INCUBADORAS LITERARIAS

Click here to load reader

  • date post

    25-Dec-2015
  • Category

    Documents

  • view

    251
  • download

    15

Embed Size (px)

description

Campo Literário

Transcript of INCUBADORAS LITERARIAS

  • FACULDADE DE LETRAS PROGRAMA DE PS-GRADUAO TESE DE DOUTORADO EM LETRAS

    MILTON COLONETTI

    INCUBADORAS LITERRIAS: O LUGAR DO CONTEMPORNEO

    NO CAMPO DA LITERATURA BRASILEIRA

    Porto Alegre 2014

  • MILTON COLONETTI

    INCUBADORAS LITERRIAS: O LUGAR DO CONTEMPORNEO

    NO CAMPO DA LITERATURA BRASILEIRA

    Tese de Doutorado apresentada como requisito parcial para a obteno do grau de Doutor em Teoria da Literatura do Programa de Ps-Graduao da Faculdade de Letras da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul.

    Orientador: Prof. Dr. Charles Kiefer

    Porto Alegre 2014

  • DadosInternacionaisdeCatalogaonaPublicao(CIP)

    FichaCatalogrficaelaboradaporBrbaraAbulquerqueCRB10/5697

    C719mCOLONETTI,MiltonIncubadorasLiterrias:olugardocontemporneonocampo

    daliteraturabrasileira/MiltonColonetti.PortoAlegre,2014.280f.

    Tese(Doutorado)FaculdadedeLetras,PUCRS.

    Orientador:Prof.Dr.CharlesKiefer.1. LiteraturaBrasileiraHistriaeCrtica.2.TeoriaLiterria.

    3. LiteraturaBrasileiraSc.XXICrticaeInterpretao.I.Kiefer,Charles.II.Ttulo.

    CDD869.909

  • AGRADECIMENTOS

    Ao longo dos anos de trabalho que resultaram nesta tese, pessoas e instituies me

    ajudaram em diversos aspectos. Agora que da obra minha a parte feita, preciso que eu

    estenda meus agradecimentos:

    Ao CNPq e ao Programa de Ps-Graduao em Letras da PUCRS, pela criao e

    manuteno das condies de existncia de meu Doutorado.

    professora Vera Teixeira de Aguiar, pelo acolhimento na fase inicial de minha tese,

    e ao professor Charles Kiefer, pela disponibilidade durante a fase final.

    Aos meus pais e meu irmo, por sua inabalvel dedicao e constante amor, e aos

    meus colegas, que muito ajudaram no desenvolvimento das hipteses aqui expostas.

    Aos meus amigos e amigas, como um todo e a cada um deles. Em especial agradeo

    Daniela Kunze, por todo apoio emocional e disposio com que me acolheu durante parte

    desse caminho.

  • RESUMO

    Os estudos desenvolvidos sobre literatura brasileira contempornea tendem a

    ignorar o fenmeno das pequenas editoras, que em sua existncia transitria renem

    autores recm-chegados interessados em sua insero no mercado cultural nacional. O

    campo literrio depende de um sistema relativamente autnomo de valorao, consagrao

    e canonizao responsvel pela renovao de meios e mediadores culturais.

    A investigao aqui empreendida leva em conta uma perspectiva sincrnica,

    utilizando uma abordagem de conjunto, e investiga os processos de autolegitimao e

    acumulao de capital simblico responsveis pelos movimentos de insero de novos

    agentes no campo literrio, atravs da construo do conceito de incubadoras literrias,

    com o auxlio das teorias sociolgicas sobre a produo e circulao de produtos culturais

    desenvolvidas por Pierre Bourdieu.

    Palavras-chave: literatura brasileira contempornea; vida literria; campo literrio; histria

    editorial; incubadoras literrias; Cincia do Acidente; Livros do Mal; No Editora; Jovens

    Escribas; Joca Terron; Daniel Galera; Antnio Xerxenesky; Carlos Fialho.

  • ABSTRACT

    The studies made on contemporary Brazilian literature have a tendency to ignore the

    phenomenon of small publishers who gather, in their transitory existence, newcomers

    authors interested in their inclusion in the national cultural market. The literary field

    depends on a relatively autonomous system of valuation, consecration and canonization,

    responsible for the renewal of media and cultural mediators.

    The research undertaken here takes into account a synchronic perspective, using a

    comprehensive approach, and investigates the processes of self-legitimation and

    accumulation of symbolic capital, that are responsible for the insertion of new agents in the

    literary field, through the construction of the concept of literary incubators, with help of the

    sociological theories about the production and circulation of cultural products developed by

    Pierre Bourdieu.

    Keywords: contemporary Brazillian literature; literary life; literary field; history of publishing;

    lirerary incubators; Cincia do Acidente; Livros do Mal; No Editora; Jovens Escribas; Joca

    Terron; Daniel Galera; Antnio Xerxenesky; Carlos Fialho.

  • SUMRIO

    1 INTRODUO: O COMRCIO DA ARTE 07

    1.1 O CONTEMPORNEO COMO OBJETO 16

    1.2 AS REGRAS DA ARTE 18

    1.3 O FENMENO LITERRIO: UM CAMPO DE FORAS 28

    1.4 INCUBADORAS LITERRIAS 33

    2 O LASTRO HISTRICO DO CONTEMPORNEO 49

    2.1 EVIDNCIAS DO RETROCESSO 50

    2.2 UMA PEDRA DE TOQUE: O CICLO DE 30 54

    2.3 INTERDIES E COOPTAES 66

    2.4 O CAMPO DE FORAS DIGITALMENTE MEDIADO 70

    3 O RECM-CHEGADO EM BUSCA DA LEGITIMAO 80

    3.1 CARACTERSTICAS GERAIS DA ATUAO DAS INCUBADORAS 80

    3.2 AS DISPUTAS PELA CONSAGRAO 102

    3.3 TOMANDO POSIO: O TEXTO DE APRESENTAO 110

    4 MERCADO DE POLMICAS 128

    4.1 EM BUSCA DA LITERATURA PERDIDA 131

    4.2 A EXPRESSO DO AMOR 139

    4.3 O BOM LEITOR 151

    5 CONSIDERAES FINAIS 160

    6 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 165

    7 ANEXO: REPRODUO DAS FONTES DIGITAIS 168

  • 7

    1 INTRODUO: O COMRCIO DA ARTE

    O comrcio da arte o comrcio das coisas de que no se faz comrcio

    Pierre Bourdieu

    Pegue um livro, qualquer livro. Aparentemente um objeto simples, um conjunto de

    pginas reunidas entre duas capas. Um ttulo em posio de destaque, que identifica e

    distingue esse livro de outros livros; um nome de autor, que agrega esse livro a outros livros

    dentro de uma srie qualquer; um cone ou um escrito menor, que mostra sua procedncia

    editorial; talvez possua um texto na contracapa, descrevendo sucintamente o contedo das

    pginas; talvez tenha orelhas, onde se encontra uma lista de motivos explicando porqu este

    livro, e no outro qualquer, deve ser apreciado; talvez se encontre at uma fotografia do

    autor. Talvez seja um livro de fico, talvez um romance, talvez um clssico francs ou russo.

    O livro esse objeto fsico, que ocupa espao em uma prateleira, mas que contm

    um outro objeto, intangvel, codificado nas marcas legveis que preenchem as pginas, na

    aura que paira sobre o nome do autor, na srie que ocupa em relao a outros livros. Um

    livro um objeto possudo por um entorno intangvel, uma coleo de fatores que capaz

    de atribuir valor e sentido ao que seria apenas um conjunto de pginas reunidas entre duas

    capas.

    Para que esse objeto exista enquanto matria que ocupa espao em uma prateleira

    necessria a existncia de um aparato multifacetado que seja capaz de possibilitar essa

    existncia. Um livro a prova material desse aparato, o ltimo termo do complexo processo

    que gera livros. Para que qualquer livro chegue a uma prateleira e esteja disponvel a um

    leitor preciso que seja conjurado aquele outro objeto intangvel, que ser fixado nessa

    matria folhevel. preciso que ele passe por estgios intermedirios, definidores das

    caractersticas finais que ir assumir. Os livros no brotam, eles so construdos, refinados,

    fabricados e ento distribudos. Talvez sejam lidos, celebrados e comentados, reeditados e

    traduzidos. Talvez no.

    Do mesmo modo, os autores no brotam espontaneamente de suas obras. Eles

    precisam ser construdos, fabricados de acordo com regras especficas. Precisam se situar

    dentro do espao ocupado por outros autores, disputar com eles as posies que esto

    disponveis nesse espao, como os livros disputam os espaos de uma prateleira j

    abarrotada.

  • 8

    Nesta tese tentarei mapear algumas das estratgias assumidas por alguns dos

    autores que vm ocupando espaos dentro da literatura brasileira contempornea na ltima

    dcada, mais especificamente aqueles agentes recm-chegados, e sua ao dentro do

    campo literrio brasileiro e contemporneo. Em minha dissertao de mestrado, Livros do

    Mal: um problema de histria editorial, abordei a questo do surgimento de novos autores

    sob um vis materialista, investigando a atuao de uma experincia editorial de curta

    durao, com sede em Porto Alegre, atravs da qual os agentes conseguiram inserir seus

    produtos no campo literrio com relativo sucesso. A investigao empreendida na

    dissertao tentou demonstrar que os produtos mais notveis dessa editora no foram os

    ttulos publicados ou o retorno monetrio conseguido com a comercializao dos livros. O

    subproduto mais importante dessa editora foi a construo e insero de novos agentes e

    prticas no campo da literatura brasileira. A partir dessa constatao, pretendo aqui retomar

    e reelaborar com maior profundidade os pressupostos e as anlises realizadas na

    dissertao, e aplicar os achados dessa investigao a outros autores e editoras, buscando

    vislumbrar com maior preciso as regras e os aparatos que tornam possvel a entrada de

    novos jogadores nesta arena literria.

    A literatura e a sociedade so duas formas de organizao dos recursos materiais e

    simblicos que esto disponveis para a humanidade, organizaes essas que se estendem e

    se transformam na dimenso temporal. Como nosso objetivo realizar uma investigao da

    relao dinmica estabelecida entre o aparato gerador de livros e os produtores recm-

    chegados, de nosso interesse ativar uma abordagem a partir da qual seja possvel

    problematizar um conjunto de fatores determinantes para a produo literria, uma

    abordagem que, de certo modo, ultrapasse a superfcie esttica com o intuito de analisar as

    formaes e transformaes ancoradas na ciranda social nas quais os produtores esto

    imersos.

    Um desses fatores, talvez o mais determinante dentro do funcionamento

    contemporneo da literatura, a instncia editorial. Em geral a ao das editoras (e

    editores) vista como transparente, uma necessidade presente na materializao do objeto

    livro, mas ao mesmo tempo considerada descartvel para o estudo daquele entorno

    intangvel que d sentido ao objeto. Entretanto, como poderemos perceber, a instncia

  • 9

    editorial um dos mecanismos responsveis por determinar muitos dos parmetros e

    prticas que conformam o campo literrio.

    Em primeira anlise, a instncia editorial parece funcionar apenas como um

    dispositivo de trocas entre o campo econmico e o campo intelectual, transformando o

    produto intangvel do pensamento em objetos tangveis com valor comercial. Mas esta

    posio ocupada pela instncia editorial, de transmutadora de ideias em dinheiro, ocupada

    com certo desconforto, de um modo instvel que pendula entre a aceitao e a rejeio de

    seu papel econmico. O que gera essa instabilidade o recalcamento constante e coletivo

    do interesse propriamente econmico (BOURDIEU, 2001 [1972]1, p. 19), atravs do qual a

    instncia editorial, ao mesmo tempo, afirma seu desinteresse econmico e garante a

    viabilidade de seu produto, procurando ocupar a difcil posio do comerciante de arte, que

    est, por um lado, mergulhado na matria do valor econmico do que comercializa, mas, por

    outro lado, necessita reafirmar o carter incorruptvel e imaterial de seu produto.

    Por este motivo, no momento em que tomamos os editores e seus empreendimentos

    como objeto de investigao, se torna possvel uma visada que leve em considerao no

    apenas o produto cultural literrio em sua intangibilidade abstrata, mas tambm possibilite

    explicitar os nexos estabelecidos por esse produto em sua circulao subjetiva e objetiva

    dentro do campo dos produtos culturais, o que pode nos auxiliar no mapeamento das

    coordenadas que orientam o campo literrio. Afinal, conforme avalia Luiz Renato Vieira,

    A editora divide com a universidade, com as instituies de pesquisa e com determinados segmentos da mdia o poder de legitimar um intelectual em ascenso, de reforar ou alterar posies no campo, sendo mesmo capaz de interferir de maneira privilegiada nas prprias regras que estruturam esse campo.

    (VIEIRA, 1998, p. 68)

    a partir dessa posio de privilgio ocupada pela instncia editorial na srie

    legitimadora que novos autores podem surgir dentro de um ciclo histrico, assim como a

    partir do poder de consagrao esse privilgio pode tornar tais formas ou quais estilos em

    produtos hegemnicos. A investigao da instncia editorial permite esclarecer como a sorte

    de uma carreira literria no depende exclusivamente das capacidades produtivas de um

    autor, ou sequer do suposto valor objetivo de sua produo. Cabe instncia editorial, em

    1 O modelo de citao utilizado nesta tese pretende desfazer, em parte, a sensao de anacronismo gerada pela indicao exclusiva da data da edio referenciada. Assim, a data inicial corresponde edio que consta nas referncias bibliogrficas, enquanto a data entre colchetes indica o ano original de publicao. Quando a data da edio corresponder ao ano original de publicao, apenas a primeira data ser indicada.

  • 10

    concerto com as outras instncias que ocupam a srie legitimadora, gerar os modos pelos

    quais seus produtos (que so as obras, os autores, a marca, as prticas editoriais, os arranjos

    contratuais e as estratgias de marketing) sero recebidos e inseridos nas negociaes

    simblicas que do forma sociedade.

    Com o intuito de desvendar a dinmica das prticas sociais, simblicas e

    econmicas que formatam a literatura brasileira em seu momento contemporneo, a

    anlise que vamos apresentar incide, principalmente, mas no exclusivamente, sobre os

    grupos relativamente autnomos que acabam por formar o que vamos chamar de

    incubadora literria. O conceito de incubadora literria pretende competir e desarmar a

    inadequao dos termos pequena editora e editora independente, que, como poderemos

    demonstrar mais adiante, possuem algumas limitaes e imprecises que geram uma

    opacidade no objeto, pois o fenmeno que encontramos em desenvolvimento apresenta

    facetas mais definidoras de sua ao no campo, a partir das quais o tamanho do

    empreendimento ou a independncias de tais editoras so apenas aspectos secundrios.

    Podemos descrever melhor o fenmeno considerando a faceta a partir da qual percebemos

    que, para alm do anteparo da pequenez ou independncias, est em ao uma reunio

    temporria de autores com interesses literrios afins, dispostos a trabalhar conjuntamente

    na formao de uma estrutura editorial mnima que permita a publicao e divulgao de

    suas obras com maior agilidade do que a permitida pelos entraves (sociais e formais) do

    grande mercado editorial.

    Nosso argumento tentar demonstrar que este fenmeno, constitudo por pequenas

    editoras de existncia transitria que renem autores (de primeira edio ou recm-

    chegados) interessados em sua insero no mercado cultural nacional, produto de uma

    mudana material e de perspectiva quanto ao papel do escritor frente indstria cultural.

    Por exemplo, a relao de dependncia que muitos dos escritores brasileiros estabeleceram

    com o funcionalismo pblico, caracterstica da histria literria do nosso pas pelo menos at

    o comeo dos anos 70, no mais vista como uma alternativa aceitvel. O que podemos

    observar atualmente a progressiva profissionalizao dos escritores de fico, o que

    implica a determinao de uma nova posio autoral, que estabelece relaes polivalentes

    com o mercado cultural. Sendo assim, as questes exploradas na investigao dessas

    incubadoras podem permitir, partindo do detalhe em escala micro, o estudo de estruturas e

    fenmenos de emergncia que exponham os movimentos de desenvolvimento interno do

  • 11

    campo em escala macro, o que ir auxiliar na construo de uma descrio da especificidade

    histrica do momento contemporneo.

    A histria do campo literrio brasileiro possui particularidades que muitas vezes

    dificultam sua anlise. A literatura brasileira pode ser percebida como jovem, em

    comparao com o tempo de existncia de outras literaturas nacionais, e algo que possa ser

    considerado um campo literrio s comea a ser delineado a partir da segunda metade do

    sculo XIX, principalmente devido a atuao militante de figuras como Paula Brito, Machado

    de Assis, Jos de Alencar e Louis Baptiste Garnier. Mas se colocarmos a questo do

    desenvolvimento do campo literrio no Brasil em termos esquemticos, podemos afirmar

    que seu movimento histrico se caracteriza por uma alternncia entre ciclos de maior e

    menor autonomia, entre uma expanso maior e menor do mercado editorial, que dentro de

    sua dinmica prpria, seja no znite do desenvolvimento ou em seus momentos de mar

    baixa, pode privilegiar ou desprezar certas formas e produtos literrios.

    Como exemplo, o perodo que vai de 1930 at pelo menos 1950 foi marcado por um

    rpido desenvolvimento de todos os elementos do sistema literrio. Durante esse ciclo

    histrico, a proliferao de novos autores coincidiu com a fundao de novas editoras e a

    modernizao de antigos projetos editoriais, constituindo espaos onde anteriormente havia

    barreiras para a circulao dos produtos do sistema. Uma quantidade significativa de

    autores passaram pelo processo de canonizao e celebrao, auxiliado pela multiplicao

    de espaos de crtica em veculos do campo jornalstico, alm de um investimento por parte

    das editoras na criao de seus prprios espaos de gerao de crtica e modulao da

    recepo. Foi o ciclo que viu surgirem nomes como Graciliano Ramos, Erico Verissimo,

    Guimares Rosa, Drummond e Clarice Lispector. neste momento tambm que se d a

    fundao (extempornea) de uma ideia de nao republicana, que acompanhada por um

    esforo de construo de uma literatura capaz de mapear na diversidade geogrfica a

    unidade governamental.

    Essa modificao de caminhos e espaos que tais produtos ocupam leva a uma nova

    configurao da relao entre os diversos segmentos da indstria cultural, uma vez que

    esses produtos so utilizados nos intercmbios dinmicos entre esses vrios segmentos da

    produo de bens simblicos, condio que, por sua vez, recoloca a questo da autonomia

    do literrio frente a esses segmentos e permite que esta autonomia seja operacionalizada

  • 12

    sob uma nova perspectiva. De modo similar, no ciclo contemporneo possvel perceber

    uma organizao do campo que pode ser comparada ao ciclo de 1950, no qual o sistema

    literrio, depois de uma forte subordinao ao campo poltico e econmico dominado pela

    ditadura militar instituda em 1964, parece contar com as condies favorveis para a

    constituio de uma posio de maior autonomia.

    Por esses motivos, no estudo da literatura contempornea de grande interesse a

    investigao de alguns dos empreendimentos editoriais gerados por autores recm-

    chegados, especificamente aqueles que parecem ter sido formados com o intuito especfico

    de acumular o capital simblico necessrio insero dos recm-chegados nas malhas

    constituintes do campo, aqui identificadas como essa configurao que chamamos de

    incubadoras literrias. Como analisa Beatriz Resende,

    A verdade que os jovens escritores no esperam mais a consagrao pela academia ou pelo mercado. Publicam como possvel, inclusive usando as oportunidades oferecidas pela internet. E mais, formam listas de discusso, comentam uns com os outros, encontram diferentes formas de organizao, improvisam-se em crticos.

    (RESENDE, 2008, p. 16)

    Teremos tempo para analisar a forma adequada de interpretar tais oportunidades

    oferecidas pela internet que aparecem na citao de Resende de modo naturalizado.

    Importa agora esclarecer que o mtodo aqui assumido para realizar a tarefa de investigar o

    campo literrio contemporneo toma como rgua o processo que envolveu a atuao da

    editora Livros do Mal (2001-2004), identificada e analisada pelo conceito de incubadora

    literria que ser desenvolvido mais adiante. Com o estabelecimento deste objeto analtico

    se tornar possvel investigar outros exemplos de editoras e empreendimentos editoriais,

    buscando atravs desses exemplos uma melhor compreenso das posies que esto

    presentes no campo.

    A atuao desses empreendimentos editoriais pode ser analisada a partir de

    depoimentos espontneos, em matrias de jornais e entrevistas, expedientes pelos quais os

    agentes explicitam suas percepes quanto a sua atuao e refletem sobre as posies e

    estratgias disponveis no campo. A literatura brasileira contempornea se tornou um dos

    elementos da constelao do cotidiano, fazendo sua presena reverberar dentro do campo

    cultural por uma variada gama de estratgias celebratrias. Feiras, festas, bienais,

    participao em eventos literrios internacionais, lanamento de colees, so fenmenos

  • 13

    que povoam de notcias o imaginrio da opinio pblica. a partir desses trapos do

    cotidiano que podemos encontrar os indcios capazes de revelar o seu processo de

    produo.

    Por este motivo, podemos eleger como objeto auxiliar de anlise qualquer um dos

    espaos de agncia dentro do campo, capazes de gerar a legitimao e a consagrao de

    obras e autores. A forma que tomam estes espaos em sua existncia determinada pelas

    condies de produo atuais, e portanto trazem em si as marcas indiciais do

    funcionamento do campo. Mesmo blogs, seja aquele mantido pelo Instituto Moreira Sales,

    ou o blog da Companhia das Letras, ou outros blogs menos institucionais podem ser espaos

    de interesse, pois, alm de seu papel primrio de legitimao e consagrao, so tambm o

    lugar de emprego dos autores, local onde h acmulo de capital simblico e a possibilidade

    de reverter tal capital simblico em capital monetrio.

    Cada entrevista ou exposio de inteno direcionada ao campo por uma instncia

    de legitimao (editoras, autores, crticos, academia, mdia) pode ser considerada como uma

    das condies que coordenam a recepo dos discursos, literrios ou crticos, dos agentes do

    campo. Como em uma arena de disputas, atravs de entrevistas ou declaraes pblicas,

    multiplicadas atualmente pela caixa de ressonncia agenciada pelas ferramentas sociais da

    internet, que so construdas as polmicas que definem os espaos de poder dentro do

    campo.

    Outro fator crtico do ciclo contemporneo a presena digital das editoras, na

    forma de uma pgina oficial na internet, muitas vezes conjugada a uma presena nas redes

    sociais, que compe e estrutura seus discursos, alm de servir de plataforma de divulgao

    para outras modalidades de discurso de seus prprios agentes. Se no sculo XIX e at

    meados do sculo XX a mdia que dominava os espaos de circulao simblica foi o jornal,

    no ciclo contemporneo a internet o veculo hegemnico para a disseminao de

    informao e construo simblica de identidade. Cada vez que introduzida uma nova

    tecnologia de disseminao massificada de informao em uma sociedade, temos uma

    profunda modificao nas relaes sociais e simblicas, que acaba por deixar sua marca em

    todos os produtos culturais gerados dentro deste contexto, como aconteceu com a

    introduo do jornal, do rdio e da televiso.

    Mesmo que algumas das grandes casas editoriais brasileiras ainda no utilizem

    plenamente todos os recursos disponveis neste espao digital, a constituio da identidade

  • 14

    discursiva da editora pode ser amplificada pelo investimento nesse meio, como evidente

    no caso da utilizao de tais recursos pelas editoras Companhia das Letras e Cosac Naify. A

    presena digital dessas duas editoras uma pea fundamental na construo da identidade

    e na disputa de espao no campo, realizada principalmente pela utilizao de blogs para o

    emprego de escritores e outros agentes legitimadores. Se este o caso para algumas

    editoras estabelecidas, para as pequenas editoras e, principalmente, para as incubadoras

    literrias, a presena na internet uma das principais plataformas para sua atuao dentro

    do campo. a partir da utilizao das potencialidades dessa presena que algumas editoras

    articulam suas estratgias de lanamento, de estruturao de catlogos, de compilao de

    notcias acerca do empreendimento que atestam sua viabilidade frente a seus pares. Para os

    empreendimentos editoriais no ciclo contemporneo, no o suficiente existir

    passivamente dentro da indstria cultural, pois se faz necessrio manter continuamente um

    estado de ateno e interesse no entorno de suas aes e produtos.

    Dentro desse corpus multifacetado de enunciaes reunido na presena digital

    teremos a oportunidade de perceber como o texto de apresentao das incubadoras

    literrias um lcus privilegiado da tomada de posio frente ao campo, no qual os agentes

    expe suas intenes para o pblico e seus pares, e a partir do qual podemos traar as linhas

    de fora que do forma ao campo. Se em outros ciclos histricos grupos e movimentos

    literrios organizados realizaram sua insero discursiva e simblica no campo utilizando a

    ferramenta textual dos Manifestos, como foi o caso dos Surrealistas europeus e dos

    Concretistas brasileiros, os produtores recm-chegados ao campo contemporneo da

    literatura brasileira parecem privilegiar a utilizao desse texto de apresentao de seus

    empreendimentos editoriais, que no raramente so construdos em formatos muito

    prximos daqueles manifestos, servindo como declarao de intenes que norteiam as

    pertenas identitrias dos agentes envolvidos no empreendimento, seja no polo de

    produo textual da obra (editores, autores), seja no polo de produo de leituras possveis

    (leitores, mdias, crtica). Por esse motivo, algumas das questes que sero investigadas

    dentro do funcionamento das incubadoras literrias podero ser mapeadas a partir deste

    texto.

    Acompanhando esse momento de maior desenvolvimento, os estudos de literatura

    brasileira contempornea produzida na primeira dcada do sculo XXI vm ganhando espao

  • 15

    dentro e fora da academia. O crescimento do campo literrio e do mercado editorial,

    possibilitado pela modificao das condies objetivas de produo dos produtos culturais a

    partir da expanso da internet, provocou um aumento no interesse em investigar tanto as

    produes contemporneas quanto o aparato tcnico-social que conforma sua existncia.

    Seja atravs de pesquisas sobre a leitura2, ou levantamentos quantitativos do

    contedo de romances, ou ainda pela crtica interpretativa das obras, a literatura brasileira

    contempornea vem adquirindo status de instituio disciplinar, capaz de gerar discursos

    sobre o estado de coisas que a circunda, assim como capaz de gerar discursos a partir de

    dentro do estado de coisas sobre sua existncia.

    Ou seja, como estamos discutindo at agora, o campo contemporneo no

    constitudo apenas pela produo de obras literrias. composto, de fato, por uma rede de

    aes e produes que ultrapassa aquele foco fechado dos estudos dos produtos do campo

    literrio que se preocupam apenas com os aspectos academicamente cannicos das obras.

    Para alm de obras e escritores, a literatura brasileira contempornea abarca um universo

    de editoras, pesquisas universitrias, crticos publicando dentro de canais canonizados,

    opinies semi-informadas publicadas em outros veculos, espaos de celebrao e de

    socializao dos agentes.

    Podemos dizer que um dos ndices dessa maturao institucional o desacerto

    quanto a sua caracterizao. Para uma parte do campo crtico que pode ser subsumido

    atuao crtica de Beatriz Resende (cf. 2008, p. 16-18) a literatura brasileira

    contempornea mltipla, desagregadora, formalmente inovadora; enquanto em outro

    segmento do campo que podem ser remetidos aos agentes ligados ao Grupo de Estudos

    em Literatura Brasileira Contempornea (GELBC), coordenados pela professora da UnB

    Regina Dalcastagn (cf. 2005, p.18) a literatura brasileira contempornea considerada

    homognea, conciliadora e reprodutora de modelos j presentes no campo, circunstncia

    essa que restringe a representatividade social de grandes parcelas do contexto scio-

    histrico. Que dois consensos crticos to polarizados possam incidir sobre o mesmo objeto

    pode servir de indcio que demonstra no apenas sua complexidade, mas tambm sua

    dimenso, cuja extenso dificulta a tentativa de abarcar sua totalidade sob um nico ponto

    de vista.

    2 Principalmente a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada por uma parceria entre o IBOPE e o Instituto Pr-Livro, que contou at agora com 3 edies: 2001, 2008 e 2011.

  • 16

    1.1 O CONTEMPORNEO COMO OBJETO

    Uma das dificuldades em tomar o contemporneo como objeto surge da prpria

    delimitao do problema em seu contnuo histrico. preciso perguntar: qual o corte

    histrico que necessrio utilizar para dar conta do contemporneo? Uma estratgia a que

    podemos recorrer para tentar responder a essa questo procurar as marcas da delimitao

    no contexto poltico-social nacional. H uma parcela da crtica literria brasileira que

    trabalha com o que podemos considerar um recorte amplo do que seria o contemporneo,

    incluindo as dcadas que vo de 1960 at o presente, utilizando uma diviso que toma como

    marca principal o final da Segunda Guerra Mundial, como o caso de Jaime Ginzburg (2012)

    em seu artigo sobre o narrador brasileiro contemporneo. Entretanto, acredito que uma

    forma mais adequada de eleger um incio para o ciclo histrico do contemporneo em nosso

    contexto social selecionar o perodo da abertura democrtica pela qual o campo poltico e

    a malha social passaram com a primeira eleio direta para presidente, a de Fernando Collor

    de Mello em 1990. Abertura poltica, econmica e social, a redemocratizao do aparato

    poltico-ideolgico brasileiro no apenas modifica as relaes e hierarquias de poder do pas,

    como tambm acompanha o compasso das modificaes macroestruturais do contexto

    transnacional, gerando uma forma histrica prpria, ainda em plena atividade.

    Em uma primeira anlise, um recorte desse tipo pode ser considerado pouco

    arbitrrio, com poder de delimitao equivalente aquele de um rio que define uma fronteira:

    com suas peculiares sinuosidades, cujo contorno mais preciso depende dos movimentos de

    vazante e enchente, mas de qualquer modo um limiar natural, sensvel, auto evidente. Se

    apresenta como um axioma histrico-sociolgico, a partir do qual se torna possvel deduzir

    as condies de produo cultural atuais.

    Utilizar esse recorte significa referenciar um encadeamento de transies de fase

    pela qual passou a malha scio-poltico-cultural brasileira. No apenas a primeira eleio

    democrtica de um presidente depois do ciclo ditatorial iniciado em 1964, mas tambm o

    primeiro processo de afastamento processual de um presidente atravs da mobilizao da

    opinio pblica e de recursos legislativos e constitucionais em consonncia com as

    aspiraes democrticas da populao.

    Referencia tambm o momento em que Fernando Henrique Cardoso um

    acadmico da USP, participante e investigador da CEPAL (Comisso Econmica para a

  • 17

    Amrica Latina e o Caribe), proponente da teoria da dependncia assume uma posio

    estratgica dentro do governo a partir da qual capaz de desferir o golpe semiolgico que

    foi o Plano Real, uma ousada estratgia de ressignificao do valor da moeda nacional,

    responsvel pela estabilizao do mercado interno atravs da suspenso do processo

    inflacionrio cclico a qual a economia nacional estava submetida desde meados dos anos

    1970. Essa estabilizao econmica crucial para o melhor desenvolvimento de qualquer

    empreendimento, incluindo a aqueles dedicados ao comrcio da literatura. Posteriormente,

    a eleio de Lus Incio Lula da Silva, em 2003, garantiu a manuteno desse estado de

    coisas, com a vantagem extra de um maior investimento em educao, tanto de base quanto

    universitria, alm da instituio de vrios projetos sociais que permitiram o alargamento

    das classes consumidoras, criando no apenas uma demanda maior como instigando o

    desenvolvimento de mercados estagnados h dcadas, como foi o caso do mercado livreiro.

    Essa estratgia sinalizou o surgimento de um carter moderno (o termo da hora era

    globalizado) que molda as feies das discusses e dos discursos que conformam o

    panorama nacional, deflacionando a nfase e a legitimidade dos pontos de vista localizantes

    e isolacionistas, agora compreendidos como uma herana arcaica do aparato ditatorial, a ser

    descartada em prol de uma abertura frente aos influxos homogeneizantes de um campo

    econmico transnacional, de bases corporativo-industriais.

    Sob essa perspectiva, o contemporneo aquele perodo que tem incio a partir da

    ltima ruptura identificvel e se estende at o presente. A pesquisa mais extensiva sobre

    literatura brasileira contempornea realizada at agora dentro da academia, pelo Grupo de

    Estudos de Literatura Brasileira Contempornea da UnB, um exemplo de utilizao desse

    recorte histrico. Tal escolha afasta da discusso as produes literrias que eram

    consideradas contemporneas no ciclo anterior, e que incluem aquelas produzidas antes dos

    anos 1980.

    preciso deixar claro que pretendemos utilizar uma concepo de contemporneo

    sem que haja o interesse de atribuir valor aos fenmenos que esto sendo analisados a

    partir de sua caracterizao. No se trata de decalcar desta concepo temporal um juzo

    sobre a adequao ou inadequao esttica dos produtos, como poderia ser o caso. Na

    disputa pelo moderno e pela modernidade da arte, entendida como aquilo que tem maior

    valor para o campo em questo, possvel utilizar o conceito de contemporneo como uma

    marcao do alinhamento de certos produtos e produtores frente ao paradigma que

  • 18

    celebrado como adequado ao momento. assim, por exemplo, que Agamben tenta

    compreender o fenmeno, ao afirmar que o contemporneo

    tambm aquele que, dividindo e interpolando o tempo, est altura de transform-lo e de coloc-lo em relao com os outros tempos, de nele ler de modo indito a histria, de cit-la segundo uma necessidade que no provm de maneira nenhuma de seu arbtrio, mas de uma exigncia qual ele no pode responder

    (AGAMBEN, 2009, p.72)

    O sentido a desenvolvido para o conceito pretende fazer um juzo de valor que

    celebra o produtor contemporneo capaz de estabelecer uma ligao dialtica com a histria

    em seu sentido mais amplo, um produtor ou produto que consiga se inserir na

    temporalidade a partir de seu prprio tempo mas carregando consigo os escolhos do tempo

    passado, retomando uma leitura proposta por Walter Benjamin em suas Teses sobre o

    conceito de histria, na qual afirma que os verdadeiros contemporneos tm um faro para

    o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente (BENJAMIN, 1996, p. 230).

    De minha parte, entretanto, interessa utilizar um conceito de contemporneo de

    capacidade julgadora mais neutra, prxima daquela delimitao temporal utilizada pelo

    GELBC. Uma marcao temporal que permita investigar as modificaes e a constituio do

    campo literrio brasileiro a partir do novo milnio. Assim, tomando como objeto

    contemporneo os processos de emergncia e legitimao de produtores recm-chegados

    ao campo a partir de 2001, so analisadas as contribuies destes agentes para a

    conformao do campo literrio, com o intuito de perceber quais foram as mudanas nas

    regras do jogo, e avaliar at que ponto seria possvel atribuir estas mudanas agncia

    destes produtores.

    1.2 AS REGRAS DA ARTE

    O carter do estudo aqui empreendido cujo objeto a trajetria de alguns dos

    autores e empreendimentos editoriais da literatura brasileira contempornea tem como

    coordenada terica algo que podemos chamar de modo materialista. Por modo materialista

    de anlise entendo aqueles jogos tericos que levam em considerao as condies

    materiais objetivas da produo e da recepo dos produtos simblicos. Como j

    mencionado, tais condies materiais incluem algumas informaes scio-biogrficas

  • 19

    referentes aos autores, o estgio de desenvolvimento dos empreendimentos produtores de

    mercadorias simblico-culturais e as condies polticas, econmicas e sociais de que

    participam os agentes que autorizam, fabricam e consomem tais mercadorias. Essas

    condies possuem tambm um vetor temporal, o que equivale dizer que esto imersas no

    devir intra-histrico e, portanto, so o produto de uma srie contnua de transformaes,

    transformaes essas que imprimem sua marca na forma do objeto elencado para anlise.

    Tal anlise tem um fundo dialtico e d destaque relao interdependente entre

    textualidade e contextualidade, enfatizando a tenso constituda, na produo e na

    recepo, da presena ou ausncia de uma forma (e da textualidade que lhe confere

    existncia) em um contexto scio-histrico. Nesse sentido, utilizo o conceito de dialtica

    definido por Abbagnano do seguinte modo:

    A dialtica a considerao dos fatos no quadro das suas conexes histricas, na concretude de suas inter-relaes: ela se contrape atitude analtico-cientfica que pensa os prprios dados isoladamente do contexto e da histria. O objeto e o resultado da metodologia dialtica , pois, uma totalidade concreta na qual os fenmenos sociais surgem numa relao constitutiva e dinmica com o conjunto da sociedade e da histria.

    (ABBAGNANO, 2007, p. 320)

    Na tradio da crtica literria brasileira, a obra de Antonio Candido aplica

    procedimentos de anlise e interpretao que so considerados dialticos e incidem sobre a

    materialidade dessa totalidade concreta, na qual se enfatizam os aspectos histricos e

    sociais aos quais produtores, produtos e consumidores esto em relao constante e direta.

    Um de seus grandes trunfos na investigao dessa totalidade a introduo e

    desenvolvimento do conceito operativo de sistema literrio, sobre o qual iremos realizar

    uma pequena anlise crtica, na busca de seus acertos e desacertos.

    A ideia da literatura como sistema bem diversa daquela professada pelos

    partidrios da literatura como comunicao. Podemos perceber na abordagem

    comunicativa, que segue a diviso proposta por Roman Jakobson (cf. 2000 [1960], p. 123)

    entre emissor-mensagem-receptor, a presena dos elementos analisados pelo sistema (a

    obra, o autor, o pblico). Entretanto, nessa abordagem cada um dos elementos entendido

    como um centro individual de solipsismo, sendo que o encontro de um elemento com outro

    nico e individualizado. Nessa configurao, o contato entre emissor e mensagem, ou

    entre mensagem e receptor, pode ser descrito entre dois polos, um marcado pela

  • 20

    indiferena frente a mensagem, e outro no qual se torna possvel uma situao de

    cumplicidade que permite a comunicao ntima entre autor e pblico atravs da mediao

    da obra.

    O solipsismo a presente pode ser localizado historicamente como tendo surgido

    durante as conturbadas renegociaes da posio do escritor que se realizaram durante a

    revoluo industrial e burguesa do perodo que abrange os sculos XVII-XIX, primeiramente

    na Europa (o par Inglaterra-Frana a pedra de toque rotineira) e depois expandido pelos

    influxos do mercantilismo, com as transformaes necessrias a cada novo contexto, a

    outras partes do globo graas ao avano das transaes coloniais que as naes europeias

    exerceram sobre territrios considerados politica e culturalmente subordinados.

    Concomitante ao surgimento de uma definio de indivduo centrada no trabalho

    livre, necessria construo e manuteno da hegemonia comercial, temos o surgimento

    de um novo papel social reservado ao escritor. Em um contexto sociocultural cujas

    caractersticas incluem a massificao do pblico, a industrializao da prensa e a produo

    em massa de produtos escritos (livros, jornais, panfletos, revistas), a posio assumida pelo

    escritor na sociedade vai progressivamente perdendo aquele contato caseiro e dengoso que

    mantinha com seu pblico, como Antonio Candido descreve o tipo de relao entre o

    escritor e seu pblico nas ltimas dcadas do Brasil Imperial.

    Formado por leitores aos quais o escritor muitas vezes tem acesso social, e que

    ademais no possui grande heterogeneidade, o pblico dos primrdios do capitalismo

    estabelecia com o escritor uma relao na qual o escritor se mantinha ainda bastante

    subordinado s presses de uma lgica no inteiramente comercial, no qual ainda respondia

    s demandas de uma clientela selecionada. Para Bourdieu,

    [...] todas estas invenes do romantismo, desde a representao da cultura como realidade superior e irredutvel s necessidades vulgares da economia, at a ideologia da criao livre e desinteressada, fundada na espontaneidade de uma inspirao inata, aparecem como revides ameaa que os mecanismos implacveis e inumanos de um mercado regido por sua dinmica prpria fazem pesar sobre a produo artstica ao substituir as demandas de uma clientela selecionada pelos veredictos imprevisveis de um pblico annimo.

    (BOURDIEU, 2007 [1970], p. 104)

    Ou seja, com a multiplicao do pblico e a expanso do mercado, passa-se de uma

    relao prxima e seleta para a imprevisibilidade na qual o escritor precisa se dirigir massa

    de mil rostos cujo nome multido e teme assumir uma posio de incomunicabilidade, pois

  • 21

    receia que sua mensagem-produto-obra possa se perder na multiplicidade de outras

    mensagens e outros interesses. Para evitar tal estado de coisas, e resgatar o contato perdido

    devido mercantilizao das relaes, o escritor pode tentar recobrir a obra com um

    discurso que visa fixar nela seu desejo de cumplicidade com esse pblico cujos contornos

    so to indefinidos. Esse trauma da perda da comunicao o pano utilizado na carapua

    identitria que aparece conjugada a um tipo de percepo do fenmeno literrio como

    sendo a expresso de uma literatura comunicativa. Essa viso de mundo que gera a

    concepo da literatura como um instrumento privilegiado de comunicao se superficializa

    como uma recorrncia no discurso do campo, seja o discurso crtico ou aquele encontrado

    no entrecho ficcional. Para melhor compreender essa concepo, podemos selecionar como

    indcio duas passagens do romance experimental No h nada l, de Joca Reiners Terron.

    E um aspecto interessante a respeito de livros, continua Fernando Pessoa, que h sempre apenas uma pessoa a se reunir ao livro, no uma audincia. Sou eu, o escritor, e voc, o leitor, e estamos juntos nessa pgina, que o mais ntimo local onde a conscincia humana jamais pde se reunir. E por isto livros nunca morrero. impossvel, sendo a nica oportunidade que temos para penetrar a mente de outrem, e reconhecermos nossa comum humanidade fazendo isto.

    (TERRON, 2000, p. 31)

    [...] ser que o fim da mais estreita relao entre duas pessoas, continue, existente nas pginas de um livro, esse no-lugar, essa bolha de comunicabilidade ntima, onde trocamos nossos fluidos, continue, nosso magma, o mais fino produto de nosso crebro, nossa imaginao, ser que o fim dessa relao no seria suficiente [grifos meus]

    (TERRON, 2000, p. 23)

    O estado de coisas descrito nessas duas passagens, nas quais a literatura

    representada metonimicamente pelo livro aparece figurada como essa bolha de

    comunicabilidade ntima, participa da construo ideolgica da ideia de indivduo

    constituda na modernidade, possibilitada pela dissoluo das hierarquias feudais e

    religiosas e do progressivo surgimento de uma classe burguesa, dependente e detentora dos

    novos meios de produo e circulao industrial e econmica. Tais condies do forma ao

    paradigma de organizao social atualmente referido como sociedade civil. Porm, tal

    concepo de indivduo, quando problematizada em sua materialidade, demonstra fissuras

    pelas quais o solipsismo e o isolamento que servem de lastro a sua existncia se tornam

    elementos discursivos que desejam a hegemonia atravs de imposies ideolgicas

  • 22

    naturalizantes, no mapeveis na realidade concreta de suas prticas. assim que Marx

    poder arquitetar sua crtica investigativa do indivduo moderno nos seguintes termos:

    Nesta sociedade onde reina a livre concorrncia, o indivduo aparece isolado dos laos naturais que fazem dele, em pocas histricas anteriores, um elemento de um conglomerado humano determinado e delimitado. [...] este indivduo do sculo XVIII produto, por um lado, da decomposio das formas feudais de sociedade e, por outro, das novas foras de produo que se desenvolvem a partir do sculo XVI surge como um ideal que teria existido no passado. Veem nele no um resultado histrico, mas o ponto de partida da histria, porque consideram este indivduo como algo natural, conforme com a sua concepo de natureza humana, no como um produto da histria, mas como um dado da natureza. Essa iluso tem sido partilhada, at o presente, por todas as novas pocas. [...] S no sculo XVIII, na sociedade burguesa, as diferentes formas do conjunto social passaram a apresentar-se ao indivduo como um simples meio de realizar seus objetivos particulares, como uma necessidade exterior. Mas a poca que d origem a este ponto de vista, o do indivduo isolado, precisamente aquela em que as relaes sociais (revestindo deste ponto de vista um carter geral) atingiram o seu mximo desenvolvimento. [grifo meu]

    (MARX, 2011 [1859], p. 225-226)

    A anlise de Marx aponta para a estratgia de naturalizao utilizada na formao do

    modelo de indivduo que servem de lastro s teorias filosficas e econmicas desenvolvidas

    durante o Iluminismo. Em um primeiro momento, as condies de existncia do ser humano

    dentro da histria so esvaziadas de suas relaes sociais relevantes, numa tentativa de

    estabelecer uma espcie de humano mnimo que apresente o mximo de autonomia frente

    natureza e histria.

    A partir dessa reduo ao puramente humano (o que equivale dizer, ao puramente

    racional) fundada uma nova ontologia, baseada em um ser ideal independente dos

    acidentes histricos. Marx, contudo, critica tal postura atravs da investigao histrica das

    condies de produo dessa individualidade. Assim, se na poca anterior modernidade

    individualista do iluminismo podemos identificar ncleos sociais de certa independncia

    frente s condies sociais mais amplas (o modelo o campesino que extrai a l das ovelhas

    em sua pequena propriedade autossuficiente, matria prima que ir servir para a confeco

    local da vestimenta necessria ao cotidiano), nas pocas posteriores progressiva

    industrializao dos meios de produo o indivduo plenamente dependente de uma

    complexa rede transnacional para a obteno do mais simples item de vesturio. Ou seja, a

    possibilidade de encontrar qualquer roupa em uma loja de varejo no diminui a

    dependncia desse ser humano s diferentes formas do conjunto social. Muito pelo

  • 23

    contrrio: o indivduo ps-industrial inescapavelmente dependente de uma ciranda

    produtivo-social que o submerge nas malhas coercitivas e sobredeterminantes de um

    aparato que se estende para muito alm de sua capacidade de gerenciar sua prpria

    produo isolada. De certo modo, o que Marx aponta a comunho, na sociedade chamada

    de consumo, de toda a humanidade para a produo de qualquer mercadoria

    industrializada disponvel ao indivduo que se considera isolado do contexto social.

    Deste modo, a abordagem da literatura como um sistema, nos quais esto em jogo

    diversas determinaes, diversamente de uma viso atomista do indivduo, no prope que

    haja entes isolados interagindo acidentalmente, mas tenta perceber em que medida seus

    elementos so partes com funes especficas agindo mtua e concomitantemente umas em

    relao com as outras. Esta estratgia interpretativa permite um afastamento do

    pressuposto ideolgico do individualismo solipsista, alm de garantir maior proximidade

    com as condies concretas da atualidade, nas quais as relaes sociais no so, como

    pretende o aparato ideolgico que rege e define as relaes no regime capitalista,

    diminudas frente a existncia de um indivduo completamente autnomo e livre. Tais

    relaes so de fato exacerbadas ao serem consideradas o verdadeiro nexo de constituio

    do indivduo. Sob essa perspectiva, cada um dos elementos no mais um todo isolado, pois

    o que h de todo o sistema, que por sua vez s existe enquanto durar a relao dinmica

    entre as partes, sem que haja falta de qualquer uma.

    Vamos analisar agora, com maior detalhe, o modo pelo qual, em seu artigo O

    escritor e o pblico, Candido define o conceito operativo de sistema literrio, em um dos

    momentos onde esse conceito apresentado de forma desdobrada. Conforme o crtico

    (CANDIDO, 1967 [1957], p. 83-89), o escritor no seria apenas um indivduo capaz de

    exprimir a sua originalidade, pois est imerso no contexto social que lhe confere sentido e

    existncia, e a desempenha um papel social pr-existente. Ao assumir tal papel, o escritor

    se instaura em uma posio definida por sua relao com o grupo profissional afim e certas

    expectativas por parte dos leitores. O panorama a posto ganha complexidade pela ao

    que a obra realizada exerce tanto sobre o pblico quanto sobre o autor, pois a obra

    esculpe na sociedade as suas esferas de influncia, cria seu pblico, modificando o

    comportamento dos grupos e definindo as relaes entre os homens. A partir de tais

    consideraes, afirma o crtico que

  • 24

    A literatura , pois, um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e s vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. A obra no um produto fixo, unvoco ante qualquer pblico; nem este passivo, homogneo, registrando uniformemente seu efeito. So dois termos que atuam um sobre o outro, aos quais se junta o autor, termo inicial desse processo de circulao literria, para configurar a realidade da literatura atuando no tempo. [grifo meu]

    (CANDIDO, 1967 [1957], p. 86-87)

    Para o crtico, o autor depende da posio social do escritor, que por sua vez,

    depende tanto da noo desenvolvida pelos escritores de constiturem segmento especial

    da sociedade quanto do conceito social que os grupos elaboram em relao aos

    escritores. A configurao dos fatores segue a frmula desigual e combinados, no qual cada

    parte depende de todas as outras e determina o peso que cada qual ter dentro do sistema:

    Se a obra mediadora entre o autor e o pblico, este mediador entre o autor e a obra, na

    medida em que o autor s adquire plena conscincia da obra quando ela lhe mostrada

    atravs da relao de terceiros (CANDIDO, 1967 [1957], p. 88).

    O pblico, por sua vez, tanto uma coleo inorgnica de indivduos, cujo

    denominador comum o interesse por um fato constituindo uma massa abstrata, quanto

    agrupamentos menores, mais coesos [...] como so os crculos de leitores e amadores entre

    os quais se recrutam quase sempre as elites, que pesaro mais diretamente na orientao

    do autor. Ademais, um pblico se configura pela existncia e natureza dos meios de

    comunicao, pela formao de uma opinio literria e a diferenciao de setores mais

    restritos que tendem liderana do gosto (idem, p. 89). Aqui j h uma identificao prvia

    da orientao do autor em favor de um pblico de elite, capaz de atribuir privilgio e

    consagrao, e detentor dos meios de comunicao, das estratgias da formao de uma

    opinio literria e da liderana do gosto.

    Considero que uma das deficincias do sistema tripartite de Candido o fato de no

    atribuir um papel distinto s editoras, que participam do sistema congregadas ao polo

    pblico, sendo apenas um dos elementos que configuram esse polo, reconhecido como os

    meios de divulgao, que so relevantes, mas no so estruturantes, circunstncia que

    acaba reforando aquela invisibilidade que estamos tentando abolir. Podemos observar

    tambm que Candido elege o autor como termo inicial do processo de circulao literria,

    remontando ao paradigma individualista do criador como ponto de partida do processo de

    criao, o que acaba por criar uma tenso entre sua imerso nas malhas sobredeterminantes

  • 25

    do sistema e um suposto papel de originador solitrio do produto cultural em questo. No

    meu entender, tal conjuntura propicia um apagamento de elementos que so cruciais para a

    melhor compreenso do fenmeno.

    Para compreender a dinmica do campo, tambm preciso abordar a questo a

    partir da conscincia de que o autor, no sendo ente independente do processo literrio,

    no pode ser considerado como origem isolada do processo. O autor se encontra

    sobredeterminado pela posio social do escritor, como reconhece Candido, posio esta

    que produto dialtico do desenvolvimento histrico da funo social do produtor de bens

    simblicos. Mas para alm de uma origem do processo centrada no escritor, parece que o

    que temos um nascimento interdependente, no qual o pblico, a obra, o autor e as

    instncias de produo desenvolvem e so desenvolvidas no interior do contexto scio-

    histrico e do devir intra-histrico especfico ao fenmeno analisado, sem que haja um

    elemento iniciador identificvel.

    As transformaes histricas das relaes de produo em atividade no contexto

    social que geram as acomodaes e conciliaes, so, por sua vez, as de condies de

    produo de novas subjetividades e exercem um papel regulador do fenmeno, fazendo

    com que o surgimento das condies de produo do papel social do autor dependam das

    modificaes do pblico, que por sua vez renegocia sua relao com os produtos simblicos,

    em um processo de contnua retroalimentao, na qual a instncia editorial um dos termos

    necessrios.

    Portanto, para que possamos avanar no desvelamento da dinmica do fenmeno

    analisado, vamos proceder a um desdobramento do polo pblico com a criao de um

    quarto polo, que contemple as editoras. Um esforo similar de investigao da instncia

    editorial e seu lugar no campo pode ser encontrado na obra Intelectuais brasileira, de

    Sergio Miceli, uma reunio de dois livros e quatro artigos nos quais o autor realiza uma

    anlise sociolgica e materialista das interconexes entre os intelectuais, o poder, a poltica

    e a comunidade em suas mediaes culturais durante o perodo que vai da Repblica Velha

    (1889) at o final da Era Vargas (1945).

    A obra de Sergio Miceli capaz de realizar essa anlise por tomar como lastro terico

    o trabalho do socilogo francs Pierre Bourdieu, cujas estruturas conceituais se assemelham

    quelas desenvolvidas por Antonio Candido, o que permite uma aproximao mediadora

    entre os dois tericos. O autor brasileiro publica a maior parte de sua obra antes que

  • 26

    Bourdieu tenha entrado em cena, e, em muitos pontos, precede o autor francs, tanto em

    seus acertos tericos quanto nos apartes necessrios, poca, insero do discurso

    sociolgico no meio disciplinar da crtica literria.

    Portanto, vamos introduzir agora o trabalho de Pierre Bourdieu, principalmente sua

    obra As regras da arte (1996 [1992]), como um vetor de gerao de questionamentos sobre

    o fenmeno literrio e seus aspectos sistemticos. Bourdieu executa uma anlise do

    processo de autonomizao do campo literrio francs um campo que foi iniciado e, em

    grande parte, possibilitado pela dupla recusa de Gustave Flaubert em relao arte

    mercadolgica e arte socializante, bem como pela relao ambgua de Charles Baudelaire

    frente ao mercado, ao engajamento scio-poltico e arte pela arte flaubertiana, e os

    desenvolvimentos posteriores permitidos e tolhidos pelas posies assumidas por estes dois

    autores a partir da qual podemos selecionar a adequada instrumentao metodolgica

    que possa nos auxiliar a refletir sobre o processo de constituio do campo literrio no

    contexto contemporneo brasileiro.

    Neste sentido, a incorporao da teoria de Bourdieu no panorama analtico proposto

    por Candido pretende facilitar a transferncia do foco de ateno do binmio autor-obra

    para a instncia editorial. Para que essa incorporao seja vlida, entretanto, preciso que

    haja uma readequao hierrquica do conceito de sistema literrio, que no perder sua

    validade especfica, mas deixar de pretender ser um conceito explicativo que d conta da

    totalidade do fenmeno. Deste modo, possvel afirmar que o sistema literrio de Candido

    est contido naquilo que Bourdieu chamar de campo literrio, e portanto descreve apenas

    alguns dos aspectos do funcionamento do campo. Com essa readequao, o sistema literrio

    de Candido passa a corresponder, de fato, a apenas uma parcela das interaes e relaes

    estabelecidas dentro do campo literrio.

    Uma ampliao suplementar do escopo dessas teorias sobre a circulao dos

    produtos literrios pode ser conseguida pela considerao da teoria dos polissistemas, de

    Itamar Even-Zohar (cf. 2011, p. 29-48). Retomando alguns dos pressupostos do formalismo

    russo, Itamar procura instrumentalizar a teoria da literatura no sentido de facilitar a anlise

    da difuso literria em sua matriz material. O sistema literrio, neste caso, seria apenas um

    dos sistemas em atuao dentro da cultura humana, realizando interfaces com outros

    aspectos da atuao intra-histrica. Se por um lado a teoria dos campos de Bourdieu fornece

  • 27

    o aparato necessrio para uma anlise centralizada nas tenses que constituem o campo, a

    teoria dos polissistemas permite uma visagem das estratgias de posicionamento entre os

    vrios campos.

    A partir da mirada de Itamar Even-Zohar se torna possvel reposicionar o conceito de

    vida literria no centro do campo literrio, deixando assim que esse elemento permeie e

    constitua as tenses constelativas do campo. Neste sentido, o que consideramos vida

    literria passa a ser constituinte da prpria literatura, ao invs de ser apenas um pano de

    fundo sem muita ligao com os produtos do campo literrio. De fato, sob esta perspectiva,

    a vida literria um dos produtos do campo, to decisivo para a determinao das

    condies de possibilidade quanto qualquer outro dos produtos. A posio assumida (e os

    modos de ao possveis) dentro do campo por um autor ento compreendida como uma

    construo produtiva, que gera resultados e cria estados de ser e estar no que considerado

    literatura. A relativa autonomia do campo literrio depende dessa heteronomia frente a

    outros sistemas culturais, uma vez que as regras de ao dentro do campo so determinadas

    desde fora por agncias de mltiplas origens, que incluem as determinaes sociais,

    histricas, tecnolgicas etc. Assim, Itamar Even-Zohar pode afirmar, dando continuidade ao

    pensamento de Eikhenbaum, que a vida literria no apenas um

    [...] fator ambiental, no sentido de pano-de-fundo [...], mas uma parte essencial das intrincadas relaes que regem o agregado de atividades que constituem a literatura. A partir do verdadeiro ponto de vista de Eikhenbaum, o sistema literrio engloba, deste modo, uma gama de fatos/fatores muito maior do que se aceita normalmente nos estudos literrios padro. [grifo meu]

    (EVEN-ZOHAR, 2011, p.32)

    Depois de incorporar a instncia editorial na anlise e desfazer sua aparente

    transparncia funcional, possvel a investigao de diversos parmetros e prticas que

    conformam o campo literrio e que esto sob a ao dessa instncia, como: a aceitao ou

    recusa do manuscrito; a remunerao ou onerao do escritor; o nmero de exemplares; a

    materialidade do produto; a abrangncia da distribuio; as formas de comercializao; o

    controle do discurso sobre o autor; a cobertura pela parte da mdia; a participao em

    eventos; a indicao a prmios; a gesto do contrato; a atribuio de projetos; e o preo do

    produto final parmetros que so decisivos no momento de inserir um produto nas malhas

    da circulao mercadolgica. Cada um desses fatores um indcio no qual podemos

  • 28

    encontrar o resultado da interao entre as condies de produo em dado momento e a

    forma que toma a instncia editorial. Como analisa Bourdieu,

    O ajustamento entre autor e o editor e em seguida entre o livro e o pblico , assim, o resultado de uma srie de escolhas que fazem, todas, intervir a imagem de marca do editor: em funo dessa imagem que os autores escolhem o editor, que os escolhe em funo da ideia que ele prprio tem de sua editora, e os leitores fazem tambm intervir em sua escolha de um autor a imagem que tm do editor, o que contribui sem dvida para explicar o fracasso dos livros deslocados. [grifo meu]

    (BOURDIEU, 1996 [1992], p. 401, nota 40)

    Inserir os editores e seus empreendimentos como parte do objeto de estudo literrio

    pretende permitir uma abordagem analtica que leve em considerao no apenas o

    produto cultural literrio em abstrato, como tambm possibilite explicitar os nexos

    estabelecidos por este produto em sua circulao subjetiva e objetiva dentro do campo dos

    produtores culturais, alm de auxiliar o mapeamento das coordenadas que orientam o

    campo literrio.

    1.3 O FENMENO LITERRIO: UM CAMPO DE FORAS

    interessante, neste momento, encaminhando uma abordagem mais profunda do

    conceito de campo, determinar os parmetros funcionais de outro conceito operativo

    introduzido por Bourdieu e que se ser amplamente utilizado na anlise aqui realizada:

    trata-se do conceito de habitus.

    O habitus tem como funo explicitar as aes dos agentes no campo sob uma

    perspectiva que engloba simultaneamente a esfera consciente das tomadas de deciso e a

    esfera inconsciente que delimitam tais tomadas, sem que haja uma diferenciao entre o

    que seja consciente e o que seja inconsciente. Bourdieu explica a necessidade desse

    conceito em sua construo terica ao afirmar que era preciso revelar e descrever uma

    atividade cognitiva de construo da realidade social que no , nem em seus instrumentos,

    nem em seus passos, a operao puramente intelectual de uma conscincia calculadora e

    raciocinadora (cf. 1996, p. 205), o que implica a aceitao de uma teoria do ato cujo modelo

    da subjetividade eminentemente indeterminado, ou seja, que as motivaes do agente

    que resultam na ao no so cognitivamente discernveis para o analista.

  • 29

    Deste modo, o habitus pode ser tanto um procedimento especfico institudo dentro

    de um campo (como as cerimnias de iniciao), quanto a ao isolada ou modo de ao de

    um agente (so exemplos: o uso da concordncia nominal ou verbal, o modo de se portar

    mesa, os hbitos de consumo cultural etc.). tambm a partir do habitus que um agente

    identifica os pertencimentos afiliativos de outros agentes, e do mesmo modo torna evidente

    suas afiliaes. Por este motivo, aqueles que pretendem adentrar um campo especfico,

    como o caso dos recm-chegados que vamos analisar, precisam possuir o habitus do

    campo, seja por uma aquisio devido posio social de nascimento, seja pelo acmulo de

    experincia dentro do campo, ou por uma emulao do habitus de outros agentes.

    Se por um lado a posse do habitus especfico de um campo permite o pertencimento

    legtimo do agente neste campo, a partir da qual se torna capaz de competir pelas posies

    mais privilegiadas, h tambm posies desprivilegiadas, ocupadas por aqueles que

    pretendem participar do campo, mas no possuem esta condio legtima para a atividade

    dentro do campo, caracterizada por seu habitus especfico. importante perceber que tal

    posio no externa ao campo, pois em relao a esta posio que so estabelecidas as

    tenses opositivas, determinantes para a manuteno da distino que diferencia, classifica

    e hierarquiza os agentes dentro do campo.

    Na constituio desse habitus esto envolvidos os capitais que entram em jogo nas

    trocas internas dos campos e entre os campos. Esses capitais, como deixa clara a escolha

    terminolgica, so a moeda de troca utilizada nas transaes entre os agentes. Como

    exemplo deste funcionamento, no caso de um agente do campo literrio, o capital simblico

    acumulado diz respeito (entre outras coisas) sua carreira dentro do campo; consagrao

    de seu nome; o grau de autonomia; o capital social d conta das relaes estabelecidas

    dentro ou fora do campo com outros agentes; sendo seu capital cultural constitudo pela

    escolaridade e, por exemplo, pelas referncias culturais que pode mobilizar, seja em suas

    relaes com outros agentes ou na textualidade de sua obra. Por fim, o capital econmico

    engloba o montante monetrio e as linhas de crdito que o agente tem a sua disposio.

    Tais capitais so conversveis entre si, sendo que as regras de cmbio so

    determinadas pela posio do agente no campo. As operaes de cmbio podem ser

    exemplificadas da seguinte maneira: um agente pode converter seu capital cultural em

    capital social ao se valer deste capital para estabelecer ligaes com outros agentes ao

    demonstrar conhecimento de um autor, obra ou opinio legtima; em um segundo

  • 30

    momento, pode se valer do capital social adquirido para conquistar uma indicao ou

    emprego que garanta algum capital econmico; ao acumular capital econmico, tal agente

    exemplar poderia investir em uma atividade que permitisse acumular mais capital cultural,

    ou realizar um empreendimento de valor dentro do campo que garantisse um ganho em

    capital simblico.

    Quanto ao regramento do cmbio pelo campo, pode-se tomar como exemplo

    esquemtico e simplificado um hipottico autor best-seller, que ao acumular grandes

    quantidades de capital econmico arrisca perder, frente a uma parcela das posies

    legitimadoras do campo, seu capital simblico.

    O capital simblico de um agente pode tambm ser aplicado na construo da

    legitimidade de outros agentes, um poder de chancela que mediado, por exemplo, atravs

    de elementos paratextuais como introdues, orelhas explicativas ou indicaes editoriais.

    Partindo destas atividades pelas quais um agente amealha capital simblico, podemos

    selecionar os indcios que revelem a forma que toma o processo de insero de um agente

    dentro do campo em um dado momento histrico. Fazer parte do campo, em ltima

    instncia, significa ter a sua disposio uma reserva de capital simblico, cujo investimento

    autoriza e regula a agncia especfica ao campo (o habitus).

    Temos visto at agora como o fenmeno literrio pode ser compreendido sob

    diversas facetas, no necessariamente excludentes em sua participao na discusso da

    literatura, mas que recortam e colocam as questes pertinentes investigao segundo

    perspectivas distintas. Dentro dessas mltiplas possibilidades, faremos a escolha de

    considerar a literatura como um campo de foras, cuja constituio tem uma configurao

    similar a outros campos presentes na organizao social.

    Sob este vis, segundo Bourdieu (1996 [1992]), um campo seja literrio, artstico,

    poltico ou do poder uma rede de relaes objetivas (de dominao ou de

    subordinao, de complementariedade ou de antagonismo, etc.), estruturado pelas

    oposies sincrnicas entre as posies antagonistas (dominante/dominado,

    consagrado/novato, ortodoxo/hertico, velho/jovem, etc.). Tais posies so lugares

    estruturais que podem ser ocupados por produtos, grupos ou agentes individuais. No

    funcionamento de um campo,

  • 31

    Cada posio objetivamente definida por sua relao objetiva com outras posies ou, em outros termos, pelo sistema das propriedades pertinentes, isto , eficientes, que permitem situ-la com relao a todas as outras na estrutura da distribuio global das propriedades. Todas as posies dependem, em sua prpria existncia e nas determinaes que impe aos seus ocupantes, de sua situao atual e potencial na estrutura do campo, ou seja, na estrutura da distribuio das espcies de capitais (ou de poder) cuja posse comanda a obteno de lucros especficos (como o prestgio literrio) postos em jogo no campo. s diferentes posies (que, em um universo to pouco institucionalizado quanto o campo literrio ou artstico, no se deixam apreender seno atravs das propriedades de seus ocupantes) correspondem tomadas de posio homlogas, obras literrias ou artsticas evidentemente, mas tambm atos e discursos polticos, manifestos ou polmicas, etc. o que obriga a recusar a alternativa entre a leitura interna da obra e a explicao pelas condies sociais de sua produo ou de seu consumo. [grifos meus]

    (BOURDIEU, 1996 [1992], p. 262)

    Vamos analisar alguns elementos dessa definio para poder compreender melhor o

    conceito utilizado. Tomemos como primeiro passo a questo das oposies sincrnicas,

    que dizem respeito ao papel assumido dentro do campo pelos agentes que dele participam.

    No campo literrio, podemos identificar o autor como pertencendo posio de dominado

    em oposio posio de dominante ocupada pelo aparato editorial. Salvo autores

    consagrados que tm a garantia de sua legitimidade e capital simblico acumulado, os

    autores, em geral, no tm grande poder sobre os termos de sua publicao por casas

    editoriais estabelecidas e reconhecidas dentro do campo. Para o autor ainda no

    consagrado, a deciso de publicao por parte de uma editora estabelecida pode determinar

    sua insero no campo, enquanto que a deciso de no publicao tende a diminuir suas

    chances de insero e, em ltima instncia, levar a sua excluso. Vamos propor, por

    enquanto, que essa uma das circunstncias que geram as condies necessrias ao

    surgimento de empreendimentos editoriais gerenciados por autores novatos no campo

    literrio brasileiro contemporneo, atravs dos quais tais autores tentam driblar o bloqueio

    tcito das editoras estabelecidas, e procuram, por sua prpria agncia, realizar a tomada de

    posio que lhes permita assumir a posio de recm-chegado ao campo, ou seja, a posio

    de aspirante consagrao. Alm disso, o produtor recm-chegado ocupa tambm uma

    posio de dominado frente ao escritor consagrado.

    Esse um bom momento para realizar uma distino entre produtor, autor e

    escritor. Dentro da dinmica do campo, pblicos, autores, crticos e editores podem todos

  • 32

    ser definidos como produtores. Suas produes so: as obras; os valores pelos quais os atos

    dentro do campo so julgados; as distines entre o legtimo e o ilegtimo; as posies; e,

    por fim, a dinmica caracterstica do prprio campo. Como ressalta Bourdieu, em um

    universo to pouco institucionalizado quanto o campo literrio ou artstico, [as posies] no

    se deixam apreender seno atravs das propriedades de seus ocupantes o que equivale a

    dizer que o contorno das posies possveis dentro do campo literrio dependem das

    caractersticas especficas da agncia daqueles que as ocupam. Ou seja, no h, neste

    momento, uma expectativa institucional de fora reguladora quanto posio de autor

    consagrado, existindo apenas o lugar estrutural do consagrado que, por sua vez, ocupar a

    posio e agir deste ou daquele modo segundo determinaes mltiplas e

    extrainstitucionais, ao mesmo tempo em que se encontra sobredeterminado pela dinmica

    especfica do campo e do contexto scio-histrico no qual est imerso.

    Neste sentido, o produtor de bens simblicos recm-chegado que produz obras

    literrias poder vir a ser legitimado como escritor, mas para tanto sua agncia dever

    entrar em contato com a dinmica do campo de tal modo que sua posio seja construda a

    partir da interao dialtica com as posies j ocupadas por outros produtores. Para tanto,

    os recm-chegados perfomaro tomadas de posio: realizaro atos simblicos

    (lanamentos, entrevistas, opinies, polmicas, participao em projetos, etc.) com o intuito

    de penetrar no campo e estabelecer sua agncia como legtima. por este motivo que

    Bourdieu afirma ser necessrio, para analisar o funcionamento de um campo, recusar a

    alternativa entre uma leitura imanente de suas manifestaes e uma leitura puramente

    sociologizante, pois tanto uma quanto outra no do conta da dinmica especfica

    apresentada pelas constelaes das posies possveis dentro do campo. Por isso, para

    analisar o campo em sua totalidade necessrio acionar ambas as perspectivas, e incluir o

    entreato que se esconde nesta disjuno, ou seja, as tomadas de posio realizadas pelos

    agentes do campo. A importncia destas tomadas de posio se torna evidente no momento

    em que consideramos que:

  • 33

    O campo literrio um campo de foras a agir sobre todos aqueles que entram nele, e de maneira diferencial segundo a posio que a ocupam (seja, para tomar pontos muito afastados, a do autor de peas de sucesso ou a do poeta de vanguarda), ao mesmo tempo que um campo de lutas de concorrncia que tendem a conservar ou transformar esse campo de foras. E as tomadas de posio que se pode e deve tratar como um sistema de oposies pelas necessidades da anlise, no so o resultado de uma forma qualquer de acordo objetivo, mas o produto e a aposta de um conflito permanente. Em outras palavras, o princpio gerador e unificador deste sistema a prpria luta. [grifo meu]

    (BOURDIEU, 1996 [1992], p. 263)

    O carter especfico que esta luta assume no campo da literatura brasileira

    contempornea determina os contornos de sua manifestao. Tais contornos podem ser

    investigados mediante as tomadas de posio dos agentes, principalmente em sua

    manifestao enquanto editores recm-chegados em sua mediao editorial, em geral

    explicitamente expressos na apresentao formal da editora e nos depoimentos dos agentes

    para a parcela jornalstica do campo. sobre esses objetos que vamos operacionalizar as

    anlises das estratgias empregadas por uma incubadora literria.

    1.4 INCUBADORAS LITERRIAS

    Como foi delineado anteriormente, acredito que uma das caractersticas que

    marcaram o campo da literatura brasileira contempornea foi o surgimento, a partir do final

    do milnio, de empreendimentos editoriais agenciados por produtores recm-chegados ao

    campo que conseguiram estabelecer suas posies com grande eficcia.

    Esta no a via nica de entrada no campo, ou sequer a via mais segura, mas pode

    ser considerada como uma caracterstica dominante do seguimento dominado que ao

    dos recm-chegados no campo. A inovao contida nesta estratgia tambm no deve ser

    entendida como exclusivamente dizendo respeito ao fato de que autores recm-chegados

    construam um pequeno empreendimento editorial com o intuito de inserir seus produtos

    (sua posio de autor e suas obras) dentro do campo, uma vez que pode ser identificada, em

    outros momentos histricos, tal dinmica. O dado novo, referente ao ciclo contemporneo,

    est na relao dialtica entre tais empreendimentos, as condies de produo

    contemporneas e as expectativas do campo, que agora parecem favorecer e celebrar tais

    empreendimentos de modo muito distinto daquele encontrado em outros ciclos histricos.

  • 34

    Como tentamos demonstrar at agora, se quisermos realizar uma anlise da ao

    destes autores tornados editores, devemos levar em considerao a prpria estrutura

    editorial por eles montadas, uma vez que os discursos, prticas e produtos gerados por esses

    empreendimentos esto todos imersos em um sistema simblico coerente, que constri um

    dispositivo de atribuio de identidades aos produtos e produtores, caracterizando o todo

    dessa agncia como um artefato cultural (cf. JAMESON, 1992 [1981], p.89). Poderamos dizer

    que, sob essa perspectiva, o nexo de coerncia entre os agentes pode ser encontrado no

    aspecto mais material da literatura, pois, para os propsitos desta anlise, os processos

    editoriais podem ser considerados como estratgias que formatam tanto objetiva quanto

    subjetivamente os produtos gerados, sejam eles obras ou autores.

    Inicialmente podemos identificar, internamente ao campo da literatura, uma

    discusso acerca das aes especficas e das regras que regem o campo quanto ao seus

    aspectos considerados orgnicos ou programticos. Por um lado, no podemos mais, na

    atualidade, tomar a srio o paradigma romntico do autor como gnio isolado, considerado

    como fonte nica de seu produto literrio, um paradigma que teve incio com a revoluo

    industrial, como bem analisa Raymond Williams, sob o qual a representao do escritor

    como criador independente, como gnio autnomo, torna-se uma espcie de regra (1960,

    p. 35). Mesmo assim, parece haver espao para a criao de condies de autonomia

    restrita, que permitem o surgimento de alternativas ou modificao das regras estabelecidas

    dentro do jogo do campo.

    Neste sentido, poderamos colocar a questo que estamos abordando, referente s

    incubadoras literrias e sua construo de legitimidade, como sendo um desenvolvimento

    que ocorre sob a coordenao das condies de possibilidade do campo, e cujos parmetros

    de ao acabam por serem percebidos como orgnicos, ou seja, como o resultado de

    determinaes individuais que almejam a ao dentro do campo e que se valem de

    motivaes que poderiam ser consideradas privativas dos indivduos envolvidos no

    empreendimento. Nesse sentido, quando h o apagamento daquela coordenao, a

    fundao de qualquer casa editorial pode ser considerada, em seus primeiros momentos,

    como um exemplo de desenvolvimento orgnico de um empreendimento. O caso das

    incubadoras, que permitido dentro das condies de produo da literatura na atualidade,

    identificado com esse investimento particular de um produtor para a publicao de seu

    produto, no por um simples expediente de autopublicao (sempre acessvel em todos os

  • 35

    ciclos histricos), mas pela configurao e manuteno de um empreendimento editorial

    que permita o estabelecimento do recm-chegado em uma posio de destaque dentro do

    campo. Essas estratgias, por mais que sejam percebidas como um ato de autonomia que

    parte da inteno individual dos agentes, so, na verdade, condies de existncia j

    presentes no campo.

    Essa percebida organicidade tem como reverso aqueles empreendimentos que tm

    como lastro a presena de um dos dispositivos legtimos da instituio literria, com status

    reconhecido e posio estabelecida dentro do campo. Tomemos rapidamente, como

    exemplo, o caso da Coleo Amores Expressos, da Companhia das Letras. Tal coleo teve

    como pressuposto a escolha de um certo nmero de autores que tiveram a oportunidade de

    passar uma temporada em uma capital do mundo com o intuito de colher material para a

    escritura de um romance cujo tema principal deveria versar sobre o tema Amor3. Esse

    expediente percebido como programtico pelos agentes, pois suas condies de realizao

    esto explicitamente sobredeterminadas pela mediao de uma faceta estabelecida e

    consagrada do campo literrio (no caso, a editora Companhia das Letras).

    Outro exemplo vlido de empreendimento considerado programtico a produo

    de antologias por parte de Oficinas Literrias. O processo de formao de produtores por

    essas oficinas geralmente coroado com a produo de uma antologia na qual os

    participantes tem a possibilidade de dar visibilidade aos seus produtos tendo como lastro o

    capital simblico especfico da Oficina e seu reconhecimento dentro do campo de trocas e

    valorao.

    Em ltima instncia, possvel afirmar que a diferena principal entre um

    empreendimento orgnico e um empreendimento programtico se encontra concentrada na

    percepo da diferena de status (ou seja, de maior ou menor estabelecimento) entre as

    condies iniciais do empreendimento: quanto menos explcitas forem estas condies, mais

    orgnico ser o modo pelo qual o empreendimento percebido pelos agentes do campo.

    Como j explicitado anteriormente, a presente tese uma continuao da pesquisa

    empreendida em minha dissertao de mestrado, na qual foi realizada a anlise de um

    destes empreendimentos editoriais que podem ser considerados orgnicos, a editora Livros

    do Mal. Naquele momento, devido s circunstncias do discurso presente no campo da

    3 As polmicas em torno da criao e realizao dessa coleo sero analisadas com maior ateno mais

    adiante.

  • 36

    literatura brasileira contempornea, identifiquei uma dinmica especfica quanto ao

    problema da definio de tais empreendimentos. Ora tais empreendimentos eram referidos

    como pequena editora, ora como editora independente. Entretanto, para retomar a

    discusso apresentada naquela dissertao, e aprofundar a definio do fenmeno aqui

    investigado, se faz necessria uma anlise crtica de tais conceitos, em busca de uma melhor

    adequao discusso que agora proponho como tese.

    Inicialmente, podemos afirmar que tais termos tm sido utilizados de modo

    intercambivel, tanto nas anlises tericas quanto no discurso crtico e jornalstico,

    aparecendo por vezes com a chancela autoritativa dos prprios componentes dos grupos a

    que se referem. Os termos em questo (pequena, independente) utilizam como lastro a

    oposio constituda entre os agentes estabelecidos no campo e os agentes recm-chegados

    que almejam sua insero no campo, e partem da prerrogativa de que a distino entre uma

    posio e outras tem como base o acmulo e a disposio do capital monetrio que

    possibilita sua agncia. Deste modo, o adjetivo pequena faz referncia ao tamanho do

    aparato empresarial que d suporte ao empreendimento, enquanto que o adjetivo

    independente se refere s relaes estabelecidas, seja com o campo mercadolgico, seja

    com o campo do poder. Em matria4 para Zero Hora, Manual de sobrevivncia da pequena

    editora 5, a jornalista Patrcia Rocha realiza a seguinte tentativa de definio:

    No h definio exata para o que seja uma editora pequena. Mas h um consenso informal de que um dos critrios possveis avaliar a mdia anual de lanamentos: seriam consideradas pequenas as editoras que lanam no mximo um livro por ms. Para comparar, a L&PM lanou neste ano uma mdia de 10 livros por ms. Assim, partindo de indicaes baseadas nas listas de associados do Clube de Leitura e da Cmara Riograndense do Livro, estima-se que h pelo menos 18 pequenas editoras em atividade em Porto Alegre. [grifo meu]

    A adio do critrio de ttulos lanados por ms pode ajudar no entendimento

    relativo do tamanho do empreendimento, entretanto acredito que tais caractersticas no

    sejam suficientes especificao do fenmeno, pois h editoras estabelecidas (simblica e

    monetariamente) cujo tamanho do aparato empresarial se assemelha, em sua relao com

    4 Todas as referncias relativas a objetos publicados na internet (data da publicao, data do ltimo acesso,

    veculo de publicao, autoria) podem ser encontradas no Anexo desta tese, bem como uma reproduo integral do objeto em questo, em ordem de ocorrncia. Com o intuito de facilitar o acesso, o endereo eletrnico do objeto ser reproduzido em nota na pgina em que ocorrer a citao, com indicao da pgina referente reproduo no Anexo. 5 http://www.clicrbs.com.br/especial/jsp/default.jspx?action=noticias&id=2280882&espid=112 Anexo, p. 169

  • 37

    as grandes casas editoriais, ao tamanho das editoras ditas pequenas, apresentando

    igualmente lanamentos esparsos com tiragens tmidas, sem que sua relativa pequenez

    diminua o espao ocupado por seu capital simblico no campo.

    De modo semelhante, a independncia referida entra em xeque quando so

    objetivadas as relaes estabelecidas entre as editoras independentes e o capital de giro

    pblico captado mediante leis de incentivo cultural e, de outro lado, o julgamento de valor

    simblico conquistado por tais editoras com o sucesso na circulao de seus produtos no

    campo mercadolgico, o que inclui o estabelecimento de relaes funcionais e proveitosas

    com os agentes disseminadores que atuam no campo, tais como distribuidores, livreiros,

    crticos e jornalistas.

    O panorama se complica ainda mais quando levamos em considerao o modo pelo

    qual a Liga Brasileira de Editoras (LIBRE) se define, em seu site6, como sendo

    [...] uma rede de editoras independentes, que trabalham cooperativamente, pelo fortalecimento de seus negcios, do mercado editorial e da bibliodiversidade. uma associao de interesse pblico, sem fins lucrativos, filiao poltico-partidria, livre e independente de rgos pblicos e governamentais, constituda em 01 de agosto de 2002, de durao indeterminada, entidade mxima de representao das editoras independentes de todo o Brasil. [grifo meu]

    Dentre as editoras associadas7 LIBRE, podemos encontrar empreendimentos

    consagrados no campo literrio brasileiro, de grande capital simblico, como as editoras

    Cosac Naify, Iluminuras, Editora 34, Boitempo Editorial e Ouro Sobre Azul. Essas editoras

    poderiam ser consideradas independentes se comparadas aos conglomerados editoriais

    representados pelo Grupo Editorial Record ou Editora Objetiva, que contam atualmente com

    capital e estrutura transnacional. Contudo, no acredito que seja cabvel utilizar o mesmo

    conceito para referenciar empreendimentos editoriais como Jovens Escribas, Livros do Mal e

    No Editora, para citar alguns dos objetos de anlise desta tese. Uma perspectiva

    semelhante a de Anglica Brum avanada por Marlia de Araujo Barcellos, em sua tese O

    sistema literrio brasileiro atual: pequenas e mdias editoras, que, ao analisar o panorama

    das associadas LIBRE, chega a esta constatao sobre tais editoras:

    6 http://www.libre.org.br/quem_somos.asp Anexo, p. 171

    7 http://www.libre.org/editoras.asp no reproduzido no Anexo.

  • 38

    Grande nmero delas se caracteriza por um faturamento anual inferior a R$ 1 milho, o que por si s indica o porte de pequena editora. Sem embargo, rene-se a essa categoria aquele editor que se inclui ele prprio dentro do grupo de pequenos editores, por se arrogar o direito de merecer a imagem que essa classificao oferece: prestgio, exemplares bem produzidos, obras especializadas, etc. ou, ainda, por ter participado inicialmente de algumas das atividades inovadoras especficas desses pequenos e mdios editores, como a Primavera dos Livros, p