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ECOVILAS, CULTURA DE PAZ E EDUCAÇÃO NA PARTILHA COM A MÃE TERRA: UM ESTUDO SOBRE A ECOVILA VRAJA DHAMA Autor: Otávio Augusto Chaves R. dos Santos; Orientadora: Allene Carvalho Lage Mestrando em Educação Contemporânea do PPGEDU, Universidade Federal de Pernambuco e-mail: p [email protected] Professora Permanente do PPGEDU, Universidade Federal de Pernambuco e-mail: [email protected] Resumo: Este estudo faz parte de uma dissertação de mestrado em andamento pelo Programa de Pós Graduação em Educação da UFPE CAA. Mostra uma atenção central à ecologia e aos saberes que percebem a terra como uma Grande Mãe. Traz um estudo sobre a Ecovila Vraja Dhama, do movimento Hare Krishna, como experiência de uma cultura ecológica de paz, tentando perceber, dessa forma, as contribuições da Ecovila para a educação ambiental. Como objetivo geral, buscamos compreender os processos de elaboração, de circulação e de resistência dos saberes tecidos na Ecovila que se situa no Murici - Caruaru - PE. A construção do objeto de pesquisa se dá a partir da compreensão desses conhecimentos, suas relações de ensino-e-aprendizagem, formas de resistência, partilha e relação com a terra. Epistemologicamente inspira-se em teóricos que trazem cosmovisões outras, como Boaventura de Sousa Santos, Fernando Mamani, Leonardo Boff, Carlos Rodrigues Brandão, dentre outros. Como conclusões iniciais o artigo apresenta que as práticas, vivências e experiências na Ecovila Vraja Dhama são alvissareiras em se tratando de uma sensibilidade social e ecológica ampliada dos respectivos membros da comunidade. Palavras – chaves: Educação Ambiental, Ecovilas, Mãe Terra, Ecologia. INTRODUÇÃO O presente trabalho faz parte de uma dissertação de mestrado em andamento pelo Programa de Pós Graduação em Educação da UFPE CAA. Intenciona socializar uma experiência ecológica e de educação ambiental com efeito multiplicador que está acontecendo em Murici - Caruaru (PE), na Ecovila Vraja Dhama do movimento Hare Krishna. Para iniciar, gostaríamos de trazer reflexões sobre a crise que o planeta se encontra. Percebemos desequilíbrios ecológicos, sociais, educacionais, éticos, dentre outros. Acreditamos ser importante abordar o assunto para que possamos refletir sobre possibilidades de mudanças no mundo, já que, parece insustentável a atual lógica neoliberal consumista. De tal modo, apontaremos alguns dados que demonstram desequilíbrios no meio ambiente, para, a partir disso, tentarmos contribuir em possibilidades de mudanças: de uma cultura individualista para uma cultura cooperativa; de uma cultura consumista para uma cultura de partilha, de uma cultura de violência para uma cultura de paz. (83) 3322.3222 [email protected] www.conedu.com.br
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  • ECOVILAS, CULTURA DE PAZ E EDUCAO NA PARTILHA COM A

    ME TERRA: UM ESTUDO SOBRE A ECOVILA VRAJA DHAMA

    Autor: Otvio Augusto Chaves R. dos Santos; Orientadora: Allene Carvalho Lage

    Mestrando em Educao Contempornea do PPGEDU, Universidade Federal de Pernambuco e-mail: p [email protected]

    Professora Permanente do PPGEDU, Universidade Federal de Pernambuco e-mail: [email protected]

    Resumo: Este estudo faz parte de uma dissertao de mestrado em andamento pelo Programa de PsGraduao em Educao da UFPE CAA. Mostra uma ateno central ecologia e aos saberes quepercebem a terra como uma Grande Me. Traz um estudo sobre a Ecovila Vraja Dhama, domovimento Hare Krishna, como experincia de uma cultura ecolgica de paz, tentando perceber, dessaforma, as contribuies da Ecovila para a educao ambiental. Como objetivo geral, buscamoscompreender os processos de elaborao, de circulao e de resistncia dos saberes tecidos na Ecovilaque se situa no Murici - Caruaru - PE. A construo do objeto de pesquisa se d a partir dacompreenso desses conhecimentos, suas relaes de ensino-e-aprendizagem, formas de resistncia,partilha e relao com a terra. Epistemologicamente inspira-se em tericos que trazem cosmovisesoutras, como Boaventura de Sousa Santos, Fernando Mamani, Leonardo Boff, Carlos RodriguesBrando, dentre outros. Como concluses iniciais o artigo apresenta que as prticas, vivncias eexperincias na Ecovila Vraja Dhama so alvissareiras em se tratando de uma sensibilidadesocial e ecolgica ampliada dos respectivos membros da comunidade.

    Palavras chaves: Educao Ambiental, Ecovilas, Me Terra, Ecologia.

    INTRODUO

    O presente trabalho faz parte de uma dissertao de mestrado em andamento pelo Programa de Ps

    Graduao em Educao da UFPE CAA. Intenciona socializar uma experincia ecolgica e de

    educao ambiental com efeito multiplicador que est acontecendo em Murici - Caruaru (PE),

    na Ecovila Vraja Dhama do movimento Hare Krishna.

    Para iniciar, gostaramos de trazer reflexes sobre a crise que o planeta se encontra.

    Percebemos desequilbrios ecolgicos, sociais, educacionais, ticos, dentre outros.

    Acreditamos ser importante abordar o assunto para que possamos refletir sobre possibilidades

    de mudanas no mundo, j que, parece insustentvel a atual lgica neoliberal consumista. De

    tal modo, apontaremos alguns dados que demonstram desequilbrios no meio ambiente, para,

    a partir disso, tentarmos contribuir em possibilidades de mudanas: de uma cultura

    individualista para uma cultura cooperativa; de uma cultura consumista para uma cultura de

    partilha, de uma cultura de violncia para uma cultura de paz.(83) 3322.3222

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  • Ao se analisar aspectos da histria da humanidade, encontramos fatos que contriburam para o

    atual momento de desequilbrio e crise. Em nossa percepo, as invases imperiais e o

    surgimento da modernidade representam alguns desses fatos. Segundo Boaventura de Sousa

    Santos (2006), o outro do ocidente assumiu trs formas primordiais: o oriente, o selvagem

    e a natureza. Santos destaca que na dimenso conceitual das invases imperiais h algo que a

    caracteriza: a ideia de inferioridade do outro. Que se transforma num alvo de violncia fsica

    e epistmica. Nesta perspectiva, o oriente visto como civilizao temvel e temida. O

    selvagem se refere ao lugar da inferioridade, diferena incapaz at mesmo de se constituir

    como alteridade: no o outro porque no sequer plenamente humano. Sobre a natureza,

    ela est ali para ser domesticada. (SANTOS, 2006, p. 182-185).

    Aps as descobertas coloniais, houve o advento da revoluo industrial nos pases europeus, o

    que fortaleceu os pressupostos do colonialismo e da modernidade. Segundo Eric Hobsbawm

    (1979), a tica de pensamento desse sistema caracterizou-se pela dominao de toda

    economia, assim como de toda a vida, na procura e acumulao de lucro por parte dos

    capitalistas. (HOBSBAWM, 1979, p. 80).

    Assim, acreditamos que a lgica colonial e os princpios da revoluo industrial e seus

    impactos no planeta desencadearam uma crise. Essa lgica gerou uma conscincia de

    explorao do planeta e dos seres que nele vivem, o que traz consequncias desastrosas para o

    presente e, se no for alterada, para as futuras geraes.

    Aprofundando nos desequilbrios ecolgicos, Leonardo Boff (2004) diz que 42% das florestas

    tropicais j foram destrudas. A pecuria industrial e as plantaes destinadas produo de

    monoculturas, como a soja, provocam o desmatamento em larga escala. Segundo Washington

    Novaes (2010), a destruio das florestas uma das causas centrais da desertificao

    progressiva no mundo, onde esse processo avana razo de mais de 60 mil km2 por ano, 12

    hectares por minuto.

    Neste contexto, este estudo visa perceber alternativas e aes que demonstrem outra tica

    com o planeta. Assim, traz a experincia da Ecovila Vraja Dhama como ponto de reflexo

    para caminhos que sejam sustentveis, ecolgicos e comunitrios, assim como, que possam

    trazer um efeito multiplicador, por meio de prticas de educao ambiental e resistncia.

    O objetivo geral do estudo : compreender os processos de elaborao, circulao e

    resistncia dos saberes tecidos na Ecovila Vraja Dhama, situada no Murici - Caruaru - PE,

    mediante a compreenso dialgica com a terra, com a natureza, possuidora de uma outridade,(83) 3322.3222

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  • de uma sujeitabilidade intrnseca, cujos mistrios vo sendo compartilhados pela

    inteligibilidade sensvel e oniabrangente das prticas ecolgicas. Os especficos so: i)

    sistematizar as principais questes em torno do debate sobre ecologia e Me Terra; e ii)

    descrever as prticas presentes na Ecovila.

    METODOLOGIA

    Na metodologia, objetivando aprender com as vivncias e experincias, assim como

    enriquecer o aprendizado, por meio do encontro da teoria com a realidade, optamos por uma

    pesquisa qualitativa, de modo que os nossos resultados possam contribuir para ampliar o

    conhecimento sobre as questes centrais do estudo. A nossa pesquisa utilizar o Mtodo do

    Caso Alargado. Segundo Boaventura de Sousa Santos (1983), este mtodo foi desenvolvido

    pela antropologia cultural. Para o autor,

    Ele ope generalizao positivista, pela quantidade e pela uniformizao, pelageneralizao pela qualidade e pela exemplaridade. Em vez de fixar a quantidade decasos (observaes) adequada, o mtodo de caso alargado escolhe um caso ou umnmero limitado de casos em que se condensam com particular incidncia os vetoresestruturais mais importantes das economias interacionais dos diferentes participantesnuma dada prtica social setorial. (SANTOS, 1983, p. 11).

    DISCUSSO E RESULTADOS

    Me Terra

    Os povos indgenas vivem e ensinam uma relao com a Terra de maneira orgnica e

    equilibrada, na qual a natureza tambm percebida em sua ontologia, sendo um ser e no

    um objeto inanimado e passivo, um mero ter. Acreditamos que um discurso que representa

    a relao que os povos indgenas tm com a natureza o do Cacique Seattle. Esse discurso

    mundialmente conhecido como a carta do Chefe Seattle. Em 1854, o ento presidente dos

    Estados Unidos, Frankin Pierce, props comprar a terra dos ndios conhecidos como peles-

    vermelhas e, em troca, prometeu outra terra. A resposta do Cacique Seattle considerada uma

    profunda declarao de amor e de relao emptica com a natureza, percebida como uma

    grande Me. O discurso do Cacique Seattle inicia-se da seguinte maneira: Como podes

    comprar ou vender o cu, o calor da terra? Tal ideia nos estranha. Se no somos donos da

    pureza do ar ou do resplendor da gua, como ento podes compr-los?. (disponvel em:

    http://www.ufpa.br/permacultura/carta_cacique.htm).

    Os questionamentos feitos pelo antigo ndio so atuais e nos fazem refletir sobre vrios

    aspectos. Entender que no possvel comercializar o que no nos pertence, como as ddivas(83) 3322.3222

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  • da natureza e a prpria Terra, um passo para mudarmos as formas de nos relacionar uns com

    os outros e com o meio ambiente. Nas palavras do Cacique, tudo vivo e tem um propsito e

    uma complementaridade. Cacique Seattle continua:

    Somos parte da terra e ela parte de ns. As flores perfumadas so nossas irms; ocervo, o cavalo, a grande guia - so nossos irmos. (...) No sei. Nossos modosdiferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homemvermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem quede nada entende. No h sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. (...)O ar precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram emcomum - os animais, as rvores, o homem. O homem branco parece no perceber oar que respira. (...) (Disponvel em:http://www.ufpa.br/permacultura/carta_cacique.htm).

    Carlos Rodrigues Brando (1994) faz uma anlise de diversos documentos e textos indgenas,

    dentre eles a carta do Chefe Seattle. Na perspectiva de Brando, a mensagem do Cacique

    mostra-nos que tudo o que h na Terra no uma posse, uma propriedade, mas, sim, um dom

    e, portanto, no pode ser objeto de troca comercial. A Terra sagrada porque o lugar da

    ddiva, do que gratuito e dado a todos(as), sob condio de no ser possuda

    individualmente e utilitariamente por ningum. Dessa forma, dissolve a dualidade entre a

    natureza e a sociedade e se estabelece uma continuidade por meio de trocas de parte a parte.

    (BRANDO, 1994, p.25-27).

    Brando tem razo em sua anlise, j que a epistemologia indgena no discurso do chefe

    Seattle demonstra que a nsia pelo acmulo e pelo ato de possuir no faz parte desta filosofia.

    Pelo contrrio, ao invs do apego ao meu, a ideia o relacionamento, a troca, onde tudo

    de todos(as) e, ainda assim, ningum faz questo da posse, j que a percepo da ddiva e da

    gratido. Acreditamos que o discurso do chefe Seattle demonstra uma percepo ecolgica

    fundamental para uma nova relao com o meio ambiente. Pode contribuir para transformar a

    lgica do sistema capitalista e de suas diversas empresas multinacionais, poluentes,

    mineradoras, assim como o modelo da agropecuria industrial que tanto destroem e

    desrespeitam a natureza. Cacique Seattle traz a simplicidade e a sacralidade da vida e nos

    convida para esse modo de viver: De uma coisa sabemos. A terra no pertence ao homem:

    o homem que pertence terra, disso temos certeza.

    Em convergncia com esse pensamento, Josef Estermann (2006), a partir de uma trajetria

    com os povos indgenas andinos, apresenta conceitos filosficos dos saberes ancestrais desses

    povos e aborda sobre a Pachamama: Pachamama es la fuente principal de vida [...] Segn

    el runa/jaqi, la pachamama vive; es un ser vivo orgnico que tiene sed (), que da

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  • recprocamente. La naturaleza (pachamama) es un organismo vivo, y el ser humano es, en

    cierta medida, su criatura que hay que amamantar (...) (ESTERMAN, 2006, p. 192-193).

    A percepo andina da Pachamama traz um conceito de que a natureza, ao invs de ser um

    objeto a ser dominado, uma grande Me, um grande organismo vivo e orgnico. Essa viso

    compreende a Terra como base de toda a vida - Pachamama (Madre Tierra). Sendo assim, o

    ser humano visto como um ser dentro de uma grande teia de relaes, na qual ele(a) coopera

    para manuteno da vida, para ajudar a garantir o equilbrio csmico. Pachamama tambm se

    relaciona aos ciclos sagrados do feminino, o ciclo das guas, o ciclo da mulher, o ciclo da lua

    que, nessa cosmoviso, harmonizam-se para uma convivncia comunitria.

    Percebemos que as mensagens do Cacique Seattle e do conceito andino de Pachamama

    trazem muitas semelhanas, como a questo da interdependncia, da teia de relaes e

    reciprocidade entre todos os seres e o meio ambiente, que vivo. Assim como a relao

    cclica com as foras da natureza e a percepo de uma irmandade universal. Na perspectiva

    de Brando: Assim como o ar que se retm dentro do corpo mata e s vivifica o ar que se

    troca sem cessar com o mundo, assim tambm a mesma metfora vale para a ordem de todas

    as relaes (BRANDO, 1994, p.32).

    Neste sentido, Mamani (2010) ressalta que em 22 de abril de 2009, a Organizao das Naes

    Unidas (ONU) acolheu a iniciativa impulsionada pela delegao boliviana e a declarou o dia

    internacional da Me Terra, projetando uma nova conscincia de que o mundo no somente

    um planeta, muito menos matria inerte, mas, sim, nossa Me (Pachamama).. Segundo a

    cosmoviso indgena andina: Todos y todo somos parte de la Madre Tierra y de la vida, de la

    realidad, todos dependemos de todos, todos nos complementamos(MAMANI, 2010, p. 22).

    Ecologia

    Os princpios ecolgicos que fundamentam a ecologia so baseados em saberes milenares e

    ancestrais que trazem ensinamentos de profunda relao e respeito com o nosso "oikos"

    (origem da palavra ecologia), que significa casa: em sentido amplo, nossa casa como o

    prprio mundo. Neste contexto, Carlos Walter Porto Gonalves (2014) afirma que o

    pensamento ecolgico traz outras formas de pensar, sentir e agir diferentes do sistema

    hegemnico. O autor ressalta que a viso ecolgica antiga. Todavia, acrescenta que esses

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  • pensamentos foram sufocados e silenciados, como o caso das formulaes dos chamados

    filsofos pr-socrticos. Conclui dizendo que os pr-socrticos falavam de um conceito de

    physis, no qual a natureza concebida muito prxima de como redescoberta atualmente pela

    ecologia (PORTO GONALVES, 2014, p. 8).

    Leonardo Boff salienta que: Ecologia relao, inter-relao e dialogao de todas as coisas

    existentes (viventes ou no) entre si e com tudo o que existe, real ou potencial. A ecologia no

    te a ver apenas com a natureza (ecologia natural), mas principalmente com a sociedade e a

    cultura (BOFF, 1993 p.15).

    Boff tem razo em sua reflexo, pois a percepo ecolgica fundamenta-se em uma

    coexistncia, assim como um crculo de relaes. Ao reafirmar a interdependncia entre todos

    os seres, a ecologia funcionaliza as hierarquias e, dessa maneira, todos os seres, por menores

    que sejam, possuem sua importncia e funo. Nada suprfluo ou marginal. Boff chama a

    ateno para a questo ecolgica, que remete a um novo nvel de conscincia mundial: a

    importncia de terra como um todo, o bem comum como bem das pessoas, das sociedades e

    do conjunto dos seres da natureza (BOFF, 1993, p.15).

    Atualmente, existem algumas prticas que, fundamentadas nesses conceitos, trazem diversas

    alternativas ambientais em nveis macro e micro. Como exemplos, temos a permacultura. Esse

    conceito foi criado na dcada de 1970 por dois australianos (Bill Mollison e David

    Holmgren). uma reunio dos conhecimentos de sociedades ancestrais e tcnicas atuais, que

    proporcionam alternativas inovadoras ligadas sustentabilidade. O objetivo criar uma

    cultura permanente, baseada na cooperao e reciprocidade entre os seres humanos e a

    natureza. Segundo Marsha Hanzi, a mensagem da permacultura a seguinte:

    Resgatar e amar um pedao da Me Terra muito mais profundo do quesimplesmente criar sistemas para manter vivo o nosso corpo fsico: o resgateprofundo da relao do homem com a natureza, de substituir o tempo de relgio -nossa escravido - por ritmos. Tempo de caju, tempo de manga. O levantar e pr dosol. A lua minguando e crescendo... E percebemos que, de fato, precisamos deMUITO POUCO para sentir a felicidade; que a integrao com a beleza natural uma fonte de satisfao mais profunda e serena do que grandes conquistas no mundourbano (HANZI, 2008, p.9).

    A Ecovila

    Em 1998, as Ecovilas foram nomeadas oficialmente na lista da ONU como uma das cem

    melhores prticas para o desenvolvimento sustentvel. Em 1995, na conferncia Ecovilas e

    Comunidades Sustentveis - modelos de vida no Sculo XXI, foi estabelecida a Rede Global

    de Ecovilas GEN. Segundo Thomas Enlazador, com o objetivo de criar e apresentar ao(83) 3322.3222

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  • mundo exemplos do que significa viver em harmonia com a natureza, a rede GEN tenta

    promover o desenvolvimento de comunidades, para a implementao de atividades que

    integrem o ser humano ao meio natural. Para o autor, a ideia favorecer o envolvimento

    humano sustentvel, perpetuando assim, por meio de geraes, uma nova cultura de ocupao

    humana - ecologizada, de paz e solidria (ENLAZADOR, 2009, p.182)

    Outro aspecto destacado por Enlazador que as Ecovilas englobam tipicamente quatro

    dimenses: a social, a ecolgica, a cultural e a espiritual. O objetivo que as pessoas possam

    redescobrir as relaes saudveis e sustentveis consigo mesmas, a sociedade e a terra. O

    autor cita algumas prticas presentes nas Ecovilas: Produo local e orgnica de alimentos;

    utilizao de sistemas de energias renovveis; Bioconstruo ou arquitetura sustentvel;

    diversidade cultural e espiritual; governana circular e empoderamento mtuo, economia

    solidria (...) (ENLAZADOR, 2009, p.185).

    Neste sentido, trazemos agora a Ecovila Vraja Dhama, do movimento Hare Krishna, como

    um estudo de caso para trazer experincias que busquem equilbrio com o planeta. Em um

    breve histrico, destacamos que os integrantes do movimento Hare Krishna, liderados por um

    membro de nome Jagad Vicitra Prabhu, iniciaram o processo de compra das terras em 1986.

    Em 1987 houve a inaugurao formal da comunidade. A Ecovila Vraja Dhama faz parte da

    ISKCON N-NE (Sociedade Internacional para a Conscincia de Krishna) que possui

    certificado de utilidade pblica expedido pela cmara dos vereadores do Municpio de

    Caruaru.

    (Ecovila Vraja dhama) (Plantao orgnica na Ecovila)

    Atualmente, a Ecovila conta, como instrumento de planejamento, com o Plano de

    Desenvolvimento Sustentvel (PDS) que visa estabelecer e fortalecer os princpios da(83) 3322.3222

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  • administrao cientfica, pautada no cuidado s pessoas, horizontalidade e comunicao no

    violenta. O PDS fundamentado nos cinco pilares abaixo: 1- Cultura de Paz (Cooperao

    mtua); 2 - Esprito Dasanudasa (expresso snscrita que significa: servo do servo); 3-

    Comportamento de Amor e Confiana (atitude psicossocial); 4- Compaixo por todas as

    entidades vivas (Esprito Missionrio); 5- Modo Da Bondade (Atitude Pr-Ativa interna e

    externamente).

    A Ecovila tem vinte moradores, entre adultos e crianas, e todos(as) buscam o equilbrio entre

    a vida na sociedade secular com as prticas milenares do Yoga1 e da meditao. Segundo

    os(as) residentes, a prtica de Yoga do movimento Hare Krishna chamada Bhakti Yoga. Essa

    Bhakti descrita como energia de amor, j que, segundo os(as) moradores, no podemos falar

    de amor sem a noo de servir. Quando uma pessoa desenvolve amor por outra, ela quer o

    melhor para outra, quer servir sem exigir nada em troca. Essa a mentalidade presente na

    prtica de Bhakti Yoga.

    Neste esprito do servir, a Ecovila desenvolve projetos que objetivam a cooperao,

    solidariedade, partilha e o envolvimento com os diversos moradores(as) da regio. Um dos

    projetos o Viva o Campo, que tem como objetivo geral - partilhar os saberes do campo, seus

    sentidos, ensinamentos e vivncias a partir do lcus de enunciao dos prprios

    moradores(as) locais e, assim, promover uma cultura de paz, por meio da arte do ensinamento

    campesino de que: na arte do viver o campo, no existem apenas os nossos interesses e

    necessidades, mas os interesses de todos(as). Os saberes para viver no campo so construdos

    no contato com a terra. Aprendendo a plantar e a colher, ensina-se a maneira de relacionar

    com a natureza e com as pessoas.

    Alguns objetivos especficos so: promover a experincia de atividades prticas ligadas ao

    campo para todos os interessados(as); Difundir os valores, a cultura e a sabedoria ligadas ao

    meio rural para as pessoas da prpria comunidade, da vizinhana e da sociedade em geral

    como forma de valorizao do campo; fomentar o desenvolvimento de atividades econmicas

    solidrias; valorizar e reconhecer a mulher e seus saberes campesinos, sendo um ponto de

    cuidado da mulher no campo; contribuir com a agricultura orgnica local.

    1 Termo em Sanscrito que significa unio. Yoga relaciona-se diversas prticas que visam o autoconhecimento ea autorrealizao para que a pessoa possa atuar no mundo imbuda de compaixo, gentileza, cooperao, etc.(83) 3322.3222

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  • (Economia solidria) (Vivncias de plantio)

    Outro projeto da Ecovila a Associao Cultural Educao pela Arte de Servir (ACseva) que

    tem como objetivos principais: I - Contribuir para fortalecer o trip: educao - ecologia -

    comunidade; II - Auxiliar na educao, por meio de reforo escolar, cursos de educao

    ambiental, assim como trabalhos com arte-educao. III - Promoo, conservao, divulgao

    do saber cultural local.

    A A.C.seva iniciou os seus trabalhos em 2013. No mesmo ano, elaborou um projeto que

    se transformou em um projeto de extenso da UFPE CAA: Curso de Formao de Jovens

    Arte Educadores - O efeito multiplicador. Tal projeto coordenado pelo professor

    Dr. Everaldo Fernandes e pelo morador da Ecovila Prema Sindhu Das. Ento a A.C.seva e

    a Ecovila Vraja Dhama formalizaram uma parceria com a UFPE, a Escola Professora Maria

    de Bezerra e a Igreja Catlica Nossa Senhora da Paz do Murici. Na inaugurao,

    representantes de cada instituio fizeram uma bonita festa na Igreja Catlica mostrando a

    importncia da unio para acreditarmos que o amor pode superar qualquer forma

    de preconceito. O projeto marco de dilogo inter-religioso e oferece aulas de yoga dentro da

    Igreja.

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  • (Inaugurao: Hare Krishnas e Catlicos juntos) (Aula de Yoga para crianas ma Igreja)

    No total, aconteceram 13 oficinas com carga horaria de 52 hs. As oficinas foram: Linguagem

    corporal; Jud; Yoga; Terapia Comunitria; Msica, Corporeidade; Relacionamentos

    Humanos; Dinmicas de Grupo; Construo de Instrumentos; Teatro; Dana; Capoeira de

    Angola e Educao Ambiental. Em dezembro de 2014, quarenta e quatro jovens receberam

    seus certificados na UFPE.

    Em 2015, a ACseva escreveu um projeto para o Fundo Scio Ambiental Casa e conseguiu

    captao de recursos para um projeto de energia solar na Ecovila Vraja Dhama. O ttulo do

    Projeto : Cuidando do planeta e multiplicando esta ideia. O projeto criou um sistema de

    energia solar na regio para valorizar o homem e a mulher do campo. Essas aes

    contriburam para novas formas de produo de energia, atravs de tecnologias sociais limpas

    e renovveis e est multiplicando esses saberes e tecnologias sociais. Foram colocados na

    Ecovila e em casas de agricultores(as) da regio dois tipos de energia solar: Trmica, com o

    Aquecedor solar de Baixo Custo ASBC (para aquecimento) e Fotovoltaicos (para energia

    eltrica).

    (Placas Fotovolticas na Ecovila Vraja Dhama) (ASBC na casa de um agricultor da regio)

    No que se refere ao ASBC, destaca-se que a famlia que dispe de um em sua residncia, no

    somente economiza energia todo ms como tambm desfruta de uma melhoria na qualidade

    de vida. Pode-se dizer que uma maneira de pensar globalmente e agir localmente,

    contribuindo para o desenvolvimento sustentvel j que: admitindo que cada Kwh que deixa

    de ser consumido no chuveiro eltrico leva reduo de emisso de aproximadamente 0,6 Kg

    de CO2, advindos principalmente das termoeltricas acionadas a gs natural, pode-se afirmar

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  • que isto corresponde a uma reduo de emisses de CO2 de (903 Kwh x 0,6 Kg de CO2) =

    541 Kg por famlia usuria.

    Outra vivncia que fez parte do projeto foi crculo do sagrado feminino objetivando valorizar

    e reconhecer a mulher e seus saberes campesinos. Assim, criou-se um circulo de mulheres que

    abordou diversas questes relacionadas ao empoderamento feminino, saberes das mulheres do

    campo, lei Maria da Penha, etc.

    CONCLUSO:

    As prticas, vivncias e experincias na Ecovila Vraja Dhama so alvissareiras em se tratando

    de uma sensibilidade social e ecolgica ampliada. uma maneira de demonstrar que outros

    caminhos, pautas na sustentabilidade, equilbrio, no violncia e cooperao so possveis e

    viveis. Traz tambm uma reflexo no interior de nossos coraes, para um (re)pensar nossa

    relao com a natureza.

    Neste sentido, Promove o dilogo envolvendo ecologia, cultura de paz, sustentabilidade e

    educao ambiental na sociedade contempornea. Dessa forma, pensar em como essas

    experincias ecolgicas que esto presentes em diversas partes do mundo possam ser

    conhecidas, inteligveis umas as outras, em uma grande rede de aes e partilha uma

    interessante reflexo para o Sec. XXI. Essa partilha de experincias ecolgicas pelo mundo

    inclui a comunidade escolar. Acreditamos que essas experincias possam contribuir

    significativamente para que as escolas e universidades tenham uma viso ampla sobre

    possibilidades de aproveitamento dos recursos naturais, por meio de tecnologias sociais, assim

    como na conscientizao da preservao do meio ambiente, a manuteno do

    desenvolvimento urbano orgnico em equilbrio com a economia local.

    REFERNCIAS

    BOFF, Leonardo. Ecologia Mundializao Espiritualidade. So Paulo: tica S.A., 1993.

    BOFF, Leonardo. Ecologia: Grito da Terra Grito dos Pobres. RJ: Sextante, 2004.

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