Edgar+morin+ +a+cabeca+bem+feita

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  • 1. EDGAR MORIN A CABEA BEM-FEITA Repensar a reforma Reformar o pensamento 8a EDIO Traduo ELO JACOBINA
  • 2. Copyright 1999, ditions du Seuil Ttulo original: La Tte Bien Faite - Repenser la rforme, rformer la pense Capa: Simone Villas Boas 2003 Impresso no Brasil Printed in Brazil CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Morin, Edgar, 1921- A cabea bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento / Edgar Morin; traduo Elo Jacobina. - 8a ed. -Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 128p. Traduo de: La tte bien faite Anexos ISBN 85-286-0764-X 1. Educao - Ensaios. 2. Educao - Filosofia. I. Ttulo. Todos os direitos reservados pela EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA. Rua Argentina, 171 - 1o andar - So Cristvo 20921-380 - Rio de Janeiro - RJ Tel: (0XX21) 2585-2070 Fax: (0XX21) 2585-2087 No permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora. Atendemos pelo Reembolso Postal.
  • 3. Este livro dirigido a todos, mas poderia ajudar particularmente professores e alunas. Gostaria de que estes ltimos, se tiverem acesso a este livro, e se o ensino os entedia, desanima, deprime ou aborrece, pudessem utilizar meus captulos para assumir sua prpria educao.
  • 4. SUMRIO PREFCIO ....................................................................................... 9 1. OS DESAFIOS ............................................................................ 13 2. A CABEA BEM-FEITA ............................................................. 21 3. A CONDIO HUMANA............................................................. 35 4. APRENDER A VIVER ................................................................. 47 5. ENFRENTAR A INCERTEZA ........................................................ 55 6. A APRENDIZAGEM CIDAD ...................................................... 65 7. OS TRS GRAUS....................................................................... 75 8. A REFORMA DE PENSAMENTO ................................................. 87 9. PARA ALM DAS CONTRADIES ............................................ 99 ANEXOS 1. Inter-poli-transdisciplinaridade ............................................ 105 2. A noo de sujeito ................................................................. 117 7
  • 5. PREFCIO Gostaria tanto de perseverar em minha educao puramente humana, mas o saber no nos torna melhores nem mais felizes. Sim! Se fssemos capazes de compreender a coerncia de todas as coisas! Mas o incio e o fim de toda cincia no esto envoltos em obscuridade? Ou devo empregar todas estas faculdades, estas foras, esta vida inteira, para conhecer tal espcie de inseto, para saber classificar uma determinada planta na srie dos reinos? KLEIST, Lettre une amie (Carta a uma amiga) DURANTE OS LTIMOS dez anos, desenvolvi uma linha de idias que me conduziria a este livro. Cada vez mais convencido da necessidade de uma reforma do pensamento, portanto de uma reforma do ensino, aproveitava diversas oportunidades para refletir sobre o assunto. Por sugesto de Jack Lang, ento ministro da Educao na Frana, enunciei algumas anotaes para um Emlio* contemporneo. Imaginara um manual para alunos, professores e cidados, projeto que no abandonei. Depois, por ocasio de vrias palestras e vrios honoris causa em faculdades estrangeiras, inseria em meus discursos minhas idias em formao. Comecei a formular meu ponto de vista em meados 1997, quando fui chamado por Le Monde de lducation para ser o correspondente- chefe convidado do nmero sobre a Universidade. _____________________ * Referncia a Emlio, ou da educao, de Jean-Jacques Rousseau, Bertrand Brasil. (N.daT.) 9
  • 6. No dezembro seguinte, o ministro Claude Allgre pediu-me para presidir um Conselho Cientfico destinado a refletir sobre a reforma dos saberes nos ginsios. Graas ao apoio de Didier Dacunha-Castelle, organizei algumas jornadas temticas1 , que me permitiram demonstrar a viabilidade de minhas idias. Mas elas levantaram tantas resistncias, que o relato referente a minhas proposies ficou prejudicado de ponta a ponta. Entretanto, meu pensamento entrara irrevogavelmente em ao, e com ele prossegui neste trabalho, que o seu resultado2 . Tencionei comear pelos problemas que acreditava serem, ao mesmo tempo, os mais urgentes e os mais importantes, e indicar o caminho para analis-los. Tencionei comear pelas finalidades e mostrar como o ensino primrio, secundrio, superior podia servir a essas finalidades. Tencionei demonstrar como a soluo dos problemas e sua submisso s finalidades deveriam levar, necessariamente, reforma do pensamento e das instituies. Os que no me leram e julgam-me segundo o disse-me-disse do microcosmo atribuem-me a idia bizarra de uma poo mgica, chamada complexidade, como remdio para todos os males do esprito. Ao contrrio, a complexidade, para mim, um desafio que sempre me propus a vencer. Este livro dedicado, de fato, educao e ao ensino, a um s tempo. Esses dois termos, que se confundem, distanciam-se igualmente. Educao uma palavra forte: Utilizao de meios que permitem assegurar a formao e o desenvolvimento de um ser humano; esses prprios meios. (Robert) O termo formao, com suas conotaes de moldagem e conformao, tem o defeito de ignorar _____________________ 1 O relato dessas jornadas foi publicado sob o ttulo Relier les connaissances; Seuil, 1999. 2 Agradeo a Jean-Louis Le Moigne e Chtistiane Peyron-Bonjan, que contriburam com suas observaes crticas na releitura de meu manuscrito. 10
  • 7. que a misso do didatismo encorajar o autodidatismo, despertando, provocando, favorecendo a autonomia do esprito. O ensino, arte ou ao de transmitir os conhecimentos a um aluno, de modo que ele os compreenda e assimile, tem um sentido mais restrito, porque apenas cognitivo. A bem dizer, a palavra ensino no me basta, mas a palavra educao comporta um excesso e uma carncia. Neste livro, vou deslizar entre os dois termos, tendo em mente um ensino educativo. A misso desse ensino transmitir no o mero saber, mas uma cultura que permita compreender nossa condio e nos ajude a viver, e que favorea, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre. Kleist tem muita razo: O saber no nos torna melhores nem mais felizes. Mas a educao pode ajudar a nos tornarmos melhores, se no mais felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte potica de nossas vidas. 11
  • 8. CAPTULO I OS DESAFIOS Nossa Universidade atual forma, pelo mundo afora, uma proporo demasiado grande de especialistas em disciplinas predeterminadas, portanto artificialmente delimitadas, enquanto uma grande parte das atividades sociais, como o prprio desenvolvimento da cincia, exige homens capazes de um ngulo de viso muito mais amplo e, ao mesmo tempo, de um enfoque dos problemas em profundidade, alm de novos progressos que transgridam as fronteiras histricas das disciplinas. LICHNEROWICZ H INADEQUAO cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetrios. Em tal situao, tornam-se invisveis: os conjuntos complexos; as interaes e retroaes entre partes e todo; as entidades multidimensionais; os problemas essenciais. De fato, a hiperespecializao1 impede de ver o global (que ela fragmenta em parcelas), bem como o essencial (que ela dilui). Ora, _____________________ 1 ... ou seja, a especializao que se fecha em si mesma sem permitir sua integrao em uma problemtica global ou em uma concepo de conjunto do objeto do qual ela considera apenas um aspecto ou uma parte. 13 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 9. os problemas essenciais nunca so parcelveis, e os problemas globais so cada vez mais essenciais. Alm disso, todos os problemas particulares s podem ser posicionados e pensados corretamente em seus contextos; e o prprio contexto desses problemas deve ser posicionado, cada vez mais, no contexto planetrio. Ao mesmo tempo, o retalhamento das disciplinas torna impossvel apreender o que tecido junto, isto , o complexo, segundo o sentido original do termo. Portanto, o desafio da globaliaade tambm um desafio de complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o econmico, o poltico, o sociolgico, o psicolgico, o afetivo, o mitolgico) so inseparveis e existe um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos prprios de nosso sculo e de nossa era planetria nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais freqncia, com os desafios da complexidade. Como disseram Aurlio Peccei e Daisaku Ikeda: O approach reducionista, que consiste em recorrer a uma srie de fatores para regular a totalidade dos problemas levantados pela crise multiforme, que atravessamos atualmente, menos uma soluo que o prprio problema.2 Efetivamente, a inteligncia que s sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaos separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreenso e de reflexo, eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma viso a longo prazo. Sua insuficincia para tratar nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de _____________________ 2 Cri dalarme pour le 21e sicle. Dialogue entre Daisaku Ikeda et Aurlio Peccei, PUF, 1986. 14 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 10. pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetrios tornam-se os problemas, mais impensveis eles se tornam. Uma inteligncia incapaz de perceber o contexto e o complexo planetrio fica cega, inconsciente e irresponsvel. Assim, os desenvolvimentos disciplinares das cincias no s trouxeram as vantagens da diviso do trabalho, mas tambm os inconvenientes da superespecializao, do confinamento e do despedaamento do saber. No s produziram o conhecimento e a elucidao, mas tambm a ignorncia e a cegueira. Em vez de corrigir esses desenvolvimentos, nosso sistema de ensino obedece a eles. Na escola primria nos ensinam a isolar os objetos (de seu meio ambiente), a separar as disciplinas (em vez de reconhecer suas correlaes), a dissociar os problemas, em vez de reunir e integrar. Obrigam-nos a reduzir o complexo ao simples, isto , a separar o que est ligado; a decompor, e no a recompor; e a eliminar tudo que causa desordens ou contradies em nosso entendimento3 . Em tais condies, as mentes jovens perdem suas aptides naturais para contextualizar os saberes e integr-los em seus conjuntos. Ora, o conhecimento pertinente o que capaz de situar qualquer informao em seu contexto e, se possvel, no conjunto em que est inscrita. Podemos dizer at que o conhecimento progride no tanto por sofisticao, formalizao e abstrao, mas, principalmente, pela capacidade de contextualizar e englobar. Assim, a cincia econmica a cincia humana mais sofisticada e a mais formalizada. Contudo, os economistas so incapazes de estar de acordo sobre suas _____________________ 3 O pensamento que recorta, isola, permite que especialistas e experts tenham timo desempenho em seus compartimentos, e cooperem eficazmente nos setores no complexos de conhecimento, notadamente os que concernem ao funcionamento das mquinas artificiais; mas a lgica a que eles obedecem estende sociedade e as relaes humanas os constrangimentos e os mecanismos inumanos da mquina artificial e sua viso determinista, mecanicista, quantitativa, formalista; e ignora, oculta ou dilui tudo que subjetivo, afetivo, livre, criador. 15 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 11. predies, geralmente errneas. Por qu? Porque a cincia econmica est isolada das outras dimenses humanas e sociais que lhe so inseparveis. Como diz Jean-Paul Fitoussi, muitos desfuncionamentos procedem, hoje, de uma mesma fraqueza da poltica econmica: a recusa a enfrentar a complexidade...4 . A poltica econmica a mais incapaz de perceber o que no quantificvel, ou seja, as paixes e as necessidades humanas. De modo que a economia , ao mesmo tempo, a cincia mais avanada matematicamente e a mais atrasada humanamente. Hayek dizia: Ningum pode ser um grande economista se for somente um economista. Chegava at a acrescentar que um economista que s economista torna-se prejudicial e pode constituir um verdadeiro perigo. Devemos, pois, pensar o problema do ensino, considerando, por um lado, os efeitos cada vez mais graves da compartimentao dos saberes e da incapacidade de articul-los, uns aos outros; por outro lado, considerando que a aptido para contextualizar e integrar uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida, e no atrofiada. Por detrs do desafio do global e do complexo, esconde-se um outro desafio: o da expanso descontrolada do saber. O crescimento ininterrupto dos conhecimentos constri uma gigantesca torre de Babel, que murmura linguagens discordantes. A torre nos domina porque no podemos dominar nossos conhecimentos. T. S. Eliot dizia: Onde est o conhecimento que perdemos na informao? O conhecimento s conhecimento enquanto organizao, relacionado com as informaes e inserido no contexto destas. As informaes constituem parcelas dispersas de saber. Em toda parte, nas cincias como nas mdias, estamos afogados em informaes. O especialista da disciplina mais restrita no chega sequer a tomar conheci- _____________________ 4 Le Dbat interdit: monnaie, Europe, pauvret, Arla, 1995. 16 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 12. mento das informaes concernentes a sua rea. Cada vez mais, a gigantesca proliferao de conhecimentos escapa ao controle humano. Alm disso, como j dissemos, os conhecimentos fragmentados s servem para usos tcnicos. No conseguem conjugar-se para alimentar um pensamento capaz de considerar a situao humana no mago da vida, na terra, no mundo, e de enfrentar os grandes desafios de nossa poca. No conseguimos integrar nossos conhecimentos para a conduo de nossas vidas. Da o sentido da segunda parte da frase de Eliot: Onde est a sabedoria que perdemos no conhecimento? Os trs desafios que acabamos de destacar levam-nos ao problema essencial da organizao do saber, de que trataremos no prximo captulo. Assinalemos, agora, os desafios encadeados que resultam desses trs desafios. O desafio cultural A cultura, daqui em diante, est no s recortada em peas destacadas, como tambm partida em dois blocos. A grande separao entre a cultura das humanidades e a cultura cientfica, iniciada no sculo passado e agravada neste sculo XX, desencadeia srias conseqncias para ambas. A cultura humanstica uma cultura genrica, que, pela via da filosofia, do ensaio, do romance, alimenta a inteligncia geral, enfrenta as grandes interrogaes humanas, estimula a reflexo sobre o saber e favorece a integrao pessoal dos conhecimentos. A cultura cientfica, bem diferente por natureza, separa as reas do conhecimento; acarreta admirveis descobertas, teorias geniais, mas no uma reflexo sobre o destino humano e sobre o futuro da prpria cincia. A cultura das humanidades tende a se tornar um moinho despossudo do gro das conquistas cientficas sobre o mundo e sobre a vida, que deveria alimentar suas grandes interroga- 17 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 13. es; a segunda, privada da reflexo sobre os problemas gerais e globais, torna-se incapaz de pensar sobre si mesma e de pensar os problemas sociais e humanos que coloca. O mundo tcnico e cientfico v na cultura das humanidades apenas uma espcie de ornamento ou luxo esttico, ao passo que ela favorece o que Simon chamava de general problem solving, isto , a inteligncia geral que a mente humana aplica aos casos particulares. O mundo das humanidades v na cincia apenas um amontoado de saberes abstratos ou ameaadores. O desafio sociolgico A rea submetida aos trs desafios estende-se incessantemente com o crescimento das caractersticas cognitivas das atividades econmicas, tcnicas, sociais, polticas, sobretudo com os desenvolvimentos generalizados e mltiplos do sistema neurocerebral artificial, impropriamente denominado informtica, posto em simbiose com todas as nossas atividades. assim cada vez mais: a informao uma matria-prima que o conhecimento deve dominar e integrar; o conhecimento deve ser permanentemente revisitado e revisado pelo pensamento; o pensamento , mais do que nunca, o capital mais precioso para o indivduo e a sociedade. O desafio cvico O enfraquecimento de uma percepo global leva ao enfraquecimento do senso de responsabilidade cada um tende a ser responsvel apenas por sua tarefa especializada , bem como ao enfraquecimento da solidariedade ningum mais preserva seu elo orgnico com a cidade e seus concidados. 18 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 14. Existe um dficit demogrfico crescente, devido apropriao de um nmero crescente de problemas vitais pelos experts, especialistas e tcnicos. O saber tornou-se cada vez mais esotrico (acessvel somente aos especialistas) e annimo (quantitativo e formalizado). O conhecimento tcnico est igualmente reservado aos experts, cuja competncia em um campo restrito acompanhada de incompetncia quando este campo perturbado por influncias externas ou modificado por um novo acontecimento. Em tais condies, o cidado perde o direito ao conhecimento. Tem o direito de adquirir um saber especializado com estudos ad hoc, mas despojado, enquanto cidado, de qualquer ponto de vista globalizante ou pertinente. Se ainda possvel discutir num bar a conduta da chefia do Estado, j no possvel compreender o que deflagra o crash asitico, assim como o que impede esse crash de provocar uma crise maior; de resto, os prprios experts esto profundamente divididos sobre o diagnstico e a poltica econmica a seguir. Se era possvel acompanhar a Segunda Guerra Mundial pelas bandeirinhas fincadas no mapa, no possvel conceber os clculos e as simulaes dos computadores que executam os planos da guerra futura. A arma atmica deixou o cidado inteiramente desprovido da possibilidade de pens-la e control-la. Sua utilizao est entregue unicamente deciso do chefe de Estado, sem qualquer consulta a alguma instncia democrtica regulamentar. Quanto mais tcnica torna-se a poltica, mais regride a competncia democrtica. A continuao do processo tcnico-cientfico atual processo cego, alis, que escapa conscincia e vontade dos prprios cientistas leva a uma grande regresso da democracia. Assim, enquanto o expert perde a aptido de conceber o global e o fundamental, o cidado perde o direito ao conhecimento. A partir da, a perda do saber, muito mal compensada pela vulgarizao da mdia, levanta o problema histrico, agora capital, da necessidade de uma democracia cognitiva. 19 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 15. Atualmente, impossvel democratizar um saber fechado e esotrico por natureza. Mas, a partir da, no seria possvel conceber uma reforma do pensamento que permita enfrentar o extraordinrio desafio que nos encerra na seguinte alternativa: ou sofrer o bombardeamento de incontveis informaes que chovem sobre ns, quotidianamente, pelos jornais, rdios, televises; ou, ento, entregarmo-nos a doutrinas que s retm das informaes o que as confirma ou o que lhes inteligvel, e refugam como erro ou iluso tudo o que as desmente ou lhes incompreensvel. um problema que se coloca no somente ao conhecimento do mundo no dia-a-dia, mas tambm ao conhecimento de tudo o que humano e ao prprio conhecimento cientfico. O desafio dos desafios Um problema crucial de nossa poca o da necessidade de destacar todos os desafios interdependentes que acabamos de levantar. A reforma do pensamento que permitiria o pleno emprego da inteligncia para responder a esses desafios e permitiria a ligao de duas culturas dissociadas. Trata-se de uma reforma no programtica, mas paradigmtica, concernente a nossa aptido para organizar o conhecimento. Todas as reformas concebidas at o presente giraram em torno desse buraco negro em que se encontra a profunda carncia de nossas mentes, de nossa sociedade, de nosso tempo e, em decorrncia, de nosso ensino. Elas no perceberam a existncia desse buraco negro, porque provm de um tipo de inteligncia que precisa ser reformada. A reforma do ensino deve levar reforma do pensamento, e a reforma do pensamento deve levar reforma do ensino. 20 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 16. CAPTULO 2 A CABEA BEM-FEITA No se ensinam os homens a serem homens honestos, mas ensina-se tudo o mais. PASCAL A finalidade de nossa escola ensinar a repensar o pensamento, a des- saber o sabido e a duvidar de sua prpria dvida; esta a nica maneira de comear a acreditar em alguma coisa. JUAN DE MAIRENA A PRIMEIRA FINALIDADE do ensino foi formulada por Montaigne: mais vale uma cabea bem-feita que bem cheia. O significado de uma cabea bem cheia bvio: uma cabea onde o saber acumulado, empilhado, e no dispe de um princpio de seleo e organizao que lhe d sentido. Uma cabea bem-feita significa que, em vez de acumular o saber, mais importante dispor ao mesmo tempo de: uma aptido geral para colocar e tratar os problemas; princpios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido. A aptido geral Lembremos que o esprito humano, como dizia H. Simon, um GPS, general problems setting and solving. Contrariamente opinio hoje difundida, o desenvolvimento 21
  • 17. das aptides gerais da mente permite o melhor desenvolvimento das competncias particulares ou especializadas. Quanto mais desenvolvida a inteligncia geral, maior sua capacidade de tratar problemas especiais. A educao deve favorecer a aptido natural da mente para colocar e resolver os problemas e, correlativamente, estimular o pleno emprego da inteligncia geral. Esse pleno emprego exige o livre exerccio da faculdade mais comum e mais ativa na infncia e na adolescncia, a curiosidade, que, muito freqentemente, aniquilada pela instruo1 , quando, ao contrrio, trata-se de estimul-la ou despert-la, se estiver adormecida. Trata-se, desde cedo, de encorajar, de instigar a aptido interrogativa e orient-la para os problemas fundamentais de nossa prpria condio e de nossa poca. evidente que isso no pode ser inserido em um programa, s pode ser impulsionado por um fervor educativo. O desenvolvimento da inteligncia geral requer que seu exerccio seja ligado dvida2 , fermento de toda atividade crtica, que, como assinala Juan de Mairena, permite repensar o pensamento, mas comporta tambm a dvida de sua prpria dvida. Deve recorrer ars cogttandi, a qual inclui o bom uso da lgica, da deduo, da induo a arte da argumentao e da discusso. Comporta tambm essa inteligncia que os gregos chamavam de mtis3 , conjunto de atitudes mentais... que conjugam o faro, a sagacidade, a previso, a leveza de esprito, a desenvoltura, a ateno constante, o senso de oportunidade. Enfim, seria preciso partir de Voltaire e _____________________ 1 Recordemos o carter trgico da extino progressiva da curiosidade durante os anos de formao, ou sua limitao a um pequeno setor, que ser o da especializao do adulto. 2 Montaigne, citando Dante: Che non men que saper dubbiar maggradd (tanto quanto o saber, agrada-me a dvida). 3 M. Dtienne e J.-P. Vernant, Les Ruses de lintelligence. La mtis des Grecs, Flammarion, 1974, col. Champs, 1986. 22
  • 18. Conan Doyle, e, mais adiante, estudar a arte do paleontlogo ou do arquelogo, para se iniciar na serendipididade. arte de transformar detalhes, aparentemente insignificantes, em indcios que permitam reconstituir toda uma histria. Como o bom uso da inteligncia geral necessrio em todos os domnios da cultura das humanidades tambm da cultura cientfica e, claro, na vida, em todos esses domnios que ser preciso valorizar o pensar bem, que no leva absolutamente a formar um bem-pensante. O ensino matemtico, que compreende o clculo, claro, ser levado aqum e alm do clculo. Dever revelar a natureza intrinsecamente problemtica das matemticas. O clculo um instrumento do raciocnio matemtico, que exercido sobre o problem settings o problem solving, em que se trata de exibir a prudncia consumada e a lgica implacvel4 . No decorrer dos anos de aprendizagem, seria preciso valorizar, progressivamente, o dilogo entre o pensamento matemtico e o desenvolvimento dos conhecimentos cientficos, e, finalmente, os limites da formalizao e da quantificao. A filosofia deve contribuir eminentemente para o desenvolvimento do esprito problematizador. A filosofia , acima de tudo, uma fora de interrogao e de reflexo, dirigida para os grandes problemas do conhecimento e da condio humana. A filosofia, hoje retrada em uma disciplina quase fechada em si mesma, deve retomar a misso que foi a sua desde Aristteles a Bergson e Husserl sem, contudo, abandonar as investigaes que lhe so prprias. Tambm o professor de filosofia, na conduo de seu ensino, deveria estender seu poder de reflexo aos conhecimentos cientficos, bem como literatura e poesia, alimentando- se ao mesmo tempo de cincia e de literatura. _____________________ 4 Lautramont, Chants de Maldoror, in uvres compltes, Losfeld, 1971, p. 114. 23
  • 19. A organizao dos conhecimentos Uma cabea bem-feita uma cabea apta a organizar os conhecimentos e, com isso, evitar sua acumulao estril. Todo conhecimento constitui, ao mesmo tempo, uma traduo e uma reconstruo, a partir de sinais, signos, smbolos, sob a forma de representaes, idias, teorias, discursos. A organizao dos conhecimentos realizada em funo de princpios e regras que no cabe analisar aqui5 ; comporta operaes de ligao (conjuno, incluso, implicao) e de separao (diferenciao, oposio, seleo, excluso). O processo circular, passando da separao ligao, da ligao separao, e, alm disso, da anlise sntese, da sntese anlise. Ou seja: o conhecimento comporta, ao mesmo tempo, separao e ligao, anlise e sntese. Nossa civilizao e, por conseguinte, nosso ensino privilegiaram a separao em detrimento da ligao, e a anlise em detrimento da sntese. Ligao e sntese continuam subdesenvolvidas. E isso, porque a separao e a acumulao sem ligar os conhecimentos so privilegiadas em detrimento da organizao que liga os conhecimentos. Como nosso modo de conhecimento desune os objetos entre si, precisamos conceber o que os une. Como ele isola os objetos de seu contexto natural e do conjunto do qual fazem parte, uma necessidade cognitiva inserir um conhecimento particular em seu contexto e situ-lo em seu conjunto. De fato, a psicologia cognitiva demonstra que o conhecimento progride menos pela sofisticao, formalizao e abstrao dos conhecimentos particulares do que, sobretudo, pela aptido a integrar esses conhecimentos em seu contexto global. A partir da, o desenvolvimento da aptido para contextualizar e globalizar os saberes torna-se um imperativo da educao. O desenvolvimento da aptido para contextualizar tende a produzir a emergncia de um pensamento ecologizante, no sentido em _____________________ 5 Cf. E. Morin, La Mthode, t. 3: La Connaissance de la connaissance e t. 4: Les Ides, d. du Seuil, Points Essais n 236 e 303. 24 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 20. que situa todo acontecimento, informao ou conhecimento em relao de inseparabilidade com seu meio ambiente cultural, social, econmico, poltico e, claro, natural. No s leva a situar um acontecimento em seu contexto, mas tambm incita a perceber como este o modifica ou explica de outra maneira. Um tal pensamento torna-se, inevitavelmente, um pensamento do complexo, pois no basta inscrever todas as coisas ou acontecimentos em um quadro ou uma perspectiva. Trata-se de procurar sempre as relaes e inter-retro-aes entre cada fenmeno e seu contexto, as relaes de reciprocidade todo/partes: como uma modificao local repercute sobre o todo e como uma modificao do todo repercute sobre as partes. Trata-se, ao mesmo tempo, de reconhecer a unidade dentro do diverso, o diverso dentro da unidade; de reconhecer, por exemplo, a unidade humana em meio s diversidades individuais e culturais, as diversidades individuais e culturais em meio unidade humana. Enfim, um pensamento unificador abre-se de si mesmo para o contexto dos contextos: o contexto planetrio. Para seguir por esse caminho, o problema no bem abrir as fronteiras entre as disciplinas, mas transformar o que gera essas fronteiras: os princpios organizadores do conhecimento. Pascal j formulara a necessidade de ligao, que hoje o caso de introduzir em nosso ensino, a comear pelo primrio: Sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e todas elas mantidas por um elo natural e insensvel, que interliga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossvel conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes... (Pensamentos, d. Brunschvicg, II, 72). Para pensar localizadamente, preciso pensar globalmente, como para pensar globalmente preciso pensar localizadamente. O problema chave permanece: quais so os princpios que poderiam elucidar as relaes de reciprocidade entre partes e todo, bem como reconhecer o elo natural e insensvel que liga as coisas mais distantes e as mais diferentes? Quais so as maneiras de pensar que per- 25 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 21. mitiriam conceber que uma mesma coisa possa ser causada e causadora, ajudada e ajudante, mediata e imediata? No captulo 8, A reforma do pensamento, vamos indic-las, sucintamente. Um novo esprito cientfico A segunda revoluo cientfica do sculo XX6 pode contribuir, atualmente, para formar uma cabea bem-feita. Essa revoluo, iniciada em vrias frentes dos anos 60, gera grandes desdobramentos que levam a ligar, contextualizar e globalizar os saberes at ento fragmentados e compartimentados, e que, da em diante, permitem articular as disciplinas, umas s outras, de modo mais fecundo. O desenvolvimento anterior das disciplinas cientficas, tendo fragmentado e compartimentado mais e mais o campo do saber, demoliu as entidades naturais sobre as quais sempre incidiram as grandes interrogaes humanas: o cosmo, a natureza, a vida e, a rigor, o ser humano. As novas cincias, Ecologia, cincias da Terra, Cosmologia, so poli ou transdisciplinares: tm por objeto no um setor ou uma parcela, mas um sistema7 complexo, que forma um _____________________ 6 ... a primeira teria irrompido na microfisica, no incio do sculo (cf. cap. 5, p. 56). 7 A idia sistmica comeou, na segunda metade de nosso sculo, a minar progressivamente a validade de um conhecimento reducionista. Formulada por Bertalanffy, ao longo dos anos 50, a teoria geral dos sistemas, que parte do fato de que a maior parte dos objetos da fsica, da astronomia, da biologia, da sociologia, tomos, molculas, clulas, organismos, sociedades, astros, galxias formam sistemas, ou seja, conjuntos de partes diversas que constituem um todo organizado, retomou a idia, freqentemente formulada no passado, de que um todo mais que o conjunto das partes que o compem. Na mesma poca, a ciberntica estabelecia os primeiros princpios concernentes organizao das mquinas que dispunham de programas informatizados e de dispositivos reguladores, cujo conhecimento no podia ser reduzido ao de suas partes constitutivas. Como destacamos (La Mthode, t. h La Nature de la nature, d. du Seuil, Points Essais, n? 123, particularmente, pp. 101-116), a organizao em sistema produz qualidades ou propriedades desconhecidas das partes concebidas isoladamente: as emergncias. Assim, as propriedades do ser vivo so desconhecidas na medida de seus constituintes moleculares isolados; elas 26 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 22. todo organizador8 . Realizam o restabelecimento dos conjuntos constitudos, a partir de interaes, retroaes, inter-retroaes, e constituem complexos que se organizam por si prprios. Ao mesmo tempo, ressuscitam entidades naturais: o Universo (Cosmologia), a Terra (cincias da Terra), a natureza (Ecologia), a humanidade (pela viso em perspectiva da nova Pr-histria do processo multimilenar de hominizao). Assim, todas essas cincias rompem o velho dogma reducionista de explicao pelo elementar: elas tratam de sistemas complexos onde as partes e o todo produzem e se organizam entre si e, no caso da Cosmologia, uma complexidade que ultrapassa qualquer sistema. J existiam cincias multidimensionais, como a Geografia, que vai da Geologia aos fenmenos econmicos e sociais. Existem cincias que se tornaram poliscpicas, como a Histria, e cincias que j o eram, como a cincia das civilizaes (Isl, ndia, China). Agora, surgiram novas cincias sistmicas: Ecologia, cincias da Terra, Cosmologia. ECOLOGIA A idia de sistema foi introduzida e imps-se, sob a forma de ecossistema, em uma cincia que, fundada no final do sculo XIX, conheceu um prodigioso desenvolvimento a partir do incio dos anos de 1960: a Ecologia. A noo de ecossistema significa que o conjunto das interaes entre populaes vivas no seio de uma determinada unidade geofsica constitui uma unidade complexa de carter organizador: um ecossistema. Como sabido, a partir dos anos _____________________ emergem nesta e para esta organizao. A rotina, fruto da cincia disciplinar, era to forte, que, por muito tempo, o pensamento sistmico permaneceu afastado das cincias, tanto naturais como humanas, e, ainda hoje, marginalizado. 8 Como indicamos antes (La Mthode, t. l, op. cit., pp. 94-106), as noes de sistema e de organizao remetem uma outra. 27
  • 23. 70 a pesquisa ecolgica estendeu-se biosfera como um todo, sendo esta concebida como um megassistema auto-regulador que admite em seu mago os desenvolvimentos tcnicos e econmicos propriamente humanos que passam a perturb-lo. A Ecologia, que tem um ecossistema como objeto de estudo, recorre a mltiplas disciplinas fsicas para apreender o biotopo e s disciplinas biolgicas (Zoologia, Botnica, Microbiologia) para estudar a biocenose. Alm disso, precisa recorrer s cincias humanas para analisar as interaes entre o mundo humano e a biosfera. Assim, disciplinas extremamente distintas so associadas e orquestradas na cincia ecolgica. CINCIAS DA TERRA Nos anos 60, depois da descoberta da teoria tectnica das placas, as cincias da Terra percebem nosso planeta como um sistema complexo que se autoproduz e se auto-organiza; articulam-se com disciplinas outrora isoladas, como a Geologia, a Meteorologia, a Vulcanologia, a Sismologia. Sugerem que a diminuio de peso na extremidade continental do sudeste asitico, sob o efeito da eroso anual devida aos ciclones, pode provocar um contrabalanceamento no oeste da Anatlia e um empuxo causador de tremores de terra ou erupes vulcnicas na Grcia e na Itlia. Encaminhamo-nos, como prope vivamente Westbroek9 , para uma concepo geobiofsica da Terra, em que os caracteres fsicos de origem biolgica (o oxignio do ar, o calcrio etc.) esto integrados como sistema e onde a vida no apenas um produto, mas tambm um agente da fsica terrestre. O desenvolvimento das cincias da Terra e da Ecologia revitalizam a Geografia, cincia complexa por princpio, uma vez que _____________________ 9 Peter Westbroek, Vive la Terre. Physiologie d une plante, d. du Seuil, 1998. 28
  • 24. abrange a fsica terrestre, a biosfera e as implantaes humanas. Marginalizada pelas disciplinas vitoriosas, privada do pensamento organizador que vai alm do possibilismo de Vidal de La Blache, ou do determinismo de Ratzell , a Geografia, que, de resto, forneceu profissionais Ecologia, reencontra suas perspectivas multidimensionais, complexas e globalizantes10 . Desenvolve seus pseudopodes geopolticos11 e reassume sua vocao originria: como diz Jean-Pierre Allix, somos necessariamente generalizadores12 . A Geografia amplia-se em Cincia da Terra dos homens. COSMOLOGIA O cosmo fora liquidado no incio do sculo XX pelo conceito einsteiniano de espao-tempo. Sua ressurreio tem incio com a descoberta de Hubble da disperso das galxias, a hiptese do tomo primitivo de Lematre, e concluda nos anos 60, notadamente depois da descoberta da radiao istropa que vem de todos os pontos do Universo e pode ser interpretada como o resduo fssil de um acontecimento trmico inicial. A partir da, impe-se o conceito de um cosmo nico, em evoluo. Para conhecer esse cosmo e conceber, sobretudo, a formao dos ndulos, dos tomos, e as inter-retroaes no interior dos astros, a observao astrofsica associada aos resultados das experincias microfsicas, isto , a disciplina do infinitamente grande disciplina do infinitamente pequeno; a exemplo de Pascal, alguns cosmlogos, meditando sobre a situao humana entre esses dois infinitos, tentam introduzir a possibilidade da vida e da conscincia em sua idia de cosmo (princpio antrpico). _____________________ 10 Cf. Jacques Levy, Le Monde pour cit, debate com Alfred Valladao, Hachette, 1996. Michel Roux, Gographie et complexit, LHarmattan, 1999. 11 Cf. Yves Lacoste, Dictionnaire de gopolitique, Flammarion, 1995. 12 LEspace humain, Une invitation la gographie, d. du Seuil, 1996. 29
  • 25. Assim, a partir da, disciplinas distintas (astronomia de observao, fsica, micro fsica, matemtica), alm de uma reflexo quase filosfica, so utilizadas de maneira reflexiva para permitir, tanto quanto possvel, uma inteligibilidade de nosso Universo. Os atrasos Infelizmente, a revoluo das recomposies multidisciplinares est longe de ser generalizada e, em muitos setores, sequer teve incio, notadamente no que concerne ao ser humano, vtima da grande disjuno natureza/cultura, animalidade/humanidade, sempre desmembrado entre sua natureza de ser vivo, estudada pela biologia, e sua natureza fsica e social, estudada pelas cincias humanas. Contudo, a nova Pr-histria, desde as descobertas feitas por Louis e Mary Leakey na garganta do Olduvai, em 1959, permite efetuar a primeira ligao, que forma um n grdio entre o biolgico e o humano: como cincia polidisciplinar e poliscpica, ela procura compreender a hominizao, aventura de alguns milhes de anos, que realiza a passagem do animal ao humano e a da natureza cultura. Precisa recorrer Ecologia (mudanas climticas que estimularam a hominizao), Gentica (mutaes sucessivas do australopteco ao Homo sapiens), Anatomia (o elo entre a bipedizao e a manualizao, a postura ereta do corpo, a modificao do crnio); s cincias neurolgicas (crescimento e reorganizao do crebro); Sociologia (transformao de uma sociedade de primatas em sociedade humana), s teorias de Bolk (o adulto conserva os caracteres no especializados do embrio e os caracteres fisiolgicos da juventude)13 . Ata-se, ento, o primeiro elo indissolvel entre cincias da vida e cincias humanas. _____________________ 13 Cf. as indicaes in Le Paradigme perdu, Points Essais, n. 109. 30
  • 26. Nas cincias cognitivas, um outro elo pesquisado entre o crebro, rgo biolgico, a mente, entidade antropolgica, e o computador, inteligncia artificial. Mas, at o presente, h mais justaposio que ligao, e menos busca de uma linguagem comum que conflitos entre disciplinas de pretenso hegemnica: cincias neurolgicas, cincias fsicas, teorias oriundas da informao, ciberntica, conceitos de auto- organizao a partir de redes de conexo etc. O mais grave que as cincias cognitivas, que aglutinam disciplinas normais, prprias da cincia clssica, ignoram seu problema crucial: o objeto de seu conhecimento da mesma natureza que seu instrumento de conhecimento. De modo que as cincias cognitivas constituem uma primeira etapa de agregao, espera da grande virada. No que diz respeito s cincias da vida e s cincias do homem, a situao bem diferente. Os prodigiosos progressos da Biologia Molecular e da Gentica permitem conceber o elo entre Fsica, Qumica e Biologia, pois pela organizao, e no pela matria, que a vida se diferencia do mundo fsico-qumico. Mas essa organizao concebida de maneira reducionista, quando simplificada em um nico movimento ADN ARN protenas. De fato, existem hiatos, at agora no preenchidos, entre Biologia Molecular, de um lado, e Etologia ou Parasitologia, do outro. Enquanto a Biologia Molecular esfora-se para reduzir todo comportamento vivo a movimentos gentico-qumicos, em uma outra perspectiva das cincias biolgicas desenvolveu-se uma viso etolgica que pe a descoberto a complexidade das estratgias, no apenas animais, mas tambm vegetais, a inteligncia e a complexidade das relaes entre macacos superiores, sobretudo os chimpanzs, a existncia no de hordas, mas de verdadeiras sociedades, entre mamferos; quanto Parasitologia, ela descobre estratagemas surpreendentes nos parasitas, que se infiltram de uma espcie a outra, sem que esse comportamento to complicado possa ser reduzido a um acaso gentico. 31
  • 27. Assim, as cincias biolgicas progridem em mltiplas frentes, mas essas frentes no esto coordenadas umas s outras e levam a idias divergentes. A confederao biolgica est longe de ser concretizada: falta-lhe a ligao decisiva a idia de auto-organizao. Alm disso, mesmo as cincias especificamente humanas so compartimentadas: Histria, Sociologia, Economia, Psicologia, cincias do imaginrio, mitos e crenas s se comunicam em alguns pesquisadores marginais. Contudo, a Histria tende a tornar-se uma cincia multidimensional, quando integra, em si mesma, a dimenso econmica, a antropolgica (o conjunto de mores, costumes, ritos concernentes vida e morte), e reintegra o acontecimento, depois de achar que devia aboli-lo como epifenmeno. A Histria, como bem acusa Andr Burguire14 , tende a tornar-se cincia da complexidade humana. O imperativo Assim, as grandes recomposies sofrem enormes atrasos justamente onde ainda reina a reduo e a compartimentao. Mas a Cosmologia, as cincias da Terra, a Ecologia, a Pr-histria, a nova Histria permitem articular, umas s outras, disciplinas at ento isoladas. Permitem responder, cada qual em sua rea e a sua maneira, ao imperativo de Pascal. Com esse novo esprito cientfico, pode-se pensar tambm que uma verdadeira reforma do pensamento est a caminho, porm de modo muito desigual... nessa mentalidade que se deve investir, no propsito de favorecer a inteligncia geral, a aptido para problematizar, a realizao _____________________ 14 Andr Burguire, De lhistoire volutionniste lhistoire complexe, in Relier les connaissances, d. du Seuil, 1999. 32
  • 28. da ligao dos conhecimentos. A esse novo esprito cientfico ser preciso acrescentar a renovao do esprito da cultura das humanidades. No esqueamos que a cultura das humanidades favorece a aptido para a abertura a todos os grandes problemas, para meditar sobre o saber e para integr-lo prpria vida, de modo a melhor explicar, correlativamente, a prpria conduta e o conhecimento de si. Assim, podemos imaginar os caminhos que permitiriam descobrir, em nossas condies contemporneas, a finalidade da cabea bem-feita. Tratar-se-ia de um processo contnuo ao longo dos diversos nveis de ensino, em que a cultura cientfica e a cultura das humanidades poderiam ser mobilizadas. Uma educao para uma cabea bem-feita, que acabe com a disjuno entre as duas culturas, daria capacidade para se responder aos formidveis desafios da globalidade e da complexidade na vida quotidiana, social, poltica, nacional e mundial. imperiosamente necessrio, portanto, restaurar a finalidade da cabea bem-feita, nas condies e com os imperativos prprios de nossa poca. 33
  • 29. CAPTULO 3 A CONDIO HUMANA Nosso verdadeiro estudo o da condio humana. ROUSSEAU, Emlio A contribuio da cultura cientfica O ESTUDO DA CONDIO humana no depende apenas do ponto de vista das cincias humanas. No depende apenas da reflexo filosfica e das descries literrias. Depende tambm das cincias naturais renovadas e reunidas, que so: a Cosmologia, as cincias da Terra e a Ecologia. O que essas cincias fazem apresentar um tipo de conhecimento que organiza um saber anteriormente disperso e compartimentado. Ressuscitam o mundo, a Terra, a natureza noes que nunca deixaram de provocar o questionamento e a reflexo na histria de nossa cultura e, de uma nova maneira, despertam questes fundamentais: o que o mundo, o que nossa Terra, de onde viemos? Elas nos permitem inserir e situar a condio humana no cosmo, na Terra, na vida. Estamos em um planeta minsculo, satlite de um Sol de subrbio, astro pigmeu perdido entre milhares de estrelas da Via-lctea, ela mesma galxia perifrica em um cosmo em expanso, privado de centro. Somos filhos marginais do cosmo, formados de partculas, tomos, molculas do mundo fsico. E estamos no apenas marginalizados, como tambm perdidos no cosmo, quase estrangeiros, justamente porque nosso pensamento e nossa conscincia permitem que consideremos isto... 35
  • 30. Assim como a vida terrestre extremamente marginal no cosmo, somos marginais na vida. O homem surgiu marginalmente no mundo animal, e seu desenvolvimento marginalizou-o ainda mais. Somos (aparentemente) os nicos seres vivos, na terra, que dispem de um aparelho neurocerebral hipercomplexo, e os nicos que dispem de uma linguagem de dupla articulao para comunicar-se, de indivduo a indivduo. Os nicos que dispem da conscincia... Abrir-se ao cosmo entrar na aventura desconhecida, onde talvez sejamos, ao mesmo tempo, desbravadores e desviantes; abrir-se physis ligar-se ao problema da organizao das partculas, tomos, molculas, macromolculas, que se encontram no interior das clulas de cada um de ns; abrir-se para a vida abrir-se tambm para as nossas vidas. As cincias do homem retiraram toda significao biolgica a estes termos: ser jovem, velho, mulher, homem, nascer, existir, ter pai e me, morrer essas palavras remetem apenas a categorias socioculturais. S readquirem sentido vivo quando as conceituamos em nossa vida privada. A Antropologia que exclui a vida de nossa vida privada uma Antropologia privada de vida. A vida um fungo que se formou nas guas e na superfcie da Terra. Nosso planeta gerou a vida que se desenvolveu de forma lquida no mundo vegetal e animal; ns somos uma ramificao da ramificao dessa evoluo dos vertebrados, dos mamferos, dos primatas, portadores em ns das herdeiras, filhas, irms das primeiras clulas vivas. Pelo nascimento, participamos da aventura biolgica; pela morte, participamos da tragdia csmica. O ser mais corriqueiro, o destino mais banal participa dessa tragdia e dessa aventura. Michel Cass, em um banquete no Castelo de Beychevelle, quando um enlogo lhe perguntou o que um astrnomo via em seu copo de vinho bordeaux, respondeu assim: Vejo o nascimento do Universo, pois vejo as partculas que se formaram nele nos primeiros segundos. Vejo um Sol anterior ao nosso, pois nossos tomos de carbono foram gerados no seio desse grande astro que explodiu. De- 36
  • 31. pois, esse carbono ligou-se a outros tomos nessa espcie de lixeira csmica em que os detritos, ao se agregarem, vo formar a Terra. Vejo a composio das macromolculas que se uniram para dar nascimento vida. Vejo as primeiras clulas vivas, o desenvolvimento do mundo vegetal, a domesticao da vinha nos pases mediterrneos. Vejo as bacanais e os festins. Vejo a seleo das castas, um cuidado milenar em torno dos vinhedos. Vejo, enfim, o desenvolvimento da tcnica moderna que hoje permite controlar eletronicamente a temperatura de fermentao nas tinas. Vejo toda a histria csmica e humana nesse copo de vinho, e tambm, claro, toda a histria especfica do bordels. Trazemos, dentro de ns, o mundo fsico, o mundo qumico, o mundo vivo, e, ao mesmo tempo, deles estamos separados por nosso pensamento, nossa conscincia, nossa cultura. Assim, Cosmologia, cincias da Terra, Biologia, Ecologia permitem situar a dupla condio humana: natural e metanatural. Conhecer o humano no separ-lo do Universo, mas situ-lo nele. Como vimos no captulo anterior, todo conhecimento, para ser pertinente, deve contextualizar seu objeto. Quem somos ns? inseparvel de Onde estamos, de onde viemos, para onde vamos?. Pascal j nos havia situado, corretamente, entre dois infinitos, o que foi amplamente confirmado no sculo XX pela dupla evoluo da Microfsica e da Astrofsica. Conhecemos hoje nosso duplo enraizamento: no cosmo fsico e na esfera viva. Claro, novas descobertas ainda vo modificar nosso conhecimento, mas, pela primeira vez na histria, o ser humano pode reconhecer a condio humana de seu enraizamento e de seu desenraizamento. Em meio aventura csmica, no extremo do prodigioso desenvolvimento de um ramo singular da auto-organizao viva, prosseguimos, nossa maneira, na aventura da organizao. Essa poca csmica da organizao, incessantemente sujeita s foras da desorganizao e da disperso, , tambm, a poca da reunio, e s ela impediu que o cosmo se dispersasse e desaparecesse, to logo acabara de nas- 37
  • 32. cer. Ns, viventes, e, por conseguinte, humanos, filhos das guas, da Terra e do Sol, somos um feto da dispora csmica, algumas migalhas da existncia solar, uma nfima brotao da existncia terrestre. Estamos, a um s tempo, dentro e fora da natureza. Somos seres, simultaneamente, csmicos, fsicos, biolgicos, culturais, cerebrais, espirituais... Somos filhos do cosmo, mas, at em conseqncia de nossa humanidade, nossa cultura, nosso esprito, nossa conscincia, tornamo- nos estranhos a esse cosmo do qual continuamos secretamente ntimos. Nosso pensamento, nossa conscincia, que nos fazem conhecer o mundo fsico, dele nos distanciam ainda mais. nossa ascendncia csmica, nossa constituio fsica, temos de acrescentar nossa implantao terrestre. A Terra foi produzida e organizada na dependncia do Sol, constituiu-se em complexo biofsico, a partir do momento em que sua biosfera se desenvolveu. Da Terra nasceu, efetivamente, a vida e, na evoluo multiforme da vida multicelular, nasceu a animalidade; depois, o mais recente desenvolvimento de um ramo do mundo animal tornou-se humano. Ns domamos a natureza vegetal e animal, pensamos ser senhores e donos da Terra, os conquistadores, mesmo, do cosmo. Mas como comeamos a tomar conscincia dependemos de modo vital da biosfera terrestre e devemos reconhecer nossa muito fsica e muito biolgica identidade terrena. De modo que podemos, ao mesmo tempo, integrar e distinguir o destino humano dentro do Universo; e essa nova cultura cientfica permite oferecer um novo e capital conhecimento cultura geral, humanstica, histrica e filosfica, que, de Montaigne a Camus, sempre levantou o problema da condio humana. A Pr-histria torna-se, mais e mais, cincia fundamental da hominizao. Esta traz em si o n grdio animalidade/humanidade. Efetivamente, o processo de hominizao de 6 milhes de anos permite- nos imaginar a emergncia da humanidade a partir da animalidade. A hominizao uma aventura ao mesmo tempo descontnua 38
  • 33. aparecimento de novas espcies: habilis, erectus, neanderrtalensis, sapiens, e desaparecimento das precedentes; surgimento da linguagem e da cultura e contnua, no sentido em que prossegue em um processo de bipedizao, de manualizao, de empertigamento do corpo, de cerebralizao1 , de juvenilizao (o adulto conserva os caracteres no especializados do embrio2 e os caracteres fisiolgicos da juventude), de complexificao social, processo ao longo do qual surge a linguagem propriamente humana, ao mesmo tempo em que se constitui a cultura: patrimnio dos saberes, know-how, crenas, mitos adquiridos e transmissveis de gerao a gerao. Assim, podemos introduzir em nossa reflexo o problema, em parte ainda enigmtico, da hominizao, mas, ao menos, sabemos hoje que teve incio h muitos milhes de anos e adquiriu um carter no apenas anatmico e gentico, mas tambm psicolgico e sociolgico, para tornar-se cultural, a partir de um certo perodo. A hominizao resulta em um novo ponto de partida: o humano. Tudo isso deve contribuir para a formao de uma conscincia humanstica e tica de pertencer espcie humana, que s pode ser completa com a conscincia do carter matricial da Terra para a vida, e da vida para a humanidade. Tudo isso deve contribuir, igualmente, para o abandono do sonho alucinado de conquista do Universo e dominao da natureza formulado por Bacon, Descartes, Buffon, Marx , que incentivou a aventura conquistadora da tcnica ocidental. Os novos conhecimentos, que nos levam a descobrir o lugar da Terra no cosmo, a Terra-sistema, a Terra-Gaia ou biosfera, a Terra- _____________________ 1 Australopteco (crnio: 508 cm3), Homo habilis (680 cm3 ), Homo erectus (800 cm3. 1.100 cm3 ), homem moderno (1.200 cm3 .500 cm3 ). 2 Cf. as indicaes em Le Paradigme perdu (op. cit.) sobre os caracteres anatmicos e fisiolgicos no especializados do ser humano (pp. 92-100). 39
  • 34. ptria dos humanos, no tm sentido algum enquanto isolados uns dos outros. A Terra no a soma de um planeta fsico, de uma biosfera e da humanidade. A Terra a totalidade complexa fsico-biolgica- antropolgica, onde a vida uma emergncia da histria da Terra, e o homem, uma emergncia da histria da vida terrestre. A relao do homem com a natureza no pode ser concebida de forma reducionista, nem de forma disjuntiva. A humanidade uma entidade planetria e biosfrica. O ser humano, ao mesmo tempo natural e supranatural, deve ser pesquisado na natureza viva e fsica, mas emerge e distingue-se dela pela cultura, pensamento e conscincia. Tudo isso nos coloca diante do carter duplo e complexo do que humano: a humanidade no se reduz absolutamente animalidade, mas, sem animalidade, no h humanidade. Ao longo dessa aventura, a condio humana foi autoproduzida pelo desenvolvimento do utenslio, pela domesticao do fogo, pela emergncia da linguagem de dupla articulao e, finalmente, pelo surgimento do mito e do imaginrio... Assim, a nova Pr-histria tornou- se a cincia que permite a ressurreio do humano que fora eliminado pelas fragmentaes disciplinares. O ser humano nos revelado em sua complexidade: ser, ao mesmo tempo, totalmente biolgico e totalmente cultural. O crebro, por meio do qual pensamos, a boca, pela qual falamos, a mo, com a qual escrevemos, so rgos totalmente biolgicos e, ao mesmo tempo, totalmente culturais. O que h de mais biolgico o sexo, o nascimento, a morte , tambm, o que h de mais impregnado de cultura. Nossas atividades biolgicas mais elementares comer, beber, defecar esto estreitamente ligadas a normas, proibies, valores, smbolos, mitos, ritos, ou seja, ao que h de mais especificamente cultural; nossas atividades mais culturais falar, cantar, danar, amar, meditar pem em movimento nossos corpos, nossos rgos; portanto, o crebro. 40
  • 35. A partir da, o conceito de homem tem dupla entrada: uma entrada biofsica, uma entrada psicossociocultural; duas entradas que remetem uma outra. maneira de um ponto de holograma, trazemos, no mago de nossa singularidade, no apenas toda a humanidade, toda a vida, mas tambm quase todo o cosmo, incluso seu mistrio, que, sem dvida, jaz no fundo da natureza humana. Eis, pois, o que uma nova cultura cientfica pode oferecer cultura humanstica: a situao do ser humano no mundo, minscula parte do todo, mas que contm a presena do todo nessa minscula parte. Ela o revela, simultaneamente, em sua participao e em sua estranheza ao mundo. Assim, a iniciao s novas cincias torna-se, ao mesmo tempo, iniciao a nossa condio humana, por intermdio dessas cincias. A contribuio das cincias humanas Paradoxalmente, so as cincias humanas que, no momento atual, oferecem a mais fraca contribuio ao estudo da condio humana, precisamente porque esto desligadas, fragmentadas e compartimentadas. Essa situao esconde inteiramente a relao indivduo/espcie/sociedade, e esconde o prprio ser humano. Tal como a fragmentao das cincias biolgicas anula a noo de vida, a fragmentao das cincias humanas anula a noo de homem. Assim, Lvi-Strauss acreditava que o fim das cincias humanas no revelar o homem, mas dissolv-lo em estruturas. Seria preciso conceber uma cincia antropossocial religada, que concebesse a humanidade em sua unidade antropolgica e em suas diversidades individuais e culturais. espera dessa religao desejada pelas cincias, mas ainda fora de seu alcance , seria importante que o ensino de cada uma delas fosse orientado para a condio humana. Assim, a Psicologia, 41 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 36. tendo como diretriz o destino individual e subjetivo do ser humano, deveria mostrar que Homo sapiens tambm , indissoluvelmente, Homo dmens, que Homo faber , ao mesmo tempo, Homo ludens, que Homo economicus , ao mesmo tempo, Homo mythologicus, que Homo prosaicus , ao mesmo tempo, Homo poeticus. A Sociologia seria orientada para nosso destino social, a Economia para nosso destino econmico; um ensino sobre os mitos e as religies seria orientado para o destino mtico-religioso do ser humano. De fato, as religies, mitos, ideologias devem ser considerados em seu poder e ascendncia sobre as mentes humanas, e no mais como superestruturas. Quanto contribuio da Histria para o conhecimento da condio humana, ela deve incluir o destino, a um s tempo, determinado e aleatrio da humanidade. Todas as conseqncias sairiam da conscientizao de que a Histria no obedece a processos deterministas, no est sujeita a uma inevitvel lgica tcnico-econmica, ou orientada para um progresso imprescindvel. A Histria est sujeita a acidentes, perturbaes e, s vezes, terrveis destruies de populaes ou civilizaes em massa. No existem leis da Histria, mas um dilogo catico, aleatrio e incerto, entre determinaes e foras de desordem, e um movimento, s vezes rotativo, entre o econmico, o sociolgico, o tcnico, o mitolgico, o imaginrio. No h mais progresso prometido; em contrapartida, podem advir progressos, mas devem ser incessantemente reconstrudos. Nenhum progresso conquistado para todo o sempre. A Histria, ainda que esvaziada por algum tempo da noo de acontecimento, de acaso e de grandes homens, enriqueceu-se em profundidade. Assim, a tendncia ilustrada, cujo exemplo, na Frana, a cole des Annales*, teve a virtude no de se livrar do acontecimento e do eventual, como pensava, mas de se tornar multidimensional, integrando o substrato econmico e tcnico, a vida quotidiana, as crenas e ritos, os comportamentos diante da vida e da morte. Mal comea a _____________________ * Escola dos Anais. (N. da T.) 42
  • 37. reconhecer o acontecimento e o eventual, que foram reencontrados h trinta anos, paradoxalmente, na Cosmologia, na Fsica e na Biologia. Assim, todas as disciplinas, tanto das cincias naturais como das cincias humanas, podem ser mobilizadas, hoje, de modo a convergir para a condio humana. A contribuio da cultura das humanidades A contribuio da cultura das humanidades para o estudo da condio humana continua sendo fundamental. Em primeiro lugar, o estudo da linguagem; sob a forma mais consumada, que a forma literria e potica, ele nos leva diretamente ao carter mais original da condio humana, pois, como disse Yves Bonnefoy, so as palavras, com seu poder de antecipao, que nos distinguem da condio animal. E Bonnefoy enfatiza que a importncia da linguagem est em seus poderes, e no em suas leis fundamentais3 . No que concerne literatura propriamente dita, Franois Bon constata4 , com razo, que fomos separados da literatura como auto- reflexo do homem em sua universalidade, para coloc-la a servio da lngua veicular... [onde] ela se torna submissa e secundria. preciso restituir-lhe sua virtude plena. A longa tradio dos ensaios prpria de nossa cultura, desde Erasmo, Maquiavel, Montaigne, La Bruyre, La Rochefoucauld, Diderot e at Camus e Bataille constitui uma farta contribuio reflexiva sobre a condio humana. Mas tambm o romance e o cinema oferecem-nos o que invisvel nas cincias humanas; estas ocultam ou dissolvem os caracteres existenciais, subjetivos, afetivos do ser _____________________ 3 Lenseignement de la posie, in Quels savoirs enseigner dans les lyces, Ministrio da Educao Nacional, CNDP, 1998, pp. 63-67. 4 Transmettre la littrature: obstacles, in Relier les connaissances, d. du Seuil, 1999. 43 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 38. humano, que vive suas paixes, seus amores, seus dios, seus envolvimentos, seus delrios, suas felicidades, suas infelicidades, com boa e m sorte, enganos, traies, imprevistos, destino, fatalidade... So o romance e o filme que pem mostra as relaes do ser humano com o outro, com a sociedade, com o mundo. O romance do sculo XIX e o cinema do sculo XX transportam-nos para dentro da Histria e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, revelar a universalidade da condio humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espao. Kundera diz isso muito bem, em LArt du roman (A Arte do Romance)5 . O romance mais que um romance. Sabemos que o romance, a partir do sculo XIX, tornou-se prenhe de toda a complexidade da vida dos indivduos, at da mais banal das vidas. Ele demonstra que o ser mais insignificante tem vrias vidas, desempenha diversos papis, vive uma existncia em parte de fantasias, em parte de aes. Dostoevski demonstrou vivamente a complexidade das relaes do sujeito com o outro, as instabilidades do eu. a literatura que nos revela, como acusa o escritor Hadj Garm Oren, que todo indivduo, mesmo o mais restrito mais banal das vidas, constitui, em si mesmo, um cosmo. Traz em si suas multiplicidades internas, suas personalidades virtuais, uma infinidade de personagens quimricos, uma poliexistncia no real e no imaginrio, o sono e a viglia, a obedincia e a transgresso, o ostensivo e o secreto, pululncias larvares em suas cavernas e grutas insondveis. Cada um contm em si galxias de sonhos e de fantasias, de mpetos insatisfeitos de desejos e de amores, abismos de infelicidade, vastides de fria indiferena, ardores de astro em chamas, mpetos de dio, dbeis anomalias, relmpagos de lucidez, tempestades furiosas.,.6 . _____________________ 5 Gallimard, 1986, e col. Folio, 1995. 6 Manuscrito indito. 44 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 39. A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, mais que a literatura, leva-nos dimenso potica da existncia humana. Revela que habitamos a Terra, no s prosaicamente sujeitos utilidade e funcionalidade , mas tambm poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao xtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos pe em comunicao com o mistrio, que est alm do dizvel. As artes levam-nos dimenso esttica da existncia e conforme o adgio que diz que a natureza imita a obra de arte elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente. Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de msica, de pintura, de escultura, h um pensamento profundo sobre a condio humana. Acrescentemos que todo ensino, particularmente de literatura, poesia, msica, deveria tomar conscincia do fato de que, a partir do sculo XIX, ocorre uma separao cultural na histria europia. Enquanto o mundo masculino adulto, das classes burguesas, destinado eficincia, dominao, tcnica, ao lucro, e o proletariado est sujeito ao trabalho, uma parte do mundo adolescente e do mundo feminino assume a sensibilidade, o amor, a tristeza; e vai expressar, como em nenhuma outra civilizao ou poca da Histria, as aspiraes e os tormentos da alma humana: justamente o que enunciam Shelley, Keats, Hovalis, Hlderlin, Nerval, Rimbaud. Enquanto o poderio do Ocidente europeu expande-se sobre o mundo cantando vitrias em todas as batalhas, esses poetas cantam os sofrimentos dos humanos submetidos crueldade do mundo e da vida. Beethoven, em seu ltimo quatuor, une, indissoluvelmente, a revolta incoercvel do muss es sein? a resignao inelutvel do es muss sein!. O quinteto de Schubert oferece uma dor que, no entanto, sem deixar de ser dor, transfigura-se no sublime7 . _____________________ 7 Cf. a mxima beethoveniana durch leiden freude (por meio do sofrimento, a alegria). 45 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 40. Enfim, a Filosofia, se retomar sua vocao reflexiva sobre todos os aspectos do saber e dos conhecimentos, poderia, deveria fazer convergir a pluralidade de seus pontos de vista sobre a condio humana. A despeito da ausncia de uma cincia do homem que coordene e ligue as cincias do homem (ou antes, a despeito da ignorncia dos trabalhos realizados neste sentido8 ), o ensino pode tentar, eficientemente, promover a convergncia das cincias naturais, das cincias humanas, da cultura das humanidades e da Filosofia para a condio humana. Seria possvel, da em diante, chegar a uma tomada de conscincia da coletividade do destino prprio de nossa era planetria, onde todos os humanos so confrontados com os mesmos problemas vitais e mortais. _____________________ 8 ... em meus livros LHomme et la mon (d. du Seuil, Points Essais, n? 77) e Le Paradigme perdu. La nature humaine (d. du Seuil, Points Essais, n? 109), assim como a obra coletiva, dirigida por E. Morin e M. Piattelli, LUnit de lhomme, 3 vol. (d. du Seuil, Points Essais, n. 91, 92 e 93). 46 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 41. CAPTULO 4 APRENDER A VIVER Quero ensinar-lhe a viver. ROUSSEAU, Emlio Queremos ser os poetas de nossa prpria vida, e, primeiro, nas menores coisas. NIETZSCHE COMO DIZIA magnificamente Durkheim, o objetivo da educao no o de transmitir conhecimentos sempre mais numerosos ao aluno, mas o de criar nele um estado interior e profundo, uma espcie de polaridade de esprito que o oriente em um sentido definido, no apenas durante a infncia, mas por toda a vida1 . , justamente, mostrar que ensinar a viver necessita no s dos conhecimentos, mas tambm da transformao, em seu prprio ser mental, do conhecimento adquirido em sapincia2 , e da incorporao dessa sapincia para toda a vida. Eliot dizia: Qual o conhecimento que perdemos na informao, qual a sapincia (wisdom) que perdemos no conhecimento? Na educao, trata-se de transformar as informaes em conhecimento, de transformar o conhecimento em sapincia, isso se orientando segundo as finalidades aqui definidas. _____________________ 1 Lvolution pdagogique en France, PUF, 1890, p. 38. 2 Palavra antiga que engloba sabedoria e cincia. 47 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 42. A escola de vida e a compreenso humana Quando consideramos os termos cultura das humanidades, preciso pensar a palavra cultura, em seu sentido antropolgico: uma cultura fornece os conhecimentos, valores, smbolos que orientam e guiam as vidas humanas. A cultura das humanidades foi, e ainda , para uma elite, mas de agora em diante dever ser, para todos, uma preparao para a vida. Literatura, poesia e cinema devem ser considerados no apenas, nem principalmente, objetos de anlises gramaticais, sintticas ou semiticas, mas tambm escolas de vida, em seus mltiplos sentidos: Escolas da lngua, que revela todas as suas qualidades e possibilidades atravs das obras dos escritores e poetas, e permite que o adolescente que se apropria dessas riquezas possa expressar-se plenamente em suas relaes com o outro. Escolas, como dissemos no captulo precedente, da qualidade potica da vida e, correlativamente, da emoo esttica e do deslumbramento. Escolas da descoberta de si, em que o adolescente pode reconhecer sua vida subjetiva na dos personagens de romances ou filmes. Pode descobrir a manifestao de suas aspiraes, seus problemas, suas verdades, no s nos livros de idias, mas tambm, e s vezes mais profundamente, em um poema ou um romance. Livros constituem experincias de verdade, quando nos desvendam e configuram uma verdade ignorada, escondida, profunda, informe, que trazemos em ns, o que nos proporciona o duplo encantamento da descoberta de nossa verdade na descoberta de uma verdade exterior a ns, que se acopla a nossa verdade, incorpora-se a ela e torna-se a nossa verdade3 . E o que ocorre freqentemente com obras como Uma temporada no inferno, que conforme a extraordinria frase _____________________ 3 Permitam-me esta confidencia sobre a relao entre o livro e o viver: nunca deixei de ser levado pelo viver, mas os livros foram onipresentes em meu viver e agiram 48 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 43. de Herclito sobre o orculo de Delfos no afirma, no esconde, mas sugere. Que beleza favorecer tais descobertas! Escolas da complexidade humana. Aqui retomamos o que indicamos no captulo precedente, porque o conhecimento da complexidade humana faz parte do conhecimento da condio humana; e esse conhecimento nos inicia a viver, ao mesmo tempo, com seres e situaes complexas. Como sabido desde Shakespeare, e como diz Genevive Mathis, uma nica obra literria encerra um infinito cultural que engloba cincia, histria, religio, tica...4 . o romance que expande o domnio do dizvel infinita complexidade de nossa vida subjetiva, que utiliza a extrema preciso da palavra, a extrema sutileza da anlise, para traduzir a vida da alma e do sentimento. no romance ou no filme que reconhecemos os momentos de verdade do amor, o tormento das almas dilaceradas, e descobrimos as profundas instabilidades da identidade, como em Dostoievski; a multiplicidade interior de uma mesma pessoa, em Proust; assim como, em Pai Goriot e Guerra e paz, a transformao dos seres, confrontados com o destino social ou histrico, levados pela torrente de acontecimentos que podem nos tornar heris, mrtires, covardes, carrascos. no romance, no teatro, no filme, que percebemos que Homo sapiens , ao mesmo tempo, indissoluvelmente, Homo dmens. no romance, no filme, no poema, que a existncia revela sua misria e sua grandeza trgica, com o risco de fracasso, de erro, de loucura. na morte de nossos heris que temos nossas primeiras experincias da morte. , pois, na literatura que o ensino sobre a condio humana pode adquirir forma vivida e ativa, para esclarecer cada um sobre sua prpria vida. O adolescente no tem necessidade de literatura diluda, dita para a _____________________ sobre ele. O livro sempre estimulou, elucidou, guiou meu viver, e, reciprocamente, meu viver, para sempre interrogador, nunca deixou de recorrer ao livro. 4 A complexidade dentro do ensino das letras, comunicao no Congresso inter-latino sobre o pensamento complexo, Rio, setembro de 1998. 49 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 44. juventude; como clisse Yves Bonnefoy, esses jovens seres esperam que grandes sinais, carregados de mistrio e gravidade, sejam erguidos diante deles, pois bem sabem que, breve, tero de enfrentar o mistrio e a gravidade da vida5 . Aqui, o filsofo e o psiclogo deveriam confirmar que todo indivduo, mesmo o mais confinado na mais banal das vidas, constitui, em si mesmo, um cosmo, como acusamos no captulo 3, pp. 36-37. Escolas de compreenso humana. No mago da leitura ou do espetculo cinematogrfico, a magia do livro ou do filme faz-nos compreender o que no compreendemos na vida comum. Nessa vida comum, percebemos os outros apenas de forma exterior, ao passo que na tela e nas pginas do livro eles nos surgem em todas as suas dimenses, subjetivas e objetivas. A literatura a nica que sabe representar e elucidar as situaes de incomunicabilidade, de fechamento em si, quiproquos cmicos ou trgicos. O leitor descobre tambm as causas dos mal-entendidos e aprende a compreender os incompreendidos (Genevive Mathis6 ). Podemos compreender da que no se deve reduzir um ser mnima parcela de si mesmo, nem parcela ruim de seu passado. Enquanto na vida comum apressamo-nos em qualificar de criminoso aquele que cometeu um crime, reduzindo todos os outros aspectos de sua vida e de sua pessoa a esse nico trao, descobrimos, em seus mltiplos aspectos, os reis gangsters de Shakespeare e os gangsters reis dos films noirs. Podemos ver como um criminoso pode transformar-se, redimir-se, como Jean Valgean e Raskolnikov. O que sente repugnncia pelo vagabundo que encontra na rua simpatiza de todo o corao com o vagabundo Carlitos, no cinema. Enquanto, na vida quotidiana, somos quase indiferentes s misrias fsicas e morais, _____________________ 5 Lenseignement de la posie, in Quels savoirs enseigner dans les lyces, ministre de lducation nationale, CNDP, Paris, 1998. 6 Op. cit. 50 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 45. sentimos a comiserao, a piedade e a bondade, ao 1er um romance ou ver um filme. Enfim, podemos aprender as maiores lies da vida: a compaixo pelo sofrimento de todos os humilhados e a verdadeira compreenso. Literatura, poesia, cinema, psicologia, filosofia deveriam convergir para tornar-se escolas da compreenso. A tica da compreenso humana constitui, sem dvida, uma exigncia chave de nossos tempos de incompreenso generalizada: vivemos em um mundo de incompreenso entre estranhos, mas tambm entre membros de uma mesma sociedade, de uma mesma famlia, entre parceiros de um casal, entre filhos e pais. o caso de se perguntar se as chaves psicopsicanalticas, difundidas de forma dogmtica e reducionista em nossa cultura (complexo de inferioridade, de dipo, parania, esquizofrenia, sadomasoquismo etc), no agravam a incompreenso, criando a ininteligibilidade reducionista. Explicar no basta para compreender. Explicar utilizar todos os meios objetivos de conhecimento, que so, porm, insuficientes para compreender o ser subjetivo. A compreenso humana nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas alegrias. Permite-nos reconhecer no outro os mecanismos egocntricos de autojustificao, que esto em ns, bem como as retroaes positivas (no sentido ciberntico do termo) que fazem degenerar em conflitos inexplicveis as menores querelas. a partir da compreenso que se pode lutar contra o dio e a excluso. Enfrentar a dificuldade da compreenso humana exigiria o recurso no a ensinamentos separados, mas a uma pedagogia conjunta que agrupasse filsofo, psiclogo, socilogo, historiador, escritor, que seria conjugada a uma iniciao lucidez. 51 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 46. A iniciao lucidez A iniciao lucidez inseparvel, ela prpria, de uma iniciao onipresena do problema do erro. necessrio, e isso desde a escola primria, que toda percepo seja uma traduo reconstrutora realizada pelo crebro, a partir de terminais sensoriais, e que nenhum conhecimento possa dispensar interpretao. Assim, a partir de testemunhos contraditrios do mesmo acontecimento, podemos mostrar que, vista de um acidente de carro, por exemplo, pode haver falsas percepes que comportam, em geral, racionalizaes alucinatrias. Podemos ilustrar casos de percepo imperfeita, por hbito ou por ateno maldefinida, desateno a um detalhe insignificante, interpretao precipitada de elemento inusitado e, sobretudo, deficincia de viso de conjunto, ou ausncia de reflexo. preciso ilustrar os casos de memorizao demasiado segura, que se autoconfirma na repetio de uma lembrana deformada. Da mesma maneira, preciso observar que uma preocupao de inteligibilidade, demasiado fraca, leva a ignorar a significao de um fato ou de um acontecimento, ao passo que uma preocupao excessivamente forte de inteligibilidade leva a um erro racionalizador que altera essa significao. Sero dados exemplos de decises desastrosas, tomadas no apenas por irreflexo, cinismo ou irresponsabilidade, mas tambm por processos psquicos de racionalizao absurda ou ocultao inconsciente, destinados a preservar a nossa paz de esprito. Progressivamente, no ensino secundrio que se dar destaque oposio entre a racionalizao, sistema lgico de explicao, mas privado de fundamento emprico, e a racionalidade, que procura unir a coerncia experincia; e, no ensino superior, tratar-se- dos limites da lgica e das necessidades de uma racionalidade no somente crtica, mas tambm autocrtica. Assim, da psicologia do conhecimento e da permanente aplicao dessa psicologia em si mesmo, passar-se- epistemologia e ao conhecimento crtico do conhecimento, que recorrer s cincias cognitivas, ainda que to mal interligadas. 52 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 47. O aprendizado da auto-observao faz parte do aprendizado da lucidez. A aptido reflexiva do esprito humano, que o torna capaz de considerar-se a si mesmo, ao se desdobrar aptido que certos autores como Montaigne ou Maine de Biran exerceram admiravelmente , deveria ser encorajada e estimulada em todos. Seria preciso ensinar, de maneira contnua, como cada um produz a mentira para si mesmo, ou self-deception. Trata-se de exemplificar constantemente como o egocentrismo autojustificador e a transformao do outro em bode expiatrio levam a essa iluso, e como concorrem para isso as selees da memria que eliminam o que nos incomoda e embelezam o que nos favorece (seria o caso de estimular a escrita de um dirio e a reflexo sobre os acontecimentos vivenciados). Finalmente, seria preciso demonstrar que a aprendizagem da compreenso e da lucidez, alm de nunca ser concluda, deve ser continuamente recomeada (regenerada). A introduo noosfera Ainda no existe, infelizmente, uma noologia, destinada ao mbito do imaginrio, dos mitos, dos deuses, das idias?, ou seja, a noosfera. Alimentamos com nossas crenas ou nossa f os mitos ou idias oriundos de nossas mentes, e esses mitos ou idias ganham consistncia e poder. No somos apenas possuidores de idias, mas somos tambm possudos por elas, capazes de morrer ou matar por uma idia. Assim, seria preciso ajudar as mentes adolescentes a se movimentar na noosfera (mundo vivo, virtual e imaterial, constitudo de informaes, representaes, conceitos, idias, mitos que gozam de uma relativa autonomia e, ao mesmo tempo, so dependentes de _____________________ 7 Cf. E. Morin, La Mthode, t. 4: Les Ides, d. du Seuil, Points Essais, n. 303. 53 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 48. nossas mentes e de nossa cultura) e ajud-las a instaurar o convvio com suas idias, nunca esquecendo que estas devem ser mantidas em seu papel mediador, impedindo que sejam identificadas com o real. As idias no so apenas meios de comunicao com o real; elas podem tornar-se meios de ocultao. O aluno precisa saber que os homens no matam apenas sombra de suas paixes, mas tambm luz de suas racionalizaes. A filosofia da vida O aprendizado da vida deve dar conscincia de que a verdadeira vida, para usar a expresso de Rimbaud, no est tanto nas necessidades utilitrias s quais ningum consegue escapar , mas na plenitude de si e na qualidade potica da existncia, porque viver exige, de cada um, lucidez e compreenso ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilizao de todas as aptides humanas. para o aprendizado da vida que o ensino da filosofia deve ser revitalizado. Ento, ele poderia fornecer o indispensvel suporte dos dois produtos mais preciosos da cultura europia: a racionalidade crtica e a autocrtica, que permitem, justamente, a auto-observao e a lucidez; e, por outro lado, a f incerta, que ser objeto do captulo seguinte. A filosofia, ao contribuir para a conscincia da condio humana e o aprendizado da vida, reencontraria, assim, sua grande e profunda misso. Como j acusam as salas e os bares de filosofia, a filosofia diz respeito existncia de cada um e vida quotidiana. A filosofia no uma disciplina, mas uma fora de interrogao e de reflexo dirigida no apenas aos conhecimentos e condio humana, mas tambm aos grandes problemas da vida. Nesse sentido, o filsofo deveria estimular, em tudo, a aptido crtica e autocrtica, insubstituveis fermentos da lucidez, e exortar compreenso humana, tarefa fundamental da cultura. 54 Edited by Foxit Reader Copyright(C) by Foxit Software Company,2005-2008 For Evaluation Only.
  • 49. CAPTULO 5 ENFRENTAR A INCERTEZA (Aprender a viver, continuao) Os deuses nos inventam muitas surpresas: o esperado no acontece, e um deus abre caminho ao inesperado. EURPIDES, final de Medita O corpo de ensino tem de chegar aos postos avanados do mais extremo perigo, que constitudo pela permanente incerteza do mundo. MARTIN HEIDEGGER Se no esperas o inesperado, no o encontrars. HERCLITO A era que vir h de nos mostrar o caos por detrs da lei. J. A. WHEELER A MAIOR CONTRIBUIO de conhecimento do sculo XX foi o conhecimento dos limites do conhecimento. A maior certeza que nos foi dada a da indestrutibilidade das incertezas, no somente na ao, mas tambm no conhecimento. Um nico ponto quase certo no naufrgio (das antigas certezas absolutas): o ponto de interrogao, diz o poeta Salah Stti. Uma das maiores conseqncias desses dois aparentes defeitos de fato, verdadeiras conquistas do esprito humano a de nos 55
  • 50. pr em condio de enfrentar as incertezas e, mais globalmente, o destino incerto de cada indivduo e de toda a humanidade. Aqui, convm fazer a convergncia de diversos ensinamentos, mobilizar diversas cincias e disciplinas, para ensinar a enfrentar a incerteza. A incerteza fsica e biolgica A primeira revoluo cientfica de nosso sculo, iniciada pela termodinmica de Boltzmann, deflagrada pela descoberta dos quanta, seguida pela desintegrao do Universo de Laplace, mudou profundamente nossa concepo do mundo. Minou a validade absoluta do princpio determinista1 . Subverteu a Ordem do mundo, grandioso resqucio da divina Perfeio, para substitu-la por uma relao de dilogo (ao mesmo tempo complementar e antagnica) entre ordem e desordem. Revelou os limites dos axiomas identificativos da lgica clssica. Restringiu o calculvel e o mensurvel a uma dependncia do incalculvel e do imensurvel. Provocou um questionamento da racionalidade cientfica, exemplificada pelas obras de Bachelard, Piaget, Popper, Lakatos, Kuhn, Holton, Feyerabend, notadamente. Aprendemos que tudo aquilo que s pode ter nascido do caos e da turbulncia, e precisa resistir a enormes foras de destruio. O cosmo se organizou ao se desintegrar. A histria do Universo uma gigantesca aventura criativa e destrutiva, marcada, desde o incio, pelo quase aniquilamento da antimatria pela matria, acentu