TEORIA DA RELEVÂNCIA*[**]

Click here to load reader

  • date post

    08-Jan-2017
  • Category

    Documents

  • view

    220
  • download

    0

Embed Size (px)

Transcript of TEORIA DA RELEVÂNCIA*[**]

  • 221

    Deirdre Wilson

    Dan Sperber

    Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubaro, v. 5, n. esp., p. 221-268, 2005

    1 INTRODUO

    A Teoria da Relevncia pode ser vista como uma tentativa de resolverem detalhe uma das afirmaes centrais de Grice: a de que uma caractersticaessencial da maior parte da comunicao humana, verbal e no verbal, aexpresso e o reconhecimento de intenes (GRICE, 1989: ensaios 1-7, 14,18; eplogo retrospectivo). Ao elaborar essa afirmao, Grice lanou osfundamentos para um modelo inferencial de comunicao, uma alternativapara o modelo de cdigo clssico. De acordo com o modelo de cdigo, umcomunicador codifica a mensagem pretendida dentro de um sinal, que decodificado pela audincia por meio de uma cpia idntica do cdigo. Deacordo com um modelo inferencial, um comunicador fornece evidncia desua inteno de comunicar um certo significado, que inferido pela audinciacom base na evidncia fornecida. Um enunciado , naturalmente, uma pea deevidncia codificada lingisticamente, de modo que a compreenso verbal

    TEORIA DA RELEVNCIA*[**]

    Deirdre Wilson***

    Dan Sperber****

    Resumo: A afirmao central da Teoria da Relevncia a de que expectativas de relevncia soprecisas e previsveis o suficiente para guiar o ouvinte na direo do significado do falante. Nesseartigo, o objetivo explicar em termos cognitivamente realsticos a que equivalem essas expectativase como elas podem contribuir para uma abordagem empiricamente plausvel da compreenso. Paratal propsito, delineiam-se as principais suposies da verso atual da teoria e discutem-se algumasde suas implicaes.Palavras-chave: pragmtica; comunicao; cognio; teoria da relevncia.

    * Texto publicado originalmente em ingls em: HORN, L.; WARD, G. (Eds.). The handbook of Pragmatics. London:Blackwell, 2004, p. 607-632. A expresso este volume nas notas de rodap remete a essa referncia. Traduode Fbio Jos Rauen e Jane Rita Caetano da Silveira.

    [**] Ns somos gratos a Larry Horn e Gregory Ward pelos valiosos comentrios e sugestes, e aos muitos amigos,colegas e estudantes cujas proposies e crticas positivas tm contribudo para o desenvolvimento da Teoria.

    *** Professora do University College, de Londres. Doutora em Lingstica.**** Professor do Centre National de la Recherche Scientifique CNRS, de Paris. Doutor em Cincias Sociais.

  • 222

    Teoria da relevncia

    Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubaro, v. 5, n. esp., p. 221-268, 2005

    envolve um elemento de decodificao. Todavia, o significado lingsticodecodificado somente um dos inputs para um processo de inferncia no-demonstrativo que produz uma interpretao do significado do falante.1

    O objetivo da pragmtica inferencial explicar como um ouvinte infereo significado do falante com base na evidncia fornecida. A abordagem tericada relevncia baseada em outra das afirmaes centrais de Grice: a de que osenunciados criam automaticamente expectativas que guiam o ouvinte na direodo significado do falante. Grice descreveu essas expectativas em termos de umPrincpio de Cooperao e mximas de Qualidade (veracidade), Quantidade(informatividade), Relao (relevncia) e Modo (clareza), as quais se esperaque os falantes observem (GRICE, 1961; 1989, p. 368-372): a interpretaoque um ouvinte racional escolheria aquela que melhor satisfaz essasexpectativas. Porm, questionamos muitos outros aspectos de sua perspectiva,incluindo: a necessidade de um Princpio de Cooperao e mximas; a nfasenos processos pragmticos que contribuem para as implicaturas antes quepara o contedo explcito e condicionado verdade; o papel da violaodeliberada das mximas na interpretao de enunciados; e o tratamento deenunciados figurados como desvios da mxima ou conveno de veracidade.2

    A afirmao central da Teoria da Relevncia a de que expectativas derelevncia geradas por um enunciado so precisas e previsveis o suficientepara guiar o ouvinte na direo do significado do falante. O objetivo explicarem termos cognitivamente realsticos a que essas expectativas equivalem e comoelas podem contribuir para uma abordagem empiricamente plausvel decompreenso. A teoria desenvolveu-se em muitos estgios. Uma verso maisdetalhada foi publicada em Relevance: communication and cognition(SPERBER e WILSON, 1986a, 1987a, 1987b) e atualizada em Sperber e Wilson(1995, 1998a, 2002) e Wilson e Sperber (2002). Aqui, delinearemos asprincipais suposies da verso atual da teoria e discutiremos algumas desuas implicaes para a Pragmtica.1 Sobre a distino entre decodificao e inferencial, veja-se Sperber e Wilson (1986a), 1.1-5, captulo 2. Sobre

    a relao entre decodificao e inferncia na compreenso, vejam-se Blakemore (1987, este volume); Wilsone Sperber (1993); Wilson (1998); Carston (1998, 1999, no prelo); Origgi e Sperber (2000); Wharton (2001, noprelo); Breheny (2002); Recanati (2002a). Sobre o papel de processos de inferncia demonstrativa e nodemonstrativa na compreenso, vejam-se Sperber e Wilson (1986a): 2.1-7; Sperber e Wilson (2002); Recanati(2002a); Carston (2002, no prelo).

    2 Para argumentos anteriores contra esses aspectos do quadro de Grice, vejam-se Sperber e Wilson (1981); Wilsone Sperber (1981). Para discusso e referncias adicionais, veja-se abaixo.

  • 223

    Deirdre Wilson

    Dan Sperber

    Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubaro, v. 5, n. esp., p. 221-268, 2005

    2 RELEVNCIA E COGNIO

    Que tipos de coisas podem ser relevantes? Intuitivamente, relevncia uma propriedade potencial no somente de enunciados e outros fenmenosobservveis, mas de pensamentos, memrias e concluses de inferncias. Nostermos da Teoria da Relevncia, qualquer estmulo externo ou representaointerna que fornece um input para processos cognitivos pode ser relevantepara um indivduo em algum momento. De acordo com a Teoria da Relevncia,enunciados geram expectativas de relevncia no porque falantes obedeam aum princpio de cooperao ou a alguma outra conveno comunicativa, masporque a busca pela relevncia uma caracterstica bsica da cognio humana,que comunicadores podem explorar. Nesta seo, introduziremos a noo bsicade relevncia e o Princpio Cognitivo de Relevncia, que fundamentam aperspectiva terica de relevncia para a Pragmtica.

    Quando um input relevante? Intuitivamente, um input (uma viso,um som, um enunciado, uma memria) relevante para um indivduo quandoele se conecta com informao de background disponvel, de modo a produzirconcluses que importam a esse indivduo: ou melhor, para responder umaquesto que ele tinha em mente, aumentar seu conhecimento em certo tpico,esclarecer uma dvida, confirmar uma suspeita, ou corrigir uma impressoequivocada. Nos termos da Teoria da Relevncia, um input relevante paraum indivduo quando seu processamento, em um contexto de suposiesdisponveis, produz um EFEITO COGNITIVO POSITIVO. Um efeito cognitivo positivo uma diferena vantajosa na representao de mundo do indivduo: umaconcluso verdadeira, por exemplo. Concluses falsas no so possesvantajosas; elas so efeitos cognitivos, mas no so efeitos positivos (SPERBERe WILSON, 1995, sees 3.1 e 3.2).3

    O tipo mais importante de efeito cognitivo alcanado peloprocessamento de um input em um contexto uma IMPLICAO CONTEXTUAL, uma

    3 A noo de um efeito cognitivo positivo necessria para distinguir entre informao que meramente parecerelevante e informao que realmente relevante ao indivduo. Ns estamos todos conscientes de que algumasde nossas crenas podem ser falsas (mesmo que no possamos dizer que elas sejam), e preferiramos nodesperdiar nosso esforo projetando falsas concluses. Um sistema cognitivo eficiente aquele que tende adestacar inputs genuinamente relevantes, gerando concluses genuinamente verdadeiras. Para discusso, veja-se Sperber e Wilson, 1995, sees 3.1 e 3.2.

  • 224

    Teoria da relevncia

    Linguagem em (Dis)curso - LemD, Tubaro, v. 5, n. esp., p. 221-268, 2005

    concluso dedutvel em conjunto do input e do contexto, mas no do input nemdo contexto isolados. Por exemplo, ao ver meu trem chegando, eu poderia olharpara meu relgio, acessar meu conhecimento sobre programao de horriosde trens, e derivar a implicao contextual de que meu trem est atrasado (quepode ela mesma alcanar relevncia ao se combinar com outras suposiescontextuais para produzir implicaes posteriores). Outros tipos de efeitocognitivo incluem o fortalecimento, a reviso ou o abandono de suposiesdisponveis. Por exemplo, a viso de meu trem chegando atrasado poderiaconfirmar minha impresso de que o servio de trens est piorando ou alterarmeus planos de fazer alguma compra a caminho do trabalho. De acordo comTeoria da Relevncia, um input RELEVANTE para um indivduo quando, e somentequando, seu processamento produz tais efeitos cognitivos positivos.4

    Intuitivamente, relevncia no uma questo de tudo ou nada, masuma questo de graus. H abundncia de inputs potenciais que teriam aomenos alguma relevncia para ns, porm ns no podemos prestar ateno atodos eles. A Teoria da Relevncia afirma que o que faz um input merecer serreconhecido dentre uma massa de estmulos competidores no somente queele seja relevante, mas que ele seja mais relevante do que algum input alternativodisponvel para ns ao mesmo tempo. Intuitivamente, em contextos idnticos,quanto maior o valor das concluses alcanadas pelo processamento de uminput, mais relevante ele ser. Nos termos tericos da Teoria da Relevncia,em contextos idnticos, quanto maiores forem os efeitos cognitivos positivosalcanados pelo processamento de um input, maior ser a relevncia. Dessemodo, a viso de meu trem chegando um minuto atrasado pode fazer poucadiferena de valor para minha representao de mundo, enquanto a viso delechegando meia hora atrasado pode levar a uma radical reorganizao de meudia, e a relevncia desses dois inputs varia em funo disso.

    O que faz um estmulo merecer ateno no somente os efeitoscognitivos que ele alcana. Em diferentes circunstncias, o mesmo estmulopode ser mais ou menos s