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  • F ER N A NDA BO T EL HOESTA NOITE SONHEI

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  • FERNANDA BOTELHOESTA NOITE SONHEI

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  • ESTA NOITE SONHEI COM BRUEGHEL1,

    DE FERNANDA BOTELHO

    UM PREFCIO

    Para Joana Botelho

    1. Fernanda Botelho (1926 2007)1 publicou poesia (diversos poemas na Tvola Redonda2; As coordenadas lricas, edio Tvola Redonda, 19513; Luz e outros poemas, no n. 2 de Graal, 1956), mas o essencial da sua obra constitudo por obras de fico, desde os primeiros textos curtos, como, no n.1 da revista Graal Poesia, teatro, fico, ensaio, crtica, Oenigma das sete alneas, conto (pp.1431), at aos romances, editados com intervalos regulares a partir de 1957 e at 20034. Vale a pena evocar sumariamente este panorama sumrio da bibliografia de Botelho para nos determos em traos temticos apontados desde os primrdios, persistindo de modo transversal at chegar ao presente volume, com o qual se inicia a reedio da obra completa. Assim, se

    1 1. edio: Lisboa, Contexto, 1987.2 Tvola redonda Folhas de poesia, 20 fascculos, direco de Antnio Manuel Couto Viana, David MouroFerreira e Luiz de Macedo, 19501954. No fascculo 13 incluise uma seleco, no assinada, de poetas belgas presumindose que a antologia se deve a Fernanda Botelho. 3 O volume j anunciado no fascculo 9 da Tvola Redonda, datado de 15 de Dezembro de 1950.4 O ngulo raso, 1957; Calendrio privado, 1958; A gata e a fbula, 1960; Xerazade e os outros, 1964; Terra sem msica, 1969; Loureno nome de jogral, 1971; Esta noite sonhei com Brueghel, 1987; Festa em casa de Flores, 1990; Dramaticamente vestida de negro, 1994; As contadoras de histrias, 1998; Gritos da minha dana, 2003.

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    recuperarmos os poemas dados estampa no n. 2 de Graal, desde logo encontramos a ironia de um eu que se analisa e de si se distancia criticamente, mantendo no entanto um fundozinho angustioso, a que responde a aluso a figuras mticas; vejase Luz, o primeiro desses poemas5:

    A mesurvel condio humanaquanto me exige! Quanto proclamao seu poder em mim!

    Tal submisso nem me redime nem me liquida.No renncia sublimenem carcia retribuda.

    No tenho eira nem beira,vivo nas dobras da terrae aceito quanto me do.

    Eis o meu nome: toupeira. E o meu olhar se descerraapenas na escurido.

    A construo do poema hesita entre a deriva reflexiva e o objecto principal de que ela se ocupa o autoconhecimento, estruturandose entre as regularidades e as noregularidades: quatro curtas estrofes, das quais trs tercetos e uma quadra, obedecendo ao ritmo da corrente de conscincia, tambm ordenada e sublinhada pela pontuao, com nfase especial para o incio exclamativo, dando lugar s afirmaes porventura mais serenas e a novo recurso enftico, com a pausa no penltimo verso. A estes processos h que juntar a rima de feio regular nos dois ltimos tercetos, como a recuperar para os versos de

    5 Graal Poesia, teatro, fico, ensaio, crtica, n.2, 1956, p.132. Os poemas de Fernanda Botelho aqui publicados so os seguintes: Luz, Renncia, Viagem sem regresso, Abyssum, Esplanada (pp.132134).

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    redondilha maior uma harmonia entre a matriz culta do soneto e a toada popular que a assonncia sublinha. Tais processos, de aparente construo em deriva, contribuem para a coeso de um poema em que a Luz titular parece ser, afinal, metfora das operaes do autoconhecimento. Assim que na primeira estrofe o eu se define pela condio humana que lhe preexiste e lhe determina o destino; mas a quadra vem clarificar que Tal submisso se v relativizada pela vontade que a ultrapassa e dela se liberta. Isso mesmo ser retomado no terceto que tematiza duas caractersticas deste sujeito avesso a normas, sem eira nem beira, rebelde e com pouco se contentando; a estrofe final vai ainda mais longe, ao inscrever o eu na categoria dos bichos da terra to pequenos6 e invisveis, vivendo no mundo subterrneo, quer dizer, debaixo do solo e passando despercebidos no seu labor de construo de tneis por onde circula outra vida, toupeira alheia aos rudos do mundo como o verme de Pessanha, a rir[se] de no [lhe] doer nada7. Porque, dizem os versos finais, aps a pausa marcada pelo travesso: Eis o meu nome: toupeira./ Eo meu olhar se descerra /apenas na escurido.; a toupeira simboliza a vida instintiva e oculta que os outros no vem, abrindose paradoxalmente para a luz negra da escurido, como apangio dos sujeitos melanclicos, afastados do vulgo mesmo se, pela condio de humanos, vivem por entre as gentes.

    2. Dirse: ento e Esta noite sonhei com Brueghel, que supostamente se est a prefaciar? Respondo eu: pois bem, tudo o que em germe se contm no poema de 1956 funciona como um rastilho ardendo nos romances de Fernanda Botelho, num percurso de que um ponto alto este volume que escolhemos para abrir a reedio das obras da autora, exemplarmente concebidas como um continuum temtico em

    6 Cito Cames, Os Lusadas, canto I, estrofe 106. 7 Cito a estrofe final de Porque o melhor, enfim,/ no ouvir nem ver, de Camilo Pessanha. Cf. Clepsydra Poemas de Camilo Pessanha, edio crtica, estabelecimento de textos, introduo crtica, notas e comentrios por Paulo Franchetti, Lisboa, Relgio dgua, 1995, pp.127128.

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    que personagens vrias se encarregam de assegurar a vitalidade de um fio de Ariadne sobreposto s narrativas vitais e vitalistas de Xerazade, literalmente assegurando a permanncia da vida ficcionada, to real como a mais intricada das intrigas romanescas.

    Esta noite sonhei com Brueghel um livro de construo dctil, flexvel: logo no primeiro captulo a estrutura se mostra como um encanastrado de vozes e de personagens, de situaes e de tempos. Nas pginas de abertura, uma personagem feminina, Luza, deixada porta da casa onde vive com o marido (mais frente nomeado: Diogo Raposo) por um amigo de que s adiante saberemos o nome (Pepe, Pedro). Desde logo quem l intui segredos: quem este amigo de longa data, que viremos a saber tambm ser amante de Luza, o que ser relevantssimo no desfecho do livro, como se ver? Ou, mais relevante ainda, na conversa quase porta de casa, saindo do automvel, Luza formula a possibilidade de um dia destes dar a ler a Diogo (omarido, ensasta e crtico literrio) o meu manuscrito, o do livro que estou a escrever, Esta noite sonhei com Brueghel (p.19) sobre o qual so dadas duas informaes fundamentais: a de que autobiogrfico, e a das circunstncias do processo de escrita Comeceio h doze anos, em Bruxelas. () Uns tempos depois, deixei de lhe pegar, para agora o retomar. Reparese como habilmente se pem em cena dois perodos temporais entretecidos, o presente e o passado de h doze anos, 1972, como logo se precisa no excerto do manuscrito que ocupa as restantes pginas deste captulo inicial. O tempo de agora fica assim datado tambm 1984, do mesmo passo que se situam os lugares (a Lisboa de hoje e a Bruxelas de h doze anos, visitada com Rui, o primeiro marido, que Luza acompanha a um congresso de pediatras), numa permanncia breve, durante a qual a personagem vai a uma festa em casa de Flores, antiga amiga libertina, onde conhece Diogo. Aos fios que se vo tecendo neste vrtice de acasos que o no so ainda outros se acrescentam: a Blgica tem um peso grande na biografia da personagem, filha de me flamenga e de pai portugus, um erudito estudioso, entre outros, de Damio de Gis, cujo percurso nos Pases Baixos contribui decisivamente para o perfil pessoal e profissional deste intelectual portugus.

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    O leitor deve, pois, estar atento, no se iludindo nem com a aparente superficialidade de muitos passos dialogados, narrando situaes de convvio social, nem com a transio entre nveis de conscincia da narradora, que simultaneamente a protagonista e a agenciadora dos diversos nveis da histria contada ou da relao complexa entre as personagens. Mesmo porque, se o manuscrito intitulado Esta noite sonhei com Brueghel uma autobiografia, e se nesta os participantes ou personagens so verdadeiros, como Luza afirma (conheoas, so e no so. No as inventei, por isso no so. Mas no manuscrito parecem personagens., p.20), quer isso dizer que todas as armadilhas da verdade simulada pela fico se encontram neste romance postas em cena com uma tcnica de refinada competncia. Um dos aspectos principais disso ser a alternncia constante entre a primeira e a terceira pessoa, mostrando que o sujeito que fala tem no seu avesso o sujeito que escreve, comandados ambos pela autora que a tudo preside, deslindando enigmas que, afinal, se vo adensando. Os exemplos desta tcnica monologal ou de stream of conscioussness multiplicamse ao longo do texto. Atentese neste, quando Luza, levada por Flores, conhece Diogo: Algo de ominoso se processa em Luza, pois, naquele rpido segundo, quando o vulto se desenha, (), ela soube do seu futuro e da sua condenao. Sei o que sempre soube sem o saber. Sei agora tanto e, no obstante, no sei como. (pp.9293). A fechar quer o captulo, quer a fala de Flores, meneuse de jeu, lse ainda a sobreposio da figura de Diogo com a do pai de Lusa, dando a ver no primeiro um espelho duplicado do segundo: o teu pai gostaria, eu [Flores] lembrome de o teu pai ter escrito sobre ele, chegaram mesmo a conhecerse, creio (); e ainda, diz Flores dirigindose a Diogo: A Luza bem o sabe, o pai dela conhecia muito bem a sua obra, falava muito de si, nas aulas () Luza, o Diogo Raposo tu sabes o Diogo Raposo (pp.9293).

    Fica vista o vulto de um duplo Pigmaleo o pai e Diogo, ambos renomados intelectuais trabalhando sobre autores da literatura e da cultura portuguesas em que Luza primeiro se forma, depois se autonomizando, mas sempre com o vulto determinante do pai suspenso sobre a sua vida e as suas relaes. Ilustrese isso

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    com um passo j perto do final do livro, no captulo IX, quando a protagonista, num dos encontros em casa de Pepe, rememora a sua separao de Diogo, entrosandoa com a herana cultural materna: Onde, em mim, a truculncia que descubro em Brueghel e na raa da minha me, que ela degenerou, privandome da herana? Queriasme, Diogo, danando de roda, as fartas saias enfunadas de vento e de ritmo ()? () Como degenerei! Tudo viso intemperada da antiga aluna de BelasArtes, e essa viso tudo o que tenho das terras e telas de Brueghel, () donde brotou sem proveito a minha desiludida e decepcionante me. (p.224). Cruzamse em passos como este mltiplos planos: elementos para a autobiografia de Luza, dados para o retrato da me desaparecida, analogias com o universo temtico da pintura de Brueghel. Pginas antes, num dos almoos com Constana, antiga professora e amiga de Luza, o artista flamengo do sculo XVI regressa mas noutro registo, o do manuscrito retomado de Esta noite sonhei com Brueghel, escrita com o objectivo preciso de resolverme a mim eu, como nas histrias policiais (p.212). O texto in progress visa o autoconhecimento, todo o livro em torno disso gira, mesmo quando busca identificar personagens que Luza no conheceu; o caso de D. Carminho, me de Diogo, importante para o conhecer a ele: Estou a investigar. Exponho os factos, completoos pela imaginao () Ordeno e examino os factos, na sua globalidade. () Eu sou declaro eu sou, sobretudo, a minha imaginao () o que a imaginao pe no texto ou na vida uma realidade virtual. (pp.213214). Cresce pois ao longo do texto a rede do conhecimento dos outros, dos factos e das circunstncias, bem como as notas sobre o processo de construo do saber plasmado na escrita, por processos objectivos de exame e pesquisa, que o pendor imaginativo e ficcional vem tornar mais complexos. Tudo visando afinal a resposta questo central de Luza, dispersandose mas recentrandose a cada passo: quem sou eu, escrevendo e vivendo? O eixo narrativo opera, pois, na reverso de todos os ngulos sobre uma narradora que superintende aos vrios registos, fazendo toda a informao reverter sobre o enigma de si.

    Neste registo reflexivo, faz todo o sentido que o texto adquira frequentes vezes a forma de poemas, mostrando bem no s o carcter

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    hbrido da obra em termos de gnero literrio, mas tambm o modo como o fragmento invade o monlogo interior para o qual a personagem se retira, mesmo no meio de uma conversa ou de uma situao social das muitas que formam a rede romanesca. Os poemas so de vrio tipo: curtos e ocasionais (Na ptria desolada da minha alma/ um sobressalto emerge/ vindo de um tempo que se recusa/ memria., p.106); tematizam a prpria escrita e as referncias que informam a narradora, de aparncia ftil mas servindose de matrias ora triviais ora cultas para concretizar o que quer dizer (sirvome das palavras como droga/ ()/Sugome das minhas verdades condenveis/ fao delas o po ralado com que envolvo/ a minha solido o meu baudelaire/ o meu proust a minha confuso, p.115). Os poemas servem ainda o propsito de elaborar traos do autoretrato, representando a paisagem da minha alma, que de outonio esvaimento, rvores nuas, nuvens baixas, o espelho bao de um pntano onde no flutua, aconchegada, nenhuma flor de nenfar. (p. 141); na esteira desta deriva lrica, seguese um poema duvidando da capacidade das palavras para dizer isto, a lvida paisagem que espacializa o sujeito melanclico sobre si mesmo debruado, e beira de um abismo que o motivo do suicdio concretiza em diversos passos (por exemplo, pginas 138, 157 a 162).

    O texto vai ganhando, medida que os captulos avanam, uma fora deceptiva passe o paradoxo advinda da desistncia, de uma espcie de enigma em crescendo que o passo da p.106 agora mesmo transcrito ilustra; o final do livro mesmo invadido pelo segundo painel do que a narradora vai intermitentemente escrevendo, num crescendo crepuscular: as ltimas pginas (235 a 264) so preenchidas pelo manuscrito, agora, em 1984, intitulado Fim do manuscrito Esta noite sonhei com Brueghel. Tratase de uma escrita de sobrevivncia, obedecendo ao ritual bastas vezes repetido de, esferogrfica nos dentes, assinalando a pausa e o recentramento reflexivo, a ss, recomear a escrever: Sentome escrivaninha () e escrevo, escrevo, escrevo. (p. 235), desvelando enfim mistrios e enigmas e encerrando este ciclo do meu sonho com Brueghel h doze anos iniciado. (p.236). Ainda com Diogo e com os segredos que de parte

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    a parte compem aquela relao, Luza enfrenta enfim, escrevendo, o desocultar de uma gravidez ectpica e a impossibilidade de esta se enquadrar no casamento, desconhecendo ela a esterilidade de Diogo (revelada por Lili, uma personagem vinda do passado, cheia de equvocos o menor dos quais no ser o acesso a ela via Constana). Omundo recompese pela narrativa enquadrada do que queira dizer Agora est tudo bem, quero eu dizer: tudo est claro, esclarecido, escandindo por duas vezes (pp.235 e 264) a autobiografia que Luza escreve. Prestes a fechar, o livro e a protagonista encontram sentido, pacificao mas as tintas angustiosas desta recomposio do cosmos so como as do final elegaco da Tabacaria de lvaro de Campos: () e o universo/ Reconstruiuseme sem ideal nem esperana, e o Dono da Tabacaria sorriu.8

    Brueghel serve de fio condutor no meio deste labirinto desesperanado: representa, por um lado, a ligao com a me flamenga de Luza, cujo retrato brevemente esboado se l no captulo 1 (pp.4243) e se acrescenta noutros passos; por outro lado, preenche a deriva onrica de Luza, entrando dentro de uma amlgama de telas de Brueghel (pp. 4348), sonho interrompido pela voz de Rui, e continuado pela visita ao museu de Anturpia (Vou a Anturpia. Esta noite sonhei com Brueghel, p.48); por outra parte ainda, Brueghel erguese como um companheiro mental ali mesmo diante dos olhos, e elementos das suas telas servem de analogia para compreender tantas situaes do mundo interior da personagem (() quando Brueghel se esforava em vo por me reencontrar e comigo percorrer os sculos de retorno, at coincidirmos., p.106).

    Brueghel representa, em suma, nesse encontro de Luza consigo mesma atravs da escrita da autobiografia, um caminho tortuoso para ir ao encontro da Histria que, em episdios verdadeiros ou ficcionados, o pintor fixou, mas propicia tambm e sobretudo a reconciliao das memrias materna e paterna que instituem e fundam a protagonista (vejamse as pginas 5253, exemplar a este respeito).

    8 lvaro de Campos, Tabacaria, in Poesia, edio de Tresa Rita Lopes, Lisboa, Assrio & Alvim Obras de Fernando Pessoa; pp.320326.

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    Tudo, as monstruosidades (p.54) ou as cenas do quotidiano que minuciosamente o pintor ps nas telas, evocando o silncio domstico da minha infncia (p.54), confortante mas ressoando de inquietaes, tudo compe a tela deste livro de complexa estrutura. Nos seus nveis entrecruzados, na brilhante ironia a que se contrape a desapiedada imagem de uma mulher em busca de si, Fernanda Botelho dnos em Esta noite sonhei com Brueghel um subtil e sofisticado retrato portugus. Luza Fernanda a sua, a nossa desassombrada efgie.

    PAULA MORO

    Outubro de 2016

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  • I Deixa me na outra esquina.Ele acelera de novo, trava mais adiante, pe o carro em ponto morto e declara: Bravo! Ganhas coragem de semana para semana. Por este andar, no tardo a deixar te mesmo porta de casa.

    Quem sabe? Inclino me para examinar no espelho retrovisor qualquer eventual vestgio comprometedor... Afasto da minha blusa de seda amo que veio sob ela insinuar se.

    J chega. Telefono te daqui a uns dias. No antes das onze... recomendo. Ento sempre tens medo... Bem!... Talvez tenha. De qu? Ele, afinal, nem... De qu? No queiras perceber... uma actividade a que no te

    vejo dedicar muito tempo, isso de perceber os outros. E para qu, afinal? Eu, que me esforo por perceber, tambm percebo pouco...

    Acho te particularmente embiocada, hoje! E tens toda a razo: perceber no o meu forte. Reservo os meus talentos para outros efeitos... e tu bem o sabes! No sou mau sujeito, mas

    J chega por hoje volto a declarar, de novo afastando a mo dele. E prossigo: No s mau sujeito, no senhor. E tens os teus talentos, sim senhor!

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    Muito me conforta que o digas, bem sabes como sou susceptvel e vaidoso a esse respeito. Quero os meus crditos reconhecidos e divulgados . O seu riso tem uma consonncia de guizo sacudido.

    E tu? Tu no tens medo? Eu? A gargalhada agora, resumiu se a um rpido floreio si

    bilante: Medo, eu? O problema teu, minha linda. Eu nem sequer sou casado!...

    E se ele? ! (um cornetim entupido) No tem idade nem fsico para

    mim. O teu inefvel marido no tem gabarito para me fazer frente. No? Da prxima vez, deixas me l mais adiante. Pode ser que

    ele nos surpreenda... Pois no! E quando, a prxima vez? No esta semana. Telefono

    te para a outra, mas... No antes das onze. No antes das onze, j sei. Para esta semana, programei o cerco

    a um borracho . O seu riso gorgolejo distanciado de uma queda de gua miniatural.

    Ah! A mida da boutique? Essa. Mas, de qualquer forma, telefono te depois. No antes das onze. No antes das onze. Tens a certeza de que o inefvel no vai um

    dia destes resolver que tempo de ser espontneo, e ento, s para irritar, sair a uma hora mais tardia?

    Aquilo um ritual. Ele um homem de rituais. Ou parece. E se um dia fosse ele a vir ao telefone? Improvisa sugiro eu, baixando a cabea para desenhar na

    saia, com o dedo, pequenos crculos invisveis. E se a velha me perguntar quem sou... s vezes at pergunta...

    Quem digo? O Pedro da Biblioteca? O Amaro da comisso? O Teles amigo do teu falecidssimo pai? Ou, afinando a voz, a tua amiga Constana?

    Luza ergue a cabea e solta uma gargalhada franca. A dele, a gargalhada dele, lembra uma metralha de chuva em telhado de vidro.

    J pensaste como seria, se ele descobrisse?

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    No. E tu? Luza sorri, tira da carteira os culos escuros, leva os lentamente

    aos olhos, lentamente deixa descair os braos. No sei balbucio. No sei, realmente. Dava te uma sova? Ou, muito civilizadamente, pedia te o di

    vrcio? Ou, ainda mais civilizadamente, aceitava o mnage trois? Ou quatre, caso se lembrasse de colaborar e tivesse coragem para tanto.

    Luza fecha o sorriso, fecha os olhos. Oxal!, pensa. Oxal! Oxal se importasse! E se me desancasse

    O outro tambm foi civilizado, no foi? Alegremente... Um dia destes, dou lhe a ler o manuscrito, o meu manuscrito.

    Como se quisesse que ele me desse uma opinio. Ou ento deixo o num stio muito evidente, como se esquecido...

    Qual manuscrito? De que ests tu a falar?Luza suspira fundo: Se bem me lembro diz j uma ou duas

    vezes te falei do meu livro, do livro que estou a escrever, Esta noite sonhei com Brueghel, assim que se chama. Autobiogrfico. Comecei o h doze anos, em Bruxelas. De um jacto, quase. Uns tempos depois, deixei de lhe pegar. Foi uma fase da minha vida muito intensa, no sei hoje se insuportvel, se maravilhosa, bastava me viver. Agora recomecei. Talvez nunca o acabe. Quando voltei a ler o que h doze anos escrevi... Pareceu me to irresponsvel! Uma brincadeira de mulherzinha ociosa. Estive para rasgar tudo! Mas depois lembrei me de que o ... como hei de dizer?... o tom em que est escrito define me tal como eu era h doze anos, antes de... de tudo isto, percebes? Mas agora vai ser a srio, agora j no vai ser uma actividade ldica, agora como que um ltimo recurso... Olha, no sei explicar te melhor!

    Nem valeria a pena, sou um zero nessas coisas de livros, tu bem o sabes, como bem sabia o teu ilustre pai e meu amado mestre. E, agora que falaste no assunto, lembro me, sim senhor, j aludiste a essa coisa...

    Essa coisa! Desculpa l! O riso dele marulho descompensado. Ento

    pergunta: Uma autobiografia? Edulcorada, espero. Expurgada, espero. Todas as autobiografias o so. E mesmo uma autobiografia?

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    , embora... Fao uma pausa. Embora o qu? Tens medo?Ele espreguia se, boceja: Por que hei de ter medo? Deposita

    em peso as mos no volante: D me l uma razo.Luza solta mais uma gargalhadinha: Porque no alterei os

    nomes, os nomes dos participantes, das personagens. No so personagens, conheo as. Mas so personagens, sim senhor! So e no so. No as inventei, por isso no so. Mas, no manuscrito, parecem personagens. Percebes?

    s perfeitamente chanfrada! Se o inefvel te apanha essa coisa... A inteno essa. Ou ser, se eu assim resolver. E os nomes so os nomes...? So. E o meu? Eu tambm entro nessa... Entras, sim. E o teu nome o teu nome. O teu, o da Flores...

    At a Constana l est, embora s mencionada, mais ou menos. Fugidiamente.

    Tudo escarrapachado? Nem tudo. s vezes, so apenas aluses. Deixo margem ima

    ginao de quem ler, por isso as aluses so s vezes mais significativas... E mais perigosas.

    Completamente louca, o que tu s! Esquece. Inclino me para o beijar no rosto: No digas mais nada. Nem

    fiques muito zangado. Telefona me na prxima semana, est bem? No antes das onze, j sei. No antes das onze, j sabes.Verifico que est irritado pela forma como mete a primeira, sacu

    dindo a mo, como se enxotasse um insecto impertinente. Desistira das suas gargalhadas humorsticas, que, nessa tarde, tinham constitudo a sua maldadezinha pueril.

    Esta agora! S a mim...! Perfeitamente chanfrada. Pe te a mexer, que eu tenho pressa.

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    Luza abre a porta e, com um sorriso: At prxima semana despede se, j no passeio, debruada para a janela do carro. E no te esqueas de me telefonar.

    J sei. No antes das onze. E, sem voltar o rosto, arranca, pisando forte no acelerador.

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  • O quarto, este quarto, prope efectivamente uma gama aprecivel de distraces. Se no fosse to confortvel, tornar se ia assustador, pelo fascnio que a matria exerce sobre os espritos dbeis, influenciveis e sensitivos. Tal , em sntese, o meu auto retrato, a que se acrescentar, como toque final (porventura no to final como isso!), uma notvel tendncia para a evaso burlesca ou romanesca, indiscriminadamente. Indiscriminadamente em tudo: to depressa me sinto pssaro de colorida plumagem debicando alpista em sacadas de Julieta, como silenciosa escrava em bordel marroquino para tropas do deserto! devaneios cultivados por ociosidade ou recreio, por voluntariedade ou incontinncia (Incontinncia, salientaria o meu Bigodes, talvez com alguma razo, mas ele suspeito, tem impudores de rigorista preconceituoso).

    Chega, porm, de me falar de mim, quem sabe se o auto retrato este ou se estou apenas a inventar me para o cenrio onde me deixaram, apenas a colocar uma personagem no teatro tecnolgico onde me deixaram, onde me deixou o Bigodes, logo de manhzinha, para apanhar o autocarro dos congressistas, sem reparar, como evidente, no cenrio fascinantemente assustador ou vice versa, que abandonava aos meus vcios mentais. Que outros no tenho. Onde tambm me deixou, depois de depositado o tabuleiro do pequeno almoo, o rapaz discreto como um espio de James Bond, loiro, loiro, loiro, na

    1972ESTA NOITE SONHEI

    COM BRUEGHEL

    (excerto do manuscrito)

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    peugada de um aroma a caf e com uma voz leitosa a escorrer um bonjour madame, vertido pressa para a nebulosidade do meu sono, voz assaz doce para no me deixar indiferente, mas um tanto disciplinada, profissional e curricular para me afastar uma tristeza nostlgica. E se ele saltasse da janela para a carpete e me arrebatasse, transfigurado em Thyl Ulenspiegel do sculo vinte, afiambrado na camisa branca com colete s riscas, me arrebatasse a este destino provisrio de viva provisria e tirania dos botes e do massage boy, por quem vou dentro em pouco ser alegremente violada?

    Pois, perdida no universo tecnolgico de meu quarto, todo botes e conforto, depois de saciada a minha sesta na leitura dos desdobrveis tursticos, acabei por sucumbir tentao de gastar cinco francos por uma violao s para ver como era e, quem sabe?, desmaiar de volpia e reacordar nos braos do meu trnsfuga e angustiado marido, quando ele regressasse da sua eficincia e maturidade se que ele alguma vez regressa desse mundo disciplinado e adulto, a no ser por distrao ou por transitrio, oh! to transitrio! muito transitrio descontrolo mental. Pois foi assim: segui as instrues apensas ao massage boy. Depois de me ter alongado sobre a cama, estendi o brao para enfiar os cinco francos da violao na ranhura correspondente e aquilo comeou: a promessa de uma euforia aps o relax, compromisso entre mim e o massage boy. A cama vibrou toda, ao ritmo de um motor em surdina, e eu, sobre ela, deliciava me de expectativa. Os minutos passaram sacudidos como moscas varejeiras e, subitamente, tudo cessou, como o descanso do stimo dia da Criao, brotada do caos, com a broca arrumada do depsito das ferramentas. A euforia no veio mas o relax persistiu, ignoro se mais acentuado, se menos. Seja como for, toda eu, antes do massage boy, era j relax at exausto; agora, no entanto, fora se a exausto do relax, de tal modo aquilo estava a divertirme, tudo aquilo fora divertido (tudo aquilo, o qu?) curto mas divertido; apanhei o gosto da investigao sistemtica e, como corolrio, comecei destemidamente a carregar em todos os botes, espera de que de um deles me sasse um gnio de Aladino, embora eu preferisse para todos os efeitos que, sobre a carpete, saltando da janela, surgisse o Thyl aventureiro e folgazo, a arrebatar me ao mundo enfastiado para

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    me levar em improvisada garupa a ver a sua terra, o solo que ele beijaria como se beija a mulher amada (Ah! Estas leituras, estas leituras!).

    Com massage boy ou sem massage boy, o corpo reclamava me actividade e foi por isso, e por nenhum outro motivo, que peguei no telefone sem conhecer para o gesto qualquer objectivo. Quando me responderam, pedi um ch. Indicaram me o nmero que competia ao ch e eu, submissa, cumpri o indicado. Logo me arrependi, porm demasiado tarde: lembrei me de que no me apetecia ch s quando o ch j estava encomendado. Saltei ao toque do telefone: embora no fosse a aventura, sempre era uma voz a de Elvira, que regressara da excurso.

    Luza, Luza, comprei umas rendas lindas! E nada caras! Um espanto! Quer v las?

    Venha at c. O.K.! Estou a num minuto.Luza enfiou o roupo e foi abrir a porta, por onde, uns minutos

    depois, entrou uma Elvira palpitante de vermelho. Voc no sabe o que perdeu! O almoo foi um assombro! Um

    assombro! Creio que todas ns bebemos um bocadinho acima da conta! Uma tara! Isto : nem todas beberam, houve duas ou trs que se mantiveram numa prudncia abstmia. Prudncia abstmia ouviu isto? Diga l se no uma tara! E o Gonalo ainda afirma que eu falo mal, imagine! Prudncia abstmia! Que giro! As velhotas, claro! Aquelas com achaques! Se que h de outras...! Mas houve quem lhe chegasse! Mesmo entre a velhada mais velhada! Aquela inglesa de pescoo alto, lembra se? Aquela de amarelo, que se veste sempre de amarelo ou, pelo menos, parece. Parece uma gema. Eu at disse ao Gonalo qualquer coisa do gnero, mas o Gonalo, coitado!, referiu se ao ingls marido dela. Parece que dos grandes, um pediatra notvel ou qualquer coisa no gnero. Mas muito feio! Fei i i ssimo! Ela tambm, mas chegou lhe bem, foi das que se atiraram. Ao vinho e a um dos garons, creio que italiano, um espanto! Ele, claro! No muito alto, isso no, voc sabe o gnero, mas lindo, lindo, lindo! Oia c, no esto a bater porta?

    Ah! Esquecia me completamente. Deve ser o ch.

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    Ch? Voc gosta de ch? Depende.O rapaz entrou com a bandeja, sorriu, depositou a bandeja, sorriu,

    saudou e desapareceu lentamente. Hi! Hi! Depende de qu? De quem lho traga? Nada mal! Em

    bora eu goste mais deles a atirar para o moreno...! L o nosso italiano era morenao, e a inglesa, coitada!, estava taradinha de todo! O rapaz ficou alucinado. Embora j deva ter experincia... Um tanto atrevidote! Quando eu lhe perguntei se aquilo lhe acontecia muitas vezes, ele chegou se a mim, quase a falar me ao ouvido... Apanhou me desprevenida e eu nem pude fugir lhe. Pus me a rir, era o melhor que eu tinha a fazer, afinal ele no foi malcriado, nem nada!

    E que lhe disse ele? Ou segredo? Oh! De maneira nenhuma! Uma tara! Se todas fossem como

    a senhora... Foi o que ele me segredou, quase colado ao meu ouvido. A francesa estilizada, a mulher do dr. Qualquer coisa Dsir, ficou como uma bicha. E a mim importa me! Quer todos os homens para ela, mas que se acautele com o Gonalo! Homessa! Ela e a inglesa amarela so dois vampiros, j reparou? Homessa! Quem diabo lhe telefona para aqui?

    All! Sim, sim, est aqui. Quer falar com ela? Muito bem, eu digo lhe.

    Falar com quem? Consigo. Era o seu marido. Acaba de chegar. Precisa de saber

    onde est o lao do smoking. um chato. Afinal no lhe mostrei as rendas. Ficam aqui para

    mais tarde. Vai ao jantar? Penso que sim. No me apetece nada comer, o almoo foi de gritos. Mas tenho

    de acompanhar o Gonalo. Se tiver ocasio, no deixe de ir a Bruges. E no s para comprar rendas. Posso dar lhe o endereo dum restaurante, que um regalo. Para os olhos tambm. Sob vrios aspectos, alm do panorama que d para o lago. Hi! Hi! Est a capiscar? Bem, deixa me ir, caso contrrio o Gonalo frita me em azeite a ferver. svezes um chato. Bye, bye!

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    Cruzou se porta, num embate assaz comprometedor, com o Rui. Ento que tal correu hoje o dia? pergunta a Elvira, esfre

    gando impudicamente o seio direito.O Rui trespassa se para o interior do quarto, facilitando com uma

    vnia a sada de Elvira; hasteia, porm, a profana mo esquerda, como que a purific la do embaraoso contacto, e, balbuciante, vai dizendo que o dia tivera muito interesse, embora um tanto... um tanto... Bem! Houvera uma certa disperso, felizmente por um perodo... um perodo no muito longo, porque...

    Vocs estafam se! Eu c sinto me divinamente. A Luza que lhe mostre as rendas. Ciao!

    E, corredor fora, voltando se a tempo, antes que o Rui fechasse a porta: Encontramo nos no bar. Ponham se bonitos.

    Que fizeste hoje? pergunta ele, depois de tirar o casaco e enquanto alarga o n da gravata. Vou tomar um bom duche. A sala estava terrivelmente aquecida. Ainda no ests pronta?

    S me falta pintar o olho e enfiar o vestido. Achas que devo fazer outra vez a barba? No, no me parece.

    Ainda est lisa. Amanh aparo o bigode. Afinal que andaste a fazer?Luza encosta se porta da casa de banho. Falas da tua barba como se ela fosse de arame. Andei a mexer

    em botes.A gua jorrou violentamente do chuveiro e ele sentou se para ti

    rar as pegas: No percebi o que disseste. Andaste o qu? A mexer em botes. Escusas de gritar. A gua est a ferver, livra! Para hoje, j te

    nho a minha dose de calor. que, se abrimos uma janela, criamos o problema da corrente de ar. No fundo, no creio que o ar condicionado seja uma soluo ptima. Precisa de estar muito bem regulado e, mesmo assim, suponho que h camadas atingidas acima ou abaixo da temperatura.

    Os Belgas gostam das casas muito aquecidas. Nas lojas a mesma coisa.

    Olha l, porque ficas a porta? No seria melhor entrares? Com o barulho da gua, nem te oio!

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    No queria ofender o teu pudor. Nunca sei quando ests... No sejas criana. Onde puseste a esponja? No te importas de

    ma chegar? No a o lugar dela, mas contigo nunca se sabe. Espera s um bocadinho. O telefone est a tocar. Apanha l a

    esponja! Desastrada!Quando voltou, o Rui saa fresco de sob a cascata: Chega me a

    a toalha. Quem era? O Gonalo. Que queria ele? Saber se a tarada da mulher ainda c estava. Foi mesmo as

    sim que ele perguntou. Disse lhe que no, que j se tinha ido embora. Aposto que encontrou algum por esses corredores e ficou a dar ao badalo. Disse lhe que era possvel e aconselhei o a ir ver no corredor. Replicou me que estava em cuecas. Compreendi a objeco. O Gonalo, afinal, j tem a sua barriguinha cinquentona. No como tu, um querido franzininho, um Bigodes muito querido!

    V l se tens juzo! Para o que te havia de dar! No te importas de me dar o roupo? Onde o puseste?

    Algures por a. Um momentinho.Da casa de banho para o quarto, o Rui ergueu a voz para pergun

    tar: Afinal o que andaste hoje a fazer? No h meio de conseguir que me respondas. Conta l. Obrigadinho, minha querida, s um amor! Mas, se o pusesses onde devia estar, no tinhas que andar procura. Pena eu estar to estafado... mas j me sinto muito melhor. Ena! Tambm cheiras bem. No te parece que o roupo ainda est hmido? Claro, no foi pendurado como devia... Deixa l! Assim sem pintura que eu gosto de ti. Vou estender me um bocadinho na cama. No queres vir para junto de mim?

    J l vou. Deixaste aqui uma poa de gua. Quem ser agora?Luza vai abrir a porta. Entra o rapaz loiro para recuperar a ban

    deja. Entra com um sorriso capitoso e um andar florescente. Olha para a cama, volta se para a mesa, mas estaca, vendo o servio intacto.

    Madame

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    Pode levar, no me apeteceu... O tipo deve ser doido esclama o Rui. Entrou a olhar para

    mim com um sorriso escancarado e, sem transio, fica como se tivesse engolido um pau.

    Surpreendeste o. Esperava te vestido de encarnado e com o cabelo cendr.

    Que ests para a a dizer? Que ele prefere o tipo da Elvira ao teu, muito simples. No digas mais, estou a perceber. Talvez o rapaz no goste de bigodes. E tu? Gostas ou no? J tarde para perguntares. Atrofiaste o que havia de maternal

    no meu amor por ti. imperdovel. Sempre gostei de efebos imaturos, foi por isso que casei contigo, sou uma frustrada.

    Daqui por alguns anos, quando formos mais velhos, rapo o bigode. preciso que as pessoas...

    te tomem a srio, j sei! Deita te aqui um bocadinho, junto do teu Bigodes. Anda c. No me apetece. J tive hoje a minha euforia quotidiana com o

    massage boy. Com o qu? O massage boy. Essa coisa a a teu lado. Que disparate! Quando deixars tu de ser to infantil? Quando rapares o bigode e eu descobrir que o meu efebo se

    transformou numa carcassa bdica. No recomeces a pegar com o meu bigode. Que mais fizeste

    hoje? Se queres realmente saber, se me deixares falar at ao fim,

    repito te que andei a mexer em botes. Os botes da msica, os da televiso, os das luzes... Enquanto tu, meu pobrezinho, esfalfavas o teu crebro adulto com problemas peditricos e comunicaes altamente especializadas, muito de gente crescida, a tua mulherzinha brincava com botes. Para comear, esses milhes de botes da televiso. Um milho de canais. Apanhei uma mesa redonda sobre tecnologia, uma entrevista, em cadeia, de gente ligada literatura, ao teatro, eu sei l!

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    Ouvi o Sacha Distel num show fabuloso. Assisti a uma srie tenebrosa, com um conde de monculo versus uma organizao maquiavlica do ano dois mil e quinhentos. Depois apareceu me uma palestra interessantssima, mas, como era em alemo, no percebi patavina e, claro, carreguei noutro boto. Ca sobre uma rapariguinha muito bonita a dizer coisas mimosas, depois veio um casal de exploradores da selva... Carreguei noutro boto e saiu me a Micheline Presle numa srie muito chata que eu j conhecia de Lisboa. Mudei para os botes da msica, mas ca em pleno noticirio. Qualquer que fosse o boto, era o noticirio. Em todas as lnguas universais, uma orgia! Sabes que cheguei a ouvir a Amlia?

    O Abril em Portugal, claro! No, uma droga em espanhol. Entretanto a Elvira comprou rendas em Bruges e disputou um

    italiano inglesa cr de gema. Eh! Por que no vens pintar te para aqui? Assim mal te oio! Deixa l! Aquilo que estou a dizer tambm no tem impor

    tncia. E, alm disso, muito difcil fazer a maquillage e, ao mesmo tempo, dizer coisas.

    Falaste da Elvira? Pronto! Escusas de gritar. Agora s enfiar os collants e o ves

    tido e... Bem, bem! Tambm j ests a vestir te? Julguei que ... Deixa, deixa, que eu atendo! Acaba de te vestir. Al! Ento como vo as coisas? J recuperou a Elvira?

    o Gonalo?Luza acena que sim e continua a ouvir: Est bem, no tem im

    portncia, ns esperamos.Quando poisa o telefone, Rui estende lhe o pescoo e o lao: Pe

    l isto. O que era agora? Deve ter havido bronca. Era para dizer que estavam um bocado

    atrasados. A Elvira Bem, eu no tenho a certeza de que tenha havido bronca. A voz

    do Gonalo at estava boa. Ento por que pensas que houve bronca?

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    Por isso mesmo.Rui esgania se, uf!, para que o lao assente bem e murmura orto

    doxamente: Lgica feminina! . Olha se ao espelho com um certo descontentamento: Talvez tivesse feito melhor em me barbear. Pacincia! Agora vai mesmo assim. Ests pronta?

    Achas que estou bem? Ests sempre bem responde ele, ainda meio voltado para a

    sua imagem (dele) no espelho.Ao empurrar a porta do quarto, agarra no brao de Luza e

    sussurra lhe: Tenho a impresso de que o Gonalo muitas vezes se deve ter arrependido... Bon soir, madame! Quem esta, sabes?

    uma das senhoras que vo nas excursions pour dames. Deve ser mulher dum dos teus colegas.

    Ah! Deve ser a mulher do hngaro. No, no creio que seja a mulher do hngaro. Como sabes tu? A elegncia francesa. Um tanto caduca. A elegncia no se mede pela idade. Alis, toda esta gente ca

    duca, salvo raras excepes. Luza, minha querida, s vezes surpreendes me. No te consi

    dero caduca, muito pelo contrrio. Estes elevadores automticos... Bon soir, Docteur! Bon soir, Madame! Ah! Oui! Nous voil! E, debruando se para Luza: Estes que so franceses.

    Fixe! Que ias tu a dizer a respeito do Gonalo? Do Gonalo? Ah! Sim! Era a propsito da Elvira. No lamentar

    ele muitas vezes ter deixado a primeira mulher? Deve depender das circunstncias e das ocasies. Na melhor

    das hipteses. Porque no acredito que ele lamente coisa nenhuma.Subitamente vejo me s na semi obscuridade do bar. Afundo me

    num pouf e aguardo que o garon se chegue a perguntar me o qu. ORui absorveu se num grupo de cavalheiros necrfagos e o bigode dele movimenta se com solene regularidade. Sinto me sozinha e amo me neste isolamento. Sans blague! Pois recuso com moderada delicadeza o convite que me fazem trs senhoras na mesa do canto para

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    me reunir a elas. Suponhamos que tenho uma enxaqueca e aguardo um whisky para me restabelecer. Fao umas sinalefas eloquentes e o garon digna se aproximar se. Um whisky com gua lisa e gelo, pouca gua e pouco gelo. E seja o que Deus quiser!

    Evado me da sofisticao dos estofos, ultrapasso a rutilncia dos copos e garrafas arrumados, sem me deter na jaleca vermelha do barman (que moreno e usa patilhas) (afinal, sempre me detive um bocadinho no barman, embora o facto nada signifique de concludente), ultrapasso o barman e subo at s reprodues de Brueghel, onde se pavoneia gente demasiado distrada com as suas irreverentes ocupaes para se dar conta da envolvncia novecentista subjacente, com emanaes alcolicas pesadas de progresso, de tcnica e de morigeradas bebedeiras. A gente de Brueghel ostenta com desfaatez a sua vocao primria para o vcio incorrupto, tanto quanto para um casto e regozijado amor terra prdiga mas que significa isto, afinal? Talvez signifique desperdcio, muito simplesmente. Muito simplesmente desperdcio! Mas onde viveu esta gente, em que galxia, em que mundo? Confesso que aquele homem gordo de chapu banda, com pernas em forma de presuntos esticados e mangas enfoladas para arejar o suor, confesso que me perturba, a mim, que fossilizei as minhas aventuras mentais em tipos escorridos, apertados em bluejeans e com barba mal despontada. Detesto aquele homem gordo, mas ele perturba me. No sei o que pense dele, certamente nada de lisonjeiro, porm profundamente marcante. Detesto o (ou assim o julgo), mas ele excita me, ou talvez seja apenas fascnio o que sinto, declaradamente ao nvel mais baixo da minha vileza humana. Mas ele excita me: balofo, perverso, truculento e exibicionista, certo que nesse fim de tarde vai arrastar a suculenta camponesa com quem troca o passo naquela dana inquietante, vai arrast la para a relva, talvez debaixo de um choupo, talvez para um campo de trigo, talvez para um pomar deserto a transbordar de aromas ambguos de entre suco e sexo, talvez para a meia luz de um celeiro tranquilo sobre os gemidos do estrelado feno, talvez para o umbigo da terra acordado ao cacarejar das galinhas, certo que vai arrebatar aquela engordada fmea para algures, onde, cheirando a cerveja entornada e exalando

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    odores de toucinho e mel, escorrendo um suor quente e pegajoso e balbuciando palavres empastados, ele, o malandreco!, lhe erguer as fartas saias, para lhe beliscar com ardor os refegos hmidos e palpitantes.

    Quem pode resistir truculncia de um bebedor de cerveja? As rubicundas donzelas de Brueghel beberam o leite directamente das tetas da vaca, pulsa lhes a terra frtil nas faces rosadas e nos sovacos felpudos. As alvas coifas so lhes arrebatadas pelas robustas mos de camponeses fortalhaos e os enormes aventais desenham com alegre relevo os ventres que o hmus abarrotou de trigo e lpulo. H uma exploso de fertilidade ou do seu desejo, desejo de fertilidade, o amor que se faz antes de ser acto, quando ainda s a promessa a cumprir se irremediavelmente, pois que todas elas, elas, essas criaturas panudas com virgneos aventais, de nada mais precisam que de um olhar libidinoso, mais guloso que sensual, para ficarem grvidas de uma vida vermelha como uma papoila e sonora como uma cornamusa a vida impoluda e farta dos campos abertos da Flandres.

    Mais uma pedra de gelo, Madame? . Luza abre os olhos, fixa vagamente a jaleca vermelha e, com precipitao, faz um aceno negativo. No momento em que leva o copo aos lbios, encontra o olhar do marido, que se aproxima e se debrua para ela: Como vai isso?

    ptimo! e insiste: ptimo! . Rui regressa aos necrfagos e, pelo caminho, assaz sinuoso, para contornar os obstculos vivos, cruza se com uma das senhoras de triunvirato, com quem troca um breve dilogo aberto em sorrisos: a senhora, com um copo na mo em equilbrio instvel, de tal modo o sacudiu quando se sacudiu a rir, no remate do breve dilogo. Chegou se a Luza e dirigiu se lhe em francs: Venha para junto de ns, ma petite! No gosto de a ver to sozinha. A nossa madame Robert est a contar umas historinhas maliciosas e sabe um monto delas.

    Sinto me cheia de reconhecimento, disposta a preterir o meu prazer solitrio com os camponeses de Brueghel, um prazer quente como o po a sair do forno, porm desnaturado pelo gosto de whisky. Bebo mais um golo e ergo me, disposta a chegar imune s deliciosas anedotas de madame Robert, atrs do labirntico rumo da sua divertida

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    amiga. Mas, antes de atingir para esse efeito a verticalidade, pesa me no ombro a mo de algum, grande e almofadada.

    Sente se diz me Gonalo, sentando se tambm.Aflora nos uma voz feminina, originada no outro lado de mim:

    Deixo os a flirtar vontade . uma senhora simptica, que, antes de se afastar (como veio ela ter ali?), me lana um olhar a transparecer generosidade sobre um azul esvado.

    A maluca da Elvira nunca mais acaba de fazer a maquillage. J no tenho pacincia para aturar estas coisas. Que est voc a tomar?

    Um whisky. Julguei que no gostasse. Tambm eu. Mas depende. Bem. Vou pedir um para mim. Na minha idade, precisa se de

    estmulos. No diga isto a ningum, desacreditar me ia. Os mdicos no podem ter fraquezas. Mas a Elvira d cabo de mim.

    Se quer falar com o Rui, ele est ali, naquele grupo cerrado, s para homens, todo ele vestido de preto, com vagas manchas brancas.

    Voc s vezes tem piada! Mas eu j o vi. Falo lhe depois, deixeme acalmar.

    Quando voltou com o whisky, vinha mais resignado, pelo menos aparentemente: S assim, muito diludo com soda explica. Engole meio copo de um flego e, em seguida, num sussurro, confidenciame: Eu devia ter encontrado uma mulherzinha como voc. To sensata! Por onde andava, nesse tempo?

    Penso, regozijada, no que diria Constana se eu lhe contasse este despropsito do Gonalo: Se quer que lhe diga, no sei bem respondo. Posso contar lhe a minha vida em dois tempos, enquanto voc esvazia o seu copo. Sempre me senti atrada pelo incompleto... uma coisa nem c nem l! Porque eu tambm sou assim, um compromisso entre uma coisa e outra, est a perceber? O meu primeiro namorado a srio era extremamente sexy, mas dotado de uma beleza muito feminina. Um nadinha vicioso. Entendamo nos bem. At pensmos em ter um menino, mas no persevermos. Porque ele, afinal, s queria um libi, que lhe facultasse, de futuro, um alvedrio definitivo para as suas actividades... solicitaes no muito ortodoxas!

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    Eu aleguei que essa era uma responsabilidade excessiva para uma frgil criana...

    Luizinha, Luizinha! Voc j entrou nos copos! De maneira nenhuma! Continuando a minha histria... Entre

    tanto tinha eu acabado o curso complementar e pensava seriamente nas oportunidades vocacionais. Sou uma pessoa dotada: sempre manifestei um interesse mltiplo, no que se refere a vocaes: escritora, jornalista, actriz, musicloga, madre superiora, asceta de um tipo definitivamente contemplativo... Acabei por me decidir pelas BelasArtes, mas hesitei. O dilema era terrvel: iria eu enveredar pela arquitectura, pela escultura, pela pintura? Era tudo to bonito! Foi ento que me apareceu o Rui, coitado!, to jovem e j to lanado para o mundo das responsabilidades! Apeteceu me chorar, quando ele mandou fazer um fato cinzento e despiu as adorveis pantalonas com que ia para todo o lado. Enterneceu me tanto que resolvi ser ele a minha vocao. Era um maturo prematuro e eu gostava imenso dele.

    Muito bem! Muito bem! Isto est a encher se. Sabe quem aquela rapariguinha que acaba de entrar?

    A loirinha? Penso que filha de um dos congressistas. Fala ingls.

    Deve ser o Forrest. Ainda se parece com ele. Para muito melhor, claro!

    Claro!Gonalo respira pujantemente e bebe mais uns golos: A juven

    tude uma coisa maravilhosa! exclama a seguir. Sob esse aspecto, voc no est nada mal servido. Tirando a

    Forrestzinha, a Elvira deve ser a mais nova e trepidante dama participante. Ela e eu.

    A Elvira estafa me. Bon soir, docteur! Bon soir, Madame! a va bien? Querem sentar se?

    Madame sentou se, mas era abstmia. O marido senta se com uma cerveja na mo: Refrescante. Diurtico. Maravilhoso.

    O trio fecha se num crculo de poufs, um tanto recuado, e Luza pressente sua volta uma zona desimpedida. Estou s, novamente s, mas adivinho um prximo assalto de demnios tentadores. Subtis.

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    Subversivos. Sinto que me afloram as pernas com narizes sedosos. Mas sero realmente demnios? Responde me tu, Brueghel: podemos sentir no corpo os cheiros e as cores, mesmo no corpo, como se fssemos s corpo e s por ele as coisas nos penetrassem? Osmose...

    Oia c, Luza! No viu por a o Gonalo? Est mesmo sua frente. De costas voltadas.Gonalo ouviu. Ergueu se de peito saliente: Que se passa con

    tigo, louca das loucas, que nem me vs? E eu aqui to perto, sempre to perto e tu sempre sem me veres!

    Ora! Com esta falta de luz! E, alm disso, doem me os olhos. Voc um sdico. Um sdico!

    Senta se aconchegada a Luza, no mesmo pouf. Num sussurro, pergunta: Que tal esto os meus olhos?

    Como de costume. Talvez com um pouco mais de azul Claro, voc diz isso para me animar, mas eu sei que estou

    horrvel. Alis, como pode voc ver qualquer coisa com uma luz destas! . E para Gonalo, em voz mais alta: Oia c! Por que no se senta? Vai passar o tempo a olhar para mim? Acha que vou suportar a sua crueldade? Sente se que a sua altura no me mete medo. Nem o seu peso.

    Garon, mais uma cerveja . O marido da senhora abstmia adere aos poufs da zona desimpedida. A senhora abstmia inclina se para falar com Elvira. A lngua portuguesa parece lhe um bocadinho dura... No percebe nada do que se diz, embora tenha bom ouvido para os sons... Parecem lhe realmente um bocadinho duros... s um bocadinho... um nadinha. Um nadinha!

    Peregrina observao! murmura Elvira, ao ouvido de Luza. Oui, Madame! exclama para a vizinha. De novo ao ouvido de Luza: Que hei de eu dizer a esta simptica anci? D me uma ajuda.

    Explica lhe, querida esposa, que a lngua portuguesa um mimo de doura, a tua voz que a estraga.

    V fava! Olhe, Luza, l vem a inglesa amarela. Amarela como sempre. um ponto. Gosta de homens que se farta. Tenho que defender o monstro do Gonalo. Sim, sim, s um monstro, um monstro, um monstro!

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    Sossegue, bem sabe que ele E tu s... Bem, prefiro no discutir. ... bem sabe que ele no gosta de mulheres entradas. J reparou

    que, tirando voc, a Miss Forrest e eu, tudo o mais pende para o maduro. Dentre as mulheres, quero eu dizer.

    Quem essa Miss Forrest? aquela esgrouviada de pelo escorrido?

    Essa mesma. Ele que se livre! Oh! Madame! O seu marido tem tanto esprito . a senhora

    abstmia a falar, inclinada do pouf dela para o meio pouf de Elvira. O meu marido? Ela est a falar de ti, Gonalo? Onde tens tu o es

    prito? Sim, Madame, s vezes rimo nos muito. Quando chega a casa, uma delcia, basta que o dia lhe tenha corrido bem, que no tenha tido dores de estmago, que os doentes no o tenham irritado, que o jantar lhe agrade e que no haja chamadas ao domiclio em perspectiva.

    Oh! Madame! Bem sei o que isso . O hospital muito absorvente. O meu marido anda muitas vezes terrivelmente deprimido.

    Ento, minha querida, continuas ptima? Eu continuo ptima. Antes de voltares para os necrfagos... Para os qu? L para o teu grupinho. Antes de voltares para o teu grupinho,

    pede me outro whisky. Achas que aguentas? Sou mulher para isso. Est bem, criana! Gonalo, voc no quer vir para ali? Daqui a bocadinho. Estou ainda a recompor me de muitas e va

    riadas emoes. Garon, outra cerveja. E mais um whisky para esta senhora. Julguei que no gostasse de whisky. Depende. Sim, sim, tem realmente fluncia, no o nego. Mas um boca

    dinho dura. No achas, Lucien? Acho que a cerveja uma delcia, isso sim!

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    Gosto de te ver bem disposto, mon chri! to raro! Anda s vezes to deprimido. O hospital

    Good afternoon! intervm a inglesa, numa saudao sem objectivo determinado, porm sorridente.

    a mim que voc pergunta o que que ele tem? Voc nem faz ideia, Rui! Pois no teve o descaramento de me dizer que a Constana bem o tinha prevenido antes de ele ter casado comigo?!

    A Constana? Que Constana? inquire Rui, baralhado. A primeira mulher do Gonalo responde Luza, prontamente. A primeira vtima! explode Elvira. Good afternoon! ressada a inglesa. Good afternoon responde Elvira. E, num sussurro, voltada

    para ns: Esta hoje j me deu gua pela barba. Foi por causa dela que tudo comeou.

    Que lhe fez ela? Ela, nada! Eu ia contar ao Rui... Onde est ele? Olhe, est ali encostado ao bar.Que abismo entre ele e o gorducho concupiscente e rapioqueiro,

    no quadro mais acima! Que faria Brueghel do meu Bigodes, todo presumido de seriedade, de copo na mo e ouvido atento aos propsitos serenos e meditados de um senhor de cabelos brancos! O meu menino crescido! Que faria Brueghel daquela ausncia de colorido, daquela falta de relevo, daquela exacta medida e perfeito compromisso? Menino bem comportado, que os diabos privaram de tentaes e de paixes o meu amado Bigodes! V, ergue a cabea e pensa numa loucura! Despe com a imaginao a camponesa farta e morde lhe os leitosos seios at sentires na boca um arrepiante gosto de algas esmagadas!

    ...e isto s porque fiquei a falar com ela um bocadinho e no fui num pulo atender lhe os caprichos. Atirou me logo com aquilo da Constana. A inglesa amarela tem o quarto no mesmo andar do nosso. Demos de caras uma com a outra. Ela estava eufrica. Por causa do italiano de Bruges, claro! E dos copos que engorgitou. Ainda nos rimos um bocado! Depois, quando cheguei ao quarto, fartei me de chorar. Acha que se nota muito? Seja sincera.

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    O whisky para a Madame? , sim. Pouca gua e pouco gelo, por favor! Merci, no, no se

    nota. Voc carregou lhe no azul, tapou tudo. Tem o olho luzido, ficalhe bem.

    Que sorte! Ser por isso que este bebedor de cerveja est a olhar tanto para mim? Mas para onde foi o Gonalo?

    Est ali ao canto, a falar com o doutor e Mrs. Forrest. E com a esgrouviada da filha. Odeio o. Gonalo, no te im

    portas de chegar aqui? O diabo do homem faz ouvidos de mercador, est a ver?! Diga me se no de perder a pacincia.

    Divorcie se dele, se o odeia. A si no lhe faltam pretendentes. Quero l saber dos pretendentes! Aquela Forrest de cueiros

    que me est a atravessar. Diga me, querida senhora: no foi realmente um belo passeio o

    que hoje demos a Bruges? Como se chamava o restaurante onde estivemos? Aqui o querido doutor gostaria de saber o nome.

    Maravilhoso! Wonderful! Eu dou lhe o prospecto. Pedi o quelecriado moreno, lembra se? O prospecto est junto com as rendas. Luza, diga ao seu marido que atraia o Gonalo para estas bandas.

    Madame, a senhora est linda! Lucien, mon chri! Eu, no teu lugar, no bebia mais cerveja. Rui! No ouviu. Ou ento faz se surdo. Volte a cham lo. Ru u u u i!Rui volta a cabea e olha Luza, que lhe acena com a mo. Curva

    se quase imperceptivelmente perante o senhor de cabelos brancos e depois encaminha se para mim.

    O que temos agora? Estava to interessado... Rui, por favor intercepta Elvira chegue se ao Gonalo e

    diga lhe ao ouvido que, se no deixar de fazer olhinhos quela loira escorrida, vou l e arranco lhe os cabelos que lhe restam.

    Elvira, por favor! Voc desnorteante... desnorteada! Como quer que eu d um recado desses ao seu marido? Ele adora a, voc bem sabe! Est a imaginar coisas.

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    Oh! O bonito portugus! A sua mulher um encanto! Conversamos muito hoje, em Bruges. Um restaurante fabuloso!

    Eu, madam... Eu no sou... Elvira, safe me desta com o seu ingls. Francamente, j no tenho idade para estas tolices!

    Wonderful! E voc a armar aos cgados com a idade! Madam, ele no ... Wonderful! Deixe l! No me importo, eu! Deixe a pensar que o Rui o seu

    marido, desde que... Eu bem lhe disse que esta inglesa maluca. Veja s! J est a

    atirar se ao Rui. ... desde que seja s na imaginao dela. Voc j deve ter bebido acima da conta! Para que diabo que

    ria eu o seu Rui? Para marido, j me chega o Gonalo. At acumula. Tomaram muitos jovenzinhos...

    Magnfico! Olhe s, o meu Bigodes j est a descartar se da inglesa.

    Tomaram eles! Foi assim que h bocadinho nos reconcilimos. Anh! Ento chegaram a reconciliar se? O Gonalo no pode ver lgrimas. Excitam no. Wonderful! Luza, que raio de confuso fez esta inglesa? Quem a ouvisse,

    diria que tinhas estado em Bruges, a namorar escandalosamente um Rodolfo Valentino da indstria hoteleira!

    No te preocupes! Talvez acontea amanh... Voc vai ou no vai falar com o Gonalo? pena, porque o Rodolfo Valentino no o meu tipo. Real

    mente no. Se eu desatar a chorar, que que tu me fazes, Rui? Eu bem te disse que no bebesses tanto. J no ests como

    devias.Luza afasta o com o brao e levanta se. Dirige se para o canto dos

    Forrest e segreda ao Gonalo, que se inclina para a ouvir: A Elvira manda dizer lhe que, se no para de fazer olhinhos Lolita crescidota, vem c e arranca lhe os cabelos que lhe restam.

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    Gonalo cofia uma barba imaginria, extremamente concentrado. Sempre cofiando a barba imaginria, murmura entredentes: mesmo capaz disso! Diabos a levem!

    a sua mulher? pergunta a Forrest me.Gonalo explica, com uma sbita desenvoltura, que Luza mu

    lher do colega portugus e pede licena para se afastar. Um momentinho! Luza vai lhe na peugada, mas detida pela voz da Forrest me, que lhe pergunta se gostou de Bruges.

    Luza hesita na resposta, gagueja uns sons inarticulados e, por fim, acena que no, ao mesmo tempo que lana com deciso: No, no! Shopping!

    Logo regressa, satisfeita, mesa onde abandonara o copo. Gonalo agigantava se perante uma Elvira encolhida, mas perversamente aberta num sorriso. As palavras saam lhe sibiladas: Escndalos, nunca, percebeu? Ou voc julga que isto aqui como com os seus amigos, taradinhos e histricos!? J no temos a sua idade, percebeu? . E, desagigantando se, numa sbita quebra de desespero: Por que no casei eu com uma mulher como a do Rui? Como voc, Luza. Bonita, jovem e ponderada.

    O meu Bigodes, ai de mim!, no registara o ditirambo, visto haver regressado ao escalo de adulto, muito de bigode, junto do belo cavalheiro de farta cabeleira branca, encostado ao bar, no prosseguimento da serena conversa interrompida, profissional, professoral lio, que o Bigodes ouvia atentamente. Mesmo por baixo de uma reproduo de Brueghel, onde se adivinha um cheiro a estbulo, cerzido em chamas de lareira para luz, calor, cor e apetites descontrados. gente gorda, gorda, gorda. Os homens, as mulheres, as crianas, os prprios ces. Evola se dos paneles uma vaporosa e cromtica saciedade. Gente voraz, gente grotesca, todos eles homens, mulheres, crianas, os prprios ces , uniformizados pelo sufrgio da bulimia, so todos eles bichos sados do mesmo ventre hipertrofiado e monstruoso da terra, sem alma que os transcenda, pecaminosos como deuses pagos e redondos como dornas a rebentar pelas aduelas. Com especial destaque para a matrona panuda que, de seios ao lu, amamentava um futuro frade gluto, futuro amante de pernis fumegantes com rodadas de

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    cerveja, nas estalagens de bebedolas, onde, embrutecido, dormir estatelado sobre as grandes e pesadas mesas.

    Ao fundo, como um ultraje, o espantado magrizela solta a sua alma desprezvel pela emudecida boca aberta, os bicudos joelhos a escaparem se pelos buracos das calas, mal podendo segurar, alvo de pontaps, a cornamusa de pedinte ambulante. Morde lhe as canelas um cachorro nutrido e, com pueril fria, enxota o dali um obeso conviva, destacado do grupo repimpado dos sedentrios comparsas de rabos pesados, cingidos por cintures de salsichas e chispando, todos eles, pelos olhos afundados em papos, uma maldade que a indolncia embacia.

    Luza! Luza! Em que ests a pensar? O autocarro j chegou. Tens apetite?

    Um apetite louco! Aquele quadro fez me fome. Aquele? Aquele, sim! Apetece me babar me de carne suculenta e de en

    chidos picantes. Com uma grade caneca de cerveja. Uma caneca de cerveja? Foi o que voc disse? Julguei que no

    gostasse de cerveja. E julguei que fosse um pisco a comer. Depende. Voc no sabe, Gonalo, que a Luza tem uma costela

    estrangeira? Ignorava de todo. Pois verdade! A me era belga. No era propriamente belga. Era flamenga. Faz muita diferena? No far muita, mas sempre far alguma. Ser flamenga im

    plica... diferente, pronto! uma questo de... Sentimento? No, nada disso! Um misto de tradio e cultura... mas tambm

    no bem isso. Ou s isso. Todos ns temos as nossas razes... Vamos andando?Pois vamos andando, sim senhor! E, enquanto vamos andando,

    pergunto a mim prpria que tolo sentimentalismo me obriga a

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    reinventar a minha me, sempre que dela se fala! E por que razo tanto me esforo por lhe dar um rosto expressivo, a ela, que no o tinha, nem parecia enraizada numa terra, num povo... Ela, que apenas deve ter descoberto ter se enganado no rumo que dera sua vida, ao casar com aquele estrangeiro bonito e inteligente, que to pouco a apreciava! Ela que nunca sucumbira a euforias e turbulncias... e, logo a seguir, ao silncio desvanecido perante as coisas que nos fazem felizes, a cr, o volume, o brilho, os sons, o cheiro da terra molhada, a poalha dispersa do trigo, que de oiro plido e cintilante. As asas dos insectos e o focinho das vacas. Ento h que festejar tudo isto com os cinco sentidos e mais um, para registo dos outros cinco. Festejar, amar ruidosamente, aparatosamente, gulosamente... Pobre me, to apagada!

    Depois dizes o resto. Senta te aqui ao p de mim. Vais bem? Vou ptima. Mas no digo mais nada. No sei dizer. Sinto

    umas coisas que no sei dizer. Vocs a frente! Chamem o Gonalo para aqui, estou a guardar

    lhe o lugar, no v ele colar se escorrida e deixar me para aqui... Posso sentar me, Madame? Sou de opinio que a companhia de

    uma mulher bonita no deve ser exclusivo de um s cavalheiro. muito amvel, doutor. Lisonjeia me. Terei muito prazer... Eh!

    Vocs a frente! Olho no Gonalo! Guardem o lugar junto dessa anci caqutica. Chamem no para a!

    Elvira! Que linguagem a sua! No armes em moralista! A Elvira uma universitria de boas

    famlias! Que diabo!

    ainda jovem, de beleza apenas pressentida, um tanto rstico, porm sem nada de grosseiro. As prprias mos, grandes e bem rematadas, com fortes dedos aplainados, sugerem vigor, segurana, ternura. A carnao tende para o terroso, mas ainda s como hiptese, por enquanto ainda matiz altervel, ora carmim de apetite satisfeito no nariz saliente, ora gudio de ripanos sobre a relva fofa de pasto, acentuado em cr nas faces que os anos ho de amolecer.

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    No resisto ao aceno que me faz e sigo atrs dele, por uma vereda fcil, que se abre no sei como ante os meus passos. Ele vai frente, perfeitamente recortado no cu cr de chumbo, que tambm pano de fundo para o enrgico moinho, assente direita, l muito distante e, no entanto, perto, como tudo o mais, incluindo ele prprio, cujo olhar me, ao voltar se para trs, se diria no me limitar no espao, antes integrar me num horizonte de vento e bruma, que envolve e sacode a paisagem hmida. Estou perto agora, pois que lhe toco a barba, mesmo que no toque, toco lhe a barba, que ruiva, mesmo que no seja, com o reflexo do sol fugidio a cintilar breve a cada movimento que faz para olhar o moinho, a terra escura, a cinza do cu, o borboleteio frgil do trigal, a espessura tranquila do bosquedo, o colmo da casa isolada, por onde se escapa um aroma de ovos com toucinho. Ele parece fascinado. Cerra os olhos, por vezes, para recordar a paisagem ou para a reinventar. Essa paisagem que se alonga sobre si prpria e vai desvelando outra paisagem, onde cabem casas toscas e vultos vivos, a descarem para um rio estranho, que desliza sob uma tnue abbada de nuvens baixas. O meu companheiro ia me dando indicaes, aquele era o rio Dommel, aquela a terra onde nascera, o narigudo e corado homenzarro dava pelo nome de Goela Seca e era estalajadeiro, aqueloutro, magro e desengonado, moleiro de profisso, ria por tudo e por nada e era generoso como po fresco.

    A sua voz, no sendo de homem culto, tinha, no entanto, uma suavidade de flocos de neve a cair num campo cinzento. Subitamente, o tempo pareceu enrolar se numa voragem de cores sobrepostas, e ele exclamou: Esta a grande cidade.

    E era a grande cidade, bela e simultaneamente assustadora, pesada de tons, forte e formigante, com o grande casario de madeira a estalar de frio e convergindo para a eminncia brumosa da catedral uma flecha fina e solene, muito acima do mundo desarrumado, quase tosco, mas por certo vibrante de vida com toques de vermelho.

    Esta a cidade onde vivo, onde cabem as minhas alegrias e as minhas penas, onde colho o meu desespero para trabalhar com exaltao. Onde habito os homens e as suas angstias e delas me aproprio, porque tambm so minhas. So belos e tortuosos, os homens.

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    Monstros com almas resgatveis, inebriam se de mal e refastelam se na irresponsabilidade. Olha para ali, repara naquele homem. Parece assustado. Dir se ia um co vadio espera de pontaps.

    Hertico! Hertico!, clama a multido, erguendo punhos como martelos. O hertico insinua a sua figura espalmada por entre dois obesos comerciantes de trigo, postados como guardies porta da estalagem Le Paradis. Os esbirros do Duque de Alba chegam entretanto, cavalos sem freio, moinhos de vento agreste, entre os clamores da multido que sbito emergira em festa, carmesim de entusiasmo, s lucarnas e s janelas, s portas e entrada dos becos, aglutinada agora em plena praa, vomitando vboras, gataria de pelo eriado em negro e sangue, com chifres de belzebu nas frontes encardidas. Que morra queimado!, berra a megera encortiada, com um gesto obsceno to amplo que atirou ao cho o cesto de figos cabea da rapariguinha medusada em amarelo plido sobre tristes pernas aparafusadas saia cor de terra e lama. Que morra!, repetem uns.Queimado!, ganem outros tantos. geral o relincho, quando a soldadesca jorra da porta do Paradis, rutilante de armas e de raiva, arrastando o hertico, amigo de Calvino, saqueador de igrejas, profanador de altares, blasfemo, sacrlego, comedor de crianas, propagador de malefcios, conspirador de bruxedos o co assustado com pirilampos nos buracos dos ouvidos, que vai a desfazer se espasmodicamente em p e vermes, a cada cutilada, a cada belisco da beata vestida de negro possessa de Deus, a cada paulada dos mercadores bbados, aos vituprios esganiados e ensurdecedores daquela boa gente compacta e borbulhante, abrindo se em tonalidades febris de animais selvagens numa insnia estrepitosa.

    Eis o que a intolerncia faz dos homens! sussurra o meu companheiro. Havia me largado da mo, afastara se de mim. As lgrimas forjavam lhe a voz entrecortada, mas o brilho no olhar provinha de um abismo decerto sinistro, onde se esboavam formas fantasmagricas, seres grotescos, divindades ferozes, pssaros, pssaros endemoninhados com capuz de frade, diabretes folgazes entoando um Te Deum de pardia. E, no entanto, Deus existe, balbucia. Reaproximara se e, com uma delicadeza um tanto distrada,

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    passava me pelos cabelos a forte, expressiva mo. Deus existe, visto eu acreditar que existe. De outra forma, a beleza seria um absurdo e a maldade intolervel.

    J os homens se tinham dispersado e, para festejar o belo espectculo, ofereciam entre si, nas estalagens ali prximas, rodadas de espumosa e fresca cerveja. Tinham todos eles fome e sede, por isso as loiras e carnudas criadinhas andavam num rodopio jovial, mais uns tantos pichis para aqui, mais um naco de toucinho para acol, uma pratada de arroz doce para mais alm sorrindo donairosas aos galanteios pesados de um, escapando s impudentes apalpadelas de outro, protestando com alarde apologtico contra as grosserias da maior parte, entre um vozeario surdo e contnuo, de quando em quando superado pelo coro de canes ora pcaras, ora obscenas. J alguns se babavam de espuma e gordura, pelo que, sob as ndoas, desmaiavam os tons vivos dos gibes, em contraste com os narizes cada vez mais rubros e as bochechas progressivamente afogueadas. Os olhos luziam a cada palavro mais acentuado, faris em mar de lodo; de vez em quando, levantava se um deles para brindar, baloiando a uma tempestade de brinquedo, para brindar e apostar com os outros em como o hereje de h pouco seria queimado e no decapitado. Esquartejado, teimava um terceiro. Estripado como um frango, propunha outro. O matulo de farripas hmidas de suor levantou se por sua vez e proclamou que a cabea espetada, oh! a cabea espetada num pau, isso sim! espetada e passeada pelas ruas, com o sulco de sangue a empapar se nas pedras da calada, isso sim!

    Ergueu se ento um homem, ainda novo, parecido com o meu companheiro (ou seria o meu companheiro? Era tudo to confuso!), levantou se arrebatadamente e, empurrando bancos e bbados, encaminhou se para a porta. A, voltou se para o caos de pernas ao alto e cabeas rachadas, num desbarato de cerveja a escorrer das mesas para o cho e para as pantalonas dos basbaques trpegos e titubeantes, e exclamou acintuosamente: Seus porcos!

    O meu companheiro (ou seria o desconhecido da estalagem?) murmurou a meu lado: Como so belos e horrendos! e havia ainda lgrimas no seu rosto e brilho nos seus olhos, tal como se adivinhasse

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    e visse, para alm dos homens ou da sua aparncia, uma outra verdade, muito oculta, temvel certamente, porm fascinante.

    O homem saiu do Paradis (ou seria o meu companheiro?), atravs do grupo de mendigos, estropiados, pernetas e cegos, que, porta, aguardavam a esmola de um osso ainda com fiapos de carne e uma ou outra cenoura atirada ao alvo por um folgazo destreinado, agarra l esta!; todos se projectavam, negros de cobia e ainda mais desfigurados, para o parco trofu de tanta obstinao.

    Isto horrvel! Como possvel que os aches belos? A voz dele um murmrio ensimesmado: Talvez alguns destes, que vs afogando o dio em cerveja, ou, quem sabe?, tentando em vo afog lo, talvez tambm amanh sejam arrastados e, por sua vez, morram para desagravo da f e da autoridade. Terrvel, terrvel dilema, o deles! Omedo ou o crcere. O dio ou as correntes. Como poderei eu ficar insensvel beleza deste combate entre o bem e o mal? Rostos de aves de rapina em corpos de transparente ascese. Histries a verem se ao espelho da suprema beleza. Um sapo com um ramo de flores, uma mulher com bico de pato, um co encapuzado a despejar gua de uma infusa para a boca de um homem nu e sequioso. Gente animalesca, bichos quase humanos, pssaros, rpteis, peixes, fetos monstruosos um mundo extico, repulsivo, grotesco! O mundo belo dos homens meus semelhantes. Por outro lado, acaso j reparaste como comovente, comovente at s lgrimas, o vasto campo que a neve purificou? E a elegncia daquele salgueiro, a cujo tronco se encostou uma bonita e rosada rapariga, apanhada entre os braos de um homem? Tinha uma pele aromtica e sabia a figos com po. Resvalmos para o rio, rindo s gargalhadas, e samos da gua encharcados e divertidos como crianas, porque tudo aquilo era belo, a rvore, o rio, a paisagem a perder de vista na bruma dourada do fim de tarde com toques indecisos de rosa plido. Uma rapariga, de saiote encarnado, transferia para o matiz sereno da paisagem uma tonalidade de fogo, que parecia perfumar o campo e a mim me arrebatava.

    O cavalo baio danava, solto e librrimo, sacudindo as crinas que fulgiam quando ele se encaracolava em saltos sucessivos, pernas vibrantes, forte garupa, elasticidade, galhardia. Cola se me s coxas o

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    saiote encarnado, pingando. Por isso a resistncia se me entorpece e caio, rindo feliz, sobre a verde relva, rodeada por vacas morosas, de lmpido olhar e pachorrento apetite. O meu companheiro aproximase de manso

    Ah! J acordaste!? pergunta o Rui, emergindo da casa de banho.

    Como vs. Levantaste te cedo, pelos vistos. J ests quase pronto.

    Nem deste por isso. Dormias como um anjo. No sei h quanto tempo acordei realmente. Imaginava coisas. Atrasei me um bocado a aparar a barba. Queres que mande vir

    o pequeno almoo? No. Encarrego me disso, quando te fores embora. Que fazes hoje? Vais na excurso das senhoras? H nessa expresso excursion pour dames qualquer coisa que me

    deprime. As tuas ideias! As tuas manias! E o Gonalo a repetir me on

    tem noite que tu, sim, eras muito ajuizadinha, uma ternura! J estava farto de o ouvir. Parece que lhe contaste a tua vida e ele ficou encantado.

    Espero que no me tenha ouvido com muita ateno. Disse lhe uma srie de invenes.

    Para qu, afinal? Esta gravata fica melhor, no achas? Acho. Que mentiras lhe contaste? Que te preferi s Belas Artes, por exemplo. Diga se em abono da verdade que no foi fcil. Passar horas

    porta da Escola espera que acabasses de borrar telas... Sim, fui muito paciente. Acho que sim, que esta fica realmente muito melhor. E mais sbria. Afinal, que tencionas fazer hoje?

    Vou a Anturpia. Esta noite sonhei com Brueghel. Que foi que disseste? Que vou a Anturpia. Que esta noite sonhei com Brueghel. Bem me parecia. O qu?

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    Ter ouvido o que ouvi. O sonho no foi com Rubens? No, foi com Brueghel. Bem, tu l sabes. Vais, portanto, a Anturpia, porque esta noite

    sonhaste com Brueghel, isso? Isso mesmo. Que sorte para mim no teres sonhado com um esquim!

    Equando vais tu visitar a tua amiga Flores? No sei. No sei se me apetece. Escreveste lhe a dizer que vinhas, ela conta certamente contigo. Sossega que no me sentir a falta. Deve haver milhes de pes

    soas encantadoras volta dela. Recebe primorosamente e muito divertida.

    Bem, faz l como entenderes. Vou andando, j estou atrasado. At logo, querida. Porta te com juizinho.

    Esta a grande cidade, dissera ele. Quando se desembarca, Pelikaanstraat no sugere qualquer gigantismo: apenas uma rua spera, nodosa e to incaracterstica que nos arrepia a memria com a sbita e involuntria ecloso na conscincia de tantas outras ruas incaractersticas da nossa vida, por onde talvez tenhamos passeado em agradvel companhia, que um dia porventura atravessmos para ir velar um morto, onde talvez, a um aroma de caf sado de uma casa andina, nos tenha acometido uma fome de po com manteiga, comido ao ar livre num recreio de classe infantil, com a penugem do giz a fazer nos ccegas nas narinas. So reminiscncias em cadeia. As ruas incaractersticas tm a vantagem de se subpor s imagens e s percepes, so realmente catalisadoras. Em quantas ruas de Lisboa encontrei esta insociabilidade, ou melhor: esta baa indefinio da conscincia, logo superada, se necessrio ou possvel, pela libertao da indcil memria.

    A grande cidade, todavia, vai surgir ao dobrar da esquina. Reinvento me criana pela mo da minha me, passeando por aqui a caminho do centro. O nosso riso de pura alegria e comemos com bom apetite a cornucpia de batatas fritas com molho mousseline.

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    Aminha me tem da histria um conceito bastante excntrico, por isso tanto nos rimos, quando ela me conta as histrias da sua histria, mistificando me, a pronunciar com requintes de doura umas palavras terrveis, assustadoras, que no sei de todo o que significam. Que bela e divertida viagem teramos feito, se a tivssemos feito!

    Inventemos: vejo a, a minha me, com um arzinho de felino sensvel ao mnimo rangido de uma folha seca cada, palpitante na paisagem sobranceira, atenta a todos os sinais, qualquer vestgio de vida, ela, vida... Uma doce flamenga expatriada de regresso ao ptrio ninho, a embeber se na cidade, mergulhando nela como em mar para afogados, deixando se envolver pela fauna da Meir, como se necessitada de choques e encontres para sobreviver ao marasmo, vibrando ao simples nome de uma rua, o Canal au Sucre, no te iludas, minha filha, isto aqui como se caminhssemos sobre gua com asas nos ps. Passa em branco pilastras e caritides, mas inebria se em silncio, num silncio de inveno (no ter ela lamentado a minha inexaltante presena a seu lado, uma criaturinha inspida e tagarela, de difcil acesso ao seu mundo de intuitiva captao, percorrido por duendes travessos e espirituosos?), em silncio inebria se de abstractos afagos, de mensagens subtis, que, por vezes, me transmite. Ali est o ramalhete de torres nascidas dos plderes, a Catedral e todas aquelas igrejas com nomes de santos... Que apetitoso aroma sai dali, sentes, Luizinha? quente e loiro como as chamas crepitantes da lareira, volta da qual se sentam, a comer tarte de ameixa, dois apaixonados cativantes. Um passeio aperitivo de fim de tarde, vamos caminhando em crculos, cada vez mais alargados, todos eles dentro de uma redoma envolvente, onde se agita uma vida animal congestionada e emotiva ao nvel epidrmico, mos pesadas de lubricidade, odores afrodisacos O Rubens majestoso, na Groenplatz, dir se ia primeira vista um cabotino instalado na cidade. Plantin, no! Plantin tem a soberba modstia das eminncias pardas: transfere para a terra onde vive aquele mrito em que Rubens se aconchega, todo embrulhado em veludo prpura, com narcsicas chapeladas de plumas e o brilho enftico das pedras preciosas.

    A verdade, porm, que Anturpia um gigante arisco, com pontos vulnerveis no seu organismo de catorze sculos. uma

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    cidade viril, que aparenta fora e domnio (que acontecer a este Sanso, se um dia lhe cortam os cabelos?). Fao o confronto com a minha amorvel Lisboa, to feminina, quase fmea numa alcova devassada. Tambm Bruxelas mulher, alis como Bruges, domina a primeira, dominicela a segunda. (Bom dia, domina! Bom dia, dominicela!, assim nos saudava o meu pai, ao pequeno almoo, com aquele sorriso cptico e demorado, que bem podia irritar discpulos e condiscpulos, e punha no amplo seio da minha me tristes suspiros de resignao).

    Bruxelas, domina. Bruges, dominicela. A domina, burguesa por vezes mal comportada, ambiciosa, dotada de uma beleza menos precria do que supe, compensando pela graa a carncia de uma solene magnificncia, e pela vivacidade a ausncia de um majestoso hieratismo; um tanto desperdiada, um nadinha temperamental, um bocadinho aventureira, nunca, porm, perde a noo de um recato senhoril, e todas as suas prodigalidades, sejam de que espcie for, confundem se no raro com generosidade, nutrida de um sentido equvoco de que a beleza e a riqueza no so contedo de escrnio s para fruio de uns tantos eleitos, antes patrimnio de todos, na sua generalidade. Por isso s vezes a diramos exibicionista.

    Bruges, a dominicela, inventa uma ascese impossvel na opulncia com que a dotaram. Pretende se casta e modesta, orando a Deus num genuflexrio de pau santo com incrustaes de pedras preciosas; veste se de burel com enfeites de esmeraldas, rubis e topzios; servem lhe os vistosos fmulos, em baixela de oiro, as sbrias refeies de po simples, frutos secos e gua fresca; tropea a cada passo em jias e sumptuosidades, mas prossegue, em permanente meditao, a sua resguardada vida de eterna donzela. Indiferente aos homens grosseiros e sfregos, vive do esprito, alheia, surda ao tilintar das ricas pulseiras e cega ao brilho dos diamantes nos anis, que abrem na penumbra da capela sulcos de rpidos relmpagos, quando ela ergue para o altar as alvas mos juntas em prece.

    (Roma, por exemplo, vejo a rica mundana, bela e libertina, com hipcritas e institudas visitas ao confessionrio, onde pespega umas mentirazinhas de convenincia sobre os seus costumes, ao mesmo

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    tempo que tenta perverter, com a formusura de confessada, a aparente imperturbalidade do confessor).

    Gante homem, forte pelos seus bens. Seguro e ordenado. Vive s, alimentando se pelo olhar, orgulhoso das suas riquezas dispersas, que vislumbra das altas janelas onde assoma a cada hora, assim a cada hora reconstituindo e fortalecendo a sua nobre vaidade.

    Anturpia, essa! Anturpia, esse! Definitivamente viril. Polgamo de mltiplas esposas legtimas, que lhe passeiam a munificncia dos presentes pelas ruas do cio, enquanto ele se fecha no utilitarismo dos gabinetes, a acumular numerrio, com que vai, logo a seguir, arrematar num leilo um Rembrandt recm descoberto, encher de diamantes as mos das mulheres e fechar num cofre secreto o que lhe sobra, para um investimento rendoso, uma especulao na Bolsa ou um provvel mecenato. Bebe o seu clice de Porto, antes da noite de amor legal para mais um filho, bebe o seu clice a contemplar as telas do seu vcio secreto, em molduras douradas, dominando os armrios e as consolas antigos, herdados de avs empreendedores, que surraram os fundilhos nos altos bancos da contabilidade. Tambm esses avs tinham amores secretos, taras ocultas, tambm eles. A sonhada magnificncia, uma grandeza contemplativa.

    (Damio de Gis, surrando os fundilhos de escrivo na Feitoria portuguesa de Anturpia! Conheceste o, porventura, Brueghel? Quando aqui chegaste, vindo da tua triste infncia, acaso no reparaste nesse Portugus sem ptria, que te falava das suas vrias ptrias? Do convvio com Lutero at ao ltimo suspiro de Erasmo, ei lo, posando para o teu colega Drer o austero rosto de um antigo menino do pao, pagem de olhar curioso, brincando adulto com o latim e a msica, esse futuro aventureiro iluminado, que, entre duas crnicas para o futuro, se dispe a organizar em Lovaina a luta contra o rei de Frana. Lembras te daquele dia nervoso em que sobre a tua cabea, a mo dele poisou serena para acalmar a tua juvenil revolta perante a fria com que os esbirros espancavam o homem que te falara de Lutero? O jovem Pieter e o adulto Damio um encontro breve! Sabes tu, rapazinho, que tambm ele um dia, bem mais tarde, talvez no prprio momento em que tu dizes adeus aos campos arejados da tua

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    Flandres no leito voltado para a janela onde esgotas a vida, est ele, pobre velho!, a pagar o seu tributo Santa Inquisio, o tributo de ter sido autnomo e livre, homem de grandeza, emrito latinista, erudito aplicado, habitu das altas torres do esprito... Perdoa, meu irnico pai, se no consigo a tua eloquncia e o teu fervor para exprimir como tu uma paixo intelectual por Damio de Gis, vtima da imbecilidade instituda! E aqui estou eu, Brueghel, a falar lhe de mim, eu, humilde descendente tua e do av Damio, do menino faminto que se banhava no Dommel e do menino do pao que se inebriava de letras, eu, nem loira nem morena, procura de ptria nos quadros que me devolvam a imagem da flamenga minha me, com quem brincaste encostado ao salgueiro. Ter ela depois conhecido o av Damio? Talvez o tenha visitado no crcere e adoado a torpeza dos seus ltimos dias com a ternura da sua clara presena).

    Pronto, meu inteligente pai, j cumpri o meu dever de rf saudosa e veneradora: evoquei o teu Damio de Gis, com quem trocavas inaudveis palavras na solido do teu escritrio fechado chave, no fosse algum entrar que profanasse os ares limpos, almas ariscas e mentes herticas! Embora l recebesses um ou outro aluno, com quem discutias as complexidades da semntica, ou a quem dissolvias dvidas escandalosamente eruditas, entre os estilos de Tcito e Horcio. s vezes, as consultas tinham objectivos menos elevados, constituam apenas bias de salvao atiradas a incompetentes, que esperavam misericordiosa redeno ou reabilitao. Foi assim que conheci o Pepe, alis Pedro, alis Pp, e depois Pepe, talvez porque um dia se esqueceu de pr os acentos. Ficou Pepe, para os amigos e amigas, e nunca mais deixou de ser Pepe. Pensava nele s vezes com uma certa repulsa, mas considerava o indispensvel na minha vida de inicianda, de tal m