TFG Larissa

of 72 /72
Larissa Ramalho Pereira SERVIÇO SOCIAL: CONSCIÊNCIA CRÍTICA SOBRE A INCLUSÃO DIGITAL E SUAS INTER-RELAÇÕES COM A EDUCAÇÃO. Santa Maria, RS 2008

Embed Size (px)

Transcript of TFG Larissa

Larissa Ramalho Pereira

SERVIO SOCIAL: CONSCINCIA CRTICA SOBRE A INCLUSO DIGITAL E SUAS INTER-RELAES COM A EDUCAO.

Santa Maria, RS 2008

Larissa Ramalho Pereira

SERVIO SOCIAL: CONSCINCIA CRTICA SOBRE A INCLUSO DIGITAL E SUAS INTER-RELAES COM A EDUCAO

Trabalho Final de Graduao apresentado ao Curso de Servio Social - rea de Cincias Humanas, do Centro Universitrio Franciscano, como requisito parcial para obteno do ttulo de bacharel em Servio Social.

Orientadora: Prof. Rosilaine Coradini Guilherme

Santa Maria, RS 2008

Larissa Ramalho Pereira

SERVIO SOCIAL: CONSCINCIA CRTICA SOBRE A INCLUSO DIGITAL E SUAS INTER-RELAES COM A EDUCAO

Trabalho Final de Graduao apresentado ao Curso de Servio Social rea de Cincias Humanas, do Centro Universitrio Franciscano, como requisito parcial para obteno do ttulo de bacharel em Servio Social.

_________________________________________________ Prof. Rosilaine Coradini Guilherme Orientadora (UNIFRA)

_________________________________________________ Prof. Ms. Nice de Neves Miranda (UNIFRA)

_________________________________________________ Prof. Ms. Nildete Terezinha de Oliveira (UNIFRA)

Aprovado em 10 de dezembro de 2009.

3

Dedico este trabalho, a todas as pessoas que de alguma maneira, contriburam para concretizao deste sonho. Principalmente a minha famlia, meu amor, que sempre esteve ao meu lado no decorrer desta caminhada e em todos os momentos importantes da minha vida. A todos vocs meu singelo reconhecimento e agradecimento.

AGRADECIMENTOS Primeiramente agradeo a Deus, pois sempre guiou meus passos nos momentos mais difceis, fazendo com que a chama da esperana e perseverana nunca se apagasse. Aos meus pais, que doaram todo seu amor, me apoiando e me incentivando a sempre prosseguir. Eu amo muito vocs! Ao meu amor, companheiro e amigo de todas as horas. Aos meus irmos, cunhados e sobrinho pela torcida carinhosa. Aos mestres, que me ensinaram a ver o mundo com outros olhos. Em especial a querida e admirvel professora Nice de Neves Miranda a quem respeito e me espelho. minha orientadora e supervisora, Rosilaine Coradini Guilherme, pela pacincia, dedicao, respeito e carinho. Meu muito obrigado. Ao meu supervisor de campo, Andr Michel dos Santos, pela admirvel persistncia e dedicao. Parabns. A todas colegas do curso de Servio Social e em especial as queridas amigas e colegas Tatiane, Claudemara, Edilamar, Luciana e Paula, pela amizade, cumplicidade e amabilidade. A toda equipe do Centro Social Marista Santa Marta, que me recebeu com muito carinho e me mostram outra face de famlia. A todos os professores que contriburam para em minha formao, meu muito obrigado.

Vocs podem calar a minha voz, mas no meus pensamentos! Vocs podem acorrentar meu corpo, mas no minha mente! No serei platia dessa sociedade doente, serei autor da minha histria! Os fracos querem controlar o mundo, os fortes o seu prprio ser! Os fracos usam as armas, os fortes as idias! (A saga da humanidade)

RESUMO

O presente Trabalho Final de Graduao foi produzido com base na interveno social vivenciada a partir da experincia de estagio curricular obrigatrio, realizado no Centro Social Marista Santa Marta, localizado na regio oeste do municpio de Santa Maria-RS. A temtica abordada envolve a questo digital, mais propriamente a incluso digital. Deste modo, tem como objeto de estudo a educao digital voltada incluso social, apontando as possveis contribuies do Servio Social nesta esfera. No decorrer do estudo, busca-se explicitar como as Tecnologias da Informao e Comunicao repercutem na sociedade contempornea. O exerccio da reflexo se torna extremamente necessrio medida que se analisa de forma critica os resultados oriundos dos avanos tecnolgicos e suas implicaes na vida dos sujeitos. Sendo assim, o trabalho aqui exposto prope a reflexo acerca da dialtica excluso/incluso, evidenciando os novos excludos da Era Digital: os excludos digitais. Parte-se do pressuposto de que a educao fundamental medida que se configura como uma ferramenta para construo dos sujeitos enquanto cidados aptos a desfrutarem direitos e exercitarem deveres.

Palavras-chaves: Tecnologias da Informao e Comunicao. Servio Social. Questo digital. Excluso/incluso.

ABSTRACT The End of Work Graduation was produced based on social intervention experienced from the experience of probation mandatory curriculum, held in Santa Marta Marist Social Center, located in the west of the city of Santa Maria-RS. The theme addressed the issue involves digital, more specifically digital inclusion. Thus has the object of study in digital education geared to social inclusion, pointing out the possible contributions of Social Services in this sphere. During the study, try to explain how the Information and Communication Technologies impact on contemporary society. The exercise of reflection becomes extremely necessary as they examined critically the results from the technological advances and their implications on the lives of subjects. Thus, the work displayed here proposes a reflection on the dialectic exclusion / inclusion, showing excluded from the new digital age: the "digital excluded." It is assumed that education is crucial as it configures as a tool for construction of subjects as citizens able to enjoy rights and exercise duties.

Keywords: Information Technologies and Communication, Social Work. Digital issue. Exclusion/inclusion.

SUMRIO

INTRODUO ................................................................................................................... 1 A TRAJETRIA HUMANA MARCADA POR DESCOBERTAS

8

TECNOLGICAS ............................................................................................................. 10 1.1 BREVE REFLEXO DA HISTRIA EVOLUTIVA DA HUMANIDADE ................ 10 1.2 A ERA DA INFORMAO E SEUS REFLEXOS CONTEMPORNEOS ................ 19 1.3 OS NOVOS EXCLUDOS: A DIALTICA DA EXCLUSO/INCLUSO ............... 26 2 O SERVIO SOCIAL SINTONIZADO REALIDADE COMUNITRIA E AOS NOVOS TEMPOS ...................................................................................................... 32 2.1 UM ELO HISTRICO ENTRE COMUNIDADE E CENTRO SOCIAL: HISTRIA DE TRABALHO E EMANCIPAO.............................................................. 33 2.2 O SERVIO SOCIAL NO CONTEXTO COMUNITRIO: A TEORIA E A PRTICA COTIDIANA....................................................................................................... 36 2.3 O DIGITAL NA COMUNIDADE: CENTRO MARISTA DE INCLUSO DIGITAL UMA NOVA PERSPECTIVA DE INSERO SOCIAL.................................. 41 3 SERVIO SOCIAL E OS DESAFIOS DA INCLUSO DIGITAL ........................... 44 3.1 A IMPORTNCIA DA EDUCAO NA ERA DIGITAL PARA A INCLUSO SOCIAL................................................................................................................................. 44 3.2 SERVIO SOCIAL INSERIDO NA ERA DIGITAL: UM NOVO CAMPO SCIOOCUPACIONAL .................................................................................................................. 47 3.3 A ATUAO DO SERVIO SOCIAL NO CMID: RELATO DE EXPERINCIAS . 50 CONSIDERAES FINAIS .............................................................................................. 65 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS .............................................................................. 67

8 INTRODUO

Este Trabalho Final de Graduao, ora apresentado ao Curso de Servio Social do Centro Universitrio Franciscano (UNIFRA), constituiu uma sntese dos conhecimentos adquiridos no decorrer da graduao, para obteno do titulo de bacharel em Servio Social. A temtica abordada envolve a questo digital, mais propriamente a incluso digital. O objetivo do estudo propiciar o debate acerca da importncia da educao digital voltada incluso social, apresentando-se as possveis contribuies do Servio Social nesta esfera. O estgio curricular em Servio Social se realizou no Centro Social Marista Santa Marta, localizado na regio oeste do municpio de Santa Maria RS, junto Comunidade Nova Santa Marta, durante o perodo que compreendeu maro a dezembro de 2008. No decorrer do estgio, pode-se vivenciar a questo digital, mais especificamente na rea de formao digital, por meio do Centro Marista de Incluso Digital CMDI. O Centro Marista de Incluso Digital um dos projetos sociais desenvolvidos pelo Centro Social Marista Santa Marta, onde ofertam cursos de qualificao profissional na rea informacional aos moradores da regio. Desta maneira, o presente Trabalho Final de Graduao est disposto em trs sees, cada uma dividida em trs subitens, que discorrem de forma minuciosa a temtica abordada. A abordagem detalhada se deve configurao do tema como categoria nova ao Servio Social, necessitando estudos sistemticos, profundos e meticulosos. Sendo assim, a primeira seo apresenta, de forma breve, a trajetria histrica da humanidade, marcada por descobertas tecnolgicas que implicaram nas mudanas paradigmticas do mundo contemporneo. Contextualiza, ainda, a presente era da informao, bem como seus reflexos na atualidade. Por conseguinte, instiga o debate e a reflexo acerca da categoria incluso/excluso, a fim de apresentar os novos excludos: os excludos digitais. A segunda seo apresenta o Servio Social no contexto comunitrio e sua interveno junto ao mesmo. Acredita-se ser de extrema relevncia a insero do Assistente Social neste campo scio-ocupacional, uma vez que contribui para o enfrentamento das mltiplas formas de excluso vivenciadas pela Comunidade Nova Santa Marta. A terceira seo pontua alguns desafios ao Servio Social frente Era Digital e o processo de excluso social. Alm disto, aponta algumas estratgias de enfrentamento questo, tendo em vista a experincia prtica de estgio na rea de formao digital. Neste sentido, apresenta os resultados obtidos com a implementao do projeto de interveno, contribuindo para futuras experincias de prticas com a questo digital.

9 Por fim, realiza um apanhado geral do trabalho, destacando os resultados obtidos a partir dos estudos e da prtica de estgio curricular no decorrer da graduao, alm de apresentar algumas ponderaes acerca do tema explanado, revelando algumas propostas e desafios ao Servio Social, no que se refere questo digital e aos novos excludos digitais. Portanto, este trabalho se caracteriza como uma nova fonte de dados ao Servio Social, no que tange interveno junto questo digital. No intuito de trabalhar coerentemente, utilizou-se de conhecimentos tericos, tanto do campo do Servio Social, como de outras reas do conhecimento, em especial da Educao, visando relacionar a teoria com a prtica.

10 1 A TRAJETRIA HUMANA MARCADA POR DESCOBERTAS TECNOLGICAS

A histria torna-se significativa, medida que relembramos o passado para melhor compreender o presente e vislumbrar um futuro. Seria invivel entender-se a sociedade da informao ou sociedade do conhecimento, dependendo do olhar, quando no se apropria da histria do processo evolutivo da humanidade. O homem est intrinsecamente ligado s mudanas do mundo contemporneo, mais do que isso, o protagonista dessas mudanas; sendo elas aceleradas, contnuas e profundas. O impacto social ocasionado pela evoluo tecnolgica vem afetando no s a vida social, como tambm toda uma questo ambiental, exercendo influncia num contexto mundial. de fundamental importncia a apropriao do processo evolutivo, onde a nica certeza a incerteza, em um mundo que se desdobra e se desvela a todo o instante, de forma visvel. Cabe ressaltar, que o exerccio da reflexo extremamente necessrio para a anlise crtica dos avanos contemporneos, mas, principalmente, para a utilizao dos benefcios oriundos das tecnologias, da forma mais inteligente e adequada possvel. Nessa perspectiva, a primeira seo deste Trabalho Final de Graduao em Servio Social abordar, de forma breve, as recentes mudanas de paradigmas que influenciaram a trajetria histrica da humanidade; tendo em vista que parte delas marcada por avanos tecnolgicos, que implicaram transformaes profundas e significativas na vida dos homens. Desta maneira, esta primeira seo est disposta em trs subitens. O primeiro tratar de resgatar acontecimentos histricos que demarcaram importantes avanos tecnolgicos para o desenvolvimento da humanidade; o segundo subitem apresentar a era atual, pontuando aspectos positivos e negativos observados; por fim, o terceiro subitem buscar debater e analisar a dialtica incluso/excluso, tendo em vista a atual conjuntura social, poltica e econmica que se vivencia.

1.1 BREVE REFLEXO DA HISTRIA EVOLUTIVA DA HUMANIDADE

Uma sucesso de eventos tem marcado a evoluo do homem nos ltimos sculos. As mudanas ocorridas so resultados do desenvolvimento do saber, do conhecimento, da capacidade infinita do homem em criar e recriar, a partir do raciocnio. Desta forma, cabe recordar fatos que, de alguma maneira, interligam-se, transformando a vida dos homens na terra, nos mais diferentes aspectos, sejam eles polticos,

11 econmicos, sociais ou culturais. Por conseguinte, rompendo e desmistificando paradigmas antes tidos como absolutos e verdadeiros. Neste contexto de transformao, tudo se tornou to acelerado, que mesmo o homem no consegue acompanhar em sua plenitude as mudanas que vm ocorrendo, forando muitos a criarem estratgias de adaptao, ou mesmo, sobrevivncia. Como bem ressalta o autor Lima (2000, p.08), sabemos que estamos em um perodo de grandes transformaes, em que as prprias pessoas responsveis pela criao e/ou divulgao da tecnologia no tm (ou no tinham) uma clara viso do impacto e importncia das tecnologias inventadas. Revisitando a histria, pode-se dizer que a Primeira Revoluo Industrial iniciada na Inglaterra, em meados do sculo XVII, posteriormente expandindo-se pelo mundo no sculo XIII, teve grande influncia no processo produtivo no plano econmico e social, interferindo diretamente no modo de viver dos homens. Tal fato deve-se a um conjunto de mudanas tecnolgicas que substituiu o trabalho braal pelo trabalho mecanizado1; logo, estabelecida uma nova relao entre capital e o trabalho.

O que significa a frase a revoluo industrial explodiu? Significa que a certa altura da dcada de 1780, e pela primeira vez na histria da humanidade, foram retirados os grilhes do poder produtivo das sociedades humanas, que da em diante se tornaram capazes da multiplicao rpida, constante, e at o presente ilimitada, de homens, mercadorias e servios. Este fato hoje tecnicamente conhecido pelos economistas como a partida para o crescimento auto-sustentvel (HOBSBAWN, 2002, p.50).

De fato, a Revoluo Industrial marcou a histria da humanidade, tendo em vista que, desde ento, mudanas no pararam de acontecer; Hobsbawn (2002, p.53) vem afirmar que a Revoluo Industrial ainda prossegue, pois quando muito podemos perguntar quando as transformaes econmicas chegaram longe o bastante para estabelecer uma economia substancialmente industrializada, capaz de produzir [...] tudo que desejasse dentro dos limites das tcnicas disponveis [...]. Logo, tm-se uma economia industrial amadurecida2 que produz a partir de necessidades e desejos, conforme era possvel na poca. De acordo com Braick e Mota (2007), neste perodo, o capital passa a controlar o processo tcnico de produo, ditando as normas e as regras ao trabalhador que perde o poder de deciso do que produzir ou no, instituindo-se a diviso e o pagamento dos servios prestados. Neste momento, o capitalismo se configura como o sistema econmico vigente.Surgimento da mquina a vapor rotativa de James Watt (1769-1782). Segundo Hobsbawn (2002), somente na dcada de 1820, com o francs Carnot, que se desenvolveu uma teoria mais adequada acerca do invento podendo ser utilizada por longas geraes, prticas de mquina a vapor, principalmente em minas. 2 Termo tcnico utilizado por Hobsbawn (2002) em seu livro A era das revolues.1

12 D-se incio ao proletariado, em que o trabalhador passa a vender como mercadoria a prpria fora de trabalho. No intuito de elucidar melhor a questo acerca da venda da fora de trabalho, Beaud (1989, p.181) descreve que, aps tatear por longo tempo, Marx realmente deixou claro: no o trabalho, a fora de trabalho que o proletariado vende ao capitalista. O autor segue explicando que o valor dessa fora de trabalho estabelecido pelas despesas de manuteno do trabalhador e sua famlia. Alm disso, no momento em que o trabalhador obrigado a produzir aqum do que necessitaria para sobreviver, suscita-se a mais-valia; que nada mais do que o excedente da fora de trabalho humano. Concluindo-se, neste excedente, na explorao do trabalho humano que se estabelece o lucro do detentor do capital. Cabe ressaltar que a Revoluo Industrial no se deu de forma instantnea revolucionando o sistema fabril, produzindo em grande escala a baixos custos, de maneira que as demais formas de produo fossem extintas, mas de modo que o novo modelo fosse se estabelecendo e garantindo mercado, isto , a demanda por suas mercadorias.

[...] as revolues industriais pioneiras ocorreram em uma situao histrica especial, em que o crescimento econmico surge de um acmulo de decises de incontveis empresrios e investidores particulares, cada um deles governado pelo primeiro mandamento da poca, comprar no mercado mais barato e vender mais caro (HOBSBAWN, 2002, p.56).

A primeira indstria a revolucionar foi a do algodo, que detinha grandes investidores empresrios que almejavam o desenvolvimento e o crescimento do setor. At 1830, a indstria algodoeira era a que mais prosperava, sendo intitulada ramo txtil, segmento que mais empregava, expandindo-se exponencialmente no mercado. Em segundo lugar, com as tcnicas mais avanadas e mecanizadas da poca, estavam as fbricas de cervejarias, setor que pouco afetou a economia a sua volta, no se comparado ao ramo txtil. Neste cenrio, tornou-se visvel que a economia daquele perodo estava calcada na indstria algodoeira. Se o algodo crescia, a economia crescia juntamente; se o algodo decaa, simultaneamente, decairia a economia. Por volta da dcada de 1830 e incio de 1840, o algodo demonstrava grandes problemas de crescimento, sem contar com a agitao revolucionria que incidiu sobre a sociedade, marcando a primeira crise da economia capitalista industrial. Conforme Hobsbawm (2002, p.64), essa primeira crise geral do capitalismo no foi puramente um fenmeno britnico. Nota-se que atingiu diversos segmentos, de maneira expressiva e incisiva, os segmentos sociais.

13

Suas mais srias conseqncias foram sociais: a transio da nova economia criou a misria e o descontentamento, os ingredientes da revoluo social. E, de fato, a revoluo social eclodiu na forma de levantes espontneos dos trabalhadores da indstria e das populaes pobres das cidades [...]. Os trabalhadores de esprito simples reagiram ao novo sistema destruindo as mquinas que julgavam ser responsveis pelos problemas; mas um grande e surpreendente nmero de homens de negcios e fazendeiros ingleses simpatizava profundamente com estas atividades dos trabalhadores ludistas3 porque tambm eles se viam como vtimas da minoria diablica de inovadores egostas (HOBSBAWM, 2002, p.64-5).

Neste perodo, o descontentamento expressava-se de forma geral, tanto por parte dos trabalhadores fabris, como pelos pequenos comerciantes. Os trabalhadores tendo sua mo-deobra explorada, recebendo apenas para sobreviver, enquanto os patres (capitalistas) acumulavam lucros, que financiavam e faziam crescer as indstrias, alm do luxo e das regalias que desfrutavam. Os pequenos comerciantes, ou a pequena burguesia, tendo dificuldade em levantarem crditos para impulsionar e provocar a economia, mantinham-se invisveis e suscetveis a desabar no abismo dos destitudos de propriedade, quer dizer, compartilhando com os trabalhadores os mesmos descontentamentos.

O desenvolvimento do capitalismo atravs das fases principais de sua histria se ligou essencialmente transformao tcnica que afeta o carter da produo e por esse motivo os capitalistas ligados a cada nova fase tenderam a ser, pelo menos inicialmente, uma camada diferente de capitalistas com relao queles que tinham aplicado seu capital no tipo mais antigo de produo. Foi acentuadamente esse caso na Revoluo Industrial [...] Por sua vez, a alterao na estrutura da indstria afetou as relaes sociais dentro do modo de produo capitalista, influenciando radicalmente a diviso do trabalho, diminuindo as fileiras do pequeno trabalhadorproprietrio subempreiteiro, arteso intermedirio entre capitalista e assalariado, e transformando a relao entre o trabalhador e o prprio processo produtivo (DOBB, 1987, p.31).

Nota-se que uma nova relao estabelecida, demarcando um divisor de guas entre o velho e o novo modelo de produo; a subordinao da produo ao capital, o surgimento de uma nova relao entre capital trabalho. Esta nova relao estabelecida incide no aumento da misria e explorao do trabalho: jornadas de trabalho ampliadas, salrios reduzidos, condies de trabalho e moradias precrios, entre outros fatores que interferem diretamente no sadio desenvolvimento do homem.

Ludista foi denominado um grupo de trabalhadores que por volta de 1811 e 1816, se rebelaram e destruram mquinas txteis por acreditarem que elas fossem responsveis pelo desemprego da poca (HOBSBAWM, 2002).

3

14 A partir da segunda metade do sculo XIX, a Revoluo Industrial entra em sua segunda fase, ou Segunda Revoluo Industrial. Isso se d medida que as tcnicas so aperfeioadas, sendo que outras tantas surgem para auxiliar no processo de produo e reproduo do sistema. Como exemplo, tem-se o sistema tcnico baseado na eletricidade, no petrleo, no motor exploso e nas indstrias de sntese qumica, que aceleraram ainda mais o processo de industrializao. Esta segunda fase da Revoluo Industrial propiciou que o processo tecnolgico incidisse de tal maneira nas indstrias, refletindo diretamente na sociedade, tendo em vista que, com a aplicao da fora motriz s mquinas fabris, a mecanizao se difundisse indstria txtil e minerao. Com a intensificao do trabalho fabril, passa-se a produzir em srie, e surge a indstria pesada (ao e ferro). Para acelerar ainda mais o processo de circulao de mercadorias, criam-se navios e locomotivas a vapor para transportar as mercadorias produzidas nas fbricas. Observa-se que tais avanos tecnolgicos no implicaram apenas crescimento e emancipao econmica, como tambm na explorao cada vez mais intensa do trabalhador, com jornadas de trabalho que chegaram a 14 horas, tudo em nome da alta produo e expanso econmica. Entre tantas outras condies adversas de trabalho, manifesta-se a condio de um trabalhador alienado, robotizado, sem espao para pensar e criar alheio s problemticas e acontecimentos ao seu redor; somente executores de tarefas milimetricamente estabelecidas. Em meados de 1911, um engenheiro norte-americano chamado Frederick Winslow Taylor desenvolveu e sistematizou dentro das indstrias os princpios de racionalizao produtiva do trabalho, estratgia de gesto/organizao do processo de trabalho; seu objetivo estava direcionado eficincia e eficcia operacional da administrao empresarial, logo conhecido como o Pai da Administrao Cientifca 4. Os princpios bsicos do Taylorimos tinham como foco a racionalidade produtiva do trabalho, onde o trabalho manual era separado do trabalho intelectual, estimulando a diviso, controlando o tempo e os movimentos de execuo das tarefas j programadas; este ltimo tendo por objetivo eliminar os movimentos inteis atravs de instrumentos de trabalho mais adequados.Os Princpios da Administrao Cientfica, de F. W. Taylor um influente tratado que descrevia como a produtividade do trabalho podia ser radicalmente aumentada atravs da decomposio de cada processo de trabalho em movimentos componentes4

Segundo o site Acesso em 23 de setembro de 2008.

15e da organizao de tarefas de trabalho fragmentadas segundo padres rigorosos de tempo e estudo do movimento tinham sido publicados, afinal, em 1911 (HARVEY, 1994, p.121).

Os novos tempos requisitaram novo ritmo. O taylorismo se caracteriza como uma nova tecnologia de organizao do trabalho, gerando conseqncias srias vida do trabalhador; principalmente, no que tange sade, uma vez que se estabelecem exigncias ainda mais rgidas, requerendo do corpo fsico alm do que ele pode oferecer, visto os operrios serem submetidos aos ritmos acelerados das mquinas. Ao longo do sculo XIX, foram pensadas e implementadas outras idias administrao, no intuito de obter-se melhores resultados (mais lucro). Em 1914, data simblica, o empresrio norte-americano Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, introduziu seu dia de oito horas e cinco dlares como recompensa ao trabalhador. Nesta conjuntura, Ford se utilizou dos princpios bsicos de Taylor para avanar nas teorias da administrao. Contudo, distinguiu-se do taylorismo, em razo da viso mais ampla, quer dizer, suas idias exigiam da empresa extensa mecanizao (ao contrrio do taylorismo), o uso de mquinas - ferramentas especializadas, linha de montagem e de esteira rolante, incidindo em uma crescente diviso do trabalho. A produo em massa significaria o consumo de massa, utilizando economia de escala, ou seja, em grandes quantidades iguais. Conforme Harvey (1994, p.121), um novo sistema de reproduo da fora de trabalho, uma nova poltica de controle e gerncia do trabalho, uma nova esttica e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrtica, racionalizada, modernista e populista. Nesta segunda fase da Revoluo Industrial, cresceu a concorrncia entre os pases, tendo em vista que a mesma se expandiu para a Alemanha, Itlia, Blgica, Holanda, Estados Unidos e Japo que se desenvolviam e cresciam de acordo com a cultura, a sociedade e a economia locais. Crescendo a concorrncia e a indstria de bens de produo, concomitantemente, adquiriram-se novas invenes oriundas das novas fontes de energia (eltrica e derivada do petrleo).

Muitos dos que buscaram descrever a Revoluo Industrial como uma srie contnua de transformaes que perdurou alm mesmo do sculo XIX, em vez de como uma modificao feita de uma s vez, parece ter empregado o termo como sinnimo de uma revoluo puramente tcnica. Ao fazer isso, perderam de vista a importncia especial dessa transformao na estrutura da indstria e nas relaes sociais de produo, conseqncia da modificao tcnica em certo nvel crucial. Se focalizarmos a ateno na modificao tcnica per se, ao mesmo tempo verdadeiro e importante que, uma vez lanada em sua nova carreira, essa modificao constitua um processo contnuo (DOBB, 1987, p.269-270).

16

Lemos (2002), apoiado em Gille, diz que a Revoluo Industrial aparece em dois grandes momentos de 1855 a 18705, perodo de adaptao de natureza tcnica e econmica [...]; e de 1880 a 19006, onde as grandes mudanas entram em jogo com a produo de energia em larga escala [...]. Aliada a todas essas mudanas, surgem as diversidades de meios de transporte e comunicao.

Em muitos aspectos, as inovaes tecnolgicas e organizacionais de Ford eram mera extenso de tendncias bem-estabelecidas. A forma corporativa de organizao de negcios, por exemplo, tinha sido aperfeioada pelas estradas de ferro ao longo do sculo XIX e j tinha chegado, em particular depois da onda de fuses e de formao de trustes e cartis no final do sculo, a muitos setores industriais (um tero dos ativos manufatureiros americanos passaram por fuses somente entre os anos de 1888 e 1902) (HARVEY, 1994, p.121).

As invenes e as novas descobertas tornam-se cada vez mais intensas e crescentes, impulsionadas por um sistema econmico capitalista que objetiva o lucro, aplicando-se a prtica das indstrias e no desenvolvimento da cincia. A indstria estando mecanizada cria uma rede nacional de estradas de ferro, dando incio construo de ferrovias em outros pases, exportando locomotivas, vages, navios e mquinas industriais; o que refletir mais tarde no incentivo para conflitos entre naes, tendo em vista que cada uma delas quer ser a mais poderosa e soberana frente as demais. Desta maneira, ao final do segundo perodo da Segunda Revoluo Industrial, a necessidade de comercializar com as demais regies e a colonizao de novas reas para escoar os produtos maciamente produzidos pelas indstrias culminou em uma acirrada disputa entre as potncias industrializadas, gerando graves conflitos e um crescente esprito armamentista que incentivou, mais tarde, ecloso da Primeira Guerra Mundial. A Primeira Grande Guerra um marco na histria mundial, entendida por muitos autores como a me das guerras, devido s conseqncias que causou; mas, principalmente, por seu efeito devastador no sentido de que as reaes no se esgotaram com seu final, irradiando, outras tantas e conhecidas batalhas.

A Grande Guerra foi travada no ambiente resultante do salto tecnolgico da Revoluo Industrial que, da Gr-Bretanha, se irradiou pela Europa Continental e pelos Estados Unidos, e os meios e os processos de combate de 1914-18 refletem necessariamente este fato. [...]. A estrada de ferro e a telegrafia sem fio (a TSF), presentes na Guerra de Secesso e na Guerra Franco-Prussiana, so extensivamente utilizadas na Grande Guerra, permitindo transportar, controlar e abastecer grandes5 6

Crescimento demogrfico, rede bancria, organizao industrial, aumento da demanda. Turbocompressores e motores a exploso e eltricos, aos especiais, qumica de sntese, lubrificantes.

17massas de homens e de materiais. O desenvolvimento do motor a exploso e do tanque, o carro de combate na terminologia militar. O submarino, em fase de prottipo na guerra entre os Estados, tornou-se arma temvel no ataque navegao aliada (ARARIPE, 2006, p. 325-26).

Desde a Primeira Revoluo Industrial, at o presente, o surgimento da mquina a vapor e os avanos tecnolgicos incidem de maneira tanto positiva como negativa na vida do homem, a exemplo da Primeira Guerra Mundial. Outro marco importante na histria da humanidade trata da Segunda Guerra Mundial, travada entre o final de 1942 e o incio de 1943, onde ocorreu extermnio em grande massa, caracterizado pela crueldade e mobilizao:

A Segunda Guerra Mundial foi uma guerra total no sentido lato da palavra. A poltica nazista de destruio dos judeus (a soluo final) contava com sofisticada organizao de busca, seleo, transporte, concentrao e assassinato nos campos de extermnio (o chamado Holocausto), para onde tambm foram enviados ciganos, oposicionistas e at prisioneiros de guerra. J em 1945, os americanos jogaram bombas atmicas em Hiroshima e Nagasaki, ameaando o mundo com nova tecnologia de morte em massa. Essa foi a guerra total no ltimo conflito mundial. Da a mobilizao de recursos simplesmente fabulosos (TOTA, 2006, p.356).

Os avanos tecnolgicos no pararam de acontecer; em meados de 1973 (data simblica do incio da Acumulao Flexvel), surge a micro-informtica e a biotecnologia. Juntamente com elas, um novo sistema de produo, tendo em vista a incapacidade do fordismo em responder s exigncias e conter contradies inerentes ao capitalismo. O novo sistema mais flexvel, possibilitando a obteno de mais lucros, o que foi denominado Acumulao Flexvel. Antunes (1995), sustentado em Harvey, explana analiticamente as transformaes do capitalismo:

Em seu entendimento, o ncleo essencial do fordismo manteve-se forte at pelo menos 1973, baseado numa produo em massa. Segundo esse autor, os padres de vida para a populao trabalhadora dos pases capitalistas centrais mantiveram relativa estabilidade e os lucros monoplicos tambm eram estveis. Porm, depois da aguda recesso instalada a partir de 1973, teve incio um processo de transio no interior do processo de acumulao de capital. Em sua sntese sobre a acumulao flexvel nos diz que essa fase da produo marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos produtos e padres de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produo inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de servios financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovao comercial, tecnolgica e organizacional (p.20-21).

O novo cenrio se apresentou em nvel mundial, tendo em vista que este processo vem se expandindo desde a Primeira Revoluo Industrial, fortalecida ainda mais pelo capitalismo. As transformaes se incidiram de modo global; contudo, de maneira diferente de pas para

18 pas. Conforme Antunes (1995, p.22), Harvey formulou trs caractersticas bsicas para identificar o modo de Acumulao Flexvel; a primeira diz respeito ao crescimento, a segunda diz que este crescimento est calcado na explorao do trabalho do universo de produo, e a terceira se refere ao capitalismo que possui uma relao intrnseca entre tecnolgica e organizao. Este cenrio se configura de forma bem distinta dos historicamente conhecidos, uma vez que possui caractersticas bem particulares, tais como a economia mvel; investir-se onde maior lucro obtiver-se (mo-de-obra barata, produo a baixos custos); produtos diversificados (aumento das exportaes e importaes); meios comunicacionais avanados (celulares, internet, satlites entre outros); estoque mnimo, mercado aberto (globalizao); direitos trabalhistas cada vez mais desregulamentados; tendo em vista a diminuio dos gastos do patro com o trabalhador, em troca do emprego assegurado, entre outros. Segundo Iamamoto (2007), a competitividade atual gerada pelo capitalismo requer qualidade cada vez maior dos produtos, visto que garantir a rentabilidade da produo, tendo em vista o contexto de globalizao da produo e do mercado mundial que feroz.

Vive-se hoje uma terceira revoluo industrial acompanhada de profundas transformaes mundiais. Assim como em etapas anteriores do desenvolvimento industrial, radicais mudanas tecnolgicas envolveram uma ampla expulso da populao trabalhadora de seus postos de trabalho. Atualmente, segmentos cada vez maiores da populao, cuja fora de trabalho no tem preo, porm no tm mais lugar no mercado de trabalho [...] So estoques de fora de trabalho descartveis pra o mercado de trabalho, colocando em risco para esses segmentos a possibilidade de defesa e reproduo da prpria vida (IAMAMOTO, 2007, p.33).

O contemporneo quadro social, principalmente no que tange sociedade brasileira, demonstra que o desemprego, resultante das novas tecnologias, agravado pelo desemprego estrutural; por uma relao de trabalho presidida pela violncia; luta pela terra; explorao do trabalho infantil; relaes de trabalho clandestinas e ilegais; trabalho escravo que incorpora a mscara moderna para disfarar a verdadeira face de explorao. De modo geral, a modernizao to exaltada por alguns a misria e a explorao de outros, reafirmando a formao histrica social brasileira de explorao do trabalho.

O impacto social da evoluo tecnolgica neste sculo foi de tal ordem que assistimos, num curto espao de cem anos, ao homem criar extenses para suas pernas, inventando o automvel para caminhar mais rpido, ir mais longe adquirindo asas e voando em objetos mais pesados do que o ar, estender sua capacidade auditiva escutando vozes distantes atravs do telefone e do rdio, aumentar seu poder de viso iluminando as noites e vendo o que se passa em terras distantes atravs da

19televiso, at estender seus crebro para muito alm da imaginao atravs do computador (LIMA, 2000, p. 09).

Por conseguinte, confirma-se a idia que se vive atualmente em uma aldeia global, um grande planeta ora aldeia, onde tudo est conectado, interligado, inter-relacionado, qui interdependente. Demonstrando que a nica preocupao esta calcada em gerir o tempo, controlando o fuso horrio de cada pas para no causar constrangimento ao se comunicar com os vizinhos. O Novo Mundo, como diz Ianni (2003, p.35), continua a inquietar a vida e o pensamento de muita gente, em todo a planeta, alm daqueles que o habitam. So vrios os desafios que atravessam pocas, conjunturas, situaes e rupturas, assinalando momentos mais ou menos fundamentais da histria do que o foi e do que tem sido o Novo Mundo [...]. Neste sentido, torna-se fundamental conhecer melhor o mundo em que atualmente se vive. Com isso, entende-se os motivos pelos quais se apresentam tantas desigualdades, s quais, mesmo que inconscientemente, reproduz-se. Cabe ainda um questionamento fundamental em meio a esse processo: diante do impacto social das evolues tecnolgicas, qual sociedade vive-se atualmente?

1.2 A ERA DA INFORMAO E SEUS REFLEXOS CONTEMPORNEOS

Banalizou-se dizer: vive-se em uma sociedade da informao ou mesmo sociedade do conhecimento; mas, afinal, que sociedade esta? Qual sociedade vive-se atualmente? Primeiramente, cabe a apropriao do que essas terminologias significam, para se compreender questionamentos e, posteriormente, refletir acerca das mudanas paradigmticas que as (re) configuram. Para Braick e Mota (2007), a sociedade da informao expressa pelo poder da informao, do saber, da competncia do homem em processar tudo que lhe transmitido. J a sociedade do conhecimento marcada pela exploso das tecnologias, em especial da tecnologia da informao (TI), que resulta contnuas e profundas transformaes, principalmente no que tange s formas como as pessoas se relacionam.Faz muito tempo que toda uma tradio de pensamento crtico desvelou os pressupostos ideolgicos do conceito de informao, tal como usado para designar a nova sociedade que se supe suceder sociedade industrial, e assinalou os efeitos de sentido no controlados que nutrem a confuso entre este conceito e o conhecimento ou saber. A informao assunto de engenheiros. Seu problema consiste em encontrar a codificao mais eficaz (em velocidade e custo) para

20transmitir uma mensagem telegrfica de um emissor a um destinatrio. O que importa o canal. A produo do sentido no est includa no programa. A informao est separada da cultura e da memria (MATTELART, p.234, 2006).

Novas maneiras de comunicao e de convivncia vm alterando consideravelmente a vida em sociedade, medida que se distanciam as pessoas prximas e se aproximam as pessoas distantes, reduzindo tempo e espao. Ferramentas como a internet, o e-mail, o celular, a TV a cabo e a videoconferncia so instrumentos que intensificam e estimulam estas formas de comunicao; ao passo que pais, mes e filhos correm o risco de no desfrutarem de uma convivncia plena e sadia. Como bem ressalta Schaff (1995), nem sempre algum se percebe imerso a uma acelerada e dinmica revoluo da microeletrnica, mesmo estando rodeados das mais diversas expresses, a comear pelos pequenos utenslios domsticos que fazem parte de atividades cotidianas, como por exemplo, televisores, geladeira, mquinas de lavar loua e roupa, microondas etc. Lima (2000, p.14), apoiado em McLuhan, destaca o seguinte:

McLuhan considerava que estvamos caminhando para uma aldeia global, tendo como base o avano da tecnologia na rea do processamento da informao via eletrnica. Para ele, em curto perodo de tempo, faramos uso da televiso e outros meios para transportar o mundo para o quintal, transformando o globo em uma pequena aldeia onde todos se relacionariam com todos e participariam de tudo.

Este cenrio remete idia de que o uso desenfreado das tecnologias e o uso intenso e pblico da internet propiciam a todo o momento, em tempo real, a comunicao com o mundo todo; atravs de mensagens instantneas que chegam ao destino em questo de minutos, partilhar experincias com diversas culturas, participar de cursos e seminrios no sof da sala, realizar compras sem sair de casa, fazendo com que tudo se interligue. No h fatos que ocorram em nvel mundial que todos no saibam, como tambm no h fatos que no repercutam em todos, sejam eles de natureza grave ou no. Porm, diante das significativas formas de assimilao social dos elementos da comunicao que traduzem a singularidade das histrias das lnguas, das culturas de cada povo ou segmento social, a noo de sociedade da informao anulada. Parte-se do princpio que a sociedade da informao a sociedade da riqueza, da abundncia de bens e servios. Nunca se teve tanta diversidade de bens de consumo ao alcance da humanidade. fato que h riquezas, mas tambm fato que tais riquezas no vm sendo partilhas, mas ento como partilh-las? Eminentemente, se h riquezas e no h

21 compartilhamento, ocorre uma concentrao, o que configura um problema poltico. Sendo assim, no se trata mais de falta de recursos, mas o gerenciamento desses.

[...] a noo de sociedade da informao propaga em nossos pases, de uma forte cumplicidade discursiva com a modernizao neoliberal, racionalizadora do mercado como nico princpio organizador da sociedade em seu conjunto, segundo o qual, esgotado o motor da luta de classes, a histria teria encontrado sua troca nos avatares da informao (BARBERO, 2006, p.56).

A atual sociedade da informao, assim definida por muitos autores, entendida por Eisenberg e Cepik (2002) como uma rede social transnacional, construda ao redor das novas TICs. Todos esto interligados a todos e a tudo, desde a maneira como se organizam at a forma como pensam. Este um mundo globalizado, esta , inexoravelmente, uma Aldeia Global.O global e o local so socialmente produzidos no interior dos processos de globalizao. Distingo quatro processos de globalizao produzidos por outros tantos modos de globalizao. Eis a minha definio de modo de produo de globalizao: o conjunto de trocas desiguais pelo qual um determinado artefacto, condio, entidade ou identidade local estende a sua influncia para alm das fronteiras nacionais e, faz-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outro artefacto, condio, entidade ou identidade rival (SANTOS, 2003, p.63).

O impacto social ocasionado pelos avanos tecnolgicos vem alterando a vida nos mais diversos sentidos, sejam eles polticos, econmicos, sociais, culturais, ambientais etc. Em meio a este processo de transformaes, os reflexos no escolhem ricos ou pobres, brancos ou negros, europeus ou americanos para atingir; porm, afetam a todos com maior ou menor intensidade. A civilizao atual marcada pela tecnocincia, onde os seres humanos se tornam semi-Deuses, capazes de reinventar a prpria vida. O mundo contemporneo encontra-se marcado pelo egocentrismo alienante, pelo egosmo exacerbado, que intensifica as injustias ignorantes, contradies sociais e muitas incertezas angustiantes. Que garantias se tem para o futuro? O delrio de uma poca nunca foi to longe. Para Braick e Mota (2007, p.03), h, portanto, na sociedade da informao uma dialtica entre o local e o global, na medida em que problemas aparentemente localizados podem interferir na vida de todas as pessoas, exigindo uma soluo global. de fundamental importncia que se aproprie das recentes mudanas de paradigmas que influenciaram na trajetria histrica da humanidade, com vistas melhor compreenso do fenmeno tcnico-

22 cientfico contemporneo, mas, principalmente, para utilizar os benefcios oriundos do progresso tecnolgico e cientfico a favor do homem.A imaginao pselectrnica, combinada com a desterritorializao provocada pelas migraes, torna possvel a criao de universos simblicos transnacionais, comunidades de sentimentos, identidades prospectivas, partilhas de gostos, prazeres e aspiraes, em suma, o que Appadurai chama esferas pblicas diaspricas (1997: 4). De outra perspectiva, Octvio Ianni fala do prncipe electrnico o conjunto das tecnologias eletrnicas, informticas e cibernticas, de informao e comunicao, com destaque para a televiso que se transformou no arquitecto da gora electrnica na qual todos esto representados, reflectidos, defletidos ou figurados, sem risco da convivncia nem da experincia (1998: 17) (SANTOS, 2005, p.45).

Segundo Santaella (2003), a globalizao no seria possvel sem as poderosas ferramentas tecnolgicas. Atravs delas, os resultados obtidos para a comunicao e a cultura so evidentes. Estamos, sem dvida, entrando numa revoluo da informao e da comunicao sem precedentes que vem sendo chamada de revoluo digital (p.70). Neste sentido, a autora diz que a revoluo da informao no simplesmente uma questo de progresso tecnolgico. Ela tambm significativa para a nova matriz de foras polticas e culturais que ela suporta (p.73). No decorrer da histria, as revolues tecnolgicas incidiram na sociedade, de tal maneira que alteraram profundamente a vida dos sujeitos, desde as formas de se relacionarem, at a distribuio de bens e servios. Neste contexto de transformao, tudo se tornou to acelerado e dinmico; que mesmo o homem no consegue acompanh-la em sua plenitude, forando muitos a criarem estratgias de adaptao, ou mesmo de sobrevivncia. De acordo com Lima (2000, p.08), sabemos que estamos em um perodo de grandes transformaes, em que as prprias pessoas responsveis pela criao e/ou divulgao da tecnologia no tm (ou no tinham) uma clara viso do impacto e importncia das tecnologias inventadas. Na atual Era da Informao, o computador parece ser o cerne de tudo. Tendo em vista estar presente em boa parte das invenes da segunda metade deste sculo, caracterizando-se como uma das principais, se no a principal ferramenta comunicacional. Contudo, cabe ressaltar que nem sempre o computador foi assim. Inicialmente, ele era uma extenso da calculadora, objeto grande e de difcil manuseio que no oferecia muita utilidade. Hoje, caracteriza-se como uma ferramenta importantssima no processo de comunicao, transmisso de informao e conhecimento, assim como de fcil manejo e locomoo. Conforme Silveira (2001, p.08), a integrao do computador ao

23 microprocessador, e deste aos avanos das telecomunicaes, gera um processo rpido e contundente de disseminao de informaes. Fica evidente que o computador o cone da nova revoluo tecnolgica instaurada, que liga o homem em rede, alterando tempo e espao. Essas redes informacionais, que transformam a relao com o tempo e o espao e modificam o pensar acerca da tcnica, so justificadas por Barbero (2006) como movimentos que esto ao mesmo tempo integrando e excluindo, desterritorializando e relocalizando, interagindo e misturando lgicas e temporalidades das mais diversas vida em sociedade.A era da informao nossa era. um perodo histrico caracterizado por uma revoluo tecnolgica centrada nas tecnologias digitais de informao e comunicao, concomitante, mas no causadora, com a emergncia de uma estrutura social em rede, em todos os mbitos da atividade humana, e com a interdependncia global desta atividade. um processo de transformao multidimensional que ao mesmo tempo includente e excludente em funo dos valores e interesses dominantes em cada processo, em cada pas e em cada organizao social (CASTELLS, 2002, p.225).

Conforme Silveira (2001), o processo de substituio iria acontecer, e as atividades humanas que demorariam muito tempo para serem concludas, diante do processo de informatizao, tornaram-se quase que instantneas. Este processo vital para a manuteno do capitalismo, j que se maximiza o tempo na circulao do capital, rendendo ainda mais lucros. Em meio a isto tudo, o bem maior, a riqueza mais preciosa a informao. Desta maneira, uma nova gerao surge: os excludos digitais. Frutos das novas tecnologias que ampliam ainda mais o abismo social entre ricos e pobres, visto que o preo para se conectar sociedade da informao alto.

O cientista poltico canadense Arthur Kroker, em 1994, j havia alertado para a constituio de uma nova classe dirigente composta dos administradores, formuladores e executores da telemtica, uma verdadeira classe virtual. Esta nova elite comandaria uma sociedade partida entre info-ricos e info-pobres. Sua hiptese se chocava com as inmeras promessas de que o mundo teria encontrado uma tecnologia incorporadora e democratizante per si. A tecnologia da informao no estaria trazendo uma sociedade mais equnime, ao contrrio, seu rpido espraiamento pelo planeta trouxe mais desigualdades e dificuldades de super-la (SILVEIRA, 2008, p. 74).

Para acessar a internet, a rede mundial de computadores, necessrio pagar mensalmente o chamado provedor que autoriza o acesso; isso ocorre por meio da linha telefnica que aumenta ainda mais os gastos da famlia, sendo necessrio um computador em

24 casa. Contudo, um computador custa, atualmente, no mnimo, 1.000,00 reais7. Diante disto, pergunta-se: quantas famlias brasileiras dispem de telefone e de computador em casa? Com que dinheiro comprariam ferramentas comunicacionais, se muitas nem ao menos tm o alimento dirio? Segundo Silveira (2001, p.17), em um pas com quase um tero da sociedade abaixo da linha da pobreza, gastar algo em torno de 40 reais por ms pelo uso mnimo de conexo e conta telefnica impossvel para a maioria da populao. Se uma parcela significativa da populao brasileira (pobres) se encontra excluda das formas de interao digital, conclui-se que outra parcela (ricos) se encontra includa no processo de integrao e de interao digital. Segundo dados apresentados pela pesquisa da Fundao Getlio Vargas FGV/RJ (2007), a respeito da excluso digital no Brasil, em 2001, 12,46% da populao brasileira dispunha de acesso em seus lares a computador; e 8,31% Internet. Confrontando esses dados aos publicados pelo IBGE8, em 2002, demonstra-se um pequeno acrscimo desses ndices, uma vez que, do total de 47,6 milhes de domiclios pesquisados, 14,2% apresentaram possuir microcomputador em seus lares, e apenas 10,3% dispunham da Internet. Neste sentido, Demo (2007, p.06), mantendo como pano de fundo a desigualdade social, ressalta que as sociedades, em particular as capitalistas, tendem a colocar margem grandes maiorias que, servindo aos privilgios de poucos, fazem parte da mesma sociedade, expressando sua dinmica desigual. O autor entende a questo digital como marginalizao, porque tem a ver com a noo de que digital divide.

A noo de que digital divide tende a ser estanque, deixando de perceber que o desafio maior de oportunidade e eqidade. O que mais importa reconhecer que a marginalizao digital est se tornando uma das mais drsticas, tanto porque segrega pessoas e sociedades do usufruto tecnolgico, quanto porque agrava a pobreza poltica: estar analfabeto no apenas no saber ler, escrever e contar, principalmente estar por fora do mundo digital, em especial das oportunidades de saber pensar medidas por plataformas informacionais (DEMO, 2007, p.7-8).

Seguindo nesta direo, Silveira (2008) descreve que os segmentos mais empobrecidos tero cada vez mais acesso s tecnologias, devido dinmica capitalista de barateamento de preos e crescente oferta de produtos. O problema est na velocidade em que as benesses tecnolgicas se incorporem aos segmentos pauperizados; mais ainda, se este segmento estar suficientemente preparado para usufruir as tecnologias de forma produtiva.7 8

Silveira (2001) em seu livro Excluso Digital: a misria na era da informao apresenta esta estimativa. Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (PNAD) 2002.

25 H tempos, as elites vm utilizando exaustivamente os aparatos tecnolgicos, para ocuparem espaos e posies importantes junto sociedade. Entretanto, o problema est no fato de que as TICs so fundamentais para ampliao da capacidade de decidir, conhecer e pensar a sociedade. Silveira (2008, p. 52) ressalta que a tecnologia da informao est sendo usada efetivamente para acelerar o distanciamento entre segmentos sociais na apropriao da riqueza socialmente produzida. Diante disto, conclui-se que a separao entre ricos e pobres se sobressai ainda mais na Era da Informao. A dialtica entre excluso/incluso torna-se mais complexa e profunda na atual Era da Informao, exigindo anlise e reflexes intensas e constantes acerca da questo. Segundo Sawaia (2001, p. 8), a sociedade exclui para incluir e esta transmutao condio da ordem social desigual, o que implica o carter ilusrio da incluso. Prosseguindo a idia dessa autora, o processo de excluso se torna complexo e multifacetado medida que abrange diferentes sentidos materiais, polticos, relacionais e subjetivos. Ela lembra que no tem uma nica forma e no uma falha do sistema, devendo ser combatida como algo que perturba a ordem social, ao contrrio, produto do funcionamento do sistema (p. 09). Nesse nterim, apropria-se dos mltiplos significados e expresses do que excluso, para melhor analisar o sentido da excluso ou marginalizao digital. Somente desta maneira, pode-se elaborar estratgias de enfrentamento questo digital, visto que prefervel optar pela preveno tardia, obtendo-se melhores resultados, do que remediar tardiamente.

1.3 OS NOVOS EXCLUDOS: A DIALTICA DA EXCLUSO/INCLUSO

A dialtica excluso/incluso, em sua essncia, no propriamente nova. Este fenmeno j conhecido vem apresentando novas roupagens, intensificando-se com o passar do tempo, expressando-se de mltiplas formas, sejam culturais, polticas, econmicas, sociais, tnicas e outras. Trata-se de um processo que deve ser entendido para que sejam elaboradas maneiras prvias de sanar novas manifestaes emergentes. Neste sentido, cabe discutirmos um pouco mais acerca desta questo.

26 De acordo com pesquisa publicada em 2001, pelo IBGE9, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios, o nmero de analfabetos acima de 10 anos de idade de 11,4%, sendo que 50,7% da populao brasileira recebem at dois salrios mnimos; ento, qual seria o sentido de discutir sobre excluso digital em um pas que apresenta tantas outras carncias? A excluso digital no seria resultado da excluso social, h tempos to presente em nosso pas? Em meio a tantas contradies de que forma incluir as pessoas empobrecidas que esto margem da sociedade? Como bem descreve Demo (2007, p.5), [...] a poltica social tende a ser simples assistncia exemplo consumado o programa Bolsa-Famlia as pessoas no querem apenas sobreviver, mas desfrutar qualidade de vida. Isso remete ao pensamento que as pessoas no tm fome apenas de alimento, mas tambm do belo, do que as enriquece e a constri como tal.A excluso social aponta para as insuficincias e as falhas de servios e das polticas voltadas para vrias necessidades. Podemos analisar a excluso/incluso de um grupo de pessoas, de um segmento etrio, dos moradores de um bairro, de uma cidade. A excluso social a impossibilidade de poder partilhar, o que leva vivncia da privao, da recusa, do abandono e da expulso, inclusive com violncia, de um conjunto significativo da populao. Por isso uma excluso social e no pessoal (SPOSATI, 1999, p.67).

Nesta direo, Wanderley (2001) analisa situaes entendidas como excluso, expressando formas e sentidos da dialtica incluso/excluso. Para ela, inmeros processos e categorias so rotulados de acordo com o entendimento comum a todos, e acabam manifestando e apresentando fraturas e rupturas do vnculo social; exemplos destes so: deficientes; idosos; desempregados de longo tempo (fruto do desemprego estrutural vivenciado atualmente); jovens impossibilitados de insero no mercado de trabalho (por falta de qualificao profissional); minorias tnicas ou de cor (ndios); entre outros. O sculo XXI desafia reflexo e analise da sociedade em que se quer viver no futuro, diante de tantas contradies e problemas ticos, polticos, sociais, ambientais atualmente presenciados; que sociedade se quer construir no futuro, onde a disseminao do conhecimento, como fora produtiva, to desigual. Neste sentido, depender de um esforo coletivo para que esta seja transformada e se apresente igual a todos. Conforme os autores Eisenberg e Cepik (2002), as novas Tecnologias da Informao e Comunicao TCIs, ao mesmo tempo em que contribuem para a melhoria da vida do homem, tambm podem ocasionar conseqncias desastrosas. Os autores ressaltam que na9

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica.

27 esfera poltica, as TICs tm o potencial de produzir solues rpidas e inovadoras para antigos problemas, mas podem tambm produzir novos problemas, especialmente criando novas formas de excluso que j foram conceitualizadas como excluso digital (p.293). No intuito de apresentar algumas das desigualdades sociais existentes relacionadas, ou mesmo fruto das Tecnologias da Informao e Comunicao, Demo (2007) descreve o seguinte:

[...] a desigualdade de informao e comunicao no uso das tecnologias digitais um subconjunto da desigualdade social em geral. Dentro dessa perspectiva relacional, as distines mais relevantes categoriais seriam: empregadores e (des) empregados, gerentes e executivos, pessoas com altos e baixos nveis de educao, homens e mulheres, velhos e jovens, pais e filhos, brancos e pretos, cidados e migrantes. No nvel macro entre pases, a distino passa pelos desenvolvidos e em desenvolvimento [...]. Pode-se logo perceber a apropriao diferente da tecnologia: a categoria dominante a primeira a adotar a nova tecnologia, usando essa vantagem para aumentar o poder em seu relacionamento com a categoria dominada (p.13).

A terceira Revoluo Industrial, ou Revoluo Tecnolgica, trouxe consigo srias transformaes de mbito mundial. Segundo as autoras Mendes, Bulla, Prates e Medeiros (2004, p.34), radicais mudanas tecnolgicas voltam a envolver grandes segmentos populacionais, ao mesmo tempo em que promovem uma ampla expulso da populao trabalhadora de seus postos de trabalho. Isto, porque o novo paradigma econmico e produtivo, baseado na informao gera conseqncias graves sociedade, como o desemprego tecnolgico, em que trabalhadores braais so substitudos por softwares e leitores ticos de cdigos de barras. Segmentos sociais cada vez maiores tornam-se sobrantes, descartveis na sociedade atual. As autoras, acima citadas, apoiadas em Castel (1997), definem sobrantes como,

Pessoas que no tm lugar na sociedade, que no so integradas, e talvez no sejam integrveis no sentido forte da palavra a ela atribuda, por exemplo, por Durkhein, ou seja, em que estar integrado estar inserido em relaes de utilidade social, relaes de interdependncia com o conjunto da sociedade.

Neste sentido, chama-se ateno ao fato de que estes grupos, os denominados excludos, que abarcam contingentes populacionais cada vez mais amplos, na nova ordem mundial dominante estabelecida pelo mercado global, no nem mesmo explorada, pois so considerados desnecessrios produo e ao consumo, tendo em vista no terem meios que garantam seu consumo.

28 Nesses termos, Iamamoto (2007, p.28) discorre sobre a forma de interveno do Assistente Social nas contradies e desigualdades to profundas da sociedade atual:Questo social que, sendo desigualdade tambm rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opem. nesta tenso entre produo da desigualdade e produo da rebeldia e da resistncia, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movidos por interesses sociais distintos, aos quais no possvel abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade.

Sendo assim, Silveira (2001, p. 47) aponta algumas indagaes acerca da incluso social, a partir da incluso digital: possvel incluirmos digitalmente; mas, principalmente, relevante, incluirmos digitalmente em um pas onde as pessoas ainda passam fome; em um pas em que a reforma agrria ainda nem passou do papel; onde milhes de crianas, adolescentes, adultos e idosos ainda vivem nas ruas; onde a sade precria; entre outros inmeros problemas; ser que a incluso digital no seria um modismo? Desta forma, ele destaca trs pontuaes fundamentais a essas indagaes:

Primeiro, necessrio entender que a revoluo tecnolgica em curso destinou informao um lugar estratgico. A sociedade cada vez mais a sociedade da informao e os agrupamentos sociais que no souberem manipular, reunir, desagregar, processar e analisar informaes ficaro distantes da produo do conhecimento, estagnados ou vendo se agravar sua condio de misria [...]. Segundo, a organizao da economia e do trabalho no mundo rico ser cada vez mais mediada pelo computador e pela comunicao em rede. Portanto, todas as camadas da sociedade precisam se qualificar para acompanhar o desenvolvimento das tecnologias intelectuais, pois disso que tratamos quando falamos em incluso na sociedade da informao [...]. Terceiro, a proficincia em massa das pessoas para o uso da tecnologia da informao pode gerar a sinergia essencial para o desenvolvimento sustentado do pas. Quantos gnios da informtica no esto escondidos pela ignorncia e pelo apartheid digital em nosso pas? (SILVEIRA, 2001, p.21-2).

A incluso dos excludos da informao indispensvel, uma vez que se almeja o avano dos mesmos nas mais diversas reas, porque a revoluo tecnolgica atinge a todas as classes sociais com abrangncia mundial, ainda que o faa, de forma adversa, classe empobrecida. Segundo Eizirick (2005, p.46), atualmente, presencia-se uma revoluo: a da incluso em contraponto excluso. Essa est produzindo um turbilho de movimentos que invadem todas as reas, entram pelos mecanismos legais e foram a presena nas empresas, nas escolas, nos lugares pblicos, nas diferentes formas de cultura, lazer e diverso, na sexualidade. Como vamos lidar com esse desafio? O processo de incluso imprescindvel para que a sociedade se torne justa e equnime. Porm, para o processo de incluso ocorrer, deve ser debatido com muita

29 sensibilidade, uma vez que, em meio a esse turbilho, se lida com vidas de homens que se magoam e sofrem. Para Maraschin (2005, p.137), qualquer que seja o sentido da incluso, todos referem a uma dinmica nas relaes de poder entre redes de conversaes. Por algum princpio seja tnico, moral, ideolgico, econmico produzimos hierarquias entre redes de conversao.No se trata somente de uma incluso material, nem da ampliao da base os consumidores ativos, mas tambm uma incluso simblica, afetiva e social. O constrangimento no atinge apenas algumas classes sociais, podemos mesmo afirmar que existe um empobrecimento social e simblico de crianas e adolescentes que vivem em condomnios fechados sem acesso a rua. Embora saibamos que esse constrangimento atinge diferencialmente cada estrato social com conseqncias mais ou menos graves, nossa proposta pensar que somos todos necessariamente passveis de incluso (MARASCHIN, 2005, p.137).

O autor Silveira (2008), a exemplo de Demo (2007), apontam para o fato que a incluso digital deve comear pela escola, mas a falta de capacitao atualizada dos professores para manusear novas tecnologias se torna uma barreira no processo de incluso. Segundo Silveira (2008, p. 26), muitas das salas de informtica ficam trancadas e acabam sendo alvo de sucateamento e furto de equipamentos. Demo (2007, p.16), aponta que: urge tornar tais escolas, ainda que gradativamente, centros, laboratrios de aprendizagem digital, o que demanda [...] mudanas drsticas na formao docente, em sua formao permanente, principalmente, na didtica escolar, tendo em vista evitar, de todos os modos, o instrucionismo. Acredita-se que deva comear pela educao que instigue a pensar e refletir, diferentemente da tradicional que no garante a formao desse perfil de cidado. A autonomia no produto tecnolgico propriamente, mas carece de base tecnolgica impreterivelmente (DEMO, 2007, p.6). Neste sentido, a incluso digital no pode ser separada da incluso autnoma dos segmentos sociais empobrecidos, tendo em vista, que garantir a construo de suas identidades nos ciberespaos10

, da ampliao do multiculturalismo11, entre outros aspectos,

10

O ciberespao (que tambm chamarei de rede) o novo meio de comunicao que surge da interconexo mundial dos computadores. O termo especifica no apenas a infra-estrutura material da comunicao digital, mas tambm o universo ocenico de informaes que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo (LVY, 1999, p.17). 11 Alain Tauraine sugeriu que o multiculturalismo como postulado de respeito pela liberdade de escolha entre uma variedade de possibilidades culturais fosse separado de algo inteiramente diferente (se no manifestamente, pelo menos em suas conseqncias): uma viso mais bem chamada de multicomunitarismo. O primeiro pede respeito pelo direito de os indivduos escolherem seus modos de vista e seus compromissos; o segundo supe, ao contrrio, que o compromisso dos indivduos um caso encerrado, determinado pelo pertencimento comunitrio

30 destacando-se, principalmente, a construo, resgate ou ampliao de sua cidadania. Cabe lembrar a mensagem dita por Santos (2003, p.75) temos o direito de ser iguais quando a diferena nos inferioriza e a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. Segundo Eisenberg e Cepik (2002), um dos maiores desafios s instituies polticas da atualidade oferecer aos cidados o chamado empower, poder - empoderamento, onde participem da tomada de decises que, justamente, incida sobre os mesmos. Esta falta de empowerment das instituies polticas leva a duas ponderaes; primeiramente, que resulta na participao ineficiente dos cidados na hora da tomada de decises, porque no dispem de canais abertos para essa ocorrncia efetiva; o segundo ponto que mesmo se houvessem canais abertos participao, de que maneira isso aconteceria, e a populao deveria estar suficientemente equipada para a eficcia de tal participao. Neste sentido, Eisenberg e Cepik (2002, p.308) dizem que para haver participaes eficazes existem mltiplas condies sociais, tais como Os cidados devem ter sade e nutrio, educao e informao, e precisam ter liberdade para se associarem e se organizarem. Em resumo, as desigualdades sociais precisam ser reduzidas, para que os cidados tenham acesso igual aos meios de participao. Nesta direo, Demo (2007) aponta alguns desafios para que se concretize uma incluso efetiva, lembrando tambm que ela deve ser conduzida de forma comprometida por parte dos governantes, aliada educao, com vistas a real efetividade.

Nosso atraso clamoroso e isso j parte da marginalizao digital. O pior, porm, que no se v iniciativa profunda, sistemtica, a no ser solavancos, como, de repente, compra de milhares de computadores sem as devidas condies de uso. preciso, antes de qualquer coisa, que a aprendizagem digital faa parte da formao docente e discente, em definitivo, de modo curricular. Em jogo no est apenas participar da vida poltica. Ou seja, trata-se de cidadania popular capaz de influir nos destinos da sociedade e da economia. (DEMO, 2007, p.17).

Eisenberg e Cepik (2002) salientam que a questo da incluso digital deve ser pauta poltica dos governos, no devendo ser tratada com descaso, j que muitos alegam a existncia de outras prioridades urgentes como a sade, a educao e a previdncia social. Contudo, pode-se cair numa armadilha, ao se acreditar que a poltica da tecnologia da informao possa esperar para ser implementada. Os autores prosseguem, mesmo que a pobreza hoje esteja deixada de lado, e no alto de nossa lista de prioridades, e continue assim nas prximas dcadas, a excluso digital nose, portanto, no passvel de negociaes. Confundir as duas vertentes no credo culturalista , porm, to comum quanto equivocado e politicamente perigoso (BAUMAN, 2003, p.98).

31 ameaa no futuro muito prximo. Ou comeamos a agir para enfrent-la agora, ou amanh poderemos descobrir que tarde demais (p.313).

O momento presente desafia os assistentes sociais a se qualificarem para acompanhar, atualizar e explicar as particularidades da questo social nos nveis nacional, regional e municipal, diante das estratgias de descentralizao das polticas pblicas. Os assistentes sociais se encontram em contato direto e cotidiano com as questes de sade pblica, da criana e do adolescente, da terceira idade, da violncia, da habitao, da educao, etc., acompanhando as diferentes maneiras como essas questes so experimentadas pelos sujeitos (IAMAMOTO, 2007, p.41).

Diante disto, o debate acerca da questo digital inevitvel, principalmente quelas profisses que trabalham em meio s contradies sociais, a exemplo do Assistente Social, que deve ter profundo conhecimento para tratar de assuntos que emergem como fruto da dialtica excluso/incluso. notrio, na atualidade, a distino entre os que tm e os que no tm acesso s tecnologias, advinda da sociedade da informao. Sendo assim, torna-se necessrio propiciar espaos de reflexo sobre o assunto, tendo em vista a elaborao de alternativas para os severos reflexos causados aos chamados novos excludos: os excludos digitais.

32 2 O SERVIO SOCIAL SINTONIZADO REALIDADE COMUNITRIA E AOS NOVOS TEMPOS

Para ampliar o debater acerca da Era Digital, primordial pontuar-se a rea profissional a que pertence, a fim de compreender as ponderaes apresentadas. Neste sentido, contextualiza-se o espao scio-ocupacional profissional, destacando-se o Assistente Social, para que se entenda, com mais clareza, em qual realidade ele est inserido e de que forma desvela essa era. Na contemporaneidade, acredita-se que um dos maiores desafios do Servio Social desvelar a realidade social, conforme descreve Iamamoto (2007). Neste sentido, cabe aqui apresentar o espao scio-ocupacional do Servio Social no Centro Social Marista Santa Marta, bem como descrever o trabalho desenvolvido junto Comunidade da Nova Santa Marta e algumas significaes dos sujeitos. Para tanto, o primeiro item desta seo explana acerca da recente histria da Comunidade Nova Santa Marta, localizada na regio oeste do municpio de Santa Maria. Alm disto, apresenta o Centro Social Marista Santa Marta, localizado na mesma regio da cidade, ao final demonstrando como essa Comunidade se configura atualmente. O segundo item explicita a interveno do Servio Social do Centro Social Marista Santa Marta junto Comunidade, evidenciando de que forma a Comunidade tem recebido este trabalho. No ltimo item desta seo, destaca-se a introduo do digital na Comunidade, que, por meio de um Projeto Social desenvolvido pelo Centro Social Marista Santa Marta, possibilita o acesso s tecnologias digitais a uma parcela de moradores da regio. Pretende-se retomar o debate sobre a Era Digital; principalmente, no que tange quelas pessoas mais empobrecidas, impossibilitadas de usufruir dos novos espaos virtuais e das ferramentas informacionais.

33 2.1 UM ELO HISTRICO ENTRE COMUNIDADE E CENTRO SOCIAL: HISTRIA DE TRABALHO E EMANCIPAO O Centro Social Marista Santa Marta12 localiza-se na Regio Oeste do municpio de Santa Maria, junto comunidade da Nova Santa Marta que possui uma histria particular de lutas e resistncias. A regio oeste13 onde se localiza a Comunidade, uma das mais pobres e vulnerveis do municpio, originou-se de uma antiga fazenda conhecida como Santa Marta. Esta ultima foi desapropriada pelo Governo Estadual Alceu Collares, em 1971, tendo como objetivo construir um ncleo habitacional financiado pela COHAB Companhia Estadual de Habitao. A Comunidade Nova Santa Marta fruto de uma ocupao ocorrida no ano de 1991, motivada pela ao de um grupo de famlias integrantes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia MNLM. O movimento tinha como objetivo garantir a muitas famlias pobres um lugar para morar. Em um primeiro momento, contou com cerca de duzentas famlias que migraram das diversas periferias da cidade e de municpios prximos, em busca de melhores condies de vida e de um futuro melhor aos descendentes.

O territrio no apenas o resultado da superposio de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O territrio o cho e mais a populao, isto , uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer quilo que nos pertence. O territrio a base do trabalho, da resistncia, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi. Quando se fala em territrio deve-se, pois logo, entender que se est falando em territrio usado, utilizado por uma dada populao (SANTOS, 2000, p.96-7).

Logo aps a ocupao, a Comunidade foi denominada por muitos como sem-teto, devido falta de infra-estrutura inicial da ocupao da rea, instalando-se em barracas de lona e plstico, no havendo energia eltrica nem gua encanada. No entanto, as famlias sobre os lotes foram aumentando e, atualmente, a Nova Santa Marta um ncleo habitacional composta de sete vilas, dentre elas: Pr-do-Sol, Sete de Dezembro, Dezoito de Abril, Dez de Outubro, Alto da Boa Vista, Ncleo Central e Marista I. Estima-se que residem no local cerca

12

O processo de implantao e implementao do Centro Social Marista Santa Marta, ocorreu posteriormente e paralelamente ao da Escola Fundamental Marista Santa Marta, tendo em vista estar localizado junto s dependncias da mesma, foram chamados a participar de construo lideres comunitrios, crianas, adolescentes, famlias, educadores e Irmos Maristas. Cada um, a seu modo, contribuindo nas discusses e debates, com propostas de ao e trabalhos direcionados. Assim, fomentando uma relao de respeito, confiana e parceria entre Comunidade e Centro Social. 13 Os dados histricos sobre a regio oeste do municpio de Santa Maria, aqui utilizados, tiveram como fonte documentos disponibilizados pela Escola e pelo Centro Social Marista Santa Marta.

34 de 5 mil famlias e aproximadamente 25 mil pessoas, que ainda lutam pela legalizao do territrio, que at o momento permanece propriedade do Estado do Rio Grande do Sul. Segundo Edsio Fernandes (2002, p.400), em um artigo publicado na Revista Frum de Direito, apresenta um panorama da situao jurdico-social das habitaes informais no Brasil:Os assentamentos informais e a conseqente falta de segurana da posse, vulnerabilidade poltica e baixa qualidade de vida dos seus ocupantes, que lhes so caractersticas resultam no somente do padro excludente dos processos de desenvolvimento, planejamento e gesto das reas, mas tambm da natureza da ordem jurdica em vigor. Ao longo do processo de urbanizao intensiva, mercados de terras especulativos, sistemas polticos clientelistas e regimes jurdicos eletistas no tm oferecido condies suficientes, adequados e acessveis de acesso terra urbana e moradia para os grupos sociais mais pobres, assim provocando a ocupao irregular e inadequada do meio ambiente urbano.

A ocupao desordenada da Nova Santa Marta gerou uma srie de problemas: instalao de residncias em reas de risco, produo de lixo sem o devido recolhimento, ausncia de um sistema de esgoto, proliferao de insetos e parasitas, acessos precrios (ruas), falta de arborizao etc. Somando-se a tudo isso, a comunidade convive com a falta de policiamento, Postos de Sade, Escolas para atender a demanda de crianas e adolescentes em idade escolar, reas de lazer e recreao. Os moradores da comunidade tambm enfrentam o problema da discriminao: ao solicitarem emprego no Centro da cidade, geralmente so descartados e menosprezados por residirem numa rea que surgiu de uma invaso. O termo sem-teto usado por muitas pessoas com o objetivo de diminuir os moradores da Nova Santa Marta. Situaes como essas configuram uma forma de excluso social, abrangendo nmeros significativos de sujeitos. De acordo com Sposati (1999, p.67), a excluso social a impossibilidade de poder partilhar, o que leva privao, de um conjunto significativo da populao. Inmeras necessidades bsicas fundamentais so observadas na realidade da referida Comunidade. Discutindo acerca dos mnimos sociais, Potyara Pereira (2000) pondera algumas questes, a fim de explicitar algumas necessidades humanas, freqentemente vivenciadas por muitas pessoas empobrecidas:

[...] falta ou privao de algo (tangvel ou intangvel); preferncia por determinado bem ou servio em relao a outro ou a outros; desejo, de quem psicologicamente se sente carente de alguma coisa; compulso por determinado tipo de consumo, movida pela dependncia ou pelo uso repetitivo ou viciado desse consumo; demanda, como procura por satisfao econmica, social ou psicolgica de alguma carncia. H, ainda, quem confunda necessidade com motivao, expectativa ou esperana de obter algo de que se julga merecedor, por direito ou promessa.

35 Os moradores da Comunidade Nova Santa Marta, em sua maioria, so trabalhadores do setor informal, diaristas, tais como pedreiros, pintores, carpinteiros entre outros; contudo, apresentam grande concentrao no ramo de reciclagem, buscando no lixo uma alternativa de sobrevivncia. Cabe ressaltar que esta rea ocupada , atualmente, a maior ocupao urbana do pas. Dentre tantas adversidades cotidianamente encaradas pela populao pobre da Nova Santa Marta, relevante destacar que sua fora na busca por melhores condies de vida incessante. Organizam-se em associaes comunitrias que debatem, refletem e pontuam problemticas, a fim de reivindicar junto aos rgos pblicos competentes solues s demandas estabelecidas em grupo, tendo em vista garantir e efetivar seus direitos como cidados.

Com a crise do Estado, o desprestgio e a burocratizao do sistema partidrio, o agravamento dos conflitos sociais e a crescente conscientizao de vrios segmentos sociais, desenvolvem-se novas alternativas de participao, novas reas de relaes sociais (homem/mulher, etnias), incorporando-se temas at a fora da problemtica poltica tradicional. Exercita-se, assim, outra lgica a da solidariedade e busca de um consenso normativo em relao a questes bsicas, tais como meio ambiente, excluso social, cooperao internacional, possibilitando-se o surgimento de novos tipos de participao, mais ampla, inclusive de contedos mais contestador, formando-se uma nova cultura poltica em que se valorizam a ao coletiva, a construo de identidades, a criao e efetivao de direitos, o enfrentamento dos problemas cotidianos (TEIXEIRA, 2002, p.28).

A comunidade Nova Santa Marta composta por crianas, adolescentes, jovens, adultos e idosos; a situao, conforme o explanado, de intensa vulnerabilidade social, por inmeros motivos, dentre eles: impossibilidade do acesso escola, visto muitos terem de trabalhar cedo para sustentar suas famlias; preconceitos mltiplos, em razo da cor, situao econmica, moradia etc.; despreparo para o mercado de trabalho, falta de qualificao profissional; entre outros fatores condicionantes de risco social. Neste sentido, o Centro Social Marista Santa Marta, por estar localizado estrategicamente na Nova Santa Marta, objetiva promover a incluso social priorizando o desenvolvimento da cidadania, a fim de buscar a efetivao dos direitos sociais e a transformao social a toda comunidade. Atendendo, para tanto, a famlias empobrecidas que possuem uma situao econmica instvel, dentre outras problemticas rotineiramente enfrentadas pelas mesmas, tais como as mltiplas formas de desigualdades sociais, o aumento da drogadio, trfico, violncia familiar, prostituio, corrupo, entre outras, que refletem intensamente e diretamente na vida dos sujeitos, principalmente, no que tange juventude.

36 Diante disto, cabe aprofundar a questo acerca da famlia, sendo a mesma a base para o desenvolvimento bio-psico-social de cada pessoa. Atualmente, a famlia continua sendo objeto de profundas discusses e idealizaes, tendo em vista que a mesma vem sofrendo significativas mudanas no sculo XX. Nesse caso, torna-se quase impossvel definir, de forma clara, um padro adequado ou inadequado, j que a famlia vem se expressando de mltiplas maneiras.

No Brasil, a Constituio Federal de 1988 institui duas profundas alteraes no que se refere famlia: 1. a quebra da chefia conjugal masculina, tornando a sociedade conjugal compartilhada em direitos e deveres pelo homem e a mulher; 2. o fim da diferenciao entre filhos legtimos e ilegtimos, reiterada pelo Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA), promulgando em 1990, que os define como sujeito de direitos [...]. O ECA dessacraliza a famlia a ponto de introduzir a idia da necessidade de se proteger legalmente qualquer criana contra seus prprios familiares, ao mesmo que reitera a convivncia familiar como um direito bsico dessa criana (SARTI, 2007, p.24).

Neste sentido, essa autora segue enfatizando que tais aspectos garantidos pelo Estatuto da Criana e do Adolescente contribuem para a desidealizao da famlia atual, porm, mecanismos legais so utilizados comumente para exprobrar famlias pobres, como da Nova Santa Marta, entendidas por muitos como desestruturadas, sendo assim, incapazes de dar a ateno e o cuidado que toda criana e adolescente requer. Desta maneira, o Centro Social Marista Santa Marta oportuniza um trabalho continuado a crianas, adolescentes, jovens e famlias, no intuito de inclu-los socialmente, visando seu crescimento, autonomia e emancipao. Nota-se que, para que diminuam as desigualdades sociais existentes deve haver a incluso dos sujeitos, de maneira participativa, respeitando-os enquanto cidados de direitos e deveres. A educao, desta maneira, tem papel fundamental, visto que contribui para formar um ser humano independente, alm de configurar uma alternativa de combate excluso social e violncia to permanentes.

2.2 O SERVIO SOCIAL NO CONTEXTO COMUNITRIO: A TEORIA E A PRTICA COTIDIANA

Na contemporaneidade, o Servio Social vem conquistando campos de atuao anteriormente impensados, surgidos da necessidade de contar com esse profissional especialista atuando na rea social. O avano na prtica, nas produes tericas, no instrumental tcnico-operativo, na postura e na participao em instituies pblicas e privadas contribui para a abertura de novos campos de atuao a assistentes sociais.

37 Neste sentido, o Servio Social do Centro Social Marista se originou da necessidade de oportunizar um trabalho assistencial de qualidade Comunidade, a fim de atender de maneira menos paliativa, assistencialista, ou seja, atender no vis assistencial, efetivando o acesso aos diretos a essa populao. Partindo-se dessa premissa, Montno (2007, p.19) explana acerca da natureza do Servio Social, profisso que por sua ambigidade nas expectativas e conceituaes, por suas mudanas de rumos [...] tem dedicado um importante espao intelectual tentativa de responder sobre as causas de sua origem como profisso e sua legitimao, bem como das funes que cumpre na sociedade e no Estado. Devido ao nmero elevado de crianas e adolescente que vive em condies de extremo risco social na Nova Santa Marta, entende-se que esta parcela vulnervel da populao necessita de atendimento especializado e continuado. Sendo assim, o Servio Social do Centro Social Marista Santa Marta, organizou um trabalho scio-educativo, via Projetos Sociais, voltado quelas crianas e adolescente. No decorrer do trabalho, sentiu-se a necessidade de intervir junto aos adultos e idosos, uma vez que fazem parte de uma categoria socialmente vulnervel. O Servio Social do Centro Social Marista Santa Marta, via Projetos Sociais, realiza acompanhamento sistemtico com as famlias das crianas e/ou adolescentes atendidos, garantindo-lhes o desenvolvimento bio-psico-social. Em consonncia com a Poltica Nacional de Assistncia Social14 (PNAS/2004) na proteo social bsica15, o Centro Social desenvolve servios educativos para crianas e adolescentes e um Centro de Informao e Educao para o trabalho de jovens e adultos, alm de projetos de incluso produtiva. No que se refere proteo social especial de mdia complexidade, desenvolve-se um trabalho de Orientao Scio-familiar (OASF), Planto Social e Programa de Erradicao do Trabalho Infantil (PETI), em parceria com a Prefeitura Municipal e Governo Federal.

14

A poltica de Assistncia Social, legalmente reconhecida como direito social e dever estatal pela Constituio de 1988 e pela Lei Orgnica de Assistncia Social (LOAS), vem sendo regulamentada intensivamente pelo Governo Federal, com aprovao pelo Conselho Nacional de assistncia Social (CNAS), por meio da Poltica Nacional de Assistncia Social (PNAS/2004) e do Sistema nico de Assistncia Social (2005). O objetivo com esse processo consolidar a Assistncia Social como poltica de Estado; para estabelecer critrios objetivos de partilha de recursos entre estados, DF e municpios; para estabelecer uma relao sistemtica e interdependente entre programas, projeto, servios e benefcios [...] (CFESS, 2007, p.10). 15 Pode-se dizer que bsico aquilo que basilar, mais importante, fundamental, primordial, essencial, ou aquilo que comum a diversas situaes. [...] a Proteo Bsica est referida a aes preventivas, que reforam a convivncia, socializao, acolhimento e insero, e possuem um carter mais genrico e voltado prioritariamente para a famlia; e visa desenvolver potencialidades, aquisies, e o fortalecimento de vnculos familiares e comunitrios e destina-se a populaes em situao de vulnerabilidade social (PNAS, p.27) (CFESS, 2007, p.11-2).

38 O Planto Social se constitui em um espao onde a populao procura o Servio Social para orientaes e encaminhamentos s suas demandas mais emergenciais. Desta maneira, configura um importante espao, pois permite sistematizar as necessidades mais recorrentes da populao, sendo que, posteriormente, procuram-se meios para super-las coletivamente. Ressalta-se que o Planto Social tambm um espao de socializao de informaes relevantes. No que se refere ao PETI, as crianas e/ou adolescente inseridos neste projeto recebem um acompanhamento sistemtico, bem como suas famlias, visando garantir que as crianas e/ou adolescente tenham, de fato, seus direitos efetivados. O acompanhamento realizado pelo Servio Social, via visitas domiciliares, reunies com os pais ou responsveis, ou mesmos, em convocaes para entrevistas com os responsveis. Batista (2007, p.112), sistematiza algumas manifestaes familiares quanto ao trabalho infantil, sendo uma delas: os pais, que cresceram trabalhando desde a infncia, incorporam e difundem a cultura de que filho de pobre se educa no trabalho e que criana que no trabalha cresce vagabundo. O trabalho infantil, por conseguinte, passa de problema a soluo. Cabe destacar que muitas dessas crianas e/ou adolescentes so atendidas pelas demais instituies da rede scio-assistencial da regio oeste. Desta maneira, torna-se fundamental a existncia de uma rede scio-assistencial fortalecida, conectada e a servio da populao. Neste sentido, as instituies se organizam em rede, para que de fato ofeream servios compatveis s demandas. A rede scio-assistencial congrega Escolas, Creches, Postos de Sade, Agentes Comunitrios, Instituies Filantrpicas Assistenciais, entre outras. Semanalmente, o Servio Social do Centro Social se rene no Centro de Referncia de Assistncia Social, articulador e integrante da rede, a fim de discutir as demandas da populao, apresentar os servios, socializar informaes e propor aes que contribuam para o crescimento, emancipao e autonomia da Comunidade.

A noo de redes sociais tem suas razes conceituais construdas nas cincias sociais a partir de perspectivas muito diversificadas, bastante referenciadas a situaes empricas particularizadas. [...] pode-se destacar duas vertentes principais, em seus primrdios: uma que buscava na noo de rede uma explicao para a estrutura social, a qual era caracterizada como sendo uma rede de relaes realmente existente [...]; e outra que encontrava nesta noo uma forma para descrever as relaes sociais primrias do cotidiano, tipificando essas relaes em fechadas ou abertas, elos fortes ou fracos e assim por diante [...]. Portanto, na primeira, a rede visa a uma explicao da estruturao do social (teoria e explicao da realidade) e, na segunda, o que interessa a constatao emprica de diferentes formas ou intensidade das

39relaes sociais num determinado campo social parentesco, vizinhana, religio, etc. (modelo metodolgico operacional para as pesquisas empricas). (WARREN, 2005, p. 29-0).

Inserido na perspectiva de rede, e percebendo as tendncias do mundo atual, no que se refere ao mbito do trabalho, o Centro Social Marista Santa Marta oferece aos moradores da Comunidade meios de instrumentalizao para acessarem o mercado de trabalho, por meio de Cursos de Qualificao Profissional. Na perspectiva de alcanar um pblico jovem e adulto, promovem cursos em diferentes reas: Hotelaria, Serigrafia, Corte e Costura e Informtica. Juntamente a este trabalho, oportunizam projetos de incluso produtiva, onde se fomenta a criao e organizao de associaes ou cooperativas. Atualmente, existem as iniciativas: Grupo de Corte e Costura e a Associao de Recicladores Pr do Sol (ARPS). Em consonncia com os Projetos Sociais desenvolvidos pelo Centro Social Marista Santa Marta, o Servio Social realiza um trabalho sistemtico e assistencial a cursos e iniciativas de cooperativas e associaes, instrumentalizando os sujeitos quanto aos seus direitos e deveres como cidados e como futuros trabalhadores, dando-lhes assistncia tcnica na organizao e fomento de associaes e cooperativas. Estas novas iniciativas crescem aceleradamente entre os segmentos mais empobrecidos, pois encontram uns nos outros meios de se apoiarem e, principalmente, de sobreviverem, resistindo s contradies e desigualdades sociais.Os assistentes sociais trabalham com a questo social nas suas mais variadas expresses quotidianas, tais como os indivduos as experimentam no trabalho, na famlia, na rea habitacional, na sade, na assistncia social pblica etc. Questo social que, sendo desigualdade, tambm rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opem. [...] Formas de resistncia j presentes, por vezes de forma parcialmente ocultas, no cotidiano dos segmentos majoritrios da populao que dependem do trabalho para sua sobrevivncia. Assim, apreender a questo social tambm captar as mltiplas formas de presso social, de inveno e re-inveno da vida construdas no cotidiano, pois no presente que esto sendo recriadas formas novas de viver, que apontam para um futuro que est sendo germinado (IAMAMOTO, 2007, p.28).

Na direo das linhas de objetivo dos demais Projetos Sociais, os Centros de Informao e Educao para o Trabalho voltado a jovens, adultos e famlias, caracterizam-se como servio da proteo social bsica. O Centro Social apresenta esta iniciativa pioneira no