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TAKT-TIME_Conceitos e contextualização dentro do sistema Toyota de produção

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  • 1. v.8, n.1, p.1-18, abr. 2001TAKT-TIME: CONCEITOS ECONTEXTUALIZAO DENTRO DOSISTEMA TOYOTA DE PRODUORoberto dos Reis AlvarezGrupo de Produo Integrada (GPI) da EP e do PEP/COPPEUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)C.P. 68.507 - Centro de Tecnologia da UFRJ Ilha do Fundo21945-970 Rio de Janeiro RJFone/fax: (21) 562-7415E-mail: alvarez@gpi.ufrj.brJos Antonio Valle Antunes Jr.Produttare Consultores AssociadosRua 24 de Outubro 111 cjto. 1103 Moinhos de Vento90510-002 Porto Alegre RSFone/fax: (51) 346-5536E-mail: junico@produttare.com.brCentro de Cincias Econmicas da UNISINOSResumoO presente trabalho tem como preocupao central esclarecer, o mximo possvel, o conceito detakt-time, na medida em que se pode observar um hiato na literatura que trata do tema em relao compreenso das diferenas conceituais entre esse e as definies de tempo de ciclo e tempo padro.Procura-se estabelecer uma conceituao rigorosa desses termos, tendo como referncia bsica osprincpios gerais do Sistema Toyota de Produo (STP). Enfatiza-se a importncia crucial da variveltempo para a gesto dos sistemas de produo, partindo-se da problemtica da sincronizao dofluxo dos materiais ao longo do tempo e do espao no STP. Nesse contexto, ressalta-se a centralidadedo takt-time na gesto da produo em diferentes aspectos do Sistema. Nuances relativas flexibili-dadetambm so destacadas. Os pontos conceituais que marcam a lgica da utilizao do takt-time,a partir da tica mais ampla da sincronizao da produo, permitem identificar os limites deaplicao da sistemtica. Finalmente, analisada a relao da sistemtica de gesto baseada nadefinio do takt-time com as lgicas da qualidade assegurada e da formao de recursos humanos.Palavras-chave: takt-time, tempo de ciclo, sincronizao da produo, Sistema Toyota de Produo.1. IntroduoEste artigo deriva da percepo da importn-ciaque a sincronizao da produo comdiscusses de Estratgia de Produo relativas base no takt-time tem dentro do Sistema Toyotade Produo (STP). Alm de aspectos opera-cionais,esse elemento tem relevncia nas

2. 2 Alvarez & Antunes Jr. Takt-time: Conceitos e Contextualizao Dentro do Sistema Toyota de Produoao STP, especialmente com respeito dimensoflexibilidade.O livro Sistema Toyota de Produo, deYasuhiro Monden (1984), cuja verso originalem ingls data de janeiro de 1982, apresenta umdos primeiros modelos estruturados e abrangen-tesdo STP. Posteriormente, outros autorestrataram de interpretar e esquematizar o STP,tornando-o palatvel para o pblico ocidental edisseminando os conceitos da produo enxuta,bem como esse termo em si. Destacam-se ostrabalhos de SCHONBERGER (1982) e depesquisadores do Massachussets Institute ofTechnology (MIT) no mbito do InternationalMotor Vehicle Program (IMVP), especialmenteWOMACK, JONES & ROOS (1990). Em outrafrente, pesquisadores da escola francesa deSociologia do Trabalho se debruaram sobre asnovas formas de organizao do trabalhoobservadas no Japo de forma geral e, particu-larmente,na Toyota um bom exemplo dessavertente o trabalho de CORIAT (1994).Os autores japoneses clssicos de Engenhariade Produo e Engenharia Industrial, especial-menteTAIICHI OHNO (1996) e SHIGEOSHINGO (1996a; 1996b), apresentam umaleitura particular do STP. No Brasil, GHINATO(1995) aprofundou a discusso a partir dessasinterpretaes, pondo sob os holofotes o pilar(OHNO, 1996) menos estudado do STP: a lgicada autonomao capacidade que o homem ou amquina tm de parar o processamento quando aquantidade programada for atingida ou quandosurgir algum defeito nos componentes/produtosfabricados. Outro entendimento conceitual doSistema Toyota de Produo oferecido porANTUNES JR. (1998), que o situa dentro doparadigma das melhorias voltadas para oprocesso, juntamente com a Teoria dasRestries e a Reengenharia de Processos,inserindo um claro vis sistmico na interpreta-odo STP.Dentre as linhas tericas mencionadas, privi-legia-se aqui o referencial provido pelos autoresjaponeses clssicos e as leituras construdas apartir do estudo do seu legado conceitual.Para que seja possvel iniciar a discusso rela-tivaao takt-time, h que se reconhecer que, doponto de vista da operao do STP, a lineariza-oe o encadeamento do fluxo de materiais tmfundamental relevncia. Conforme MONDEN(1984), isso realizado de duas formas gerais: Com a utilizao do sistema kanban paraconexo de clulas de produo; Atravs da produo em fluxo unitrio emlinha (one piece flow) transferncia demateriais entre postos de trabalho se d emlotes de tamanho igual a uma unidade (pea).Objetivamente, o que ocorre uma combina-odessas duas modalidades. A gesto pelotempo assume papel primordial na medida emque a fbrica como um todo se adapta ao ritmodefinido para a linha de montagem.A centralidade da gesto baseada em tempono mbito do STP difere da tradicional aborda-gemde controle de tempos at ento em voga noOcidente, embora derive dessa em grande parte;pelo menos no que tange ao ferramental deEngenharia Industrial empregado na suaconstruo emprico-terica. No caso do STP otempo entendido como uma varivel sistmica,associada ao fluxo dos materiais, e no simples-mentereferente anlise e controle local de cadaoperao especfica na fbrica.Do ponto de vista da operacionalizao dossistemas de produo voltados para a melhoriado processo e, mais especificamente no caso doSTP, vrias questes relativas ao tema aindacarecem de esclarecimento. Particularmente, asconceituaes de tempo de ciclo e takt-time,fundamentais para o entendimento do funciona-mentodo STP, so controversas. Mais do queisso, vrios textos sobre o tema Sistema Toyotade Produo centram sua ateno somente nosistema kanban, negligenciando a relevncia dotakt-time no esquema de gesto da produo.Outros discorrem a respeito do mecanismo daoperao-padro, mas tratam a determinao dostempos sob a perspectiva de cada clula, semfazer as amarraes processuais devidas.A preocupao central deste trabalho assumeque o hiato existente entre a interpretao 3. GESTO & PRODUO v.8, n.1, p.1-18, abr. 2001 3corrente da lgica do takt-time no mbito doSTP e a real importncia desse tpico para oentendimento do Sistema precisa ser superado,bem como elucidados os conceitos associados.O desenvolvimento das idias segue as se-guinteslinhas de raciocnio: Primeiro, discute-se a varivel tempo a partirda estrutura conceitual provida pelo Meca-nismoda Funo de Produo, vinculando-setempo de ciclo, takt-time, Funo Processo eFuno Operao; Segundo, faz-se uma discusso acerca dosconceitos de tempo de ciclo e takt-time,propondo-se uma conceituao consistentepara os mesmos; Terceiro, defende-se que o tempo temrelaes com diferentes dimenses competi-tivassob o ngulo da produo, destacando-seos vnculos com a flexibilidade; Quarto, ressalta-se a importncia do takt-timena gesto da produo no STP, discutindo-sesuas relaes com as lgicas da qualidade eda formao de recursos humanos.Por fim, faz-se uma srie de comentriosacerca das possibilidades de aplicao da lgicado takt-time na gesto dos sistemas de produo,debatendo-se os limites do conceito.A seguir, apresenta-se um instrumento anal-tico,de cunho sistmico, empregado paramodelar e compreender os sistemas de produo:o Mecanismo da Funo de Produo (MFP).2. A Funo Processo: o Tempo Como o FioSistmico da Produocompreenso da lgica de gesto baseadano takt-time s possvel com o reconhe-cimentoda natureza processual que a embasa.SHINGO (1996a) postula que os sistemas deproduo podem ser entendidos como redes deprocessos e operaes. O MFP se sustenta noreconhecimento da existncia desses dois eixosde anlise. Para que se entenda a sua lgica preciso, portanto, diferenciar a Funo Operaoda Funo Processo. A Funo Processo refere-seao acompanhamento dos objetos do trabalho(materiais) ao longo do tempo e do espao; dizrespeito ao fluxo dos materiais. A FunoOperao, por sua vez, refere-se ao acompanha-mentodos sujeitos do trabalho (homens,mquinas, equipamentos etc.) ao longo do tempoe do espao.Concretamente, a ruptura conceitual possibi-litadapelo MFP e caracterstica da construoterica de SHINGO est associada ao reconhe-cimentode que o processo no o somatrio dasoperaes. Uma discusso sobre o tema encontrada em SHINGO (1996a; 1996b) e emANTUNES JR. (1998). O discernimento danatureza bsica da Funo Processo e suaprecedncia sobre a Funo Operao permitema construo de um referencial conceitualrobusto para o projeto de sistemas de produode alto desempenho.Uma vez entendida a diferena entre osconceitos de processo e operaes surge anecessidade de definio de mecanismos quepermitam a construo de sistemas de produoconforme a lgica das melhorias voltadas para oprocesso. O sistema kanban o mais notrioexemplo de uma soluo voltada para a melhoriados processos. Contudo, sua funo limitadano STP.O esquema apresentado na Figura 1 represen-tao processo de fabricao de um automvel naToyota Motor Company. Conforme se podeobservar, h uma diviso do fluxo em duasgrandes fases. A primeira a fase de fabricaodos componentes; na segunda fase ocorre aagregao desses componentes, a qual temtrmino com a montagem final dos veculos.O kanban utilizado para operar o sistemalogstico entre as etapas da primeira fase e nasinterfaces com a fase II. Na fase II o Sistema programado e controlado com base no takt-time.A indicao de controle de produo na Figura 1aponta que o takt-time informado etapa desoldagem. Da para frente, o fluxo contnuo e oprocesso coordenado pelo takt-time, conformelgica explicada por ROTHER & SHOOK (1998).A definio do takt-time tambm realizada,individualmente, para cada clula de produoA 4. 4 Alvarez & Antunes Jr. Takt-time: Conceitos e Contextualizao Dentro do Sistema Toyota de ProduoKanbanF Mda fase I; sendo esse um dos componentes dasrotinas de operao-padro das clulas.O takt-time, portanto, faz-se presente comoelemento central, em dois subsistemas damanufatura que trabalham com fluxos unitrios:na montagem (agregao dos componentes) eacabamento do veculo e internamente nasclulas de produo. O funcionamento da fbricaorquestrado pelo takt-t