Primeiro fausto

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Fernando Pessoa

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  • Primeiro Fausto Fernando Pessoa Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/fausto.htm Primeiro Tema O Mistrio do Mundo I Quero fugir ao mistrio Para onde fugirei? Ele a vida e a morte Dor, aonde me irei? II O mistrio de tudo Aproxima-se tanto do meu ser, Chega aos olhos meus d'alma to [de] perto, Que me dissolvo em trevas e universo... Em trevas me apavoro escuramente. III O perene mistrio, que atravessa Como um suspiro cus e coraes... IV O mistrio ruiu sobre a minha alma E soterrou-a... Morro consciente! V Acorda, eis o mistrio ao p de ti! E assim pensando riu amargamente, Dentro em mim riu como se chorasse! VI Ah, tudo smbolo e analogia! O vento que passa, a noite que esfria, So outra coisa que a noite e o vento Sombras de vida e de pensamento. Tudo o que vemos outra coisa. A mar vasta, a mar ansiosa, o eco de outra mar que est Onde real o mundo que h. Tudo o que temos esquecimento. A noite fria, o passar do vento,
  • So sombras de mos, cujos gestos so A iluso madre desta iluso. VII Mundo, confranges-me por existir. Tenho-te horror porque te sinto ser E compreendo que te sinto ser At s fezes da compreenso. Bebi a taa [...] do pensamento At ao fim; reconhecia pois Vazia, e achei horror. Mas eu bebi-a. Raciocinei at achar verdade, Achei-a e no a entendo. J se esvai Neste desejo de compreenso, Inalteravelmente, Neste lidar com seres e absolutos, O que em mim, por sentir, me liga vida E pelo pensamento me faz homem. E neste orgulho certo Fechado mais ainda e alheado Me vou, do limitado e relativo Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar. VIII Cidades, com seus comrcios... Tudo permanentemente estranho, mesmamente Descomunal, no pensamento fundo; Tudo mistrio, tudo transcendente Na sua complexidade enorme: Um raciocnio visionado e exterior, Uma ordeira misteriosidade Silncio interior cheio de som. IX J esto em mim exaustas, Deixando-me transido de terror, Todas as formas de pensar [...] O enigma do universo. J cheguei A conceber, como requinte extremo Da exausta inteligncia, que era Deus... J cheguei a aceitar como verdade O que nos do por ela, e a admitir Uma realidade no real Mas no sonhada, [como o] Deus Cristo. Falhados pensamentos e sistemas Que, por falharem, s mais negro fazem O poder horroroso que os transcende
  • A todos, [sim,] a todos. Oh horror! Oh mistrio! Oh existncia! X O segredo da Busca que no se acha. Eternos mundos infinitamente, Uns dentro de outros, sem cessar decorrem Inteis; Sis, Deuses, Deus dos Deuses Neles intercalados e perdidos Nem a ns encontramos no infinito. Tudo sempre diverso, e sempre adiante De [Deus] e Deuses: essa, a luz incerta Da suprema verdade. XI Nos vastos cus estrelados Que esto alm da razo, Sob a regncia de fados Que ningum sabe o que so, Ha sistemas infinitos, Sis centros de mundos seus, E cada sol um Deus. Eternamente excludos Uns dos outros, cada um universo. XII Num atordoamento e confuso Arde-me a alma, sinto nos meus olhos Um fogo estranho, de compreenso E incompreenso urdido, enorme Agonia e anseio de existncia, Horror e dor, [agonia] sem fim! XIII Fantasmas sem lugar, que a minha mente Figura no visvel, sombras minhas Do dilogo comigo. XIV No, no vos disse ... A essncia inatingvel Da profuso das coisas, a substncia, Furta-se at a si mesma. Se entendesses Neste ou naquele modo o que vos disse, No o entendesses, que lhe falta o modo Por que se entenda.
  • XV Do eterno erro na eterna viagem, O mais que [exprime] na alma que ousa, sempre nome, sempre linguagem, O vu e capa de uma outra cousa. Nem que conheas de frente o Deus, Nem que o Eterno te d a mo, Vs a verdade, rompes os vus, Tens mais caminho que a solido. Todos os astros, inda os que brilham No cu sem fundo do mundo interno, So s caminhos que falsos trilham Eternos passos do erro eterno. Volta a meu seio, que no conhece os deuses, porque os no v, Volta a meus braos, melhor esquece que tudo s fingir que . XVI Ondas de aspirao [...] Sem mesmo o corao e alma atingir Do vosso sentimento; ondas de pranto, No vos posso chorar, e em mim subis, Mar imensa, numerosa e surda, Para morrer da praia no limite Que a vida impe ao Ser; ondas saudosas De algum mar alto aonde a praia seja Um sonho intil, ou de alguma terra Desconhecida mais que o eterno [amor] De eterno sofrimento, e aonde formas Dos olhos de alma no imaginadas Vogam essncias [...] Esquecidas daquilo que chamamos Suspiros, lgrimas, desolao; [Ondas] nas quais no posso visionar Nem dentro em mim, em sonho, [barco] ou ilha, Nem esperana transitria, nem Iluso nada da desiluso; Oh, ondas sem brancuras nem asperezas, Mas redondas, como leos, e silentes No vosso intrmino e total rumor Oh, ondas das almas, deca em lago Ou levantai-vos speras e brancas Com o sussurro cido da esperana ... Erguei em tempestades a minha alma! No haver,
  • Alm da morte e da imortalidade, Qualquer coisa maior? Ah, deve haver Alm da vida e morte, ser, no ser, Um inominvel supertranscendente, Eterno incgnito e incognoscvel! Deus? Nojo. Cu, inferno? Nojo, nojo. Pr'a que pensar, se h de parar aqui O curto vo do entendimento? Mais alm! Pensamento, mais alm! XVII Paro beira de mim e me debruo... Abismo... E nesse abismo o Universo. Com seu tempo e seu 'spao, um astro, e nesse Alguns h, outros universos, outras Formas do Ser com outros tempos, 'spaos E outras vidas diversas desta vida... O esprito outra estrela. . . O Deus pensvel um sol... E h mais Deuses, mais espritos De outras essncias de Realidade ... E eu precipito-me no abismo, e fico Em mim... E nunca deso ... E fecho os olhos E sonho e acordo para a Natureza Assim eu volto a mim e Vida Deus a si prprio no se compreende. Sua origem mais divina que ele, E ele no tem a origem que as palavras Pensam fazer pensar... O abstrato Ser [em sua] abstrata idia Apagou-se, e eu fiquei na noite eterna. Eu e o Mistrio face a face... XVIII No meu abismo medonho Se despenha mudamente A catarata de sonho Do mundo eterno e presente. Formas e idias eu bebo, E o mistrio e horror do mundo Silentemente recebo No meu abismo profundo. O Ser em si nem o nome Do meu ser inenarrvel; No meu mudo Malstrom O grande mundo inestvel Como um suspiro se apaga
  • E um silncio mais que infindo Acolhe o acorrer do vago Que em mim se vai esvaindo. Por mais que o Ser, que transcende Criatura e Criador, Se esse Ser ningum entende Ele, a mim e ao meu horror, Menos. Vida, pensamento, Tudo o que nem se adivinha, tudo como um momento Numa eternidade minha. XIX Abre-me o sonho Para a loucura a tenebrosa porta, Que a treva menos negra que esta luz. O terror desvaria-me, o terror De me sentir viver e ter o mundo Sonhado a laos de compreenso Na minha alma gelada. XX A qualquer modo todo escurido Eu sou supremo. Sou o Cristo negro. O que no cr, nem ama o que s sabe O mistrio tornado carne. H um orgulho atro que me diz Que Sou Deus inconscienciando-me Para humano; sou mais real que o mundo, Por isso odeio-lhe a existncia enorme, O seu amontoar de coisas vistas. Como um santo devoto Odeio o mundo, porque o que eu sou E que no sei sentir que sou, conhece-o Por no real e no ali. Por isso odeio-o Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira! XXI Sou a Conscincia em dio ao inconsciente, Sou um smbolo incarnado em dor e dio, Pedao de alma de possvel Deus Arremessado para o mundo Com a saudade pvida da ptria... sistema mentido do universo, Estrelas nadas, sis irreais,
  • Oh, com que dio carnal e estonteante Meu ser de desterrado vos odeia! Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro, Pregado na cruz gnea de mim mesmo. Sou o saber que ignora, Sou a insnia da dor e do pensar XXII Ah, no poder tirar de mim os olhos, Os olhos da minha alma [...] (Disso a que alma eu chamo) S sei de duas coisas, nelas absorto Profundamente: eu e o universo, O universo e o mistrio e eu sentindo O universo e o mistrio, apagados Humanidade, vida, amor, riqueza. Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais, Eu ou tu? Tu que vives inconsciente, Ignorando este horror que existir, Ser, perante o [profundo] pensamento Que o no resolve em compreenso, tu Ou eu, que analisando e discorrendo E penetrando [...] nas essncias, Cada vez sinto mais desordenado Meu pensamento louco e sucumbido. Cada vez sinto mais como se eu, Sonhando menos, conscincia alerta Fosse apenas sonhando mais profundo XXIII Ah, que diversidade, E tudo sendo. O mistrio do mundo, O ntimo, horroroso, desolado, Verdadeiro mistrio da existncia, Consiste em haver esse mistrio. XXIV Essa simplicidade d'alma Possuda no s dos inocentes Mas at dos viciosos, criminosos... essa simplicidade Perdi-a, e s me resta um vcuo imenso Que o pensamento friamente ocupa. XXV
  • Tremo de medo: Eis o segredo aberto. Alm de ti Nada h, decerto, Nem pode haver Alm de ti, Que [s] tens essncia Nem tens existncia E te chamas [...] Ser. XXVI Mais que a existncia um mistrio o existir, o ser, o haver Um ser, uma existncia, um existir Um qualquer, que no este, por ser este Este o problema que perturba mais. O que existir no ns ou o mundo Mas existir em si? XXVII No a dor de j no poder crer Que m'oprime, nem a de no saber, Mas apenas [e mais] completamente o horror De ter visto o mistrio frente a frente, De t-lo visto e compreendido em toda A sua infinidade de mistrio. isto que me alheia, que me [traz] Sempre mostrado em mim como um terror E maior terror h-o? XXVIII Para mim ser admirar-me de estar sendo. XXIX H entre mim e o real um vu A prpria concepo impenetrvel. No me concebo amando, combatendo, Vivendo com os outros. H, em mim, Uma impossibilidade de existir De que [abdiquei], vivendo. XXX