Experiência Narrativa

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    Kamb, a Medicina da Floresta

    (Experincia Narrativa)

    Texto baseado no original Kamb, a Medicina da Floresta Trabalho de Concluso de Curso apresentado ao Departamento de Jornalismo e Editorao da ECA-USP em setembro do ano 2000 sob a orientao da Prof. Dra. Cremilda Celeste Medina.

    Cruzeiro do Sul, 2005 Introduo

    O homem amaznico, o caboclo, este ser humano admirvel quem afinal lida com

    esta Natureza, com todas as dificuldades e limitaes pertinentes a esta vida. Vitoriosos, admiram a Natureza ao seu modo. Numa viso no apenas contemplativa

    e abstrata, como numa tela de cinema, mas participam desta Natureza onde esto presentes os odores e sabores da mata. No perfume da fava do cumaru, no gosto da carne do tracaj, nas cores do papagaio, no assovio do curi.

    Talvez a alma cabocla se traduza tambm no caminho sinuoso dos rios, pois se no trazem o esperado, surpreendem a cada volta com o inusitado. As matas que suportam sol e tempestade tambm oferecem sua sombra refrescante. Do mesmo modo o caboclo, acostumado vida dura, oferece um porto seguro aos viajantes, com sua hospitalidade caseira e generosidade acolhedora.

    Em meio a imensa Floresta do rio Liberdade no Vale do Juru, nasce Francisco

    Gomes Muniz. Filho de Manoel, cearense que lutou contra os peruanos pelo Vale do Juru1, e de Margarida, ndia, no se sabe de que tribo. O menino vai buscar coco2 na Floresta, para usar na defumao da borracha, e matar passarinho com baladeira para dar para a menina Davina, que os assava e comia. Aprende alguns segredos com os ndios Kulina3 que tambm colhem borracha naquela regio: andar na Floresta e colher frutos da mata, conhecer os tipos de rvores e suas propriedades, identificar os rastros de animais e a arte da espreita. Aquele povo o encanta, deseja de corao um dia ser ndio tambm. A filha de um patro lhe ensina, no seringal, as primeiras letras, com que l o romance Iracema, do tambm cearense Jos de Alencar, que seu pai guarda consigo. O romance desperta no menino a vontade de conhecer aquele amor de ndia, os lbios de mel e saliva que faz doce a kaiuma4. Jovem, j trabalha no corte da seringa ajudando a aumentar a renda em casa. Fica com olho na mesma Davina que agora j moa. Mas a moa assim, meio carrancuda. Numa festa, o Chico ia

    1 Ver no Apndice o resumo: Revoluo Acreana: O Acre Setentrional. 2 Coco: Tambm conhecido como babau. 3 Kulinas: H os Kulina pertencentes ao tronco lingstico Arau, tambm chamados Madija ou Madiha, localizados nos estados do Acre, Amazonas e no Peru, totalizando uma populao de 3 mil; h tambm os Kulinas do tronco lingstico Pano, com populao de apenas 50. mais provvel que se trate dos primeiros. Fonte: Banco de Dados do Programa Povos Indgenas do Brasil - Instituto Socioambiental. 4 Kaiuma: Bebida doce ou alcolica feita a partir da macaxeira (mandioca). Tambm chamado de match.

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    puxando, mas ela no lhe d ateno para o namoro. Chico acha Davina muito arrebitada. Mas no, o jeito da moa mesmo.

    Davina s quer saber de rapaz quando j est bem feito, no para comear. Deixava as outras namorarem primeiro. Depois que o Chico j vai criando barba, diz para si mesma - agora tempo:

    - Toda engraada eu naquela poca. A casei com ele. Fugi primeiro. Tava com 19 anos. O pai dele no gostava de mim, e o meu, tendo em vista isso, tambm no gostava que eu namorasse com ele. Mas eu gostava dele que s. Tanto que minhas colegas falavam assim: Xi, tu vai se casar com ele, o Chico Gomes, esse homem, esse rapaz no presta no, ele s tem uma muda de roupa. - Eu digo, presta sim, ele s tem uma muda de roupa, mas eu quero ele assim mesmo. Eu t conhecendo ele assim mesmo, bem engraadinho! Nunca gostei de t abismada com homem com muita roupa, relgio de pulso, cordo. Ainda hoje passo isso para as minhas filhas: no procurem essas pessoas cheias de cordo no, porque no por a. At que a sorte deu para mim, para ele mesmo. S com uma muda de roupa. E ainda assim t a, uma pessoa que d conta do recado, nunca me deixou passar necessidade. S era namorador, mas eu agentei com ele mesmo.

    Assim o comeo da vida de casados no Seringal So Jos Chico Gomes e Davina tm em comum algumas coisas, entre elas a habilidade de

    curar com ervas e rezas, uma herana, alis, que Chico recebeu de seu pai e que com o tempo de prtica vem se aperfeioando. Davina tornou-se parteira, ainda hoje alegra-se com a lembrana das crianas que trouxe luz com suas mos.

    Apesar de pertencer ao estado do Amazonas, esta regio do rio Liberdade fortemente ligada ao Acre, devido comunicao fluvial com o rio Juru, da qual afluente. A principal atividade econmica neste tempo ainda a borracha, apesar de seu preo sempre em queda. Mas tambm se planta para a subsistncia, se caa e se colhem os frutos da mata. A matria-prima para a construo das casas e para os utenslios domsticos vem mesmo da Floresta, como por exemplo a rvore do coit, que fornece um tipo de cabaa para se armazenar os alimentos ou at se usar como prato. J os faces, armas e panelas de alumnio tm de vir de fora, geralmente atravs do regato que os troca pela borracha.

    Tendo somente um casal de galinha, Davina leva-o para a sua nova casa. Quando engravida, prepara-se para este filho plantando a cana, porque neste tempo no h leite, s o da me, por isso que com papa que se alimenta o beb. A papa feita da garapa de cana com massa de farinha. Pila-se a farinha e peneira-se, deixando-a bem fina, assim obtm-se a massa. A cana se bate com a marreta, espreme, ou ento a passa na engenhoca. Para tirar a borra da garapa, coloca-se no fogo. Por ltimo, pe-se folha de hortel, para dar gosto papa.

    O Chiquinho j t ficando mais taludo, mais forte; Davina j pode deix-lo no quarto e pegar o baldo5 para ir colher seringa. s vezes tambm corta as seringueiras de uns trechos da estrada. Fazia era trabalhar mesmo: o Chico sai para colher seringa e pede para Davina que invente l alguma coisa, pra levar para ele na estrada. Quando ele est na estrada, Davina vai ao Igarap, tem de pegar peixe, assar, para ento levar por dentro da estrada. Nem se preocupava no, o Chico, que ele j sabia o tanto que Davina pegava aquele peixe.

    5 Baldo: O mesmo que balde, na fala regional.

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    Com o baldo e o cao, Davina vai Mata para juntar coco; cao aquela cesta de cip, que os caboclos gostam de usar para carregar coco, coco Jaci, para defumar a borracha. Chegando em casa, Chico grita para Davina fazer o fogo no buio6, para defumar a borracha, e vai matar peixe no lago. Deixa Davina tratando da borracha, defumando. s vezes ela tambm corta seringa, umas voltas de estrada.

    De madrugada, Chico acorda, acende a poronga7 e caminha para a estrada; se benze antes de entrar na mata, pedindo a Guarnio Divina para aquele dia de trabalho. Tem tambm a Me da Seringa que quem cuida da Floresta e pode ser generosa com o bom seringueiro, o humilde, o trabalhador, o bom pai e companheiro, o que tambm generoso. Mas que tambm pode recusar a dar seu leite. Num tapete de folhas macias, Chico caminha; a Floresta fria de madrugada, mesmo na Amaznia. Em noite enluarada fcil de se assombrar. Por isso no se caa de sexta-feira, ou quando se est com a dispensa cheia: para no se assombrar. Uma rstia de luz na mata pode parecer uma visagem. Chico no de se assombrar na Mata, porque para ele a Floresta viva e responde do jeito que a gente trata Ela.

    At que o irmo mais velho de Chico, Alpiano, enviuva. A mulher deixa quatro filhos. Encontro com os Katukinas Buscando melhores condies para criar os filhos, Chico, Davina e Alpiano iniciam

    uma fase de andanas pelos rios e igaraps do Acre e Amazonas. Em 1965 vo para o seringal Guarani, no Alto rio Liberdade, ainda mais isolado que o So Jos. Quem cuida das crianas deixadas pela esposa de Alpiano agora Davina:

    - Ave Maria, a gente criar o filho dos outros... Os meninos eram malcriados, quer dizer, uns, outros no. Meti a peia logo num, que era o mais velho, o mais impossvel, a criei mesmo como uma me, criei eles desde pequeno, tudinho, por que o pai deles s fazia era procurar alguma alimentao, o resto ele me entregava, e eu com meu Chiquinho.

    No seringal se d o nome de Antnio para o beb, que nasce laado, enrolado no cordo, que para ele no se afogar. Por isso seu segundo filho recebeu este nome, e at hoje deu certo. Comea tudo de novo: ir para a praia do rio plantar feijo; quando d vagem, apanha-se o feijo para levar para a estrada. No igarap se pesca com a bolinha de tingui8, joga-a para os peixes e quando o peixe pula, pega. Davina deixa alimento para os meninos em casa e tambm leva para a estrada.

    Alpiano vai mais para a fronteira, na colocao Tristeza9. Vem morar junto com eles no rio Gregrio10. Depois de trs anos, voltam de novo para o seringal Juventus, na fronteira do Igarap Miolo, dentro da Floresta.

    Em 69, se encontram com os Katukinas11, ou os Katukinas os encontram. Eles vem chegando, chegando, fazendo casa, maloca e vo pedindo para cortar seringa. Outros

    6 Buio: espcie de forno para defumao da borracha. 7 Poronga: lamparina de querosene feita a partir de latas de leo. A poronga quase sempre a nica companheira do seringueiro durante sua faina noturna de corte da seringa, por isso mesmo tem um papel importante, quase mtico na sua cultura, pois clareia na escurido da Floresta. 8 Tingui: Cip cuja seiva, na gua, tem a propriedade de asfixiar o peixe, obrigando-o a vir respirar na superfcie. 9 Colocao: Como so chamados os estabelecimento de seringueiros na floresta, quando mais isolados. 10 O rio Gregrio, assim como o Liberdade, tambm afluente do Juru, que por sua vez afluente do Solimes.