Cadernos Cultura Beira Interior v11

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SUMRIO

A RECEITA DO MANJAR DE FGADOS DO DOUTOR AMATO LUSITANO Alfredo Rasteiro ............................................................................................................................................................ 4 A ALIMENTAO NA OBRA DE AMATO LUSITANO (1511-1568) Fanny A. Font Xavier da Cunha ................................................................................................................................... 10 OS FRUTOS E AS LEGUMINOSAS NAS CURAS DE AMATO LUSITANO Adelaide Neto Salvado ............................................................................................................................................... 17 O VINHO NA POCA DE AMATO LUSITANO Antnio Loureno Marques ........................................................................................................................................ 25 ELOS VIDA - ALIMENTO DA PALAVRA POTICA Maria de Lurdes Gouveia da Costa Barata ............................................................................................................... 30 A BOTNICA DA BACIA MEDITERRNICA EM AMATO LUSITANO Antnio Manuel Lopes Dias ....................................................................................................................................... 35 A ALIMENTAO NA ALDEIA DO MALHADAL Maria Assuno Vilhena Fernandes .......................................................................................................................... 41 HBITOS ALIMENTARES NA SERRA DA GARDUNHA Albano Mendes de Matos ........................................................................................................................................... 46 ALIMENTAO NA BEIRA INTERIOR... Antnio Maria Romeiro Carvalho ............................................................................................................................... 55 ESTUDANTES DA BEIRA INTERIOR EM SALAMANCA Candeias da Silva ...................................................................................................................................................... 63 SALAMANCA E OS LUSITANOS Alfredo Rasteiro .......................................................................................................................................................... 74 RELAES CULTURAIS ENTRE SALAMANCA E A BEIRA INTERIOR Santolaya Silva ........................................................................................................................................................... 78 OS ETERNOS ODORES DA MEMRIA Ribeiro Farinha ........................................................................................................................................................... 82 CONCLUSES - VII JORNADAS DE ESTUDO .......................................................................................................... 86

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Medicina e ticaPode parecer estranho que numa publicao desta natureza, onde registamos os trabalhos apresentados nas Jornadas de Estudo Medicina na Beira Interior - da pr-histria ao sc. XX, que desde 1989 se vm realizando volta da personalidade e da obra de Amato Lusitano e das manifestaes relacionadas com a medicina produzidas pelas gentes da Beira Interior ao longo dos tempos, se insira esta nota com uma referncia explicita tica. Porqu lembrar as foras normativas que governam as aces humanas de modo a torn-las boas e acertadas? No decurso deste nosso j longo empreendimento, temos acompanhado apresentaes de realidades cuja existncia pertence ao passado, mas que contriburam de algum modo para que a realidade actual seja como . Ora, do ponto de vista da medicina, com todos esses contributos, estamos hoje mais prximos da soluo de muitos desequilbrios que afrontam quer o corpo humano em si, quer na sua relao com os outros e com o mundo. As cincias biomdicas alcanaram um desenvolvimento prodigioso, conferindo um poder enorme queles que, detentores dos seus saberes e instrumentos, tm o papel social de os aplicar. E sabemos como a aco humana tambm frgil. A desumanidade tantas vezes um lugar comum, atingindo nveis inconcebveis. Actuar sobre a vida, pode ter o sentido de a preservar e engrandecer, mas tambm de a aniquilar. No pois descabido, nesta viagem pelos tempos, quando tambm olhamos para o momento de hoje, em que existe uma tal riqueza criada para servir o homem, mas que pode ser utilizada com efeitos contrrios, que marquemos o nosso percurso com uma chamada de ateno para os valores universais e eternos que configuram a tica. O 11 nmero dos cadernos de cultura Medicina na Beira Interior da pr-histria ao sc. XX, que vos apresentamos, regista em especial os trabalhos que os nossos investigadores dedicaram a aspectos da alimentao sondados na obra de Amato Lusitano ou na Beira Interior atravs dos tempos. A direco

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A RECEITA DO MANJAR DE FGADOS DO DOUTOR AMATO LUSITANO (1511-1568)por Alfredo Rasteiro*

Entalada entre a Serra da Estrela e a vizinha Espaa, a Beira Interior vai do Douro ao Tejo, limitada a ocidente pelos rios Ca e Zzere e a oriente pelos rios gueda e Erges. Regio semeada de Santurios desde os alvores da Humanidade, os seus habitantes gravaram os xistos do vale do Ca desde h 20 000 anos, estiveram em Fratel h 5 000 anos, ergueram e deixaram cair Egitnia. Faltaram-lhe organizaes conventuais que desenvolvessem as artes da doaria no sculo XVI e desde sempre viveram inquietaes e apertos. Estas terras orientais, segregadas do ncleo atlntico da Nao, guardam, no seu isolamento, uma vida popular mais que todas conservadora: na habitao, no trajar, nas comidas, nas formas de convivncia, na riqueza do folclore e at nos mdulos arcaicos da cano, ritmada pelo adufe, que desenrola, por cima do ondulado solene do terreno, melodias rituais de igreja primitiva. Era assim no PORTUGAL, O MEDITERRNEO E O ATLNTICO, 1941, 1991, de Orlando Ribeiro. Era assim at que as estradas construdas nos ltimos dez anos reaproximaram Guarda de Cidade Rodrigo e Salamanca e tornaram Castelo Branco mais prxima de Lisboa, enquanto os municpios raianos tratam de viver em boa paz com nuestros hermanos, como o caso de Idanha-a-Nova com Sierra de Gata, Coria, Alcntara e Valncia de Alcntara sob os olhares da Senhora do Almorto que nunca virou costas a Castela, por muito que lhe cantassem. Em tempos de Europa e de Regionalizao, importante identificar, recensear e demarcar. Diz-se que a linguagem reflecte inteligncia e carcter e que a Arte de Cozinha o Bilhete de Identidade de um Povo. Desde as primeiras Jornadas de Castelo Branco em

31 de Maro de 1989 e posteriormente em todos os meses de Novembro, muito se fez para que houvesse um melhor conhecimento desta regio e dos seus povos, desde a abordagem dos ltimos resqucios do falar Leons entre os Quadrazenhos do Alto Riba Ca, at aos rituais da vida e da morte nas terras da Egitnia. Caber s Sesses de 1996 o levantamento possvel dos comeres regionais. Quando em Novembro de 1995 se props que a Alimentao fosse o tema central destas Jornadas, previa-se que o ano fosse de crise, com a encefalopatia das vacas inglesas a causar estragos na agricultura portuguesa mal regida por legislao que em 2 de Setembro de 1994 continuava a permitir a importao de vitelas inglesas, vivas para engorda e carcaas para raes, ignorando as encefalopatias do tipo Creutzfeldt (1920)-Jakob (1923) e desprezando a opinio pblica. O silenciamento impossvel da encefalopatia bovina e a sonegao de informaes relativas a bruceloses de ovinos e caprinos e cisticercoses do porco, coincidiu com a abertura das fronteiras na Grande Europa. A erradicao destas pragas passa pelo direito a uma governao preocupada com a sade e pelo direito qualidade da alimentao e da habitao dos governados, que implica o necessrio acompanhamento da criao e abate dos animais e respectiva fiscalizao. A perda de viso, doena dos olhos, pode ser uma das mais dramticas consequncias da cisticercose humana. H trinta anos, por 1966, Antnio Manso da Cunha Vaz mostrou-me uma cisticercose ocular em doente natural de Belmonte. Na literatura portuguesa estavam registados quatro casos, um de Henrique Moutinho e Fernando Lacerda em doente de Coimbra

5 - Bol.Soc.Port.Oftalmol., 1944-45, T.4, 147-150 - e trs outros de Cunha Vaz em doentes de Albardo (Guarda), Fiais da Telha (Carregal do Sal) e Vilar Seco (Nelas) Bol.Soc.Port.Oftalmol.,1946-47,T,5,203-208. Posteriormente Joo Eurico Lisboa e Cruz Ferreira (Rev.Soc.Port.Oftalmol1976,2 (2),61-68) e A. Figueiredo Ribeiro e Catarina R. Oliveira, (Experientia Ophthalmol., 1977,3(1),37-40)referenciaram dois novos casos em doentes provenientes de Angola. A ausncia de informaes relativamente a novos casos sugestiva de melhores condies higienosanitrias, ainda que eventuais portadores de Taenia solium se tenham fixado em Portugal. Inventariar os hbitos alimentares dos Beires no tarefa fcil, mesmo que a finalidade seja seleccionar e preservar as melhores receitas e os bons petiscos, porque as comunidades beirs se tornaram tradicionalmente fechadas enquanto foram dilaceradas pelo frio e pela fome, por sculos de inquisies, migraes e guerras civis. Quando Jos Saramago empreendeu a VIAGEM A PORTUGAL com um guia s ordens, ou roteiro que leva na mo, ou catlogo geral, para alm do choque e adequao, reconhecimento e descoberta, confirmao e surpresa que as suas descobertas lhe trouxeram, comprovou o murmrio infindvel de um povo em espelho reflector das imagens exteriores, como se estivera em cmara escura ou na caverna de Plato (427-347 a.C.), na REPBLICA. S conhecemos o que amamos e no fcil desvendar o livro aberto que a Alma de um Povo. Gregrio Maraon declarou em 1954 para a edio espanhola dos RETALHOS DA VIDA DE UM MDICO de Fernando Namora, Monsantense de adopo: ( ...en Ia vida aldeana.) Todo parece alli sencillo y sin complicaciones. Pero todo tiene Ia ruda transcendencia, eternamente igual y eternamente nueva, del pattico y escondido jadeo del mundo. Lo nico un