Prémio BRANQUINHO DA...

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| 1 | | 1 | | 1 | �� Prémio BRANQUINHO DA FONSECA EXPRESSO/GULBENKIAN Este Prémio bienal foi instituído em 2001, numa parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o jornal Expresso. Tem como objectivo incentivar o aparecimento de jovens autores de literatura para crianças e jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 30 anos As obras a concurso são originais não editados. O Prémio inclui duas modalidades: modalidade infantil e modalidade juvenil e teve como júri, na primeira edição, Vasco Graça Moura, Isabel Alçada, José António Gomes, Francisco Belard (representante do Expresso) e Maria Helena Melim Borges (representante da FCG), e nas duas seguintes, Inês Pedrosa, Ana Maria Magalhães, José António Gomes, Francisco Belard (representante do Expresso) e Maria Helena Melim Borges (representante da FCG). O valor do Prémio é de 5.000€ para o vencedor de cada modalidade. O Prémio inclui ainda a publicação das obras vencedoras por editora a escolher segundo critérios previamente definidos, com o apoio da FCG. A Casa da Leitura propõe um pequeno dossier a pretexto desta quarta edição, cujos vencedores foram, na modalidade infantil, Maria Luísa Soares de Oliveira da Costa Cabral, estudante universitária, de 22 anos, residente em Lisboa, com a obra o Menino Árvore; na modalidade juvenil, Estêvão Luís Bertoni Araújo e Silva, estudante de 16 anos, residente em Uberlândia, Minas Gerais, Brasil, com a obra O Dono da Festa. Aqui pode encontrar • Inquérito aos premiados David Machado, Filipe Faria, João Borges da Cunha, Rita Taborda Duarte (Gonçalo M. Tavares não respondeu). • Sugestões de leitura • Notícias: Alice e a Linguagem, Luciana Leiderfarb Construir no Nada, Luciana Leiderfarb Senhor das Trevas, Cristina Margato • Ensaios: Desafios da lógica, de José António Gomes A lógica e a sombra, de Eduardo Prado Coelho • Discursos: Maria Luísa Costa Cabral Estêvão Luís Bertoni
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    07-Nov-2018
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    PrmioBRANQUINHO DA FONSECA

    EXPRESSO/GULBENKIAN

    Este Prmio bienal foi institudo em 2001, numa parceria entre a Fundao Calouste Gulbenkian e o jornal Expresso.

    Tem como objectivo incentivar o aparecimento de jovens autores de literatura para crianas e jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 30 anos

    As obras a concurso so originais no editados.O Prmio inclui duas modalidades: modalidade infantil e modalidade juvenil e teve como

    jri, na primeira edio, Vasco Graa Moura, Isabel Alada, Jos Antnio Gomes, Francisco Belard (representante do Expresso) e Maria Helena Melim Borges (representante da FCG), e nas duas seguintes, Ins Pedrosa, Ana Maria Magalhes, Jos Antnio Gomes, Francisco Belard (representante do Expresso) e Maria Helena Melim Borges (representante da FCG).

    O valor do Prmio de 5.000 para o vencedor de cada modalidade.O Prmio inclui ainda a publicao das obras vencedoras por editora a escolher segundo

    critrios previamente definidos, com o apoio da FCG.A Casa da Leitura prope um pequeno dossier a pretexto desta quarta edio, cujos

    vencedores foram, na modalidade infantil, Maria Lusa Soares de Oliveira da Costa Cabral, estudante universitria, de 22 anos, residente em Lisboa, com a obra o Menino rvore; na modalidade juvenil, Estvo Lus Bertoni Arajo e Silva, estudante de 16 anos, residente em Uberlndia, Minas Gerais, Brasil, com a obra O Dono da Festa.

    Aqui pode encontrar

    Inqurito aos premiados David Machado, Filipe Faria, Joo Borges da Cunha, Rita Taborda Duarte (Gonalo M. Tavares no respondeu). Sugestes de leitura Notcias:

    Alice e a Linguagem, Luciana LeiderfarbConstruir no Nada, Luciana LeiderfarbSenhor das Trevas, Cristina Margato

    Ensaios:Desafios da lgica, de Jos Antnio GomesA lgica e a sombra, de Eduardo Prado Coelho

    Discursos:Maria Lusa Costa CabralEstvo Lus Bertoni

    www.casadaleitura.org
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    Que lugar tiveram as leituras no seu percurso?

    David MachadoH uns anos, entre amigos, falvamos dessa virtude fantstica que a msica tem de trazer arrastadas memrias. Um deles explicou, com o maior assombro, que conseguia at encontrar cheiros e texturas antigos, felicidades h muito acabadas ou tristezas extintas entre os acordes de uma cano. De modo que de vez em quando ia buscar discos que j no escutava h vrias dcadas porque queria recordar uma namorada da sua adolescncia, da mesma forma que tinha discos na sua coleco que se negava a tocar por medo aos horrores que lhe despertassem na cabea e no corao.Comigo sucede o mesmo, no s com a msica mas tambm com os livros. Com a agravante de que por vezes as memrias da vida real chegam at mim misturadas com as histrias que lia nessa altura. Mais ainda: no s revivo um tempo da minha vida ao lembrar-me de um livro que j li, como a recordao de

    outro tempo me leva s histrias que lia ento. E acabo sem saber distinguir o que verdade e o que fico, o que eu pensei e senti e o que outros a quem li pensaram e sentiram. Na verdade, no tenho qualquer interesse em fazer essa distino: os livros que j li, tal como tudo o que vivi, so parte indissocivel daquilo que sou. Por isso o que fao, o que penso e o que escrevo no seria igual se tivesse lido um livro a menos do que aqueles que li.Com toda a honestidade, no sei dizer se a reunio de amigos em que se discutiu as virtudes da msica sucedeu mesmo ou se a li. Mas isso no nada importante.

    Filipe FariaForam a minha formao, a minha fonte de inspirao, e continuam a ser a melhor forma de exercitar os msculos da escrita.

    Inqurito

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    Joo Borges da CunhaSe por leituras entendermos a experincia de ler, ento, em mim, no as destaco de uma macednia de experincias no mundo da vida. No me interesso pela demarcao alienada e alienante de uma polidinha esfera da leitura e dos livros, que depois, quando crescida e agrandada, se h-de tornar no magnfico universo do intelecto. Agora, o que sei que como qualquer boa experincia, s a tornamos proveitosa e verdadeira se a pudermos repetir, e quanto mais repetida, melhor. Acontece que repetir um mergulho no mar questo de uma onda atrs da outra. Repetir a leitura de um romance ou poema, j coisa de trazer pendura pelos dias. Por isso, bom que se leia, relendo j. S a releitura faz um bom leitor. A quem tem alguma curiosidade, mesmo que rasa, por tudo o que texto, o tempo das leituras acabar por transfigurar, e um dia, h-de sair rua com a cara de quem responde que so elas o que de mais importante a vida tem para dar.

    Rita Taborda DuarteQuando vejo que nos momentos verdadeiramente importantes so os livros que me salvam ou me resgatam; quando me apercebo de que h frases, versos, personagens que me vivem enterrados nos bolsos e que quando menos espero pulam c para fora, para me defender de situaes complicadas, s vezes srias, por vezes complexas; a compreendo que os livros no tiveram s um papel no meu percurso; mais do que isso eles foram, e so, na realidade, o meu percurso. Ou melhor, eu hoje sou aquilo que as minhas leituras me permitiram que fosse. E isso que eu concluo todos os dias, no decurso do meu quotidiano: quando, depois da ritual histria nocturna, os meus filhos s adormecem a ouvir-me citar (de memria, que o livro h muito se perdeu) o bichinho de conta conta/ e o bichinho de conta contou, de Sidnio Muralha; quando me apercebo de que quando quero falar aos meus alunos dos mais complexos conceitos de lingustica e literatura, s consigo dizer o que quero de facto dizer, se tiver a A Alice do Outro lado do Espelho, a meu lado, a servir-me de exemplo; quando reparo que o Principezinho e a Alice de Carroll tomaram conta da minha Verdadeira Histria da Alice, meu primeiro livro para crianas

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    Como avalia a produo actual de literatura para a infncia e juventude (temas, estilos, qualidades e defeitos)? Que autores deste gnero considera e porqu?

    David MachadoA verdade que no estou a par da actual produo literria para a infncia e juventude. Pelo simples de facto de que j no sou nem criana nem adolescente. Como tal, h muito que essas histrias no exercem sobre mim o fascnio de antigamente. E acredito que aquelas que o fazem se podem encontrar em dois plos opostos: ou esto dotadas de tal gnio que possvel descobrir nelas leituras paralelas que encantam de formas distintas a midos e a grados, ou ento no cumprem o seu papel original e nesse caso so ms histrias para crianas ou adolescentes.Por outro lado apercebo-me, com satisfao, de que o mercado dos livros infantis e juvenis est mais rico. H mais editoras que apostam nestes gneros, h mais ilustradores profissionalizados, h mais ateno da parte da comunicao social, h mais iniciativas que promovem o contacto dos leitores com os autores e h mais autores que procuram novas formas de contar histrias a crianas e adolescentes.

    Filipe FariaDe oito a oitenta, passou-se de uma oferta quase uniforme em estilo e contedo para uma extraordinria diversidade nos ltimos anos.

    Joo Borges da CunhaDepois de lidos uns indicadores de h horas, que punham os gneros infantil e juvenil no topo das vendas em todos os tipos de estabelecimento, s resta a congratulao satisfeita pelo que se produz, mesmo sabendo que por

    detrs, h um culto industrioso s coisas de feitiaria e outras fantasias assim de altas. A imagem de um mundo das crianas, e dos ainda no homenzinhos nem mulherzinhas, a ser o motor de um portento econmico no sector livreiro, faz pensar numa deliciosa desforra dos menores, apesar de o mais certo ser a juvenilizao e a infatilizao de todos os gostos e comportamentos. E olhando para o que a est, parece uma boa forma de avaliao a que usa a escala das enxurradas e das tempestades (tanta tralha, tanto tesouro, algumas relquias at). que s assim, alguma coisa de diferente, mesmo que marginal, se h-de transformar em achado. Aqui, quantidade qualidade. Deix-los ter de tudo, do concebvel (livros escritos pelas prprias crianas), ao inconcebvel (os grandes clssicos desmontados, com literatura de instrues inclusa); do precioso (a Ilse Losa), ao desastroso (o grande romancista prepara-se para escrever um livro infantil, est quase a escrever um livro infantil, j est a escrever um livro infantil: escreveu um livro infantil). Pelo menos, desta forma, no ho-de ficar, como noutros tempos (os meus?), condenados a passar da Enid Blyton (e os cannicos Cinco e depois os Sete, e j agora o Noddy), directamente para os romances do Jlio Dinis, no restando da recuada infncia, outra coisa que duvidosos heris: a Anita dos livros da mana, o Sandokan em verso fotonovela (com disco de 45 rotaes de oferta), e o Cristo no missal. Quando foi de vir a ser jovem ( jovem!), l houve guinada e os heris mudaram. De um supeto (para no dizer vero, que seria como todos dizem), foi a Anne no anexo, o Robert Jordan na Guerra Civil de Espanha, e o velho Santiago e o mar traduzido pelo Jorge de Sena. Era j o que sou hoje. Adulto?

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    Rita Taborda DuarteCada vez se publica mais e diferentemente. muito interessante ver, nas livrarias, a convivncia entre autores consagrados, que nunca ho-de ver os seus livros ultrapassados, e novos autores, novas propostas, tanto no que respeita ao texto, como ilustrao. Penso que a ironia, aliada ideia de que os midos de hoje talvez menos ingnuos do que os de ontem tm um sentido de humor apurado, pode ser uma das marcas da literatura para a infncia. Por vezes, entristece ver algumas simplificaes nos textos por parte de quem pensa que os livros infantis, por serem para as crianas, se podem dispensar de ser literatura H autores que me acompanham desde sempre (alguns, quase sem querer, j fui referindo), mas prefiro no os citar, porque sei que lembrando dez, esquecerei outros dez. E sei que dessa injustia no me perdoaria depois.

    Para que serve um Prmio como este?

    David MachadoExistem muitos prmios e concursos literrios no nosso pas, mas poucos tm consequncias. Por constatao pessoal, posso afirmar que este no um deles. Se algum se d ao trabalho de ler dezenas de manuscritos candidatos para depois seleccionar os melhores, creio que fundamental que o pblico de leitores possa gozar do resultado desse escrutnio. Por muita polmica que se encontre no veredicto final, a confiana no discernimento dos membros do jri e no bom-nome das instituies que organizam ou patrocinam o prmio ser sempre uma garantia da qualidade da obra escolhida. Alm disso, como o caso do Branquinho da Fonseca,

    importante que numa primeira fase seja o prmio que est a promover o autor desconhecido ou no e no o contrrio. E torna-se assim um meio relevante para o autor tomar contacto com editoras, com ilustradores, com escolas, com feiras do livro.

    Filipe FariaAbre as portas para o mundo editorial, e serve como apoio fundamental para novos talentos, nos quais muitas editoras poderiam de outra forma no investir.

    Joo Borges da CunhaServe para rasgar a encaroada tela meditica e propagandstica onde se projectam os institudos, e pelos rasges, deixar ver o trabalho solitrio e desamparado dos que, experimentando, no tm como ser reconhecidos. s vezes pega. Ou esgaa. Parece linguagem da luta de classes, e .

    Rita Taborda DuartePosso diz-lo assim, porque elevado o meu grau de certeza: se no tivesse ganho o Prmio Branquinho da Fonseca, no teria, muito provavelmente, publicado A Verdadeira Histria da Alice. E sendo assim, no teria tambm editado os dois livros que se seguiram (A Famlia dos Macacos e Os Midos do Piolho). Com certeza que no publicaria igualmente os dois que se seguiro (O Tempo ao Contrrio e Trs Histrias de Natal). Da j se compreende para que serve um prmio como este: para desencantar livros que possam encantar a miudagem.

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    Sugestes de leitura

    O Senhor Valry, Gonalo M. Tavares, Rachel Caiano (ilustradora), Caminho, Lisboa, 2002

    O Senhor Valry (Prmio Branquinho da Fonseca, da Fundao Calouste Gulbenkian/jornal Expresso) rene um conjunto de pequenas histrias que comeam (quase) todas por O senhor Valry. As aventuras desta pequena personagem, que salta para se sentir alta, como todos os outros, s que por menos tempo, possuem tambm um final semelhante: caem todas no buraco negro do absurdo. O senhor Valry, que no aldrabo, antes pensa muito, faz de si o centro de uma certa lgica que aplica com o vigor de uma pedra no charco a tudo quanto o rodeia. E o exerccio acaba por ser divertido em ondas concntricas, sobretudo por nos questionar acerca do que ou deixa de ser normal. As ilustraes de Rachel Caiano estabelecem com o texto uma relao de mera utilidade: o senhor Valry, mestre no uso dos sentidos das palavras, precisa de alguns desenhos bsicos para se explicar.

    A Manopla de Karasthan, Filipe Faria, Editorial Presena, Lisboa, 2002

    Eis-nos em mais um dos universos paralelos tpicos da fantasia, ramo literrio que tantos frutos tem dado, para a mais completa gama de paladares, do doce ao amargo. Este primeiro volume das Crnicas de Allaryia, que foi Prmio Branquinho da Fonseca, da Fundao Calouste Gulbenkian/jornal Expresso, faz-nos experimentar mais uma faceta do sempiterno combate entre as trevas e a luz, levado a cabo por deuses, magos, guerreiros e uma infindvel galeria de seres capazes de manusear uma espada e interpretar os cus. Filipe Faria veste a pele de Pearnon, o escriba, para nos levar pela mo a lugares que se alimentam ainda em demasia da herana tutelar de Tolkien.

    O Senhor Valry, Gonalo M. Tavares, Rachel Caiano (ilustradora), Caminho, Lisboa, 2002

    A Manopla de Karasthan, Filipe Faria, Editorial Presena, Lisboa, 2002

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    Amor de Miraflores, Joo Borges da Cunha, Patrcia Colunas (ilustradora), Quetzal Editores, Lisboa, 2004

    Um bairro pode ser um mundo. Mais ainda se crescer connosco, difuso na infncia, cada vez mais concreto na adolescncia. Amor de Miraflores (Prmio Branquinho da Fonseca, da Fundao Calouste Gulbenkian/jornal Expresso em 2003) resulta numa espcie de mapa afectivo de um bairro suburbano, e portanto carismtico, da zona de Lisboa. Cada pequeno conto a descrio de um stio, um equipamento, um espao, mas com a respectiva carga de afectos pessoais e geracionais. So, ao mesmo tempo, personagens e cenrios para a evoluo de outras figuras: sejam o jovem narrador ou o Amor. Pequena novela de toada encantatria capaz de seduzir coraes jovens abertos sensibilidade. As ilustraes so demasiado insensveis.

    A Verdadeira Histria da Alice, Rita Taborda Duarte, Lus Henriques (ilustrador), Caminho, Lisboa, 2004

    Alice uma pessoa pequena que observa com os olhos gigantescos da infncia as pessoas grandes que a rodeiam. Uma vez feita a apresentao de Alice, ela percorre noutros contos o essencial da sua viso dos grandes: palavras, nomes, segredos. Fica assim preparada para entrar no grande espelho da sala, que como quem diz, no reverso das coisas. Para Rita Taborda Duarte, A Verdadeira Histria da Alice (Prmio Branquinho da Fonseca, da Fundao Calouste Gulbenkian/jornal Expresso) passa pela observao, pela linguagem, pela poesia (h ainda uma curta antologia no final, que inclui, alm da autora, Carlos de Oliveira, Alexandre ONeill e Almeida Garrett). As ilustraes de Lus Henriques no se soltam nunca do bvio.

    Amor de Miraflores, Joo Borges da Cunha, Patrcia Colunas (ilustradora), Quetzal Editores, Lisboa, 2004

    A Verdadeira Histria da Alice, Rita Taborda Duarte, Lus Henriques (ilustrador), Caminho, Lisboa, 2004

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    A noite dos animais inventados, David Machado, Teresa Lima (ilustradora), Editorial Presena, Lisboa, 2006

    Vencedor, em 2005, do Prmio Branquinho da Fonseca, atribudo pelo jornal Expresso e pela Fundao Calouste Gulbenkian, A Noite dos Animais Inventados, de David Machado, uma narrativa particularmente interessante pela singularidade do texto caracterizado por repeties (nomeadamente do adjectivo presente no ttulo, que funciona quase como refro ou eco) e jogos sonoros, onde a dimenso onrica determinante. Tematizando questes ligadas ao sono, noite e aos sonhos prodigiosos de quatro irmos, a narrativa d conta da riqueza da imaginao infantil, capaz de construir universos alternativos, neste caso dominados pela presena animal. Com ilustraes de Teresa Lima, o texto amplia as suas possibilidades de leitura, activando e fortalecendo as pontes entre realidade e maravilhoso, factualidade e fico.

    A noite dos animais inventados, David Machado, Teresa Lima (ilustradora), Editorial Presena, Lisboa, 2006

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    Notcias

    ALICE E A LINGUAGEMLuciana LeiderfarbExpresso, 4 de Outubro de 2003

    Alice no compreende que a mesa tenha pernas, ou que os adultos chamem dona a pessoas que podem no ser donas de nada. Est a comear a entrar num longo tnel que o da apropriao da linguagem e, pelo caminho, depara-se com perplexidades que os adultos nem reparam, distrados como esto com coisas srias. Disto trata o livro A Verdadeira Histria de Alice, de Rita Taborda Duarte, que venceu o Prmio Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian na modalidade de literatura infantil.A homenagem a Alice do Outro Lado do Espelho adivinha-se no ttulo, por ser uma histria ligada ao momento em que comeamos a ficcionar a nossa prpria ideia de infncia; refere a autora. Mas , na verdade, a poesia que marca o compasso. A poesia que Rita escreve desde os tempos em que publicava no DN Jovem, e que chegou a ganhar formato de livro h cinco anos sob o nome de Potica Breve. Actualmente, trabalha num projecto subsidiado pelo IPLB, no mesmo campo, e finalizou uma tese de mestrado sobre a dificuldade de saber do que se fala quando falamos de poesia. Em A Verdadeira Histria de Alice, esse universo encontra-se presente. H citaes de escritores que marcaram o seu percurso pessoal Lusa Neto Jorge, Carlos de Oliveira, Garrett, ONeill e, no final, um caderno de poemas da protagonista. Dei uma ateno muito grande ao ritmo, musicalidade, cadncia, diz Rita Taborda Duarte. Opes que se prendem com o facto de a criana ser receptiva a todo o tipo de utilizao da linguagem por ainda no estar condicionada. Quando elas chegam lngua, o adulto j c est h muito tempo e d tudo por adquirido, explica. A experincia enquanto me e a sua prpria memria permitiram-lhe o confronto de perspectivas. E a moral, se existir, justamente a de que cada um tem de se habituar s crianas e aos paios que tem. Ambos os mundos, diferentes, devem ser aceites no contexto dessa diferena. Por isso, a determinada altura, Alice passa para l do espelho e descobre uma realidade ao contrrio, onde as transgresses so permitidas. Mas a menina acaba por preferir este mundo, o dos pais que ralham, o das donas de nada. sempre o adulto que escreve, no ?, termina Rita.

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    CONSTRUIR NO NADALuciana LeiderfarbExpresso, 4 de Outubro de 2003

    Todas as cidades da Amrica tm uma Miraflores conquistada ao nada, diz o livro, que tenta, justamente, dar uma histria aos lugares sem histria. Miraflores um desses territrios levantados onde nada havia antes. E o livro corre pelo territrio autobiogrfico de quem l viveu e teve de encontrar a as suas referncias, por mais descaracterizado que o local fosse, por mais longnquo do centro que estivesse. Amor de Miraflores, de Joo Borges da Cunha, vencedor do Prmio Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian na modalidade de literatura juvenil, fala sobre pessoas que querem ser olhadas como pertencendo a um lugar. Divide-se em captulos, muitos, minimais, cada um um espao distinto do bairro os subrbios na sua admirvel centralidade.O autor aceita o desafio de vestir a pele de historiador do bairro. Percebe que aquelas pessoas com as quais se cruza diariamente podem ter, como ele, coisas a dizer acerca do stio onde residem. Senti-me um adolescente para quem o centro se resumia a isto: era um lugar que eu no ocupava, diz Joo. Mais tarde, quando escolheu estudar arquitectura (que hoje exerce e ensina), percebeu que olhava para a cidade como algo exterior ao qual gostava de aceder, posio contrria dos que esto no centro e acham que todas as pessoas volta no existem.A arquitectura deu-lhe a ideia de construo, de comparao, de encadeamento, de estratgia, noes que utiliza no que escreve, porque um livro juvenil de construo desgarrada, muito simblico ou demasiado elaborado, no vinga, no pega. E h mensagens para transmitir, no h palavras sem mensagem. Amor de Miraflores tem a sua, que o autor no revela e guarda para posterior descoberta do potencial leitor. Joo Borges da Cunha, que nunca tinha publicado um livro antes, conta que escreve desde as primeiras redaces escolares, que continuou de forma mais solitria e obscura (os poemas da adolescncia) e que no secundrio ficou em 2 lugar num concurso literrio. Havia uma queda, uma inclinao, refere. As leituras fizeram o resto: Borges, Sbato, Faulkner, Ea de Queiroz, Hemingway. Quanto a projectos, o prximo passo ser a poesia. E definitivamente vai voltar ao gnero literrio.

    SENHOR DAS TREVASCristina MargatoExpresso, 5 de Janeiro de 2002

    Comeou a imagin-las quando tinha 12 anos. Aos 19, Allaryia e a histria que nessa terra imaginada fez crescer j contavam quase 600 pginas e um prmio. Filipe Faria, escritor precoce e de um gnero sem tradio em Portugal, a high fantasy, viveu nos ltimos trs anos dentro de uma personagem Pearnon, o escriba, vosso humilde servo , narrador de uma saga que, semelhana da criada pelo seu grande dolo, J.R. Tolkien, palco de lutas entre feiticeiros, duendes e elfos.

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    O livro, ainda por publicar, foi galardoado na primeira edio do Prmio Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian, que visa distinguir novos autores de literatura infantil e juvenil, e para Filipe Faria (premiado na modalidade juvenil) apenas o primeiro de uma srie de sete que pretende realizar. Escrito com paixo e uma determinao sem limites que o faz pr de lado muitas outras coisas que ocupam os jovens da sua idade , Crnicas de Allaryia/A Manopla de Karasthan conta uma histria de um mundo de grandes heris e infames viles, florestas verdejantes e desertos inspitos, poderosas naes e mesquinhos imprios. Um mundo que tambm nasce de esboos a lpis nos quais Filipe d uma forma figurativa s personagens e a que s falta uma linguagem prpria, porque uma tarefa dessas s pode ser desenvolvida por um grande linguista como Tolkien. O que no quer dizer que no introduza na sua escrita alguns vocbulos novos.O primeiro contacto com o autor anglo-saxnico, o mestre, ao qual vai buscar inspirao e referncias, teve-o por volta dos 12 anos, no Colgio Alemo, onde estudou. Na biblioteca, descobriu uma enciclopdia sobre o autor, e desde ento as suas atenes convergem nesse tipo de literatura. A trilogia A Irmandade do Anel e as restantes obras de Tolkien passaram a ser a bblia de Filipe. Ter lido todos os livros dele trs ou quatro vezes, mas esto sempre abertos a uma nova leitura. No secundrio, deram-lhe uma viso negra da Idade Mdia, mas Filipe no ficou convencido. Dedicou muitas horas aos livros de Histria sobre essa poca. parte as obras de Bernard Cornwell, Robert Jordan, R. A. Salvatore, tudo o resto lido por obrigao escolar. Detesta o Harry Potter, por ser um subgnero, bem como a infantilidade com que vista em Portugal a literatura high fantasy:Filipe est no 2 ano de Lnguas e Literaturas Modernas (Ingls e Alemo), da Universidade Nova. Na Faculdade, e no crculo de amigos, conhecem-no por corvo, vampiro, senhor das trevas. Nomes que no tero apenas a ver com a literatura mas tambm com a forma como gosta de se vestir desde h pelo menos dois anos: sempre de preto. Prefere os dias de nevoeiro, detesta o calor e no sente curiosidade pelo mundo de hoje. Alm das obras de msica clssica, um s grupo actual entra no seu quarto: Manowar, cujo lder opta pela figura de um guerreiro.A obsesso pela escrita no foi, no entanto, muito bem compreendida pela famlia: o pai, 54 anos, engenheiro, que no gosta de ler; a me, 53, professora de Educao Fsica; e dois irmos mais novos uma irm com 12 e um irmo com 17. O meu pai costumava dizer que eu nunca haveria de editar um livro. Ao contrrio do esperado, as consideraes do pai s funcionaram como incentivo. O facto de ele no acreditar deu-me ainda mais fora para continuar. De resto, contou com o apoio da me, que nunca deixou, contudo, de lhe dizer que ele v tudo a preto e cinzento. Hoje, revela, o pai olha-o de outra maneira: Queria que eu estudasse qualquer coisa relacionada com a matemtica, nunca ficou satisfeito pelo facto de eu me ter virado para as Letras. At ver os cifres, sempre se manteve distante.Ao dinheiro do prmio, Filipe dar duas utilizaes: uma parte servir para financiar uma viagem Esccia, que est a programar para as prximas frias de Vero, e a outra para pagar a capa do livro a um ilustrador norte-americano, Matt Stawicki, que trabalhou no jogo Dungeons & Dragons. Porque, mesmo que a editora no queira usar o trabalho do

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    DESAFIOS DA LGICAJos Antnio GomesExpresso, 18 de Maio de 2002

    O Senhor Valry o ttulo da obra distinguida com o Prmio Branquinho da Fonseca (Expresso/Gulbenkian) na modalidade de Literatura para a Infncia. O franzino protagonista das 25 micro-histrias que a compem no aprecia ser posto em causa e, no fundo, um solitrio. Tendo aprendido princpios de lgica, o seu quotidiano a permanente rentabilizao dessa aprendizagem. Eis algumas das suas interrogaes: como superar as desvantagens de uma pequena estatura?, como esquivar-se gua da chuva ao caminhar na rua?, como manter um anima domstico sem correr o risco de criar com ele laos afectivos evitando assim sofrimentos incmodos? O senhor Valry questiona-se tambm sobre a verdade e a mentira, a ligao entre o tempo e o espao ou a relao do eu com o outro.O dia-a-dia do respeitvel senhor ocupado, assim, com a construo de um sistema mental que, supe-se, o ajuda a enfrentar estes e outros dilemas, alguns deles comezinhos, outros de profundas implicaes filosficas. O senhor Valry pensa muito, teoriza e, como afirma o narrador, orgulha-se da sua lgica. Tambm por isso raro nele o tom potico, e os seus exerccios lgicos surgem sempre ilustrados com esquemas e desenhos (dos quais se encarregou Rachel Caiano):A lgica do senhor Valry formulada em termos simples e compreensveis, numa escrita rigorosa e contida afigura-se quase sempre imbatvel, conquanto os raciocnios desemboquem em solues risveis, absurdas at, se encaradas a outra luz. que, ao excesso de discusso, o pensamento obsessivo do heri prefere a linearidade aparentemente lgica e autoconvencida dos seus raciocnios. Em dado momento, surpreendemo-lo a declarar, num tom filosfico e profundo: Se todas as coisas fossem cubos no haveria tantas discusses. E no existiria a dvida. O senhor Valry sente-se pois incomodado com o pensamento divergente, no aprecia a dvida, ainda que ela se instale insidiosa no seu esprito lgico, como por vezes acontece.Percorrido pela ironia e por um humor fino, este conjunto de textos configura, assim, um microtratado sobre a estupidez humana. Ou melhor, sobre o modo como a inteligncia lgica, quando desprovida de emoo, sentimento e bom senso, pode descambar na estupidez. Ao ttulo apetece, pois, acrescentar um subttulo: A Fortuna e os Infortnios da Lgica. Lemos o livro com o prazer de estarmos a acompanhar um discurso extremamente inteligente sobre uma criatura cujo universo mental assenta na mais acabada tolice. Lemo-lo com um sorriso nos lbios que, por vezes, se abre numa gargalhada. Lemo-lo recordando Carroll, com a permanente impresso de estarmos a ser interpelados na nossa lgica de seres por assim dizer normais, quantas vezes fechados na unidimensionalidade do nosso pensamento e das nossas frgeis certezas.

    Ensaios

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    A personagem transporta-nos, claro, a outros famosos senhores, como Un Certain Plume, de Michaux, ou o Senhor Kuner, de Brecht. Mas convoca sobretudo Paul Valry e O Senhor Teste, esse estranho livro em que o poeta francs mostra a sua tica, o seu comportamento perante a vida e as ideias. Recordemos, pelas palavras de Edmund Wilson, esse clebre Senhor Teste, que alheio sociedade e se desfez quase completamente das relaes humanas: Ele no sorria, no dizia bom dia nem adeus; dir-se-ia que parecia no ouvir a saudao das outras pessoas. Retira-se para dormir na presena de uma visita, e o efeito que causa sobre a Senhora Teste o de faz-la sentir-se como se no existisse. rspido, metido consigo mesmo, austero; os psiclogos modernos chegariam a um diagnstico preciso: um introvertido, narcisista e manaco-depressivo. Mas o Senhor Teste tambm uma espcie de animal intelectual, um monstro de inteligncia e da conscincia de si mesmo. Dono do seu pensamento e das suas emoes, constituir uma linguagem de rigorosa preciso e, como quase tudo est ao seu alcance, ou seja, sabendo ele como se concebe o gnio ou a divindade, contenta-se em nada fazer. Aos olhos dos bigrafos, esse parentesco entre a criatura Teste e o seu criador, Paul Valry, parece evidente um Valry que desde a adolescncia cobria os seus cadernos com notas sobre o funcionamento do esprito, sobre o tempo, a ateno, o sonho, a verdade cientfica, cultivando como Teste o rigor do pensamento e da linguagem.Ser pois O Senhor Valry, de Gonalo M. Tavares, uma reinveno pardica e para consumo infanto-juvenil de O Senhor Teste, de Paul Valry incluindo uma aluso irnica ao autor de O Cemitrio Marinho? A pergunta a fica. Seja a resposta afirmativa ou negativa, o certo que o texto um estimulante exerccio de inteligncia. Os adultos no desdenharo l-lo e as nossas crianas podero aceder a alguns dos seus sentidos profundos, aqui e acol com a ajuda de um pai ou um professor. Retiraro assim o devido prazer das pequenas desventuras e raciocnios deste impagvel senhor Valry.

    A LGICA E A SOMBRAEduardo Prado CoelhoPblico, 20 Abril de 2002

    Dir-se-ia que se trata de um livro para crianas. De certo modo, . Para as crianas que um dia inevitavelmente seremos. Esto l todas as caractersticas para reconhecer o gnero: os textos breves, os grandes espaos afastando os pargrafos, os desenhos da autoria de Rachel Caiano. O livro intitula-se O senhor Valry, referncia inevitavelmente culta, uma vez que remete para um poeta e pensador cujo nome no parece ter tocado excessivamente a fama meditica. Respeitado em Frana, e conhecido no mundo, Paul Valry aparece associado a um certo academismo potico em que a forma predominaria sobre o contedo, e, para outros leitores mais exigentes, a um pensamento sobre a literatura ou a poltica que em certos aspectos poderia ser considerado conservador. verdade que este tpico (o de um escritor demasiado frio e sem alma nem marcas de autenticidade, esquecido de qualquer visceralidade) est longe de corresponder experincia da leitura, sobretudo

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    dos seus livros de reflexo, entre o ensaio e o aforismo, onde Valry se revela de uma inteligncia sempre prxima do incndio e do delrio, e onde a forma se transforma num contedo que suspende todas as diferenas.O autor do livro Gonalo M. Tavares (julgo que o no conheo pessoalmente) e publicou no ano passado a sua primeira obra: o Livro da Dana na Assrio e Alvim (confesso que est ali numa pilha que aguarda a leitura em devido tempo, mas que no tive ainda ocasio para apreciar). Mas tambm j escreveu teatro e recebeu o Prmio Revelao em poesia da Associao Portuguesa de Escritores, com o livro Investigaes. Novalis. Com O senhor Valry (Editorial Caminho) recebeu um outro prmio: o Prmio Branquinho da Fonseca da Fundao Calouste Gulbenkian e do jornal EXPRESSO.Como se diz na contracapa, este senhor Valry tem uma longa genealogia: julgo que pode vir de Diderot, passar pelo senhor Keuner de Brecht, cruzar-se com o Monsieur Plume de Michaux e com o Monsieur Teste do prprio Valry. Mas pelo caminho troca dois dedos de conversa com o nosso Bernardo Soares do Livro do Desassossego e ambos se referem ao Wittgenstein que acabaram de ler. claro que no topo desta constelao se encontra sempre o inevitvel Lewis Carroll, mas tambm podemos convocar o francs Jacques Roubaud. So sempre homens, mquinas celibatrias do pensamento, fanticos da lgica, cpticos em relao ao raciocnio e seus limites, com um toque de imaginao mgica que clandestinamente os aproxima do surrealismo, e, ao mesmo tempo obstinadamente desencantados, um pouco tristes nos excessos de lucidez, mas compensando a solido e o desencanto por uma espcie de desenvoltura infantil (e por isso o senhor Valry ser sempre o irmo mais velho do Ernesto, essa famosa criana de Marguerite Duras que quis deixar de ir escola porque na escola s ensinavam coisas que ele no sabia). Mas confesso (s Enrique Vila Matas poderia deslindar este novelo) que nesta espcie de p atrs em relao vida e sua roda de decises prementes o senhor Valry no destoa muito desse estranho e fascinante Bartleby de Melville. H em todos eles uma zona de apatia que dissimula uma passionalidade primordial uma paixo que vem do lado do sono. E um gosto algo macilento pela iluso das simetrias. Por isso mesmo gostaria de convocar agora um grande poeta argentino, Roberto Juarroz: El hombre se ha vuelto del revs./ Convendra por eso/ que usara el sombrero al revs,/ los guantes, la camisa/ y sobretodo el corazn al revs./ Y tambin convendra/ que diera vuelta las palabras,/ las miradas que se desflecan en el viento,/ la historia de sus plidos das, / las puertas del silencio,/ el smil de pensar con que se yergne y la conducta terca de su muerte.// Y cuando est todo al revs/ volver a darlo vuelta al revs, / para ver se all se encuentra su figura,/ la figura del hombre que jams encontro.// Porque el revs del revs no es el derecho,/ esa msera imagen que tampoco nos sirve.O senhor Valry de Gonalo M. Tavares algum que vive obcecado pela simetria e no fundo a sua tranquilidade estaria adquirida se conseguisse encontrar uma simetria perfeita. A questo em que tropea no seu passinho mido precisamente aquela que Juarroz formula: o avesso do avesso no o direito.Um exemplo: o senhor Valry tinha como profisso, em dias alternados, vender e comprar. - Vendo o que comprei no dia anterior explicava o senhor Valry e no dia seguinte compro algo com o dinheiro que fiz da venda do dia anterior. E assim se vai sobrevivendo conclua.

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    E o senhor Valry explicava: Existe a parte de cima e a parte de baixo e uma alimenta a outra. Mas a concluso mais melanclica: Enquanto um dia se seguir ao outro, tudo bem. O problema deste negcio sussurrava o senhor Valry, como que a querer que ningum o escutasse o problema se eu morro. Esse o problema.Isto explica, por exemplo, o sonho da casa de frias do senhor Valry: era uma casa sem volume em que as portas e fachadas eram as nicas coisas que existiam e por isso podia-se sempre entrar nos dois sentidos. Melhor ainda seria uma casa feita apenas de quatro portas juntas. Entra-se por qualquer lado e sempre igual. esta a casa de frias que eu quero. E acrescentava: S existiro portas. que s consigo repousar se no tiver que decidir nada, e para que isso acontea indispensvel que no existam opes. Parece-me lgico.Lgico, . Poderamos dizer ao senhor Valry que a lgica nos interessa sobretudo para percebermos onde acaba a lgica: mas que fica da lgica quando a lgica acaba? Algum humor, a ironia objectiva das coisas, a nostalgia de um corpo que excedesse a lgica. Porque o senhor Valry um homem profundamente s.A lgica do senhor Valry , como provavelmente toda a lgica, a lgica do paraso: no existe necessidade de decidir porque todos os lugares se equivalem. Se no paraso tudo perfeito, no existem lugares mais perfeitos e lugares menos perfeitos, e por isso no preciso que eu me mova de um lado para o outro. O paraso a abolio do espao e a infinitizao do tempo. Da este princpio de comportamento: um corpo tanto mais exacto quanto menos tarefas faz. No paraso, no h tenses porque as intensidades so sempre as mesmas. No h valores, porque o valor no paraso sempre o mximo para todas as coisas. No h economia.Neste plano particularmente interessante o texto intitulado (muito teologicamente) As trs pessoas. Parte-se do conhecimento de duas pessoas: a que o senhor Valry foi no passado e a que ele no instante presente. No entanto, seguindo a lgica deste raciocnio, haver uma terceira pessoa: se continuar a viver conhecerei uma terceira pessoa. Mas a ideia de uma terceira pessoa, desequilibrando o espao entre o conhecido e o desconhecido, assusta o senhor Valry. Da o seu sonho terrivelmente lgico: Se corrermos muito rpido e o espao for muito curto conseguimos estar em todo o espao ao mesmo tempo. Ou por outras palavras: conhecer trs pessoas e ser com elas uma nica. Mas nunca corremos suficientemente rpido e o espao sempre demasiadamente amplo.Por isso o senhor Valry agarrava-se (desesperadamente?) lgica e odiava a sua sombra: O senhor Valry no gostava da sua sombra, considerava-a como a pior parte de si prprio. Deste modo, o senhor Valry apenas saa de casa depois de estudar longamente o sol e verificar que no corria riscos de a sua sombra surgir. O senhor Valry explicava: uma mancha que por vezes se torna visvel e anuncia a morte.Atravessar a lgica para nos fazer pensar naquilo que excede a prpria lgica, empolg-la at ao limite da sua vocao e deix-la depois cair como quem cede vida o que lgica falta, esta a lio desamparada e melanclica do senhor Valry, que sabe que um homem pequeno nunca ser um homem alto. Mas possvel, de quando em quando, dar saltos e nessa altura, diz o senhor Valry Sou igual s pessoas altas s que por menos tempo.

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    Maria Lusa Costa Cabral

    Muito obrigada a todos. Gostava de agradecer Fundao Calouste Gulbenkian, ao Jornal Expresso e ao jri

    por esta distino. Este prmio muito importante para mim, pois um reconhecimento importante e um estmulo fortssimo para confiar e continuar com segurana e ousadia pelo caminho da escrita para crianas.

    Sempre gostei muito de escrever. Desde pequena que escrevia historiazinhas abundantemente ilustradas, rimas e pequenos poemas, e dirios. Dirios que escrevia por umas semanas e depois esquecia por estarem demasiado bem escondidos dos meus primos, para apenas uns anos mais tarde os encontrar. Um exemplo reencontrei h pouco tempo. Permaneceu perdido provavelmente por ter sido escrito num caderno muito pequeno aos oito anos de idade. Tinha um dinossauro cor-de-rosa a tocar guitarra na capa. S o escrevi por duas semanas. Comeava no ano novo e com a descrio da batida das panelas janela meia-noite e acabava com um relato engraado de um episdio no recreio da escola. Algo como: O Pedro disse que eu no era capaz de fazer habilidades com o i-i, e eu disse que era, e ele disse que eu no era, e eu disse que era. E no intervalo grande eu levei o i-i. E fiz a habilidade do cozinho com a trela (coisa que eu no fao a mnima ideia do que seja) e ele ficou muito espantado e disse que eu no era mentirosa e eu fiquei muito contente! (Coisas deste gnero.)

    medida que fui crescendo continuei sempre a escrever de tudo, embora fosse estreitando as preferncias de escrita. As leituras que ia fazendo, as fases de livros por que passava, influenciavam o que queria escrever. Numa altura atraam-me as sries policiais e os livros de mistrio, ento escrevia histrias de detectives, polcias e ladres. Noutra altura lia imensos livros de aventuras, ento olhava minha volta para ver como podia encaixar a aventura no dia-a-dia e inventava histrias de tesouros e mistrios. Numa poca lia histrias de fantasia absoluta, ento entretinha-me a fazer desenhos de criaturas inexistentes para depois as incluir em narrativas do fantstico. Depois lia histrias de dirios de adolescentes de todo o gnero e tambm queria fazer minha maneira. Ento falava com os meus amigos da escola e criava personagens para eles. A seguir comeava a ler romances, ento vinham histrias de absurdas paixes adolescentes. O que eu escrevia quando era mais nova tinha sempre a ver com as coisas de que gostava e que me interessava trazer para o meu dia-a-dia.

    Depois fui amadurecendo. Graas ao apoio e orientao de algumas pessoas especiais, entre professores, amigos e outros, eles sabem quem so. Fui amadurecendo e comecei a ter inclinaes mais definidas e estveis. As histrias para crianas foram uma delas. Eu lembro-me de ser criana. Lembro-me de ser pequena e ter ideias, problemas, de tentar resolv-los, de lidar com os adultos. E lembro-me perfeitamente das asneiras que os adultos faziam para connosco, os midos. E tambm me lembro perfeitamente das

    Discursos 2007

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    asneiras que eu engendrava com os meus colegas da escola e com os meus primos. Mas havia adultos que faziam as coisas mal, e ns sabamos, no era s eu que me apercebia. Os grandes no viam que estavam a piorar uma birra, uma dvida, um problema. E recordo-me de nessa altura pensar com os meus botes: espero nunca me esquecer disto. Espero nunca me esquecer de como ser pequeno. Foi pensando desta maneira que consegui manter as minhas memrias de infncia sempre por perto. E a partir dessas memrias que nascem as minhas histrias. Lembro-me das brincadeiras, dos amigos, das birras, dos desafios, dos livros de que gostava e tento fazer algo disso. Escrever algo a partir disso.

    O meu trabalho escrever as histrias que eu gostaria de ter lido quando era pequena mas que no tinham sido ainda escritas.

    Muito obrigada a todos.

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    Estvo Lus Bertoni

    Boa noite, senhoras e senhores com grande prazer e honra que cumprimento a mesa formada:Professor Maral Grilo, Administrador da Fundao Calouste GulbenkianDr. Pedro Norton de Matos Administrador do Jornal ExpressoLusa Costa Cabral, minha parceira literria e vencedora da modalidade infantil do

    ConcursoE em nome de todos da mesa, aproveito para cumprimentar oficialmente todos vocs

    aqui presentes nesta noite, e em especial, uma pessoa que fao questo de agradecer em pblico: a directora adjunta do Servio de Educao e Bolsas da Fundao Calouste Gulbenkian, Maria Helena Borges, a quem agradeo por vrios motivos, mas por dois em especial: primeiro, porque ela teve uma pacincia infinita comigo a caixa de e-mail dela ficou dois meses repleta de coisas que eu queria saber. Segundo, porque ela me aconselhou a talvez no vir de mai de banho, camiseta e sandlias havaianas a esta cerimnia.

    E ela tinha razo.Bom, quando eu soube do Concurso Literrio Branquinho da Fonseca, eu achei uma

    ideia objectiva e que de verdade, faria a diferena para ns, jovens aspirantes a escritores. Realmente no h muito espao para quem est comeando a escrever e uma iniciativa assim, proporciona o surgimento de talentos que no teriam chance em um mercado marcado pelos nomes comercialmente conhecidos. Mas existia uma coisa que diferenciava O Concurso Branquinho da Fonseca de outros concursos e isso me chamou a ateno: o esforo em premiar tambm em dinheiro, porque esta seguramente uma forma de dizer: ns levamos a srio o que voc est fazendo.

    Ento, como eu no gosto muito de falar em pblico, porque por mais que eu disfarce, eu sou um adolescente com manias de adolescente quando eu percebi que eu teria que falar hoje aqui eu pensei que seria bom se eu dissesse para vocs o quanto importante que existam pessoas apostando na criatividade, no talento literrio de jovens em formao. Eu no sei se vocs conseguem calcular a importncia de iniciativas como essa eu no sei se vocs sabem o tamanho real desse prmio Eu tenho 16 anos, tenho um caminho enorme pela frente mas se eu me tornar um escritor um dia, em escritor, um escritor com a maturidade e competncia necessria, vou dever isso, em grande parte, ao Prmio Literrio Branquinho da Fonseca. Porque ganh-lo como se vrias pessoas dissessem para mim: v em frente, voc vai ser muito bom se continuar assim.

    Eu estava ansioso por estar aqui acho que Portugal tem uma imagem de pai e me para ns, brasileiros. Como se a terra de vocs fosse nossa tambm, por herana, assim como somos herdeiros da casa que foi de nossos avs. O Prmio Branquinho da Fonseca, da Fundao Calouste Gulbenkian e Jornal Expresso responsvel por isso tambm: por me trazer aqui, para que eu pudesse ver o quanto de vocs eu tenho em mim.

    Muito obrigado a todos. Boa noite, Lisboa! Um dia, vocs vo ouvir falar de mim.