Blimunda # 29 - outubro 2014

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    22-Nov-2015
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Levar a literatura até as pessoas, seja através do Teatro, das Feiras do Livro, Festivais Literários ou de Bibliotecas Itinerantes. Boa parte da Blimunda de outubro é dedicada a este assunto - que também é abordado por Pilar del Río no editorial. Ricardo Viel esteve na encantadora Segóvia, no Hay Festival, e voltou com histórias do encontro entre grandes nomes da literatura, do jornalismo e do mundo dos livros com um animado e cúmplice público. Sara Figueiredo Costa conta como foi “fugir com o circo” por quatro meses e acompanhar a digressão do Trigo Limpo/Teatro Acert pelas terras de Viseu Dão Lafões com o espetáculo “A Viagem do Elefante”, adaptação teatral do livro homónimo de José Saramago. Andreia Brites revela os bastidores das fichas de leitura que a Fundação Calouste Gulbenkian manteve secreta durante décadas. Um contributo para o trabalho das bibliotecas itinerantes (as famosas carrinhas da Gulbenkian) que cruzavam Portugal no século passado levando livros aonde eles não existiam.Os convidados desta edição da revista são Dulce Maria Zúñiga, diretora da Cátedra Latino-Americana Julio Cortázar que nos explica por que vale a pena ler o autor de Rayuela; e o ensaísta Eduardo Lourenço que recupera um texto escrito em 2003 e até agora inédito sobre a América Latina.Na secção Saramaguiana publica-se um excerto do prólogo de A espiritualidade clandestina de José Saramago, livro de Manuel Frias Martins a ser publicado em breve pela Fundação José Saramago.Esta é a nossa Blimunda # 29. Que agora também é vossa. Boas leituras!

Transcript of Blimunda # 29 - outubro 2014

  • M E N S A L N . 2 9 O U T U B R O 2 0 1 4 F U N DA O J O S S A R A M A G O

    HaYFESTIVAL DE SEGOVIAMario Vargas Llosa, Le Clzio e Javier Maras O A Viagem do Elefante O Amrica Latina por Eduardo Loureno O Julio Cortzar por Dulce Maria Zuiga O Rol de Livros:Uma histria em fichas de leitura O Saramaguiana: A espiritualidade clandestina de Jos Saramago

    BLIMUNDA

  • Sim, senhor, disse artur paz semedo. Apertou a mo que o administrador

    lhe estendia e retirou-se. No caminhava, voava. Entrou na

    seco com um ar triunfador que ningum lhe conhecia e que todos

    os subordinados, sem exceo, atriburam a um substancial aumento

    de vencimento. To limitada a imaginao da gente comum.

    Jos Saramago, Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas

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    O outro lado da sociedade de espetculo

    Pilar del Ro

    Cinco minutos com Maria Sheila

    CremaschiRicardo Viel

    Notas de rodapAndreia Brites

    Leiturasdo ms

    Sara Figueiredo Costa

    A Viagem do Elefante

    Sara Figueiredo Costa

    A espiritualidade clandestina de Jos Saramago

    Manuel Frias Martins

    EstanteSara Figueiredo Costa

    e Andreia Brites

    Salvemos a Amrica (Latina)

    Eduardo Loureno

    Agenda

    Hay festivalde Segvia

    Ricardo Viel

    Porqu ler Cortzar

    Dulce Maria Zuiga

    Dicionrio infantil e juvenil

    Gonalo Viana Sara Reis da Silva

    Javier Maras eo risco de contar

    Ricardo Viel

    Rol de LivrosAndreia Brites

    Espelho MeuAndreia Brites

  • Vivemos na sociedade do espetculo e temos que assumir este dado como uma verdade revelada ou cientfica cada um decidir de acordo com a sua forma de estar no mundo. Tudo espetculo, da representao religiosa poltica, das imagens de um acidente ferrovirio a um concerto. O teatro puro espetculo como a morte de um rei ou como pode ser um pr do sol retratado e colocado nas redes sociais para contemplao coletiva. Diante dessa lgica milenar os livros no podiam permanecer margem, protegidos em estantes, eternamente esperando que algum, por erro, curiosidade ou empenho real viesse busc-los e dar-lhes vida. Dessa maneira os livros no respiravam, de modo que foi preciso que se lhes inventasse um espetculo e nasceram assim as feiras de livros, bendito seja

    quem concebeu esses eventos. Com o tempo se viu que as feiras no eram suficientes para competir, por exemplo, com as doses dirias de futebol que os meios de comunicao transmitem e foram lanados festivais literrios no mundo todo para que os leitores e os escritores encontrassem um lugar onde pudessem olhar-se

    nos olhos e trocar ideias j escritas ou essas outras que todos temos depois de termos lido e entendido.

    Cada dia h mais festivais na Europa e na Amrica. Alguns, os Hay Festival, por exemplo, celebram-se em lugares pequenos, outros procuram complementar grandes feiras. H os que celebram um autor, como a Escritaria de Penafiel que este ano foi dedicada a Ldia Jorge. H os encontros que transformam as cidades e as cidades que transformam e deixam a sua marca nos escritores. H a magia das sesses multitudinrias, em que escritores so aplaudidos como cantores, e h as sesses pequenas onde se escuta o palpitar de

    O outro lado da sociedade do espetculo Pilar del Ro

    um poema. Tudo isso acontece na sociedade do espetculo, na qual finalmente a literatura se incorporou para benefcio da sua alma a da sociedade e para fazer letreiros luminosos de livros e no s de marcas de automveis. uma forma necessria de justia neste sculo XXI que defendemos, ns os que queremos que os livros cheguem a todos os cantos, porque o conceito de elite, relacionado com o poder social e econmico, foi destronado, assim queremos acreditar, pelo conceito mais perfeito de democracia. No banalizao, colocar a Divina Comdia, pintada por Barcel, nas livrarias do mundo, e fazer-nos perder o medo de entrar numa sala para escutar Bach, pois isso no apenas um privilgio de cinco escolhidos por ignotos deuses. Festivais no Brasil, na Argentina e na Colmbia, cidades que se convertem, durante alguns dias, como Medelln, em livros abertos de poesia; ou Segvia, cujo aqueduto romano v passar escritores do mundo todo; ou Xalapa, onde se desfruta do verbo de um autor sonhado; ou como em Gijn, onde os leitores inventam histrias para receber os que fazem da arte da palavra o seu ofcio.

    H tambm as cidades que se convertem em cenrios para receber um elefante chamado Salomo, que foi animal de verdade e agora um mito que revive no imaginrio de muitos leitores e nas praas de Portugal, segundo se conta nesta revista. Porque a cultura um espetculo para o espetacular movimento dos nossos coraes, tantas pulsaes por minuto, tanta beleza perfeita que nos mantm levantados e com os olhos abertos.

    Destes e de outros assuntos como a curiosa histria das secretas fichas de leitura da Fundao Calouste Gulbenkian, que hoje so pblicas - se falar neste nmero da Blimunda, no qual, alm dos habituais colaboradores, escrevem o ensasta Eduardo Loureno, com um texto sobre a Amrica Latina, Dulce Ziga, diretora da Ctedra Latino-Americana Julio Cortzar, em Guadalajara, que explica porqu ler o autor argentino e universal, e o professor da Universidade de Lisboa Manuel Frias Martins, que se ocupa da espiritualidade na obra de Jos Saramago.

    Bem-vindos a esta Blimunda, a revista da Fundao Jos Saramago.

    4

  • FUNDAO JOS SARA

    MAGO

    THE JOS SARAMAGO

    FOUNDATION

    CASA DOS BICOS ONDE ESTAMOS WHERE TO FIND USRua dos Bacalhoeiros, LisboaTel: ( 351) 218 802 040www.josesaramago.orginfo.pt@josesaramago.org

    COMO CHEGAR

    GETTING HERE

    Metro Subway Terre

    iro do Pao

    (Linha azul Blue Line

    )

    Autocarros Buses 25

    E, 206, 210,

    711, 728, 735, 746, 75

    9, 774,

    781, 782, 783, 794

    5

    Segunda a SbadoMonday to Saturday

    10 s 18 horas10 am to 6 pm

    AKA COR

    LEONE

    Blimunda 29

    outubro 2014

    DIRETOR

    Srgio Machado Letria

    EDIO E REDAO

    Andreia Brites

    Ricardo Viel

    Sara Figueiredo Costa

    REVISO

    Rita Pais

    DESIGN

    Jorge Silva/silvadesigners

    Casa dos Bicos

    Rua dos Bacalhoeiros, 10

    1100-135 Lisboa Portugal

    blimunda@josesaramago.org

    www.josesaramago.org

    N. registo na ERC 126 238

    Os textos assinados

    so da responsabilidade

    dos respetivos autores.

    Os contedos desta publicao

    podem ser reproduzidos

    ao abrigo da Licena

    Creative Commons

  • 6gneros, desconstruyendo, estn en lo cierto y deben apoyarse en mi primer maestro, Andr Gide, y en mi disciplinador fi losfi co, Jacques Derrida. Soy obsesivo e infi el por naturaleza. Soy tambin individualista y, al mismo tiempo, me divierto despersonalizndome, medio a la Fernando Pessoa. Por otro lado, por defecto profesional (profesor investigador) me gustan los clsicos de la prosa de fi ccin. No me satisface la narrativa de la miseria ajena que fundamenta el trabajo de algunos escritores actuales, pero siempre estar a favor de una literatura romntica (en el sentido amplio del trmino), aquella que, como el pelcano de Alfred de Musset, entrega su propio corazn a sus hijos hambrientos. El profesor ley de todo y el escritor fue seletivo sin ser intolerante.

    z

    EntrevistaSilviano SantiagoDistinguido com o Prmio Ibero--Americano de Letras Jos Donoso, o escritor brasileiro Silviano Santiago esteve em Buenos Aires e deu uma entrevista revista , do jornal Clarn. Entre as suas preferncias literrias e alguns aspetos do modo como escreve, o autor falou ao jornalista Mauro Libertella sobre o modernismo brasileiro, a censura literatura e s artes no tempo da ditadura militar, o tropicalismo e a sua relao com o movimento antropofgico. Sobre a sua prpria literatura, disse o seguinte em resposta pergunta: Muchos crticos lo sitan en una tradicin de autores que cruzan gneros, que barren fronteras. Se siente cmodo en ese linaje?Si me afi lian a los autores que cruzan, descruzan y recruzan

    Estado IslmicoResistir em Kobane data do fecho desta edio, o chamado Estado Islmico avana perigosamente sobre vrios territrios da Sria e do Iraque, deixando um rasto de morte, violaes e destruio sua passagem. Cada localidade que cai s suas mos um passo mais na direo de um mundo fundamentalista, sem espao para os direitos mais bsicos e seguramente marcado pela tortura e pelo assassnio de quem ousar levantar a voz. Em Kobane, os curdos resistem h semanas contra os fundamentalistas, lutando heroica e desigualmente enquanto a comunidade internacional assiste de camarote a um massacre, discutindo a possibilidade de uma interveno que parece ter sido agendada nas calendas gregas. No Guardian, David Graeber assinou um texto sobre o tema, que o Portal Anarquista generosamente traduziu para portugus. Alguns excertos muito relevantes: H milhares de diferenas entre o que aconteceu em Espanha em 1936 e que est a acontecer hoje em Rojava, as trs provncias de maioria curda do norte da Sria. Mas as semelhanas so to impressionantes, e to angustiantes, que sinto que minha obrigao dizer, como algum que cresceu numa famlia cuja ao poltica era, em muitos aspetos, defi nida pela revoluo espanhola: no podemos deixar que tudo termine,

    outra vez, da mesma forma. E, mais adiante: Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques e artilharia pesada, de fabrico norte-americano, capturados s foras iraquianas, para se vingar de muitas dessas mesmas milcias revolucionrias em Kobane, afi rmando a sua inteno de massacrar e escravizar sim, literalmente escravizar toda a populao civil. Enquanto isto, o exrcito turco est na fronteira impedindo que reforos e munies cheguem aos de