O BUMBA-MEU-BOI E AS FESTIVIDADES JUNINAS E … 85.pdf · A pesquisa teve como foco temático,...

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Textos Completos: II Congresso Internacional de Histria da UFG/Jata: Histria e Mdia ISSN 2178-1281

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Anais do II Congresso Internacional de Histria da UFG/ Jata Realizao Cursos de Histria, Letras, Direito e

Psicologia ISSN 2178-1281

O BUMBA-MEU-BOI E AS FESTIVIDADES JUNINAS E JOANINAS EM SO LUIS MA (1880-1920)

Wagner de Sousa e Silva (Prof. Msc. IFMA, [email protected])

Sandra Antonielle Garcs Moreno (Profa. Msc. IFMA [email protected]) Resumo A pesquisa teve como foco temtico, realizar um estudo analtico entre as festas religiosas, juninas e de So Joo na capital ludovicense, no perodo o em transito acima citado. Cenrio, propicio para os brincantes fazerem desfilar pelas ruas da urbe as danas de Bumba-bois, apesar das situaes adversas que figuravam em torno da imagem construda no imaginrio coletivo sobre a brincadeira e dos sujeitos participes, associados a vadiagem, a julgar pelos jornais do perodo e pela imprensa oficial, na ocasio representado pelo jornal Dirio da Manh. Vale frisar, que por consequncia dos rtulos sociais, os responsveis pelas brincadeiras, se quisessem expor suas brincadeiras naquele perodo, deveriam necessariamente, solicitar licenas junto a Secretria de Polcia do Estado do Maranho, na maioria das vezes no ms de maio, para danarem durante os festejos religiosos. A lista de deferidos e indeferidos eram divulgados pelos jornais. Uma vez deferido ou no, era comum todos os anos, realizar simbolicamente o ritual do batismo do elemento emblemtico, o BMB, ocasio que os brincantes pediam proteo divina, para que suas apresentaes transcorressem na mais perfeita paz, cria-se que o bumba que no fosse batizado, era qualificado como pago, estando ento vulnerveis as diversas mazelas. Observou-se, com base nas fontes, que esta relao simblica entre Igreja, Estado e Brincadeira, nem sempre foram amistosas, mas permeadas por ambuiguidades, a saber: alguns segmentos da imprensa que criticavam as brincadeiras, gradativamente passaram a anuncia-las, o Estado de perseguidor passou a ser incentivador, passando a explorar a imagem das brincadeiras pelo vis miditico, a igreja por sua vez, passou a disponibilizar espaos para as manifestaes, com participaes efetivas dos clrigos, seja na beno da brincadeira, ou mesmo, enquanto participante. Palavras - chave: Bumba-meu-boi, perseguio e resistncia. 1 INTRODUO

Ao dar incio a essa pesquisa, sobre o tema bumba-meu-boi, em perspectiva mais diacrnica, fez-se necessrio estabelecer alguns recortes: temporal, temtico e espacial. A respeito do primeiro recorte, precisamos fazer uma breve narrativa de nossa experincia de pesquisa, como chegamos a delimitar o perodo de 1890 a 1920, para situar o leitor.

A problemtica inicial teve incio na escolha do tema, sob um vis ainda pouco pesquisado no Maranho. De imediato, foram detectados alguns empecilhos, a saber: como apresentar uma nova discusso acerca das brincadeiras, se os Departamentos das Universidades maranhenses esto repletos de monografias e dissertaes sobre a manifestao do bumba-meu-boi? .

mailto:[email protected]:[email protected]

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Quando se estabeleceu que o foco do trabalho seria as relaes de perseguio e resistncia ao bumba-boi, o primeiro passo foi se dirigir ao campo de pesquisa, valendo-se das fontes documentais, e foi, quase de imediato, possvel observar a escassez de tais fontes sobre o perodo abordado por esse trabalho. Mas, os historiadores, esto imbudos de mostrar sociedade que as histrias silenciadas so to historias (processos) quanto s escritas, embora ainda no historiografia. Ora, em meio a esse cenrio, tratou-se de problematizar e contornar essa situao, comeando a questionar a prpria escassez. O que faziam as autoridades para ocultar esses atores sociais? E os manifestantes, que estratgias adotavam para driblar os mecanismos de controle do sistema governamental? Perguntas essas cujas respostas, no transcurso do trabalho, sero narradas.

Consultando os documentos do perodo em So Lus, percebe-se que, apesar das perseguies, os brincantes do BMB (Bumba-meu-boi) encontraram algumas estratgias de resistncia que permitiram a sua participao na Repblica que ora se instalara na cidade. A princpio, a dana foi proibida no centro da cidade; depois, normatizada, com data e hora marcada; outras vezes, imposta pelos seus brincantes e muitas vezes, praticada com a participao da prpria sociedade que a denunciara.

A questo que se coloca anlise : o que levava a sociedade ludovicense a denunciar e, ao mesmo tempo, participar das festas do bumba-meu-boi? Qual o significado da normatizao da festa? Quais as estratgias de resistncia dos brincantes?

Explorar a relao entre as prticas do Bumba-meu-boi e a cidade de So Lus, nos primeiros anos da Repblica, possibilita outra viso da histria da cidade, ainda pouco explorada pela historiografia maranhense. Foram encontrados poucos trabalhos sobre o tema, como Histria do Maranho, de Carlos Lima, e monografias sobre o contexto do Maranho republicano e alguns artigos que se referem temtica. Uma histria da participao popular no Maranho republicano constitui uma importante pgina para a histria do Maranho e da Repblica brasileira. 2 PERSEGUIO E RESISTNCIA AO BUMBA-MEU-BOI NOS ESPAOS CITADINOS

Neste tpico, pretende-se abordar as perseguies aos brincantes de bumba-meu-boi, na Ilha Grande (So Luis-MA). Com efeito, quando nos referimos perseguio, se encontra imbricada a relao dialtica perseguio - resistncia, pois, partindo do que se conseguiu detectar por meio das pesquisas, sobre tal postura com os populares, estes permaneceram atuando, sendo posta a brincadeira nas ruas da capital, praticamente, quase todos os anos, salvo em alguns perodos, como discutiremos adiante. Essa permanncia se vincula resistncia, embora, muitas vezes, a atuao de tal folguedo fosse passvel de monitoramento policial, ficando a mesma limitada s reas mais afastadas da urbe, como forma de disciplinar os espaos urbanos e impedir a pratica de cordes de bumba.

Refletindo sobre essa problemtica, pareceu oportuno abordar estes espaos rediscutindo os conceitos de centro e periferia em que, durante muito tempo, foram enfocados como os espaos, respectivamente, das elites e da classe subalternas. Trat-los historicamente, implica superar uma perspectiva tradicional, de conferir ao espao um sentido naturalizado e estanque, e considerar, em

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articulao com a sua materialidade fsica, outras dimenses nele inscritas, como as econmico-sociais, polticas e simblicas. Tendo em vista que s o fato de residir em uma dessas duas localidades, - claro, que neste caso est se tratando do recorte temporal da pesquisa - j denotava o status de um determinado cidado (), ou seja, seu grupo social: deelite ou popular.Esse contexto corroborado no Maranho atravs das noticias divulgadas neste perodo, quando se coloca a averso da sociedade ludovicense, que almejava adentrar no contexto de civilizao, em relao brincadeira que era tida como sinnimo de barbrie, percorrendo o centro da cidade. Este era pensado como espao, por excelncia, das elites, que no desejavam v-lo ocupado pelas camadas populares, com as quais no queriam se misturar: Jornal A Tarde, 30 jun.1915, p.1.

Percorreu este ano, as principais ruas da capital, naquela algazarra infernal, que faz as delicias da garotajem, o boi, o bumba-meu-boi escandalizando a nossa civilizao e perturbando o sossego pblico, h tempos essa brincadeira foi relegada para os pontos afastados da urbe, mas agora o boi investiu contra a cidade e veio a praa Joo Lisboa, nosso principal salo publico.

A capital maranhense, possivelmente influenciada por tais discursos, modernizantes e civilizadores, aderiu ao sistema de delimitar os espaos da cidade, mostrando, desde ento, hostilidade do centro com a periferia, principalmente no quesito que se refere a determinar a atuao das manifestaes populares para as reas afastadas da urbe, no caso, a periferia. Portanto, temos um contraponto; o centro, exposto como civilizado, ou como se desejava que o fosse, e as periferias, reas afastadas do centro, espao reservado s camadas populares . A partir desta proposio, encontramos outra semelhana aos moldes sociais cariocas, quando defendida esta ideia : H mesmo uma presso paras o confinamento de cerimnias populares tradicionais em reas isoladas do centro, para evitar o contato entre duas sociedades que ningum admitia mais ver juntas, embora fosse uma e a mesma. (SEVCENKO, 1995, p.34).

Nos jornais do perodo, estampava-se a hostilidade com a periferia, local de atuao do bumba-meu-boi, pelo centro, o salo pblico, como se qualificava a Praa Joo Lisboa. As elites de So Luis, assim como em outras capitais brasileiras, comungavam a ideia de progresso e apreciao do novo, entendiam que tal mudana seria possvel se conseguissem exaurir do centro as formas de manifestaes populares, pois a presena do povo vagando pelas ruas do centro civilizado, por si s, j mostrava o atraso local, expresso na figura do passado colonial que, naquele momento se queria esquecer. Margarida Neves expe, plausivelmente, esse repudio em relao aos populares.[...] Tumultos menos ruidosos que aqueles das baionetas, mas muito perigoso; as multides annimas so tumultos na capital mesmo quando silenciosas, so tumultos porque sua presena denuncia um passado colonial e escravista que se quer esquecer[..]. (NEVES, 1994, p.138)

A brincadeira de bumba-meu-boi era vista como sinnimo do passado colonial escravista, na viso das elites locais, tendo em vista que os brincantes, por serem negros, ou descendentes, j eram alvo de dupla perseguio, pelas autoridades governamentais e policiais tanto por residirem nas reas marginalizadas quanto por serem provenientes do meio popular. Porm quando no eram

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perseguies executadas pelas instituies do Governo, diretamente, a prpria populao se incumbia desta tarefa, como podemos ver em um pedido de providencia ao Sr. Desembargador Chefe de Policia, no jornal

A Pacotilha 1881:

Uma grande malta de escravos pretos escravos livres renem-se quase todas as noites na casa n. 26 da rua das creoulas e alm de incommodar a visinhana at tarde da noite, com grandes gritos fazem ouvir um dicionrio de nomes ofensivos a moral pblica, por isso viemos pedir a s. exc. Serias providncias afim de que no reproduzam esses fatos que muito depem contra os nossos costumes.Os moradores da mesma rua, caso, a s. exc. Queira obrigar o dono dessa casa a assinar termo de bem viver, esto dispostos apresentar seu testemunho.

Nota-se o interesse implcito de disciplinar os espaos da cidade, embasado na idia de progresso, pelo fato presumido destes hbitos deporem contra os costumes e poderem contaminar o centro, representado na figura da Praa Joo Lisboa, o ponto mais bem cuidado do municpio. Portanto, qualquer anormalidade neste local, rapidamente era passvel de denncia, no restrita apenas aos manifestantes da brincadeira de bumba-meu-boi, mas tambm extensiva a outros segmentos populares, no vistos com bons olhos, a exemplo de mulheres de vida fcil. Por estarem sentadas nos bancos da praa, simbolizando risco para a civilizao, como nos mostra a fonte impressa: Pedem-nos que chamemos a ateno a quem de direito para o grande numero de mulheres de vida fcil que se renem nos bancos da Praa Joo Lisboa e praticam as maiores imoralidades.Alguns meses atraz, todas as noites uma patrulha, ai extacionava impedindo dessas maneiras tais reunies; era de justia que tal prtica moralizadora continuasse em benefcios dos nossos foros de habitante de cidade civilizada. (O JORNAL,1916). Grifos nossos.

A cidade civilizada contrastava com o sitio da periferia, local de atuao das manifestaes populares. Frutos dessa disparidade acirraram-se vrios conflitos, no embate para delimitar as reas de atuao dos folguedos populares e dos populares. As danas de negros eram denominadas de batuques - o boi tambm se inseria nesta categoria, por ser uma dana qualificada com tal atributo, na viso da elite, que vigora naquele momento - e ficavam aqum do centro, ou seja, pelo lado dos stios do Anil e Joo Paulo - atuais bairros de So Luis que permanecem com os mesmos nomes, naquela poca, reas afastadas da cidade, e tambm na zona rural da ilha, no Iguaiba e Maioba.

Na concepo de Matthias Rohing Assuno(1999), havia relaes de poder e culturais entre a elite e as classes subalternas de So Luis: como no caso dos batuques, existia uma lgica espacial que refletia as relaes de poder entre autoridades e classes subalternas, opondo um centro civilizado, onde no se toleravam tais barbaridades e a periferia onde era difcil de impedi-los.

Na realidade, tais prticas no eram estimadas, de forma alguma, pelas elites ludovicenses. Durante um determinado perodo, comprovamos a solicitao de pedidos de licenas dos brincantes do Estado para que a brincadeira atuasse fora da cidade, como um meio de disciplinar os espaos da mesma. Indicam que pelo menos entre 1876 e 1913, os donos de bois depositavam requerimentos pedindo

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autorizao para ensaiar a brincadeira e sair nos dias dos festejos juninos. A secretria de policia, no entanto, somente concedia tais licenas nos lugares situados fora do centro da cidade.

A julgar pelo autor, as brincadeiras de bumba-boi ficavam restritas s reas afastadas do espao central da cidade e mesmo nesses locais, deveriam portar os documentos constando as licenas a que estavam sujeitas. De certo modo, a luta buscando o progresso, almejando os moldes de civilizao, significava, tambm, o conflito contra as trevas, consideradas sinnimo de popular, analisada sob a tica da cultura erudita, de onde emergem os conceitos tendenciosos para com aquela. Nesta perspectiva, as manifestaes populares, postas como empecilho para o embelezamento do centro, deveriam ficar fora do permetro urbano, como as autoridades deste momento histrico a fizeram, atravs das Portarias da Chefatura de Policia, publicadas no Dirio Oficial do Maranho de 1920: expressamente prohibido tocar bombas no permetro urbano, fazer brincadeira de bumba-meu-boi, bem assim como tocar caixa do Divino Espirito Santo. Como forma de proteger o centro civilizado, impedindo a invaso de populares incultos e selvagens, estigmatizados de brbaros.

Porm, no que diz respeito s licenas, vale expor como era feito o procedimento para a obteno das mesmas. J que quase no havia meios de conter as apresentaes da cultura popular, ao menos, tentava-se reprimi-las e disciplin-las. No perodo de transio do sculo XIX para as duas primeiras dcadas do sculo XX, as brincadeiras populares e outros folguedos, para sarem nas ruas, precisavam ser legitimadas, e concretizadas por intermdio de requerimentos de licenas: o solicitante, fosse ele dono de bumba-meu-boi ou de outros folguedo popular, pedia permisso para sair com a sua brincadeira, firmando compromisso no qual ela atuaria na melhor ordem possvel e cumpriria as determinaes, ou seja, os deveres prescritos no documento. Virgnia Maria da Conceio vem mui respeitosamente solicitar de V.Excia a permisso para durante seis meses ter lugar a brincadeira do tambor das Minas, rua da Madre de Deus desta cidade. ( APEMA. Caixa Chefe de Polcia Requerimento (1891-1900).Envelope Requerimentos de 1896-1900. licenas, 18 maio.1900).

Com esta postura, as autoridades policiais procuravam meios de manter o controle sobre as brincadeiras, j que no poderiam barr-las por completo. Sendo assim, delegou-se poderes Polcia para monitorar e reprimir quaisquer transgresses s ordens pblicas que viessem a acontecer.

Com efeito, o requerente, ao conseguir a sua licena, deixava o seu nome nos documentos da Secretaria de Polcia, que realizava os despachos, autorizando a brincadeira. Porm, antes de sair nas ruas, o requerente deveria ir at o distrito policial mais prximo, no importava a distncia, se fosse periferia ou rea rural. Deveria se apresentar ao Delegado responsvel:. No dia 23 de junho todos os donos de bois devero se apresentar ao delegado geral, no posto correcional, afim de receber instrues sobre esse divertimento. (O JORNAL, 7 jun. 1916, p.04). Grifos nossos

O requerente, ao se apresentar perante o delegado, deveria estar portando a sua licena, para saber o horrio em que a brincadeira poderia atuar, no excedendo nem um segundo, pois, caso contrrio, o seu dono sofreria as sanes. Sanes essas que iam desde o pagamento de multas, seguido de deteno, a correr o risco de nem conseguir mais essas autorizaes, conforme o exemplo: De

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conformidade com o meo despacho desta data concedo licena a Josephina Seguins de Oliveira com a dana tambor de mina na casa de sua residncia rua Madre de Deus desta cidade, 4 Distrito policial [...] No devendo exceder as dez horas da noite. Seja a presente licena submetida ao visto da autoridade Policial do distrito para fins convenientes. ( Apud FERRETI, 2003, p.15).

Inclusive, em alguns jornais deste perodo, no de se estranhar a divulgao da lista de pessoas que haviam obtido deferimento de suas licenas, como podemos observar a seguir:Tiveram licena do Dr. Delegado geral para brincar Bumba-meu-boi: Sabino Conceio, do Desterro; Cludio Antonio dos Santos, doTotorema; Jos Lessa Ribeiro, do Turu; Aprgio Antero de Souza, do Boqueiro[...]. (O JORNAL,1916, p.2).

O disciplinamento do centro foi to abrupto, que locais como a Rua de So Pantaleo (hoje a referida artria se encontra na rea central de So Luis) era considerada como subrbio, talvez por estar prximo a Madre de Deus - atualmente bairro do centro da cidade, preservado o nome. O monitoramento policial foi ferrenho, a ponto de tentar delimitar at a quantidade de ensaios de bumba-meu-boi naquela localidade: Nada menos que 3 ensaios de Bumba-meu-boi sendo feitos nas ruas de So Pantaleo e Passeio no codozinho.(O JORNAL, 1916, p.02). Lembrando que a Rua do Passeio era um dos pontos em que transitava o bonde. Esta delimitao era forma de purificar a cidade, como j foi dito neste trabalho, gerando conflitos, centro X periferia, dois espaos antagnicos. No primeiro, procurou-se as melhores formas de condutas, atravs de decretos criados pelas autoridades governamentais e policiais, a ponto de chegarem a proibir a presena de pessoas mal vestidas de adentrarem rea qualificada como centro : O Sr. Chefe de Policia prohibiu aos indivduos, que no estiverem decentemente vestidos, sentarem-se nos bancos das praas desta cidade. (A PACOTILHA, 17 jun.1913, p.03).

Os brincantes de bumba conviviam cotidianamente com essas perseguies. Eram um dos principais alvos da elite ludovicense, que os repudiavam a ponto de no admitir as suas apresentaes nem em reas afastadas do centro, desejando a sua eliminao em prol dos bons costumes e decncia do povo citadino, que via neste folguedo uma dana brbara, que devia ser passada para as sociedades, a exemplo do que foi visto num artigo, de autor desconhecido, em um jornal, que, especulamos, talvez fosse algum membro da elite. Algum morador citadino que no apreciava a festana? Porm, no trabalho nosso identificar quem era; neste momento, a preocupao primordial entender o teor da notcia e a sua aceitao social: Mas o bumba brincadeira sensaborona e perversora, no merece contemporizaes, cabe a policia elimin-lo de vez, a bem da decncia, os hbitos citadinos, polindo-se dia-a-dia, so-lhes infensos. Faa-se do boi o que se faz ao Judas. Exiba-se ao motejo de todos, inflingindo-lhes um profundo banho, nas piscinas microbicidas e resguardadoras do matadoiro modelo. (O JORNAL,8 jun.1923, p. 01)

As perseguies aos manifestantes so fatos que servem para rtificar a hostilidade centro X periferia, pois se existem, como de fato existiram na capital maranhense essas atitudes, elas implicam em criao de discursos que circulam no meio social para, de forma sutil, legitimarem essas posturas severas em relao festana popular, valendo-se de artifcios, camuflados em nome do bem-estar da sociedade maranhense. Porm, o verdadeiro motivo cr-se, era para as elites

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adentrarem neste novo sistema de valores que vinha circulando no pas, o prazer pelo novo. O bumba-meu-boi denunciava o atraso, pelo fato de mostrar o nosso passado colonial escravista, que, nestas alturas, era tido como velho. Neste mesmo jornal citado, percebeu-se, outras noticias, sem identificao do autor, que usava a alcunha de justus, denominando-se desta forma, quando procurava criticar e inferiorizar o folguedo. O Jornal, 20 maio.1919 os Bumba-meu-boi ante-ontem devidamente verberados na pacotilha por uma vitima da nossa falta de policia dos costumes, fora convir que se trata de [...] de sons que passam ou de um barulho intinerante, realmente mais prejudiciais a tais foros do que ao sossego publico.

Em funo do teor das noticias desse e de outros jornais, que circulavam na capital maranhense, inicia-se um perodo de perseguies severas s brincadeiras populares. Perodo esse em que, ao mesmo tempo, se configura as manifestaes de resistncia dos brincantes. Pois, analisando as fontes desta poca, as leis criadas que datam dos fins do sculo XIX, j engendravam mecanismos de censura s danas populares. A julgar pela divulgao no jornal A Pacotilha de uma artigo da lei: Art.125 os batuques e dansa de pretos so prohibido fora dos logares permitido pelas autoridades.

As danas de bumba-meu-boi, durante muito tempo, ficaram confinadas as reas perifricas, pelo fato de serem estas consideradas o seu espao de atuao, reas marginais cidade e, principalmente, neste perodo de transio para o sculo XX, como j nos referimos: a vila do Pao, ao interior da ilha, as localidades de Maioba e Anil. Ento, os grupos de bumba-boi, como no podiam se apresentar fora dos locais determinados pelas autoridades, procurava seguir as ordens. Mas as perseguies ultrapassaram as barreiras do centro, adentrando o interior da ilha, atravs de monitoramento da policia, que no se restringia, apenas, cidade, transcendendo o centro e atingindo os arrabaldes. Aparentemente, a idia que perpassada pelos jornais e documentos do perodo, seria a de que as danas poderiam se apresentar nos arrabaldes da cidade tranquilamente, sem serem importunadas, por qualquer autoridade governamental. Porm, na prtica, no era o que acontecia, pois mesmo munidos de licenas, os responsveis pelas brincadeiras se comprometiam, perante o delegado Geral de Polcia, a no transgredirem a ordem. Deparamos com o impasse ao termo ordem: ser a concepo de ordem, para as autoridades governamentais, a mesma dos brincantes de bumba-meu-boi?

Considerando que o real intuito analisar o conceito de resistncia dos populares no campo simblico, identificando as suas estratgias de sobrevivncia, engendradas diante das situaes adversas, partindo do seguinte pressuposto: se houve perseguio ao bumba-boi, e a dana continuou a existir at os dias atuais, implica dizer que existiu essa resistncia.

As licenas, por si s, j indicavam, para aquele momento, indcios de resistncia, embora tambm passassem a ideia de represso. Os sinais aparecem a partir do momento que a licena se configura como uma maneira astuciosa dos populares colocarem as brincadeiras nas ruas, sem transgredirem as leis. Todavia, brincar de bumba-boi, nos conformes das leis, implicava uma serie de fatores, que iam desde a solicitao da licena, junto Secretaria de Polcia do Estado do Maranho, passando pelo parecer das autoridades e, por ltimo, o deferimento. Afinal, somente o fato de escrever um requerimento no implicava que o pedido fosse deferido. Alm do mais, existia um fator agravante: muitos donos de bumba-

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boi e de outras brincadeiras no sabiam ler e escrever, o que no deixa de ser mais um empecilho. Mesmo com essas limitaes, os populares driblavam essas dificuldades e continuavam a requerer licenas. Para isso, os mesmos eram auxiliados por um funcionrio da Secretria de Polcia, responsvel pela elaborao dos requerimentos/peties. Era comum encontrar, no final desses documentos, a frase: Arrogo, de uma determinada pessoa, por no saber escrever.

Ilmo. Sr.Dr. Chefe de Policia Do Estado do Maranho Passa-se a Portaria concedendo licena requerida, na mesma forma de meu despacho anteriorSecretaria de Policia do Maranho, 20 de maio de 1896.Loureno Justiniano Frazo, morador no lugar. Districto de Vinhaes , querendo ensaiar a brincadeira do Bumba-meu-boi, faro se divertir algumas noites pelas festas de So Joo, Santo Antnio e So Pedro, em differentes lugares da ilha, inclusive Cutim, pede a V.S se digne a conceder-lhe a necessria licena para esse fim.Nestes Termos Pede Deferimento So Luis - MA, 20 de maio de 1896. Argo do requerente (por no saber escrever) Luiz Gonalves da Silva

Cabe-nos lembrar que, em meio s criticas, aos participantes do folguedo, muitas eram direcionadas s figuras dos negros. Ser negro era um estigma muito grande nesse perodo, pois a sua imagem era associada vagabundagem, a badernas. No sculo XIX estes protagonistas da brincadeira eram trabalhadores escravos, porm, quando libertos, foram tratados com outros esteretipos, como o de desocupados. Talvez a mentalidade da elite local estivesse voltada para os moldes burgueses de civilizao, proporcionados pelo olhar do novo e a sede pelo enriquecimento, que veio associada idia do regime republicano. Associava-se, pois, a figura de quem no trabalhava, a ocioso, vagabundo, pois se observou que o trabalho dignificava o homem e ocupa sua mente, impedindo que ele se tornasse um marginal em potencial, em outros termos, um elemento propcio a entrar no mundo ilcito.

Porm, devemos estar atentos para o fato de que os populares sarem pelas ruas, no significa que eles no trabalhassem, tanto que jornais do perodo mencionam um aprendiz de padeiro que recebeu autorizao para brincar no bumba at uma determinada hora. claro que a fonte impressa repleta de intencionalidade: nesta noticia, alega-se que muitas pessoas perdiam seu emprego em virtude das festas de So Joo:

[...] muitos operrios perdem seu emprego por causa da camueca. Outros exaltam-se numa onda de revolta os patres esforam-se por esbofetea-los. Foi o que se deu com Sr. Casemiro Gonalves da padaria em So Luis. Este moo em regozijo pela data de ante-hontem, deu, licena h um empregado seu para vadiar, at as dez horas da noite , mas o padeiro entusiasmado com o bumba-meu-boi, foi alm das onze [...]. (O Pacotilha,26 jun.1911, p. 2)

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O brincar, no texto, entendido e exposto como sinnimo de vadiar, e no era desta poca o repdio contra os lazeres dos pobres: A idia que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos(RUSSEL, 2002, p.29). Talvez seja uma possvel explicao para a associao entre brincantes e desocupados, segundo a viso das elites maranhenses e brasileiras, que, alm do autoritarismo herdado do regime escravista, sofriam influncia da cultura burguesa e faziam questo de cultuarem o trabalho como algo disciplinador e sadio para o ser humano. Mas isso, as elites queriam fazer valer para os grupos subalternos, e, assim, a diminuio do trabalho era considerada como mais tempo ocioso para estes manifestantes perturbarem o sossego pblico e ameaarem o centro civilizado. A camada social dominante considerava que os mesmos, aos invs de sarem nas ruas como desocupados, deveriam manter suas mentes ss, ou seja, ocupadas com algo, pois era at um meio de civiliz-los, porque nem saberiam o que fazer com tanto tempo disponvel, utilizando-o numa espcie de frivolidade, expressa, nesse momento, no folguedo:

Outros tantos no acontece quando os desbragamentos so permanentes, diversos, e as vezes, sem que a escurido da noite consiga evita-los. Assim o que vai pela rua Portugal entre o armazm do tezouro e o do quartel da guarda do mesmo tezouro. No h atenuantes para aquele verdadeiro cu abaixo ... Ningum dir certamente que algazarra infernal, caracterstica daquele curioso trecho da rua, que recorda o estoiro da boiada, seja uma conseqncia do trabalho intenso que ali se efetua. Compreende-se e se chega mesmo a venerar o rudo sagrado das mquinas e instrumentos de trabalho. Compreende-se igualmente o canto dos remadores, quando a embarcao navega a ... feio da corrente. O que no se pode compreender, que realmente esteja trabalhando quem a titulo de suavizar as agruras do trabalho, passe horas e horas e horas gritando improprios. para esta a meia dzia se tanto, de perturbadores do socego pblico que por minha vez . invoco a ao pronta e enrgica da digna autoridade desta terra. (O Jornal, 20 maio.1919, p. 01). Grifos nossos.

Seguindo a linha de raciocnio de Russel, quando o mesmo vem referir a

hipocrisia das elites, o seu gosto pelas ocupaes, na maioria das vezes, nem elas mesmas trabalhavam, apenas exigiam que os subalternos (concepo das elites locais ludovicenses) o fizessem. Em contrapartida, os brincantes no abriam mo de seus lazeres. Na verdade, se perguntssemos para qualquer trabalhador brincante o que ele mais sentia prazer em fazer na vida, dificilmente diria que seria o trabalho, mas o prazer de sair com o seus grupos de bumba-boi pela cidade

No obstante, essa prtica de trabalho que atendia ao sistema vigente, j ocupa boa parte de seu cotidiano (MATOS, 2002). O pouco tempo que lhes restava, era, principalmente, no ms de junho, poca junina. Os participantes membros dos bumbas queriam desfrutar, brincando, no importava o espao. O que era levado em considerao, era a animao, sobretudo na periferia. Espao do bumba-boi.

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3 DESCRIAO METODOLOGICA

Para execuo deste trabalho, foram necessrias visitas constantes ao Arquivo Publico do Estado do Maranho - APEMA, onde foi encontrado alguns documentos oficiais, que aguaram o olhar de pesquisador, tais como: Cdigos de Posturas municipais, Dirio Oficial do Estado do Maranho, Requerimentos e Peties ao Chefe de Polcia do Estado do Maranho. Quanto s fontes hemerogrficas: O Pacotilha, Dirio do Maranho, O Jornal, entres outros peridicos, foram identificados e pesquisados, alm de algumas fotografias do perodo, encontradas no acervo da Biblioteca Pblica Benedito Leite BPBL. De posse de preciosos documentos, foi montada uma espcie de banco de dados, catalogando e digitando os mesmos apurados no decorrer da pesquisa.

Analisando as fontes catalogadas, foi-nos possvel perceber um perodo de perseguio ferrenha s brincadeiras populares. Constatou-se que, por volta de 1880 a 1890, praticamente todas as licenas de bumba-boi foram indeferidas. Percebeu-se, ainda que, as licenas comearam a serem concedidas como resultante do processo de resistncia dos manifestantes.

Tornou-se, pertinente investigar como esses brincantes colocavam sua brincadeira todos os anos para desfilar pelas ruas de So Lus, no perodo junino, bem no pice do perodo em que a capital comungava com os ideais de hegemonizao cultural, onde qualquer manifestao popular era vista como atraso social e sinnimo de barbrie, sofrendo, assim, inmeras perseguies tanto das autoridades quanto das elites ludovicenses, talvez por ser um festana composta, em sua grande maioria, por brincantes negros. 4 CONSIDERAES FINAIS

Demonstrando que a postura de resistncia j vinha se arrastando desde as primeiras dcadas do sculo XIX, buscando os brincantes o direito de sarem com o seu cordo pelas ruas. Encontrou-se, outros registros de populares na rea perifrica da capital, hostis s ordens que pregavam que os cordes de boi deveriam ter licenas para sarem nas ruas. Ou seja, os populares no ficaram delimitados a tais posturas arbitrrias e verticalizantes, por parte das autoridades e das elites que os perseguiam de forma veemente. Apesar dessas restries, os populares no se deixaram subordinar por completo, a exemplo da reclamao do morador de nome Trcio, em relao brincadeira de boi na localidade do Portinho, no ocultando o seu nome, como geralmente acontecia nos artigos, e assumindo a responsabilidade da denncia. O mesmo chega a denunciar a presena de um policial no cordo, algo impensvel ento, pois a policia, neste momento, era incumbida de monitorar tais festanas e saber se estavam se comportando bem os manifestantes, alm de verificar a licena dos bois.

Como se poderia conceber uma autoridade participando do folguedo, que era considerado brbaro e um atentado para os foros de gente civilizada? As atitudes das autoridades, em relao s brincadeiras, aconteciam nesses espaos de conflito - entre quem impunha o poder em contraste com classes subalternas, compondo a teia de relaes sociais. O teor desses comentrios d a entender terem sido eficazes os discursos pois, os pais de famlias e outras pessoas que residiam na comunidade, onde se ensaiava o boi, acabavam por absorv-lo e

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reproduzi-lo, com denncias nos jornais, satisfazendo aos anseios elitistas, como neste exemplo:

No dia 16 do corrente ano deu o Dirio a luz da publicidade um artigo, assignado por um pai de famlia, no qual pedia providencias ao exm.sr dr. Chefe de policia contra um divertimento intitulado Bumba-meu-boi, que sem permisso dessa auctoridade fuccionava (sic) no referido lugar os amantes de to deliciosos divertimento, entendero atribuirme a auctoridade de tal artigo e como sempre o canalhismo o dolo dos ignorantes, no trepidaro em insultar-me, exercendo assim uma vingana ignbil, da qual fui a vtima expiatria. Dois se passaram e eis que vejo surgir em campo um homem que se arvorou em protector deles, prometendo licenas para dansar o querido bumba. E note-se que este magno protector uma auctoridade policial de baixa esphera. No pode, portanto, passar sem a mnima represso o procedimento dessa auctoridade que em vez de ser garantia e ordem publica, afasta-se com seu procedimento de confiana dos seus superiores.Responsabiliso-me Sr. redactor por estas linhas na forma de lei.(MARANHO, 1928)

Dialogando com outros tempos para confirmar certas situaes, sobre o avano dos grupos de bumba, no espao urbano, encontramos, no ano de 1917, um jornal noticiando a presena da brincadeira na cidade. Porm, no ano seguinte, a postura das autoridades j apresentava certa mudana, ao permitir que os grupos pudessem sair s ruas, desde que no cruzassem o 1 Apeadouro. Este local ficava bem prximo ao Caminho Grande, estrada de acesso ao stio Anil. Ser que seria um discurso tendencioso para impedir que a brincadeira fosse para o centro da capital civilizada? Pois o perodo de So Joo, pelo menos em So Luis, poca de apresentao do bumba. O Sr. Delegado de Segurana, no exerccio de Delegado Geral, manda fazer pblico para o conhecimento dos interessados que por ocasio dos festejos de so Joo e So Pedro as brincadeiras de bumba-meu-boi no podem vir ao permetro da capital, s devendo chegar ao 1 Apeadouro.(O JORNAL, 1918, p.01).

Esse documento corrobora que os manifestantes populares, aos poucos, iam expandindo os seus espaos de atuao. Diante desse quadro, as autoridades, talvez no podendo mais reprimir as brincadeiras, engendraram formas de cont-las. J nessas alturas, devido a sua expanso, elas migravam no sentido inverso: periferia- centro. O folguedo, que ficava restrito s reas afastadas da urbe, no caso, o interior da ilha, comeava a vir em direo Forquilha (atual bairro da Forquilha) e, em seguida, fica localizado na pitoresca vila do Anil, como noticiavam os jornais deste momento; na seqncia, em direo ao Joo Paulo e Apeadouro. Esta peregrinao nos remete a levantar a hiptese de que, aos poucos, iria invadir o centro civilizado, as reas mais centrais da capital, como chegou a fazer algumas vezes, numa posio de resistncia. Acredita-se ser essa resistncia, no necessariamente, no sentido fsico, embora no descartemos a possibilidade de que, durante esse processo em direo ao centro, tenham existido confrontos desse nvel.

As perseguies aos grupos de bumba-boi, manifestadas atravs dos repdios de membros das camadas elitistas, ou mesmo, de residentes do centro da cidade, crescia cada vez mais. Principalmente quando se aproximava o perodo junino, os jornais da poca expressavam o teor de discriminao: Estamos no

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azoinante ms do bumba recreio estpido, em que aos africanos desplantados se misturam cantigas desenxabidas, mal sofrendo obnubilao(O JORNAL, 1915, p. 01). Equivocadamente, os brincantes, talvez chegaram a pensar que a legalizao da brincadeira amenizaria a averso para com a mesma. Mas a antipatia dos moradores crescia, -encurralados diante deste incmodo quadro - obrigados a aceitarem os desfiles pelas ruas da cidade-, aumentava mais ainda. Com efeito, mesmo com as licenas, o bumba-boi era criticado: Sairo hoje pelas ruas da nossa civilizada capital diversos bois, com licena das autoridades policiais. Ao abuso continuo das bombas transvalianas, que j devia ter sido reprimida, vem juntar o batuque e o berreiro dos dansantes, perturbando o sossego pblico, os negros. Convinha por um paradeiro a esse divertimento, especialmente dentro do permetro da cidade pois quase sempre termina em conflitos. (PACOTILHA,1917, p. 01).

Mas deve-se atentar que, neste contexto de perseguir e at tentar encerrar essa brincadeira, focamos um olhar de perseverana e resistncia destes populares, mesmo diante dessas dificuldades anuais de colocarem sua festana para desfilar pelas ruas - seja do centro ou dos arrabaldes. Chama a ateno o fato do folguedo, de forma paulatina, comear a adentrar o permetro urbano, o que, at ento, era impensvel. No temos informao se foi, realmente, o centro da cidade ou lugares adjacentes, porm, mesmo assim, j uma deslocamento em direo rea central da cidade .Mas no podemos perder de vista, e cabe ser explanado e esmiuada, a perseguio antes dos brincantes cruzarem estas ruas, bem como a sua proibio, mesmo nos arrabaldes da capital, especificamente no Anil, que tambm foi feita por aquelas camadas sociais que no olhavam a apresentao com bons olhos. Fruto dessas atitudes, durante o ano de 1905, donos de bumba-meu-boi foram proibidos de desfilarem suas danas pelas ruas da capital, em virtude de excessivas denncias expressas em discursos que qualificavam os brincantes como violentos. Mas o decreto de proibio no censurou a animao no Anil, que continuou recebendo pessoas que iam se divertir nesta vila, demonstrando forma de resistncia dos populares. Estas podem ser percebidas quando se observa que, diante desta situao adversa, no deixam de vibrar nesses dias que recordam os melhores de seu bem viver:

As licenas, mesmo sem parecer, representam uma conquista, ao analisar que nem sair nas ruas, os brincantes podiam. E nas vezes que isso acontecia, ou seja, das brincadeiras desfilarem, ficavam confinadas a pontos distantes da capital, na rea rural da capital. Independente das licenas e perseguies ao folguedo, os registros encontrados nessa pesquisa mostram que: at aproximadamente a dcada de 20 do sculo XX aos locais em que existiam, bois em So Luis eram, ou em zonas de pescadores ou em zona rural (COMISSO MARANHENSE DE FOLCLORE, 1999, Boletim n.14 p. 5). Essa persistncia simboliza resistncia, inclusive, sem esquecer o vis de que muitos dos participantes eram negros e que, durante o sculo XIX, talvez at escravos fossem. Encontramos informaes de perseguies ao grupos, muito remotamente, desde 1823, com retaliaes explicitas aos brincantes que, no acatando a ordem do governo, se dirigiram at o largo do Carmo: O Governo Prohibira e destacara foras para que os bandos de bumba-meu-boi, no passassem do areal do Joo Paulo. Apesar dessas ordens rigorosas, na noite de 23 de junho de 1823, armados de perigosos busca-ps, grupos de rapazes enfrentaram a soldadesca at o Largo do Carmo,

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onde danaram e cantaram [...]. (COMISSO MARANHENSE DE FOLCLORE, 1999 p. 03).

REFERNCIAS BIBLIOGRAFICA

LIMA, Carlos.Histria do Maranho.So Luis-MA:Sioge,1981. APEMA. Caixa Chefe de Polcia. Requerimento. (1891-1900).Envelope Requerimento. de 1900-1905. Licenas. A Tarde, So Luis,1915. Comisso Maranhense de Folclore- CMF, Boletim n14, ago.1999. Jornal,So Luis, (1914-1920) MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e Cultura: Histria, Cidade e trabalho. Bauru/SP: EDUSC, 2002 MARANHO. Dirio Oficial,So Luis (1906-1920) MARANHO. Leis e Decretos do Estado (1890-1905). NEVES, Margarida de Sousa. O povo na rua um conto de duas cidades. In PECHMAN, Robert Mouss (Org). Olhares sobre a Cidade. RJ: UFRJ, 1994. Pacotilha, So Luis, 1881-1920 RUSSEL,Bertrand. O elogio ao cio.Rio de Janeiro:Sextante,2002. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como misso.4. ed.So Paulo: Brasiliense, 1995.