Microsoft Word - LITERATURAS_AFRICANAS_E_AFRO_BRASILEIRAS_TEXTO

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Projeto LEAFRO Laboratório de Cultura e Estudos Afro-Brasileiros A importância da literatura e das artes plásticas no contexto da cultura angolana 1 Curso de Formação Continuada em Relações Étnico- Raciais e Cultura Afro -Brasileira Para Rede Estadual de Ensino 2010/ 4º Encontro LITERATURAS AFRICANAS E AFRO BRASILEIRAS 1 1. Algumas considerações sobre as literaturas e as demais expressões artísticas e m África 2 O objetivo deste texto consiste em lançar um olhar sobre as Literaturas e as demais expressões artísticas em África a partir do levantamento de uma série de informações e bibliografias que poderão auxiliar o profissional da educação em pesquisas acerca das expressões artísticas no continente africano. É importante ponderar que não se trata de um trabalho acabado, e sim o início de uma pesquisa complexa e inesgotável. As literaturas e as artes africanas ainda são pouco divulgadas e cabe aos profissionais da educação inclinados à temática conhecer e buscar a compreensão de alguns elementos reveladores das manifestações artísticas africanas, e conseqüentemente compreender melhor a própria cultura brasileira. No fragmento a seguir, a professora Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco discorre sobre a inserção da literatura e das artes plásticas no contexto angolano, mas que pode até certo ponto ser estendido a mais de um país do continente: A literatura e a pintura se inserem no domínio das artes. Suas linguagens, portanto, não são referenciais, encontrando-se na esfera dos discursos metafóricos. Sendo espaços artísticos, são lugares privilegiados, locais tanto de fruição estética, como de projeção identitária. Assim, ao estudar a literatura e a pintura angolanas, é importante que os valores artísticos dialoguem sempre e estejam em constante interação com os substratos culturais implícitos na dimensão simbólica e alegórica da linguagem literária pictórica. Tanto a literatura como as artes plásticas de um país se acham, desse modo, estreitamente ligadas a seus de enunciação. Por conseguinte, fatores geográficos, históricos, culturais, antropológicos, étnicos, econômicos, políticos, perpassam os discursos artísticos, estando em íntima correlação com as estruturas sócio-culturais. Os “saberes locais” podem, desse modo, ser apreendidos tanto nas malhas metafóricas dos textos literários, como nas metáforas cromáticas presentes na pintura 3 . Quando entramos em contato com as manifestações artísticas do continente africano é necessário levarmos em consideração uma multiplicidade elementos e representações, pois, pensar a arte num continente é pensar em vários universos que possuem seus símbolos, suas crenças, suas línguas e incontáveis peculiaridades. Assim sendo, primeiramente procurou-se fazer um levantamento de algumas 1 Este texto faz parte do material didático desenvolvido pelo LEAFRO para os cursos de Formação Continuada em Relações Etnicorracias e Cultura Afro-Brasileira para a Rede Estadual de Ensino NRE 4º Encontro. 2 Autora: Eliza Pratavieira, graduanda em Letras Vernáculas e Clássicas (Habilitação Bacharelado em Estudos Literários. 3 SECCO, Carmen L. T. Ribeiro; . Disponível em 14/09/10 http://www.letras.ufrj.br/posverna/docentes/62671-1.pdf
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Projeto LEAFRO Laboratrio de Cultura e Estudos Afro -Brasileiros

Curso de F ormao Continuada em Relaes tnico-Racia is e Cultura Afro -Brasileira P ara Rede Estadual de Ensino 2010/ 4 Encontro

LITERATURAS AF RICANAS E AFRO BRASILEIRAS1

1. Algumas consideraes sobre as literaturas e as demais expresses artsticas em frica2

O objetivo deste texto consiste em lanar um olhar sobre as Literaturas e as demais expresses artsticas em frica a partir do levantamento de uma srie de informaes e bibliografias que podero auxiliar o profissional da educao em pesquisas acerca das expresses artsticas no continente africano. importante ponderar que no se trata de um trabalho acabado, e sim o incio de uma pesquisa

complexa e inesgotvel.As literaturas e as artes africanas ainda so pouco divulgadas e cabe aos profissionais da educao inclinados temtica conhecer e buscar a compreenso de alguns elementos reveladores das manifestaes artsticas africanas, e conseqentemente compreender melhor a prpria cultura brasileira. No fragmento a seguir, a professora Carmen Lucia Tind Ribeiro Secco discorre sobre a insero da literatura e das artes plsticas no contexto angolano, mas que pode at certo ponto ser estendido a mais de um pas do

continente:A literatura e a pintura se inserem no domnio das artes. Suas linguagens, portanto, no so referenciais, encontrando -se na esfera dos discursos metafricos. Sendo espaos artsticos, so lugares privilegiados, locais tanto de fruio esttica, como de projeo identitria. Assim, ao estudar a literatura e a pintura angolanas, importante que os valores artsticos dialoguem sempre e estejam em constante interao com os substratos culturais implcitos na dimenso simblica e alegrica da linguagem literria pictrica. Tanto a literatura como as artes plsticas de um pas se acham, desse modo, estreitamente ligadas a seus de enunciao. Por conseguinte, fatores geogrficos, histricos, culturais, antropolgicos, tnicos, econmicos, polticos, perpassam os discursos artsticos, estando em ntima correlao com as estruturas scio -culturais. Os saberes locais podem, desse modo, ser apreendidos tanto nas malhas metafricas dos textos literrios, como nas metforas cromticas presentes na pintura3.

Quando entramos em contato com as manifestaes artsticas do continente africano necessrio levarmos em considerao uma multiplicidade elementos e representaes, pois, pensar a arte num continente pensar em vrios universos que possuem seus smbolos, suas crenas, suas lnguas e incontveis peculiaridades. Assim sendo, primeiramente procurou -se fazer um levantamento de algumas1

Este texto faz parte do material didtico desenvolvido pelo LEAFRO para os cursos de Formao Continuada em Relaes Etnicorracias e Cultura Afro-Brasileira para a Rede Estadual de Ensino NRE 4 Encontro. 2 Autora: Eliza Pratavieira, graduanda em Letras Vernculas e Clssicas (Habilitao Bacharelado em Estudos Literrios. 3 SECCO, Carmen L. T. Ribeiro; A importncia da literatura e das artes plsticas no contexto da cultura angolana . Disponvel em 14/09/10 http://www.letras.ufrj.br/posverna/docentes/62671 -1.pdf

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caractersticas comuns a essas manifestaes e posteriormente a exposio de alguns autores para

instrumentalizar a pesquisa do professor a respeito desta temtica.

1.1 A literatura africana de expresso portuguesa

O que se convencionou definir por frica Lusfona o conjunto dos cinco pases (Cabo Verde, So Tom e Prncipe, Guin Bissau, Angola e Moambique) localizados no continente africano que passaram por um processo de colonizao europia-portuguesa e que tem como lngua oficial o portugus. Na literatura africana escrita na lngua colonial seja a francesa, a inglesa ou a portuguesa

tem-se a fuso de elementos da tradio ancestral com elementos da cultura do antigo colonizador. O mesmoocorre com as artes plsticas, a msica e o teatro. Ento quando estamos diante de uma obra literria (ou de outra linguagem) importante lembrarmos que se trata uma manifestao autnoma, porm no genuna,

assim como nas Amricas Anglo, Hispnica e Lusfona. Por exemplo, impossvel pensar numa arte genuinamente brasileira sem as influncias indgenas, africanas e europias.

Nos estudos culturais, a literatura africana de lngua colonial (po

u francs)

pode ser vinculada aos estudos das minorias tnicas e ps- coloniais. O termo minorias tnicas refere-se a grupos distintos dentro de um determinado estado que p suas peculiaridades culturais e/ou raciais que

sofre algum tipo de discriminao. O termo ps- colonial refere-se s conseqncias histricas, polticas,filosficas, artsticas, e literrias causadas pelos processos de colonizao. No possvel pensar em literaturas africanas desvinculadas desses conceitos. Quando falamos das expresses literrias de frica falamos de uma expresso mltipla, envolta das peculiaridades geogrficas de territrios e de etnias que compe a populao dos diferentes processos de colonizao com

suas lnguas e dialetos, at mesmo dentro do contexto lusfono existem diferenas significativas. possvel caracterizar a literatura africana como literatura-processo, pois est diretamente relacionada aos processos de independncia ocorridos no decorrer do sculo XX e a reconstituio de uma identidade estraalhada pelos sculos de colonizao e dcadas de guerra civil. A literatura aqui um elemento de libertao como aponta o professor Corra:Uma vez que se prope um estudo sobre o processo de nacionalizao da literatura, interessante notar a participao da literatura como canal de protesto e reivindicao social e a chamada feita aos literatos para a construo das naes, que ajudaram a libertar com palavras e/ou armas. Entre os escritores aqui mencionados e a mencionar h presidentes, ministros, conselheiros, diretores, administradores, mdicos, engenheiros, advogados, enfim homens e mulheres responsveis pela libertao, e desenvolvimento destas cinco naes africanas. [...] Esta elite, aculturada em sua maioria, teve acesso aos meios de formao cultural europeus, distanciando -se do grupo local. Entretanto, embora passveis de um processo de reafricanao [...]. Essas vozes expressaram com firmeza as reivindicaes rcico -sociais das populaes locais. (CORREA, 1990, p. 183 -184)

O primeiro ponto de convergncia entre estas literaturas est relacionado lngua. A questo da lngua nos pases da frica lusfona uma questo a ser pensada, pois, parte da populao no tem

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acesso lngua oficial, e muitas vezes a repercusso de determinados livro s maior em Portugal e no Brasil doque no pas de origem. Nesse sentido, uma literatura que existe para o outro e no para si o que fomenta

polmicas e embates entre os estudiosos da literatura africana.

1.1 a) A frica Lusfona: algumas consideraes .

M oambique .

O nico pas lusfono que fica localizado no lado oriental do continente. Os portugueses utilizavam este espao como porto de parada e por isso o processo de colonizao foi menos agressivo

Possui cerca de dez grupos tnicos e quatro lnguas em circulao alm do portugus. A principal atividadeeconmica do pas exportao de mo de obra para minas sul-africanas. O seu povo possui traos de forte represso cultural social cultura de assimilao da lngua e dos costumes do colonizador. Entre as etnias, havia pouca troca de informaes o que facilitou a instaurao do portugus como instrumento de comunicao. O pas conquistou a independncia em 1975 aps uma guerra de 10 anos. Na literatura, os principais autores de Moambique so : Mia Couto, Jos Craveirinha, Albino Magaia, Eusbio Sanjane, Paulina Chiziane, Eduardo White, Gulamo Khan, Reinaldo Ferreira e Loureno Marques. O nome mais conhecido da literatura moambicana Mia Couto. No livro Contos do nascer da Terra (1997), assim como em outros trabalhos do autor percebe-se que a construo do texto feita atravs de construes imagticas que remetem a da cultura ancestral moambicana. As

narrativas so carregadas mistrios, sentidos ambguo s ou fantstico s, e, isto abre um leque de possibilidades na compreenso. Como por exemplo, no conto O ultimo vo do tucano , trata-se de uma mulher grvida, a

seguir um trecho do poema: Ela estava grvida, em meio de gestao. Faltavam dois meses para ela se proceder afonte. O que fazia, nessa demora? Deitava -se de ventre para baixo e ficava ali, imvel, quase se arriscando a coisa. Que fazia ela assim, barriga na barriga do mundo?.

O desejo da me que o filho fosse da terra. O sentido da terra fica ambguo no conto, visto que, ao mesmo tempo em que pode ser a terra-cho e simbolizar a imobilidade, a morte e a fecundidade, pode tambm, ser a terra-mundo e significar o vasto, a multiplicidade e a mobilidade:Ensino o futuro menino a ser da terra, estou -lhe a dar ps de longe. Ela queria a viagem para seu filho. O pai sorria, por desculpa aos deuses. E ficava a coar o tempo, fazendo promessas logo -logo arrependidas: Amanh ou quem sabe depois? Desentretanto, nada acontecia. [...] .

Ao sentir a proximidade do parto, a mulher pede ao marido que o ritual de nascimento da criana seja semelhante ao dos pssaros, neste momento do conto h uma contraposio com o smbolo da

terra, pois, ela quer que a criana venha ao mundo como os pssaros, como os tucanos:Nessa noite, ele contou as estrelas. A angstia lhe enxotava o sono. Fazer como os tucanos? Somos aves, agora? Como recusar, porm, sem chamar desgraas? Assim, no

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dia seguinte, ele deu incio loucura. Comeou a fechar a casa com paus, matopes, gua e areias. A casa foi ficando com mais paredes que lados. Tapadas foram as portas, fechadas as janelas. Deixou s uma pequena abertura e voltou a juntar-se esposa.

O marido, mesmo achando estranho faz a vontade da esposa, sede ao isolamento dela e espera do lado de fora da casa durante alguns dias:Ele longe no foi. Ficou atento, prximo, caso a necessidade. Esperou um dia, dois, muitos. Nada, nem um choro a confirmar o nascimento. At que se determinou fazer valer sua dvida. Chamou por ela, quase a medo. Tivessem morrido me e filho, ao desumbigarem-se. J ele se decidia a arrombar o esconderijo quando dentro do escuro se vislumbrou o aceno de um pano. A mulher estava viva. Logo, acorreu ele ansioso: A criana? - A criana, o qu? Ele no soube juntar mais pergunta. Quem mais se engasga quem no come. A mulher, simples, disse que o menino estava que at Deus se haveria de espantar. Que ela precisava ficar ainda uns tempos assim, no choco, na quenteao do ninho para dar despacho ao crescer da vida.(COUTO, 1997, p.59)

Num momento de aflio, o marido pede novamente para ver a criana, e a esposa lhe mostra um pssaro, que voa pela janela. No conto ha a ambigidade: a mulher deu a luz a um pssaro ou se a criana nasceu morta. Em nenhum momento isso se esclarece.E recolheu a ddiva, se deleitando com esse consolo. Ficou experimentando a ausncia de peso daquele volume. To leve era o objecto que no havia fora que o suportasse. O embrulho lhe tombou das mos e se espalmilhou na areia. Foi quando, de dentro dos panos, se soltou um pssaro, muito verdadeiro. Levanto voo, desajeitoso, aos encontres com nada. (COUTO, 1997)

As dualidades terra-cu / vida-morte / ficar -partir / liberdade-aprisionamento so evidentes no conto e elas podem ser relacionadas com alguns elementos contraditrios de Moambique, como por exemplo, a tentativa de criar uma identidade, mesmo com a influncia constante do colonizador, ou busca da libertao poltica do pas, em contraposio as conseqncias de sculos de aprisionamento.

Este um olhar sobre o conto, claro, outras possibilidades existem, e cabe ao leitor cri-las.

Angola .

Localizada na costa ocidental da frica cuja populao composta por trs grupos tnicos e trs idiomas em circulao alm do Portugus. Estado colonial do sc. XV a 1975, esteve em guerra constante de 1961 at 2002. As principais atividades so: a agricultura, a extrao de petrleo e diamante. Os principais autores da literatura de Angola so Adriano Botelho de Vasconcelos,

Agostinho Neto, Ana Paula Ribeiro Tavares, Antnio Jacinto, Arlindo Barbeitos, Henrique Abranches,Isabel Ferreira, Joo Melo, Jos Eduardo Agualusa, Jos Luandino Vieira, Kardo Bestilo, Lus Filipe Guimares da Mota Veiga, Ondjaki, Paulo de Carvalho, Pepetela, Uanhenga Xitu, Vctor Kajibanga e Viriato Clemente da Cruz.

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No acervo da biblioteca da Universidade Estadual de Londrina h um nmero razovel de exemplares de autores angolanos. Como indicao, a seguir uma anlise do poema Mukai de Paula Tavares (1999, p.30), onde a questo feminina representada:

1Corpo j lavrado eqidistante da semente trigo joio milho hbrido massambala resiste ao tempo dobrado exausto sob o sol que lhe espiga a cabeleira.

Mukai significa mulher. Aqui temos a comparao da figura feminina com a fertilidade da terra, umaanalogia recorrente na literatura. No poema a figura masculina tratada como semeador. O gerar, o parir, tratado como algo sagrado, quase mtico, e que pode se retirado da mulher caso no exista a figura

masculina: 3Um soluo quieto

desce a lentssma garganta (ri-lhe as entranhas um novo pedao de vida) os cordes do tempo atravessam-lhe as pernas e fazem a ligao terra.Estranha rvore de filhos

uns mortos e tantos por morrer que de corpo ao alto navega de tristeza as horas

Com a ausncia da figura masculina, smbolos da esterilidade, morte, desesperana tomam conta do poema: 4O risco na pele acende a noite

enquanto a lua (por ironia ilumina o esgoto anuncia o canto dos gatos) De quantos partos se vive para quantos parto s se morre um rito espera-se faca na garganta da noite recortada sobre o tempo pintada de cicatrizes olhos secos de lgrimas

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Domingo, organiza a cerveja de sobreviver os dias.

Cabo Verde.

um pas constitudo pelo conjunto de dez ilhas e de terras irregulveis. A propriedade deterra concentrada principal na atividade agrcola. H altos ndices de emigrao, sobretudo para os Estados Unidos, Portugal, Pases Baixos, Angola, Senegal e Brasil. A populao miscigenada principalmente pela mistura de portugueses e guineenses. Foi colnia de Portugal do sc. XV at 1975.

Alguns nomes da literatura caboverdiana so: Eugnio Tavares, B.Lza, Baltasar Lopes daSilva, Jos Lopes, Pedro Cardoso, Manuel Lopes, Antnio Nunes, Aguinaldo Fonseca, Teobaldo Virgnio, Gabriel Mariano, Ovdio Martins, Onsimo Silveira, Vadinho Velhinho, Jos Lus Tavares, Vera Duarte, Gabriel Mariano, Amlcar Cabral, Arthur Vieira, Pedro Cardoso, Jos Lopes, Mrio Jos Domingues, Daniel Filipe, Mrio Alberto Fonseca de Almeida, Corsino Antnio Fortes, Arnaldo Carlos de Vasconcelos Frana, Antnio Aurlio Gonalves, Aguinaldo Brito Fonseca, Ovdio de Sousa Martins, Henrique Teixeira de Sousa, Osvaldo Osrio, Dulce Almada Duarte, Filinto Elsio e Manuel Veiga. Como exemplo, ser analisado o poema A garrafa4 de Manuel Lopes, um autor de significativa representao no e do pas. Suas obras no se limitam poesia e tem uma obra em prosa muito consolidada. Segue os primeiros versos do poema:Que importa o caminho/da garrafa que atirei ao mar?/Que importa o gesto que a colheu?/Que importa a mo que a tocou/ se foi a criana/ou o ladro/ ou filsofo/quem libertou a sua mensagem/e a leu para si ou para os outros. Que se destrua contra os recifes/eu role no areal infindvel/ou volte s minhas mos/na mesma praia erma donde a lancei/ou jamais seja vista por olhos humanos/que importa?

A ilha representada como smbolo de isolamento e priso o que referenda os fluxos de

emigrao citados a acima. O indivduo se sente aprisionado na ilha e por isso se vai. No poema, no existe apossibilidade de libertao, neste caso o eu - lrico se contenta em atirar as garrafas no mar, como uma

compensao da sua imobilidade: [...] se s de atir-la s ondas vagabundas/libertei meu destino/da suapriso?[...].

Gin B issau .

De p lancies martimas, semipantanosas e de clima quente e mido, propcio para culturas de arroz e amendoim. A geografia do territrio de Guin foi decisiva para a vitria da guerrilha contra as tropas coloniais. Existem cerca de 20 grupos tnicos diferentes e cerca de aproximadamente 500 lnguas

diferente. Alguns nomes da literatura so Vasco Cabral, Antnio Batic Ferreira, Amilcar Cabral, AgneloRegalla, Antnio Soares Lopes (Tony Tcheca), Jos Carlos Schwartz, Helder Proena, Francisco Conduto de

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BARBOSA, Rogrio Andrade. No ritmo dos tants; antologia potica dos pases africanos de lngua portuguesa; Braslia: Thesaurus, 1991. 165 p.

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Pina e Flix Sig. A voz escolhida para representar a teratura de Guin Bissau foi Francisco Conduto de Pina, com o poema Criana5:Qual luz do sol que brilha pela manh es tu inocente ser que apenas queres brincar No sabes odiar, no sabes desprezar s queres criancinha, amigo arranjar na tua inocencia, na tua espontaneidade dizes o que ouves, p'ra um bom amigo cativar. Tens Me, tens Pai mas pertences a todos

tal como aquelas sem Me e sem Pai Flor de um jardim que a todos encanta embora seja s o jardineiro a reg-la.

O elemento mais significativo deste poema pode ser a sua ligao com a tradio oral, a presena desta forma de construo poemtica remete a uma cantiga de ninar, ou aos versos que so tradicionalmente ensinado s crianas. possvel at mesmo aproxim-lo cantiga brasileira Ciranda

Cirandinha. A construo esttica e o tom so semelhantes.

So Tom e P rncipe .

So duas ilhas cujas atividades econmicas so a pesca, o cultivo de cacau e dend. So Tom e Prncipe foi um territrio desabitado at 1470, estado colonial do sculo XV at 1975. Principais autores so: Francisco Stokler, Ayres de Meneses, Salustino Graa, Lus Alberto Pinho, Lus Cajo, Fernando Reis e Amndio Csar, Jos Ferreira Marques, Sum Marky, Albertino Bragana, Sacramento Neto e Frederico Gustavo dos Anjos, Francisco Costa Alegre,Carlos Esprito Santo, Olinda Beja, Fernando Macedo, Inocncia Mata, ngelo de Jesus Bonfim, Manuel Jernimo Salvaterra, Rafael Branco, Armindo Vaz d`Almeida e

Conceio Lima.A Casa 6 Aqui projetei a minha casa:/alta, perptua, de pedra e claridade./O bas negro, poroso/viria de Mesquita./Do Riboque o barro vermelho/da cor dos ibiscos/para o telhado./Enorme era a janela e de vidro/que a sala exigia um certo ar de praa./O quintal era plano, redondo/sem trancas nos caminhos.

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EMBAL, Filomena; Uma Breve resenha sobrea a Literatura da Guin Bissau ; Disponvel em 14/09/10: http://www.didinho.org/resenhaliteratura.html.6

LIMA, Conceio; O tero da casa; Editorial Caminho; Lisboa, 2004.

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Sobre os escombros da cidade morta/projetei a minha casa/recortada contra o mar./Aqui./Sonho ainda o pilar /uma retido de torre, de altar./Ouo murmrios de barcos/na varanda azul./E reinvento em cada rosto fio/a fio/as linhas inacabadas do projeto.

O Poema de Conceio de Lima segue uma linha mais intimista. O poema vai da felicidade a desiluso. O projeto de construo da casa no se realiza, como pode se deduzir pelas linhas finais no poema. A casa pode ser smbolo de proteo, ou da prpria identidade do eu - lrico, que tenta se refazer em meio a destruio quase que total Sobre os escombros da cidade morta/projetei a minha casa mais uma vez o poema pode ser estendido do universo ntimo do eu -lrico, para uma situao mais abrangente, que se relaciona com o espao em que o sujeito se encontra.

2. Literatura afro-brasile ira: vozes quilombolas em destaque 7

A reflexo sobre a Literatura Brasileira , dentre outras coisas, pensar sobre a busca por uma identidade nacional. Tal tarefa complexa e esta angstia perturbou o sono de grandes escritores romnticos como Gonalves Magalhes, Gonalves Dias, Jos de Alencar, entre outros, e terminou com uma soluo caracterstica do perodo, a idealizao. Isto , optou-se por idealizar o povo brasileiro, criando o mito do ndio como o heri nacional, o branco como o colonizador e estereotipando e zoomorfizando8 o negro. Assim, nossa Literatura, raramente traduziu a subjetividade do homem brasileiro, especificamente negros e ndios. Se fizermos uma breve anlise sobre a nossa Literatura, perceberemos que desde Gregrio de Matos9 temos uma Literatura falocntrica, etnocntrica e eurocntrica, em outras palavras, marcada pela ideologia masculina, branca e sob influncias europias.

Entretanto, o marco inicial da Literatura Afro -brasileira em 1859 datado a partir da publicao do romance rsula de Maria Firmina dos Reis e do livro de poesias de Luis Gama, obras quesignificaram a ruptura com os elementos masculino, branca e sob influncias europias, pois, estes dois ltimos autores, negros, denunciaram o trfico negreiro e criticam o patriarcado. Assim, prefixo afro,

carrega no s a questo tnica, mas tambm a feminina vindo a ser um suplemento e um contedo que se apresenta para mesclar este todo que aparentemente estava completo. Desta forma, p ensar a Literatura Afr obrasileira referir-se a um texto cujo objetivo fazer uma denncia social, uma reviso histrico-cultural e a afirmao de uma identidade: uma escrita comprometida com a busca de identidade, no caso a identidade afro descendente, derrubando de pronto a tese de inferioridade tnica observada nas deformaes por que passa a figura do negro nos textos de ideologia marcadamente eurocntrica. (NASCIMENTO, 2006).

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Autora: Amanda Crispim Ferreira, graduanda em Letras Vernculas e Clssicas (Habilitao Licenciatura em Lngua Portuguesa e Respectivas Literaturas. 8 Zoomorfizar: dar caractersticas animalescas a seres humanos.9

Considerado o primeiro escritor brasileiro.

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Outra marca que difere esta Literatura das outras a voz, ou seja, a voz que fala neste texto negra. um texto no qual o negro sujeito e no objeto de uma escritura, um texto em que o negro

fala dele mesmo a partir do seu ponto de vista. Neste sentido, h vrias polmicas quanto autoria afrobrasileira. Para Zil Bernd (1988) o eu-enunciador tem que se auto-proclamar negro. Porm sob esta perspectiva teramos que excluir Cruz e Souza e Machado de Assis da bibliografia afro -brasileira e cairamos num reducionismo biolgico (cor da pele do escritor) e sociolgico (lugar social do autor). J para Eduardo de Assis Duarte10 a autoria est ligada ao ponto de vista, ou seja, no interessa a cor do autor, mas sim, a cor do texto e a vivncia afro-brasileira traduzid a no texto. Sendo assim, ao lermos o Navio Negreiro de Castro Alves, perceberemos que seu texto no se encaixa nesta Literatura, j

que este fala de cima do navio negreiro, no convs com um olhar de quem no se identifica com aquele povo.J Maria Firmina fala dos pores do navio, com o corpo e a alma estalados junto com os dos escravos, compartilhando de suas dores e sofrimentos. Chama-se a escrita que fala do negro sob o ponto de vista branco, de negrismo11. Alm de Castro Alves, outro exemplo de negrismo a escrita de Jorge de Lima, como podemos perceber no poema Essa negra Ful, neste a escrava engana a sinh, seduz o sinh e no fim oge com ele, reforando o esteretipo erotizado e sexualizado da mulata que gostava de se relacionar com o seu senhor , neste sentido, os escritos de Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre potencializa este tipo da mulata brasileira. Em oposio essa escrita Oliveira Silveira escreve a Outra Nega Ful. Neste poema a escrava recusa-se a se deitar com o sinh, pelo contrrio, ela o mata e foge com outro negro, de quem gostava de verdade. Na comparao destes dois poemas, demos ver explicitamente as caractersticas da

Literatura Afro-brasileira, que muitas vezes utiliza-se de elementos da Literatura Cannica, como a pardia que vimos no caso acima para resistir aos esteretipos e mostrar como verdadeiramente o negro se sente no mundo. Ao lermos textos negros, percebemos a presena do eu - coletivo como uma caracterstica da literatura brasileira, ou seja, quando o narrador ou o eu - lrico fala, no fala s por ele, mas por todo um povo, fazendo da luta coletiva a sua luta pessoal. Fala por um povo que por muitos anos no pode falar e que ainda hoje se encontra oprimido. Assim, aqueles que co falar, levam contigo todas as outras vozes

silenciadas. Percebemos este eu coletivo no poema Vozes Mulheres de Conceio Evaristo:A voz da minha bisav ecoou criana nos pores do navio. Ecoou lamentos de uma infncia perdida. A voz de minha av ecoou obedincia aos brancos-donos de tudo. A voz de minha me10

Pode-se encontrar esta afirmao no artigo Literatura afro -brasileira: um conceito em construo disponvel em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm 11 SCHWARTZ, Jorge. Negrismo e negritude. In Vanguardas latino-americanas. So Paulo: Editora da Universidade de So Paulo: Iluminuras: FAPESP, 1995.

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Projeto LEAFRO Laboratrio de Cultura e Estudos Afro -Brasileirosecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato O ontem- o hoje o agora. Na voz de minha filha se far ouvir a ressonncia O eco da vida-liberdade. (Conceio Evaristo. In Cadernos Negros 13)

O eu - lrico usa vrias vezes o verbo ecoar, que significa repetir. Este recurso utilizado para intensificar a idia de que o negro sempre tentou resistir dominao. Em cada gerao sua

voz se manifesta de uma forma e com esperana de ser ouvida. Na primeira gerao a voz ecoa lamentos. o sentimento de pessoas que foram obrigadas a passar por um processo disprico que retirou violentamente negros africanos de sua terra e os venderam como escravos na Amrica, muitos ainda criana, como o caso da bisav do eu - lrico. Na segunda gerao, j na Amrica e sob a condio de escrava, ecoa obedincia aos brancos donos de tudo. Nota-se que nesta gerao a palavra branco j esta associada palavra dono, como se fossem coisas interligadas. Mas essa obedincia no significou passividade diante da dominao, mas sim

uma estratgia de resistncia.

Na terceira gerao, a voz ecoa revolta, porm baixinh

Os negros j so artigo

juridicamente livres, mas ainda lutam por seus direitos. Segundo Gizlda Nascimento em

Grandes mes reais senhoras, a voz que ecoa nas cozinhas alheias, sofre dois rebaixamentos. Pois a cozinha um espao de fundo que ainda no dela. Na quarta gerao, a voz ainda ecoa versos perplexos, ou seja, o espao da poesia j existe para ela, mas ainda muito difcil, assim como foi para todos seus antepassados. So rimas ainda de sangue e fome. Neste sentido o eu lrico sai da questo histrica para a social, apontando a realidade do negro ps-abolio que ela iniciou na estrofe anterior. Essa gerao situa-se provavelmente na dcada de 70 do sculo XX, onde a literatura afro-brasileira comea a ganhar fora atravs das publicaes coletivas, como por exemplo, os Cadernos Negros e o negro luta para superar todas as dificuldades e alcanar um lugar que antes no era dele. A quinta gerao a esperana do eu-lrico e de todas as outras geraes, de que a voz ecoe, com mais intensidade, para que seja ouvido, o desejo da vida-liberdade que por todos esses anos no foi ouvido. H a esperana de que essa gerao transforme as vozes mudas em vozes ntidas, a fala e o ato, e que esta d seqncia aos ideais, s lutas j iniciadas por seus antepassados ao recolher todas as

vozes. A palavra vida interligada a liberdade sugere que s se pode viver livre e que esta condio pode estar 10

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prxima atravs da voz desta quinta gerao. Pois as prises a que se refere o eu lrico no so as das geraes passadas, mas as prises atuais, as grades invisveis que s podero ser quebradas atravs da conscientizao, que s acontece atravs da educao. Por meio desta analise, possvel perceber que a Literatura Afro -brasileira uma estratgia de resistncia do povo negro. a arma a se utilizada para resistir e superar culturalmente a dominao vigente e consequentemente o etnocdio. Ainda questiona-se a existncia de uma Literatura Afro-brasileira, porm mesmo por muitas vezes, sendo rebaixada condio de subliteratura, ela surge paralelamente s grandes escolas literrias, um exemplo rsula , uma obra romntica com fortes caractersticas do perodo. Porm na dcada de 70, que esta Literatura firmou-se e formou um corpo organizado, com o surgimento, por exemplo, dos Cadernos Negros, grupo de escritores e aspirantes em torno de uma publicao, buscando reconhecimento do pblico leitor.

Sugestes para o trabalho em sala de aula :

Ensino fundamental

A cor da ternura Geni Guimares. Tramas da cor Rachel de Oliveira. Ns e os outros: histrias de diferentes culturas coleo para gostar de ler n 29. Caroo de dend Me Beata de Yemonj. Ser o Benedito Mrio de Andrade. Minhas Contas Antonio Luiz Bichos Da Africa Rogrio Barbosa Andrade - (4 volumes). Chuva de Manga - James Rumford. Ana E Ana Clia Godoy If, o Adivinho Reginaldo Prandi. Lili a Rainha das Escolhas - LUCINDA, Elisa. Menina Bonita do Lao de Fita Ana Maria Machado. O menino Nito Sonia Rosa O Filho Do Vento Jos Eduardo Os prncipes do destino: histrias da mitologia afro-brasileira - Reginaldo Prandi Ada Leontyne Price.

Ensino mdio

Cadernos negros ( todos os volumes) Ponci Vicncio Conceio Evaristo Becos da memria - Conceio Evaristo Poemas da recordao e outros movimentos - Conceio Evaristo Clara dos Anjos Lima Barreto Recordaes do escrivo Isaias Caminha Lima Barreto Contos de Machado de Assis (Pai contra me, Mariana, O caso da vara, A mulher plida). Bom grioulo Adolfo Caminha

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rsula Maria Firmina dos Reis O semelhante Elisa Lucinda O poeta do povo Solano Trindade Poemas do Cruz e Souza Quarto de despejo Carolina Maria de Jesus Site Literafro - http://www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm Blog Lit Art Africas http://litartafricas.blogspot.com/2010_08_01_archive.htmlOutras Sugestes de Leitura:

http://www.artafrica.info/ Arte Africa http://www.arteafricana.usp.br/ Projeto Arte Africana- USP http://www.mindelact.com/welcome.html Mindelact- Teatro em Cabo Verde http://www.cenalusofona.pt/paginas/05destaque.htm l Cena Lusfona http://www.cplp.org/ Comunidade de pases de Lngua Portuguesa http://www.forumafrica.com.br/ Frum frica http://www.africanart.org/ African Art http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/ Revista Crioula http://www.africalusofona.pt/ Revista frica Lusfona http://www.ueangola.com/ Unio de Escritores Angolanos

REF ERNCIAS BIBLIOGRFICAS

BARBOSA, Rogrio Andrade. No ritmo dos tants; antologia potica dos pases africanos de lngua portuguesa; Braslia: Thesaurus, 1991. BERND, Zil. Introduo Literatura negra . So Paulo: Brasiliense, 1998.

CORREA, Alamir Aquino; A formao das literaturas nacionais lusfonas em frica. Tese de Doutoramento Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 1990.

COUTO, Mia; Contos do nascer da Terra; Editorial Caminho; Lisboa, 1997.

EMBAL, Filomena; Uma Breve resenha sobrea a Literatura da Guin Bissau ; Disponvel em

14/09/10: http://www.didinho.org/resenhaliteratura.html

EVARISTO, Conceio. Vozes Mulheres. In: Cadernos Negros 13, 1990, p.32/3.

LIMA, Conceio; O tero da casa ; Editorial Caminho; Lisboa, 2004. Londrina: EDUEL, 1998.

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LOPES, Manuel; Falucho Ancorado: poesias; Edio Cosmos, Lisboa, 1997.

NASCIMENTO, Gizlda.M.do. Grandes Mes Reais Senhoras. In: signum: estudos literrios.

__________________________. O negro como Objeto e Sujeito de uma escritura. In: Cultura afrobrasileira, expresses religiosas e questes escolares (Caderno Uniafro v.1). Londrina: Universidade

Estadual de Londrina, 2006.

SECCO, C. L. T. R.; A importncia da literatura e das artes plsticas no contexto da cultura angolana. Disponvel em 16/09/10 em http://www.letras.ufrj.br/posverna/docentes/62671-1.pdf.

TAVARES, Paula. O Lago da Lua . Lisboa: Editorial Caminho, 1. ed., 1999.

ANEXOSPoema Essa Nega F ul de Jorge de LimaEssa negra ful Ora, se deu que chegou

(isso j faz muito tempo) no bang dum meu av uma negra bonitinha, chamada negra Ful.Essa negra Ful! Essa negra Ful! Ful! Ful! (Era a fala da Sinh) Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Ful! Essa negra Ful! Essa negrinha Ful!

ficou logo pra mucama pra vigiar a Sinh, pra engomar pro Sinh!Essa negra Ful! Essa negra Ful!

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Ful! Ful! (Era a fala da Sinh) vem me ajudar, Ful, vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Ful! vem coar minha coceira, vem me catar cafun, vem balanar minha rede, vem me contar uma histria, que eu estou com sono, Ful!Essa negra Ful! "Era um dia uma princesa que vivia num castelo

que possua um vestido com os peixinhos do mar. Entrou na perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinh me mandou que vos contasse mais cinco". Essa negra Ful! Essa negra Ful! Ful! Ful! Vai botar para dormir esses meninos, Ful! "minha me me penteou minha madrasta me enterrou pelos figos da figueira que o Sabi beliscou". Essa negra Ful! Essa negra Ful! Ful! Ful! (Era a fala da Sinh Chamando a negra Ful!) Cad meu frasco de cheiro Que teu Sinh me mandou? Ah! Foi voc que roubou! Ah! Foi voc que roubou! Essa negra Ful! Essa negra Ful! O Sinh foi ver a negra levar couro do feitor. A negra tirou a roupa, O Sinh disse: Ful! (A vista se escureceu que nem a negra Ful). Essa negra Ful! Essa negra Ful!

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Ful! Ful! Cad meu leno de rendas, Cad meu cinto, meu broche,

Cad o meu tero de ouro que teu Sinh me mandou? Ah! foi voc que roubou! Ah! foi vo c que roubou!Essa negra Ful! Essa negra Ful!

O Sinh foi aoitar sozinho a negra Ful. A negra tirou a saia e tirou o cabeo, de dentro dle pulou nuinha a negra Ful.Essa negra Ful! Essa negra Ful! Ful! Ful! Cad, cad teu Sinh que Nosso Senhor me mandou? Ah! Foi voc que roubou, foi voc, negra ful? Essa negra Ful!

Poema Outra Nega F ul de Oliveira Silveira

Outra Nega Ful O sinh foi aoitar a outra Nega Fulo Ou ser que era a mesma? A nega tirou a saia, A blusa e se pelou

O sinh ficou tarado, Largou o relho e se engraou. A nega em vez de deitar, Pegou um pau e sampou Nas guampas do sinh Essa Nega Ful ! Essa Nega Ful ! Dizia intimamente o velho Pai Joo Pra escndalo do bom Jorge de Lima, Seminegro e cristo E a me preta chegou bem cretina Fingindo uma dor no corao - Ful ! Ful ! Ful ! A sinh burra e besta perguntou Onde que tava o sinh Que o diabo lhe mandou - Ah ! Foi voc que matou ! - sim, fui eu que matou Disse bem longe a Fulo

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Projeto LEAFRO Laboratrio de Cultura e Estudos Afro -BrasileirosPro seu nego, que levou Ela pro mato, e com ele A sem ela se deitou Essa Nega Ful ! Essa Nega Ful ! (CADERNOS NEGROS)

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