Os mantenedores do velho mundo

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O O S S M M A A N N T T E E N N E E D D O O R R E E S S D D O O V V E E L L H H O O M M U U N N D D O O AUGUSTO DE FRANCO 2011 A Força era um conceito complexo e difícil. A Força estava enraizada no equilíbrio de todas as coisas, E todo movimento dentro de seu fluxo arriscava um desequilíbrio nessa harmonia. Terry Brooks em Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999) A força (Te) não é (um querer) induzir alguém (ou alguma coisa) a seguir um caminho prefigurado e sim (um deixar) fluir com o curso (Tao). O autor em Desobedeça (2010) CONHECIMENTO ATESTADO POR TÍTULOS, fama, riqueza e poder são indicadores de sucesso adequados às sociedades hierárquicas. São coisas que só alguns podem ter, não todos. São coisas que alguns podem ter em detrimento dos outros. Assim o sábio se destaca dos ignorantes (ou o titulado do não titulado, até na cadeia), o famoso não se mistura com o zé-ninguém, o rico vive entre os ricos para ficar mais rico e não se relaciona com o pobre (que como sabemos continua pobre porque seus amigos são pobres) e o poderoso só consegue exercer seu poder porque os que (acham que) não têm poder lhe prestam obediência. Os critérios de sucesso competitivo são, na verdade, mais do que indicadores: são ordenações da sociedade hierárquica.

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Augusto de Franco (2011)

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  • 1. OS M AN T E NED O RES DO VELHO MUNDO AUGUSTO DE FRANCO 2011 A Fora era um conceito complexo e difcil. A Fora estava enraizada no equilbrio de todas as coisas, E todo movimento dentro de seu fluxo arriscava um desequilbrio nessa harmonia. Terry Brooks em Star Wars Episdio I: A Ameaa Fantasma (1999) A fora (Te) no (um querer) induzir algum (ou alguma coisa) a seguir um caminho prefigurado e sim (um deixar) fluir com o curso (Tao). O autor em Desobedea (2010)CONHECIMENTO ATESTADO POR TTULOS, fama, riqueza e poder soindicadores de sucesso adequados s sociedades hierrquicas. Socoisas que s alguns podem ter, no todos. So coisas que algunspodem ter em detrimento dos outros. Assim o sbio se destaca dosignorantes (ou o titulado do no titulado, at na cadeia), o famosono se mistura com o z-ningum, o rico vive entre os ricos para ficarmais rico e no se relaciona com o pobre (que como sabemos scontinua pobre porque seus amigos so pobres) e o poderoso sconsegue exercer seu poder porque os que (acham que) no tmpoder lhe prestam obedincia. Os critrios de sucesso competitivoso, na verdade, mais do que indicadores: so ordenaes dasociedade hierrquica.
  • 2. O fato que, os que tiveram sucesso ou venceram no mundo docomando-e-controle, em grande parte, venceram aplicando esquemasde comando-e-controle. Venceram e foram reconhecidos comovencedores porque aplicaram esquemas de comando-e-controle; ouseja, porque replicaram um determinado padro de ordem (e, paratanto, como se tivessem recebido uma ordenao).Dentre os que fazem sucesso na sociedade hierrquica e de massaencontram-se, claro, pessoas esforadas, criativas ou inovadoras,talentos extraordinrios e gnios incontestes. Mas esto l tambm em nmero to grande para derrubar o mito de que o sucesso umprmio pelo talento os agentes reprodutores desse tipo desociedade, como, por exemplo, os colecionadores de diplomas, osvendedores de iluses, os marqueteiros de si mesmos, osaprisionadores de corpos, os ensinadores ou burocratas sacerdotaisdo conhecimento, os codificadores de doutrinas, os aprisionadores decorpos, os construtores de pirmides, os fabricantes de guerras e oscondutores de rebanhos.No se trata de inculpar esses tipos por todo mal que assola ahumanidade. Eles so apenas agentes inconscientes da reproduodo sistema. Eles no existem propriamente como indivduos. Noadianta para nada tentar nome-los: eles so legio (Mc 5: 9),entidades inumerveis configuradas nas redes sociais, quandocampos perturbados pela presena da hierarquia aglomeram eenxameiam no contra-fluzz (*).EnsinadoresOs primeiros ensinadores os sacerdotes ensinavam parareproduzir (ou multiplicar os agentes capazes de manter) seu prprioestamentoENSINADORES SO OS QUE COMPEM a burocracia privatizadora doconhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas eacademias.Os ensinadores surgiram naquela noite dos tempos que o matemticoRalph Abraham (1992) chamou de precedente sumeriano (1). surpreendente constatar, como fizeram Joseph Campbell, SamuelNoah Kramer e outros renomados sumeriologistas, que os elementoscentrais da nossa cultura, dita civilizada, compareciam em uma 2
  • 3. espcie de modelo ou prottipo ensaiado em complexos do tipocidade-templo-Estado como Eridu, Nippur, Uruk, Kish, Acad, Lagash,Ur, Larsa e Babilnia. Esse modelo j estava em plenofuncionamento, segundo interpretaes de relatos que no puderamser contestadas, a partir do quarto milnio. Em particular a obra deKramer (1956): A histria comea na Sumria, revela as razessumerianas do atual padro civilizatrio (2).Joseph Campbell (1959), em As Mscaras de Deus, redigiu umaespcie de termo de referncia para esta investigao (3): Um importante desenvolvimento, repleto de significado e promessas para a histria da humanidade nas civilizaes por vir, ocorreu... [por volta] (de 4.000 a. C.), quando algumas aldeias camponesas comearam a assumir o tamanho e a funo de cidades mercantis e houve uma expanso da rea cultural... pelas plancies lodosas da Mesopotmia ribeirinha. Esse o perodo em que a misteriosa raa dos sumrios apareceu pela primeira vez em cena, para estabelecer-se nos terrenos das plancies trridas do delta do Tigre e do Eufrates, que se tornariam em breve as cidades reais de Ur, Kish, Lagash, Eridu, Sipar, Shuruppak, Nipur e Erech... E ento, de sbito... surge naquela pequena regio lodosa sumria como se as flores de suas minsculas cidades subitamente vicejassem toda a sndrome cultural que a partir de ento constituiu a unidade germinal de todas as civilizaes avanadas do mundo. E no podemos atribuir esse evento a qualquer conquista da mentalidade de simples camponeses. Tampouco foi a conseqncia mecnica de um mero acmulo de artefatos materiais, economicamente determinados. Foi a criao factual e claramente consciente (isto pode ser afirmado com total certeza) da mente e cincia de uma nova ordem de humanidade que jamais havia surgido na histria da espcie humana: o profissional de tempo integral, iniciado e estritamente arregimentado, sacerdote de templo.Respeitados estudiosos confessam at hoje sua perplexidade dianteda constelao desse precedente sumeriano (para insistir na felizexpresso do matemtico Ralph Abraham). o caso, por exemplo, daantroploga e assiriloga Gwendolyn Leick, que leciona em Richmond(Londres). No seu Mesopotmia: a inveno da cidade (2001), eladeclara que muito se tem escrito sobre o sbito aparecimento dossumrios na Mesopotmia e suas possveis origens... [mas] a questoda origem dos sumrios continua aguardando soluo, e tudo o quepodemos dizer que, no incio do Primeiro Dinstico, sua lngua foiescolhida para ser vertida em escrita. Talvez os sumrios se tivessem 3
  • 4. tornado politicamente dominantes e exercido o controle dos centrosde formao de escribas nas primeiras cidades (5).Essa casta ou estamento composta pela burocracia sacerdotal queadministrava as nascentes cidades-templo-Estado sumerianas configurou o primeiro padro de transmisso de ensinamento.Ensinavam como um imperativo para reproduzir seu prprioensinamento; quer dizer, ensinavam para reproduzir (ou multiplicaros agentes capazes de manter) seu prprio estamento.Por qu? Ora, porque o livre aprendizado na rede social de ento noseria capaz de cumprir tal funo, que nada tinha a ver com suasobrevivncia ou com sua convivncia. No se tem notcia de escola,ensino ou professores em sociedades de parceria. Quando a redesocial foi subitamente centralizada pela configurao particular que seconstelou com o surgimento do complexo cidade-templo-Estado, osprogramas verticalizadores que comearam a rodar nessa rede eramreplicados em outras regies do espao e do tempo pela transmisso-recepo de seus cdigos e j havia programas elaborados, comoos que os sumrios denominavam me (6) aos membros do mesmogrupo social.Ou seja: j havia um ensinamento (secreto, por certo, acessvelsomente aos membros do estamento). J havia ensinantes (osprimeiros professores, membros da casta sacerdotal) e ensinados (osfuturos administradores em formao).Essa hiptese fortalecida pela investigao das origens daKabbalah. O smbolo central desse sistema de sabedoria a chamadarvore da Vida foi, sem dvida, herdado do simbolismo templriodo complexo Templo-Estado sumeriano, o qual deve ter passado aojudasmo posterior por intermdio da Golah a organizao doscativos (sequestrados nas elites de Jerusalm) na Babilnia sob oreinado de Nabucodonozor e seu sucessor.No se sabe a origem da rvore da vida, mas ela aparece nasimagens da tamareira gravadas nas mais antigas tabuinhassumerianas encontradas pelos escavadores. E aparece tambm como mesmo esquema, que depois foi transmitido pela tradio(cabalstica) na forma de uma nave, ladeada por dois seres alados(com cabeas de guia). Uma nave talvez como as naves dostemplos, at hoje que no sai do lugar, mas por meio da qual sepode viajar para os cus caso se tenha acesso ao combustveladequado: ao fruto da vida e gua da vida... 4
  • 5. O mesmo schema bsico da rvore da vida, representada em vriosmundos que se interceptam (os da emanao, da criao, daformao e do produzir) compe o que foi chamado de Escada deJac, uma escada pela qual os mensageiros ou as mensagens podem subir e descer estabelecendo os fluxos entre o cu e a terra.Isto anisotropia: o cu, claro, fica em cima; a transmisso, claro, top down. E o esquema mais centralizado que distribudo(7).Essa ideologia de raiz babilnica (sumria) que, quase dois milniosdepois, foi se chamar de Kabbalah (cabala), na Idade Mdia europeia,fez uma operao tremenda de engenharia memtica no smbolooriginal, ressignificando a rvore da vida como uma rvore doconhecimento, quer dizer, tomando a vida pelo conhecimento davida e do que com ela foi feito... Isso significa obstruir o acesso vida, facultando-o somente aos que possuem o conhecimento (aquiloque a cabala chamou de ensinamento e que transmitido ento emuma cadeia, tida por ininterrupta, que comea com oarquimensageiro Raziel, passa para Enoc o escriba, no por acaso e da para os patriarcas e para os sacerdotes). Kabbalah vai designar,ento, essa tradio sacerdotal: conduo (transmisso-recepo) doensinamento original por parte daqueles que so capazes dereproduzir esse mesmo padro de ordem sagrada, isto , separadado vulgo, do profano, daquele que no foi ordenado.Isso tudo no somente fez, mas faz ainda, parte de uma experinciafundante de verticalizao do mundo, que prossegue enquanto atradio permanece ou se refunda toda vez que o meme replicado.Do ponto de vista da memegonia, aqui pode estar a origem darelao mestre-discpulo ou professor-aluno.No foi a toa que uma mente arguta como a de Harold Bloom (1975) ecoando, alis, o que dizia o erudito Gershom Scholem percebeuque Kabbalah era uma ideologia de professores. Na origem de tudoest... uma Instruo: o Ein-Sof instrui a Si mesmo atravs daconcentrao... Deus ensina a Si mesmo o Seu prprio Nome, e,dessa forma, comea a criao (8).Nessa memegonia, Deus o primeiro professor e o ato de ensinarest na raiz do ato de criar o mundo. O conhecimento (viaensinamento) e no a existncia e a vida o objetivo: a origem eo alvo. Deus cria o mundo para se conhecer. Mas para se conhecerele ensina, no aprende. Logo, seus delegados, ou intermedirios(os sacerdotes), tambm ensinam. Todo corpus sacerdotal docente. 5
  • 6. por isso que h uma enorme dificuldade de conciliar vises prpriasde sistemas tradicionais de sabedoria com a viso-fluzz das redes deaprendizagem. A tradio - dita espiritual - com raras excees(como o Tao, mas no o taoismo; como o Zen - esse formidvelsistema de desconstituio de certezas -, mas no o budismo) emgeral replicou atitudes mticas, sacerdotais, hierrquicas eautocrticas. Maturana levantou a hiptese da "brecha" (nacivilizao patriarcal e guerreira) para mostrar como pde ter surgidoa democracia (9).Mas, na verdade, no foi s a democracia que penetrou pela"brecha": vertentes utpicas, profticas, autnomas e democrticasfloresceram ao longo da histria e continuam florescendo -intermitentemente - toda vez que comunidades conseguemestabelecer uma interface para conversar com a rede-me (10).Essas duas vertentes permaneceram e ainda permanecem empermanente tenso.O professor como transmissor de ensinamento e a escola comoaparato separado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram,inegavelmente, como instrumentos de reproduo de programascentralizadores que foram instalados para verticalizar a rede-me.De certo modo, os deuses do panteo patriarcal e guerreiro foram osprimeiros programas memticos centralizadores (11). O tardio IHVHbblico ensinador encarna uma rotina desses programas (e representado por uma das sefirot um evento na rvore da vidaressignificada, no mundo da emanao).Como os deuses do panteo patriarcal e guerreiro da Mesopotmia doperodo Uruk (c. 4000-3200) perodo sucedido, logo em seguida,no por acaso, pela escrita (no Primeiro Dinstico I: c. 3000-2750) foram criados imagem e semelhana dos homens que comearam ase organizar segundo padres hierrquicos, tudo isso muitorelevante para entendermos que a transmisso do ensinamento j foifundada, de certo modo, em contraposio ao livre aprendizadohumano na rede social muito menos centralizada (ou at, quem sabe,distribuda) dos perodos pr-histricos anteriores (desde, pelomenos, o Neoltico).Para essas sociedades de dominao, nada de aprender (inventar).Era preciso ensinar (para replicar). E por isso ensinadores somantenedores do velho mundo. 6
  • 7. Mestres e gurusTodos so mestres uns dos outros enquanto se polinizammutuamenteH TAMBM OS QUE por fora dos sistemas formais de ensino ainda se intitulam (ou so por algum intitulados de) mestres ougurus. Alguns so ordenados para tanto, quer dizer, tm reconhecida,sempre por uma organizao hierrquica, sua capacidade dereproduzir uma determinada ordem top down. E querem entoimprimi-lo, emprenh-lo, ou seja, enxertar suas idias-implante emvoc, para que voc se torne tambm um transmissor desse vrus. claro que existem outras interpretaes do papel do mestre. Osho,por exemplo, tentando explicar a correta intolerncia de Krishnamurticom os que se anunciam ou eram anunciados como mestres ou guruscoloca outra perspectiva ao dizer que um mestre no o ensina, elesimplesmente torna o seu ser disponvel para voc e espera que voctambm faa o mesmo.E a vem a justificativa: A menos que algum raio do alm entre emseu ser, a menos que voc prove algo do transcendental, at mesmoo desejo de ser liberado no aparecer em voc. Um mestre no lhed a liberao, ele cria um desejo apaixonado pela liberao. Ajustificativa que ser muito difcil, quase impossvel, fazer isso porconta prpria (12).Mas quem disse que isso teria que ser feito por contra prpria? Aotentar justificar sua crtica a Krishnamurti, Osho enveredou por umvis psicolgico individual. Ele no teria se curado do trauma de tersido educado por pessoas muito autoritrias... professores, talvez,mas no mestres. Ento Osho afirma que tudo isso foi demais [paraKrishnamurti] e ele no pode esquec-los e no pde perdo-los(13).No fundo, tudo isso soa mais como uma tentativa de salvar umafuno pretrita, resgatar um papel arcaico que, em alguma poca,funcionou de fato assim como ele, Osho, diz, porm em mundos debaixa conectividade social.J foi dito aqui que na medida em que vida humana e convivnciasocial se aproximam (nos mundos altamente conectados) somosobrigados a mudar nossas interpretaes. E que isso entra emchoque com as tradies espirituais que diziam que quando odiscpulo est preparado o mestre aparece. De certo modo justo o 7
  • 8. contrrio: o discpulo desaparece quando desaparece a escola (querdizer o ensinamento) e com ele vai-se tambm o mestre.Isso para alguns um escndalo. Nos Highly Connected Worldsquem lhe reconhece o simbionte social, se voc se sintonizarsuficientemente com a rede-me. No um representante datradio, no um membro de uma casta sacerdotal ou de algumahierarquia docente, nem mesmo um indivduo que despertou antes devoc a no ser que essa pessoa (uma pessoa) seja a porta para quevoc possa entrar em outros mundos. Mas neste caso essa pessoa eis o ponto! pode ser qualquer pessoa que esteja conectada a essesmundos onde voc quer entrar.Se algum pudesse recuar antes (e o que seria antes?) daquela noitedos tempos em que a rede-me comeou a rodar programasverticalizadores e pudesse dizer como uma comunidade conseguiaentrar em sintonia com o simbionte natural (que talvez seconfundisse em sociedades de parceria, pr-patriarcais, quem sabeem algum momento do Neoltico com a rede-me: sntesesimbolizada na figura da grande me ou da deusa), talvez pudessenos sugerir algum processo para reinventarmos tal sintonia com osimbionte social (o superorganismo humano). Mas, fosse qual fosse,sua resposta seria enxame (mltiplos caminhos em efervescncia) eno indivduo no caminho em busca da unidade perdida ou da suaorigem celeste.No vale fazer recuar a noite dos tempos em que surgiram ossistemas mticos-sacerdotais-hierrquicos-autocrticos para coloc-los na origem de tudo com o fito de transformar a origem terrestre dohumano em uma origem celeste. Essa operao ideolgica, urdidapor esses mesmos sistemas, legitima o mestre como um veculo, umemissrio, um representante da suposta origem celeste (aindaquando existam mestres que reneguem tudo isso).No enxame voc j um mestre, todos so mestres uns dos outrosenquanto no apenas buscam, mas se polinizam mutuamente e issoquer dizer que no existe um, no existe aquele mestre.Mestres como ensinadores so mantenedores do velho mundo.Mesmo quando recusam tal papel, eles abrem caminho para oscodificadores de doutrinas, aqueles cavadores de sulcos para fazerescorrer por eles as coisas que ainda viro. 8
  • 9. Codificadores de doutrinasEles produzem narrativas para que voc veja o mundo a partir da suatica, quer dizer, para que voc no veja os mltiplos mundosexistentesCODIFICADORES DE DOUTRINAS so todos aqueles que querempavimentar, com as suas crenas religiosas (e sempre o so, mesmoquando se declaram laicas), uma estrada para o futuro. Elesproduzem narrativas ideolgicas totalizantes para que voc veja omundo a partir da sua tica, quer dizer, para que voc no veja osmltiplos mundos existentes, mas apenas um mundo (o mundoarquitetado e administrado por eles: uma priso para a suaimaginao).Quando so (explicitamente) religiosos, os codificadores de doutrinasfornecem a justificativa para a ereo de igrejas e seitas. Quando sopolticos, urdem a base conceitual para a formao de correntes egrupos de opinio onde a (livre) opinio propriamente dita no contapara quase nada: o que conta a ortodoxia de uma opinio oficial oucannica, a qual tentam autenticar apelando para a revelao ou paraa cincia. Em todos os casos so engenheiros memticos,manipuladores de ideias que inventam passado para legitimar certoscaminhos (e deslegitimar outros) para o futuro. Fazem isso paracontrolar o seu futuro, para lev-lo (a sua alma ou o seu corpo) paraalgum lugar supostamente melhor, para um paraso no cu ou naterra, quando, eles mesmos, no podem conhecer tal caminho(simplesmente porque no existe um caminho).Codificadores de doutrinas abrem espao para a ereo de igrejas,muitas vezes em contraposio experincia fundante ou supostarevelao que tomam como referncia. assim que os franciscanos,hoje puxando dinheiro com rodo (como dizia Frei Mateus Rocha,nos idos de 1970) (14), executam exatamente o contrrio do quepregava il poverello dAssisi (1182-1226). Tanto faz se tais igrejasso religiosas ou laicas: Paulo de Tarso (com o cristianismo) e Inciode Antioquia (com a igreja catlica) cumprem funes anlogas s deLenin (com o materialismo dialtico e o materialismo histrico) eStalin (com o PCUS) ou Trotski (com a Quarta Internacional).Os codificadores de doutrinas tambm so ensinadores e, de certomodo, gurus (no sentido em que a palavra empregada atualmente).So os abastecedores dos ensinadores que, em geral, transmitemensinamentos que j foram codificados por eles. So, portanto, osverdadeiros fundadores de escolas, conquanto frequentemente 9
  • 10. dizendo-se a servio de um fundador j desaparecido (ou nuncaaparecido).Aprisionadores de corposO fundamental para os aprisionadores de corpos manter seustrabalhadores fora do caos criativoAPRISIONADORES DE CORPOS so aqueles que, no contentes emusar, comprar ou alugar, sua inteligncia humana (que no tempreo), querem tambm mant-lo cativo, fisicamente, nos seusprdios ou cercados. So feitores: antes usavam o chicote; hojeusam o relgio ou o livro de ponto, o crach magntico ou o banco dehoras. Nas empresas ou organizaes hierrquicas, sejam privadasou pblicas, sequestram seu corpo para manter voc por perto, parapoder vigi-lo, para terem certeza de que voc est de fatotrabalhando para eles (que coisa, heim?). No precisavam fazer issose o seu objetivo fosse o de articular um trabalho coletivocompartilhado. Mas o objetivo deles no , na verdade, compartilharnada com outros seres humanos e sim control-los-e-comand-los,em certo sentido desumaniz-los, embotando sua inteligncia,castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, para poder us-los como objetos, para terem-nos disponveis, sempre mo, tantashoras por dia: querem um rebanho de servos de prontido para lhesfazer as vontades. Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-eles e no para-eles no seria necessrio na imensa maioria doscasos aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agendaconjunta, com tarefas e prazos.Mais de 90% dos empregadores so aprisionadores de corpos. Chefesde reparties governamentais, administradores de empresas edonos de ONGs costumam ser aprisionadores de corpos. Se aspessoas no tivessem que dormir e as leis permitissem, gostariamque elas ficassem sua disposio o tempo todo: 24 horas: tum,tum, tum...Ainda quando dizem o contrrio, eles no querem que vocempreenda, seja criativo, construa produtos ou processos inovadorese realize coisas maravilhosas e sim que voc trabalhe. Queremtrabalho = repetio e execuo de ordens. Se quisessem criao,inovao, no lhe imporiam agendas estranhas (que voc no teveoportunidade de coconstruir), no lhe retalhariam o tempo emunidades controlveis, com horrios rgidos de entrada e sada em 10
  • 11. algum espao murado. Dariam a seus colaboradores (a todos) asmelhores condies para inovar (alugariam, quem sabe, uma casaem uma ilha paradisaca, em uma chcara aprazvel ou mesmo emum bosque urbano, um horto, cultivariam jardins... em suma, noorganizariam e decorariam seus locais de trabalho de modo tohorrendo, sem cores, sem arte, tudo cinza, quadrado, como umapriso mesmo, ou um convento) e, sobretudo, no reduziriam suamobilidade: uma dimenso essencial da sua liberdade para criar.O fundamental para os aprisionadores de corpos manter seustrabalhadores fora do caos criativo, proteg-los do seu prprioesprito empreendedor. Ento, para esteriliz-lo, colocam voc napirmide. Sim, aprisionadores de corpos so tambm construtores depirmides.Construtores de pirmidesO indivduo no o tomo social; para ser social preciso sermolculaOS CONSTRUTORES DE PIRMIDES tambm surgiram naquela noitedos tempos em que a rede-me passou a rodar programasverticalizadores. Talvez os primeiros construtores de pirmidestenham sido mesmo os... construtores de pirmides, no apenas asdo Egito, mas tambm os zigurates mesopotmicos. Mas todas aspirmides que vm sendo construdas ao longo do chamado perodocivilizado evocam o mesmo padro vertical surgido pela perturbaodo campo social introduzida pela hierarquia. No so, entretanto,apenas arquitetos, engenheiros e mestres de obra que projetam,comandam e controlam o trabalho de erigir construes fsicas.Construtores de pirmides so os que erigem organizaeshierrquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrig-los a fazer(ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seuassentimento ou consentimento ativo.So os chefes de instituies hierrquicas. So organizadores depessoas como se pessoas fossem coisas. Toda organizaohierrquica uma arquitetura com pessoas, uma construo forada,coisificante, onde as pessoas so tratadas como tijolos ou outromaterial qualquer: Ento colocamos uma aqui, outra em cimadessa, outra abaixo, bem ali; pa! Cuidado, no est encaixandobem; ento quebra um pedao aqui, desbasta ali, martela com foraque entra... 11
  • 12. Replicadores e trancadores so construtores de pirmides.Replicadores so todos os que se dedicam a repetir uma ordempretrita. So, portanto, ensinadores (estaes repetidoras do quefoi forjado, em geral, pelos codificadores de doutrinas). Para exercertal papel, entretanto, eles constroem, invariavelmente, estruturascentralizadas ou verticalizadas sejam escolas, sociedades,maonarias e assemelhadas, partidos ou corporaes ou qualqueroutra burocracia que viva da repetio e da inculcao de umconjunto de ideias ou vises de mundo urdidas para prorrogarpassado e, nesse sentido, so construtores de pirmides.Trancadores so os que privatizam bens que poderiam ser comuns(ou que no poderiam ser trancados, como o conhecimento).Trancadores de conhecimento so, por exemplo, os que defendem odomnio privado sobre o conhecimento, como as leis de patentes e ofamigerado copyright.Um dos tipos contemporneos de trancadores relevante pelo efeitodevastador que sua atividade provoca na antessala de uma poca-fluzz so os trancadores de cdigos, que esto entre os mais bem-sucedidos inventores de softwares proprietrios da atualidade Aoconstrurem caixas-pretas para esconder seus algoritmos (comofazem os donos do Google ou do Twitter) ou para montar seusalapes de dados (como faz o dono do Facebook), eles acabamtendo que construir pirmides para proteger suas operaescentralizadoras da rede social. No por acaso que as plataformasque desenham a partir de uma instncia proprietria tentemdisciplinar a interao. Essa a razo pela qual as plataformas ditasinterativas de que dispomos no so suficientemente interativas (i-based), posto que baseadas na adeso e, no mximo, na participao(envolvendo sempre algum tipo de escolha de preferncias geradorade escassez) e no arquivamento de passado (para aumentar orepositrio ao qual, a rigor, s os proprietrios dessas plataformastm pleno acesso na medida em que s eles podem program-lassem restries).E essa tambm a razo pela qual tais plataformas deseducam (sese pode falar assim) seus usurios (a palavra usurio j horrvel do ponto de vista da interao) para as redes distribudas.Ento uma pessoa entra em alguma dessas plataformas e tende aachar que a sua pgina o seu espao proprietrio a partir do qualela vai interagir. Em vez de entrar em um fluxo, ela se aboleta no seubunker (s vezes chamado de Minha Pgina) e induzida a acharque ali pode colocar todos os seus vdeos, suas fotos, seus eventos eseus posts, independentemente do que est rolando na rede que usatal plataforma como ferramenta de netweaving e, no raro, sente-se 12
  • 13. at ofendida quando algum lhe lembra que o concurso de MissUniverso no tem muito a ver com astrofsica.A soluo para tal problema no fugir para trs, voltando aosblogs, como sonham alguns. Ainda que a blogosfera seja de fato, noseu conjunto, uma rede distribuda, os blogs, em si, no seestruturam de modo distribudo. Em geral so organizaes fechadas,que no admitem interao a no ser com aprovao prvia dos seusdonos (por meio da chamada mediao de comentrios). Mesmoquando so abertos a qualquer comentrio, os blogs sopiramidezinhas, espcies de reinados do eu-sozinho. No so bonsinstrumentos de netweaving de redes sociais distribudas na medidaem que no so, eles prprios, redes distribudas.No existem tecnologias de netweaving capazes de colocar umconjunto de blogs em um meio eficaz de interao. Ademais, amentalidade dos bloggers no acompanhou a inovao que,objetivamente, sua atividade representa. E muitos daqueles quefazem o proselitismo das redes distribudas nos seus blogs,organizam, l no seu quadrado, suas igrejinhas hiper-centralizadas,algumas vezes quase-monrquicas (15). Ou seja, so tambmconstrutores de pirmides.O que est por trs disso tudo a idia de que o indivduo o tomosocial, quando, na verdade, para ser social, preciso ser molcula.Pessoas so produtos de interao e no unidades anteriores interao.Fabricantes de guerrasO nico inimigo que existe o fazedor de inimigosFABRICANTES DE GUERRAS so, stricto sensu, os chefes militares e,lato sensu, os que pervertem a poltica como arte da guerra e os quese entregam competio adversarial tendo como objetivo destruirseus concorrentes. So, todos, predadores. O predador (humano) uma mquina de converter o semelhante em inimigo. Mas precisoconsiderar que no existem inimigos naturais ou permanentes: todainimizade circunstancial e pode ser desconstituda pela aceitao dooutro no prprio espao de vida, pelo acolhimento, pelo dilogo, pelacooperao. Assim, o (nico) inimigo que existe mesmo o fazedorde inimigos. 13
  • 14. Na civilizao patriarcal e guerreira viramos seres cindidosinteriormente. O predador um produto dessa quebra da unidadesinrgica do simbionte (que poderemos ser no futuro, seanteciparmos esse futuro). Preda porque quer recuperar, devorando,suas contrapartes, em um ritual antropofgico em busca da unidadeperdida (aquela origem que o alvo, para usar a expresso de KarlKraus). por isso que nos apegamos tanto guerra do bem contra omal. Mas o problema, como disse Schmookler, que o recurso daguerra em si o mal (16).Toda vez que voc quer triunfar sobre o mal, combater o bomcombate, derrotar o lado negro da Fora, voc fabrica guerra.Estatistas, hegemonistas, conquistadores, vencedores so todos fabricantes de guerras. Toda vez que voc olha o mundo como umterreno inspito, como uma ameaa, como algo a enfrentar, vocfabrica guerra. Estrategistas de qualquer tipo, sejam ou nojustificveis seus esforos chamem-se Winston Churchill ou MichelPorter , so fabricantes de guerras. Boa parte dos incensadosconsultores de empresas da atualidade so fabricantes de guerras:apenas deslizam conceitos da arte da guerra para as estratgiasempresariais que transformam o concorrente em inimigo. claro que tudo isso revela uma no-aceitao da democracia. Aguerra sempre um modo autocrtico de regulao de conflitos, sejaa guerra declarada ou aberta, seja a guerra fria, seja a polticapraticada como arte da guerra, seja a concorrncia empresarialadversarial que trata o outro como inimigo.Condutores de rebanhosO modo intransitivo de fluio que gera o fenmeno da popularidadedo lder de massas uma sociopatiaCONDUTORES DE REBANHOS so, em geral, os lderes quealcanaram popularidade pelo broadcasting para guiar as massas.Algumas vezes esses lderes so carismticos e se dedicam amesmerizar multides em comcios, reunies e manifestaes. Oupela TV e pelo rdio. Quase sempre so pessoas pesadas, que usamsua gravitatem em benefcio prprio ou de um grupo, para reter emsuas mos o poder pelo maior tempo que for possvel, transformandoos outros em seus satlites. E odeiam os princpios de rotatividade oualternncia democrtica. Considere-se que, do ponto de vista social 14
  • 15. (ou coletivo, da rede), o modo intransitivo de fluio que gera ofenmeno da popularidade do lder de massas uma sociopatia.O liderancismo uma praga que vem contaminando as organizaesde todos os setores: segundo tal ideologia, a liderana s boa seno puder ser exercida por todos, s por alguns. Assim, no se deveestimular a multi-liderana, seno afirmar a precedncia da mono-liderana, do lder providencial e permanente, a prevalncia domesmo lder em todos os assuntos e atividades, como se essa aliderana fosse uma qualidade rara, de origem gentica ou fruto deuma uno extra-humana.Condutores de rebanhos se dirigem sempre s massas no spessoas com o objetivo de comand-las e control-las, sejamditadores ou manipuladores. So marqueteiros de si-mesmos e, comotais, vendedores de iluses (diga-se o que se quiser dizer, omarketing uma atividade muito problemtica, que no visa formarnovas identidades a partir da construo de pactos com osstakeholders de uma determinada iniciativa e sim disseminar, via deregra por broadcasting, alguma iluso).Sacerdotes (stricto sensu), pastores e polticos profissionais sotambm vendedores de iluses assim como todos os que prometem eno cumprem, no sentido de que vendem e no-entregam (o quevendem). Mas reserva-se a categoria de condutores de rebanhos paraos que pretendem liderar massas, comov-las e mobiliz-las para quelhes sigam.Na coletnea Histrias do Sr. Keuner, que rene textos de BertoldBrecht escritos entre 1926 e 1956, encontra-se a deliciosa parbolaSe os Tubares Fossem Homens (17): Se os tubares fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar para os peixes pequenos... A aula principal seria naturalmente a formao moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo o sacrifcio alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubares, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro s estaria garantido se aprendessem a obedincia... Se os tubares fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. Cada peixinho que na guerra matasse alguns 15
  • 16. peixinhos inimigos da outra lngua... seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o ttulo de heri... Tambm haveria uma religio ali. Se os tubares fossem homens, eles ensinariam essa religio. De que s na barriga dos tubares que comearia verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubares fossem homens, tambm acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores... E os peixinhos maiores que deteriam os cargos velariam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros de construo de caixas e assim por diante. Curto e grosso, s ento haveria civilizao no mar, se os tubares fossem homens.No poderia haver um fecho melhor para a reflexo deste texto.Brecht, provavelmente, criou a metfora entre tubares e peixinhosno contexto da luta de classes entre patres e trabalhadores. Noentanto, ela tomada aqui para fazer referncia aos mantenedoresdo velho mundo nico que surgem em configuraes deformadas docampo social. Que tipos de configuraes ensejam a reproduo detubares em vez de, por exemplo, golfinhos?Como j foi dito, frequentemente as caractersticas das funesagenciadoras do velho mundo se misturam, incidindo, em maior oumenor grau, em uma mesma configurao de pessoas. assim queensinadores replicam ensinamentos forjados por codificadores dedoutrinas que, por sua vez, constroem pirmides para aprisionarcorpos e tudo isso feito em nome da necessidade de derrotar uminimigo que ameaa alguma identidade imaginria que foiartificialmente construda, no raro exigindo que grandescontingentes de pessoas fossem arrebanhadas (e despersonalizadas)por condutores de rebanhos para enfrentar tal inimigo, ele prprioconstrudo sempre para justificar alguma hierarquia que foi erigida.Tudo isso usar a Fora para enfrear e represar fluzz.Conquanto resilientes, essas velhas funes do mundo nicoexercidas, invariavelmente, para exterminar outros mundos, no tmconseguido barrar os novos papis-sociais-fluzz que comeam aemergir. 16
  • 17. Notas e referncias(*) A palavra fluzz nasceu de uma conversa informal do autor, no incio de2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autor observavaque Buzz no captava adequadamente o fluxo da conversao,argumentando que era necessrio criar outro tipo de plataforma (i-based eno p-based, quer dizer, baseada em interao, no em participao).Marcelo Estraviz respondeu com a interjeio fluzz, na ocasio mais comouma brincadeira, para tentar traduzir a idia de Buzz+fluxo. Ulteriormente aidia foi desenvolvida no livro Fluzz: vida humana e convivncia social nosnovos mundos altamente conectados do terceiro milnio (2011) e passou ano ter muito a ver com o programa mal-sucedido do Google. Fluzz (o fluxointerativo) um conceito complexo, sinttico, que talvez possa ser captadopela seguinte passagem: Tudo que flui fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz o fluxo, que no pode ser aprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz do metabolismo da rede. Ah!, sim, redes so fluies. Fluzz evoca o cursoconstante que no se expressa e que no pode ser sondado, nem sequerpronunciado do lado de fora do abismo: onde habitamos. No lado dedentro do abismo no h espao nem tempo, ou melhor, h apenas oespao-tempo dos fluxos. de l que aquilo (aquele) que flui sem cessarfaz brotar todos os mundos... Em outras palavras, no existe uma mesmarealidade para todos: so muitos os mundos. Tudo depende das fluies emque cada um se move, dos emaranhamentos que se tramam, dasconfiguraes de interao que se constelam e se desfazem,intermitentemente.Este texto foi originalmente escrito e publicado em 2011 no livro Fluzz: vidahumana e convivncia social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milnio. So Paulo: Escola de Redes, 2011.(1) ABRAHAM, Ralph (1992) in ABRAHAM, Ralph, McKENNA, Terence &SHELDRAKE, Rupert (1992). Caos, criatividade e retorno do sagrado:trilogos nas fronteiras do Ocidente, So Paulo: Cultrix, 1994.(2) KRAMER, Samuel (1956). A histria comea na Sumria. Lisboa:Europa-Amrica, 1977.(4) CAMPBELL, Joseph (1959): As mscaras de Deus (Volume I). So Paulo:Palas Athena, 1998.(3) ABRAHAM. Ralph, McKENNA, Terence & SHELDRAKE, Rupert (1992).Caos, criatividade e o retorno do sagrado: trilogos nas fronteiras doOcidente. So Paulo: Cultrix, 1994.(5) LEICK, Gwendolyn (2001): Mesopotmia: a inveno da cidade. Rio deJaneiro: Imago, 2003.(6) Os me continuam sendo um enigma para os historiadores. Aantroploga e assiriloga Gwendolyn Leick (2001), no seu livro 17
  • 18. Mesopotmia: a inveno da cidade (ed. cit.), escreve: Eridu, como amanifestao primria do Apsu, tambm era considerada o lugar doconhecimento, a fonte da sabedoria, sob o controle de Enki. Numerosasnarrativas foram elaboradas em torno desse conceito. Eridu, comorespositrio de decretos divinos descrita em uma narrativa sumriachamada Enki e Inanna. Enki, escondido no Apsu, est na posse de todosos me, termo sumeriano que abrange todas aquelas instituies, leis,formas de comportamento social, emoes e smbolos de carga que, em suatotalidade, eram vistos como indispensveis ao funcionamento regular domundo. Esses me pertenciam a Eridu e a Enki. Entretanto, Inanna, deusada cidade de Uruque, deseja obter os me para si prpria e lev-los paraUruque. Com esse fim, ela desfralda velas para chegar a Eridu de barco,sempre o caminho mais fcil para ir de uma cidade da Mesopotmia a outra.Enki toma conhecimento da chegada de Inanna e preocupa-se com asintenes dela. Instrui o seu vizir para a receber com todas as honras epreparar um banquete, no qual ambas as deidades bebem muita cerveja.Enki no tarda em adormecer, deixando o caminho livre para Inannacarregar os preciosos me em seu barco, um por um, e zarpar. Quando Enkidesperta da bria sonolncia e d-se conta do que aconteceu, procura usarsua magia em uma tentativa de recuperar os me. Inanna conseguerechaar os demnios perseguidores e chegar s e salva a Uruque. Odesfecho da histria no claro, pois nenhuma das verses existentes dotexto est suficientemente preservada, mas parece que uma terceiradeidade logra a reconciliao entre Inanna e Enki. Esta , obviamente, umatpica histria de Uruque, concentrando-se nas deusas locais e em seupoder superior. Ao libertar os me das profundezas do Apsu, Inanna podiano s ampliar seus prprios poderes, mas tambm fazer valer os seusdecretos entre os humanos. A lista dos me inclui a realiza, as funessacerdotais, os ofcios e a msica, assim como as relaes sexuais, aprostituio, a velhice, a justia, a paz, o silncio, a calnia, o perjrio, asartes dos escribas e a inteligncia, entre muitos outros.Muitos anos antes, o famoso sumeriologista Samuel Noah Kramer (1956),em From the Tablets of Sumer (ed. cit.) j havia observado:Finalmente chegamos aos me, as leis divinas, normas e regras que,segundo os filsofos sumrios, governam o universo desde os dias da suacriao e o mantm em funcionamento. Neste domnio possumosconsidervel documentao direta, particularmente em relao ao me quegovernam o homem e a sua cultura. Um dos antigos poetas sumrios, aocompor ou redigir um dos seus mitos, julgou que vinha a propsito dar umalista dos me relacionados com a cultura. Divide a civilizao, segundo oconhecimento que dela tinha, em uma centena de elementos. No estadoatual do texto so apenas inteligveis cerca de sessenta e alguns sopalavras mutiladas que, sem contexto explicativo, apenas nos do umavaga idia do seu real sentido. Mas ainda subsistem os suficientes para nosmostrar o carter e a importncia da primeira tentativa registrada deanlise da cultura, que resultou em uma lista considervel de o que hojegeralmente designado por elementos e complexos culturais. Estescompem-se de vrias instituies, certas funes de hierarquia sacerdotal, 18
  • 19. instrumentos de culto, comportamentos intelectuais e afetivos e diferentescrenas e dogmas. Eis a lista das partes mais inteligveis e seguindo aprpria ordem escolhida pelo antigo escritor sumrio: 1 Soberania; 2 Divindade; 3 - A sublime e permanente coroa; 4 - O trono real; 5 - Osublime cetro; 6 - As insgnias reais; 7 - O sublime santurio; 8 - Opastoreio; 9 - A realeza; 10 - A durvel senhoria; 11 - A divina senhora(dignidade sacerdotal); 12 O ishib (dignidade sacerdotal); 13 O lumah(dignidade sacerdotal); 14 O gutug (dignidade sacerdotal) [A listasegue at o nmero 67].Essas frmulas divinas (os me) reforam a idia da existncia de umaespcie de prottipo. Os me parecem ser cdigos replicativos para criar ereproduzir um determinado tipo de civilizao (ou padro societrio). Aexistncia material ou ideal dos me como conhecimentos armazenveis emobjetos que podiam ser transportados, evidencia que os sumrios noapenas desenvolveram historicamente o que chamamos de civilizao. Elestambm sistematizaram teoricamente um modelo dessa civilizao para serreplicado em outros locais.Mas o mais relevante a ordem em que aparecem tais elementosculturais. Os seres humanos e suas caractersticas prprias e qualidadesdistintivas s vo surgir l pelo quadragsimo lugar. O schema mtico,sacerdotal, hierrquico e autocrtico. Alis, pode-se dizer que essasfrmulas divinas so frmulas da autocracia em estado puro.E havia um ensinamento organizado sobre tudo isso. Pois bem. Talensinamento a ser replicado foi o motivo de haver um ensino. Para maisinformaes pode-se ler os textos indicados por LEICK (2001) e porKRAMER (1956). Ou pode-se tentar decifrar o material disponvel:Inana and Enki: cuneiform source translation at ETCSL (The Electronic TextCorpus of Sumerian Literature, University of Oxford, England) in ETCSLtranslation:http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.3.1#Cf. ainda: What are me anyway? in Sumerian Mythology FAQ:http://home.comcast.net/~chris.s/sumer-faq.html#A1.5(7) Existem outras maneiras no verticais de representar essa rvore dasSefirot. Cf. o blogpost Sobre Kabbalah e redes: um abstruso paraleloheurstico:http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/sobre-kabbalah-e-redes-um(8) BLOOM, Harold (1975). Cabala e crtica. Rio de Janeiro: Imago, 1991. 19
  • 20. (9) MATURANA, Humberto & VERDEN-ZLLER, Gerda (1993). Amor yJuego: fundamentos olvidados de lo humano desde el Patriarcado a laDemocracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.(Existe traduo brasileira: Amar e brincar: fundamentos esquecidos dohumano. So Paulo: Palas Athena, 2004).(10) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas vises sobre asociedade, o desenvolvimento, a internet, a poltica e o mundo glocalizado.Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.(11) FRANCO, Augusto (2008): O Olho de Hrus. Disponvel emhttp://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/o-olho-de-horus(12) OSHO (Bhagwan Shree Rajneesh) (1978). A revoluo: conversassobre Kabir. So Paulo: Academia de Inteligncia, 2008.(13) Idem.(14) Comunicao pessoal ao autor de Jos Rocha: Frei Mateus Rocha(1923-1985). Para saber quem foi Jos Rocha cf. POLETTO, Ivo (org.)(2003). Frei Mateus Rocha: um homem apaixonado pelo absoluto. SoPaulo: Loyola, 2003.(15) Agregadores de blogs que foram inventados com base em RSS noresolvem o problema. O fato de se ter vrios blogs em uma mesma pgina,atualizando automaticamente as primeiras palavras das postagens maisrecentes de cada blog, no garante, nem favorece muito, qualquer tipo deinterao mais efetiva. Esses softwares produzem apenas ndices ilustradosdos blogs que foram agregados por iniciativa nica e exclusiva doadministrador da pgina. Caso haja reciprocidade, ou seja, se todos osagregados por um blog tambm agregarem os demais nos seus blogs, essasferramentas so boas para formar um grupo seleto (e necessariamentepequeno, por motivos bvios) de pessoas que se leem. Tambm podem serbastante teis no caso de uma corporao (onde, porm, o acesso pginaagregada , via de regra, fechado, pois, afinal, uma corporao precisa seproteger da concorrncia...) ou de uma comunidade j existente. Mas, emgeral, no so ferramentas eficazes de netweaving, pois ningum ficasabendo a no ser que abra seguidamente, vrias vezes por dia, todos osblogs o que cada um est dizendo, no seu prprio blog, sobre o queoutros postaram, nos deles. Ademais, no so viveis para organizar ocompartilhamento de agendas (a nica coisa que pode realmente produzircomunidade). As velhas listas de e-mails com seus fruns derivados somais eficazes para esse propsito.(16) SCHMOOKLER, Andrew (1991): O reconhecimento de nossa cisointerior in ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro daSombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. So Paulo:Cultrix, 1994. 20
  • 21. (17) BRECHT, Bertold (1926-1956). Histrias do Sr. Keuner. So Paulo:Editora 34, 2006. 21