Nem Aqui, Nem Lá

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    06-Mar-2016
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Texto de Cassio Pires

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  • Nem aqui, nem l

    Cssio Pires

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    Nem aqui, nem l

    Cssio Pires

    Para Jlia, minha irm

    Personagens

    . Irm, guarda civil

    . Irmo, policial militar.

    Ato nico

    Sete da noite. Centro de So Paulo. Topo de um edifcio comercial. Uma antena. Duas ou trs caixas de papelo. A irm est prxima ao parapeito e, de costas para o irmo, observa a cidade. O irmo guarda certa distncia.

    IRM. A melhor poca da minha vida foi ali naquele prdio e durou um ano. Eu tinha dezesseis anos e no sabia nada da vida. Voc tinha dezoito e eu te chamava de Rapunzel. Eu era secretaria no oitavo andar e namorava o Pedro. Ou namorava o Pedro e era secretaria no oitavo andar, no sei. No sei porqu, mas eu acho aquela a melhor poca da minha vida. O Pedro no melhor do que nenhum outro homem que eu tive depois e naquela poca eu j desconfiava disso. Aquele trabalho no melhor do que nenhum outro trabalho que eu tive e eu no era feliz fazendo o que fazia. Eu acho que no tenho razo nenhuma pra acreditar que aquela foi a melhor poca da minha vida, mas o que eu acho.

    IRMO. Eu trouxe o teu casaco. Voc deixou cair na escada.

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    IRM. (alheia s tentativas do irmo) Um dia meu chefe passou mal e resolveu ir embora mais cedo. Ento, eu fiz uma coisa que sempre tinha vontade e nunca conseguia. Comecei a olhar a cidade pela janela. Eram cinco da tarde e o cu era cinza de poluio e vermelho de pr-do-sol. a mistura de cores mais bonita que existe. O cinza do homem e o vermelho de Deus. bonita porque elas se misturam sem se misturar. No uma terceira cor. cinza e vermelho. Mas voc no consegue achar tanta graa naquele vermelho sem ver o cinza e no consegue entender o quanto o cinza bonito sem aquele vermelho.

    IRMO. Trouxe um chocolate tambm. Come.

    IRM. Ento, daquela janela, eu fiquei olhando tudo o que eu podia ver. Olhei cada coisa que eu podia, e vi entre elas esse prdio e gostei dele, no me lembro exatamente porqu. A vida muito engraada e agora estou aqui olhando pro prdio de onde eu olhava esse prdio. E como se eu estivesse me vendo com dezesseis anos, daquela janelinha do oitavo andar onde eu trabalhava. como se eu estivesse me vendo na janela, com um dedo apontado, como fazia a nossa me, olhando nessa direo e fazendo assim (faz um sinal negativo com o dedo). A secretaria que eu fui est dando bronca na policial que virei. Estou com vontade de prend-la por desacato a autoridade.

    IRMO. Pe o casaco.

    IRM. Hoje eu me lembrei que eu te chamava de Rapunzel. Voc era magrelo e tinha uma voz fininha. Voc apanhava na rua e queria deixar o cabelo crescer. Voc era mais velho, mas at eu batia em voc. Voc lembra? Eu te achava ridculo e no te perdoava por isso.

    IRMO. Deixa eu te ajudar, me diz o que que aconteceu com voc.

    IRM. A um dia voc cresceu e chegou em casa contando que ia fazer o exame pra entrar na polcia. O pai tava bbado e riu na sua cara. Falou que aquilo no era mundo pra voc. Mas voc conseguiu. Me lembro do dia em que a gente foi assistir a tua cerimnia de contratao. Eu no conseguia entender o que mame sentia. Mame era fria, ou fingia que era, no sei. Eu chorei o tempo todo. Tocou o hino do Brasil e eu chorei. Eu acho brega chorar quando toca o hino, mas eu no agentei. Voc era o mais magro de todos. E eu no sabia se estava chorando por medo de te perder, por medo de achar que voc ia acabar tomando um tiro ou se eu estava chorando de orgulho de te ver fardado. Mame achava

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    que voc no ia dar em nada. Nunca trabalhou, ficava em casa lendo aqueles livros velhos e, de repente, vira policial. Naquele dia voc virou minha cabea do contrrio. Virou um exemplo pra mim.

    IRMO. Eu no vim at aqui pra lembrar do passado. Comporte-se como adulta e me deixa eu te ajudar. Me diz o que que aconteceu. Sou teu irmo, no precisa fugir de mim.

    IRM. Voc lembra que eu te chamava de Rapunzel?

    IRMO. Lembro.

    IRM. J te perguntei se isso te deixava triste?

    IRMO. Sim.

    IRM. E o que voc me disse?

    IRMO. Que sim.

    IRM. E j te pedi perdo?

    IRMO. J.

    IRM. E voc j aceitou?

    IRMO. J.

    Silncio.

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    IRM. Eu queria viver numa fazenda ou h trezentos anos atrs.

    IRMO. (diz com cuidado) Vai, me diz o que que aconteceu.

    IRM. Daqui de cima, a cidade at que bonita. Daqui de cima, s uma paisagem. E bonita. Mas ningum vive dentro de uma paisagem. A gente, pelo menos, no vive.

    IRMO. Voc t jogando comigo. Isso est comeando a me deixar cansado. Faz uma hora que cheguei e voc sequer virou a cara pra me ver.

    IRM. Um dia eu li num cartaz que a Guarda Civil ia abrir concurso pra mulheres. A, pensei: se eu passo num concurso desses, ningum me tira o emprego. Pode no ser a melhor coisa do mundo, mas pelo menos eu paro de ficar pulando de servio em servio, pelo menos no morro na merda como o papai e a mame e...

    IRMO. (explode) Pra com isso! Pra com essa besteira! Pra de se fazer de criana e se coloca no meu lugar! T em casa e me ligam dizendo que tinha acontecido um problema com voc. Eu corro pra c e eles me dizem que voc recusou-se a dar a ordem de despejo pras famlias que invadiram o prdio e, sem dar a menor satisfao pra ningum, subiu pra laje e t aqui desde a dez horas da manh! Os teus colegas to rindo de voc! To dizendo que voc virou comunista, que ficou louca! Como que voc acha que isso me deixa? Como que voc acha que eu t me sentido, sabendo que l embaixo t cheio de guarda civil te chamando de louca e rindo da sua cara?

    Ela se vira na direo do irmo.

    IRMO. Ah, melhor! Que tal a gente comear a conversar?

    IRM. Eu vou ser punida, no ?

    IRMO. (mais calmo) Agora no hora de pensar nisso. Voc precisa ir pra tua casa e descansar.

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    IRM. Que nome que se d a isso? Prevaricao?

    IRMO. Agora no hora de pensar nisso.

    IRM. ou no ?

    IRMO. Talvez seja.

    IRM. Voc sabe que , no sabe? Voc policial e sabido.

    IRMO. Os juzes que decidem os nomes das coisas que fazemos.

    IRM. Voc t com vergonha de ser meu irmo?

    IRMO. No.

    IRM. Mas tambm no t orgulhoso, no isso?

    IRMO. Vem. Me d tua mo. Vamos embora daqui. Vamos descer.

    Ela no responde.

    IRMO. Se voc no quer descer, ento pelo menos me diz o que que aconteceu.

    Ela no responde.

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    IRMO. Se voc continuar agindo dessa forma, eu vou comear a acreditar que voc enlouqueceu mesmo.

    IRM. Quem assumiu a operao no meu lugar?

    IRMO. O comandante.

    IRM. Algum se machucou?

    IRMO. Um colega seu levou uma navalhada na cara.

    IRM. E os outros?

    IRMO. Quem?

    IRM. Os moradores do prdio. As famlias.

    IRMO. Nada srio.

    IRM. Pra onde que eles foram?

    IRMO. Sei l.

    Silncio breve.

    IRM. Fazia tempo que voc no me pedia pra eu te dar a mo. A ltima vez que isso aconteceu, voc ainda tinha voz de criana.

    IRMO. Vai, me diz o que que aconteceu.

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    IRM. Voc sabe o que aconteceu. J te colocaram a par, seno voc no estaria aqui em cima.

    IRMO. Eu quero saber PORQU voc fez isso.

    IRM. Eu no consegui bancar. No consegui fazer. Foi s isso.

    IRMO. Por que voc aceitou comandar a operao?

    IRM. Eu no parei pra pensar no que tinha que fazer. O comandante me disse que queria uma mulher no comando. Fiquei orgulhosa por ele ter me chamado, no me dei conta do que eu tinha que fazer.

    IRMO. Voc sabe que no podia ter feito isso, no ?

    IRM. Voc sabe que eu sei.

    Pausa breve.

    IRMO. Me desculpa.

    Silncio. O irmo aproxima-se do parapeito e comea a observar a cidade.

    IRM. A tropa chegou aqui as nove. A gente entrou no prdio, eu na frente. Tinha uma comisso de moradores. Eles j sabiam que a gente vinha pra fazer o despejo. Estavam esperando a gente. Foram gentis. Disseram que iam cooperar e que no queriam que a gente fosse violento. Eu acho que foi nessa hora. Eu acho que no agentei ouvir deles que iam cooperar. Eu acho que no suportei perceber que eles sabiam que no tinham como vencer a gente. Eu senti que tinha um poder que jamais imaginei que teria. T h cinco anos na guarda e ainda no tinha pensado no quanto as vezes a gente poderoso. Ento, eu

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    comecei a subir as escadas e a ver as famlias prontas pra deixar o prdio, um monte de caixas empilhadas, velhinhos com caras conformadas, uma mulher explicando pro filho o que ia acontecer... Fui subindo, subindo e quando dei por mim, cheguei aqui. Encostei no parapeito e quis gritar l pra baixo, queria pedir pra parar a operao. Mas eu no consegui. No tinha pulmo, ou no tive coragem, sei l. Quando eu retomei o ar, eu percebi que estava me sentindo bem aqui. E ainda estou. Aqui eu estou de fora e por cima. No tem lugar melhor pra ficar.

    IRMO. Eu entendo o que voc sentiu.

    IRM. bom ouvir isso de voc.

    IRMO. Entendo de verdade. Fazer desocupao no honra ningum. Sempre tem um ou outro sdico que acha engraado. Mas o normal das pessoas no isso. Mas quando tem de fazer, a gente no pode se envolver.

    IRM. Eu no consegui.

    IRMO. Quando as coisas acontecerem assim, voc tem que pensar que no voc que t fazendo. a policia que t. Tem que pensar no teu uniforme. Na real, por isso que a gente usa uniforme. No s pra ser reconhecido na rua. pra no ter identidade na hora de agir. No a gente que t ali. a Polcia. Nessa hora, a gente no tem nome.

    IRM. isso que eles ensinam pra gente, no ?

    IRMO. No sei, mas nisso que a gente tem de pensar.

    IRM. Te juro que eu tentei.

    IRMO. Voc precisa aprender a passar por cima.