A Narrativa Hist³rica- Ensino

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  • ______________________________________________ A Narrativa na Aula de Histria

    ___________________________________________________________________ Regina Alves Parente

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    INTRODUO

    Passadas trs dcadas sobre o 25 de Abril de 74` e depois de nos reconhecermos

    como cidados europeus, Portugal continua, no que respeita ao sistema educativo, na

    cauda da Europa com ndices indesejados de iliteracia1. Urge alterar os pressupostos em

    que vem assentando a lgica do sistema educativo e, em grande parte, cabe-nos tambm

    a ns, profissionais do ensino, ajudar a implementar essa viragem alterando e

    diversificando as nossas concepes e prticas, nomeadamente no domnio do Ensino da

    Histria.

    O Ensino da Histria contempla, num mbito mais alargado, a promoo de uma

    educao cvica adequada democracia, baseada no desenvolvimento das capacidades

    intelectuais e dos valores ticos, morais e humanistas atravs dos quais se pretende

    configurar uma conscincia histrica, inferindo-se daqui a pertinncia da Histria no

    currculo como uma ideia, pelo menos aparentemente, consensual na sociedade

    portuguesa` (Magalhes, 2000: 2). Num mbito mais restrito, em contexto de sala de

    aula, cabe a cada professor de Histria, de acordo como os rgos colectivos em que

    est integrado, gerir o currculo escolar dentro dos limites estabelecidos a nvel

    nacional, nunca desenquadrado das mais recentes tendncias educacionais e das

    necessidades e desafios que o actual contexto social coloca.

    1 Ftima Sequeira (2002) num apontamento deixado na Revista Portuguesa de Educao,` referindo-se aos resultados do Estudo Internacional Pisa 2000, em que estiveram presentes 28 pases da OCDE e outros 4 pases no membros, considera, no que respeita aos jovens portugueses, os resultados indignos de um pas que em tempos recentes ajudou a construir, com sucesso, uma comunidade europeia: Pela segunda vez, no espao de uma dcada, Portugal apresenta resultados fracos em testes de literacia aplicados em vrios pases a alunos includos na escolaridade obrigatria. Estes testes procuram medir a compreenso leitora em vrios tipos de textos e, no caso dos jovens portugueses, o treino a que so submetidos na escola com determinados textos, nomeadamente narrativos, faz com que os resultados sejam diferentes consoante as prticas utilizadas na aprendizagem (Sequeira 2002: 51).

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    Na esteira de Fosnot (1999), que descreve o conhecimento como temporrio,

    passvel de desenvolvimento, no objectivo, estruturado internamente e mediado social

    e culturalmente, deve entender-se que:

    Nesta perspectiva, a aprendizagem encarada como um processo auto-

    regulador de luta contra o conflito entre modelos pessoais preexistentes do mundo e novos conhecimentos discrepantes, construindo novas representaes e modelos da realidade como um empreendimento humano construtor de significado, com ferramentas e smbolos culturalmente desenvolvidos e negociando esse significado atravs da actividade social cooperativa, de discurso e debate. (p. 9)

    E ainda, que a sala de aula deve ser encarada:

    (...) como uma mini sociedade, uma comunidade de alunos empenhados na

    actividade, no debate na reflexo. A hierarquia tradicional do professor, como possuidor autocrtico do conhecimento e do aluno como sujeito ignorante e sob controlo que estuda para aprender aquilo que o professor sabe, comea a esvanecer-se medida que os professores assumem mais o papel de facilitadores e os alunos adquirem um maior domnio sobre as ideias. De facto, a autonomia, a reciprocidade mtua das relaes sociais e a responsabilizao so aqui os objectivos. (p. 9-10)

    Numa lgica que no deve distanciar-se da abordagem construtivista, aprender

    Histria implica redefinir o papel de professor como aquele que no processo de ensino e

    aprendizagem trabalha com os alunos, orientando-os no sentido de desenvolverem

    estratgias mentais e competncias que lhes permitam a compreenso do conhecimento,

    ou seja, que os ajude a construir sentidos histricos.

    Ao professor, enquanto elemento que constri a relao com o conhecimento

    histrico, cabe enquadrar o aluno no estabelecimento dos referenciais fundamentais em

    que assenta essa tomada de conscincia do tempo social, estimulando-o a construir o

    saber histrico atravs da expresso das suas ideias histricas. Esta construo do

    pensamento histrico progressiva e gradualmente contextualizada, em funo das

    experincias vividas dentro ou fora da escola (Ministrio de Educao, 2000: 1).

    Pautando as suas prticas numa linha de aco construtivista, a tarefa do professor no

    apenas a de dispensar o conhecimento mas mais, a de proporcionar aos alunos

    oportunidades e incentivos para o construir (Fosnot ibid. p. 20).

    Em consequncia, o Ensino da Histria no deve basear-se apenas no

    conhecimento dos contedos histricos, mas deve igualmente atender a conhecimentos

    relativos natureza da Histria (Lee, 1984).

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    nesta conjugao, entre as ideias substantivas da Histria e as ideias de

    segunda ordem2, que devemos encaixar, equilibradamente, os fundamentos necessrios

    compreenso da disciplina, com estratgias de ensino relevantes.

    , alis, para este caminho comum de construo das aprendizagens especficas

    da Histria no percurso da escolaridade bsica que, no mbito da Reorganizao

    Curricular para o Ensino Bsico, o documento sobre as Competncias Essenciais em

    Histria (M E, 2001) nos conduz. No tendo pretenses a substituir os programas, o

    documento pretende determinar quais os pontos de ancoragem da gesto curricular dos

    programas de Histria em vigor, definindo as competncias essenciais em Histria a

    partir de trs grandes ncleos estruturantes do saber: o Tratamento da

    Informao/Utilizao de Fontes, enquanto modo como se interroga e trabalha a

    informao; a Compreenso Histrica, enquanto modo como esse tratamento se

    processa cognitivamente, consubstanciada nos trs vectores que a incorporam - a

    temporalidade, espacialidade e a contextualizao e a Comunicao em Histria,

    enquanto forma de apresentar, em discurso devidamente fundamentado e estruturado,

    toda a construo cognitiva de dar sentido ao passado. Este mbito implica desenvolver

    variadas vertentes de oralidade, (narrao/explicao, por exemplo) e utilizar diferentes

    formas de comunicao escrita, na produo de narrativas, biografias, resumos,

    snteses, relatrios e/ou pequenos trabalhos temticos, aplicando o vocabulrio

    especfico da Histria na descrio, relacionao e explicao dos vrios aspectos das

    sociedades (ibid.).

    Assim, valorizando-se a utilizao pertinente do conhecimento de acordo com as

    necessidades e situaes, torna-se fundamental a organizao do ensino/aprendizagem

    em experincias que ajudem os alunos a pensar de forma criteriosa e a adequadamente

    atingirem, no caso de um enquadramento escolar de 3 Ciclo, que o deste estudo, o

    perfil de aluno competente em Histria. Segundo as orientaes expressas no

    documento Competncias Essenciais em Histria, competente o aluno que, entre

    outras aptides, aplica procedimentos bsicos da metodologia especfica da Histria.

    Ento, se a Histria um processo de construo dos conhecimentos atravs de

    operaes cognitivas por parte do historiador, podemos conceber tambm a produo de

    um texto pelos alunos, sobre o passado, como um processo de construo de sentido

    2 Os conceitos substantivos so os que se referem a contedos da Histria, por exemplo, os conceitos de indstria, agricultor, impostos, datas, eventos, etc. Os conceitos designados de segunda ordem conferem consistncia disciplina e so os que se referem natureza da Histria, por exemplo, narrativa, relato, explicao, empatia, interpretao de fontes, compreenso, mudana, causa, tempo, significncia, etc. (Lee, p. 2001: 15).

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    histrico, embora mais ou menos aproximado. Assim, para cumprir a sua tarefa de

    compreenso, o aluno deve saber aplicar as operaes cognitivas (Mattozzi, 1998: 38),

    aperfeioando cada vez mais a sua competncia histrica. E, neste sentido, o professor

    deve promover situaes de aprendizagem que possibilitem o treino diversificado dessas

    competncias, contribuindo para uma gradual melhoria do desenvolvimento cognitivo

    dos alunos. Para Mattozzi, enquanto que:

    O Historiador realiza um processo de construo do conhecimento - graas s

    suas prprias capacidades cognitivas, sua conscincia metodolgica e ao valor que reconhece ao conhecimento histrico e, atravs da investigao, chega ao texto historiogrfico, o aluno, por sua vez, realiza um processo de construo do conhecimento mediante o uso das fontes ou mediante o estudo de textos e deve chegar a compreender no s o conhecimento mas tambm como procede o historiador e como funciona o conhecimento. (p. 39)

    E, salientando as devidas diferenas nos processos de construo em cada um

    dos referidos protagonistas, faz notar que:

    O caminho que