Antropologia medica e epidemiologia - SciELO .ANTROPOLOGIA MEDICA E EPIDEMIOLOGIA. PROCESSO DE...

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  • SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros ALVES, PC., and RABELO, MC. orgs. Antropologia da sade: traando identidade e explorando fronteiras [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ; Rio de Janeiro: Editora Relume Dumar, 1998. 248 p. ISBN 85-7316-151-5. Available from SciELO Books .

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    Antropologia medica e epidemiologia: processo de convergncia ou processo de medicalizao?

    Eduardo L. Menndez

  • ANTROPOLOGIA MEDICA E EPIDEMIOLOGIA. PROCESSO DE CONVERGNCIA OU PROCESSO

    DE MEDICALIZAO?

    Eduardo L. Menndez

    INTRODUO

    A Antropologia Social e as disciplinas mdicas organizadas em torno da

    Sade Pblica, e em especial a Antropologia Mdica e a Epidemiologia, desen-

    volveram perspectivas de descrio e anlise do processo sade/enfermidade/

    ateno, que apresentam caractersticas simultaneamente complementares e di-

    vergentes 1 , que tratarei de analisar neste trabalho. Nossa anlise das relaes

    entre ambas disciplinas parte do suposto de que ocorreu um processo de conver-

    gncia entre as mesmas, ao mesmo tempo em que determinados fatores limitam a

    possibilidade, de complementao em termos interdisciplinares. O impulso dado

    s atividades de Ateno Primria desde finais dos anos sessenta, e especialmen-

    te aps a Conferncia de Alma Ata; as propostas de participao social, de utili-

    zao de estratgias de ateno baseadas no saber popular ou de formao de

    sistemas locais de sade (SILOS), assim como a recuperao de aes baseadas

    em redes sociais, grupos de apoio e auto-cuidado, favoreceram esta convergncia

    pelo menos a nvel declarativo. Este processo foi, alm disso, favorecido pelo

    fato de terem passado para primeiro plano as doenas crnico-degenerativas, as

    "violncias" e as dependncias, assim como pelo especial desenvolvimento da

    AIDS que supuseram entre outras coisas o "descobrimento" das aproximaes

    qualitativas e da significao do saber dos conjuntos sociais para o desenvolvi-

    mento de grupos de auto-ajuda e de outras estratgias de ao comunitria.

    Por outro lado o reconhecimento da complexidade e de problemas conside-

    rados prioritrios na Amrica Latina, como o controle da natalidade e, a desnutri-

    o ou a mortalidade e infantil, conduziu a que fosse proposta uma aproximao

    articulada entre ambas perspectivas, para favorecer a construo de um enfoque

    realmente estratgico. Mosley em 1988 assinala que a multiplicidade e variedade

    de fatores que incidem sobre a mortalidade infantil no podem ser reduzidos a

    soma de grande quantidade e de variveis que esto complicando a anlise e

    limitando a capacidade e explicativa: "Para evitar isso, h dois passos que, em

  • geral, devero ser dados se planificar a investigao e desenhar os estudos: reali-

    zar estudos antropolgicos profundos e em pequena escala, como prope Ware

    (1984) para identificar as variveis crticas de interesse e sua interpretao, e

    especificar com cuidado as relaes hipotticas entre as variveis, como discu-

    tem detalhadamente Palloni (1981) e Shultz (1984)". (Mosley 1988:323).

    Porm este processo de convergncia ocorreu de forma limitada e conflitiva

    por razes de tipo terico-metodolgicas, institucionais e profissionais que espe-

    ramos desenvolver atravs deste trabalho.

    UNIDADES DE ANLISE, CAUSALIDADE E PREVENO

    A anlise de determinadas caractersticas de ambas disciplinas evidencia a

    similaridade e de suas aproximaes metodolgicas, pelo menos em um nvel

    manifesto. Assim podemos observar que as mesmas tratam com algum tipo de

    conjunto social, o qual pode ser pensado em termos de grupos domsticos, gru-

    pos ocupacionais, grupos de idade, estratos sociais, etc. Para elas a unidade e

    deve ser algum tipo de conjunto social.

    A t u a l m e n t e as cor ren tes dominan t e s na An t ropo log ia Md ica e na

    Epidemiologia reconhecem a multicausalidade da maioria dos problemas de sa-

    de, e questionam que a explicao causal dos problemas especficos seja coloca-

    da em um s fator. A maneira de manejar a multicausalidade pode variar segundo

    o problema e/ou marco metodolgico utilizado, e assim, enquanto que algumas

    investigaes lidam com uma notria diversidade e dispersa de fatores explicativos,

    outras tratam de encontrar um efeito estrutural que organize os diversos fatores

    includos.

    As duas disciplinas supem a existncia de algum tipo de desenvolvimento

    ou evoluo do processo sade/enfermidade/ateno (doravante processo s/e/a)

    especfico, que no caso da Epidemiologia pode referir-se ao modelo da Histria

    Natural da Enfermidade e no caso da Antropologia Histria Social do Sofri-

    mento/Enfermidade, quer dizer, proposta construcionista que considera que todo

    padecimento constitui um processo social e histrico que necessita ser reconstrudo

    para que possam ser compreendidos os seus significados atuais no s para a

    populao seno tambm para a equipe de sade. Alm das possveis diferenas,

    comum o entendimento da enfermidade e do cuidado como processos.

    Um quarto ponto de convergncia, refere-se ao fato de que a Antropologia e

    a Epidemiologia reconhecem que as condies de vida - sejam elas denominadas

    formas de vida da classe trabalhadora, subcultura adolescente ou estilo de vida do

    fumante - tm a ver com a causalidade, desenvolvimento, controle e/ou soluo

    dos problemas de sade. O conceito estilo de vida aquele que parece ter tido

    maior acolhida os epidemilogos, e vem a ser considerado como parte constitutiva

    de toda uma gama de doenas crnicas e de determinadas "violncias".

  • Por ltimo, digamos que ambas disciplinas tendem a propor uma concepo

    preventivista da doena, na qual se articulam diferentes dimenses da realidade,

    com o objetivo de limitar a extenso e gravidade dos danos sade.

    Poderamos seguir enumerando outros aspectos complementares considera-

    dos significativos, porm o importante a notar que com respeito a cada um

    destes pontos de acordo, podemos detectar diferentes graus de discrepncia que

    podem chegar ao antagonismo entre as propostas da Antropologia Mdica e da

    Epidemiologia.

    Se revemos cada um dos aspectos apresentados, podemos observar que em-

    bora ambas disciplinas tratem com conjuntos sociais, a epidemiologia muito

    freqentemente descreve seus conjuntos em termos de agregados estatsticos,

    enquanto que a Antropologia trabalha preferencialmente com "grupos naturais".

    Embora no desenvolveremos este ponto, o considero decisivo no que diz respei-

    to construo e significado do dado referido ao processo s/e/a, uma vez que

    para o enfoque antropolgico a desagregao dos conjuntos sociais em indiv-

    duos supe a violentao da realidade social que ditos sujeitos constituem. Desa-

    gregar os conjuntos sociais em indivduos selecionados aleatoriamente, supe

    no assumir que ditos indivduos se definem a partir das relaes estabelecidas

    dentro de seus grupos e que, alm disso, a maioria de ditas relaes no so

    aleatrias.

    A desagregao dos conjuntos sociais em indivduos, pertence a mesma con-

    cepo de par t i r a r ea l idade socia l em ml t ip las va r i ve i s , c a r e c e n d o

    freqentemente a ambos conjuntos desagregados uma proposta terica de articu-

    lao e inter-relao. Esta maneira de tratar metodologicamente a realidade con-

    duz freqentemente a produo de um tipo de informao que no corresponde

    aquilo que os conjuntos sociais produzem e reproduzem com respeito ao proces-

    so s/e/a.

    Por outro lado, ainda quando as duas t rabalham com uma concepo

    multicausal, a epidemiologia dominante situa o eixo da causalidade no biolgico

    ou no bioecolgico, enquanto a Antropologia Mdica o situa em fatores de tipo

    cultural ou scio-econmico 2 . Mais ainda, deve-se sublinhar que a tendncia a

    buscar uma causalidade nica e especfica segue dominando a abordagem

    epidemiolgica, haja visto a importncia dada aos padec imentos crnico/

    degenerativos, as violncias e as dependncias (ver Buck 1988; Njera 1988;

    Nations 1986; Renaud 1992; Terris 1988).

    A epidemiologia no s tende a pensar as causas da enfermidade em termos

    de uma causalidade bioecolgica ou exclusivamente biolgica, seno que se ca-

    racteriza pelo domnio de uma aproximao a-histrica no que diz respeito ao

    processo sade/enfermidade/ateno. O uso dominante da anlise de curta dura-

    o histrica no um fato casual ou baseado em razes exclusivamente tcni-

    cas, seno que obedece a uma perspectiva metodolgica que no inclui a signifi

  • cao da dimenso diacrnica. A srie histrica de cinco ou dez anos expressa o

    peso do biolgico entendido como uma constante e a srie histrica de longa

    durao no aparece como necessria para compreender o desenvolvimento do

    padecimento nem as alternativas de soluo, salvo para algumas correntes preo-

    cupadas com a histria do processo s/e/a (ver revista Dynamis 1980-1995).

    Embora a epidemiologia trabalhe com sries histricas curtas por razes

    compreensveis, dada