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1 Abordagens foucaultianas para uma metodologia dos estudos da WEB segundo o conceito de dispositivo Ana Claudia da Cruz Melo Carmen Lúcia Souza da Silva UFPA Palavras-chave: Dispositivo. Midiatização. WEB. Conversação. Embates. RESUMO EXPANDIDO Para definir o conceito de dispositivo em Foucault, antes é preciso conhecer suas ideias. Compreendê-lo dentro de uma longa trajetória de estudos. Talvez a começar quando sugeriu, com o lançamento de As Palavras e as Coisas (1966), que ao invés de estrutura há de se considerar a épistémè ligada à linguagem e que as ciências humanas não passariam de resultados de mutações de formações discursivas que se seguem uma às outras no tempo, sem qualquer sequência pré-ordenada ou necessária. Depois, passa a definir a épistémè como o dispositivo discursivo, diferentemente do dispositivo (grifos nossos) em seu conceito mais amplo, que englobaria tanto o discursivo como o não discursivo, com perfil heterogêneo. Esta trajetória de construção conceitual é detalhada em entrevista concedida a Alain Grosrichard, publicada em Microfísica do Poder (1979). Após ser questionado por Grosrichard sobre por que em As Palavras e as Coisas e A Arqueologia do Saber falava em épistémè como formações discursivas e depois passou a falar mais em dispositivos, disciplinas; e se isso representaria que estes conceitos substituem os precedentes, Foucault esclarece: Em As Palavras e as Coisas, querendo fazer uma história da epistémè, permanecia em um impasse. Agora, gostaria de mostrar que o que chamo de dispositivo é algo muito mais geral que compreende a épistémè. Ou melhor, que a épistémè é um dispositivo especificamente discursivo, diferentemente do dispositivo, que é discursivo e não discursivo, seus elementos sendo muito mais heterogêneos. (FOUCAULT, 1979, p. 246) Em a Microfísica do Poder, Foucault (1979) prossegue não apenas apresentando o sentido, mas a função metodológica do termo dispositivo. Afirma que através deste termo tenta demarcar, decididamente, um conjunto heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas.

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Abordagens foucaultianas para uma metodologia dos estudos

da WEB segundo o conceito de dispositivo

Ana Claudia da Cruz Melo

Carmen Lúcia Souza da Silva

UFPA

Palavras-chave: Dispositivo. Midiatização. WEB. Conversação. Embates.

RESUMO EXPANDIDO

Para definir o conceito de dispositivo em Foucault, antes é preciso conhecer suas

ideias. Compreendê-lo dentro de uma longa trajetória de estudos. Talvez a começar

quando sugeriu, com o lançamento de As Palavras e as Coisas (1966), que ao invés de

estrutura há de se considerar a épistémè ligada à linguagem e que as ciências humanas

não passariam de resultados de mutações de formações discursivas que se seguem uma

às outras no tempo, sem qualquer sequência pré-ordenada ou necessária. Depois, passa a

definir a épistémè como o dispositivo discursivo, diferentemente do dispositivo (grifos

nossos) em seu conceito mais amplo, que englobaria tanto o discursivo como o não

discursivo, com perfil heterogêneo. Esta trajetória de construção conceitual é detalhada

em entrevista concedida a Alain Grosrichard, publicada em Microfísica do Poder (1979).

Após ser questionado por Grosrichard sobre por que em As Palavras e as Coisas e A

Arqueologia do Saber falava em épistémè como formações discursivas e depois passou a

falar mais em dispositivos, disciplinas; e se isso representaria que estes conceitos

substituem os precedentes, Foucault esclarece:

Em As Palavras e as Coisas, querendo fazer uma história da epistémè,

permanecia em um impasse. Agora, gostaria de mostrar que o que chamo de

dispositivo é algo muito mais geral que compreende a épistémè. Ou melhor,

que a épistémè é um dispositivo especificamente discursivo, diferentemente do

dispositivo, que é discursivo e não discursivo, seus elementos sendo muito

mais heterogêneos. (FOUCAULT, 1979, p. 246)

Em a Microfísica do Poder, Foucault (1979) prossegue não apenas apresentando

o sentido, mas a função metodológica do termo dispositivo. Afirma que através deste

termo tenta demarcar, decididamente, um conjunto heterogêneo que engloba discursos,

instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas

administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas.

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“Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que

se pode estabelecer entre estes elementos” (FOUCAULT, 1979, p. 244).

Foucault também demarca a natureza da relação que pode existir entre esses

elementos heterogêneos situando a forma como o discurso pode aparecer: por meio de

um programa institucional ou, ao contrário, para justificar e mascarar uma prática que

permanece muda; ou como reinterpretação desta prática, permitindo a emergência de

outro campo de racionalidade. A questão a considerar, segundo ele, é que entre os

elementos (discursivos ou não) existe certo jogo que resulta em mudanças de posição ou

modificações de funções.

O terceiro aspecto que Foucault coloca é que o dispositivo também pode ser

entendido como uma formação que, em um determinado momento, teve como principal

função responder a uma urgência. É nesse sentido que se poderia situar, inclusive, o

dispositivo como tendo uma função estratégica dominante, que possui uma estrutura de

elementos heterogêneos, e também é constituído por um certo tipo de gênese. Esta gênese

é apresentada como tendo dois momentos essenciais. O primeiro momento é o da

predominância de um objetivo estratégico. Em seguida, o dispositivo se constitui e

continua sendo dispositivo na medida em que engloba um duplo processo:

Por um lado, processo de sobredeterminação funcional, pois cada efeito,

positivo ou negativo, desejado ou não, estabelece uma relação de ressonância

ou de contradição com os outros, e exige uma rearticulação, um reajustamento

dos elementos heterogêneos que surgem dispersamente; por outro lado, o

processo de perpétuo preenchimento estratégico (FOUCAULT, 1979, p. 245).

Com base nisso, Foucault traz a prisão como um dispositivo que fez com que em

determinado momento da história fosse tida como um meio eficaz de combate à

criminalidade. Entretanto, esse dispositivo teve um efeito não esperado que foi a

constituição de um “meio delinquente”. Para defender a ideia de que o dispositivo está

sempre inscrito num jogo de poder (ligado a uma ou a configurações de poder), é que

Foucault propõe dispositivo como algo mais heterogêneo, que transborda a sua concepção

primeira de epistémè tratada em As Palavras e as Coisas e Arqueologia do Saber.

Dreyfus e Rabinow (1995) ajudam a compreender o pensamento de Foucault

acerca do dispositivo detalhando que o dispositivo também pode ser considerado como

uma grade de análise construída, atuando como uma ferramenta ou aparelho, constituindo

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sujeitos e os organizando e, ao mesmo tempo, pode ser visto como uma tentativa de

nomear ou, no mínimo, apontar o problema.

Segundo esses autores, um exemplo de como Foucault lança mão do termo

dispositivo está no caso dos estudos da clínica de Jean-Martin Charcot, que desenvolvia

experimentos médicos em “mulheres histéricas”. A essas mulheres era dado nitrito de

amilo para provocar a excitação e depois levá-las aos internos da clínica para falarem

livremente de suas fantasias. Charcot, Freud e Foucault verão esses experimentos de

modos diferentes. Charcot pesquisava as causas objetivas da ação, enquanto Freud

observava as intenções escondidas nos comportamentos dos atores e as interpretava para

tentar explicar o que estava acontecendo. Foucault, segundo Dreyfus e Rabinow, dá um

passo a mais nesse processo porque considera, primeiramente, “o dispositivo de

sexualidade” um dado essencial, o ponto de partida obrigatório para toda a discussão do

problema. Nas palavras de Foucault: “Eu o examino [o dispositivo de sexualidade]

atentamente, e o tomo ao pé da letra; não me coloco fora dele, pois isto não é possível e,

assim procedendo, sou levado a outras coisas” (FOUCAULT apud DREYFUS;

RABINOW, 1995, p. 135).

Essas “outras coisas” a que Foucault se refere, explicam Dreyfus e Rabinow, não

são causas objetivas de neuroses sexuais, nem as intenções escondidas das “mulheres

histéricas”, mas a organização, a coerência e a inteligibilidade de todas as práticas que

apareceram nas representações da clínica de Charcot.

Sob esta perspectiva do dispositivo - como algo mais heterogêneo e complexo -,

é que compreendemos que as acepções foucaultianas sobre o dispositivo, no campo da

Comunicação, se distanciam de compreensões que o trazem como suporte, técnica,

aparelho ou os meios usados para dar uma impressão de realidade (BAUDRY, 1978).

Ferreira (2007) traz, por exemplo, o conceito de midiatização articulado a partir de três

polos em relação de mútua determinação, formando o que denomina de "matriz da

midiatização", onde o conceito de dispositivo é estratégico porque se articula aos

processos sociais e aos de Comunicação, afetando-os e sendo delineados por esses. Ao

explicar o que compreende como dispositivos midiáticos, Ferreira destaca, inclusive, a

complexidade do conceito de dispositivo, pois afirma que, em sendo heterogêneo, “são

constituídos por diversas outras intersecções ativadas nas relações entre semiose, sistemas

de inteligibilidade e sistemas tecnológicos” (FERREIRA, 2016, p. 148).

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A partir destas considerações acerca do conceito dispositivo, passamos a

apresentar dois exemplos de estudos, que se propõem a exemplificar elementos que

permeiam a existência das relações vivenciadas na WEB (avaliação cega). Demonstram

que as interações vivenciadas na atualidade podem ser compreendidas como inseridas em

um complexo dispositivo que permitiu o surgimento de uma rede de computadores que

inicialmente tinha uma determinada finalidade (avaliação cega). Mas essa rede

transbordou a finalidade idealizada e se tornou um espaço, voltado às vivências de afetos

e afecções (SPINOZA, 2014), de conversação (TARDE, 2005) e também em um lugar de

embates entre campos e atores sociais (avaliação cega). O dispositivo, portanto, não é o

meio e, sim, tudo aquilo que permitiu que um espaço passasse a existir, ou seja, é um

conjunto heterogêneo que envolve como propõe Foucault não apenas os discursos ou as

instituições, mas também uma gama de outros elementos que estão relação, dinamizam o

processo e provocam afetações mútuas.

REFERÊNCIAS

BAUDRY, Jean Louis. L’effet Cinéma. Paris: Albatros, 1978.

DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica: para

além do estruturalismo e da hermenêutica. 1. ed. Brasileira. Rio de Janeiro: Forense

Universitária, 1995.

FERREIRA, Jairo. Midiatização: dispositivos, processos sociais e de comunicação.

Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação –

E-Compós. v. 10, 2007. Disponível em: <http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-

compos/article/viewFile/196/197>. Acesso: set. 2016.

______. Adaptação, disrupção e regulação em dispositivos midiáticos. Matrizes, São

Paulo, n. 2, v. 10, p. 135-153, maio/ago. 2016.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. 1ª edição. Petrópolis: Vozes, 1972.

________. As Palavras e Coisas; uma arqueologia das ciências humanas. 6ª edição. São

Paulo: Martins Fontes, 1992.

________. Microfísica do poder. 11ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

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LATOUR, Bruno. Reagregando o Social. Bauru, SP: EDUSC - Salvador, BA: EDUFBA,

2012.

SPINOZA, Benedictus de. Ética. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

TARDE, Gabriel. A Opinião e as Massas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

REFERÊNCIAS sobre as pesquisas apresentadas (avaliação cega).

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Para aquém das bordas: contribuições da perspectiva da

autopoiésis para análise da circulação.

Carlos Alberto Gusmão

Palavras-chave: circulação, autopoiésis, , transmissão, intencionalidade-efeitos

RESUMO EXPANDIDO

Utilizamos aqui, junto à referência à borda, constante de um texto de Fausto

Neto1, o termo aquém, buscando reforçar – ao modo da proposta de ruptura

epistemológica concernente ao nosso patamar de observação da questão, a perspectiva

autopoiética - a fundamental proveniência da questão aqui denominada de circulação.

Diríamos de forma mais aclaradora: a problemática aqui apontada – cujo cerne repousa

numa aparente insuficiência teórica em conceituar o espaço que distingue e identifica

os polos da produção e recepção – apesar de sua aparente proveniência teórica nesses

termos colocados funda-se num modo de ver teórico cuja vigência ultrapassa as teorias

particulares (“transversaliza-se”) e se legitima epistemologicamente. Nossa hipótese: é

necessário explorar esse modo de ver em termos de um questionamento epistemológico

de forma a compreendermos o que significa a circulação como parte do processo da

comunicação.

Andemos pois. Mesmo para uma perspectiva empirista relativizadora que

reconheça que tais polos sejam referencias lógicas organizadas a partir de uma

perspectiva instrumental que forneça origem e destino à noção de transmissão na

observação teórica dos processos comunicacionais, considerando-se que esse movimento

tenha origem e fundamentos em certas intencionalidades que devem – para que toda essa

arquitetura teórica tenha sentido – produzir efeitos, tais efeitos, fundados certamente na

intencionalidade, teria obrigatoriamente que passar (nessa arquitetura) por esse espaço

não conceituável, seja no âmbito de uma comunicação ou de comunicações recursivas a

ela. Esse espaço – ou espaço tempo – distinguiria e identificaria os polos em

comunicação.

Na pratica teórica, por assim dizer quando nos referimos aos diversos modos de

entender esse espaço em função de suas hipóteses de relação entre midia e sociedade, os

polos são identificados como distintos, de forma que é possível “explorar” teoricamente

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esse espaço de diferenciação, em função do preenchimento de sentidos, assim

processados. Embora teoricamente a arquitetura aqui tratada tenha referências lógica-

empiricas – há sempre uma instancia empenhada em comunicar-se com outra, de toda

forma observáveis, tanto em função das informações processadas, dos atos de

comunicação e da compreensão verificada quando o “outro lado”, a recepção, emite uma

outra comunicação, recursiva àquela inicial.

Tambem ai, não poderíamos deixar de observar a existência de intencionalidades,

certamente. Mas corremos o risco da perda das referências lógico-empíricas fornecidas

por nosso modelo, nossa arquitetura teórica. Isso porque a ideia de intencionalidade está

condicionada à ideia de efeitos, e dada a falta de provas empíricas de sua existência

comunicacional se torna necessário – se pensarmos numa diferenciação básica que

envolva intencionalidade e efeitos – que a teoria recorra de outros processos não

comunicacionais para dar sustentação ao modelo. Nas teorias designadas como

“administrativas” recorre-se da ideia de uma sociedade fundada em certa lógica que

justifica a natureza da intencionalidade e o estudo dos efeitos ou, por outro lado, numa

teoria que deve recorrer à crítica de tal sociedade para operar teoricamente, por seu lado,

a dimensão intencionalidade-efeitos daquela arquitetura teórica.

Em ambos o caso, o conceito de comunicação recorre a um processo “não

comunicacional” para sustentar a relação intencionalidade-efeito, de forma que o aparato

teórico fundado numa identificação-distinção de polos escapa ileso, daí sua invariância e

o subjacente instrumental vigente. Uma mesma noção instrumental perpetua-se, portanto,

invariavelmente em modos distintos de conceber aa relação de determinação (ou

interdeterminação) entre midia e sociedade. Num modo de maior complexidade, a noção

de Inter determinações entre os polos opera da mesma forma, mas o conceito de dupla

expectativa (Luhmann), que atende de forma interessante tal complexidade recusa

imediatamente as noções de intencionalidade e efeito como “parte” do conceito de

comunicação.

De toda forma, a impropriedade do uso no conceito de comunicação das

dimensões intencionalidade-efeitos - fundada no fato trazido pelas provas empíricas de

que esses são elementos variáveis nas operações comunicacionais, não sendo nada mais

que um plus a mais a ser agregado ao conceito deixa aberto um certo sentido de

circulação, como algo articulado ao processo numa perspectiva do modelo de

transmissão. A comunicação não circularia assim no sentido de uma transmissão ponto-

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a-ponto, na forma de intenções que transmitem efeitos e liga – de forma mais ou menos

complexa- os polos, quaisquer que sejam, da comunicação.

Se os indícios da circulação nos processos comunicacionais forem postos a

serviço do modelo até agora analisado, certamente deve, ou deixar de tentar ocupar

conceitualmente o espaço delineado pela identificação/distinção polar do processo,

reconhecendo que tal impossibilidade é condição da comunicação, ou recorrer de uma

outra ideia de sentido, (oposta a de preenchimento, continuidade) para preenche-lo.

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Corporificação do grande Outro Henio Segura Urtado

Faculdade Cásper Líbero

OBJETIVOS

O artigo visa investigar o fenômeno da ciber-socialidade. Para tanto o conceito lacaniano

de grande Outro, atualizado por Slavoj Zizek, será empreendido em conjunto com uma

análise sob o viés do materialismo histórico e dialético. Com isso o objeto será exposto

em dois níveis de funcionamento: simbólico e estrutural.

Palavras-chave: ciber-socialidade; grande Outro; materialismo histórico e dialético;

Slavoj Zizek.

RESUMO EXPANDIDO

1. Resumo

O conceito de grande Outro se justifica por elucidar como opera um ethos

específico da rede que acaba por condicionar as interações. Modo de ser constituído por

um duplo que se confunde: imperativos categóricos decorrentes da própria forma

estruturante da rede. Por exemplo: a arquitetura da informação, no caso do Facebook,

induz conexões, mas os perfis requerem uma especificidade simbólica. Os critérios dessa

filtragem passam pelo registro do grande Outro que, por sua vez, é refletido pelos signos

dos usuários. Para além da tentativa de mera representação do sujeito, eles se configuram

como uma projeção. Não só como uma persona, mas como integrante de um universo

simbólico específico. Portanto, esses signos são da mesma ordem das aparências pela qual

o grande Outro é o legislador responsável. São condição primária para conferir

legitimidade ao horizonte de significações do sujeito.

Entretanto, a base do processo, reconhecimento de si e do outro, é anterior ao

evento das redes sociais. O que se coloca em questão é justamente a forma da ciber-

socialidade, reconhecendo-a, inclusive, como nova forma predominante. Uma de suas

características é a de um ritmo peculiar que acompanha o da identificação e da tecnologia.

Um lampejo de familiaridade já basta tanto quanto um clique. São relações constituídas

a partir da própria ignição e não, exclusivamente, do desenvolvimento. São levados em

conta quais são os signos em comum, priorizados aqueles de maior apelo estético. Embora

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a conexão seja tênue, ata com a mesma facilidade que desata, nem por isso é mais ou

menos falso.

É sobretudo produto do paradigma perceptivo da hipermodernidade. A síntese do

ser pelos traços mais identificáveis e impactantes. Uma estética alinhada aos modos de

produção. Não por menos, a nossa capacidade de codificação e decodificação é

compatível com a velocidade da rede. Mas tudo isso tem uma origem localizável no

processo histórico conhecido como modernidade. O ritmo veloz da produção material em

larga escala foi internalizado pela percepção humana. É, como denominado por Ben

Singer, o hiperestímulo. O que se torna inclusive uma questão semiótica: o ser humano

assimila um parâmetro sobre-humano e o normatiza; o que é percebido no ambiente

externo logo é incorporado e traduzido em técnica. Esse aparente caos digno de uma

megalópole é justamente o seu oposto. Mesmo o que nasce da técnica e dela escapa,

acaba sendo recapturado por ela.

“A cibercultura é a socialidade como prática da tecnologia”1. Assim a ciber-

socialidade, fruto da hipermodernidade, é uma socialização tecnizada. Sua produção em

larga escala só não é massiva porque é on demand. Signos de si especialmente elaborados

para corresponderem às coordenadas do desejo de um grande Outro. Por isso é conferida

a estética uma função para além do sublime. Os signos dos sujeitos precisam se sobressair

em um movimento compensatório da multiplicidade. Lógica, não por acaso, de cunho

similar ao mercadológico. Várias marcas disputam entre si pela atenção do consumidor e

ganha aquela com uma identidade própria mais bem composta.

“O que se estrutura do sujeito passa sempre pela intermediação do mecanismo que

faz com que seu desejo já seja, como tal, moldado pelas condições da demanda”2. No

caso da cibercultura, sobre tais condições vigora o próprio regimento da rede. Assim

como sua mecânica se estabelece por conexões, as relações intra-subjetivas correspondem

a mesma inclinação. O que é requerido a nível simbólico se engendra primeiro na lógica

de funcionamento interno da rede. Portanto, a velocidade das operações dos algoritmos,

por exemplo, tem seu par simbólico no engajamento pela familiaridade. Pois, nada gera

uma identificação mais imediata do que o recorrente. É isso que Maffesoli conceitua

12 (LEMOS, 2004, p. 89)

( LACAN, 1999, p.282)

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como “tribalismo” na rede. Em termos de midiatização, é esperado que a cibersocialidade

seja a forma imperativa nos relacionamentos “dentro e fora” da rede. Embora, seja

importante enfatizar, que a separação entre “mundo virtual” e “mundo real”, como é

chamado vulgarmente, já se encontra obsoleta.

Referências bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. 1. ed. Lisboa: Relógio d’Água

Editores Lda, 1991.

BENJAMIM, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. 1. ed.

Porto Alegre: L&PM, 2013.

CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa. O cinema e a invenção da vida moderna.

1. ed. São Paulo: Cosac & Naif, 2001. Artigo: SINGER, Ben.

Modernidade, hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 7 .ed. São Paulo: Editora Vozes LTDA, 2012.

KAUFAMNN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise: O legado de Freud e

Lacan. 1.ed . Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

LACAN, Jacques. As formações do inconsciente. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

LEMOS, André. Arte eletrônica e Cibercultura. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n°6,

junho. 1997.

LEMOS, André. Tecnologia e vida social na cultura contemporânea. 2. ed. Sulina:

Porto Alegre, 2004.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2000.

12

LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean. A cultura-mundo: Resposta a uma sociedade

desorientada. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SANTAELLA, Lúcia. Corpo e comunicação: Sintoma da cultura. 1. ed. São Paulo:

Paulus, 2004.

SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço: O perfil cognitivo do leitor imersivo. 1.

ed.

São Paulo: ComunicAção, 2004.

ŽIŽEK, Slavoj. Como ler Lacan. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

ŽIŽEK, Slavoj. A Realidade do Virtual. 2004. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=M4HdqlwVDpk. Último acesso em 03/10/2016.

ŽIŽEK, Slavoj. The Big Other and the Event of Subjectivity. 2012. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=7aYDwHNlmb4. Último acesso em 03/10/2016.

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Midiatização do Jornalismo na Perspectiva da

Ecologia da Mídia

Luciana Menezes Carvalho

Eugenia Maria Mariano da Rocha Barichello

Universidade Federal de Santa Maria - UFSM

Palavras-chave: midiatização, Ecologia da Mídia, Teoria Ator-Rede, jornalismo

digital.

RESUMO EXPANDIDO

O trabalho tem por objetivo apontar as principais transformações do jornalismo

no cenário da midiatização, em que os meios se relacionam em um ecossistema marcado

por rupturas e adaptações. Para tal, é apresentada a perspectiva teórica da Media Ecology,

com destaque para a definição de meio em MCLuhan. A ideia de que os meios produzem

alterações importantes na sociedade, através de agenciamentos sociotécnicos, é discutida

em uma aproximação conceitual entre a Ecologia da Mídia e a Teoria Ator-Rede.

Para compreensão do ecossistema de meios que se configura no cenário digital, é

desenvolvida uma reflexão sobre o processo de midiatização decorrente das gramáticas e

protocolos culturais de alguns meios na interação com seus usos e apropriações sociais.

Mais que uma metáfora da Biologia aplicada ao estudo da Mídia, a Media Ecology

propõe um quadro teórico-epistemológico amplo para a pesquisa na área, podendo ser

renovada na atualidade com novas categorias que surgem das transformações no sistema

midiático digital. Scolari (2010, 2015) resume os pressupostos desse paradigma em duas

ideias centrais: os meios de comunicação constituem um entorno (o medium como

ambiência) que modifica a percepção e a cognição; e os meios são as espécies que vivem

em um ecossistema e estabelecem relações entre si e com os sujeitos que nele interagem.

O termo ecossistema (do grego, oikos) refere-se ao ambiente no qual se vive. Foi

utilizado inicialmente pelo botânico inglês Arthur Tansley, em 1935, tornando-se

conceito central nos estudos biológicos com foco na perspectiva ecológica. Com o tempo,

foi adotado pelas áreas da educação, administração e informática (GHEDIN e ZANOTTI,

2014). No jornalismo, a expressão foi utilizada por Alsina (2010) para se referir ao

processo sistêmico de construção dos acontecimentos.

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Na comunicação midiática e no jornalismo, uma série de autores tem utilizado a

expressão ecossistema midiático para se referir às reconfigurações no ambiente dos meios

de comunicação promovidas pela internet e as tecnologias digitais (LASICA, 2003;

BOWMAN & WILLIS, 2005; DEUZE, 2006; NAUGHTON, 2006; HERMIDA, 2010;

CANAVILHAS, 2010, 2011, 2013; DREYER, CORRÊA, 2013; CARVALHO,

RUBLESCKI, BARICHELLO, 2014).

A noção de ecossistema aplicada à mídia relaciona-se diretamente com a

concepção biológica, pela qual as modificações em cada meio ou no ambiente interferem

no conjunto e impactam também nas partes que o constituem. A noção é central para se

compreender as transformações que os meios digitais operaram sobre a sociedade e, no

caso específico desta pesquisa, sobre o jornalismo.

A ideia de que os meios criam ambiências ou entornos e constituem gramáticas

próprias está presente em alguns sentidos dados por McLuhan ao conceito de médium,

pelo qual o autor canadense estaria chamando atenção para a importância dos efeitos que

os meios podem produzir nos indivíduos e na sociedade, transformando a cultura. Na

época, o autor enfatizava a necessidade de os estudos sobre os efeitos dos meios

eletrônicos superarem a limitação aos conteúdos das mensagens e darem destaque

também aos efeitos causados pelos aspectos significantes dos meios em si, que deveriam

ser observados como uma nova linguagem que transforma a cultura.

A ideia de que os objetos, dentre eles as tecnologias de comunicação (os meios),

também atuam nas interações, configurando-as e interferindo no modo como os sujeitos

são construídos socialmente, encontra eco nos pressupostos da Teoria Ator-Rede (TAR),

ANT em inglês. A TAR surgiu nos anos 1980, com a proposta do estudo das associações

entre aspectos heterogêneos – tecnológicos, legais, organizacionais, políticos e

científicos.

Na TAR, os objetos, assim, nem sempre podem ser tomados como meros

intermediários neutros nas associações com os humanos, como as primeiras teorias da

comunicação chegaram a caracterizar o canal ou suporte. Quando interferem na ação,

como atores, os objetos tornam-se mediadores. Da mesma forma, para a TAR, as

instituições são resultado de associações sociotécnicas, “[...] são papéis, ordenados mais

ou menos precariamente segundo certos padrões, desempenhados por pessoas, máquinas,

textos, prédios [...]. Assim, quando a teoria ator-rede explora o caráter de uma

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organização, ela o trata como um efeito ou uma consequência – o efeito da interação entre

materiais e estratégias da organização.” (LAW, 1992, p. 5-9).

Desta forma, uma organização jornalística está sempre em transformação,

sofrendo a influência dos actantes humanos e materiais de seus processos de

agenciamento sociotécnico. A mudança em um dos elementos de sua atuação, como uma

tecnologia, altera o processo todo, em uma perspectiva alinhada com a TAR.

Ao pensar os meios como extensões humanas, McLuhan estava atribuindo às

tecnologias o seu caráter humano, social (STRATE, 2008), em uma perspectiva que pode

muito bem ser aproximada dos pressupostos básicos da TAR, como já tentado por Stalder

(1997).

A aproximação entre as duas perspectivas teóricas, no entanto, não é consensual.

André Lemos (2012) defende que a TAR pode ser considerada herdeira da teoria

ecológica de McLuhan, mas ressalva que a teoria das associações vai além, em função do

papel atribuído aos atores não humanos nos agenciamentos entre sujeitos e tecnologias.

A novidade da TAR em relação à noção mcluhaniana de extensões estaria na ênfase dada

à equidade entre actantes humanos e não humanos.

Segundo Lemos (2012), a ideia de extensão coloca os meios como objetos

exteriores aos sujeitos, enquanto em Latour (2008) não existe relação hierárquica entre

eles: todos são híbridos. O autor ressalva, ainda, que a ideia de extensão seria insuficiente

para explicar a hibridização que ocorre entre humanos e tecnologias na constituição do

social.

Ainda que seja pertinente a ressalva dada por Lemos em sua leitura da TAR, pode-

se defender que McLuhan não foi, assim, tão impreciso ao utilizar a metáfora da extensão

e, por isso, pode-se partir de sua ideia de medium para compreender as associações que

ocorrem, na atualidade, entre as organizações jornalísticas e as denominadas mídias

sociais digitais.

A ideia de extensão, em McLuhan, não diz respeito a um entendimento de meio

como canal neutro utilizado para difusão das mensagens, mas a um mediador que, ao

intermediar, interfere nos processos comunicacionais, junto com a ação dos atores

humanos. Na perspectiva da ecologia dos meios, as tecnologias também só adquirem o

caráter de meios/mídias a partir das associações entre suas potencialidades tomadas como

16

produtos sociotécnicos e os usos dados pelos usuários em determinados contextos. Nem

sujeitos humanos nem objetos técnicos são neutros ou predeterminados; tudo depende do

contexto em que eles se encontram e se associam.

A ideia de que os actantes humanos e não humanos são híbridos, defendida pela

TAR, está subentendida em McLuhan quando afirma que o conteúdo de um meio é

sempre outro meio e seus usuários – ou seja, este conteúdo manifesta-se no agenciamento

entre actantes humanos e não humanos, gerando gramáticas e lógicas próprias, resultados

dessas associações.

A noção de gramática aproxima-se da ideia de protocolo cultural proposta pela

historiadora da mídia Lisa Gitelman (2006). Em sua definição, os meios são compostos

por estruturas com suas formas tecnológicas e seus protocolos associados, por meio dos

quais a comunicação é uma prática cultural. Assim, protocolos expressam relações

sociais, econômicas e materiais que se relacionam a um meio.

Algumas tecnologias de comunicação, no entanto, atuam apenas na distribuição

ou armazenamento de conteúdos, como uma antiga fita K7 ou um player de VHS, ou

mesmo um pendrive. Essas tecnologias, ainda que associadas à comunicação, podendo

ser atuantes em uma associação sociotécnica, interferindo nas relações, em geral não

chegam a constituir-se em meios, no sentido mcluhaniano, por não contarem com

protocolos culturais mais complexos.

Por envolver protocolos culturais de uso social, os meios possuem maior

importância histórica, chegando a representar rupturas na sociedade, como foi com a

imprensa (considerada a máquina que criou a modernidade), o telégrafo (ao qual se atribui

a invenção do lead do jornalismo), o cinema, a fotografia, rádio e a televisão

(responsáveis pela constituição de uma sociedade de consumo massivo), e atualmente

com a internet e as tecnologias digitais (que vem reconfigurando a sociedade em diversos

aspectos).

17

Trajetórias da Sublimação sob a Midiatização e o

Neoliberalismo

Matheus Cornely Sayão Faculdade Cásper Líbero

RESUMO EXPANDIDO

OBJETIVOS

A proposta do artigo é discutir o conceito de sublimação, tal como proposto em Sigmund

Freud e Jacques Lacan, dentro de um contexto de avanço dos processos de midiatização

e avanço do capitalismo cultural neoliberal. Partindo de autores como Louis Althusser,

Gilles Lipovetsky, Jurgen Habermas e Jean Baudrillard, a investigação se focará em ver

os caminhos ou descaminhos da sublimação nos sujeitos sob a midiatização.

Palavras-chave: sublimação; Lacan; Baudrillard; midiatização; neoliberalismo;

capitalismo; McLuhan; Althusser

1. Introdução

Na metade do século 20, o avanço do neoliberalismo propulsiona uma nova forma

de relacionamento com o mercado (uma produção não mais pensada para as massas, mas

para os diversos nichos). Essa nova relação, por sua vez, é sina do avanço de um certo

modelo de capitalismo - o cultural, e tem, sem dúvidas, suas primeiras teorizações

lançadas na Escola de Frankfurt por Theodor Adorno e por Walter Benjamin.

O caminho do rádio, à TV e à Internet marca o avanço de uma midiatização parcial

para uma midiatização quase total ou totalizante dos modos de viver, podendo explicar

desde a perda da aura em A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, de Benjamin

ao momento histórico de Simulacros e simulação, de Jean Baudrillard, com sua teoria do

mundo substituído pelo signo do mundo, de uma hiperrealidade que denuncia um

processo de semiologização do mundo. Aliás, a midiatização como processo totalizante

trata-se exatamente dessa capacidade de semiologizar identidades, vozes, performances,

modos de encadeamento dos significantes e as próprias relações sociais.

Dentro desse contexto - e com a aceleração da lógica da hiperrealidade por conta

da ascensão da internet -, olhando para as dificuldades na construção de um objeto

18

sublime do século XXI, adentramos a necessidade de se olhar mais a fundo para os

obstáculos de um processo de sublimação entre o neoliberalismo e a midiatização da

hipermodernidade.

2. Percurso

Como primeiro passo para desenvolver esse trabalho, foi necessário pensar nos

vários conceitos de midiatização mais interessantes dentro do meio acadêmico, buscando

um que possibilitasse uma ponte para explicar uma relação entre midiatização e

inconsciente. No caso, recorri sobre as várias definições de midiatização no livro

Mediação & midiatização, de Maria Ângela Mattos, Jeder Janotti Junior e Nilda Jacks -

um estudo “compilatório” e também de proposição teórica sobre o assunto.

De lá, pude partir, então, para Marshall McLuhan, Walter Benjamin e o projeto

de pesquisa “Mundos Midiatizados” da Universidade do Bremen, Alemanha. Essas três

concepções de midiatização tinham, ao meu ver, uma ponte de semelhança em suas

afirmações: a de que a midiatização altera o habitus dos sujeitos conforme sua linguagem

- não de uma forma hipodérmica, é claro.

A partir disso, era necessária uma teoria sólida para entender o porquê dessa

colonização imaginária das performances, da linguagem, da estética etc; ou seja, a busca

por uma teoria da ideologia que não se privasse apenas no olhar da ideologia enquanto

um conjunto de ideias. O livro Aparelhos Ideológicos de Estado, de Louis Althusser,

tinha, nesse sentido, um caminho: propor a ideologia como algo que tem uma origem

material, usando, para isso, a teoria do Estágio do Espelho, desenvolvida por Jacques

Lacan em sua tese de Doutorado.

Althusser afirma que “a ideologia é uma representação da relação imaginária dos

indivíduos com suas condições reais de existência” (1985, p.85) e, com essa adição do

imaginário, ou seja, do estágio do espelho, torna possível pensar a práxis enquanto

também capaz de exprimir a ideologia. Essa formulação destrói a cisão entre práxis e

ideia, que era a base das primeiras teorias da ideologia, em que a ideologia era “pura

ilusão, puro sonho, ou seja, nada” (1985, p. 83). Em outras palavras, que a ideologia era

apenas uma ideia que escondia uma realidade obscena, escondendo-a dos olhos de todos.

19

Enfim, depois de definir um conceito de midiatização para ser a base dos estudos,

depois de definir uma teoria da ideologia que fosse capaz de associar a midiatização com

uma certa práxis e um certo modo de pensar, o momento é o de pensar no conceito de

sublimação, em Freud e em Lacan, aplicado sobre o sujeito midiatizado. De forma

resumida, a sublimação se trataria da satisfação parcial de um desejo recalcado a partir de

um rearranjo do mesmo que o possibilita ser saciado e inserido na civilização (ou no

grande Outro). Ela é a proposta maior do tratamento psicanalítico e, também, o motor da

arte, das rupturas sociais.

Dentro desses limites colocados, o que falta no artigo é a sua conclusão: um estudo

detalhado dos caminhos e descaminhos do processo de sublimação nesse contexto de

reificação da própria linguagem e de um controle totalizante das próprias formas de

saciação e produção dos desejos. Em outras palavras, há espaço para a sublimação?

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W. Indústria cultural e sociedade. Paz e Terra, 2007.

ALTHUSSER, Louis. Aparelho ideológico do Estado. Rio de janeiro: Graal, 1983.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação, trad. Maria João da Costa Pereira.

Lisboa, Relógio D’agua, 1991

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica [1935]. In. _.

Magia e técnica, arte e política, 1985.

CRUXÊN, Orlando Soeiro. A sublimação. Zahar, 2004.

FREUD, S. 1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Obras completas, v. 7,

1905.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos - parte I e II. São Paulo: Ed. Escala, 2011

FREUD, Sigmund. Esboço de psicanálise. Imago, 1998.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago. 2006.

Originalmente publicado em 1923

20

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Obras Completas, Ed. Standard

Brasileira, vol. XXI, Rio de Janeiro, Imago, 1980.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 6 – o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro:

Ed. Zahar. 2016.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro cinco – As formações do inconsciente. Rio de

Janeiro: Ed. Zahar, 1999

LACAN, Jacques. Seminário, livro 7 – a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Ed. Zahar,

1998

MATTOS, Maria Ângela; JANOTTI JUNIOR, Jeder; JACKS, Nilda. Mediação &

midiatização. 2012.

MCLUHAN, Herbert Marshall. The medium is the massage. 1967. 1996.

MCLUHAN, Marshall. Understanding media: The extensions of man. MIT press, 1994.

ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2010

21

Método fenomenológico: conceitos e abordagens na pesquisa

em comunicação

Patrícia Ruas Dias

Paola Marcon

Carlos Roberto Gaspar Teixeira

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

RESUMO EXPANDIDO

O presente artigo tem por objetivo compreender como a abordagem fenomenológica pode

ser utilizada como método de pesquisa científica na área da comunicação. Através de

revisão bibliográfica e documental reunimos diferentes linhas de pensamento sobre a

fenomenologia, como os autores Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty. Por suas origens

filosóficas, este método proporciona liberdade para diferentes aplicações, que podem

variar muito a cada pesquisa. A abordagem fenomenológica e a técnica comparativa

foram combinadas e aplicadas para dar rigor científico a uma pesquisa que pretende

compreender como ocorre a participação do público no Jornal Hoje, e no Jornal da

Cultura.

Palavras-chave: Fenomenologia; método fenomenológico; pesquisa científica;

comunicação.

INTRODUÇÃO

Os estudos metodológicos são importantes por serem a espinha dorsal de um

trabalho acadêmico. A metodologia escolhida organiza e sistematiza da melhor maneira

como determinada pesquisa científica deve ser conduzida, auxiliando o pesquisador a

chegar aos resultados e analisar de forma adequada o seu objeto. Este trabalho, através de

revisão bibliográfica e documental, compreendendo a necessidade de melhores

esclarecimentos sobre a fenomenologia, objetiva organizar de forma esclarecedora as

teorias Transcendental, Hermenêutica e Existencial, de acordo com os autores Husserl,

Heidegger e Merleau-Ponty, além de explicitar aplicações e alguns aspectos positivos e

negativos sobre o uso desta metodologia.

O método fenomenológico desvela as diretrizes para que os fenômenos ou objetos

sejam explicados de forma essencial e intrínseca. Para que isso ocorra é necessário que o

pesquisador una diferentes técnicas, de acordo com o que está sendo estudado, para dar

22

suporte à investigação. Por isso é preciso compreender as diferentes linhas da

fenomenologia, para perceber a dimensão do ser empregada em cada uma.

LINHAS TEÓRICAS

Husserl, com a teoria transcendental, critica o tratamento dado à fenomenologia

como se fosse um objeto físico, confundindo as causas dele com a própria natureza. As

matemáticas ou a lógica, que não precisam de análise, de experiências, não podem ser

aplicadas às ciências empíricas, que não tem resultado perfeito e igual. Ele concebe essa

ciência como pensar de acordo com a sua natureza e com suas características. O princípio

da teoria é que o fenômeno está penetrado no pensamento, e esse pensamento só é exposto

através do fenômeno.

A questão de Heidegger, com a teoria existencial e hermenêutica, não é outra se

não o ser, e se, este ser homem é descrito e analisado, isso se deve somente ao fato de que

no homem se situa o lugar e consequentemente, onde o ser se revela (DARTIGUES,

1973). A fenomenologia como ciência do ser, busca estudar e se aprofundar na essência,

sentido e relações deste ser. Esta investigação está fundamentada na interpretação, na

medida em que se desvendam os sentidos e estruturas do ser, abre-se um horizonte de

possibilidades, que Heidegger define como “hermenêutica da pre-sença” (HEIDEGGER,

1989).

O ser e o mundo estão diretamente ligados na Fenomenologia da percepção de

Merleau-Ponty (1945). Para o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (2006, p. 1), a

fenomenologia pode ser compreendida como “um relato do espaço, do tempo, do mundo

‘vividos’”, ou ainda como o estudo de duas essências: a essência da percepção e a essência

consciência. Tudo que é percebido pela consciência pode ser considerado um fenômeno

passível de ser observado: “mas a fenomenologia é também uma filosofia que repõe as

essências na existência, e não pensa que possa compreender o homem e o mundo de outra

maneira senão a partir de sua ‘facticidade’” (2006, p. 1).

APLICAÇÃO DO MÉTODO FENOMENOLÓGICO

Este trabalho dedicou-se a explorar fenômenos resultantes de avanços

tecnológicos recentes. Isso inclui as redes sociais na internet e os usos sociais por

23

dispositivos eletrônicos digitais, como celulares e computadores. Paralelamente foram

explorados os formatos dos telejornais brasileiros para que possamos questionar, em

primeiro lugar, se existe algum impacto sendo exercido entre tais mídias motivadas por

mudanças no comportamento de seus públicos. Em segundo lugar, para que possamos

identificar no contexto contemporâneo que impactos poderiam ser estes. Para formatar tal

trabalho em uma obra de rigor científico delimitamos para análise dois telejornais: O

Jornal Hoje, e o Jornal da Cultura, os sites oficiais e contas mantidas no Facebook e no

Twitter por ambos os telejornais.

Estas delimitações de objetos de estudo deram início à formatação do trabalho em

uma estrutura que possibilitasse as investigações com objetivo de construir conhecimento

científico, ou seja, possibilitando análises sistematizadas por métodos empíricos. Para

isso, foi selecionado um método e técnicas para conduzir a pesquisa. Como base lógica

para as investigações propostas neste trabalho, considerando os usos das redes sociais e

o telejornalismo como fenômenos que possibilitam sua observação, categorização e

análise, foi selecionado o método fenomenológico como método de abordagem. A

escolha deste método se justifica, primeiramente pelo fato do presente trabalho não

intencionar a explicação de nenhum fenômeno através de leis pré-delimitadas. Além

disso, não se pretende fazer nenhuma dedução baseada em princípios estabelecidos,

considerando apenas o que é visto, ou seja, o que é transmitido pelos telejornais e o que

pode ser acompanhado através de publicações dos usuários nas redes selecionadas,

exatamente como sintetizam os autores: “A fenomenologia não se preocupa, pois, com

algo desconhecido que se encontre atrás do fenômeno; só visa o dado, sem querer decidir

se esse dado é uma realidade ou uma aparência” (PRODANOV; FREITAS, p. 35).

A metodologia de procedimentos técnicos utilizada para realizar a pesquisa é

classificada como método comparativo, por este possibilitar a análise de fenômenos

concretos “com vistas a ressaltar as diferenças e as similaridades entre eles”

(PRONADOV; FREITAS, 2013, p. 38). Baseado neste método foi traçado um plano com

as seguintes fases para a condução e execução da pesquisa: pré-análise para definição de

objetos e redes; construção do referencial teórico com pesquisa bibliográfica e

documental; coleta/tabelamento, cruzamento e análise de dados e considerações finais. A

necessidade de cruzamento de dados também justifica o método comparativo:

Centrado em estudar semelhanças e diferenças, esse método realiza

comparações com o objetivo de verificar semelhanças e explicar divergências.

O método comparativo, ao ocupar-se das explicações de fenômenos, permite

24

analisar o dado concreto, deduzindo elementos constantes, abstratos ou gerais

nele presentes. (Prodanov e Freitas, 2013, p. 38).

Para a coleta de dados acompanhamos separadamente as transmissões dos dois

telejornais, de segunda a sábado, entre os dias 31 de maio e 06 de junho de 2014. No

mesmo período também observamos as atividades nos sites redes sociais nas páginas

oficiais no facebook e twitter (antes, durante e depois das transmissões dos telejornais).

As interações ou ausência delas constituíram os dados propriamente ditos, que

foram organizados em tabelas e classificados a partir do referencial elaborado com a

função de prover embasamento teórico referente aos temas e fenômenos analisados. Os

fenômenos registrados foram relacionados com os seguintes conceitos, discutidos no

referencial teórico: interação mútua e reativa; práticas de gatekeeping e gatewatching;

narrativas transmedia e crossmedia.

CONSIDERAÇÕES

Este método apresenta algumas vantagens e desvantagens em relação à sua

aplicação. Como vantagens pode-se destacar a flexibilidade, por ele desvelar as essências

dos fenômenos. O pesquisador, ao optar por uma abordagem fenomenológica, deve se

apropriar e compreender as essências da fenomenologia. Sendo assim, ele é livre para

escolher e utilizar técnicas metodológicas que complementem sua investigação. Como

principal desvantagem, pode-se sublinhar a questão de cunho filosófico que se baseia este

método, fazendo com que ele seja pouco explorado, talvez por não ser de conhecimento

geral determinadas teorias.

Assim, pode-se considerar que o método fenomenológico pode ser bastante

adequado a alguns estudos científicos da área de comunicação, por levantar detalhes

essenciais de fatos que levam a fenômenos importantes para o campo. Detalhar e

aprofundar estudos, de modo a saber quais os elementos íntimos, pode gerar uma melhor

compreensão, tanto do fato como do ser.

A aplicação da abordagem fenomenológica com a técnica comparativa conduziu

a análise dos telejornais, realizada a partir de uma correlação entre os fenômenos

registrados e os conceitos reunidos previamente no referencial teórico. O cruzamento dos

dados coletados possibilita compreender se e como os fenômenos se estabelecem na

25

prática dos telejornais. A última fase do trabalho foi a conclusão que, resultando da

análise dos dados coletados, tenta compreender como ocorre a participação do público no

telejornalismo através da internet.

REFERÊNCIAS

DARTIGUES, A. O que é a fenomenologia? São Paulo: Ed Moraes, 1973.

____. ____. São Paulo: Centauro, 2005.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 3.

ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.

HUSSERL, E. (2002). A crise da humanidade européia e a filosofia. Introdução e

tradução Urbano Zilles. – (2 ed.) Porto Alegre:ECUPUCRS.

____. Meditações Cartesianas. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

GIL, Antônio Carlos. Metodos e tecnicas de pesquisa social. 6. ed. Sao Paulo: Atlas,

2008.

____. O projeto na pesquisa fenomenológica. Anais IV SIPEQ, 2010. Disponível em:

http://www.sepq.org.br/IVsipeq/anais/artigos/44.pdf.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. Trad. Carlos Alberto R. de

Moura. 3. ed. São Paulo:Martins Fontes, 2006

PRONADOV, C, C; FREITAS, C, F. Metodologia do trabalho científico [recurso

eletrônico] : métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo

Hamburgo: Feevale, 2013. Disponível em:

http://docente.ifrn.edu.br/valcinetemacedo/disciplinas/metodologia-do-trabalho-

cientifico/e-book-mtc.

26

Midiatização, um conceito plurívoco

Pedro Gilberto Gomes

Evelin de Oliveira Haslinger

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

RESUMO EXPANDIDO

RESUMO: A proposta do presente texto resulta da experiência de pesquisa intitulada

“Plurivocidade do conceito de midiatização”, realizada âmbito do Programa de Pós-

Graduação em Comunicação da Unisinos e financiada pelo CNPq, no período de

2013/2016. O projeto objetivou trabalhar a compreensão do conceito de midiatização,

fazendo um diretório de suas diversas conceituações, tanto no Brasil como na América

Latina, América do Norte e Europa. Parte do princípio de que este conceito não é unívoco

e um primeiro passo para delimitá-lo é fazer um levantamento das diversas significações.

A midiatização tornou-se cada vez mais um conceito-chave, fundamental, essencial para

descrever o presente e a história dos meios e a mudança comunicativa que está ocorrendo.

Desse modo, se se tornaram parte do todo, não se pode vê-los como uma esfera separada.

É necessário desenvolver uma compreensão de como a crescente expansão dos meios de

comunicação muda nossa construção da cultura, da sociedade e das diferentes práticas

sociais. Nessa perspectiva, a midiatização é usada como um conceito para descrever o

processo de expansão dos diferentes meios técnicos e considerar as interrelações entre a

mudança comunicativa dos meios e a mudança sociocultural. A questão da midiatização,

consequentemente, foi se afirmando na sociedade, tanto no âmbito nacional como

internacional, como um objeto fundamental para o trabalho dos pesquisadores que atuam

na área da comunicação. Pesquisadores de muitas escolas e das mais variadas regiões

geográficas, por caminhos diversos e com pontos de partida distintos, arribaram à praia

da midiatização como um conceito fundante para a compreensão do que está acontecendo

hoje na sociedade. Até agora, contudo, os estudos sobre midiatização ocuparam-se com

as transformações sociais e culturais nas culturas e sociedades ocidentais. Entretanto, o

processo de midiatização também se manifesta (torna-se visível) noutras partes do

mundo, exibindo diferentes dinâmicas e possuindo outras consequências em diferentes

contextos sociais e culturais. Será que a midiatização constitui um processo global de

mudança? Em caso afirmativo, pergunta-se: onde estão localizadas as desigualdades e as

dissemelhanças desse processo? Como a midiatização não se apresenta da mesma forma

27

para todos e em todos os lugares, podem existir diferenças e semelhanças entre as culturas

e nações em processo de midiatização. Por isso, ela participa da comparação entre os

meios e as pesquisas sobre comunicação, não somente no momento atual, mas também

numa perspectiva histórica. É fundamental que se pense que diferenças transcultural e

transnacional existem e como compará-las entre si. Aqui há o desafio de realizar um

trabalho comparativo para separar os diferentes aspectos da midiatização. Neste trabalho,

vamos utilizar o conceito de “midiatização” como um paradigma para analisar e

compreender a realidade contemporânea. Há um processo novo, por meio da proliferação

das mídias sociais, potencializadas pela cultura digital, que resiste às abordagens setoriais,

até agora levadas a cabo pela academia. Impera a necessidade de um conceito que,

abrangente, consiga dar conta do que está acontecendo e possibilite uma abordagem

sistêmica para além dos meios particulares. Na nossa formulação, um paradigma que

torne possível uma reflexão metamidiática. Para tentar dar conta do comedido, realizamos

uma análise da realidade que abrange a explicitação da gênese do conceito. Após,

examinamos a realidade pensada antes da tematização desse conceito. Para isso,

retrocedemos aos anos de 1940, deixando-nos impregnar pelas reflexões do jesuíta

francês Pierre Teilhard de Chardin até os nossos dias. Finalizaremos com tentativa de

formular uma opinião preliminar para ser discutida nos diversos níveis da academia.

Pretende-se, em especial neste artigo, apresentar o conceito de midiatização e suas

múltiplas vozes, a partir da cartografia do conceito, bem como resultados encontrados ao

final da pesquisa.

Palavras-chave: Comunicação – Midiatização – Mapa sistêmico.

Referências

BASTOS, Marcos Toledo. Medium, media, mediação e midiatização. A perspectiva

germânica. In: MATTOS, Maria Ângela; JANOTTI JUNIOR, Jeder; JACKS, Nilda

(Orgs.). Mediação & Midiatização. Salvador: EDUFBA; Brasília: Compós, p. 53-78,

2012.

CHARDIN, Pierre Teilhard de. El Porvenir del Hombre. Madrid: Taurus, 1962.

Communication Research Trends. Theological and Religious Perspectives on

28

the Internet. V. 31, n. 1, 2012.

FAUSTO NETO, Antônio (Org.). Midiatização e Processos Sociais – aspectos

metodológicos. Santa Cruz: Edunisc, 2010.

HJARDARD, Stig. The Mediatization of Culture and Society. London & New York:

Routledge, 2013. Tradução brasileira pela Editora da Unisinos, São Leopoldo, 2014.

HERMES - Une revue de l’Institut des sciences de la communication du CNRS (ISCC)

n.25 – Le dispositif – entre usage et concept (Numéro coordonné par Geneviève

JACQUINOT-DELAUNAY et Laurence MONNOYER), 1999.

MARCONDES FILHO, Ciro. Prefácio à edição brasileira. In: LUHMANN, Niklas. A

realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005.

MARTIN BARBERO, Jesus. Dos meios às Mediações. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ,

1997.

MATTOS, Maria Ângela; JANOTTI JUNIOR, Jeder; JACKS, Nilda (Orgs). Mediação

&Midiatização. Salvador: EDUFBA; Brasília: Compós, 2012.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São

Paulo: Cultrix, 1996.

REIS, Abel. Problematizando o conceito de bios midiático. In: Sessões do

Imaginário, ano 11, n. 15, 2006.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho. Petrópolis: Vozes, 2010.

WOLF, Tom. Introdução. In: MCLUHAN, Marshall. McLuhnan por McLuhan. Rio de

Janeiro: Ediouro, 2005.

29

A construção do conhecimento no campo da comunicação: em

busca de conceitos e percepções na produção de conhecimento

na área de midiatização Rafael Francisco Hiller

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Palavras- chave: Midiatização, Epistemologia, Metodologia.

RESUMO EXPANDIDO

Este Trabalho procura realizar reflexões, bem como estimular discussões a nível

empírico e teórico no que concerne a produção de conhecimento na área da comunicação,

com foco nas pesquisas que envolvem o “processo de midiatização”.

A área de pesquisa em comunicação, assim como as demais áreas de pesquisa,

organiza os conhecimentos pesquisados por características temáticas. Sendo assim,

podemos dizer que a nossa pesquisa se desenvolve a partir de um eixo de reflexão

epistemológica. O termo epistemologia utilizado neste trabalho, não corresponde àquilo

que se entende por pesquisas epistemológicas no âmbito filosófico. Nesta perspectiva

filosófica, nossas perguntas seriam: o que é conhecimento? É possível conhecer? Quais

os limites do conhecimento?

Acionamos o conceito de epistemologia apenas para afirmar a intenção deste

trabalho de compreender como está ocorrendo a produção de conhecimento em pesquisas

realizadas na comunicação. Limitamo-nos neste trabalho a trazer proposições teóricas que

procuram desenvolver o conhecimento comunicacional - especialmente na área da

midiatização - assim como alguns acionamentos de tais proposições a serviço de

pesquisas empíricas.

Nesta pesquisa, nos propomos a refletir e fomentar discussões a nível empírico e

teórico no âmbito de pesquisas desenvolvidas na comunicação, com foco no “processo de

midiatização”, através de tensionamentos teóricos suscitados pelas dissertações que serão

selecionadas como materiais de análise desta pesquisa.

Nossa pesquisa se desenvolve dentro de um eixo de reflexão epistemológica, que

tem como questão de horizonte a seguinte pergunta:

Como o campo acadêmico da comunicação desenvolve percepções e elabora conceitos e

percepções em seu trabalho de produção de conhecimento na área de Midiatização?

30

Para respondermos ao problema de pesquisa proposto, necessitamos, além do

aporte teórico, de uma metodologia de trabalho no que tange a apreensão do objeto de

estudo. A metodologia desta pesquisa empírica, de formal geral, é fundamentada em

análises de dissertaçõesde acadêmicos das ciências comunicacionais compondo um

corpus específico. A pesquisa se propõe a analisar dissertações que acionam aspectos da

problemática dos processos de Midiatização.

Este trabalho parte de uma análise das construções conceituais elaboradas por

pesquisadores durante a construção de suas pesquisas. A análise empírica se dará através

da realização de uma leitura focal sobre as estruturas argumentativas que estão sendo

utilizadas durante o processo de construção teórica dos trabalhos. Pois é nas estruturas

argumentativas dos artigos e teses que buscaremos indícios no que diz respeito a

identificação de como o campo acadêmico da comunicação, mais especificamente à área

da midiatização, vem elaborando conceitos e percepções em seu trabalho de produção de

conhecimento.

Especificamente, nossa investigação, é um estudo de caso de determinadas

produções, na linha de Pesquisa “Midiatização e Processos Sociais, do PPG em Ciências

da Comunicação da Unisinos. Procuramos investigar uma pequena parte da produção

teórica do campo da comunicação. Analisamos a produção teórica de quatro docentes;

observando ainda (e apenas) quatro dissertações que acionam alguns dos conceitos

propostos por estes docentes. A pesquisa não se propõe a investigar a produção teórica

completa dos quatro docentes, mas apenas um conjunto restrito, selecionado, de alguns

conceitos.

A partir da nossa questão de horizonte:Como o campo acadêmico da comunicação

desenvolve percepções e elabora conceitos e percepções em seu trabalho de produção de

conhecimento na área de Midiatização?Podemos elencar algumas perguntas específicas

de investigação, isto é, aquilo que desejamos descobrir/perceber no nosso conjunto

específico de textos. Abaixo seguem as perguntas específicas propostas:

1) Como as proposições são “testadas” pelos acionamentos feitos nas

dissertações examinadas?

2) Que processo é esse de produzir conhecimento pelo debate?

31

Os dados empíricos analisados foram de fundamental importância, na produção

de considerações para a tentativa de respostas para o problema proposto pela nossa

pesquisa. Ao confrontarmos os aportes teóricos selecionados para a realização desta

pesquisa com os dados observados, é de se esperar que surjam descobertas em nível de

acréscimos conceituais para a área que até então não tenham sido explicitados. Tais

configurações devem, antes de tudo, vir a somar no que tange ao surgimento de novas

matrizes conceituais relativas ao fenômeno da midiatização, bem como o entendimento

da produção de conhecimento nas pesquisas que assumem aspectos da problemática dos

processos de midiatização.

O corpus empírico selecionado apresentou excelentes questões de ordem reflexiva

relativas à indagação proposta por esta pesquisa. Tais materiais foram escolhidos em

função de acionarem conceitos do campo de estudo da midiatização social. Esta

especificidade gera um conjunto de observáveis empíricos com grande potencialidade

para suscitar reflexões e propostas para o nosso problema de pesquisa, e como um

possível gerador de encaminhamentos para o mesmo.

Torna-se necessário tecer alguns comentários a respeito do percurso metodológico

solicitado pelo problema de pesquisa que guiou a produção desta dissertação.

Nosso método procurou articular reflexões teóricas desenvolvidas por

pesquisadores da área de midiatização com descobertas realizadas na análise de

dissertações de discentes. Primeiramente, desenvolvemos um trabalho de descrição das

pesquisas desenvolvidas no campo da midiatização até o presente momento dando ênfase

maior para as elaborações conceituais desenvolvidas na linha IV de pesquisa. Em segundo

momento nos propusemos a efetuar sínteses e inferências a respeito das elaborações

conceituais desenvolvidas nas pesquisas em midiatização. O terceiro momento se

caracteriza pela análise de quatro dissertações de discentes do PPG em Comunicação-

Unisinos, discentes que acionam as elaborações conceituais desenvolvidas por

pesquisadores da comunicação, em especial dos docentes do referido programa. O quarto

e último movimento do nosso método foi analisar o movimento de passagem das

elaborações conceituais realizadas pelos pesquisadores da área até o acionamento dos

mesmos nas dissertações analisadas.

Utilizando deste método de abordagem creio que logramos êxito em responder a

questão de horizonte proposta neste trabalho. Analisando o movimento de passagem

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conceitual referido acima conseguimos ter um bom panorama de como o campo da

comunicação, mais especificamente a área de midiatização, vem construindo o seu

conhecimento, e ao diagnosticarmos os movimentos conceituais que estão sendo

utilizados na produção de conhecimento podemos realizar problematizações de tais

movimentos, bem como sugerir respostas aos supostos problemas encontrados nos

mesmos.

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Comunicação, nova engenharia social

Notas sobre a desrealização do tempo como espaço de

alteridade do campo comunicacional

Tiago Quiroga Universidade de Brasília

RESUMO EXPANDIDO

A midiatização como nova dimensão organizativa da comunicação, fundada no

hibridismo comunicação-informação, não apenas realça os interesses em torno de sua

constituição como um campo específico de conhecimento, como acaba por inviabilizar

qualquer possibilidade de sua compreensão segundo os pressupostos da autonomia dos

campos sociais. A questão advém do duplo acontecimento introduzido pela sociedade do

conhecimento que, por um lado, instaura e reconhece, na mencionada dimensão

organizativa, um saber decisivo ao funcionamento social, e, por outro ‒ quando a integra

aos regimes da informação, em especial aos fluxos da velocidade ‒, parece lhe retirar

qualquer ontologia de maior envergadura. Inicialmente restrita ao fenômeno da

comunicação em si, a questão se estende às teorias, que acabam por ter subsumidas de

suas atividades qualquer duração de tempo que lhes permita algum recuo diante da

velocidade intermitente de um presente sempre acessível, bem como destituído de

qualquer destino. Pretende-se investigar em que medida, como desdobramento direto

dessa nova subjetividade maquínica, em que o sujeito encontra-se virado para fora e o

conhecimento atrelado ao fluxo ininterrupto do tempo real, não seria a própria imanência

do tempo, como espaço de constituição do princípio de autodeterminação humana,

fundamental às ciências sociais, decisivo ao preceito de autonomia dos campos, que

estaria propriamente desaparecendo. Por isso o estudo da desrealização do tempo como

espaço de alteridade das ciências da comunicação.

Autonomia; Tempo; Velocidade; Emancipação; Alteridade.