Ex-cocama - Identidades Em Transformacao - Peter Gow

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  • Meu primeiro contato intelectual com a regio do Ucayali na Amazniaperuana, onde mais tarde vim a fazer trabalho de campo, deu-se por meiodo livro O Alto Amazonas, do arquelogo norte-americano Donald Lath-rap, publicado em 1970. Ele principia com a seguinte descrio de um fe-nmeno desalentador, embora corriqueiro:

    No curso inferior do Ucayali, na zona oriental do Peru, existe uma cidade

    em rpido crescimento chamada Juancito. A maioria dos seus habitantes vi-

    ve ainda base de uma agricultura de chacras, campos agrcolas prepara-

    dos pelo sistema das queimadas, e que se internam cerca de um quilmetro

    na selva circundante. Duas das mais importantes culturas de rendimento so

    o tabaco e o arroz. No que diz respeito a trajos e costumes, o povo no difere

    sensivelmente dos habitantes das duas grandes cidades do Peru oriental,

    Iquitos e Pucallpa. Consideram-se representantes tpicos da cultura peruana

    e ofender-se-iam se lhes chamssemos ndios. Contudo, h uma gerao, a

    maior parte dos habitantes de Juancito, ou seus antepassados, eram classifi-

    cados de Cocamas, descendentes da grande nao de lngua tupi que domi-

    nava o curso principal do Alto Amazonas no momento do primeiro contacto

    com os Europeus. Algumas mulheres de Juancito fazem ainda cermica se-

    gundo um estilo muito decadente, que constitui apenas um tnue reflexo da

    complexa tradio cermica dos seus antepassados; e, em caso de doena,

    consultado um xamanista, que conservou os conhecimentos religiosos e m-

    dicos dos Cocamas. A despeito destes vestgios da antiga cultura, ou talvez

    por causa deles, os habitantes de Juancito so ainda menos tolerantes para

    com seus vizinhos ndios do que os cidados peruanos comuns (Lathrap

    1970:17 [trad. portuguesa 1975:17]).

    Buscando um termo abreviado para descrever essa situao, Lathrapcunha assim a expresso ex-Cocama.

    EX-COCAMA: IDENTIDADES EM TRANSFORMAO NA

    AMAZNIA PERUANA*

    Peter Gow

    MANA 9(1):57-79, 2003

    admRealce

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  • O fenmeno ex-Cocama ecoa outras tantas histrias familiares emtoda a Amaznia e, de fato, nas Amricas de modo geral: estamos diantede mais um caso de aculturao e abandono de identidade tnica. Comotal, a situao descrita por Lathrap para mim instantaneamente reco-nhecvel, mas esse reconhecimento me tambm intelectualmente in-quietante, uma vez que conceitos como aculturao e identidade tni-ca no fazem parte de minha caixa de ferramentas intelectuais enquan-to antroplogo social. Esses conceitos derivam da antropologia culturalgermnica e de seus descendentes nos Estados Unidos e no Brasil. As pri-meiras descries de povos indgenas amaznicos foram produzidas porantroplogos culturais; foi apenas a partir da obra de Claude Lvi-Straussque os antroplogos sociais vieram realmente a interessar-se pela rea, oque os fez orientar suas pesquisas segundo as preocupaes do mesmoLvi-Strauss. Nessa medida, no se detiveram sobre o tipo de problemacolocado pela aculturao, pelas identidades tnicas abandonadas e porfenmenos como o ex-Cocama1.

    A razo pela qual os antroplogos sociais evitaram o estudo dos po-vos aculturados da Amaznia , indubitavelmente, de ordem metodo-lgica. Os antroplogos sociais esto voltados para a busca, a descrio ea anlise de sistemas coerentes de relaes sociais, e provavelmente man-tiveram-se distantes de fenmenos como o ex-Cocama por receio deque seu estudo no fosse capaz de extrair tal coerncia ou, no mnimo,de que a complexidade do sistema coerente encontrado desafiasse as es-tratgias analticas disponveis. Os antroplogos culturais, todavia, traba-lhando com diferentes mtodos e postulados, tiveram bem menos dificul-dades para lidar com tais fenmenos, mostrando-se, ao contrrios de seuscolegas, capazes de tom-los como objeto de investigao. Dessa manei-ra, produziram descries etnogrficas importantes que, como procuroaqui demonstrar, podem ser relidas do ponto de vista da antropologia so-cial. O objetivo estender o fulcro e o alcance das anlises socioantropo-lgicas dos povos indgenas amaznicos a um territrio etnogrfico ex-plorado pioneiramente pela antropologia cultural.

    Neste artigo, portanto, analiso a literatura etnogrfica sobre os ex-Cocama, utilizando categorias desenvolvidas na literatura socioantro-polgica sobre a Amaznia e, em particular, na literatura sobre o paren-tesco. Pretendo mostrar como o fenmeno ex-Cocama faz sentido en-quanto uma variante transformacional de outros sistemas de parentescoamaznicos, e argumentarei que, nessa medida, ele no consiste em umaevidncia do colapso da lgica social indgena, mas sim de sua contnuatransformao2. Alm disso, na medida em que a questo do modo como

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  • os Cocama se chamam a si mesmos um problema de nominao, ela sepresta ao tipo de anlise estruturalista dos sistemas onomsticos inaugu-rado por Lvi-Strauss em O Pensamento Selvagem (1966 [1962]).

    A Amaznia peruana

    A Amaznia peruana compreende 37% do territrio do Peru, abrigandouma populao de pouco mais de um milho de pessoas, largamente con-centrada nas duas cidades principais, Iquitos, no rio Amazonas, e Pucall-pa, no Ucayali. Desde meados do sculo XIX, essa regio tem sido econo-micamente dominada pelo setor comercial do extrativismo mercantil (ex-portao de produtos primrios e importao de bens manufaturados). Es-te setor comercial complementado por um setor de subsistncia, do quala maior parte da populao local pobre depende na maior parte do tem-po. O setor comercial caracteriza-se por dramticos ciclos de expanso eretrao: em seu pico, a fase de expanso absorve quase toda a mo-de-obra local e a produo para a subsistncia praticamente cessa; nas fasesde retrao, a maior parte dessa mo-de-obra absorvida pelo setor desubsistncia. Na rea, h muito pouca atividade industrial e, portanto,nada semelhante a um proletariado urbano at recentemente, tam-pouco existia algo que pudesse ser descrito como um campesinato (verSan-Roman 1975, Regan 1993, Santos-Granero e Barclay 2000, para des-cries mais detalhadas da regio).

    A armadura simblica da economia regional uma ideologia de raaque associa fortemente o setor comercial ao branco ou seja, de as-cendncia exgena ou estrangeira e o setor de subsistncia ao indge-na ou seja, de ascendncia autctone (ver Gow 1994). Blanco e ind-gena constituem os dois plos locais de um continuum mediado por mes-tizos, aqueles de ascendncia tanto branca como indgena, seja esta rei-vindicada ou atribuda, associados tanto com o setor comercial quanto coma produo de subsistncia. A ideologia racial tem ainda dois plos exter-nos: primeiro, indios bravos, que no se envolvem em nenhum tipo de pro-duo ou troca comerciais, e extranjeros legtimos, que vivem fora da re-gio e so o alvo das exportaes e a fonte das importaes de manufatu-rados. A existncia desses plos externos pode tambm ser usada paracaracterizar toda a populao local (excluindo os indios bravos) como maisou menos de sangue misturado.

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  • Os ex-Cocama

    No que se segue, emprego o termo Cocama em dois sentidos: para mereferir diretamente aos Cocama propriamente ditos, La Gran Cocama, ecomo um rtulo geral para a combinao Grande Cocama e PequenaCocama*, os Cocamilla. Peo desculpas pela confuso que isso possa cau-sar. A diviso antiga, embora os dois povos paream ter sido semprevirtualmente idnticos na lngua e costumes.

    Os Cocamilla ou Pequena Cocama esto concentrados em umarea dos vales do Maraon, especialmente no baixo Huallaga. Os Coca-ma distribuem-se ao longo dos rios Maraon, Ucayali e Amazonas, nesteltimo caso espalhando-se rio abaixo at o Brasil. Muitos vivem em cida-des da regio, incluindo cidades grandes como Pucallpa e Iquitos, e mes-mo Belm do Par, na foz do Amazonas. difcil estimar a populao dosCocama no Peru, por razes que logo ficaro evidentes: no censo de 1996,mais de 10 mil pessoas declararam-se Cocama ou Cocamilla (Brack Eggs/d), mas provvel, como se ver, que este nmero represente apenasuma frao reduzida da populao, que vem se expandindo rapidamente(mais de 50% tem menos de 15 anos). E assim tem sido desde o incio dosculo XX, quando o padre agostiniano Espinosa os estimou tambm em10 mil (Espinosa 1935). O fato de um crescimento rpido e constante estarassociado a uma populao estvel indica que boa parte dos Cocama seencontra, de fato, des-aparecendo.

    Citei acima as palavras de Lathrap sobre o povo de Juancito, mas asua no uma voz isolada. Seu aluno Peter Roe, por exemplo, discutindoa situao no Lago Yarinacocha, um subrbio da cidade de Pucallpa, afir-ma: Os ex-Cocama recm-europeizados, como camponeses de sanguemisturado, esto ampliando seus domnios fundirios em nome da civili-zao contra os ainda visivelmente ndios Shipibo-Conibo (Roe 1982:81).

    Anthony Stocks (1981), autor de uma importante etnografia sobre acomunidade cocamilla de Achual Tipishca, no usa o termo ex-Coca-ma. Todavia, o ttulo que deu a seu estudo, Los Nativos Invisibles, indicaque o mesmo problema, ou um problema paralelo, o objeto de suas preo-cupaes. Em um artigo geral sobre os povos tupi da Amaznia peruana os Omagua, Cocama e Cocamilla ele escreveu o seguinte:

    IDENTIDADES EM TRANSFORMAO NA AMAZNIA PERUANA60

    * A origem das designaes La Gran Cocama e Pequena Cocama incerta; o autor sugere que pos-sam derivar da expresso la gran nacin cocama, uma forma antiga usada por missionrios [N.do T.].

  • difcil saber at que ponto os povos tupi mantiveram um conjunto de cos-

    tumes distintivos. Os relatos variam e a interpretao mais provvel a de

    que a extenso em que tais costumes foram mantidos varia grandemente ao

    longo da vasta regio onde hoje se encontram os povos tupi. Os Cocama,

    nas reas mais urbanizadas como Pucallpa,