Lucernas Romanas Evora

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Lucernas romanas de Évora

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    A coleco de lucernas romanas do museu de voraAutor(es): Morais, RuiPublicado por: Imprensa da Universidade de CoimbraURLpersistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/2334

    DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0209-7

    Accessed : 29-Aug-2015 00:07:54

    digitalis.uc.ptpombalina.uc.pt

  • A

    CLASSICAINSTRVMENTA

    A CoLECo dE LuCERNASRoMANASdo MuSEu dE VoRA

    Rui moRais

  • B

  • 1

    CLASSICAINSTRVMENTA

  • 2

  • A CoLECo dE LuCERNASRoMANASdo MuSEu dE VoRA

  • O P :

    T A Rui Morais

    F T

    C C : Maria do Cu Filho

    C RJos Ribeiro FerreiraMaria de Ftima Silva

    D T:

    Francisco de Oliveira Nair Castro Soares

    C EAdolfo Fernndez Fernndez | VigoAmlcar Guerra | Lisboangel Morillo Cerdn | MadridCarlos Fabio | LisboaLusa de Nazar Ferreira | Coimbra

    Maria Helena da Rocha Pereira | CoimbraNuno Simes Rodrigues | LisboaPedro Carvalho | CoimbraRui Morais | Braga/Coimbra

    EImprensa da Universidade de CoimbraURL: http://www.uc.pt/imprensa_ucE-mail: [email protected] online: http://livrariadaimprensa.uc.pt

    C Imprensa da Universidade de Coimbra

    C Antnio Barros

    ICarlos Costa

    C FDiviso de Documentao Fotogr ca Instituto dos Museus e da Conservao, I.P.Museu D. Diogo de Sousa. Fotgrafo: Manuel Santos

    I A Sereer

    ISBN978-989-26-0133-5

    ISBN D978-989-26-0209-7

    DEPSITO LEGAL 338284/11

    D I U C C D V C (http://classicadigitalia.uc.pt)C E C H U C

    por qualquer meio, em papel ou em edio electrnica, sem autorizao expressa dos titulares dos direitos. desde j excepcionada a utilizao em circuitos acadmicos fechados para apoio a leccionao ou extenso cultural por via de e-learning.

    DOIhttp://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0209-7

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    Sumrio

    Um caso exemplar. Cenculo e o Coleccionismo

    no Portugal de Setecentos ..........................................................................7

    A Coleco de Lucernas Romanas do Museu de vora ................................ 29

    Catlogo ........................................................................................................... 37

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    um Caso EXEmPLaR. CENCuLo E o CoLECCioNismo No PoRTuGaL DE sETECENTos

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    Pode verdadeiramente considerar-se como o restaurador dos

    estudos de humanidades em Portugal D. Frei Manuel do Cen-

    culo Villas Boas

    Emlio Hbner, Notcias Archeolgicas de Portugal, 1874: 5.

    Um das personalidades mais marcantes do nosso Portugal de sete-

    centos foi o famoso arcebispo D. Frei Manuel do Cenculo de Villas

    Boas Anes de Carvalho. De origem modesta, nasceu em Lisboa a 1 de

    Maro de 1724, no seio de uma famlia de pequenos artesos, e veio

    a falecer em vora, como Bispo desta arquidiocese, a 26 de Janeiro

    de 1814, na avanada idade de 90 anos incompletos, logo aps as

    invases francesas.

    Passados 285* anos sobre o seu nascimento, vrios so os estudos

    e ensaios sobre esta figura mpar do Iluminismo portugus. De en-

    tre estes, destaque-se o trabalho pioneiro de F. Gama Caeiro (1959),

    onde o autor caracteriza Cenculo como homem da sua poca por

    excelncia que exerceu, com um enciclopedismo to ao gosto do

    seu sculo, as mais variadas actividades como historiador, poltico,

    eclesistico, reformador, pedagogo e filsofo, distinguindo-se como

    humanista, arquelogo e biblifilo, cultivando a Numismtica, a Paleo-

    grafia, o rabe, o Siraco, o Aramaico, a Teologia, a Exegese, a Herme-

    nutica e a Liturgia (Caeiro 1959: 115). Nesta obra, como em outras

    mais recentes, pode encontrar-se o percurso de excelncia, a todos os

    ttulos edificante, desta figura mpar.

    Cenculo foi sobretudo um grande fundador de bibliotecas. O seu

    nome est associado fundao de quatro bibliotecas: a Biblioteca do

    Convento de Jesus em Lisboa, hoje da Academia Real de Cincias; a

    Biblioteca da Real Mesa Censria, hoje Biblioteca Nacional de Lisboa;

    a Biblioteca do Palcio Episcopal de Beja, com mais de 9.000 volumes,

    hoje Biblioteca Pblica daquela cidade; a Biblioteca de vora, a actual

    Biblioteca Pblica eborense, que poca contava com mais de 50 mil

    volumes. Para esta ltima, reservou a ala ocidental do palcio episco-

    pal, espao anteriormente usado como Colgio dos Meninos do Coro

    da S ligado por um passadio ao resto do edifcio, e nela instalou

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    0

    um espao museolgico, que posteriormente seria o Museu Regional

    daquela cidade (Vaz 2006: 60). O modelo seguido por Cenculo foi o

    de ngelo Maria Querini, bispo de Brescia, criador e doador de uma

    Biblioteca-Museu (1750).

    Num documento depositado na Biblioteca Pblica de vora, inti-

    tulado Orao do Museu dita a 15 de Maro de 1791, da autoria de

    Frei Jos de So Loureno do Valle, revisto e anotado pelo prprio

    Cenculo, pode ler-se um passo de especial importncia para a hist-

    ria do coleccionismo e dos museus setecentistas:

    Tudo isto, senhores, que ouvis dizer Museu eram esco-

    las gerais que se governavam por Mestres e encerravam Livrarias

    com todo o gnero de objectos em que se podia estudar. Ali,

    digo tudo, o melhor livro, todas as memrias dos tempos, todas

    as preciosidades raras da natureza e do engenho das cincias e

    artes dos homens se guardavam para neles se aprender o que

    no convm ignorar (apud Brigola 2006: 48; 2009: 42-46).

    Este acontecimento assinala a inaugurao do primeiro museu p-

    blico de Histria Natural dedicado arqueologia, o Museo Sizenando

    Cenaculano Pacense. Cenculo havia reunido uma coleco de cerca

    de 160 lpides de toda a espcie, alm de fragmentos de escultura e

    arquitectura e de numismas e objectos de cermica, que mais tarde

    iriam constituir parte do esplio da coleco da Biblioteca Pblica de

    vora. Na obra de Joo Carlos Pires Brigola, Coleces, Gabinetes e

    Museus em Portugal no sculo XVIII (Lisboa 2003: 429), pode ler-se

    uma interessante frase que havia sido proferida por Frei Manuel do

    Cenculo, quando ainda era arcebispo de Beja e exps pela primeira

    vez as suas coleces no edifcio da antiga ermida de S. Sezinando,

    entre o colgio jesutico de Beja e a Igreja de S. Salvador:

    Essas pedras quebradas, dinheiros pisados, letras desconhe-

    cidas, e peas desenterradas so preciosos meios que, conhecen-

    do-os, vs sabereis o muito que se ignora.

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    Nas coleces reunidas neste Museu incluam-se, alm de peas

    arqueolgicas, vrias espcies de Etnografia de diferentes pocas e

    de Histria Natural (Caeiro 1959: 109). No referido texto, proferido na

    data de inaugurao do Museu, pode ainda ler-se a concepo ideal

    daquele tipo de instituio, encarado como espao aberto apren-

    dizagem de um pblico vasto e j no apenas reservado aos sbios:

    No estudo das raridades dos engenhos no se consideram os

    metais e pedras nuas, mas ilustradas com vrias figuras, emble-

    mas, smbolos, tipos, inscries com o que a assero do estudo

    anda sempre unida. Nada h mais agradvel do que ver os re-

    tratos dos antigos heris, contemplar enigmas, conhecer trofus,

    ver as faanhas e louvores deixados aos sculos. E de que nasce

    a utilidade de com esta lembrana excitar-se o desejo de imitar

    aqueles a quem o mundo deve honra e a posteridade venerao

    e a histria o seu esplendor. Estes documentos to respeitveis so

    a testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da lembrana,

    mestra da prudncia e correios da antiguidade que acendem lu-

    zes da Histria, e guiam para a exacta cronologia (apud Brigola

    2006: 49).

    Cenculo pretendia transformar esta diocese numa espcie de

    plo cultural. Como coleccionador beneficiou de uma rede de inter-

    medirios no pas e no estrangeiro (Vaz 2009: 13).

    Num outro documento, igualmente datado de 1791, Cenculo ex-

    pressa a importncia dos Museus e das bibliotecas na educao e

    formao da juventude:

    Bom enfim criar os mancebos em princpios direitamente

    concebidos: exercit-los nas coisas sabidas: fazer que vo granje-

    ando novas espcies com diligncia e muita ordem: radicar-lhes

    com modstia e verdade a emulao e nimo dcil: confirm-los

    na decncia da vida e porte de pessoas bem-educadas e amigos

    da justia na honra de seus desempenhos, na fidelidade e suas

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    2

    promessas e vocaes. Recapitulando o que havemos dito sobre os

    preparatrios para as cincias no h motivo para que se enten-

    da serem necessrios livros infinitos naquela idade. Um escri-

    to pouco mais que um ndice das espcies das Belas-Artes e das

    notcias que no pertencem ao estudo principal e uma coleco

    de definies e caracteres de tais coisas, bastante mocidade de

    outro emprego como preparatrio, sendo contudo ajudada com a

    comunicao aturada de pessoas eruditas e assistncia frequente

    em Livrarias e Museus, onde concorram sbios a quem se escute;

    pois estas casas so na verdade feliz escola de aprender costumes

    e erudio, e de se convencerem os homens ser-lhes necessrio ter

    olhos bem ajustados aos objectos, seja nas Faculdades Maiores,

    seja nas Belas-Letras, seja nas ocasies de verem pinturas, obras

    de escultor e quaisquer outros objectos da Ordem Fsica de enge-

    nho e de imaginao. Isto lhes ser bastante para quando passe-

    arem nos campos saberem entender-se com as criaturas em sua

    prpria linguagem: para fazerem diferena nos objectos cientfi-

    cos do que lhes seja substancial ou acidental, e a tudo ajustar os

    devidos conceitos (apud Brigola 2009: 40).

    Quando Cenculo assume o arcebispado metropolitano de vora,

    leva parte deste esplio, algum do qual extraviado aquando do saque

    desta cidade no dia 13 de Julho de 1808 pelo exrcito francs. Na biblio-

    teca de vora existem ainda sob o nmero CXXIX, 1, 13 e com o ttulo

    de Museo Sizenando Cenaculano Pacense, desenhos exactos de todas

    as ditas inscries, feitos, ao que parece, por Flix Caetano da Silva.

    Como recentemente salientou Maria Helena da Rocha Pereira

    (2008: 48), num texto de catlogo intitulado Os vasos gregos: ca-

    minhos e descaminhos do coleccionismo portugus, estava-se ento

    numa poca de grandes novidades. Lembra a autora a carta de um

    sobrinho de Cenculo, datada de 1803, que de Londres lhe fez saber

    a maior novidade literria do momento, a famosa Pedra de Roseta,

    que, como o mesmo adverte, excitar a sagacidade dos antiqurios

    para achar a chave da lngua hieroglfica.

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    3

    Apenas um ano antes, o Papa Pio VII, no quirgrafo de 1 de Ou-

    tubro inserido no dito do Pro Camerlengo cardeal Giuseppe Dria-

    Pamphili, sintetiza de modo assaz eficaz a relao entre os vestgios

    antigos (neste caso da prpria cidade de Roma) e os comerciantes,

    os artistas e os eruditos, que se interessavam pelo vasto mercado ar-

    tstico e antiqurio que em muito contribua para o conhecimento da

    modernidade (Benocci 2006: 83). Tudo parecia rodar volta destes

    visitantes, que alimentavam um vivo mercado de artefactos arqueol-

    gicos, bem como de restauradores e copistas. Neste clima, muitas das

    antigas famlias, com dificuldades econmicas, tentavam desfazer-se

    dos seus bens, o que levava fragmentao do patrimnio artstico

    familiar (Arata 2008: 61). O governo Papal, j com o anterior Papa Pio

    VI, tentava controlar este fenmeno da sada de antiguidades atravs

    da criao de licenas de exportao para quem quisesse levar peas

    antigas para fora do Estado. A situao chegou a um tal ponto que, no

    dito atrs referido, o Papa Pio VII promulgar (sem grande sucesso)

    a interdio de venda de objectos antigos ao estrangeiro (Melegati

    2008: 105).

    So tambm conhecidos organismos da tutela entretanto criados

    para evitar o depauperamento do patrimnio histrico, artstico e

    arqueolgico. o caso do Comissariado para as Antiguidades e do

    j referido Camerlengo que administrava os bens do Sacro Colgio

    atravs de leis especiais, intituladas licentiae extrabendi e patentes

    extrabendi (Arata 2008: 62). Muitas das obras sadas de Roma como

    consequncia da pilhagem efectuada pelo exrcito napolenico (18

    de Junho de 1796), iro ser devolvidas depois do Congresso de Viena

    (9 de Junho de 1815), em parte graas s presses de Antonio Cano-

    va, encarregue pelo Papa Pio VII de fazer reentrar em Roma as obras

    deportadas (Arata 2008: 70).

    Como se depreende, o esforo de Frei Manuel do Cenculo in-

    sere-se num contexto internacional em que os membros da Igreja

    demonstravam interesse em apoiar e estimular a arqueologia, como

    forma de legitimao da sua prpria instituio, como dever pblico

    de promoo do conhecimento. Os Papas e os altos funcionrios va-

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    ticanos eram clrigos cultivados, cada vez mais conscientes da impor-

    tncia dos stios arqueolgicos e da arte antiga no fomento de um tu-

    rismo de elite, que tanto beneficiava os Estados Pontifcios e ajudava

    na difuso de uma imagem humanista do papado (Dyson 2008: 30).

    Vivia-se uma poca em que floresciam os intercmbios entre eru-

    ditos e antiqurios, uma tradio j secular com incios nos finais

    do sculo XV em pases como a Itlia, a Alemanha, a Inglaterra, a

    Frana e a Espanha (Mora 2006: 436; Rocha-Pereira 2008: 48). Entre

    ns, essa tradio parece inaugurar-se no sculo XVI com Andr de

    Resende, que reuniu um nmero considervel de inscries romanas,

    embora desde os comentrios de E. Hbner ao Corpus Inscriptionum

    Latinarum se saiba que nem todas so autnticas (Encarnao 1994:

    193-221; 1997: 51-60; Fernandes 1996: 30-32).

    No sculo XVII, o desenvolvimento do antiquarismo contribuiu

    para enriquecer este dilogo. Uma boa parte da coleco de Frei

    Manuel do Cenculo foi reunida na segunda metade do sculo XVIII,

    ainda antes de ter assumido o arcebispado de vora. Como acontece

    com a grande maioria das antigas coleces, pblicas e privadas,

    no possvel saber-se hoje com exactido a dimenso total da sua

    coleco. Certamente muitas peas se perderam nos sculos XIX e

    XX, fruto de insuficiente registo e da disperso do esplio entre as

    cidades de vora e Beja.

    neste contexto cultural que se deve entender a criao e ape-

    trechamento de bibliotecas, onde se reuniram obras muitas diversi-

    ficadas e percorrendo vastas reas do conhecimento e saber de seu

    tempo, caso de edies coevas de Rousseau, Voltaire, Winckelmann,

    Ulloa, Ustariz, Beccaria, Savary, entre outras (Vaz 2004: 483-498).

    Para o tema em anlise, destaque-se a figura do saxo Johann

    Joachim Winckelmann (1717-1768). Sabemos que Cenculo possua

    na sua biblioteca as principais obras deste seu contemporneo, socor-

    rendo-se dos seus ensinamentos e citando-o abundantemente (BPE.,

    CXXVIII/1-13, n 4317, 18 Junho de 1788, apud Marcad, 1978: 238,

    nota 258). Winckelmann foi um famoso erudito do norte da Alema-

    nha, considerado por muitos como o pai da arqueologia e da histria

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    5

    de arte modernas. Winckelmann estudou a Antiguidade clssica no

    seu pas para depois se mudar para Roma, onde se converteu no bi-

    bliotecrio do cardeal Alessandro Albani (1692-1779), poderoso pre-

    lado e um dos maiores coleccionadores de antiguidades do seu tem-

    po (Rochebrune, 2008: 15). Graas a esse cargo, Winckelmann teve

    sua disposio uma das melhores coleces privadas de antiguidades

    de Roma e beneficiou da estimulante atmosfera de um dos centros

    intelectuais mais importantes da cidade. Mais tarde, em 1763, foi no-

    meado Antiqurio do Papa, ttulo que o converteu no principal res-

    ponsvel pela arqueologia de Roma, at sua morte brutal em 1768.

    A relao de Frei Manuel do Cenculo com a arqueologia deve,

    pois, ser devidamente contextualizada. Vivia-se em Portugal um mo-

    mento privilegiado, com a criao por D. Joo V, da Real Academia

    de Histria, por Real Decreto de 20 de Agosto de 1721. Definia-se,

    pela primeira vez, a verdadeira importncia do patrimnio histrico

    e sublinhava-se a importncia dos monumentos e da cultura material

    no estudo do passado (Caetano 2005: 50). Jos Leite de Vasconcelos

    atribui a esta iniciativa de conservao ex-situ de monumentos an-

    tigos a designao de primeiro museu nacional de Arqueologia.

    Qualquer acto de desattena, negligencia, ou malIcia, era punido

    por este diploma joanino. A tutela das antiguidades encontradas no

    pas passava a ser atribuio da Academia, sendo as Cmaras Munici-

    pais responsabilizadas pela sua salvaguarda. Apoiada financeiramen-

    te por subveno real, a Academia podia decidir pela aquisio de

    novas antiguidades, especialmente no caso dos bens mais sensveis

    como os metais (Brigola 2009: IX). Recorde-se que, apenas dezassete

    anos mais tarde, em 1738, fundada a Real Academia de Histria de

    Madrid, por Real Orden de Felipe V. Desde cedo, estas duas Aca-

    demias, fundadas sob auspcios rgios, tiveram profcuas relaes e

    envolveram contactos entre acadmicos e especialistas, um dos quais

    Cenculo, membro efectivo das duas academias. Para alm destas

    academias, especialmente ligadas ao antiquarismo e arqueologia,

    e s quais Cenculo fez, por diversas vezes, doaes generosas, deve

    ainda realar-se a sua integrao na Academia Literria da Baa, no

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    6

    Brasil, e a sua elevao, em 1812, a membro de honra da Academia

    Real das Cincias (Marcad, 1978: 23; 241, nota 274; 477, nota 228).

    Recorde-se que a criao de Academias era uma prtica em fomento

    na Europa desde o sculo anterior (Patrocnio, 2007-2008: 101).

    Cr-se que na formao de Cenculo, ainda como franciscano, foi

    determinante a sua viagem a Roma para assistir em 1750 ao Captulo

    Geral da sua Ordem de S. Francisco. Nessa viagem, teria usufrudo da

    companhia de seu mestre, D. Frei Joaquim de So Jos, figura impor-

    tante na formao de Cenculo - data ainda um jovem professor de

    Coimbra. Sobre a importncia desta viagem falaremos mais adiante.

    No seu percurso por Espanha, Cenculo ficara impressionado com

    o Gabinete de antigedades de la Real Biblioteca de Madrid e a Uni-

    versidade de Alcal; passou depois para Frana pelo Roussillon, Lan-

    guedoc e Dauphin. Em Itlia entusiasma-se com a Universidade de

    Turim e o Instituto Speculla de Bolonha. Neste priplo, certamente

    imbudo das correntes associadas ao Grand Tour, pde ainda visitar

    outros locais, caso de Badajoz, Crdova, Valncia, Barcelona e Milo.

    A visita e passagem por estes locais enquadravam-se no esprito de

    uma poca em que as viagens deviam ser encaradas como formao,

    meio de enriquecimento do intelecto e convico profunda de que a

    comparao de realidades diferentes desenvolvia as capacidades per-

    ceptveis do indivduo, uma espcie de enriquecimento e de lucidez

    intelectual.

    No regresso dessa viagem, Cenculo ocupar-se- da regncia de

    uma cadeira de Teologia na vetusta Universidade de Coimbra, que

    ocupar desde 1751 at 1755. Como lente desta Universidade, ensi-

    nou aos seus discpulos o estudo das lnguas orientais, tornando-se

    perito no siraco, no aramaico e no rabe, como j o era no grego e

    latim. Mais tarde, em 1957, e aps o regresso a Lisboa como Cronista

    da Provncia Franciscana, j o prelado possua uma razovel coleco,

    que inclua uma srie de inscries e um importantssimo numerrio

    catalogado (Caetano 2005: 50).

    A vasta coleco de numismas por ele reunida enquadra-se

    perfeitamente no esprito da poca. Recordemos o caso da Real

  • 1

    7

    Academia de la Historia de Espanha que, desde os seus incios,

    teve uma especial predileco em recolher e conservar moedas de

    toda a ndole. Mais tarde, nos estatutos de 1792, diz-se inclusivamente

    que o Antiqurio daquela instituio deveria ter particular conoci-

    miento de las antigedades, principalmente la Numismtica (Chaves

    Tristn 2006: 161).

    Outros locais j referidos, como Bolonha e Milo, foram igual-

    mente importantes na formao e gosto de Cenculo. Em Bolonha,

    no Instituto Speculla, para alm da famosa biblioteca, pde no s

    ficar a par do avano cientfico no estudo da astronomia e das ma-

    temticas, como inspirar-se na organizao espacial de salas abertas

    para o claustro do antigo Palazzo Poggi, divididas por reas do saber

    (Caetano 2005: 50). Em Milo, Cenculo teria certamente visitado o

    Imperial Regio Gabinetto Numismatico e a Biblioteca Ambrosiana.

    Nestas visitas certamente apreciou a vasta coleco de moedas do

    Gabinete (vide. Mora 2006: 449) e se maravilhou com a Biblioteca de

    catorze mil manuscritos, setenta e dois mil volumes impressos, me-

    dalhas, esculturas antigas e os desenhos de engenhos de Leonardo

    da Vinci. Influenciado por estes Gabinetes de Antiguidades, Cenculo

    reuniu valiosas coleces de moedas e manteve uma profcua relao

    epistolar com numerosos numismatas (BPE., CXXVII/1-12, ff. 1-58,

    apud Marcad 1978: 23). A mais importante foi saqueada de vora

    nos incios de oitocentos pelas tropas francesas, em data prxima

    recente instalao do Prelado naquela cidade. Desse saque d con-

    ta o prelado, escrevendo um ano depois um emblemtico opsculo

    consagrado ao assalto e ocupao da cidade pelas tropas francesas.

    Sabe-se tambm que teria enviado recente fundada Real Biblioteca

    de Lisboa parte do seu Gabinete Medalstico, de modo a contribuir

    para a constituio de um Gabinete de Antiguidades. Infelizmente

    parte deste esplio tambm se perdeu (Domingos 2006: 12), ainda

    que algumas peas tivessem transitado para os primeiros ncleos do

    Museu Etnolgico (Patrocnio 2006: 33).

    Nesta poca, o coleccionismo de moedas estava de facto em

    voga. A propsito, interessante lembrar o papel de Dona Teresa

  • 1

    8

    Maria Cristina (1822-1889), princesa das Duas Siclias, irm de Fer-

    nando II, rei de Npoles, e esposa do ltimo Imperador do Brasil,

    Dom Pedro II de Bragana. Segundo se cr (Mora 2006: 435-457),

    parte da vasta coleco de numismtica de Dmazo Puertas lva-

    rez, mdico do XIV Duque de Alba, acabaria por ser adquirida pela

    futura Imperatriz do Brasil (a outra parte foi adquirida pelo Mada-

    gliere Vaticano no dia 13 de Dezembro de 1841). A ela se deve a

    maior parte do esplio de antiguidades depositado no Palcio Real

    da Quinta da Boa Vista, em So Cristovo, Rio de Janeiro, actual

    Museu Nacional de Belas Artes daquela cidade. Para alm dos

    numismas, a coleco de antiguidades compreende cerca de 730

    objectos da Magna Grcia, etruscos, gregos e romanos (cermica,

    terracota, vidro, bronzes, mrmores como uma magnfica cabea

    de Antnoo), provenientes das escavaes que a futura imperatriz

    realizou na cidade etrusca de Veios e dos fundos do Museu Real

    de Npoles, muitos certamente das cidades romanas de Pompeia e

    Herculaneum, enviados para o Brasil pelo seu irmo Fernando II a

    pedido da Imperatriz.

    No contexto do coleccionismo em Portugal no tempo de Cencu-

    lo, no demais lembrar a figura de D. Pedro de Sousa e Holstein,

    futuro primeiro Duque de Palmela. Conhecido entre ns como uma

    das grandes figuras da cultura e do liberalismo portugus, foi tam-

    bm um destacado poltico, desempenhando altos cargos diplomti-

    cos no Pas e no estrangeiro, e um mecenas e coleccionador de arte

    (Rocha-Pereira 2008: 49). Parte da sua coleco, como no caso dos

    vasos gregos, teve como origem as aquisies feitas pelos seus an-

    tepassados, D. Manuel e D. Alexandre M. Pinto de Sousa e Holstein,

    e tero dado entrada em Portugal no muito depois de 1834, aps a

    subida ao trono de D. Maria II, a cujo primeiro governo constitucional

    ele presidiu (id. ibidem). Nos documentos oficiais que referem as ex-

    portaes de objectos pela Espanha, podemos constatar a natureza

    e a quantidade de materiais e respectivos custos. Do vasto elenco das

    pessoas mencionadas nestes documentos consta D. Pedro de Sousa e

    Holstein. A se alude que, no dia 31 de Agosto de 1804, D. Pedro teria

  • 1

    9

    adquirido a mando de S. M. Fidelssima quatro pequenas mesas em

    couro e uma estatueta moderna por 95 escudos, peas a serem expe-

    didas por via martima (Venetucci 2006: 510). Tambm este diplomata

    visitou, em 1805, muitos locais em voga j naquela poca, como o

    caso de Npoles e do Vesvio. Destaque-se, pelo seu significado, a

    viagem de D. Pedro a Roma, como se pode apreciar neste pequeno

    texto da sua autoria:

    O interesse que excitaram no meu nimo os passeios que,

    com meu pai e os mais clebres antiqurios de Roma, eu dava

    quase diariamente, visitando as runas da capital do mundo,

    aumentava com a leitura que nesse tempo comeava a fazer da

    Histria Antiga e Romana (apud Ventura 2001: 45).

    O passo que acabamos de citar revela bem o panorama cultural

    ento vivido. Cenculo teria certamente vivenciado e usufrudo das

    oportunidades que Roma oferecia, um dos lugares sagrados da cul-

    tura clssica. No se tratava de uma viagem exclusivamente de lazer

    mas, antes um itinerrio formativo em que tudo era meticulosamente

    planificado. Os vestgios do Imprio romano, como o Coliseu, o Pan-

    teo ou os fora, fascinavam os recm-chegados.

    Tambm Cenculo nos deixa uma viva impresso da j referida

    viagem a Roma que efectuou com o seu mestre, D. Frei Joaquim de

    So Jos:

    A Viagem a Roma em o anno de sincoenta, em que acom-

    panhei o sbio Mestre Fr. Joaquim, me far sempre apregoar

    em quaesquer ramos de litteratura, que foi huma disposio

    efficacssima para o bem das lettras na Provncia. As famo-

    sas Bibliothecas, que se presentro nossa curiosidade nas Ci-

    dades eruditas da nossa passagem, levantro milhares de ideas

    que se comearo a produzir, e como o tempo hia permittindo.

    Dava-se lugar, entre livros que pouco mais se haverio de ler, a

    obras de novo gosto (apud Caeiro 1959: 35-36, nota 72).

  • 2

    0

    A visita a Itlia era fundamental. A viagem pelas cidades italianas

    proporcionava aos seus visitantes uma espcie de museu ao ar livre,

    pela quantidade de obras de arte, pelo ambiente luminoso e pelas

    runas que testemunhavam um passado formidvel. A visita a Itlia re-

    presentava tambm uma oportunidade para usufruir dos ainda vigen-

    tes ideais Renascentistas e de um ambiente musical nico, em particu-

    lar nas suas formas teatrais (Ercoli 2008: XIX-XX). possvel que esta

    viagem tenha despertado em Cenculo o contacto que ao longo da

    sua vida ir manter com alguns dos intelectuais da poca que viviam

    em Itlia. o caso da relao epistolar com Leonor da Fonseca Pi-

    mentel (1752-1799), conhecida como a Portuguesa de Npoles, uma

    napolitana de origem portuguesa e figura multifacetada, empenhada

    em diversas reas (desde a literatura ao jornalismo e poltica), e que

    ficou na histria por ter defendido ideais liberais que conduziram

    Revoluo e instaurao da breve Repblica Napolitana.

    De todas a cidades italianas, Roma era efectivamente a mais im-

    portante. O centro ecumnico da religio catlica, a capital da arte

    ocidental, o lugar indiscutvel da formao artstica internacional,

    uma das mais acabadas expresses do Iluminismo Catlico, no dizer

    de Francisco Gama Caeiro (1959: 38). A, Cenculo teria usufrudo

    da convivncia e da permuta de ideias que a ocorrncia de sbios

    a Roma, por altura do Jubileu Universal, permitia. Assim o indica o

    prelado quando declara que ali se viam e ouviam muito Escritores

    da ordem, muitos Prelados prudentes e circunspectos, muitos vares

    doutssimos, muitos Religiosos de virtudes, muitos Mestres e Doutores

    Egrgios e final.te todo o bom da Famlia Serfica (apud Caeiro 1959:

    44, nota 94).

    Na obra de Arnaldo Pinto Cardoso sobre A presena portuguesa

    em Roma (2001), constata-se que esta cidade foi destino regular de

    sucessivas geraes de portugueses que, desde a fundao da Nacio-

    nalidade, ali se deslocavam como peregrinos, como refugiados ou em

    misses diplomticas para defender os interesses da Coroa. A Roma,

    desde os finais do sculo XIV, de maneira crescente, dirigiam-se os

    artistas, os arquitectos e os literatos, como imprescindvel fonte de

  • 2

    1

    inspirao e modelo a imitar e igualar. As suas runas monumentais e

    as obras de arte, expostas ou encontradas no decurso das incessantes

    intervenes urbansticas papais, no cessavam de espantar e de re-

    presentar um estmulo no estudo das antiguidades, bem como sua

    interpretao e conservao (Arata 2008: 61). No final de setecentos,

    Roma no era s a capital do Catolicismo mas tambm, e sobretudo,

    o centro da difuso do conhecimento do Antigo.

    Para Cenculo a via arqueolgica era um modo de reconhecer as

    razes e as origens do povo lusitano, quer atravs dos heris gregos

    ou da herana romana, quer atravs do orientalismo, como cono-

    tao bblica, neste caso como contraposio ao clssico (Patroc-

    nio, 2007-2008: 102). Lembre-se, a propsito, uma frase de Cenculo

    numa carta datada de Maro de 1791, dirigida a um seu correspon-

    dente e confrade, ento em Goa, Padre Rodrigo de S:

    a Vossa Senhoria/ hei de comunicar couzas, e coizas; mas

    para isto na basta ser viajor intellectual; e gostaria vendo o em/

    realidade de encontrar aqui as minhas rarssimas lapides he-

    braicas, grega e ao que muito mais, fencias/ achadas no meo

    Territorio (apud Patrocnio 2007-2008: 100).

    A actividade de arquelogo coincide com a posio de coleccio-

    nador de antiguidades. Como j se referiu, foi em Beja, entre as dca-

    das de 1770 e 1780, que Cenculo teve tempo, condies e territrio

    para se dedicar de corpo e alma s suas coleces e sobretudo s

    tarefas de recolhas arqueolgicas (Caetano 1995: 50).

    A memria de algumas dessas recolhas e dos passeios arqueol-

    gicos pelo sul e litoral alentejanos pode ser lida nalgumas das suas

    cartas e de vrios outros textos, entre eles os Cuidados Literrios do

    prelado de Beja em Graa do seu Bispado [Cenculo 1791] e o Album

    de antiguidades lusitanas e luso-romanas () de D. Frei Manuel

    do Cenculo Villas-Boas: Lpides do Museo Sezinando Cenaculano

    Pacense (apud Patrocnio 2006: 20). Nesta ltima obra constavam

    peas provenientes de Beja, Baleizo, Santa Margarida do Sado,

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    2

    Torro, Trigaches, Beringel, Lisboa, Quintos, Moura (Santo Amador),

    S. Miguel do Pinheiro, Santiago do Cacm, Mrtola, Ourique, Tavira,

    Sines, Tria e Setbal (BPE cod. XXXIX / 1-14; apud Caetano 2005: 53).

    Como coleccionador de antiguidades e pelas suas actividades ar-

    queolgicas, Cenculo pode ser considerado o primeiro arquelogo

    portugus. Foi efectivamente o primeiro a utilizar a escavao arque-

    olgica, comeando pela escavao da Oppidum de Cola (prximo de

    Ourique, Alentejo). As suas descobertas foram inclusivamente dadas

    a conhecer na obra Monumenta Linguae Iberae, publicada em 1793.

    Depois de uma actividade inicial ligada ao coleccionismo, Cen-

    culo, interessar-se- pelo estudo dos elementos arqueolgicos entre-

    tanto reunidos. Como referimos, os incios de uma actividade que po-

    deremos classificar de arqueolgica d-se em Beja, sobretudo com

    a inteno de valorizar a cristianizao do territrio. Neste contexto,

    encetou descobertas e reuniu uma srie de peas de diferentes cate-

    gorias. No se trata, porm, de um acto isolado. Sobre um pano de

    fundo ecltico, comum aos tericos portugueses da segunda metade

    do sculo XVIII e, em boa medida, s vrias correntes europeias das

    Luzes, Cenculo pretendeu consolidar e revalorizar a arte crist pri-

    mitiva, postulada pelo Romantismo.

    Num contexto em que a Igreja sofria duros ataques resultantes

    das ideias de uma arqueologia romntica e positivista, em particular

    no que s origens do homem diz respeito, os responsveis religiosos

    passaram tambm a usar a arqueologia para reafirmar a sua antigui-

    dade e a sua legitimidade. Na vizinha Espanha contamos com vrios

    exemplos. Destaque-se em particular pela sua contemporaneidade

    com Cenculo - o prior do Convento de Santiago de Ucls, Antnio

    de Tavira y Almazn que promoveu nas ltimas dcadas do scu-

    lo XVIII escavaes na baslica de Segrbriga (ainda no identificada

    como tal) e descobriu as tumbas dos bispos Sefronio e Nigrino (Maier

    Allende 2006: 299-349).

    Esta ideia est bem expressa na obra de Christopher Woodward,

    In Ruins (trad. do ital. 2008: 87), quando refere que no cristianis-

    mo a morte do indivduo era um preldio necessrio ressurreio.

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    3

    As runas eram uma metfora perfeita para este processo; as ru-

    nas de Roma eram um memento mori em escala colossal. Como

    ainda refere o autor (Woodward 2008: 88), foi como smbolo da

    vitria crist que os artistas do Renascimento italiano comearam a

    pintar as runas clssicas. Monumentos clssicos em runas no fundo

    de obras de arte como o Martrio de So Sebastio de Pollaiuolo e a

    Natividade de Botticelli simbolizam a passagem do mundo pago no

    momento do nascimento de Cristo, e a vitria dos mrtires sobre os

    seus assassinos.

    Num estudo de Catlogo de Joaquim Oliveira Caetano, intitula-

    do Os restos da Humanidade. Cenculo e a Arqueologia (Caetano

    2005: 48-56), d-se a conhecer parte da actividade arqueolgica e

    pioneira de Cenculo. Deste autor, tomamos vrias informaes.

    O esplio arqueolgico que vinha sendo recolhido por Cenculo,

    caso das moedas e medalhas, serviam como prova de antiguidade da

    presena humana no territrio alentejano por hebreus, fencios e p-

    nicos. A propsito de um conjunto de moedas Samaritanas fencias

    recolhidas em Tria e oferecidas pelo desembargador Joo Vidal de

    Souza, escreve Cenculo:

    parece que estas medalhas da extremidade litoral de meo

    Bispado outro tanto provo de nossos Maiores. Eu creio que ellas

    tem muita energia. Unidas a outros monumentos descubertos por

    meo cuidado no Territorio desta Igreja fazem alguma parte dos

    dezejos diligentissimos na averiguao das antiguidades mais

    remotas do mundo, que nestes dias cultivam, e adianto beneme-

    ritamente sbios respeitaveis.

    Vrios so os locais escavados com o patrocnio de Cenculo,

    ou realizados por amigos e correspondentes que lhe fornecem os

    materiais e os relatrios para o seu estudo. o caso das necrpoles

    descobertas na Herdade do Raco (prximo de Cercal do Alentejo),

    em Sines, na Herdade do Roxo (Alvalade, Santiago de Cacm), e

    das escavaes continuadas em Tria, Beja e Almodvar (Caetano

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    4

    2005: 51). Noutros locais, como na Herdade da Continha (prximo

    de Almodvar) e no Monte de Goes (S. Miguel do Pinheiro, Mrtola),

    recolhe e desenha lpides de chamada escrita do sudoeste. Noutros

    casos, ele prprio dirige as escavaes, como em Foz da Junqueira,

    nas proximidades de Sines, e em Tria (Marcad 1978: 244). Em

    Tria, local que identificou como Cetobriga, estranha um achado em

    particular, uma lucerna paleocrist qual d o seguinte significado:

    Offerece o mesmo stio de Tria outro monumento de ali se

    conservarem os Netos de No, e consiste em huma Lanterna Se-

    pulcral como mostra a Fig. N. 7 em memria dos Espias de Je-

    ric, porque no he somente hum caxo ordinario de uvas, como

    se v nas medalhas de Acinipo, mas sim huma bem avultada

    pendura de uvas, como se v nas Medalhas de Acinipo; mas sim

    huma bem avultada pendura de uvas, e trazida em hombros de

    dois homens como costumo figurar-se os de que falla a Sagrada

    Escritura de Jeric, e vem debuxados na Physica Sacra. Tal no

    he a postura em que se costumo pr os ministros de Baco em

    suas imagens (Cenculo 1946: 238).

    Esta lucerna serviu para evocar mais uma vez a tradio orientali-

    zante to cara a Cenculo (Patrocnio, 2007-2008: 103). Tria, en-

    tendida a cidade romana de Cetobriga, teria sido fundada por Tubal,

    um neto de No. A lucerna era um testemunho da cultura material

    deixada por povos antigos vindos do oriente que teriam usado este

    local costeiro como porta de entrada para as regies alentejanas.

    Mas Beja o local privilegiado das suas prospeces. Recolhe das

    muralhas vrias lpides e pedras romanas, mouriscas e godas; refe-

    re os capitis do templo; menciona a descoberta de vidros romanos

    e esttuas, caso do relevo com Hrcules em Repouso e a j referida

    esttua sedente feminina que identifica como Cibele (Cenculo 1946:

    441; apud Caetano 2005: 53).

    Cenculo beneficiou ainda de uma vasta rede de contactos que

    lhe forneciam novidades das ltimas descobertas. o caso das

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    5

    escavaes de Estremoz (no outeiro do Castelo na Ribeira de Anna

    Loira), das inscries de Idanha-a-Velha, das aras descobertas na Igreja

    de Terena, da descoberta de Mirbriga (Caetano 2005: 53) e de

    Quintos, a sudoeste de Beja, na via Beja-Mrtola, que seguia o trajecto

    da antiga via romana Pax Iulia-Myrtilis (Marcad 1978: 243). Jos

    Leite de Vasconcelos, ao publicar no Archeologo Portuguez (1985:

    338-386) algumas das notas manuscritas de Cenculo, refere que

    um tal Francisco Jos Agoas, proprietrio da Herdade de Alvalade

    (Santiago de Cacm), teria enviado ao prelado trs lucernas encontra-

    das naquele local (Marcad 1978: 243, nota 290).

    A par das coleces e da sistemtica recolha de objectos de inte-

    resse arqueolgico, Cenculo reuniu ainda um considervel conjunto

    temtico de livros que versavam sobre Antiguidades e Arqueologia.

    Prestou, enquanto prelado, uma ateno especial retrica e elo-

    quncia, seguindo as regras elementares da potica do classicismo,

    num claro compromisso entre o padro clssico e os princpios da

    retrica crist, definidos por Santo Agostinho. A este propsito redi-

    giu um programa de leituras, para os novios do Convento de So

    Francisco e depois para os seminaristas do Seminrio de Beja, em

    que privilegiou a retrica e os autores clssicos, caso de Quintiliano,

    Horcio, Terncio, Virglio, Tito Lvio, Ovdio, entre outros (Vaz 2004:

    483-498).

    Na j referida Biblioteca Real Mesa Censria - futura Real Bibliote-

    ca Pblica da Corte, iniciada nos anos 1770-1775 e aberta ao pblico

    no dia 13 de Maio de 1797, data do aniversrio do Prncipe Regente

    - incluram-se catlogos de coleces e de museus arqueolgicos e

    sries de gravuras, como destaque para as de Giovanni Battista Pira-

    nesi, com os Carceri dinvenzione e as Vedute di Roma (Domingos

    2006: 31).

    A pintura de paisagens viveu um grande momento em Itlia graas

    procura encetada pelos viajantes do Grand Tour. Os monumentos

    da antiga Roma eram os temas preferidos pelos numerosos pintores

    deste gnero, entre os quais Piranesi (1720-1778), de origem venezia-

    na, afamado artista e antiqurio que se especializou como ilustrador e

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    6

    gravador de cenas romanas. A maior parte da sua produo consistia

    em vedute (vistas), composies de monumentos antigos e contem-

    porneos dirigidos ao mercado turstico de elite. Alm das vedute,

    que se podiam adquirir soltas ou em srie, Piranesi realizou tambm

    rigorosos estudos sobre arquitectura romana que incluiu no seu trata-

    do de 1756 Antichit romane (Dyson 2008: 28). Numa poca em que

    a fotografia ainda no existia, a pintura, em particular as vistas das

    paisagens e runas, converteu-se em objecto de prestgio.

    Muito fica por dizer sobre Cenculo. Num relatrio datado de 5

    de Janeiro de 1796, Antnio Ribeiro dos Santos, lente de Coimbra e

    ex-bibliotecrio de Cenculo, d conta do estado lastimvel a que

    tinham chegado os mais de 50.000 mil volumes reunidos por este,

    entre os quais livros excelentes e de alto custo e muitas coleces

    de obras valiosas principalmente de Histria Literria, Crnicas Portu-

    guesas, tradues de Clssicos Gregos e Latinos (apud Domingos

    2006: 38).

    * * * * * * * * * * * * *

    Qualquer que seja o tema em debate sobre esta figura mpar do

    Portugal de setecentos, ficamos com a sensao de incompletude.

    Para termos uma pequena noo do volume de documentao de

    Cenculo (e sobre Cenculo), basta consultar a resenha apresentada

    no final da obra de J. Marcad, publicada em 1978 sobre a chancela

    da Fundao Calouste Gulbenkian. Que este breve apontamento sirva

    de inspirao para um futuro estudo sobre Cenculo no contexto dos

    primrdios do coleccionismo em Portugal. 1

    * Nota: Texto publicado em 2009 na revista CADMO, n.19, do Centro de Histria da Universidade de Lisboa, 209-228.

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    7

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    tura. Parma (trad. italiana).

  • 2

    9

    a CoLECo DE LuCERNas RomaNas Do musEu DE VoRa

  • 3

    1

    A Jos Carlos Caetano que deveria ter escrito este estudo

    Das coleces de lucernas reunidas no Museu de vora, estuda-se

    um conjunto de vinte e dois exemplares de poca romana. Com

    excepo da lucerna n 19, as lucernas aqui apresentadas constam das

    fichas de museu como provavelmente pertencentes coleco do

    famoso arcebispo Frei Manuel do Cenculo de Villas Boas (1724-

    1814). Grande parte foi catalogada no longnquo ano de 1890, data

    do inventrio sobre a coleco da Biblioteca Pblica, elaborado por

    Antnio Francisco Barata. Nas fichas do Museu consta ainda a seguinte

    referncia: A 1 de Maro de 1915 estas lucernas foram transferidas

    com a restante coleco para o Museu de vora. A lucerna n 19,

    acima referida, possui uma etiqueta no fundo externo com a seguinte

    indicao: Lucerna de bico redondo / Necrpole romana / do Vale

    do Gato / S. Pedro do Corval / oferta / Dr. Jos P. Sousa Alves.

    Grande parte desta coleco, dezasseis lucernas, foi estudada

    e publicada no remoto ano de 1953, por D. Jos Antnio Ferreira

    de Almeida, na Nova Srie do Arquelogo Portugus. Em data mais

    recente, 2005, Jos Carlos Caetano reclassifica seis exemplares e

    apresenta um exemplar indito no catlogo Imagens e Mensagens.

    Escultura Romana do Museu de vora. Deste conjunto apenas

    permanecem inditas quatro exemplares, aqui registadas com os

    nmeros 14, 16, 19 e 21. As restantes foram, no entanto, motivo de

    reapreciao e, nalguns casos, de reclassificao.

    Do conjunto de vinte e duas lucernas, apenas metade de fabrico

    peninsular. As lucernas importadas fora da Pennsula, com excepo

    do exemplar fragmentado n 22 oriundo do centro da actual Tunsia,

    so de fabrico itlico. Destas, apenas o exemplar n 1 proveniente

    do norte da Itlia, as restantes so de fabrico centro-itlico. As pro-

    dues peninsulares esto maioritariamente representadas por

    produtos lusitanos, com fabrico e acabamentos comuns na regio

    alentejana, particularmente em torno de vora. Saem deste conjunto

    as lucernas n 11 e 12, provavelmente fabricadas na rea meridional

    e sudoeste da Pennsula.

  • 3

    2

    A nvel formal predominam as lucernas de bico redondo, com

    cinco exemplares importados do centro de Itlia e oito exemplares

    de fabrico lusitano, provenientes de pequenas oficinas alentejanas,

    integradas nas lucernas derivadas de disco pelas suas caractersticas

    atpicas.

    Seguem-se as lucernas de volutas, com cinco exemplares, todas

    elas de fabrico itlico e as mais antigas de toda a coleco.

    As restantes lucernas esto representadas por um exemplar.

    o caso da lucerna de Tipo Andjar, derivada da Dressel 3, da

    lucerna Mineira, derivada da Dressel 9, da lucerna atpica de fabrico

    alentejano e do famoso fragmento paleocristo encontrado em Tria,

    do Tipo Atlante X B, grupo C2 (Bonifay Tipo 54).

    Do conjunto das lucernas desta coleco seis apresentam marca.

    Com excepo da lucerna n 9, que assinala no infundibulum a letra

    B, as restantes possuem a habitual marca no fundo externo, duas das

    quais anepgrafas, caso da n 10 e 12. O exemplar n 7 de difcil

    leitura devido deteriorao da pea.

    Menos problemticas so as marcas das lucernas n 3 e 13.

    A primeira corresponde conhecida marca COPPIRES e a segunda

    abreviatura MV, para a qual no encontrmos paralelo. O oleiro C.

    Oppius Restitutus foi um dos mais profcuos fabricantes de lucernas,

    com os seus produtos difundidos por todo o Imprio. O mesmo se

    pode dizer das imitaes, fruto de remoldagens, feitas por pequenas

    oficinas provinciais que reproduziam os seus produtos. A sua oficina

    situava-se no Monte Janculo, em Roma (Bailey 1980: 99), embora

    se pense que ter existido uma sucursal da sua oficina no norte de

    frica (em especial Bailly 1962: 91-92). A abreviatura presente no

    exemplar n 13 habitual naquele tipo de lucernas, em particular

    nas produes do actual territrio portugus (Morais 2005) com

    destaque para a regio alentejana em torno de vora (Caetano 2005:

    105, n 56).

    Para a anlise iconogrfica das lucernas desta coleco seguimos a

    classificao de Loeschcke (1919), actualizada por Bailey (1980), que

    estabelece cinco grupos principais de decoraes: I. Religio e mito;

  • 3

    3

    II. Personagens histricas; III. Vida quotidiana; IV Fauna; V. Plantas e

    desenhos florais. Numa rpida anlise constata-se que predominam

    os temas iconogrficos do grupo I e esto ausentes decoraes do

    grupo II.

    O grupo i integra seis lucernas, uma com a representao de Eros

    (n 1), duas com a imagem da Deusa Diana (n 4 e, provavelmente, 19)

    e a personificao da Vitria (n 2 e 14) e outra com a representao

    do tema da Terra de Cana (n 22).

    Nas lucernas, Eros1 representado vezes sem conta e, por vezes,

    associado aos seguintes motivos: a acompanhar Jpiter na sua visita

    a Leda; a brincar com a pele de leo e a clava de Hrcules; a brincar

    com a armadura de Marte ou a ctara de Apolo; a segurar uma tocha

    ou a enxotar uma serpente; a descansar ou a tirar um espinho do p;

    a navegar ou a pescar (Bailey 1980: 20-24) ou tocando flauta no dorso

    de um golfinho (Alarco e Ponte 1976: 79, n 4, Est. I).

    A representao da deusa Diana2 tambm muito frequente

    em lucernas. A imagem de Diana caadora com co aparece

    tambm em moedas de Antonino Pio (Cohen 204) e, ligeiramente

    diferente, em denrios de Nerva (Cohen 40; RIC, 11), datados de 96

    (Boube 1999: 108, 179).

    A personificao da Vitria tambm usual em lucernas. Mercedes

    Vegas (1966: 81) e Amar Taffala (1984: 29 e 1987: 46) sugerem que

    a representao da Vitria - tal como surge nos exemplares em

    estudo - se inspirou num modelo colocado por Octaviano na Curia

    Iulia depois da vitria de Actium, posteriormente reproduzida em

    denrios do Prncipe.

    1 Eros (Cupido no panteo romano), gnio, deus do amor, filho de Afrodite-Vnus e de Zeus, Hermes ou Ares, conforme as verses era extremamente popular na iconografia romana. um personagem irrequieto e irreverente, interferindo com a vida dos humanos e, inclusivamente, dos deuses.2 Filha de Jpiter e de Latona e irm gmea de Apolo (a Artmis grega), era a deusa da lua e da caa, responsvel pela proteco das florestas e dos animais selvagens e da caa. A deusa virgem, protectora das mulheres nos partos, mas tambm malvola e vingativa, vitimando alguns mortais com as suas setas. Ao contrrio da representao iconogrfica de outros deuses, Diana frequentemente representada com um arco e flecha, sozinha ou acompanhada por uma cora.

  • 3

    4

    O tema da Terra de Cana ilustrado na parte superior da lucerna

    paleocrist bem conhecido e vem referido no Velho Testamento3.

    No esplio documental de Cenculo4, em que se concentram os

    apontamentos de levantamento arqueolgico, faz-se referncia a esta

    lucerna como uma lanterna sepulcral. Segundo estes apontamentos

    foi recolhida em Tria e interpretada como uma pea oriental,

    alegadamente associada primeira edificao de Cetobriga ( data

    entendida como Tria), cidade fundada por Tubal, um neto de No.

    semelhana da Terra de Cana, Tria era o porto de chegada

    para os que se acercavam das regies alentejanas, espera da luz

    brilhantssima. Para Cenculo, esta lucerna era um sinal da presena

    dos Hebreus neste territrio (Leite de Vasconcelos 1895: 338-343;

    Fabio 1989: 20; Maciel 1996: 202-212; Patrocnio 2006: 27; 2008: 103).

    O grupo iii est representado nesta coleco por duas lucernas

    com a representao de mscaras teatrais (n 3 e 20) e uma cena

    ertica (n13).

    As mscaras teatrais so muito frequentes na iconografia romana,

    principalmente nas lucernas. O mesmo se poderia dizer relativamente

    s cenas com representaes erticas, nas mais variadas verses. No

    o caso do exemplar aqui ilustrado, cuja cena no encontrmos paralelo:

    na decorao v-se, esquerda, um cavaleiro, possivelmente nu, monta-

    do num cavalo e com uma mulher nos braos e posicionada de frente.

    Tratar-se- de um rapto ou simplesmente de uma cena ertica?

    Os grupos iV e V esto documentados apenas por dois exemplares

    cada. Para o tema da fauna temos a possvel representao de um urso5

    3 Cana era uma regio que se estendia de Sdon a Gaza, na costa Leste do Mediterrneo, a oeste do rio Jordo, local sagrado inmeras vezes retratado no Velho testamento. Nesta lucerna representa-se o tema dos exploradores de Cana, Hebreus enviados por Moiss quela regio que regressaram com um cacho de uvas provando a fertilidade da terra. A, o leite, o mel e as uvas abundavam e o vinho servia para saciar a sede. Tal era a riqueza e exuberncia da produo que seriam necessrios trs a quatro homens para transportar, entre varas, um nico cacho de uvas! (Morais 2008: 17). 4 Album de Antiguidades lusitanas e luso-romanas de D. Frei Manuel do Cenculo Villas-Boas () BPE COD CXXIX/ 1-14.5 O urso fazia parte dos jogos de anfiteatro, quer em venationes, quer como executante de sentenas de morte. Eram tambm usados em espectculos circenses como danarinos e equilibristas.

  • 3

    5

    (n 9) e de uma vieira (n 11), decoraes frequentes em lucernas.

    So tambm abundantes em lucernas os motivos alusivos a plantas

    e motivos florais, aqui ilustrados por uma coroa simples circular (n

    6) e uma coroa de louros (n 8). Destaque-se esta ltima, cujo signifi-

    cado est associado s vitrias desportivas ou guerreiras6.

    Fora desta apreciao, ficam trs lucernas, duas delas pela di-

    ficuldade de discernir o tipo de decorao, dada a fractura (n 7) ou

    o grau de impreciso da decorao, muito tosca e grosseira (n 16).

    Enigmtica, no momento, a decorao da lucerna n 21, de fabrico

    local e forma desconhecida, decorada na face superior por uma figu-

    ra feminina em relevo, representada com corpo curvilneo e modela-

    do em forma de S.

    6 Trata-se, na sua origem, de um atributo oferecido aos atletas que venciam nos jogos Olmpicos. Disso mesmo nos d conta Herdoto (8.26), quando refere que o nico prmio dos atletas era a concesso de uma coroa de oliveira brava. No mundo romano, associamos a coroa de louros a Jlio Csar, que a usou frequentemente aps lhe ter sido oficialmente atribuda pelo Senado depois dos seus triunfos. Com o mesmo esprito a coroa de louros foi muitas vezes representada nos bustos dos imperadores das dinastias imperiais.

  • 3

    6

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    7

    CaTLoGo

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    Compr.: 83 mm;Larg.: 62 mm.

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    Forma: Lucerna de volutas.Tipo: Loeschcke IC.Produo: Norte de Itlia.Difuso: Ampla difuso nas provncias romanas do ocidente (ainda que pouco frequentes na Pennsula).

    Descrio: Parte superior incompleta de lucerna de volutas. Orla es-treita, reentrante, separada do disco por duas molduras que definem

    duas caneluras concntricas. Disco cncavo, com orifcio de alimenta-

    o lateral, direita. No disco um Eros nu com turbante, direita; est

    posicionado de frente (a trs quartos) e segura na mo esquerda uma

    concha e na direita a clava de Hrcules. Rostrum fracturado, vendo-se parte das volutas e do orifcio de iluminao.

    Cronologia: Nero/Flvios incios do sc. II (auge nos meados do sc. I).

    Bibliografia: Almeida 1953: Est. XXXII, n 53; 155; Caetano 2005: 104, n 54.

    observaes: O mesmo motivo em Loeschcke (1919, Pl. 5, n 22) e Deneauve (1974: 151; Pl. LX, n 588) e no catlogo do Museu de Arles

    (Petitot 2000: 54, n 75) e de Cosa (Fitch e Goldman 1994, n 105-107,

    Fig. 61, n 504; Pl. III).

    N.i.: ME 5029.

    1

  • 4

    0

    alt.: 28 mm; Compr.: 104 mm; Larg.: 64 mm.

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    1

    Forma: Lucerna de volutas.Tipo: Loeschcke III.Produo: Itlia Central.Difuso: Todo o Imprio, embora pouco abundantes.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica com dois rostra arredondados. Orla plana de pequenas dimenses, separada do disco por uma larga moldura que define duas caneluras concn-

    tricas. Disco cncavo, com orifcio de alimentao lateral, es-

    querda. O disco est decorado com uma Vitria de p, sobre o orbis, com asas abertas elevadas altura da cabea. A Vitria, enverga um

    peplos com apotygma e segura no seu brao esquerdo uma palma at cima e, com o brao direito levantado, ostenta uma pequena coroa de

    louros. Dois rostra arredondados com volutas duplas, separadas por molduras semicirculares que se unem no eixo do bico, com orifcios

    de iluminao. Sem asa plstica. Base ligeiramente cncava, delimita-

    da por um sulco concntrico.

    Cronologia: 1 metade do sc. I / incios sc. II (auge na 1 metade do sc. I).

    Bibliografia: Pereira 1947: 130-131; Caetano 2005: 106, n 58.observaes: Este motivo foi muito usado no perodo alto-imperial, em particular no sculo I.

    N.i.: ME 5047.

    2

  • 4

    2

    alt.: 25 mm; Compr.: 94 mm; Larg.: 67 mm.

  • 4

    3

    Forma: Lucerna de volutas.Tipo: Loeschcke IV.Produo: Itlia Central.Difuso: Ampla difuso nas provncias romanas do ocidente.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica. Orla es-treita e lisa, ligeiramente inclinada para o exterior. A transio para o disco faz-se por trs molduras que definem trs caneluras concntri-

    cas. Disco cncavo, com orifcio de alimentao central, praticamente

    no eixo da lucerna, junto ao rostrum. O disco est decorado com mscaras de actores, a da esquerda corresponde a um jovem e a da

    direita a um homem barbado; entre as mscaras um krter. Rostrum triangular com volutas pouco destacadas e orifcio de iluminao.

    Base circular plana, limitada por uma moldura concntrica, com mar-

    ca de oleiro incisa.

    marca: COPPIRESCronologia: 90-120.Bibliografia: Almeida, 1953: Est. XXXII, n 47; 155; Balil 1968: 168; Caetano 2005: 104, n 53.

    observaes: No depsito votivo de Santa Brbara, Castro Verde, recolheram-se trs exemplares (n 314-316) do mesmo tipo e com a

    mesma decorao (Maia e Maia 1997: 96). possvel que o exemplar

    ilustrado (n 314) no catlogo dedicado a este depsito possa ter

    provindo da mesma oficina e, inclusivamente, do mesmo molde.

    O mesmo de uma outra lucerna que figurava no Catlogo de vendas

    da Bonhams (Thursday 26 April 2007. 149-150, n 391).

    A marca cavada deste exemplar parece indicar que esta lucerna po-

    der datar a partir de 90 e os incios do reinado de Trajano (Caetano

    2005: 104, n 53).

    N.i.: ME 5028.

    3

  • 4

    4

    alt.: 23 mm; Compr.: 85 mm; Larg.: 70 mm.

  • 4

    5

    Forma: Lucerna de volutas.Tipo: Loeschcke IV.Produo: Itlia Central.Difuso: Ampla difuso nas provncias romanas do ocidente.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica. Orla estreita, plana e lisa, parcialmente fragmentada na parte superior e no

    lado esquerdo. A transio para o disco faz-se por uma moldura que

    define duas caneluras concntricas. Disco cncavo, com orifcio de

    alimentao central no eixo da lucerna, na proximidade do rostrum. O disco est decorado com a deusa Diana com chiton drapejado, de perfil e virada direita, com o brao esquerdo estendido segurando

    o arco e o direito dobrado por detrs da cabea para tirar uma seta

    da aljava. A acompanh-la, e sua frente junto aos ps, um co em

    corrida direita. Rostrum triangular, com volutas pouco destacadas, com orifcio de iluminao ausente por fractura. Orifcio de areja-

    mento assinalado junto voluta esquerda, mas sem perfurao. Base

    circular, ligeiramente cncava, limitada por uma canelura concntrica.

    Cronologia: Nero/Flvios meados do sc. II.Bibliografia: Almeida 1953: Est. XXXII, n 54; 155-156; Caetano 2005: 105, n 55.

    observaes: Motivo idntico em lucerna do mesmo tipo no catlogo das lucernas de Mrida de F. Germn Rodrguez Martn (2002: 57, n

    38; Fig. III; Lam. XII, n 45). A mesma forma e a mesma decorao

    em duas lucernas de Santa Brbara, Castro Verde, uma possivelmente

    original e outra resultante de uma remoldagem (Maia e Maia 1997:

    47, n 8 e 9).

    N.i.: ME 5030.

    4

  • 4

    6

    alt.: 65 mm; Compr.: 125 mm; Larg.: 83 mm.

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    Forma: Lucerna de volutas.Tipo: Bailey Type C (v).Produo: Itlia Central.Difuso: Todo o Mediterrneo, apesar de serem pouco abundantes.Descrio: Lucerna de corpo piriforme e seco troncocnica. Orla muito larga e inclinada para o exterior, com uma rica decorao de

    linguetas junto ao disco. Disco muito cncavo, de pequenas dimen-

    ses, com orifcio de alimentao central, separado da orla por uma

    grossa moldura. Rostrum arredondado, fracturado. Duas pseudo-vo-lutas na transio do rostrum para a orla, terminando a em duas volutas. Asa muito elevada e perfurada de seco circular assinalada

    por duas finas caneluras longitudinais. Base circular, plana, limitada

    por uma canelura.

    Cronologia: Finais do sc. I / 1 tero do sc. II.Bibliografia: Almeida 1953: XXXVI, n 85; 162.observaes: Paralelo em Bailey 1980, 198, n Q 992; Plate 25.N.i.: ME 5032

    5

  • 4

    8

    alt.: 34 mm; Compr.: 103 mm; Larg.: 72 mm.

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    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Dressel 17.Produo: Itlia Central.Difuso: Pouco difundida no mediterrneo. Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica. Orla ampla, inclinada para o exterior, sem decorao, separada do disco

    por uma dupla moldura que define uma canelura concntrica. Disco

    cncavo, com orifcio de alimentao central, ligeiramente fracturado,

    decorado com uma coroa circular de estrias paralelas. O rostrum, curto e arredondado (praticamente oval), est separado do corpo da

    lucerna por uma linha curva incisa. Asa perfurada, fracturada na me-

    tade superior. Base circular, plana, limitada por uma canelura.

    Cronologia: ltimo tero do sculo I ?.Bibliografia: Almeida 1953: XLI, n 171; 177.observaes: Apesar da fraca difuso, este forma foi produzida em vrios locais do mediterrneo, que oriental (Bailey 1980), quer oci-

    dental (Berges 1989, 46-47). Os modelos originais so muito prova-

    velmente originrios dos centros produtores centro-itlicos (Morillo

    Cerdn 1999: 110-111). Fragmentos idnticos em Conimbriga, prove-nientes das antigas escavaes, anteriores a 1962 (Belchior 1969, 53,

    Est. XIII, n 1). Paralelo aproximado em Bailey 1980: 305; Plate 59,

    n Q 1223.

    Pelo estado fruste da decorao possvel que se trate de uma lucer-

    na remoldada.

    N.i.: ME 5035.

    6

  • 5

    0

    alt.: 34 mm; Compr.: 105 mm; Larg.: 74 mm.

  • 5

    1

    Forma: Lucerna de bico redondoTipo: Dressel 19Produo: Itlia Central.Difuso: Mediterrneo. Pouco documentadas na Pennsula Ibrica.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica, com um reservatrio pouco elevado. Orla larga e inclinada para o exterior, sem decorao, separada do disco por uma grossa moldura. Disco

    cncavo, praticamente ausente por fractura. Duas pequenas depres-

    ses concntricas ladeiam o rostrum e a asa. Rostrum curto e arredon-dado, que se caracteriza por possuir dois traos incisos dispostos em

    forma oblqua entre os extremos do rostrum e a moldura de transio do disco. No eixo da lucerna, acima do orifcio de iluminao, uma

    pequena depresso concntrica. Asa de disco, perfurada, facturada na

    metade superior. Base circular, plana, limitada por uma canelura, com

    uma marca incisa. Junto marca uma pequena fractura.

    marca: PONT(?...)LCronologia: ltimo quartel do sc. I / meados do sc. II (preferencial-mente entre 80-100/110).

    Bibliografia: Almeida 1973: XXXVII, n 100; 165.observaes: Esta forma foi tambm produzida noutras regies da Pennsula Itlica, nomeadamente na zona da Campnia (Pavolini

    1977, 38; Cerulli 1977, 62-63) e, fora desta, como no caso de Montans,

    no sul da Glia (Berges 1989, 46). No actual territrio portugus refi-

    ra-se, entre outros locais, exemplares sobremoldados recolhidos em

    Santarm (Est. I, n 302 e Est. II, n 301).

    Em 1953 Ferreira de Almeida (1953) fez a seguinte leitura da marca:

    P(?)ONTR(?)TL (?). possvel que possa tratar-se de Pontianus (PON-TIANI ), tal como aparece numa marca em Tarragona (Tulla et alii 1927, n7, apud Amar Tafalla 1989-90: 163) e na necrpole de Bab

    Zaer, em Sala, Marrocos (Boube 1977: 246, Pl. XVI, n 5; 1999: 110).

    N.i.: ME 5041

    7

  • 5

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    alt.: 45 mm; Compr.: 101 mm; Larg.: 73 mm.

  • 5

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    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Dressel 20.Produo: Itlia Central.Difuso: Todo o Mediterrneo ocidental (Itlia Central e Meridional, Siclia, Sardenha, Baleares, Glia, Hispnia e Norte de frica).

    Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica, com um reservatrio pouco elevado. Orla larga e inclinada para o exterior, se-parada do disco por uma moldura que define duas caneluras concn-

    tricas. Disco cncavo, com orifcio de alimentao central, decorado

    com uma coroa de louros. Rostrum curto e arredondado, delimitado na parte superior por uma linha transversal assinalada por dois pe-

    quenos pontos impressos junto ao vrtice. Orifcio de arejamento na

    proximidade do eixo da lucerna, em cima da moldura do disco. Asa

    de disco elevada e perfurada. Base circular, plana, limitada por uma

    canelura.

    Cronologia: 2 metade do sc. I / meados do sculo II.Bibliografia: Almeida 1953: Est. XLVI, n 241, 191-192.observaes: Na obra de Bailey (1980, 318-319; Pl. 64, Q 1253 e 1254) figuram duas lucernas iguais com o mesmo motivo decorativo

    com as marcas incisas, LFABHERAC e C.OPP.RES. O mesmo caso em Ponsich para a Mauritnia, com a marca QMISE (Ponsich, 1961, 102, n 297). No actual territrio portugus refira-se, entre outros

    locais, lucernas com motivos idnticos recolhidas em Tria (Costa

    1973, 126, Est. XXVI, n 59; 125, Est. LXXVII, I, n 58), Peroguarda

    (Ribeiro 1960, 13-14, Est. IV, n 14), Santa Brbara (Maia e Maia

    1997, 116, em particular n 434 e 439) e Santarm (Pereira 2008, 91;

    Est. VI, n 47).

    N.i.: ME 5038.

    8

  • 5

    4

    alt.: 29 mm; Compr.: 99 mm; Larg.: 74 mm.

  • 5

    5

    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Dressel 20.Produo: Itlia Central.Difuso: Todo o Mediterrneo ocidental (Itlia Central e meridional, Siclia, Sardenha, Baleares, Glia, Hispnia e Norte de frica).

    Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica, com um reservatrio pouco elevado. Orla larga e inclinada para o exte-

    rior, separada do disco por uma moldura que define duas canelu-

    ras concntricas. Disco cncavo, fracturado na quase totalidade da superfcie, com pequeno orifcio de alimentao, situado na proxi-

    midade do eixo da lucerna. Devido fractura, apenas se vislumbra

    uma parte nfima da decorao, provavelmente representada com

    um urso, de perfil, a saltar esquerda (v-se parte do focinho e

    parte das patas, as dianteiras levantadas). Rostrum curto e arredon-dado, delimitado na parte superior junto ao disco por uma linha

    transversal assinalada por dois crculos concntricos impressos junto

    ao vrtice. A asa perfurada fracturada na parte superior. Base circu-lar e plana, fracturada na sua quase totalidade, delimitada por uma

    canelura concntrica.

    marca: Letra B, em relevo, no lado direito da rea do infundibulum.Cronologia: 2 metade do sc. I / meados do sculo II.Bibliografia: Almeida 1953: XXXVI, n 99; 165.observaes: A cronologia flvia est documentada pela recolha de exemplares deste tipo nas escavaes de Pompeia (vide. Deneauve

    1974, 165; Bailey 1980, 315). Pela inclinao da orla, irregularidade

    da moldura do disco e dos lados dos rostrum, provavelmente dos incios do sculo II.

    N.i.: ME 5040.

    9

  • 5

    6

    alt.: 55 mm; Compr.: 95 mm; Larg.: 72 mm.

  • 5

    7

    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Dressel-Lamboglia 30 B (Warzenlampe).Produo: Peninsular.Difuso: Particularmente no sul da Pennsula.Descrio: Lucerna de corpo circular e perfil troncocnico, com re-servatrio muito elevado. Orla larga, ligeiramente inclinada para o

    exterior, ornamentada com quatro fiadas paralelas de prolas ou gl-

    bulos em relevo, muito prximos entre si. Grossa moldura a separar

    a orla do disco. Disco pequeno e liso, muito cncavo, com orifcio

    de alimentao central. Rostrum curto e arredondado. Pequena asa elevada e perfurada. Base plana com decoraes incisas que con-

    sistem em dois crculos concntricos preenchidos por uma fiada de

    pequenos pontos; no interior desta decorao, quadrante inciso, pre-

    enchido com quatro motivos circulares.

    marca: anepgrafa.Cronologia: sc. III /sc. IV (esporadicamente nos incios do sculo V).Bibliografia: Almeida 1953: XLI, n 174; 177-178.observaes: Entre outros paralelos, refiram-se os fragmentos reco-lhidos nas antigas escavaes de Conimbriga, anteriores a 1962

    (Belchior 1969, 68-69; Est. XXIII, n 1-2), e os exemplares depositados

    no Museu de Torres Vedras, provenientes da Aldeia do Penedo e da

    Quinta da Portucheira (Seplveda e Sousa 2000, 51-52).

    Este tipo de lucernas normalmente proveniente da Itlia Central e

    espalharam-se por toda a bacia do mediterrneo, em particular na sua

    metade ocidental. Como se constata pelo exemplar em estudo, este

    tipo de lucernas foi imitado em pequenas oficinas provinciais.

    N.i.: ME 5036.

    10

  • 5

    8

    alt.: 30 mm; Compr.: 88 mm; Larg.: 72 mm.

  • 5

    9

    Forma: Lucerna de pseudo-volutas, com aletas laterais.Tipo: Tipo Andjar. Derivada da Dressel 3.Produo: Peninsular (principalmente na rea meridional).Difuso: Maioritariamente na rea meridional da Pennsula. Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica, sem asa. Caracterizam-se por possuir aletas laterais de forma triangular, deco-

    radas com motivos florais. Orla estreita e plana, separada do disco

    por uma moldura que define uma canelura concntrica. Disco cnca-

    vo, decorado com uma vieira de quinze gomos (parcialmente fractu-

    rada) e charneira para baixo que ocupa a toda a superfcie. Orifcio

    de alimentao no eixo da lucerna, um pouco para baixo. Rostrum de forma triangular, com orifcio de iluminao, ladeado por duas

    pseudo-volutas em relevo. Pequeno p anelar.

    Cronologia: Tibrio / Flvios.Bibliografia: Almeida 1953: Est. XXX, n 4; 150.observaes: No actual territrio portugus refira-se, entre outros, dois exemplares deste tipo e com a mesma decorao recolhidos em

    Santa Brbara, Castro Verde (Maia e Maia 1997: 111, n 391-392).

    N.i.: ME 5027

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  • 6

    0

    alt.: 50 mm; Compr.: 108 mm; Larg.: 67 mm.

  • 6

    1

    Forma: Lucerna Mineira.Tipo: Derivada da Dressel 9. Produo: Peninsular (principalmente na regio sudoeste).Difuso: Maioritariamente no sudeste da Pennsula.Descrio: Lucerna de corpo circular de tendncia piriforme. Orla larga, inclinada para o exterior, decorada com grossas prolas em

    relevo. Disco cncavo, sem decorao, com orifcio de alimentao

    central; separado da orla por uma moldura decorada com pequenas

    prolas, praticamente delidas. Rostrum largo e anguloso que termina num bico arredondado ladeado por volutas incisas. Entre as volutas,

    no eixo central da lucerna, junto ao disco, uma prola. Asa elevada,

    perfurada, assinalada por trs finas caneluras longitudinais. Base cir-

    cular, cncava, limitada por uma canelura, com trs pequenos crcu-

    los incisos.

    marca: anepgrafa, com trs pequenos crculos incisos.Cronologia: Scs II / III (auge de circulao e produo na 2 metade do sc. II).

    Bibliografia: Almeida 1953: XXXVIII, n 119; 168.observaes: O fabrico destas lucernas deve ter ocorrido em diferen-tes centros produtores do sudeste peninsular, destinados a abastecer

    a procura local de lucernas para iluminao e adequadas ao trabalho

    nas minas (Morillo Cerdn 1999: 105). Entre outros, um fragmento

    idntico recolhidos nas antigas escavaes de Conimbriga, anteriores

    a 1976 (Belchior 1969, 31; Est. I, n 6).

    N.i.: ME 5033

    12

  • 6

    2

    alt.: 30 mm; Compr.: 106 mm; Larg.: 75 mm.

  • 6

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    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Dressel 28.Produo: Lusitana (provvel centro produtor alentejano).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna de corpo circular de seco troncocnica. Orla arredondada, plana, decorada com quatro cachos de uvas de cada

    lado, demasiado grandes em relao largura da orla. A transio da

    orla para o disco faz-se por uma moldura que define duas caneluras

    concntricas. Disco largo e cncavo, com orifcio de alimentao late-

    ral, esquerda, decorado com uma cena ertica. A cena representada

    no encontra paralelo: esquerda, um cavaleiro, possivelmente nu,

    montado num cavalo e com uma mulher nos braos, posicionada

    de frente. Rostrum cordiforme, encimado por um pequeno crculo impresso. Asa larga, perfurada, fracturada na metade superior. Base

    alteada por duas molduras concntricas que incluem uma marca in-

    cisa no seu interior.

    marca: MV.Cronologia: 2 metade do sc. II / incios do sc. III.Bibliografia: Almeida 1953: Est. XXXIX, n 135; 170; Caetano 2005: 105, n 56.

    observaes: Como demonstra o caso de Bracara Augusta (Morais 2005), estas foram fabricadas em diferentes pequenas oficinas pro-

    vinciais.

    Segundo Caetano (2005: 105: n 56), os motivos bastante empasta-

    dos e a prpria assimetria da lucerna parecem indicar que se trata

    de uma remoldagem.

    N.i.: ME 5034.

    13

  • 6

    4

    alt.: 52 mm; Compr.: 106 mm; Larg.: 77 mm.

  • 6

    5

    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Tipo Dressel 28/30.Produo: Lusitana (provvel centro produtor alentejano).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna de corpo circular e perfil troncocnico, com alto reservatrio. Orla larga e inclinada para o exterior, ornamentada com

    quatro fiadas paralelas de prolas ou glbulos em relevo, muito pr-

    ximos entre si. Dupla moldura a separar a orla do disco. Disco cn-

    cavo, decorado com Vitria de p, sobre o orbis, com asas abertas elevadas altura da cabea. A Vitria enverga um peplos com apo-tygma e segura no seu brao esquerdo uma palma at cima e, com o brao direito levantado, ostenta uma pequena coroa de louros.

    O orifcio de alimentao do disco est lateralmente situado es-

    querda. Rostrum curto e arredondado, fracturado na extremidade. Pequena asa pseudo-perfurada. Base plana.

    Cronologia: 2 metade do sc. II / sc. III.Bibliografia: indita.observaes: Trata-se de uma atribuio tipolgica feita com algu-mas reservas. Na verdade, alguns autores incluem este tipo de lucer-

    nas no tipo Dressel-Lamboglia 28, outros no tipo Dressel-Lamboglia

    30B (vide Morillo Cerdn 1999, 122). A existncia das prolas na

    orla uma caracterstica mais comum nas lucernas do tipo Dressel

    -Lamboglia 30B. No entanto, o tamanho do disco e a presena da

    decorao enquadra-se melhor no tipo Dressel-lamboglia 28.

    O tipo de decorao muito delida e o seu carcter fruste pare-

    cem indicar que se trata de uma remoldagem. A comparao com

    exemplares fabricados em Braga (Morais 2005, 330, n 73; 333-334,

    n 85-93), permite constatar que se trata da representao de uma

    Vitria alada.

    Os maiores centros produtores deste tipo de lucernas situavam-se na

    Itlia Central e no Norte de frica. Como no caso da antiga cidade

    romana de Bracara Augusta (Morais 2005), muitos outros centros produtores das provncias fabricaram, escala regional, este tipo de

    lucernas. No actual territrio portugus refira-se, para alm do caso

    de Braga, a lucerna dada como proveniente da Aldeia do Penedo,

    Torres Vedras (Seplveda e Sousa 2000, 48, n 5).

    N.i.: ME 5048.

    14

  • 6

    6

    alt.: 35 mm; Compr.: 90 mm; Larg.: 68 mm.

  • 6

    7

    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Derivada de disco, atpica.Produo: Lusitana (provvel centro produtor alentejano).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica, com um reservatrio muito pouco elevado. Orla larga, ligeiramente inclinada para o exterior. Uma canelura praticamente delida separa a orla do

    disco. Disco cncavo, liso, com orifcio de alimentao central. Ros-trum curto e arredondado, ligeiramente fracturado. Asa de disco ele-vada e perfurada. Base circular, plana, delimitada por uma canelura

    concntrica.

    Cronologia: Finais do sc. III/ incios do sc. IV.Bibliografia: Almeida 1953: XLI, n 176; 178; Morillo Cerdn 1999: 122-127.

    observaes: Parecem derivar das formas mais tardias do tipo Dressel 30 e, sobretudo, Dressel 28. Seguimos a classificao de derivada de

    disco, adoptada por A. Morillo Cerdn (1999: 125), e estamos de acor-

    do com o autor quando a propsito deste tipo de lucernas adverte que

    constituem um autntico cajn de sastre, dondo conviven piezas que

    ejemplifican diversos estadios del proceso degenerativo registrado por

    las lucernas de disco, caracterizado por el empobrecimiento tcnico y

    decorativo causado por el uso reiterado del sobremolde y el alejamien-

    to cada vez mayor de las fuentes de inspiracin originales. No territrio actualmente portugus refira-se, entre outras, as lucernas

    de Peroguarda (Viana e Nunes 1956: 129-132, n 4, 9-10, 22-23, 29,

    43, 47-51 e 53) e do Teatro romano de Lisboa (Diogo e Seplveda

    2000: 154-160; Fig. 1, n 2; Fig. 2, n 6; Fig. 3, n 16), estas ltimas

    classificadas pelos autores como pertencentes ao tipo Dressel 30B.

    N.i.: ME 5042.

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  • 6

    8

    alt.: 4 mm; Compr.: 85 mm; Larg.: 61 mm.

  • 6

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    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Derivada de disco, atpica.Produo: Lusitana (Alentejo).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica. Orla lisa, ligeiramente inclinada para o exterior. Disco cncavo, com decora-

    o imperceptvel e pequenssimo orifcio de alimentao lateral,

    esquerda. Rostrum curto e arredondado, ligeiramente fracturado. Asa de disco, perfurada. Pequena base circular e plana.

    Cronologia: Finais do sc. III/ incios do sc. IV.Bibliografia: indita.observaes: ver lucerna n 15. A decorao do disco, praticamente imperceptvel, parece corresponder a uma figura humana (ou deus?)

    disposta no eixo da lucerna.

    N.i.: ME 5043.

    16

  • 7

    0

    alt.: 35 mm; Compr.: 89 mm; Larg.: 65 mm.

  • 7

    1

    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Derivada de disco, atpica.Produo: Lusitana (Alentejo).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna de corpo circular e seco troncocnica, com um reservatrio muito pouco elevado. Orla larga, ligeiramente inclinada para o exterior. A transio para o disco faz-se por uma simples ca-

    rena. Disco cncavo, com decorao imperceptvel, com orifcio de

    alimentao na proximidade do eixo da lucerna. Rostrum curto e ar-redondado, ligeiramente fracturado. Pequena asa de disco, perfurada.

    Base circular, ligeiramente cncava.

    Cronologia: Finais do sc. III/ incios do sc. IV.Bibliografia: Almeida 1953: Est. XLVII, n 260; 193; Morillo Cerdn 1999: 122-127.

    observaes: A fractura de parte do rostrum e do infundibulum deve-se a fractura posterior a 1953. Segundo Jos Antnio Ferreira

    de Almeida (1953, 193), possvel que a decorao do disco, prati-

    camente delida, corresponda a um quadrpede em corrida para a

    esquerda. Outras observaes na lucerna n 15.

    N.i.: ME 5044

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  • 7

    2

    alt.: 48 mm; Compr.: 97 mm; Larg.: 64 mm.

  • 7

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    Forma: Lucerna derivada de disco, atpica.Tipo: Derivada de disco, atpica.Produo: Lusitana (Alentejo).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna com alto reservatrio, de corpo circular e compac-to, com rostrum apontado que lhe proporciona um aspecto ovalado. Orla muito larga e plana, na continuidade do rostrum, separada do dis-co por uma moldura. O disco de pequenas dimenses e cncavo, com

    orifcio de alimentao central. Asa de disco, perfurada. Base plana.

    Cronologia: Finais do sc. III/incios do sc. IV.Bibliografia: Almeida 1953: XLI, n 175; 178.observaes: Segundo A. Morillo Crdan, este tipo de lucernas, de-rivadas da forma Loeschcke VIII, inspira-se nas variantes mais tardias

    do tipo Dressel 30 e, sobretudo, Dressel 28 (Morillo Cerdn 1999,

    125).

    Pela altura do depsito e pela forma da orla e disco esta lucerna possui

    fortes afinidades com o tipo Dressel-Lamboglia 30B, ainda que sem

    as caractersticas prolas em relevo que, por norma, decoram a orla.

    O rostrum , porm, alongado e no curto e arredondado como na-quele tipo de lucernas.

    N.i.: ME 5037.

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  • 7

    4

    alt.: 53 mm; Compr.: 105 mm; Larg.: 71 mm.

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    Forma: Lucerna de bico redondo.Tipo: Derivada de disco, atpica.Produo: Lusitana (Alentejo).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna de aspecto muito tosco, com alto reservatrio e corpo circular e compacto. O orifcio de iluminao ocupa a quase to-

    talidade do rostrum. Orla plana, praticamente sem separao do disco. O disco cncavo, com orifcio de alimentao lateral, esquerda; este

    est decorado com uma representao muito fruste de uma figura no

    eixo da lucerna, provavelmente a deusa Diana. Asa de disco, elevada e

    perfurada. Base plana.

    Cronologia: Finais do sc. III/ incios do sc. IV.Bibliografia: indita.observaes: dada como proveniente da necrpole romana do Vale do Gato, em S. Pedro do Corval. Foi oferecida pelo Dr. Jos P.

    Sousa Alves. Como se depreende, esta lucerna no fazia parte da co-

    leco reunida por Frei Manuel do Cenculo.

    Como caracterstico de grande parte das produes de fabrico

    regional/local da regio alentejana em torno de vora, o aspecto da

    lucerna tosco e irregular. Outras observaes na lucerna n 15.

    N.i.: ME 5039

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    6

    alt.: 43 mm; Compr.: 92 mm; Larg.: 48 mm.

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    Forma: Lucerna piriforme, atpica.Tipo: Desconhecido.Produo: Lusitana (Alentejo).Difuso: Regional.Descrio: Lucerna piriforme. Orla larga, ligeiramente descada para o exterior, decorada com prolas, separada do disco por uma mol-

    dura. Disco pequeno e cncavo, decorado com uma mscara teatral

    (provavelmente de escravo), com pequeno orifcio de alimentao

    lateral, direita. Asa alta e perfurada. Base plana, delimitada por uma

    canelura concntrica, com pequeno crculo inciso no centro.

    Cronologia: Sc. IV?Bibliografia: Pereira 1947: 130-131; Caetano 2005: 106, n 57.observaes: O fabrico grosseiro, de cor avermelhada e sem engobe, e a decorao bastante tosca indicam que se trata se uma produo

    feita numa pequena oficina local, prtica comum no sculo IV (Cae-

    tano 2002: 207-208; 2005: 106, n 57).

    N.i.: ME 5046.

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    alt.: 43 mm; Compr.: 92 mm;Larg.: 48 mm.

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    Forma: Lucerna piriforme, atpica.Tipo: Desconhecido.Produo: Lusitana (Alentejano).Difuso: Regional.Descrio: Pequena luc