o surgimento do ente.

Uma algaravia irreprimível de noções se entretece nas vastidões rarefeitas das entranhas da emanação expansiva em vibrações desarmônicas. Uma algaravia arrebatadora

ecoa desde o vazio central da expansão até a superfície tensa inconsútil do avanço.

sens, sense, senso, sentido, sinn, , , , , , , smysl, fornuft, zin...

De repentino horror ente estremece na suspeita da proximidade do limiar da expansão. Intuição lhe instiga uma suspeita de vazio, um vazio onde sentido não se cria em nenhuma acepção, o enfi m da busca seria o fi m da emanação da expansão o estouro ou esvaziamento inevi-tável da bolha, memória absoluta do sopro interior.

Das revoltas vastidões vibrantes das entranhas da ema-nação, na irremissível solidão da sobrevivência, antigo eco de antiquíssima estrofe de um consultor de números e estrelas ecoando vibrações musicais inda mais ancestrais reverbera como um augúrio.

With Earth’s fi rst Clay They did the Last Man’s knead, And there of the Last Harvest sow’d the Seed; And the fi rst Morning of Creation wrote What the Last Dawn of Reckoning shall read. *

* [O último dos mortais fê-lo a Argila primeira./ Da última safra então lançou-se a sementeira./ E escreveu o primeiro Albor da Criação/ O que lerá um dia a Aurora derradeira]. Tradução de Jamil Almansur Haddad do rubai (quarteto) atribuído a Omar Khayyam (c.1040 – c.1125) e traduzido para o inglês pelo poeta Edward Fitzgerald (1809-1883).]

NA

SA

J.P

. HA

RR

ING

TO

N (

U.M

AR

YL

AN

D)

AN

D K

.J. B

OR

KO

WS

KI (

NC

SU

)

Celso Mauro Paciornik é formado em Letras pela USP e tradutor de obras de William Faulkner, Joseph Conrad, Daniel Defoe, entre outras.

110-111_ficcao_168.indd 111110-111_ficcao_168.indd 111 30.01.10 00:38:0930.01.10 00:38:09

Page 112: Cogumelos iluminam a floresta

112 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

CLASSIFICADOS» Anuncie você também: tel. (11) 3838-4008 | www.revistapesquisa.fapesp.br

O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), anteriormente denominado Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS), anuncia a formação de um Comitê de Busca para o cargo de Diretor Geral da Instituição.

Integram o Comitê de Busca: Rogério Cezar de Cerqueira Leite - Presidente do Conselho de Administração e do Comitê de Busca Carlos Henrique de Brito Cruz - Diretor Científico da FAPESP Celso Pinto de Melo - Presidente da Sociedade Brasileira de Física e Professor Associado do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco João Evangelista Steiner - Professor Titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP Pedro Wongtschowski - Membro do Conselho de Administração

Os candidatos interessados devem enviar currículos para Rui Henrique Pereira Leite de Albuquerque, secretário executivo do Comitê de Busca, pelo e-mail [email protected]. As entrevistas com os candidatos começam dia 15 de fevereiro deste ano.

Com sede em Campinas, São Paulo, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), do Ministério da Ciência e Tecnologia, congrega o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio).

Comitê de Busca para o cargode Diretor Geral do CNPEM

CONCURSO

VAGAS PARA O MUSEU LASAR SEGALL

: Instituto Brasileiro de Museus

�1 Museólogo�1 Técnico em assuntos educacionais�1 Analista administrativo

inscrição: até 23 de fevereirowww.funcab.org/site/index.php

Contatos: 11 3341 - 6987

[email protected]

A mais avançada linha de produtospara sua pesquisa:

Sistema Milliplex para a realização de múltiplos analitos em um mesmo ensaio.

Toda a linha de produtos radioativos.

Pioneira na engenharia de tecidos adiposos adultos derivados de células-tronco.

Espectrofotômetro CIRRUS 80ST

www.femto.com.brDuplo-feixe com varredura

Centros de Pesquisas eUniversidadesAnálises cinéticasenzimáticas embioquímica, com50 μl de amostra

de Pesquisas edadescinéticas

icas emmica, com

amostra

Desenvolvido com apoio PAPPE PIPE III - FINEP/FAPESP. Processo 04/13833-1

112-114_classificados_168.indd 112112-114_classificados_168.indd 112 30.01.10 00:48:0830.01.10 00:48:08

Page 113: Cogumelos iluminam a floresta

PESQUISA FAPESP 168 FEVEREIRO DE 2010 ■ 113

112-114_classificados_168.indd 113112-114_classificados_168.indd 113 30.01.10 00:48:0930.01.10 00:48:09

Page 114: Cogumelos iluminam a floresta

114 ■ FEVEREIRO DE 2010 ■ PESQUISA FAPESP 168

CLASSIFICADOS» Anuncie você também: tel. (11) 3838-4008 | www.revistapesquisa.fapesp.br

Ligue 3838-4008 ou acessewww.revistapesquisa.fapesp.br

Anuncie nos Classificados

112-114_classificados_168.indd 114112-114_classificados_168.indd 114 30.01.10 00:48:1030.01.10 00:48:10