Série FLUZZ Volume 7 OS MANTENEDORES DO VELHO MUNDO

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    OS MANTENEDORES DO VELHO MUNDO

    Augusto de Franco, 2012.

    Verso Beta, sem reviso.

    A verso digital desta obra foi entregue ao Domnio Pblico, editada

    com o selo Escola-de-Redes por deciso unilateral do autor.

    Domnio Pblico, neste caso, significa que no h, em relao a verso digital desta

    obra, nenhum direito reservado e protegido, a no ser o direito moral de o autor ser

    reconhecido pela sua criao. permitida a sua reproduo total ou parcial, por

    quaisquer meios, sem autorizao prvia. Assim, a verso digital desta obra pode ser

    na sua forma original ou modificada copiada, impressa, editada, publicada e

    distribuda com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. S no pode ser

    omitida a autoria da verso original.

    FRANCO, Augusto de

    OS MANTENEDORES DO VELHO MUNDO / Augusto de Franco So Paulo:

    2012.

    46 p. A4 (Escola de Redes; 14)

    1. Redes sociais. 2. Organizaes. 3. Escola de Redes. I. Ttulo.

    Escola-de-Redes uma rede de pessoas dedicadas investigao sobre redes sociais e

    criao e transferncia de tecnologias de netweaving.

    http://escoladeredes.net

  • 7

    SSuummrriioo

    Introduo | 9

    Ensinadores | 12

    Mestres e gurus | 19

    Codificadores de doutrinas | 23

    Aprisionadores de corpos | 25

    Construtores de pirmides | 28

    Fabricantes de guerras | 32

    Condutores de rebanhos | 34

    Notas e referncias | 38

  • 8

  • 9

    IInnttrroodduuoo

    A Fora era um conceito complexo e difcil.

    A Fora estava enraizada no equilbrio de todas as coisas,

    E todo movimento dentro de seu fluxo

    arriscava um desequilbrio nessa harmonia.

    Terry Brooks em Star Wars Episdio I: A Ameaa Fantasma (1999)

    A fora (Te) no (um querer) induzir algum

    (ou alguma coisa) a seguir um caminho prefigurado

    e sim (um deixar) fluir com o curso (Tao).

    O autor em Desobedea (2010)

    CONHECIMENTO ATESTADO POR TTULOS, fama, riqueza e poder so

    indicadores de sucesso adequados s sociedades hierrquicas. So coisas

    que s alguns podem ter, no todos. So coisas que alguns podem ter em

    detrimento dos outros. Assim o sbio se destaca dos ignorantes (ou o

    titulado do no titulado, at na cadeia), o famoso no se mistura com o

    z-ningum, o rico vive entre os ricos para ficar mais rico e no se

    relaciona com o pobre (que como sabemos s continua pobre porque

  • 10

    seus amigos so pobres) e o poderoso s consegue exercer seu poder

    porque os que (acham que) no tm poder lhe prestam obedincia. Os

    critrios de sucesso competitivo so, na verdade, mais do que indicadores:

    so ordenaes da sociedade hierrquica.

    O fato que, os que tiveram sucesso ou venceram no mundo do

    comando-e-controle, em grande parte, venceram aplicando esquemas de

    comando-e-controle. Venceram e foram reconhecidos como vencedores

    porque aplicaram esquemas de comando-e-controle; ou seja, porque

    replicaram um determinado padro de ordem (e, para tanto, como se

    tivessem recebido uma ordenao).

    Dentre os que fazem sucesso na sociedade hierrquica e de massa

    encontram-se, claro, pessoas esforadas, criativas ou inovadoras,

    talentos extraordinrios e gnios incontestes. Mas esto l tambm em

    nmero to grande para derrubar o mito de que o sucesso um prmio

    pelo talento os agentes reprodutores desse tipo de sociedade, como,

    por exemplo, os colecionadores de diplomas, os vendedores de iluses, os

    marqueteiros de si mesmos, os aprisionadores de corpos, os ensinadores

    ou burocratas sacerdotais do conhecimento, os codificadores de

    doutrinas, os aprisionadores de corpos, os construtores de pirmides, os

    fabricantes de guerras e os condutores de rebanhos.

    No se trata de inculpar esses tipos por todo mal que assola a

    humanidade. Eles so apenas agentes inconscientes da reproduo do

    sistema. Eles no existem propriamente como indivduos. No adianta

    para nada tentar nome-los: eles so legio (Mc 5: 9), entidades

  • 11

    inumerveis configuradas nas redes sociais, quando campos perturbados

    pela presena da hierarquia aglomeram e enxameiam no contra-fluzz (*).

  • 12

    EEnnssiinnaaddoorreess

    Os primeiros ensinadores os sacerdotes ensinavam para reproduzir

    (ou multiplicar os agentes capazes de manter) seu prprio estamento

    ENSINADORES SO OS QUE COMPEM a burocracia privatizadora do

    conhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas e

    academias.

    Os ensinadores surgiram naquela noite dos tempos que o matemtico

    Ralph Abraham (1992) chamou de precedente sumeriano (1).

    surpreendente constatar, como fizeram Joseph Campbell, Samuel Noah

    Kramer e outros renomados sumeriologistas, que os elementos centrais

    da nossa cultura, dita civilizada, compareciam em uma espcie de modelo

    ou prottipo ensaiado em complexos do tipo cidade-templo-Estado como

    Eridu, Nippur, Uruk, Kish, Acad, Lagash, Ur, Larsa e Babilnia. Esse modelo

    j estava em pleno funcionamento, segundo interpretaes de relatos que

    no puderam ser contestadas, a partir do quarto milnio. Em particular a

    obra de Kramer (1956): A histria comea na Sumria, revela as razes

    sumerianas do atual padro civilizatrio (2).

    Joseph Campbell (1959), em As Mscaras de Deus, redigiu uma espcie

    de termo de referncia para esta investigao (3):

  • 13

    Um importante desenvolvimento, repleto de significado e

    promessas para a histria da humanidade nas civilizaes por vir,

    ocorreu... [por volta] (de 4.000 a. C.), quando algumas aldeias

    camponesas comearam a assumir o tamanho e a funo de cidades

    mercantis e houve uma expanso da rea cultural... pelas plancies

    lodosas da Mesopotmia ribeirinha. Esse o perodo em que a

    misteriosa raa dos sumrios apareceu pela primeira vez em cena,

    para estabelecer-se nos terrenos das plancies trridas do delta do

    Tigre e do Eufrates, que se tornariam em breve as cidades reais de

    Ur, Kish, Lagash, Eridu, Sipar, Shuruppak, Nipur e Erech... E ento, de

    sbito... surge naquela pequena regio lodosa sumria como se as

    flores de suas minsculas cidades subitamente vicejassem toda a

    sndrome cultural que a partir de ento constituiu a unidade

    germinal de todas as civilizaes avanadas do mundo. E no

    podemos atribuir esse evento a qualquer conquista da mentalidade

    de simples camponeses. Tampouco foi a consequncia mecnica de

    um mero acmulo de artefatos materiais, economicamente

    determinados. Foi a criao factual e claramente consciente (isto

    pode ser afirmado com total certeza) da mente e cincia de uma

    nova ordem de humanidade que jamais havia surgido na histria da

    espcie humana: o profissional de tempo integral, iniciado e

    estritamente arregimentado, sacerdote de templo.

    Respeitados estudiosos confessam at hoje sua perplexidade diante da

    constelao desse precedente sumeriano (para insistir na feliz expresso

    do matemtico Ralph Abraham). o caso, por exemplo, da antroploga e

  • 14

    assiriloga Gwendolyn Leick, que leciona em Richmond (Londres). No seu

    Mesopotmia: a inveno da cidade (2001), ela declara que muito se

    tem escrito sobre o sbito aparecimento dos sumrios na Mesopotmia

    e suas possveis origens... [mas] a questo da origem dos sumrios

    continua aguardando soluo, e tudo o que podemos dizer que, no incio

    do Primeiro Dinstico, sua lngua foi escolhida para ser vertida em escrita.

    Talvez os sumrios se tivessem tornado politicamente dominantes e

    exercido o controle dos centros de formao de escribas nas primeiras

    cidades (5).

    Essa casta ou estamento composta pela burocracia sacerdotal que

    administrava as nascentes cidades-templo-Estado sumerianas

    configurou o primeiro padro de transmisso de ensinamento. Ensinavam

    como um imperativo para reproduzir seu prprio ensinamento; quer dizer,

    ensinavam para reproduzir (ou multiplicar os agentes capazes de manter)

    seu prprio estamento.

    Por qu? Ora, porque o livre aprendizado na rede social de ento no

    seria capaz de cumprir tal funo, que nada tinha a ver com sua

    sobrevivncia ou com sua convivncia. No se tem notcia de escola,

    ensino ou professores em sociedades de parceria. Quando a rede social foi

    subitamente centralizada pela configurao particular que se constelou

    com o surgimento do complexo cidade-templo-Estado, os programas

    verticalizadores que comearam a rodar nessa rede eram replicados em

    outras regies do espao e do tempo pela transmisso-recepo de seus

    cdigos e j havia programas elaborados, como os que os sumrios

    denominavam me (6) aos membros do mesmo grupo social.

  • 15

    Ou seja: j havia um ensinamento (secreto, por certo, acessvel somente

    aos membros do estamento). J havia ensinantes (os primeiros

    professores, membros da casta sacerdotal) e ensinados (os futuros

    administradores em formao).

    Essa hiptese fortalecida pela investigao das origens da Kabbalah. O

    smbolo central desse sistema de sabedoria a chamada rvore da Vida

    foi, sem dvida, herdado do simbolismo templrio do complexo Templo-

    Estado sumeriano, o qual deve ter passado ao judasmo posterior por

    intermdio da Golah a organizao dos cativos (sequestrados nas elites

    de Jerusalm) na Babilnia sob o reinado de Nabucodonozor e seu

    sucessor.

    No se sabe a origem da 'rvore da vida', mas ela aparece nas imagens da

    tamareira gravadas nas mais antigas tabuinhas sumerianas encontradas

    pelos escavadores. E aparece tambm com o mesmo esquema, que

    depois foi transmitido pela tradio (cabalstica) na forma de uma nave,

    ladeada por dois seres alados (com cabeas de guia). Uma nave talvez

    como as naves dos templos, at hoje que no sai do lugar, mas por meio

    da qual se pode viajar para os cus caso se tenha acesso ao

    combustvel adequado: ao fruto da vida e gua da vida...

    O mesmo schema bsico da rvore da vida, representada em vrios

    mundos que se interceptam (os da emanao, da criao, da formao e

    do produzir) compe o que foi chamado de Escada de Jac, uma escada

    pela qual os mensageiros ou as mensagens podem subir e descer

    estabelecendo os fluxos entre o cu e a terra. Isto anisotropia: o cu,

  • 16

    claro, fica em cima; a transmisso, claro, top down. E o esquema

    mais centralizado que distribudo (7).

    Essa ideologia de raiz babilnica (sumria) que, quase dois milnios

    depois, foi se chamar de Kabbalah (cabala), na Idade Mdia europeia, fez

    uma operao tremenda de engenharia memtica no smbolo original,

    ressignificando a rvore da vida como uma rvore do conhecimento,

    quer dizer, tomando a vida pelo conhecimento da vida e do que com ela

    foi feito... Isso significa obstruir o acesso vida, facultando-o somente aos

    que possuem o conhecimento (aquilo que a cabala chamou de

    ensinamento e que transmitido ento em uma cadeia, tida por

    ininterrupta, que comea com o arquimensageiro Raziel, passa para Enoc

    o escriba, no por acaso e da para os patriarcas e para os sacerdotes).

    Kabbalah vai designar, ento, essa tradio sacerdotal: conduo

    (transmisso-recepo) do ensinamento original por parte daqueles que

    so capazes de reproduzir esse mesmo padro de ordem sagrada, isto ,

    separada do vulgo, do profano, daquele que no foi ordenado.

    Isso tudo no somente fez, mas faz ainda, parte de uma experincia

    fundante de verticalizao do mundo, que prossegue enquanto a tradio

    permanece ou se refunda toda vez que o meme replicado. Do ponto de

    vista da memegonia, aqui pode estar a origem da relao mestre-discpulo

    ou professor-aluno.

    No foi a toa que uma mente arguta como a de Harold Bloom (1975)

    ecoando, alis, o que dizia o erudito Gershom Scholem percebeu que

    Kabbalah era uma ideologia de professores. Na origem de tudo est... uma

  • 17

    Instruo: o Ein-Sof instrui a Si mesmo atravs da concentrao... Deus

    ensina a Si mesmo o Seu prprio Nome, e, dessa forma, comea a criao

    (8).

    Nessa memegonia, Deus o primeiro professor e o ato de ensinar est na

    raiz do ato de criar o mundo. O conhecimento (via ensinamento) e no a

    existncia e a vida o objetivo: a origem e o alvo. Deus cria o mundo

    para se conhecer. Mas para se conhecer ele ensina, no aprende. Logo,

    seus delegados, ou intermedirios (os sacerdotes), tambm ensinam.

    Todo corpus sacerdotal docente.

    por isso que h uma enorme dificuldade de conciliar vises prprias de

    sistemas tradicionais de sabedoria com a viso-fluzz das redes de

    aprendizagem. A tradio - dita espiritual - com raras excees (como o

    Tao, mas no o taoismo; como o Zen - esse formidvel sistema de

    desconstituio de certezas -, mas no o budismo) em geral replicou

    atitudes mticas, sacerdotais, hierrquicas e autocrticas. Maturana

    levantou a hiptese da "brecha" (na civilizao patriarcal e guerreira) para

    mostrar como pde ter surgido a democracia (9).

    Mas, na verdade, no foi s a democracia que penetrou pela "brecha":

    vertentes utpicas, profticas, autnomas e democrticas floresceram ao

    longo da histria e continuam florescendo - intermitentemente - toda vez

    que comunidades conseguem estabelecer uma interface para conversar

    com a rede-me (10). Essas duas vertentes permaneceram e ainda

    permanecem em permanente tenso.

  • 18

    O professor como transmissor de ensinamento e a escola como aparato

    separado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram, inegavelmente,

    como instrumentos de reproduo de programas centralizadores que

    foram instalados para verticalizar a rede-me.

    De certo modo, os deuses do panteo patriarcal e guerreiro foram os

    primeiros programas memticos centralizadores (11). O tardio IHVH

    bblico ensinador encarna uma rotina desses programas (e

    representado por uma das sefirot um evento na 'rvore da vida'

    ressignificada, no mundo da emanao).

    Como os deuses do panteo patriarcal e guerreiro da Mesopotmia do

    perodo Uruk (c. 4000-3200) perodo sucedido, logo em seguida, no por

    acaso, pela escrita (no Primeiro Dinstico I: c. 3000-2750) foram criados

    imagem e semelhana dos homens que comearam a se organizar

    segundo padres hierrquicos, tudo isso muito relevante para

    entendermos que a transmisso do ensinamento j foi fundada, de certo

    modo, em contraposio ao livre aprendizado humano na rede social

    muito menos centralizada (ou at, quem sabe, distribuda) dos perodos

    pr-histricos anteriores (desde, pelo menos, o Neoltico).

    Para essas sociedades de dominao, nada de aprender (inventar). Era

    preciso ensinar (para replicar). E por isso ensinadores so mantenedores

    do velho mundo.

  • 19

    MMeessttrreess ee gguurruuss

    Todos so mestres uns dos outros enquanto se polinizam mutuamente

    H TAMBM OS QUE por fora dos sistemas formais de ensino ainda se

    intitulam (ou so por algum intitulados de) mestres ou gurus. Alguns so

    ordenados para tanto, quer dizer, tm reconhecida, sempre por uma

    organizao hierrquica, sua capacidade de reproduzir uma determinada

    ordem top down. E querem ento imprimi-lo, emprenh-lo, ou seja,

    enxertar suas ideias-implante em voc, para que voc se torne tambm

    um transmissor desse vrus.

    claro que existem outras interpretaes do papel do mestre. Osho, por

    exemplo, tentando explicar a correta intolerncia de Krishnamurti com os

    que se anunciam ou eram anunciados como mestres ou gurus coloca

    outra perspectiva ao dizer que um mestre no o ensina, ele simplesmente

    torna o seu ser disponvel para voc e espera que voc tambm faa o

    mesmo.

    E a vem a justificativa: A menos que algum raio do alm entre em seu

    ser, a menos que voc prove algo do transcendental, at mesmo o desejo

    de ser liberado no aparecer em voc. Um mestre no lhe d a liberao,

  • 20

    ele cria um desejo apaixonado pela liberao. A justificativa que ser

    muito difcil, quase impossvel, fazer isso por conta prpria (12).

    Mas quem disse que isso teria que ser feito por contra prpria? Ao

    tentar justificar sua crtica a Krishnamurti, Osho enveredou por um vis

    psicolgico individual. Ele no teria se curado do trauma de ter sido

    educado por pessoas muito autoritrias... professores, talvez, mas no

    mestres. Ento Osho afirma que tudo isso foi demais [para Krishnamurti]

    e ele no pode esquec-los e no pde perdo-los (13).

    No fundo, tudo isso soa mais como uma tentativa de salvar uma funo

    pretrita, resgatar um papel arcaico que, em alguma poca, funcionou de

    fato assim como ele, Osho, diz, porm em mundos de baixa conectividade

    social.

    J foi dito aqui que na medida em que vida humana e convivncia social se

    aproximam (nos mundos altamente conectados) somos obrigados a

    mudar nossas interpretaes. E que isso entra em choque com as

    tradies espirituais que diziam que quando o discpulo est preparado o

    mestre aparece. De certo modo justo o contrrio: o discpulo desaparece

    quando desaparece a escola (quer dizer o ensinamento) e com ele vai-se

    tambm o mestre.

    Isso para alguns um escndalo. Nos Highly Connected Worlds quem

    lhe reconhece o simbionte social, se voc se sintonizar suficientemente

    com a rede-me. No um representante da tradio, no um membro

    de uma casta sacerdotal ou de alguma hierarquia docente, nem mesmo

    um indivduo que despertou antes de voc a no ser que essa pessoa

  • 21

    (uma pessoa) seja a porta para que voc possa entrar em outros mundos.

    Mas neste caso essa pessoa eis o ponto! pode ser qualquer pessoa que

    esteja conectada a esses mundos onde voc quer entrar.

    Se algum pudesse recuar antes (e o que seria antes?) daquela noite dos

    tempos em que a rede-me comeou a rodar programas verticalizadores e

    pudesse dizer como uma comunidade conseguia entrar em sintonia com o

    simbionte natural (que talvez se confundisse em sociedades de parceria,

    pr-patriarcais, quem sabe em algum momento do Neoltico com a rede-

    me: sntese simbolizada na figura da grande me ou da deusa), talvez

    pudesse nos sugerir algum processo para reinventarmos tal sintonia com o

    simbionte social (o superorganismo humano). Mas, fosse qual fosse, sua

    resposta seria enxame (mltiplos caminhos em efervescncia) e no

    indivduo no caminho em busca da unidade perdida ou da sua origem

    celeste.

    No vale fazer recuar a noite dos tempos em que surgiram os sistemas

    mticos-sacerdotais-hierrquicos-autocrticos para coloc-los na origem

    de tudo com o fito de transformar a origem terrestre do humano em uma

    origem celeste. Essa operao ideolgica, urdida por esses mesmos

    sistemas, legitima o mestre como um veculo, um emissrio, um

    representante da suposta origem celeste (ainda quando existam mestres

    que reneguem tudo isso).

    No enxame voc j um mestre, todos so mestres uns dos outros

    enquanto no apenas buscam, mas se polinizam mutuamente e isso quer

    dizer que no existe um, no existe aquele mestre.

  • 22

    Mestres como ensinadores so mantenedores do velho mundo.

    Mesmo quando recusam tal papel, eles abrem caminho para os

    codificadores de doutrinas, aqueles cavadores de sulcos para fazer

    escorrer por eles as coisas que ainda viro.

  • 23

    CCooddiiff iiccaaddoorreess ddee ddoouuttrriinnaass

    Eles produzem narrativas para que voc veja o mundo a partir da sua

    tica, quer dizer, para que voc no veja os mltiplos mundos existentes

    CODIFICADORES DE DOUTRINAS so todos aqueles que querem

    pavimentar, com as suas crenas religiosas (e sempre o so, mesmo

    quando se declaram laicas), uma estrada para o futuro. Eles produzem

    narrativas ideolgicas totalizantes para que voc veja o mundo a partir da

    sua tica, quer dizer, para que voc no veja os mltiplos mundos

    existentes, mas apenas um mundo (o mundo arquitetado e administrado

    por eles: uma priso para a sua imaginao).

    Quando so (explicitamente) religiosos, os codificadores de doutrinas

    fornecem a justificativa para a ereo de igrejas e seitas. Quando so

    polticos, urdem a base conceitual para a formao de correntes e grupos

    de opinio onde a (livre) opinio propriamente dita no conta para quase

    nada: o que conta a ortodoxia de uma opinio oficial ou cannica, a qual

    tentam autenticar apelando para a revelao ou para a cincia. Em todos

    os casos so engenheiros memticos, manipuladores de ideias que

    inventam passado para legitimar certos caminhos (e deslegitimar outros)

    para o futuro. Fazem isso para controlar o seu futuro, para lev-lo (a sua

    alma ou o seu corpo) para algum lugar supostamente melhor, para um

  • 24

    paraso no cu ou na terra, quando, eles mesmos, no podem conhecer tal

    caminho (simplesmente porque no existe um caminho).

    Codificadores de doutrinas abrem espao para a ereo de igrejas, muitas

    vezes em contraposio experincia fundante ou suposta revelao

    que tomam como referncia. assim que os franciscanos, hoje puxando

    dinheiro com rodo (como dizia Frei Mateus Rocha, nos idos de 1970) (14),

    executam exatamente o contrrio do que pregava il poverello dAssisi

    (1182-1226). Tanto faz se tais igrejas so religiosas ou laicas: Paulo de

    Tarso (com o cristianismo) e Incio de Antioquia (com a igreja catlica)

    cumprem funes anlogas s de Lenin (com o materialismo dialtico e o

    materialismo histrico) e Stalin (com o PCUS) ou Trotski (com a Quarta

    Internacional).

    Os codificadores de doutrinas tambm so ensinadores e, de certo modo,

    gurus (no sentido em que a palavra empregada atualmente). So os

    abastecedores dos ensinadores que, em geral, transmitem ensinamentos

    que j foram codificados por eles. So, portanto, os verdadeiros

    fundadores de escolas, conquanto frequentemente dizendo-se a servio

    de um fundador j desaparecido (ou nunca aparecido).

  • 25

    AApprriissiioonnaaddoorreess ddee ccoorrppooss

    O fundamental para os aprisionadores de corpos manter seus

    trabalhadores fora do caos criativo

    APRISIONADORES DE CORPOS so aqueles que, no contentes em usar,

    comprar ou alugar, sua inteligncia humana (que no tem preo), querem

    tambm mant-lo cativo, fisicamente, nos seus prdios ou cercados. So

    feitores: antes usavam o chicote; hoje usam o relgio ou o livro de ponto,

    o crach magntico ou o banco de horas. Nas empresas ou organizaes

    hierrquicas, sejam privadas ou pblicas, sequestram seu corpo para

    manter voc por perto, para poder vigi-lo, para terem certeza de que

    voc est de fato trabalhando para eles (que coisa, heim?). No

    precisavam fazer isso se o seu objetivo fosse o de articular um trabalho

    coletivo compartilhado. Mas o objetivo deles no , na verdade,

    compartilhar nada com outros seres humanos e sim control-los-e-

    comand-los, em certo sentido desumaniz-los, embotando sua

    inteligncia, castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, para

    poder us-los como objetos, para terem-nos disponveis, sempre mo,

    tantas horas por dia: querem um rebanho de servos de prontido para

    lhes fazer as vontades. Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-

    eles e no para-eles no seria necessrio na imensa maioria dos casos

  • 26

    aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agenda conjunta, com

    tarefas e prazos.

    Mais de 90% dos empregadores so aprisionadores de corpos. Chefes de

    reparties governamentais, administradores de empresas e donos de

    ONGs costumam ser aprisionadores de corpos. Se as pessoas no tivessem

    que dormir e as leis permitissem, gostariam que elas ficassem sua

    disposio o tempo todo: 24 horas: tum, tum, tum...

    Ainda quando dizem o contrrio, eles no querem que voc empreenda,

    seja criativo, construa produtos ou processos inovadores e realize coisas

    maravilhosas e sim que voc trabalhe. Querem trabalho = repetio e

    execuo de ordens. Se quisessem criao, inovao, no lhe imporiam

    agendas estranhas (que voc no teve oportunidade de coconstruir), no

    lhe retalhariam o tempo em unidades controlveis, com horrios rgidos

    de entrada e sada em algum espao murado. Dariam a seus

    colaboradores (a todos) as melhores condies para inovar (alugariam,

    quem sabe, uma casa em uma ilha paradisaca, em uma chcara aprazvel

    ou mesmo em um bosque urbano, um horto, cultivariam jardins... em

    suma, no organizariam e decorariam seus locais de trabalho de modo

    to horrendo, sem cores, sem arte, tudo cinza, quadrado, como uma

    priso mesmo, ou um convento) e, sobretudo, no reduziriam sua

    mobilidade: uma dimenso essencial da sua liberdade para criar.

    O fundamental para os aprisionadores de corpos manter seus

    trabalhadores fora do caos criativo, proteg-los do seu prprio esprito

  • 27

    empreendedor. Ento, para esteriliz-lo, colocam voc na pirmide. Sim,

    aprisionadores de corpos so tambm construtores de pirmides.

  • 28

    CCoonnssttrruuttoorreess ddee ppiirrmmiiddeess

    O indivduo no o tomo social; para ser social preciso ser molcula

    OS CONSTRUTORES DE PIRMIDES tambm surgiram naquela noite dos

    tempos em que a rede-me passou a rodar programas verticalizadores.

    Talvez os primeiros construtores de pirmides tenham sido mesmo os...

    construtores de pirmides, no apenas as do Egito, mas tambm os

    zigurates mesopotmicos. Mas todas as pirmides que vm sendo

    construdas ao longo do chamado perodo civilizado evocam o mesmo

    padro vertical surgido pela perturbao do campo social introduzida pela

    hierarquia. No so, entretanto, apenas arquitetos, engenheiros e mestres

    de obra que projetam, comandam e controlam o trabalho de erigir

    construes fsicas. Construtores de pirmides so os que erigem

    organizaes hierrquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrig-

    los a fazer (ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seu

    assentimento ou consentimento ativo.

    So os chefes de instituies hierrquicas. So organizadores de pessoas

    como se pessoas fossem coisas. Toda organizao hierrquica uma

    arquitetura com pessoas, uma construo forada, coisificante, onde as

    pessoas so tratadas como tijolos ou outro material qualquer: Ento

  • 29

    colocamos uma aqui, outra em cima dessa, outra abaixo, bem ali; pa!

    Cuidado, no est encaixando bem; ento quebra um pedao aqui,

    desbasta ali, martela com fora que entra...

    Replicadores e trancadores so construtores de pirmides. Replicadores

    so todos os que se dedicam a repetir uma ordem pretrita. So,

    portanto, ensinadores (estaes repetidoras do que foi forjado, em

    geral, pelos codificadores de doutrinas). Para exercer tal papel,

    entretanto, eles constroem, invariavelmente, estruturas centralizadas ou

    verticalizadas sejam escolas, sociedades, maonarias e assemelhadas,

    partidos ou corporaes ou qualquer outra burocracia que viva da

    repetio e da inculcao de um conjunto de ideias ou vises de mundo

    urdidas para prorrogar passado e, nesse sentido, so construtores de

    pirmides.

    Trancadores so os que privatizam bens que poderiam ser comuns (ou

    que no poderiam ser trancados, como o conhecimento). Trancadores de

    conhecimento so, por exemplo, os que defendem o domnio privado

    sobre o conhecimento, como as leis de patentes e o famigerado copyright.

    Um dos tipos contemporneos de trancadores relevante pelo efeito

    devastador que sua atividade provoca na antessala de uma poca-fluzz

    so os trancadores de cdigos, que esto entre os mais bem-sucedidos

    inventores de softwares proprietrios da atualidade Ao construrem

    caixas-pretas para esconder seus algoritmos (como fazem os donos do

    Google ou do Twitter) ou para montar seus alapes de dados (como faz o

    dono do Facebook), eles acabam tendo que construir pirmides para

  • 30

    proteger suas operaes centralizadoras da rede social. No por acaso

    que as plataformas que desenham a partir de uma instncia proprietria

    tentem disciplinar a interao. Essa a razo pela qual as plataformas

    ditas interativas de que dispomos no so suficientemente interativas (i-

    based), posto que baseadas na adeso e, no mximo, na participao

    (envolvendo sempre algum tipo de escolha de preferncias geradora de

    escassez) e no arquivamento de passado (para aumentar o repositrio ao

    qual, a rigor, s os proprietrios dessas plataformas tm pleno acesso na

    medida em que s eles podem program-las sem restries).

    E essa tambm a razo pela qual tais plataformas deseducam (se se

    pode falar assim) seus usurios (a palavra usurio j horrvel do

    ponto de vista da interao) para as redes distribudas. Ento uma pessoa

    entra em alguma dessas plataformas e tende a achar que a sua pgina o

    seu espao proprietrio a partir do qual ela vai interagir. Em vez de entrar

    em um fluxo, ela se aboleta no seu bunker (s vezes chamado de Minha

    Pgina) e induzida a achar que ali pode colocar todos os seus vdeos,

    suas fotos, seus eventos e seus posts, independentemente do que est

    rolando na rede que usa tal plataforma como ferramenta de netweaving

    e, no raro, sente-se at ofendida quando algum lhe lembra de que o

    concurso de Miss Universo no tem muito a ver com astrofsica.

    A soluo para tal problema no fugir para trs, voltando aos blogs,

    como sonham alguns. Ainda que a blogosfera seja de fato, no seu

    conjunto, uma rede distribuda, os blogs, em si, no se estruturam de

    modo distribudo. Em geral so organizaes fechadas, que no admitem

    interao a no ser com aprovao prvia dos seus donos (por meio da

  • 31

    chamada mediao de comentrios). Mesmo quando so abertos a

    qualquer comentrio, os blogs so piramidezinhas, espcies de reinados

    do eu-sozinho. No so bons instrumentos de netweaving de redes sociais

    distribudas na medida em que no so, eles prprios, redes distribudas.

    No existem tecnologias de netweaving capazes de colocar um conjunto

    de blogs em um meio eficaz de interao. Ademais, a mentalidade dos

    bloggers no acompanhou a inovao que, objetivamente, sua atividade

    representa. E muitos daqueles que fazem o proselitismo das redes

    distribudas nos seus blogs, organizam, l no seu quadrado, suas igrejinhas

    hiper-centralizadas, algumas vezes quase-monrquicas (15). Ou seja, so

    tambm construtores de pirmides.

    O que est por trs disso tudo a idia de que o indivduo o tomo

    social, quando, na verdade, para ser social, preciso ser molcula. Pessoas

    so produtos de interao e no unidades anteriores interao.

  • 32

    FFaabbrriiccaanntteess ddee gguueerrrraass

    O nico inimigo que existe o fazedor de inimigos

    FABRICANTES DE GUERRAS so, stricto sensu, os chefes militares e, lato

    sensu, os que pervertem a poltica como arte da guerra e os que se

    entregam competio adversarial tendo como objetivo destruir seus

    concorrentes. So, todos, predadores. O predador (humano) uma

    mquina de converter o semelhante em inimigo. Mas preciso considerar

    que no existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade

    circunstancial e pode ser desconstituda pela aceitao do outro no

    prprio espao de vida, pelo acolhimento, pelo dilogo, pela cooperao.

    Assim, o (nico) inimigo que existe mesmo o fazedor de inimigos.

    Na civilizao patriarcal e guerreira viramos seres cindidos interiormente.

    O predador um produto dessa quebra da unidade sinrgica do simbionte

    (que poderemos ser no futuro, se anteciparmos esse futuro). Preda

    porque quer recuperar, devorando, suas contrapartes, em um ritual

    antropofgico em busca da unidade perdida (aquela origem que o alvo,

    para usar a expresso de Karl Kraus). por isso que nos apegamos tanto

    guerra do bem contra o mal. Mas o problema, como disse Schmookler,

    que o recurso da guerra em si o mal (16).

  • 33

    Toda vez que voc quer triunfar sobre o mal, combater o bom combate,

    derrotar o lado negro da Fora, voc fabrica guerra. Estatistas,

    hegemonistas, conquistadores, vencedores so todos fabricantes de

    guerras. Toda vez que voc olha o mundo como um terreno inspito,

    como uma ameaa, como algo a enfrentar, voc fabrica guerra.

    Estrategistas de qualquer tipo, sejam ou no justificveis seus esforos

    chamem-se Winston Churchill ou Michel Porter , so fabricantes de

    guerras. Boa parte dos incensados consultores de empresas da atualidade

    so fabricantes de guerras: apenas deslizam conceitos da arte da guerra

    para as estratgias empresariais que transformam o concorrente em

    inimigo.

    claro que tudo isso revela uma no-aceitao da democracia. A guerra

    sempre um modo autocrtico de regulao de conflitos, seja a guerra

    declarada ou aberta, seja a guerra fria, seja a poltica praticada como arte

    da guerra, seja a concorrncia empresarial adversarial que trata o outro

    como inimigo.

  • 34

    CCoonndduuttoorreess ddee rreebbaannhhooss

    O modo intransitivo de fluio que gera o fenmeno da popularidade do

    lder de massas uma sociopatia

    CONDUTORES DE REBANHOS so, em geral, os lderes que alcanaram

    popularidade pelo broadcasting para guiar as massas. Algumas vezes esses

    lderes so carismticos e se dedicam a mesmerizar multides em

    comcios, reunies e manifestaes. Ou pela TV e pelo rdio. Quase

    sempre so pessoas pesadas, que usam sua gravitatem em benefcio

    prprio ou de um grupo, para reter em suas mos o poder pelo maior

    tempo que for possvel, transformando os outros em seus satlites. E

    odeiam os princpios de rotatividade ou alternncia democrtica.

    Considere-se que, do ponto de vista social (ou coletivo, da rede), o modo

    intransitivo de fluio que gera o fenmeno da popularidade do lder de

    massas uma sociopatia.

    O liderancismo uma praga que vem contaminando as organizaes de

    todos os setores: segundo tal ideologia, a liderana s boa se no puder

    ser exercida por todos, s por alguns. Assim, no se deve estimular a

    multi-liderana, seno afirmar a precedncia da mono-liderana, do lder

    providencial e permanente, a prevalncia do mesmo lder em todos os

  • 35

    assuntos e atividades, como se essa a liderana fosse uma qualidade

    rara, de origem gentica ou fruto de uma uno extra-humana.

    Condutores de rebanhos se dirigem sempre s massas no s pessoas

    com o objetivo de comand-las e control-las, sejam ditadores ou

    manipuladores. So marqueteiros de si-mesmos e, como tais, vendedores

    de iluses (diga-se o que se quiser dizer, o marketing uma atividade

    muito problemtica, que no visa formar novas identidades a partir da

    construo de pactos com os stakeholders de uma determinada iniciativa

    e sim disseminar, via de regra por broadcasting, alguma iluso).

    Sacerdotes (stricto sensu), pastores e polticos profissionais so tambm

    vendedores de iluses assim como todos os que prometem e no

    cumprem, no sentido de que vendem e no-entregam (o que vendem).

    Mas reserva-se a categoria de condutores de rebanhos para os que

    pretendem liderar massas, comov-las e mobiliz-las para que lhes sigam.

    Na coletnea Histrias do Sr. Keuner, que rene textos de Bertold Brecht

    escritos entre 1926 e 1956, encontra-se a deliciosa parbola Se os

    Tubares Fossem Homens (17):

    Se os tubares fossem homens, eles fariam construir resistentes

    caixas do mar para os peixes pequenos... A aula principal seria

    naturalmente a formao moral dos peixinhos. Eles seriam

    ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo o sacrifcio

    alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos

    tubares, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro

  • 36

    dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro s estaria

    garantido se aprendessem a obedincia...

    Se os tubares fossem homens, eles naturalmente fariam guerra

    entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos

    estrangeiros. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos

    inimigos da outra lngua... seria condecorado com uma pequena

    ordem das algas e receberia o ttulo de heri...

    Tambm haveria uma religio ali. Se os tubares fossem homens,

    eles ensinariam essa religio. De que s na barriga dos tubares

    que comearia verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubares

    fossem homens, tambm acabaria a igualdade que hoje existe entre

    os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima

    dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam

    inclusive comer os menores... E os peixinhos maiores que deteriam

    os cargos velariam pela ordem entre os peixinhos para que estes

    chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros de construo de

    caixas e assim por diante. Curto e grosso, s ento haveria

    civilizao no mar, se os tubares fossem homens.

    No poderia haver um fecho melhor para a reflexo deste texto. Brecht,

    provavelmente, criou a metfora entre tubares e peixinhos no contexto

    da luta de classes entre patres e trabalhadores. No entanto, ela tomada

    aqui para fazer referncia aos mantenedores do velho mundo nico que

    surgem em configuraes deformadas do campo social. Que tipos de

  • 37

    configuraes ensejam a reproduo de tubares em vez de, por exemplo,

    golfinhos?

    Como j foi dito, frequentemente as caractersticas das funes

    agenciadoras do velho mundo se misturam, incidindo, em maior ou menor

    grau, em uma mesma configurao de pessoas. assim que ensinadores

    replicam ensinamentos forjados por codificadores de doutrinas que, por

    sua vez, constroem pirmides para aprisionar corpos e tudo isso feito

    em nome da necessidade de derrotar um inimigo que ameaa alguma

    identidade imaginria que foi artificialmente construda, no raro exigindo

    que grandes contingentes de pessoas fossem arrebanhadas (e

    despersonalizadas) por condutores de rebanhos para enfrentar tal

    inimigo, ele prprio construdo sempre para justificar alguma hierarquia

    que foi erigida. Tudo isso usar a Fora para enfrear e represar fluzz.

    Conquanto resilientes, essas velhas funes do mundo nico exercidas,

    invariavelmente, para exterminar outros mundos, no tm conseguido

    barrar os novos papis-sociais-fluzz que comeam a emergir.

  • 38

    NNoottaass ee rreeffeerrnncciiaass

    (*) A palavra fluzz nasceu de uma conversa informal do autor, no incio

    de 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autor

    observava que Buzz no captava adequadamente o fluxo da conversao,

    argumentando que era necessrio criar outro tipo de plataforma (i-

    based e no p-based, quer dizer, baseada em interao, no em

    participao). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeio fluzz, na

    ocasio mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idia de

    Buzz+fluxo. Ulteriormente a idia foi desenvolvida no livro-me Fluzz: vida

    humana e convivncia social nos novos mundos altamente conectados do

    terceiro milnio (2011) e passou a no ter muito a ver com o programa

    malsucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) um conceito complexo,

    sinttico, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: Tudo que

    flui fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz o fluxo, que no pode ser

    aprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz do metabolismo da

    rede. Ah!, sim, redes so fluies. Fluzz evoca o curso constante que no se

    expressa e que no pode ser sondado, nem sequer pronunciado do lado

    de fora do abismo: onde habitamos. No lado de dentro do abismo no

    h espao nem tempo, ou melhor, h apenas o espao-tempo dos fluxos.

    de l que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...

    Em outras palavras, no existe uma mesma realidade para todos: so

  • 39

    muitos os mundos. Tudo depende das fluies em que cada um se move,

    dos emaranhamentos que se tramam, das configuraes de interao que

    se constelam e se desfazem, intermitentemente.

    Este texto foi originalmente escrito e publicado em 2011 no livro Fluzz:

    vida humana e convivncia social nos novos mundos altamente

    conectados do terceiro milnio. So Paulo: Escola de Redes, 2011.

    (1) ABRAHAM, Ralph (1992) in ABRAHAM, Ralph, McKENNA, Terence &

    SHELDRAKE, Rupert (1992). Caos, criatividade e retorno do sagrado:

    trilogos nas fronteiras do Ocidente, So Paulo: Cultrix, 1994.

    (2) KRAMER, Samuel (1956). A histria comea na Sumria. Lisboa:

    Europa-Amrica, 1977.

    (4) CAMPBELL, Joseph (1959): As mscaras de Deus (Volume I). So Paulo:

    Palas Athena, 1998.

    (3) ABRAHAM. Ralph, McKENNA, Terence & SHELDRAKE, Rupert (1992).

    Caos, criatividade e o retorno do sagrado: trilogos nas fronteiras do

    Ocidente. So Paulo: Cultrix, 1994.

    (5) LEICK, Gwendolyn (2001): Mesopotmia: a inveno da cidade. Rio de

    Janeiro: Imago, 2003.

    (6) Os me continuam sendo um enigma para os historiadores. A

    antroploga e assiriloga Gwendolyn Leick (2001), no seu livro

    Mesopotmia: a inveno da cidade (ed. cit.), escreve: Eridu, como a

    manifestao primria do Apsu, tambm era considerada o lugar do

  • 40

    conhecimento, a fonte da sabedoria, sob o controle de Enki. Numerosas

    narrativas foram elaboradas em torno desse conceito. Eridu, como

    respositrio de decretos divinos descrita em uma narrativa sumria

    chamada Enki e Inanna. Enki, escondido no Apsu, est na posse de todos

    os me, termo sumeriano que abrange todas aquelas instituies, leis,

    formas de comportamento social, emoes e smbolos de carga que, em

    sua totalidade, eram vistos como indispensveis ao funcionamento regular

    do mundo. Esses me pertenciam a Eridu e a Enki. Entretanto, Inanna,

    deusa da cidade de Uruque, deseja obter os me para si prpria e lev-los

    para Uruque. Com esse fim, ela desfralda velas para chegar a Eridu de

    barco, sempre o caminho mais fcil para ir de uma cidade da

    Mesopotmia a outra. Enki toma conhecimento da chegada de Inanna e

    preocupa-se com as intenes dela. Instrui o seu vizir para a receber com

    todas as honras e preparar um banquete, no qual ambas as deidades

    bebem muita cerveja. Enki no tarda em adormecer, deixando o caminho

    livre para Inanna carregar os preciosos me em seu barco, um por um, e

    zarpar. Quando Enki desperta da bria sonolncia e d-se conta do que

    aconteceu, procura usar sua magia em uma tentativa de recuperar os

    me. Inanna consegue rechaar os demnios perseguidores e chegar s e

    salva a Uruque. O desfecho da histria no claro, pois nenhuma das

    verses existentes do texto est suficientemente preservada, mas parece

    que uma terceira deidade logra a reconciliao entre Inanna e Enki. Esta ,

    obviamente, uma tpica histria de Uruque, concentrando-se nas deusas

    locais e em seu poder superior. Ao libertar os me das profundezas do

    Apsu, Inanna podia no s ampliar seus prprios poderes, mas tambm

    fazer valer os seus decretos entre os humanos. A lista dos me inclui a

  • 41

    realiza, as funes sacerdotais, os ofcios e a msica, assim como as

    relaes sexuais, a prostituio, a velhice, a justia, a paz, o silncio, a

    calnia, o perjrio, as artes dos escribas e a inteligncia, entre muitos

    outros.

    Muitos anos antes, o famoso sumeriologista Samuel Noah Kramer (1956),

    em From the Tablets of Sumer (ed. cit.) j havia observado:

    Finalmente chegamos aos me, as leis divinas, normas e regras que,

    segundo os filsofos sumrios, governam o universo desde os dias da sua

    criao e o mantm em funcionamento. Neste domnio possumos

    considervel documentao direta, particularmente em relao ao me

    que governam o homem e a sua cultura. Um dos antigos poetas sumrios,

    ao compor ou redigir um dos seus mitos, julgou que vinha a propsito dar

    uma lista dos me relacionados com a cultura. Divide a civilizao,

    segundo o conhecimento que dela tinha, em uma centena de elementos.

    No estado atual do texto so apenas inteligveis cerca de sessenta e alguns

    so palavras mutiladas que, sem contexto explicativo, apenas nos do

    uma vaga idia do seu real sentido. Mas ainda subsistem os suficientes

    para nos mostrar o carter e a importncia da primeira tentativa

    registrada de anlise da cultura, que resultou em uma lista considervel de

    o que hoje geralmente designado por elementos e complexos culturais.

    Estes compem-se de vrias instituies, certas funes de hierarquia

    sacerdotal, instrumentos de culto, comportamentos intelectuais e afetivos

    e diferentes crenas e dogmas. Eis a lista das partes mais inteligveis e

    seguindo a prpria ordem escolhida pelo antigo escritor sumrio: 1

    Soberania; 2 Divindade; 3 - A sublime e permanente coroa; 4 - O trono

  • 42

    real; 5 - O sublime cetro; 6 - As insgnias reais; 7 - O sublime santurio; 8 -

    O pastoreio; 9 - A realeza; 10 - A durvel senhoria; 11 - A divina senhora

    (dignidade sacerdotal); 12 O ishib (dignidade sacerdotal); 13 O lumah

    (dignidade sacerdotal); 14 O gutug (dignidade sacerdotal) [A lista

    segue at o nmero 67].

    Essas frmulas divinas (os me) reforam a idia da existncia de uma

    espcie de prottipo. Os me parecem ser cdigos replicativos para criar e

    reproduzir um determinado tipo de civilizao (ou padro societrio). A

    existncia material ou ideal dos me como conhecimentos armazenveis

    em objetos que podiam ser transportados, evidencia que os sumrios no

    apenas desenvolveram historicamente o que chamamos de civilizao.

    Eles tambm sistematizaram teoricamente um modelo dessa civilizao

    para ser replicado em outros locais.

    Mas o mais relevante a ordem em que aparecem tais elementos

    culturais. Os seres humanos e suas caractersticas prprias e qualidades

    distintivas s vo surgir l pelo quadragsimo lugar. O schema mtico,

    sacerdotal, hierrquico e autocrtico. Alis, pode-se dizer que essas

    frmulas divinas so frmulas da autocracia em estado puro.

    E havia um ensinamento organizado sobre tudo isso. Pois bem. Tal

    ensinamento a ser replicado foi o motivo de haver um ensino. Para mais

    informaes pode-se ler os textos indicados por LEICK (2001) e por

    KRAMER (1956). Ou pode-se tentar decifrar o material disponvel:

  • 43

    Inana and Enki: cuneiform source translation at ETCSL (The Electronic Text

    Corpus of Sumerian Literature, University of Oxford, England) in ETCSL

    translation:

    http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.3.1#

    Cf. ainda: What are me anyway? in Sumerian Mythology FAQ:

    http://home.comcast.net/~chris.s/sumer-faq.html#A1.5

    (7) Existem outras maneiras no verticais de representar essa rvore das

    Sefirot. Cf. o blogpost Sobre Kabbalah e redes: um abstruso paralelo

    heurstico:

    http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/sobre-kabbalah-e-redes-um

    (8) BLOOM, Harold (1975). Cabala e crtica. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

    (9) MATURANA, Humberto & VERDEN-ZLLER, Gerda (1993). Amor y

    Juego: fundamentos olvidados de lo humano desde el Patriarcado a la

    Democracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.

    (Existe traduo brasileira: Amar e brincar: fundamentos esquecidos do

    humano. So Paulo: Palas Athena, 2004).

    (10) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas vises sobre a

    sociedade, o desenvolvimento, a internet, a poltica e o mundo

    glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.

    (11) FRANCO, Augusto (2008): O Olho de Hrus. Disponvel em

    http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/o-olho-de-horus

  • 44

    (12) OSHO (Bhagwan Shree Rajneesh) (1978). A revoluo: conversas

    sobre Kabir. So Paulo: Academia de Inteligncia, 2008.

    (13) Idem.

    (14) Comunicao pessoal ao autor de Jos Rocha: Frei Mateus Rocha

    (1923-1985). Para saber quem foi Jos Rocha cf. POLETTO, Ivo (org.)

    (2003). Frei Mateus Rocha: um homem apaixonado pelo absoluto. So

    Paulo: Loyola, 2003.

    (15) Agregadores de blogs que foram inventados com base em RSS no

    resolvem o problema. O fato de se ter vrios blogs em uma mesma

    pgina, atualizando automaticamente as primeiras palavras das postagens

    mais recentes de cada blog, no garante, nem favorece muito, qualquer

    tipo de interao mais efetiva. Esses softwares produzem apenas ndices

    ilustrados dos blogs que foram agregados por iniciativa nica e exclusiva

    do administrador da pgina. Caso haja reciprocidade, ou seja, se todos os

    agregados por um blog tambm agregarem os demais nos seus blogs,

    essas ferramentas so boas para formar um grupo seleto (e

    necessariamente pequeno, por motivos bvios) de pessoas que se leem.

    Tambm podem ser bastante teis no caso de uma corporao (onde,

    porm, o acesso pgina agregada , via de regra, fechado, pois, afinal,

    uma corporao precisa se proteger da concorrncia...) ou de uma

    comunidade j existente. Mas, em geral, no so ferramentas eficazes de

    netweaving, pois ningum fica sabendo a no ser que abra

    seguidamente, vrias vezes por dia, todos os blogs o que cada um est

    dizendo, no seu prprio blog, sobre o que outros postaram, nos deles.

  • 45

    Ademais, no so viveis para organizar o compartilhamento de agendas

    (a nica coisa que pode realmente produzir comunidade). As velhas

    listas de e-mails com seus fruns derivados so mais eficazes para esse

    propsito.

    (16) SCHMOOKLER, Andrew (1991): O reconhecimento de nossa ciso

    interior in ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro da

    Sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. So

    Paulo: Cultrix, 1994.

    (17) BRECHT, Bertold (1926-1956). Histrias do Sr. Keuner. So Paulo:

    Editora 34, 2006.

  • 46

    Augusto de Franco escritor, palestrante e consultor. o criador e um

    dos netweavers da Escola-de-Redes uma rede de pessoas dedicadas

    investigao sobre redes sociais e criao e transferncia de tecnologias

    de netweaving. autor de mais de duas dezenas de livros sobre

    desenvolvimento local, capital social, democracia e redes sociais.