Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

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  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    1/114

    Maria Ana

    Bernardo

    4

    O

    TRABALHO AQUI

    DESENVOLVIDO

    ESCOLHEU

    CIDADE

    DE

    VOR

    COMO

    OBSERVATRIO DE UM

    SOCIEDADE

    EM

    MUDANA ENTRE

    PRIMEIROS ANOS

    DE

    UM

    LIBERALISMO MITIGADO E

    OS

    PRIMEIR:

    S

    MANIFESTAO DOS

    IDEAIS

    E

    DOS MOVIMENTOS

    REPUBLICANOS.

    E

    NESTE

    MICROCOSMO QUE CONSEGUIMOS PERCEBER

    COMO

    DINMICAS DE INTEGRAO

    SURGEM

    SSO I D S S

    PRFRZ S

    PRTI S DE

    DISTINO.

    ANLISE EM

    PROFUNDIDADE

    QUE

    M RI ANA

    BERNARDO

    DESENVOLVE SOBRE

    OCIRCULO

    EBOREN E

    VEM CONFIRMAR ESS

    DINMICA ESPECFICA DE UM CIDADE

    ELITE

    TRADICIONAL

    DE

    PROPRIETRIOS

    E L VR DORES SS

    MECANISMOS DA DOMINAO AT BEM TARDE APENAS ESBOANDH

    AO

    LONGO

    DA

    SEGUNDA

    METADE DE

    OITOCENTOS

    UM

    1tflD

    ABERTURA

    OUTROS GRUPOS EMERGENTES.

    o

    Prefcio

    de David Justino

    U

    Sociabilidade

    e

    Distino

    em

    vora no

    Sculo

    XIX

    O

    Crculo

    Eborense

    o

    JD

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    2/114

    Edio

    apoiada

    pela

    Cmara

    Muni

    ci l

    de

    vora

    ndice

    geral

    Na

    capa: fotografia

    de

    grupo tirada no

    Crculo

    Eborense

    1890).

    Propr edade de

    Joo Silveira,

    gentilmente

    cedida

    pela Base

    de Imagens do Projecto

    JNICT/

    /PCSH/HIS/1002/95,

    Universidade

    de vora.

    Nota

    prvia

    3

    Prefcio

    de

    David

    Jistino

    7

    Introduo

    2001,

    Edies

    Cosmos

    e Maria

    Ana

    Bernardo

    Composio:

    Edies

    Cosmos

    Reviso:

    Levi

    Condinho

    Impresso: Garrido artes

    grficas

    Maro

    de

    2001

    ISBN 972-762.201-1

    Depsito

    legal

    158219/00

    Edies

    Cosmos

    Av

    Jlio Dinis,

    6C,

    4. dto.

    P 1050-131

    Lisboa

    Telefone

    2

    799 99

    50

    Fax

    2

    799

    99

    79

    www.liv.arcoiris.pt

    [email protected]

    Difuso:

    Livraria

    Arco-ris

    www.liv-arcoiris.pt

    Parte

    primeira

    As

    redes

    de

    soci ilid de

    e orenses

    na

    segund

    met de

    do

    sculo

    XIX

    27

    Problemas

    e

    fontes

    30

    2

    As

    sociabilidades

    eborenses:

    imagens

    e

    representaes

    36

    3

    A

    diversidade

    das

    prticas

    3.1.

    Assoires,36

    3.2. As

    associaes

    culturais e

    recreativas,

    39

    3.3. O

    te tro

    52

    3.4.

    Os

    cafs,

    57

    3.5.

    O

    Passeio

    Pblico,

    59

    3.6. As

    touradas,

    60

    3.7.As

    feiras, 61

    3.8.

    Festividades

    e

    celebraes

    religiosas,

    63

    3.9.

    Festividades

    e

    comemoraes

    profanas,

    66

    3.10.

    Em

    vilegiatura

    ou

    a

    busca

    de

    outros

    espaos,

    68

    7

    4.

    Entre

    prticas

    e

    representaes:

    uma

    rede

    significante

    74

    Notas

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    3/114

    Pa

    rte

    se

    gund

    a

    Agr

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    87

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    96

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    110

    3 3

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    omen

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    adi

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    ndo

    137

    Font

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    Nuno Teixeira

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    Tereza

    Amado

    Ane

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    todo

    s os cole

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    ento

    de

    His t

    ria da Univ

    ersid

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    E

    vora

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    157

    D

    ados e

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    rens

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    s

    mom

    ento

    s

    de

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    p

    ossv

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    1

    67

    II

    A

    Ide

    ntifi

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    iogr

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    193

    B

    I

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    Gr

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    D

    U

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    ro A s

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    mi

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    tot

    al

    disp

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    ilida

    de

    n

    o apo

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    inha

    s

    so

    licita

    es

    Uma

    p

    alav

    ra

    de

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    reo

    tam

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    p

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    ulo

    Ebor

    ense qu

    e

    f

    acilit

    aram

    o

    ace

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    men

    tao

    d a ass

    ocia

    o

    Ao

    Prof

    Dou

    tor D

    avid Ju

    stino

    so

    b

    cuja

    o

    rien

    tao cien

    tfic

    a

    deco

    rreu

    este

    trabalho agradeo

    as

    sempre

    va

    liosa

    s

    su

    gest

    es

    e

    a dis

    poni

    bilid

    ade

    e

    s

    impa

    tia que tem

    man

    ifest

    ado

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    4/114

    Nota

    prvia

    A

    possibilidade de publicao

    do

    texto

    das

    Provas de Capacidade

    ien

    tfica e Aptido

    Pedaggica decorridos alguns anos sobre

    sua

    apresentao

    acadmica implicou que

    se

    fizessem

    opes. Ou se desenvolviam e tu li

    zavam

    s

    resultados

    ou

    se

    assumia

    trabalho de ento como

    legtimo

    representante

    de

    um percurso

    de investigao

    que em determinado mo

    mento

    produziu

    determinadas

    concluses.

    A

    passagem

    do

    tempo

    favoreceu

    distanciamento

    crtico

    e

    pesquisa

    entretanto efectivada enriqueceu

    os

    dados

    empricos e

    acervo

    bibliogrfico.

    A

    trilhar se tal caminho resultado

    seria

    provavelmente

    um outro t rabalho. Ponderado

    este

    aspecto e ten

    dendo

    que hiptese

    de publicao

    teve

    como base verso

    original

    deciciu se

    que

    no se far iam

    modificaes

    substanciais.

    A

    bibliografia no

    sofreu actualizao e apenas

    se

    fizeram

    alteraes ao

    texto

    para

    expurgar

    das

    redundncias

    e

    aclarar

    sintaxe.

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    5/114

    Prefcio

    Quando

    no

    final

    da

    dcada

    de

    50

    do sculo passado Teixeira

    de Vascon

    celos

    publicou

    Les

    Conremporains

    Portugais Epagno/s

    es

    Brsiliens

    logo no

    seu

    prefcio

    traduziu bem os

    sinais

    dos

    tempos e

    a viso

    optimista que o

    acesso

    aos

    novos

    bens

    de civilizao

    sustentava: ...la

    vapeur

    et

    llectricit

    en

    raprochant

    les peuples

    ont contribu

    rendre plus vive

    la curiosit

    pu l

    que

    lgard

    des nations

    arrivs les

    dernires

    dans

    ce

    sicle

    au

    banquet

    universel

    du

    progrs

    et de

    la civilisation

    aprs

    avoir t des

    premiers aux

    agapes

    sociales des

    poques

    antrieures

    A

    ideia de

    proximidade e de

    acessibilidade

    a

    esses

    novos

    bens criava

    a iluso da

    partilha

    de

    uma

    nova

    cultura

    em

    que o conhecimento

    mtuo

    e

    universal dos

    governos e dos

    povos

    seria o

    princpio fundador

    de

    um novo

    iluminismo

    assente na

    tecnologia e

    na

    cincia.

    O

    efeito

    de

    contgio

    sobre

    os pases mais

    atrasados como Ikrtugal

    tornar se ia

    irresistvel

    impregnando

    o tecido

    social

    em toda a sua

    extenso

    e

    acentuando

    os

    contrastes

    entre

    uma

    modernidade

    de inovao

    e

    a

    tradio

    dos

    costumes.

    Um dos

    exemplos

    que

    Teixeira deVasconcelos

    destaca

    precisamente o

    das

    prticas

    e dos

    espaos

    de

    sociabilidade: Les villes

    principales

    du

    Portugal

    ont adopt

    la

    mode des

    clubs ou cercles; cc

    qui na pas

    entirement

    dtourn

    des

    pharmacies

    les

    personneshabitues

    se

    runir

    pour savoir

    les

    nouvelies

    du

    quartier

    de la

    ville

    et

    mme

    du royaume:

    en province

    les

    pharmaciens jouissent

    encore de cc

    privilge

    dans

    toute sa force>

    Sobre

    a

    tradicional socialibilidade

    informal de

    um

    local

    de encontro estruturava se

    agora

    uma outra feita de

    clubes crculos associaes

    sociedades

    e gabine

    tes. Maior formalidade

    mas

    tambm

    maior diversificao nos

    objectivos

    e

    acima

    de

    tudo da composio

    social de

    cada uma dessas

    alternativas.

    Paris

    1859

    p

    V

    2

    Ibid. p.144.

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    6/114

    14

    Prefcio

    David Justino

    15

    O entusiasmo

    generalizado

    pela ideia

    de

    quebrar

    barreiras

    socia is e

    superar os factores

    de

    distino

    e

    diferenciao saldava-se

    num voluntarismo

    igualitrio

    a que o

    prprio Teixeira

    de Vasconcelos

    no consegue fugir:

    La

    socit

    portugaise

    n

    eu qua

    sapplaudir

    de ladoption

    dun

    tel

    usage;

    et la

    runion

    des

    diffrentes classes

    dans

    des

    salons

    oi les rangs se confondent

    sous le

    principe gnrale

    de

    la

    bonne conduite

    de

    lducation

    et

    dune

    on

    dition sociale convenable

    a eu une

    influence

    sensible sur les anciens prju

    gs aristocratiques. Combien de pays civiliss

    sobstinent

    encore

    faire

    semblant de

    garder la

    sparation

    complte

    des

    classes

    sans vouloir r on

    nakre que

    dans

    leurs salons les

    exceptions

    se prsentent

    souvent plus

    fortes que la

    rgle

    gnrale

    Que

    de fois

    par fidlit au principe de ne

    recevoir

    que

    des

    gens de

    sa condition on

    attribue

    la

    noblesse

    des p rson

    nes

    qui

    nen ont

    pas

    la prtention .

    O

    problema

    tal como

    colocado

    pelo

    autor

    acaba

    por

    transformar

    estas

    novas

    plataformas

    de socializao como

    microcosmos de

    uma

    sociedade repartida

    entre a velha ordem

    aristocrtica

    e

    os

    novos

    vectores de

    estruturao

    social.

    Aquela

    assentava

    sobre os

    prin

    pios

    da

    linhagem

    esta

    nova

    sociedade sobre

    a

    ideia de civilidade

    manifesta

    pela

    boa

    conduta a

    educao e

    uma condio

    social convenable

    E neste

    quadro

    problemtico

    que

    se

    integra

    o

    trabalho

    desenvolvido

    por

    Maria Ana

    Bernardo.

    Escolheu

    para o estudo de

    um

    caso exemplar

    desta

    dinmica

    a

    cidade

    de Evora como

    observatrio

    de

    uma

    sociedade em

    mu

    dana entre

    os

    primeiros anos

    de

    um

    liberalismo

    mitigado

    e

    os primeiros

    da

    manifestao dos

    ideais e

    dos

    movimentos republicanos.

    E

    neste

    microcos

    mos

    que

    conseguimos perceber como as dinmicas de

    integrao

    surgem

    associados s

    prprias

    prticas de

    distino. Ou

    seja

    essas novas prticas de

    convivialidade

    esses

    novos

    espaos de

    socializao

    acabam

    no seu seio

    e no

    seu conjunto

    por

    serem

    espaos

    de

    diferenciao e

    de distino.

    A

    anlise em

    profundidade que

    Maria

    Ana

    Bernardo desenvolve sobre

    o

    Crculo

    Eborense

    vem confirmar

    essa dinmica

    especfica de uma

    cidade

    em que a elite

    tradicional

    de

    proprietrios e

    lavradores

    assume

    os mecanis

    mos da

    dominao

    at

    bem tarde apenas esboando

    ao

    longo da segunda

    metade de oitocentos

    uma

    tmida

    abertura

    a outros grupos

    sociais

    emergen

    tes.

    A convivialidade

    entre

    grupos

    torna-se limitada

    incentivando a

    criao

    de

    associaes

    alternativas

    socialmente

    diferenciadas

    culturalmente dis

    tintas nas

    suas

    prticas

    nos seus

    objectivos na sua

    capacidade

    de

    reprodu

    o

    dos

    mecanismos de

    distino

    social.

    Na

    histria da

    Regenerao

    tem

    sido dado

    nfase ao referencial

    dos

    melhoramentos

    materiais

    contudo eram

    os

    prprios

    regeneradores

    a dest

    car

    o

    papel

    decisivo

    da

    associao

    como

    base

    estruturadora

    de

    uma

    nova

    sociedade

    da almejada civilizao

    a

    que o

    progresso

    material e

    moral

    conduzi

    ria.

    O

    estudo

    de

    Maria

    Ana Bernardo d-nos as imagens

    e

    perspectiva-nos

    os

    grandes

    eixos

    problemticos

    desse

    processo

    de

    mudana

    social

    que acompa

    nha o lento

    limitado mas inegvel desenvolvimento registado

    durante

    o

    perodo Regenerador.

    Oeiras

    de Junho

    de

    2000

    DAVID

    JUSTINO

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    7/114

    ntro uo

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    8/114

    O

    estudo

    das sociabilidades foi

    durante muito

    tempo

    um tpico

    quase

    residual

    face aos

    grandes temas

    da

    histria

    econmica

    social

    e

    das

    ment li

    dades. Os aspectos

    da vida

    em

    sociedade normalmente

    referenciados sob tal

    designao

    eram encarados como interesses

    da

    petite histoire

    e

    domnio de

    curiosos e

    eruditos

    locais. Foi com a

    historiografia

    francesa da

    dcada

    de

    60

    nomeadamente

    a

    obra

    de Maurice Agulhon

    Lasociabi/itrnridionale.

    Confreri

    es

    et

    associations

    dans

    la

    vie

    coliective

    ii

    Provence au

    XVJIP

    sicle

    que

    a situao

    mudou. Desde ento multiplicaram se

    os estudos

    e

    sucederam se

    os

    n on

    tros cientficos que

    permitiram

    no

    s o

    acrscimo

    dos resultados empricos

    como

    o

    enriquecimento das

    perspectivas tericas.

    s

    historiografias

    francesa

    alem

    e

    sua em particular criaram

    um

    importante

    espao de debate com

    vista

    comparao dos respectivos

    resul

    t dos

    Em Portugal

    este campo

    de investigao

    tem

    igualmente suscitado o

    interesse

    dos historiadores

    embora

    seja

    ainda longo

    o

    caminho a percorrer

    no que

    diz

    respeito

    ao equacionar

    de problemas e

    aos esforos comparativos.

    E

    neste

    contexto

    da historiografia portuguesa

    que o

    presente trabalho

    pretende contribuir

    para

    o

    conhecimento

    da

    sociedade

    eborense

    da

    segunda

    metade do sculo XIX

    perspectivando a

    sob o

    ngulo

    das

    sociabilidades e

    prticas de distino.

    Porm o

    enunciado

    do tema suscita todo

    um conjunto

    de

    questes que

    so fundamentais para

    a compreenso

    dos

    objectivos que

    se

    pretendem alcanar.

    Um

    primeiro

    aspecto

    diz

    respeito

    delimitao espacial.

    Circunscrever

    o espao

    de anlise a

    uma cidade implica

    a

    ventilao do problema

    da deno

    minada histria local; por

    outras

    palavras

    implica

    reflectir

    sobre as

    impli

    caes

    tericas

    e metodolgicas implcitas

    a

    uma tal

    opo.

    Frequentemente

    releva se

    apenas

    a

    dimenso

    geogrfica inerente a

    este

    conceito;

    no

    entanto

    a pertinncia

    deste t ipo de estudos s

    se

    manifesta plenamente

    se

    configu

    rada

    pelas

    necessidades

    da

    histria

    social.

    Ou

    seja

    pela preocupao de

    estu

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    9/114

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    10/114

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    11/114

    Parte primeira

    s

    redes

    de sociabilidade

    eborenses

    na segunda

    metade do

    sculo X X

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    12/114

    1 Problemas efontes.

    As questes suscitadas

    pelo estudo

    das

    sociabilidades

    eborenses na

    segunda

    metade de

    Oitocentos justificam

    uma

    reflexo prvia

    sobre as

    fontes e eixos

    problemticos

    em

    anlise. Uma dessas questes

    relaciona se

    com

    o

    desdobramento

    do

    texto entre

    prticas

    e

    representaes.

    A

    opo

    explica se mais

    por motivos

    de

    clareza da exposio que por

    razes

    de

    ordem

    metodolgica

    dado que

    ambas

    se completam

    enquanto noes

    operativas

    para a compreenso

    da

    realidade

    soci l

    A

    imprensa

    local

    constitui

    um

    recurso privilegiado

    das

    fontes

    utilizadas

    embora no

    exclusivo. Durante a

    segunda

    metade

    do sculo XIX Evora no

    escapou ao su rto d e

    proliferao de peridicos prprio

    de

    uma

    cultura

    burguesa e civilizadora

    e

    desde

    os jornais

    polticos

    aos culturais e

    re re ti

    vos

    de vida mais ou

    menos longa foram

    abundantes

    os ttulos coligidos em

    O Jornalismo Eborense

    Uma

    tal variedade embora

    aliciante

    como ponto de

    partida

    tinha um reverso:

    quais

    os jornais a

    considerar

    e

    de

    entre eles

    que

    tipo

    de matrias

    seleccionar? Um

    aspecto relevante prendia se

    com

    a neces

    sidade

    de

    recorrer a

    peridicos

    com

    alguma

    representatividade local

    e

    na

    falta

    de

    outros

    indicadores o tempo de

    sobrevivncia

    de

    cada

    u m d ele s

    considerou se

    critrio

    avalizado

    para

    a escolha.

    Partindo

    do

    princpio

    de que

    a viabilidade

    financeira de

    um jornal

    dependia em

    larga medida

    da

    retri ui

    o

    monetria

    dos

    leitores

    quer

    a

    distribuio

    se

    operasse

    pelo

    sistema de

    assinaturas quer pela

    venda

    directa

    depreendeu se

    que

    existia uma forte

    correlao entre

    o

    seu ciclo

    de

    vida e a receptividade

    das

    ideias

    p or e le

    veiculadas.

    Assim os

    projectos jornalsticos de

    maior longevidade

    tornaram

    se objecto preferencial

    de

    anlise.

    Quanto

    seleco das

    matrias a diversidade

    dos

    escritos relacionados

    com

    a

    questo

    originou

    que

    nem todos

    parecessem pertinentes

    no

    plano

    das

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    13/114

    28

    As redes de sociabilidade

    eborenses

    representaes. Ou seja

    nem

    todos eram capazes

    de dar conta do trabalho

    de

    classificao e de del imitao que produz as

    configuraes intelectuais

    mltiplas

    atravs das

    quais

    a realidade

    contraditoriamente

    construda

    pelos diferentes grupos [ou

    agentes] de

    que fala Roger hartier

    princpio

    fundamental para a estruturao

    do

    captulo

    II relativo s

    representaes

    das

    prticas

    de

    sociabilidade eborenses

    oitocentistas.

    H diferenas

    significativas em

    termos

    de

    intencionalidade e tcnica

    discursiva

    entre

    a notcia o anncio o artigo

    de

    crtica e

    reflexo

    e

    o folh

    t im. Os

    dois primeiros funcionam preferencialmente como

    registo de ocor

    rncias

    pese embora a viso/construo do real

    que o

    acto

    de

    enunciar ou

    omitir

    um

    determinado acontecimento s por si

    representa remetendo

    assim

    para uma leitura sedimentar

    da

    realidade mediante a

    qual

    regularida

    des e omisses adquirem

    inteligibilidade ao nvel das

    prticas.

    O

    artigo

    de

    crtica e reflexo

    pelo

    seu

    lado

    constitui

    uma elaborao

    intelectual

    sobre a

    realidade

    em anlise

    reflectida na carga valorativa

    que o

    acompanha.

    O

    assunto

    tratado comporta a

    marca

    explcita do seu autor num

    claro jogo

    de

    impor

    ou

    tentar

    impor

    a

    sua

    concepo

    do

    mundo

    social

    os

    valores

    que

    so

    os

    seus

    e o

    seu

    domnio O folhetim visvel

    na imprensa

    oitocentista

    por

    tuguesa

    aps

    a dcada de 40 e logo nessa

    poca

    suscitando

    polmica

    quanto

    sua

    qualidade literria

    aparece especialmente

    na verso

    folhetim crni:

    ca

    como

    um inventrio

    informativo e

    anedtico

    com

    pretenses

    de

    anlise

    social

    o

    que

    o

    aproxima

    do registo

    discursivo

    do

    artigo de crtica e

    reflexo

    embora

    matizado

    por uma cer ta

    tonalidade ficcional. Os artigos

    de

    crtica

    e

    reflexo e

    os

    folhetins tornaram se ento o

    material mais utilizado

    para o

    estudo das representaes sobre

    as sociabilidades

    eborenses na

    segunda

    metade do sculo XIX

    O captulo

    respeitante s prticas

    elaborou se

    sobretudo

    com

    base nas

    notcias

    e nos

    anncios publicados nesses mesmos peridicos.

    A

    necessidade

    d e s e fa ze r u m

    acompanhamento

    sistemtico

    de todo o perodo em

    anlise

    e desse

    modo se detectarem regularidades e inovaes

    justifica o caminho

    seguido.

    Com o

    intuito de

    se

    colmatarem as inevitveis

    lacunas

    de

    uma

    investi

    gao centrada preferencialmente na imprensa

    cruzaram se as informaes

    desta

    com

    os dados conseguidos

    mediante a consulta de documentao

    produzida

    pela

    cmara e pelo

    governo civil. Duas

    instituies

    essencialmen

    te reguladoras e fiscalizadoras e por isso

    mesmo

    susceptveis

    de

    fornecerem

    elementos

    esclarecedores

    sobre a

    configurao

    legal da vida de

    sociabilidade

    dos eborenses.

    A

    pesquisa

    de

    monografias

    ou

    relatos de viagens embora

    fosse

    uma

    Problemas

    e

    fontes

    29

    hiptese

    aliciante

    deu parcos

    resultados.

    Situada

    no

    interior

    do

    territrio

    nacional

    sofrendo

    os

    efeitos

    do

    processo

    de

    litoralizao

    Evora no

    gozava

    como

    Coimbra

    do

    estatuto

    de cidade

    universitria

    nem

    era como

    Lisboa a

    capital

    do Pas.

    Estas razes

    justificam

    em

    boa

    medida

    a escassez

    de

    obras

    monogrficas

    ou relatos

    contemplando a

    vida social

    da

    cidade. Os

    intelectu

    ais

    mais

    conhecidos

    do

    meio eborense de

    Oitocentos

    Gabriel Pereira

    nt

    nio

    Francisco

    Barata

    ou Cunha

    Rivara

    s pontualmente

    escreviam

    sobre

    o t

    pico

    das

    sociabilidades

    e quase

    sempre

    integrando o

    em preocupaes cul

    turais

    mais

    srias.

    O

    resto

    seriam

    talvez

    concesses

    a

    futilidades pouco

    dignas da

    compostura

    intelectual.

    Para

    alm

    da

    identificao

    e caracterizao

    das

    fontes

    usadas o

    estudo

    das

    prticas

    de

    sociabilidade

    implica

    tambm a clarificao

    do

    prprio

    con

    ceito

    de

    prtica social.

    Considerado no

    sentido

    que

    Pierre Bourdieu

    lhe

    d

    este

    conceito

    permite para

    alm do

    mero

    registo de actividades

    dar

    conta

    da matriz

    de aco

    que

    lhes subjaz

    e as

    enquadra num

    todo

    harmonioso

    revelia

    de

    qualquer

    busca

    de

    coerncia

    ou concertao

    consciente

    da parte

    dos

    agentes

    envolvidos

    remetendo por esta

    via

    para

    o

    espao

    dos

    estilos

    de

    vida.

    Prticas

    em

    aparncia

    contraditrias

    e

    desarticuldas entre

    si adquirem

    significado

    e surgem

    simultaneamente

    como

    produtos classificados

    e clas

    sificadores

    em

    relao

    aos

    indivduos

    ou grupos

    que

    os produzem

    t

    o caso

    presente

    pretende se

    contribuir

    para o conhecimento

    da

    mul

    tiplicidade

    e do

    sentido

    das

    prticas

    de sociabilidade

    eborenses

    da

    segunda

    metade

    do

    sculo

    XIX

    Um tpico

    especfico

    do

    universo

    das

    prticas

    sociais

    das

    gentes

    de Evora

    para

    o estudo

    do

    qual se utilizou

    um quadro

    analtico

    que

    permitiu

    o

    acantonamento

    das

    manifestaes

    de sociabilidade

    nas se

    guintes

    vertentes:

    espaos formas

    e

    contedos

    Esta

    perspectiva

    a trs

    dimenss

    comporta

    duas

    vantagens

    estreitamente

    relacionadas:

    sist m ti

    za

    o

    universo

    quase

    infindvel

    das

    manifestaes de sociabilidade

    permitindo

    investigao

    comparativa

    numa

    perspectiva

    sincrnica

    e diacrnica;

    justifi

    ca a

    sequncia

    do

    texto organizado

    todo

    ele em

    torno

    dos

    mencionados

    eixos

    de

    explicitao.

    Ser ainda a

    partir daquela

    trade

    inicial que se estabelece

    ro todas

    as

    subdivises

    gradaes

    e interpenetraes indispensveis

    ao co

    nhecimento

    das

    redes de

    sociabilidade

    eborenses

    oitocentistas.

    De

    facto

    se

    num

    primeiro

    nvel

    tais

    prticas

    se deixam

    apreender

    pelo

    j enunciado

    esquema

    tripartido

    uma

    incurso em

    profundidade

    remete

    de forma

    inexo

    rvel

    para

    um

    grau

    de

    complexidade

    s

    passvel

    de apreenso

    pelo realar da

    flexibilidade

    de

    fronteiras

    do

    quadro

    analtico

    traado.

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    14/114

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    32

    As redes de sociabilidade

    eborenses

    As

    sociabilidades eborenses:

    imagens e representaes

    33

    poca em que as

    sociabilidades

    ocorriam

    predominantemente

    no espao

    domstico

    e privado e cuja

    vertente

    pblica era dominada

    pelas manifesta

    es de

    carcter religioso.

    As vozes

    mais

    crticas sustentavam que algo

    pre

    cisava

    de ser alterado,

    em

    favor

    dum

    movimento

    de

    civilizao

    de que

    a

    sociedade

    eborense necessitava.

    Ser

    que

    as

    representaes

    sobre

    as

    prticas

    de

    sociabilidade em

    Evora

    sofreram significativas

    alteraes

    medida

    que

    o fim do sculo se

    aproxima

    va? Em 1881,

    a propsito

    de

    rivalidades poltico-musicais,

    aparecia noMunue

    linho

    dEvora

    um artigo que descrevia

    a

    forma como

    os

    eborenses

    passavam os

    seus

    domingos:

    quasi todos os habitantes se

    levantaram hora do costume,

    almoaram, foram

    missa,

    ao Passeio;

    alguns

    seguiram viagm

    para Arrayolos

    a

    ver

    a

    procisso

    dos

    Passos. Um quotidiano marcado

    pelas prticas

    religiosas

    e

    no

    qual a frequncia do Passeio deixou

    de se r acontecimento excepcional.

    No

    ano

    seguinte, no folhetim do mesmo jornal,

    a histria intitulada

    Uma

    celebridade dava a

    perceber

    a

    importncia de manifestaes

    de

    sociabilida

    de at ento

    escassamente referidas. A.narrativa,

    em

    tom mordaz,

    dava conta

    das

    peripcias

    e dos

    truques

    de

    que

    o

    dr

    Agapito

    Hipcrates

    se servira

    para

    fazer

    carreira e ascender socialmente.

    A frequncia do clube, do teatro,

    do

    bai le e

    do piquenique

    proporcionava momento

    fuicrais na

    sua

    estratgia

    de

    estabelecimento

    de

    relaes,

    reconhecimento

    pblico

    e

    consolidao da

    reputao profissional. Foi no

    clube,

    onde

    todos failavam no mesmo caso,

    que, ao socorrer

    outro

    frequentador,

    Hipcrates iniciou a sua

    clebridade; foi

    no

    teatro,

    enquanto assistia a uma

    rcita,

    que

    os outros espectadores tive

    ram,

    oportunamente,

    possibilidade de comprovar coMo

    era requerido pelos

    doentes; foi

    por

    ter medicado

    as

    estranhas

    irrupes

    cutneas que as donze

    las

    apresentavam

    aps um

    baile

    em

    que estava presente, que, dias depois,

    participaria

    num piquenique com as meninas solteiras suas

    pacientes

    4

    gapito

    Hipcrates

    era,

    ele

    prprio,

    solteiro.

    Apesar

    dos intuitos

    moralizadores

    e do

    distanciamento irnicos, o

    autor

    da histria

    G. P acabava

    por consagrar

    os

    espaos e

    prticas

    de socibili

    dade a

    que

    se referia,

    como factores

    fundamentais para

    o estabelecimento

    de

    relaes e processos

    de

    mobilidade social.

    Dada a natureza

    ficcional

    do

    discurso

    e a indeterminao

    espacial da

    aco,

    no

    pode

    inferir-se,

    de forma

    imediata,

    que

    se

    esteja

    perante

    uma imagem da imprtncia

    que aqueles

    espaos

    e

    prticas de sociabilidade

    tinham em

    Evora,

    na

    dcada de 80

    do

    sculo

    XIX No

    entanto,

    a questo da

    validade

    e adequabilidade

    deste

    teste

    munho como

    imagem do universo eborense

    deve

    ser encarada

    tendo em con

    siderao

    que ele

    aparece veiculado

    num jornal local

    e tem

    destinatrios

    preferencialmente

    locais.

    Deste

    modo,

    ganha

    consistncia

    a

    hiptese

    de, na

    dcada

    de 80,

    as representaes

    da vida de

    relao

    dos

    eborenses

    na

    sua

    vertente

    laica j no se

    limitarem

    s

    fronteiras

    da

    cozinha..,

    da lareira

    largando-se s

    associaes culturais

    e recreativas, cujos

    constrangimentos

    de acesso

    eram

    de natureza

    diversa.

    E

    verdade

    que

    a

    falta de

    espectculos musicais de

    qualidade

    levou

    Gabriel Pereira

    a

    considerar, em

    1881,

    a

    vida

    eborense

    to

    pacata que

    descae

    na sensaboria,

    no isolamento

    prejudicial7 Anos mais

    tarde 1897 ,

    Antnio Francisco

    Barata,

    ao

    apresentar

    o primeiro nmero de uma

    publica

    o mensal

    de

    sua

    autoria justificava:

    Longas

    como

    as

    noites

    de Lamego

    so

    as de

    Evora,

    para

    o

    homem

    que

    vive do esprito.

    Em

    theatrinhos

    sem

    impor

    tncia

    [ ]

    se

    proporciona a alguns o

    passatempo

    honesto,

    mas no

    to

    ins

    trutivo

    quanto pudera ser.

    O

    Garcia de

    Resende,

    collossal, poucas

    vezes fun

    ciona,

    pelo

    dispendioso custeio

    que

    exige. Sociedades recreativas

    h, desde

    o

    chamado Club, dos r icos e dos f ida lgos,

    at

    s

    artsticas. Nestas casas

    alguns

    passam parte das compridas

    noites de

    inverno, j lendo,

    j jogando

    jogos tolerados

    e

    at

    prohibidos8

    ara

    Gabriel Pereira

    e

    Antnio

    Francisco Barata, dois

    intelectuais

    ebo

    renses da

    segunda metade do sculo XIX as prticas

    de sociabilidade

    conti

    nuavam

    aqum do

    que

    consideravam

    ser culturalmente

    adequado

    para

    a

    cidade.

    De acordo com o seu

    testemunho, o

    aspecto

    negativo

    no tinha a ver

    com

    a

    pouca

    afluncia dos cidados aos

    espaos de sociabilidade, ou

    at com

    a escassez destes,

    mas

    sim

    com

    a deficiente

    qualidade

    das actividades

    cultu

    rais desenvolvidas.

    Pode

    afirmar-se,

    com

    alguma

    propriedade, que

    uma

    tentativa de imposio

    da

    lgica do campo

    cultural

    9 para a

    construo

    de

    uma determinada

    imagem

    das prticas

    de sociabilidade eborenses

    da

    segun

    da

    metade

    de Oitocentos.

    Cerca de

    trinta

    anos depois

    das

    lamentaes

    de Ea

    de

    Queirs,

    um

    artigo

    de

    reflexo

    sobre

    o

    baile, no

    Manuelinho dEvora,

    reforava

    a

    ideia da

    diversificao dos espaos e

    intensificao

    das prticas. Dizia o jornalista a

    propsito

    da realizao em

    Evora,

    no

    mesmo dia,

    de

    sete

    bailes de Carnaval:

    Na

    epoca actual baila-se

    tudo

    na

    Europa. Baila-se a guerra

    e a

    paz;

    baila-se a

    queda e a

    elevao de imprios;

    bailam-se

    os

    aniversrios

    publicos

    e

    as

    aventuras particulares

    [ ]

    O

    baile

    introduziu-se

    na

    moral social, e baila-se

    a

    ereco

    de

    uma egreja,

    baila-se o estabelecimento

    de

    um

    asylo,

    as

    escolas

    de

    creanas

    abandonadas

    [ J

    No

    pode pois negar-se

    que

    a

    nossa

    poca

    es

    sencialmente

    bailadora

    eria Evora

    passado de

    velho sepulcro a

    cidade

    bailadora

    Pelo

    crescente

    nmero

    de

    testemunhos,

    torna-se

    possvel

    detectar

    algumas alte

    raes nas

    representaes

    sobre

    as

    prticas de sociabilidade eborenses.

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    16/114

  • 8/10/2019 Sociabilidade e Dist Em Evora No Sec XIX

    17/114

    A

    diversidade

    das

    prticas

    37

    A

    diveiidade

    das

    prticas.

    3.1.

    Assoires.

    As

    soires

    ou

    mais

    nacionalmente as

    assembleias,

    para

    utilizar a

    expresso

    de Ea

    de

    Queirs

    decorriam no

    espao

    privado por excelncia,

    a casa familiar,

    embora em dependncias

    que

    Maria

    de

    Lourdes Lima

    dos

    Santos

    denominou

    como zona

    de representao.

    Sales

    de

    maior ou

    menor

    dimenso

    e

    opulncia,

    consoante

    as possibilidades

    materiais

    e

    o

    estatuto

    dos

    seus ocupantes,

    destinados

    recepo das

    visitas

    s

    jornais

    consultados

    permitem

    concluir

    que

    tal

    prtica

    de sociabili

    dade

    se

    manteve

    ao

    longo

    de toda

    a segunda

    metade

    do

    sculo

    XIX,

    embora

    as

    notcias

    sejam esparsas.

    Um dado

    que

    se

    prende,

    certamente,

    com a espe

    cificidade

    do espao

    em que

    tinha

    lugar

    e

    com

    os virtuais

    constrangimentos

    de

    acesso

    ao

    mesmo.

    Nestas reunies

    de

    familiares

    e amigos,

    apenas compa

    reciam

    os

    convidados

    aqueles

    que

    os promotores

    incluam no seu crculo

    de relaes,

    a sociedade

    6 ou,

    num

    tom

    mais

    enftico,

    a

    melhor

    socieda

    de

    e, at

    mesmo,

    a

    lite dEvora8

    O relator

    das soires

    enquadrar-se-ia

    salvaguardando

    possveis

    excepes

    que

    a no assinatura

    da

    notcia

    possa

    implicar,

    pelo desconhecimento

    do autor,

    num

    perfil de

    periodista

    que

    se

    caracterizava

    por

    estar

    no

    meio

    sem ser do meio,

    no

    jogo de proximidade

    e

    distanciamento,

    tpico

    do cronista

    social

    9

    eferenciadas

    ao

    longo

    de

    toda a segunda

    metade de

    Oitocentos,

    aque

    las reunies

    no faziam,

    no

    entanto, parte da

    rotina diria

    dos eborenses.

    Eram

    eventos

    pontuais, com

    periodizao

    facilmente

    identificvel.

    Ocor

    riam em

    momentos festivos

    inscritos

    no

    calendrio

    oficial,

    como

    a quadra

    carnavalesca

    os

    dias dos santos

    mais

    venerados

    na cidade

    ou

    ainda as

    fei

    ras importantes

    de

    igual modo,

    quando

    os

    seus dinamizadores

    pretendiam

    assinalar

    datas

    significativas

    do ciclo

    de

    vida dos

    indivduos ou das

    famlias,

    nomeadamente

    aniversrios

    natalcios

    ou de casamentos

    4 Os

    motivos

    discriminados

    funcionam

    apenas

    como exemplos,

    sendo bastante

    provvel

    embora

    omissa

    nas

    fontes

    a

    existncia de um

    conjunto mais

    alargado

    de

    efemrides

    polarizadoras destas

    prticas

    de

    soci ilid de

    5 A

    realizao

    das

    soires

    obedecia

    tambm

    impondervel

    subtileza

    da

    aplicao

    das

    regras

    do

    saber

    receber,

    as

    quais impunham,

    precisamente,

    que tal

    sucedesse

    com

    alguma

    frequncia

    e

    com encenaes

    que podiam assumir

    um carcter mais

    ntimo

    ou

    mais mundano,

    consoante

    o motivo da

    reunio6 S

    assim ficavam

    garantidos

    os

    laos

    de

    coeso

    entre

    os indivduos

    e

    as

    famlias,

    por forma

    a

    permanecerem

    claros e

    operativos

    os

    signos

    de distino

    que

    esse circuito

    relacional

    comportava.

    No

    por

    acaso

    que

    o

    jornalista

    da

    Folha

    do

    Sul, ao

    descrever

    a

    costumada

    reunio

    em

    casa

    dos senhores

    Ganoso

    a

    classificou

    de

    verdadeiro El Dorado

    de

    todas as

    quintas

    feiras [que

    pela

    sua regularida

    de

    permitia]

    reunir a

    sociedade

    que

    em

    Evora

    to

    dificil

    [era]

    de

    agrupar7

    ue o

    autor do

    texto

    no

    estava

    a

    pensar

    na

    totalidade

    da

    populao

    eboren

    se,

    provam-no as

    referncias

    s

    belas e

    elegantes

    senhoras

    presentes

    e

    s

    condies e

    recursos

    mpares que a

    casa

    dos

    anfitries

    possua

    para

    rece

    ber

    os

    convidados.

    As

    soires

    decorriam no

    espao

    paradigmtico das

    sociabilidades

    privadas

    e

    selectivas,

    estruturando-se

    segundo referentes

    que

    derivavam,

    antes

    de

    mais,

    da

    percepo

    e

    incorporao

    dos cdigos

    de

    comportamento

    eficazes para a

    difuso de sinais

    de

    proximidade

    e

    distanciamento

    entre os

    indivduos

    e en

    tre

    os

    grupos,

    estabelecendo

    marcas distintivas

    e de

    distino

    8

    Caracteriza

    das,

    no que diz respeito

    multiplicidade

    dos

    espaos de

    sociabilidade,

    as

    oi tinham

    outras

    especificidades. Eram

    eventos

    espordicos,

    de

    calend

    rio

    fludo

    e

    de

    complicada

    previsibilidade;

    a forma

    como

    decorriam

    no

    se

    encontrava

    juridicamente

    prescrita,

    quer

    no

    que

    dizia

    respeito

    s

    possibilidades

    de

    admisso

    e

    sanes

    aos

    participantes,

    quer

    em

    relao s

    actividades de

    senvolvidas. As

    regras do

    receber e ser

    recebido

    a

    arte

    de

    organizar

    este

    tipo

    de reunies

    sendo

    exclusivamente do

    foro

    privado, no

    passavam

    pela l

    da do

    poder

    legislativo

    e

    jurdico institudo.

    Significa tudo

    isto

    que

    estamos

    perante

    uma

    prtica

    de

    sociabilidade

    informal? A

    busca de

    uma

    tipologia

    sis

    tematizadora

    para

    a

    multiplicidade

    das

    manifestaes

    de

    sociabilidade,

    par

    tindo

    de

    uma

    dualidade

    explicativa

    formais/informais

    quanto

    ao

    grau

    de

    formalizao, pode, algo

    linearmente,

    remeter

    as

    soires

    para

    o

    conjunto das

    denominadas

    sociabilidades

    informais,

    diferenciando-as de

    outras

    manifesta

    es,

    precisamente

    pela

    ausncia

    de

    constrangimentos

    legais

    e

    institucionais.

    Por

    isso

    mesmo,

    aquele aspecto

    deve ser

    complementado

    com

    outros

    indicadores

    capazes

    de

    matizar

    a

    referida

    tipologia. As

    informaes

    apre

    sentadas pelos

    periodistas so

    particularmente

    esclarecedoras:

    os

    anfitries eram,

    por

    norma,

    pessoas

    extremamente

    delicadas;

    os

    participantes

    com

    especial

    relevo

    para

    as

    senhoras

    estavam sempre

    belos

    e

    elegantes;

    e as

    actividades

    desenvolvidas possuam uma

    notvel

    homogeneidade,

    independentemente

    dos motivos da

    reunio:

    os

    presentes

    recitavam,

    representavam,

    cantavam,

    tocavam

    preferencialmente o

    piano ,

    danavam,

    e

    nos momentos

    dequ

    dos

    eram

    servidos

    alimentos

    leves

    e

    bebidas

    No

    se

    detectam

    determinan

    tes

    de

    ordem

    legal

    e,

    interpretando o

    conceito

    de

    formal

    apenas

    neste

    sen

    tido,

    poder

    dizer-se

    que

    estamos

    perante

    uma

    forma de

    sociabilidade

    infor

    mal.

    As

    soires

    no

    eram, porm, reunies

    informais:

    comeando

    na

    seleco

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    As

    redes

    de

    sociabilidade

    eborenses

    A

    diversidade

    das prticas

    45

    As

    associaes

    de

    cultura e recreio

    tornavam-se mais numerosas,

    em

    vora,

    medida

    que

    o fim do sculo

    se

    aproximava.

    Esta

    situao seria o

    mero prolongamento

    da

    dinmica desencadeada na

    primeira metade

    de

    Oitocentos ou registaram-se

    algumas

    mudanas?

    As

    prprias

    denominaes

    parecem

    remeter

    para

    uma

    certa

    especializao

    das actividades que desen

    volviam,

    embora

    os

    seus objectivos

    continuassem

    a ser, genericamente, o

    recreio

    e

    a

    instruo.

    Enquanto

    as

    associaes

    mais antigas

    eram

    espaos

    globais

    de lazer,

    onde

    diversas

    prticas despontavam

    consoante

    a

    iniciativa

    dos scios,

    as

    mais recentes so fundadas para

    desenvolverem reas especfi

    cas

    como

    a

    msica, o teatro e o desporto.

    A

    Sociedade

    Camilo Castelo Branco

    Manuelinho dEvora,

    1895-8-20 ,

    a

    Sociedade Almeida

    Garrett

    ibid., 1899-

    -1-9 , a

    Sociedade

    Grupo

    de Recreio

    1.0

    de

    Dezembro

    ibid.,

    1900-9-8 ,

    o

    Grupo

    Recreativo

    Dramtico

    Mocidade

    Eborense Alvorada

    1903-7-22

    e

    a

    Sociedade

    Operria Recreativa

    Joaquim Antnio dAguiar ibid.,

    1904-1-27 ,

    dedicavam

    especial

    ateno

    ao teatro,

    embora

    tambm proporcionassem

    outro tipo

    de divertimentos,

    nomeadamente os bailes;

    o

    Club

    Velocipedista

    Mamielinho dEvora,

    1895-8-25

    e o

    Ciclo

    Club

    dEvora

    ibid.,

    1896-6-30

    congregavam

    os

    adeptos

    das

    prticas

    velocipdicas;

    o Grupo Unio de Caa e

    Pesca Alvorada,

    1904-3-10

    explicitava, pela

    prpria denominao,

    os

    inte

    resses dos

    seus

    scios; a Associao

    da

    Tuna

    Acadmica

    interessava

    o

    uni

    verso

    estudantil

    e

    dava

    relevo

    actividade

    musical.

    A histria do movimento

    associativo

    do sculo

    XIX

    coloca

    um conjunto

    de

    hipteses

    que

    devem ser

    sistematizadas.

    A primeira, j

    enunciada,

    refere-

    -se

    crescente

    especializao

    funcional. Tanto

    as

    associaes

    fundadas

    na

    primeira metade

    de

    Oitocentos

    como as

    que

    floresceram

    no

    seu

    final visavam

    intensificar

    as

    relaes

    interpessoais

    e

    multiplicar

    as possibilidades de

    re

    creao

    e

    formao

    cultural,

    mas

    nos

    ltimos anos do

    sculo regista-se

    uma

    maior

    especificidade

    de

    meios

    para

    atingir

    esses

    fins. Alguns, como

    a

    msica

    ou

    o teatro, j

    estavam previstos nos

    estatutos

    das

    associaes

    da primeira

    metade

    de

    Oitocentos.

    As

    actividades desportivas,

    no

    entanto,

    constituram

    uma novidade

    de

    final

    do sculo,

    em estreita relao com

    a

    evoluo

    da vida

    material.

    A vertente

    associativa de

    cariz cultural

    e recreativo adquiriu uma

    cres

    cente

    implantao

    no

    meio

    eborense, suscitando

    o

    interesse de

    um

    maior

    nmero de

    indivduos.

    Nesse sentido

    apontam tambm

    os

    estudos realiza

    dos para

    Coimbra

    Figueira da Foz

    e

    uarcos

    onde,

    na

    segunda

    metade do

    sculo,

    o

    associativismo

    em geral,

    e o

    de

    natureza

    cultural

    e recreativa em

    particular,

    se desdobrava

    em associaes

    que

    dinamizavam actividades

    di

    versas e

    polarizavam

    o

    interesse

    de diferentes sectores

    da

    populao.

    Rama-

    lho

    Ortigo

    tambm deixou

    testemunho

    dos espantosos

    progressos

    do esp

    r ito de

    associao

    no

    Porto

    durante

    a

    dcada

    de

    1880, enumerando vrias

    sociedades

    recreativas

    cuja

    denominao,

    s por si,

    remetia para

    o exerccio

    de prticas

    diversificadas

    e

    salientando

    que,

    pelo menos

    uma

    delas,

    fora fun

    dada

    por operrios

    teoria da circulao

    dos

    modelos

    8

    permitir,

    porventura,

    compre

    ender

    melhor

    tal

    aspecto:

    a

    emulao

    dos

    cdigos

    de comportamento

    e das

    prticas

    no

    se

    coloca apenas

    entre

    a aristocracia

    e

    a burguesia,

    mas

    tambm

    entre

    os

    estratos

    desta

    ltima

    e

    mesmo, em relao

    ao que

    genericamente

    podemos

    classificar como

    grupos populares

    difuso

    de

    ideais

    republicanos

    deve

    igualmente

    ser

    mencionado

    como

    favorvel

    pujana

    do movimento

    associativo

    em

    fins de Oitocentos.

    O

    re

    publicanismo

    pugnava

    pelo

    desenvolvimento do

    associativismo

    e

    na

    vasta

    rede

    de

    agremiaes,

    desde

    as que

    apresentavam

    um cunho

    especificamente

    poltico

    s

    que,

    a par

    desta

    caracterstica,

    se

    destinavam tambm

    a

    cultura

    e

    recreio residia

    um

    dos mais

    eficazes

    meios de

    penetrao

    e

    divulgao

    dos

    princpios

    do

    PRP [itlico

    nosso].

    As

    informaes

    recolhidas no

    permi

    tem

    confirmar

    a

    existncia

    de

    uma

    relao

    directa

    entre

    o

    aumento

    do

    nme

    ro

    de

    associaes

    e a difuso

    das

    ideias republicanas

    em

    Evora,

    mas

    a coinci

    dncia

    conjuntural

    justifica

    a

    chamada

    de

    ateno

    para esta

    questo. Pode

    mesmo

    conceber-se

    que

    a evoluo

    do

    associativismo

    voluntrio eborense

    correspondeu,

    por

    um

    lado,

    a

    um

    percurso inerente

    ao

    processo de

    moder

    nizao

    e

    de

    crescente diferenciao

    social,

    e por outro,

    especificidade

    da

    conjuntura

    poltico-ideolgica

    portuguesa

    do

    final do sculo.

    Acresce

    a isto

    uma

    permeabilidade

    cada vez

    maior

    do

    liberalismo

    para

    incorporar

    a dinmi

    ca

    associativa.

    A crispao

    da

    fase

    inicial, traduzida

    numa desconfiana

    face

    s

    associaes,

    seguiu-se

    uma solidez

    capaz de

    integrar,

    mediante

    uma maior

    flexibilidade

    jurdica,

    as

    manifestaes

    da

    sociedade

    civil.

    O que

    no

    signifi

    cava,

    evidentemente,

    um

    afrouxar

    da

    vigilncia face

    aos

    aspectos potencial-

    mente

    transgressores

    do

    associativismo

    atente-se

    no sentido da

    circular

    emanada

    pelo

    governo

    civil

    de

    Evora

    em

    1888.

    J

    desde

    a publicao

    do

    Decreto

    de

    22

    de Outubro

    de

    1868

    que

    associaes

    de recreio

    e

    instruo,

    piedade

    e

    beneficncia,

    no estavam

    sob jurisdio

    e

    alada

    directa

    do

    poder

    central

    mas s im

    do

    governador civil

    que approvando

    os

    estatutos, traa

    a

    taes

    estabelecimentos

    a esphera

    da

    aco

    social,

    ficando

    assim

    caracterisados

    os

    fins dellas

    At ento

    a administrao

    liberal

    apenas

    considerava

    legal

    mente

    institudas

    aquelas

    cujos

    estatutos fossem

    aprovados

    por

    portaria

    rgia.

    Mas

    importa

    tambm

    estabelecer

    comparao

    entre

    a

    evoluo

    do movi

    mento

    associativo

    na cidade

    de

    Evora

    com

    o

    que se

    passava

    nas outras aglo

    meraes populacionais

    do

    distrito:

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    Tabela

    1

    Nmero

    de associaes

    recreativas

    em

    cada concelho do

    distrito de

    Evora.

    Concelhos

    1888 1892

    Alandroal

    Arraiolos

    3 3

    Borba

    4 4

    Estremoz 4

    6

    Evora

    4

    6

    Montemor-o-Novo

    3 3

    Mora

    Mouro

    2

    Portei

    Redondo

    2 2

    Reguengos

    5 3

    Viana

    do Alentejo

    3 3

    Vila Viosa

    3 3

    Fontes:ADE-NGC maos 3 38 e

    436.

    Conforme

    se

    constata na tabela 1 o

    associativismo

    voluntrio

    era co

    mum a

    todo o distrito embora de

    incidncia

    desigual.

    Os

    escassos

    quatro

    anos

    que

    separam

    os dois

    inquritos no

    permitem perceber claramente

    a

    ten

    dncia

    evolutiva at

    porque se algum paralelismo

    houve

    entre

    Evora e os

    outros

    concelhos

    os

    ltimos

    cinco anos

    do sculo XIX

    e os primeiros do

    XX

    foram

    especialmente frteis

    em

    manifestaes desta

    natureza.

    Destacam-se

    os concelhos de Evora

    e

    Estremoz

    onde se concentrava

    o

    maior

    nmero

    de

    efectivos

    populacionais

    cuja dinmica

    semelhante; em relao aos res

    tantes

    o

    aspecto

    fundamental

    a estabilidade registada

    ao longo do perodo

    em

    anlise. Outro dado

    importante embora

    no evidente pela leitura da

    tabela

    uma vez que

    os

    nmeros correspondem

    a totais concelhios o facto

    de a

    vida associativa

    se

    concentrar preponderantemente

    nos ncleos

    ur

    nos

    que

    eram sedes dessas

    unidades

    administrativas.

    Apenas escapam a esta

    tendncia

    a Sociedade Vimieirense

    fundada numa

    freguesia do concelho de

    Arraiolos e a

    Philarmnica

    Aldematense

    na freguesia de

    Aldeia

    do Mato

    concelho de

    Reguengos e que

    j

    no

    aparece na l ista de

    1892.

    Hierarqui

    zando

    os

    diversos

    ncleos

    urbanos

    do

    distrito

    com

    base nas

    suas funes d

    ministrativas

    resulta

    bastante claro

    que as

    associaes se concentravam

    es

    magadoramente

    nas capitais

    de concelho.

    Maurice

    Agulhon concluiu

    para o

    caso francs

    que

    a

    implantao

    e

    difuso

    das

    prticas

    de sociabilidade caractersticas

    deste tipo

    de

    associaes

    A

    diversidade das prticas

    47

    ocorreu preferencialmente nos

    centros

    urbanos

    correspondendo

    a vivncias

    urbanas prprias do

    est ilo de vida urgus 3Tomar o caso

    francs

    como

    referncia para a compreenso

    do

    que

    ocorreu

    em

    Portugal carece de

    lgu

    mas

    precises. A mais bvia

    prende-se

    com o

    facto de

    os

    estudos sobre

    a

    realidade

    portuguesa no

    permitirem concluses seguras sobre a forma como

    este tipo de associativismo

    se difundiu nos

    diferentes

    ncleos

    populacionais;

    a

    outra

    relaciona-se

    com a problemtica sobre o nosso

    desenvolvimento

    urbano. Ao equacionar a

    formao

    do

    espao

    econmico

    nacional David

    Justino considerou

    que

    Evora

    sede

    do

    distrito

    que numa hierarquizao

    administrativa ocupa lugar

    cimeiro

    apresentava

    um nvel

    de urbanizao de

    Antigo Regime; do

    ponto

    de

    vista da urbanizao contempornea podia ser

    classificada

    mais

    como uma

    grande vila

    do

    que como uma pequena

    cidade

    dada a sua

    modesta

    posio na hierarquia

    do mapa urbano portugu

    certo

    que em

    Evora se

    assistiu

    logo na

    dcada de

    1830

    fundao

    de duas

    associaes cujas caractersticas

    eram muito semelhantes

    s das

    que

    se

    difundiam

    em

    Frana nesse

    mesmo

    perodo

    At meados do sculo

    aparece

    outra

    associao

    desta natureza

    e

    na

    dcada de

    80

    conforme

    j

    vimos era

    possvel

    encontrar outras. Importa ento salientar que

    no

    o s

    tante

    a

    idiossincrasia do

    nosso desenvolvimento

    urbano

    Evora

    participava

    no

    que

    diz

    respeito

    ao est ilo de vida de

    alguns dos

    seus habitantes dos

    sinais

    da contemporaneidade.A

    cidade

    assimilou

    modelos e

    um percurso

    em diver

    sos

    aspectos

    semelhantes ao

    de

    outras regies

    da

    Europa

    de perfil

    marcada-

    mente urbano.

    Esta concluso

    pode estender-se tambm

    aos

    outros

    aglome

    rados populacionais sedes de

    concelho no

    tendo

    sido

    possvel estabelecer

    com segurana as

    datas

    de

    fundao

    das associaes

    que

    neles foram

    surgindo.

    Noutras regies do Alentejo tambm

    so

    visveis

    os

    indcios de

    que

    o

    associativismo

    voluntrio

    com vista a cultura e recreio era conhecido.

    Um

    dirio

    de viagem

    datado

    de

    1867b06

    exemplifica

    o

    afirmado

    nte

    riormente.

    Carlos

    Basto assim se chamava

    o viajante residia em Lisboa e

    deslocou-se com a esposa e

    o pai

    a Beja. Aqui

    depois de estabelecido

    em

    casa

    do amigo

    que

    o esperava dedicou o seu tempo a fazer e receber visitas

    a

    assistir

    s comemoraes do

    Corpo de

    Deus e a

    conhecer a

    cidade. Nas

    suas deambulaes

    o Club

    Bejense

    tornou-se um ponto de referncia sendo

    descrito

    como um

    espao

    agradvel onde

    existia

    um

    bom

    bilhar uma sala

    de bai le formidavel e onde

    os

    homens

    passavam

    o tempo lendo

    jogando

    ou conversando.

    Numa das

    ocasies

    em

    que

    foi at ao Club

    o

    visitante teve

    oportunidade de dialogar

    com um indivduo

    que

    era deputado por

    Mrtola

    e

    com

    o governador

    civil

    do distrito; e

    ficou

    muito bem impressionado com a

    delicadeza

    dos

    presentes

    e com

    o

    esmero

    do servio

    num

    baile

    que

    ali

    se

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    60

    As redes

    de

    sociabilidade

    eborenses

    certo

    que

    a

    imprensa manifestou

    algumas

    vezes

    o

    seu

    pesar

    pela

    escassa

    frequncia do

    Passeio

    Pblico, mas,

    desde a dcada

    de 60 at

    aos

    primeiros

    anos

    do

    sculo

    XX

    ele

    era regularmente

    mencionado

    nas

    pginas

    dos

    jornais,

    pelas

    actividades

    que

    a

    se

    concretizavam. Tudo

    parece

    indicar

    que aquele

    espao se

    integrou

    definitivamente

    na

    vida

    quotidiana

    dos

    eborenses,

    sendo

    o

    grande

    ponto de

    actuao das

    bandas de

    msica, civis

    ou

    militares.

    Nos

    anos 80

    e

    90,

    por

    exemplo,

    as sesses

    musicais

    chegaram

    a

    ter

    uma periodicidade

    semanal,

    nas tardes

    de

    domingo

    hora

    do

    costume

    expresso

    ilucidativa

    de

    uma

    certa

    rotina.

    O

    Passeio

    Pblico

    cumpria

    as suas

    funes

    de espao

    de animao

    recreativa

    e cultural

    da

    cidade

    e eram

    fre

    quentes

    as

    aces de

    beneficncia

    em

    favor das associaes

    filantrpicas

    e

    de

    utilidade

    geral. Ao

    som

    da

    msica,

    um

    bazar

    angariava

    fundos

    de

    enefi

    cncia

    Passeio

    Pblico,

    lugar

    especfico

    e

    delimitado na

    rede urbana, era

    protagonista

    de uma sociabilidade

    burguesa,

    orientada

    para

    as actividades

    ldicas. Um trao

    da morfologia

    citadina,

    modulado

    pelas

    necessidades

    e

    pelos

    interesses

    daquele grupo:

    os espaos fsicos da

    cidade

    eram,

    tambm,

    espaos

    de estilos

    de vida.

    3.6. As touradas.

    As

    touradas

    tinham largas

    tradies

    na

    sociedade

    portuguesa, integradas

    que

    estavam

    nas

    estratgias

    de

    prestgio

    e

    poder

    da

    corte espectculo

    do

    Antigo

    Regime.

    Em

    Evora,

    eram actividades

    costumeiras

    dos

    ciclos

    festivos,

    a

    exemplo

    do

    que sucedeu durante

    as

    celebraes

    motivadas

    pela

    assinatura

    do

    Tratado

    de

    traque

    Durante

    o sculo XIX

    continuam a integrar

    as

    redes

    de sociabilidade

    eborenses,

    mas,

    em vez

    de ocorrerem em espaos de

    vivncia diria,

    as

    touradas so

    remetidas

    para

    recintos

    construdos

    especifi

    camente

    para

    esse

    fim e explorados

    por

    empresrios

    particulares

    tempo

    forte

    das

    touradas eborenses

    oitocentistas

    decorria durante

    a

    feira

    de So Joo,

    na

    ltima semana de

    Junho,

    e prolongava-se

    normalmente

    pelos

    trs meses

    seguintes.

    Celebrao

    festiva que

    emergia

    no

    quotidiano

    como

    suspenso da

    rotina

    e expanso

    das

    potencialidades

    relacionais

    dos

    indivduos,

    a

    sua

    concretizao

    traduzia,

    tambm,

    a crescente impregnao

    do

    tecido

    urbano

    pelas determinantes

    de ordem

    econmica:

    as praas

    de touros

    eram

    espaos

    comerciais,

    geridos e orientados

    como

    t

    Assim se

    compre

    ende

    que nessas praas

    tivessem

    lugar

    espectculos

    de

    outra natureza,

    embo

    ra

    adequados

    ao local,

    como

    sesses

    equestres,

    acrobticas

    e

    de

    ginstica

    A diversidade

    das

    prticas

    6

    Sem contradio

    com aquela

    caracterstica,

    as

    touradas

    tinham,

    por

    zes, objectivos

    beneficentes.

    Num perodo

    em que

    a Igreja

    perdia o monop

    lio

    da caridade

    e o Estado

    ainda mal fazia sentir

    as suas

    atribuies

    no campo

    da

    assistncia,

    a beneficncia

    eborense

    dependia fundamentalmente

    da

    vontade

    individual

    e/ou

    das

    associaes

    particulares

    fundadas

    com

    esse

    ob

    jectivo.

    A

    tourada

    da sociabilidade

    podia

    ser,

    igualmente, a tourada

    da

    beneficncia:

    em

    favor

    da Sociedade

    Artstica

    Eborense,

    do

    Azylo

    dInfncia

    Desvalida,

    da

    Casa Pia,

    dos

    Bombeiros

    Voluntrios,

    do

    Montepio

    Eborense

    ou,

    a ttulo

    de exemplo,

    dos

    famintos

    de

    Cabo

    erde

    anifestaes

    de

    sociabilidade

    com

    razes fundas

    no

    imaginrio

    e oren

    se, as

    touradas

    suscitavam

    o interesse

    e a

    afluncia

    de vastas camadas

    da

    populao.

    Esta

    atraco

    sobre pblicos

    diversificados

    legitimava,

    pela

    coe

    xistncia,

    uma sociedade

    que

    se reconehcia

    nas

    distncias

    e hierarquias:

    no

    enorme

    recinto

    [ ]

    completamente

    cheiro de

    espectadores

    [

    a

    um can

    to, na sombra,

    uma

    grande

    quantidade

    de

    estudantes

    [ ]

    nos

    camarotes a

    elite

    eborense ostentava

    as suas

    toilletes

    luxuos s Sob

    a aparente

    inocn

    cia do pitoresco,

    do

    colorido

    local,

    transparecem

    os

    signos da diferena.

    Da

    multido

    annima

    distinguem-se alguns,

    pela

    identificao nominativa

    de

    que so objecto

    quando da

    redaco da

    notcia;

    distinguem-se

    outros

    pelos

    papis

    sociais

    e

    estatutos

    de

    que

    esto

    investidos

    estudantes,

    elite;

    depois

    vem

    a

    distino

    pelo

    olhar

    o realar

    das

    vestes

    luxuosas,

    da

    ostentao

    inscrita no corpo;

    finalmente,

    a

    prpria

    praa

    que

    se desdobra

    numa srie

    de espaos/sinais

    diferenciados

    e diferenciadores

    os

    lugares

    ao

    sol, presen

    tes

    porque

    omissos,

    a sombra, dos

    estudantes,

    os

    camarotes,

    da

    elite.

    3.7.

    As

    feiras.

    As

    prticas

    de

    sociabilidade

    inventariadas

    at ao

    momento foram

    orde

    nadas

    com

    base

    no

    local

    em

    que se efectivavam.

    Partiu-se

    de

    uma

    leitura concntrica

    da cidade,

    segundo

    a qual

    as

    prticas

    primeiro

    analisadas

    foram

    as

    decorridas

    no espao

    privado

    e

    doms

    tico

    as

    soires

    em

    casas

    particulares ; seguiu-se

    uma deambulao

    por outros

    recintos fechados

    situados

    alm

    das

    fronteiras

    domsticas

    sedes

    associati

    vas,

    teatros,

    cafs ; concluiu-se

    com

    a

    referncia a

    locais situados

    ao

    ar livre,

    se

    bem

    que

    delimitados

    Passeio

    Pblico e

    praa de

    touros .

    Ora,

    em

    contr

    ponto com

    este

    acantonamento

    das

    prticas

    de

    sociabilidade

    em

    espaos

    fragmentados

    e

    descontnuos,

    surgem

    momentos

    em

    que toda a

    cidade

    se

    identifica com

    o

    fenmeno

    festivo ou

    comemorativo. No

    s

    os

    espaos

    de

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    As redes de

    sociabilidade eborenses

    pos, mediante

    um

    processo de

    capilarizao

    da

    vida quotidiana atravs

    da

    religio.

    Acto de

    f, a frequncia das

    actividades

    religiosas

    cruzava

    no mesmo

    espao

    de

    sociabilidade

    indivduos

    de

    diversos estratos sociais,

    identificados

    por um elo

    religioso: em

    ltima anlise, a

    prtica [era] o sinal de adeso,

    quanto

    mais

    no seja

    formal, Igreja e

    aos

    seus

    prin pios

    A

    proximidade

    dos

    corpos

    e

    a

    vigilncia

    dos

    olhares,

    no

    espao circunscrito

    do

    templo,

    mate

    rializam

    diferenas no

    porte, no

    vesturio

    e nos

    comportamentos,

    que

    reme

    tiam

    para as

    distncias

    sociais existentes.

    Em Novembro

    de 1886, a

    um Te

    Deum

    solene na S,

    para

    festejar

    o aniversrio natalcio

    do rei D.

    Luiz,

    Assistiram

    as

    autoridades

    superiores

    do districto,

    a

    municipalidade, empre

    gados

    de

    varias

    reparties,

    a

    officialidade

    da guarnio e do

    tribunal

    militar,

    e bastante

    povo

    O periodista

    identificou

    os representantes

    do aparelho

    poltico,

    administrativo

    e

    militar,

    distinguindo-os em

    relao

    ao restante

    povo.

    Os templos

    funcionavam

    como

    instncias

    de

    afirmao

    e

    integrao

    das

    distncias, de

    legitimao dos papis,

    e

    adquiriam

    a sua

    plena dimenso

    de espectculo

    social,

    pelo

    brilho

    e solenidade

    do

    acompanhamento

    vocal

    e

    instrumental, frequentemente utilizado

    nas

    missas.

    Mas,

    as manifestaes

    da religiosidade

    colectiva

    ultrapassavam

    as fron

    teiras do espao

    fechado dos

    templos e

    projectavam-se

    nas ruas da

    cidade,

    pelas

    muitas e elogiadas

    procisses

    realizadas em

    Evora ao longo

    de

    toda

    a

    segunda metade

    do

    sculo

    O calendrio

    religioso

    iniciava-se

    com a procis

    so de

    Cinzas Folhado

    Sul,

    1867-3-13 ,

    prosseguia

    com

    a procisso dos

    as

    sos

    ibid.,

    1866-3-10 ,

    a

    procisso do

    Corpo

    de

    Deus ibid.,

    1867-5-22

    e a do

    Santssimo

    Sacramento

    Mamielinho dEvora,

    1896-7-27 ,

    para

    al m de ou

    tros cortejos

    processionais dedicados

    a diferentes

    santos

    ou ao

    culto mariano.

    De

    entre

    todas elas

    sobressaa,

    pela solenidade

    e

    esplendor, a procisso

    do Corpo

    de Deus, cuja

    tradio

    remontava

    ao Antigo egime

    A

    importn

    cia

    simblica da cerimnia

    fica

    perfeitamente evidenciada

    pelas minuciosas

    descries

    surgidas na

    imprensa da

    poca, valendo a

    pena apresentar deta

    lhadamente

    pelo

    menos uma delas.

    O jornalista,

    aps referir que a

    procisso,

    como

    nos

    anos anteriores, saa

    da S,

    passou a descrever

    a

    forma

    como

    se

    organizava

    o cortejo:

    Abriam

    o prestito

    duas

    praas de cavallaria

    n. 5 e

    a

    banda dos Amadores

    De Musica,

    seguindo-se

    seis cavallos,

    lindamente

    ajaezados,

    pertencendo

    dois casa

    Barahona,

    [ ]

    um

    pertencente

    exm. se

    nhora D.

    Maria Cristina

    Vieira

    [

    um pertencente

    ao sr dr Manoel

    Alves

    Branco

    [ ]

    e os

    restantes dois cavallos

    pertencentes

    exm.

    sr

    Condessa da

    Costa

    [ ]

    Em seguida

    montado num soberbo

    cavallo

    ia

    a

    imagem

    de

    5.

    Jorge

    e

    um

    praa da

    cavailaria

    comandado

    por um

    alferes. Atraz

    [ ]

    A diversidade das

    prticas

    65

    marchava a

    Banda

    da Rea l Casa

    Pia

    [ ]

    Incorporavam-se

    as

    confrarias

    do

    5.

    Sacramento das freguesias de S, Santo Anto,

    So

    Pedro,

    bem

    como os

    seminaristas,

    exm. Cabido

    [ J

    seguindo-se o Pailio

    debaixo do qual

    on u

    zia o Santissimo Sacramneto,

    sua

    Ex.

    Rvdm. o Sr Arcebispo

    acolytado

    por

    dois senhores

    conegos.

    Atraz

    do Pallio seguia

    a

    Camara

    Municipal,

    o

    sr

    ge

    neral

    Ferreira

    Sarmento, o tenente Raul

    Cordeiro, o sr dr Mario

    de Carvalho

    Aguiar,

    Secretario

    do

    Governo

    Civil,

    representando

    o

    Chefe

    do

    Districto.

    Administrador do

    Concelho Interino o sr Jos

    Rosado

    Victoria, Comendador

    Francisco Jos de

    Mira, Secretario do Lyceu, sr

    Augusto Cala e

    Pina,

    se

    cretario

    da Camara

    Municipal sr

    Augusto do

    Nascimento

    Salgado

    [ ]

    seis

    bombeiros

    representando

    a Real

    Associao dos Bombeiros

    Voluntarios, o

    agronomo

    Manuel Vicente

    Lobo

    Rodrigues

    Chic,

    juiz

    de paz de

    St. Anto,

    sr Jos

    Claudino

    Pereira

    de Lima e

    toda

    a

    oficialidade

    do Estado

    Maior

    que

    durante

    o percurso pegaram

    nas varas

    do

    Pallio.

    Fazia

    guarda de honra

    uma

    fora

    do

    destacamento de

    Infantaria

    n.

    11

    [ ]

    e

    respectiva banda,

    assim

    como o

    grupo

    de

    Artilharia

    de

    Montanha e o

    Regimento

    de cavallaria

    n. 5

    fechando o prestito

    uma fora de polcia

    procisso

    do

    Corpo

    de Deus

    era,

    indubitavelmente, uma prtica de

    sociabilidade propcia

    ostentao

    e

    consolidao

    das relaes

    entre a

    Igreja

    e a vertente

    institucional e

    formal

    do

    poder

    temporal;

    mobilizao

    das di

    versas

    instncias

    de

    poder com

    representao local;

    e

    encenao dos

    rituais

    de

    legitimao e de distino

    dos

    indivduos

    que

    participavam na

    cerimnia

    consubstanciando

    a personalizao

    desse

    poder a maior

    ou

    menor proximi

    dade

    em

    relao

    relquia sagrada

    era

    um

    importante

    factor

    de

    hierarquiza

    o

    A

    procisso-espectculo invadia a cidade,

    dava-se a

    ver

    e

    adquiria si

    gnificao e

    inteligibilidade

    por

    esse mesmo

    facto

    Em termos

    sociolgicos

    representava,

    simultaneamente,

    um processo

    de consagrao

    das elites

    religiosas e

    laicas

    e

    um

    factor de

    coeso

    da comunidade sob o

    signo

    da

    religio.

    Em suma,

    missas e

    procisses

    faziam parte das

    denominadas sociabili

    dades formais,

    pela

    profunda

    ritualizao

    dos

    comportamentos

    que implica

    vam. As

    primeiras

    desenrolavam-se

    normalmente no interior

    dos

    templos, as

    segundas

    percorriam

    as

    ruas;

    ambas

    remetiam para contedos

    de natureza

    sagrada e

    espiritual, os quais, em

    estreita articulao com os mecanismos

    de

    dominao do poder

    temporal,

    estabeleciam

    a

    configurao

    ideolgica

    da

    sociedade eborense de Oitocentos.

    Para

    alm

    das celebraes mais

    directamente

    relacionadas com os pre

    ceitos litrgicos, o

    fenmeno

    religioso

    desdobrava-se

    ainda em

    festas

    profa

    nas, ligadas ao

    culto mariano e

    aos santos

    populares.

    As

    festividades efectua-

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    Cf t

    Roger

    Chartier, A Hist,ia Cultural. Entre

    Prticas e

    Representaes, Lisboa,

    1988,

    p.

    23.

    2

    Sobre

    a

    questo da

    vertente

    burguesa

    e civilizadora

    do

    jornalismo portugus

    oitocentista

    cfr.,

    nomeadamente:

    Jos

    Tengarrinha,

    Histria

    da

    Imprensa Peridica Portuguesa,

    Lisboa,

    1965,

    p.

    144; Maria

    de FtimaNunes,

    O publicismo e a difuso dos conhecimentos teis,

    in

    Antnio Reis

    dir. , Portugal

    Contemporneo

    1820-1851, Lisboa, 1991,

    p.

    238; Maria de

    Lourdes Limados

    Santos, Intelectuais

    Portugueses

    na

    Primei

    ra

    Metade

    de Oitocentos, Lisboa,

    1988,

    p.

    147-48; id., Sociabilidade,

    comunicao e

    aprendizagem, inAntnio Reis dir. , Portu

    gal Contemporneo

    1820-1851,

    Lisboa,

    1991,

    p.377.

    3

    Gil

    do

    Monte,

    O

    Jornalismo Eborense,

    2 ed., Evora, 1978.

    4 No est feito

    um estudo sobre a imprensa eborense

    que permita a obteno de elementos

    mais

    especficos sobre

    a

    identificao dos

    seus produtores e receptores posio relativa

    no

    espao social,

    volume

    e composio

    do seu capital

    ou at

    sobre

    os meios

    de

    difuso da

    mesma. Gil

    do

    Monte

    op . dt, no

    trata,

    nem

    esse

    o seu

    objectivo, estas questes.

    5 Roger Chartier, op. ci .,

    p.

    23.

    6

    Cfr.

    Pierre Bourdieu, O Poder

    Simblico,

    1989,

    p.

    139.

    7

    RogerChartier,op.dt.,p.

    17.

    8

    Cfr.

    Maria de Lourdes

    Lima

    dos

    Santos, op. dt.,

    pp.

    174-78.

    9 Ibid.,p.176.

    10 Cfc VitorinoMagalhes Godinho,A

    Estrutura daAntiga

    Sociedade

    Portuguesa, Lisboa,

    1975,

    p.

    25.

    11

    Cft

    Pierre

    Bourdieu,

    La

    distinction.

    Critique sociale dujugemeut,

    Paris, 1985,

    pp.

    112, 139-44,

    189-93.

    12 Cfr.

    Giuliana

    Gemelli

    e Maria

    Malatesta, Itroduzione. Le avventure

    della sociabilit,

    in

    G. Gemeili e M. Malatesta introd.

    e dir. , Forme di sociabilit

    neila storiografia

    fraucese

    contemporauea, Milano, 1982,

    p.

    102.

    13

    Ea de

    Queirs,Da

    Co/aborao no

    Distrito de

    Evora,

    fl186V,

    Lisboa, s/d.,

    p.

    111.

    14

    Id., Uma Cainpan/iaAlegre, Lisboa,

    s/d,,

    p.

    225.

    15 Folhado

    Sul,

    n. 178,

    1866-06-07,

    p.

    3.

    16

    Ibid.

    17 Follhado

    Sul,

    n. 342,

    1867-10-23,

    p.

    3.

    18 Nuno L. Monteiro

    Madureira, Inventrios Aspectos

    do Consumo

    e da

    Vida

    Material em Lisboa

    nos

    Finais do Antigo Regime,

    Lisboa, Dissertao de

    Mestrado em

    Economia

    e Sociologia Histri

    cas,

    UNL-FCSH,

    1989,

    p.

    161.

    19

    Folhado

    Su4

    n.

    190, 1866-03-23,

    p.

    2.

    20

    Ibid.,

    n.

    63, 1864-11-27,

    p.

    2.

    21

    Ibid.,

    n.

    29,

    1864-03-27,

    p.

    3.

    22 Ibid.,

    n. 178, 1866-02-07,

    p.

    3.

    23 ManuelinhodEvora, n.

    10,1881-03-22,

    p.

    2.

    24 Ibid., n. 14,

    1882-06-14,

    p.

    1.

    25 Seria Gabriel Pereira

    G. P o autor do folhetim?

    26 Cfr. Ea

    de Queirs, op. dt.,

    p.

    111.

    27

    ManuelinhodEvora, n.

    27,1881-07-19,

    p.

    2.

    28

    Antnio

    Francisco Barata,Noites de Evora,

    n.

    1, Evora,

    1897,

    pp.

    3-4.

    29

    Cft

    Pierre

    Bourdieu, op.

    dt.,

    p.

    143.

    30 ManuelinhodEvora, n. 767,

    1896-02-1

    6,

    p.

    1.

    31 CftEadeQueirs op dt p 111.

    32

    CfL Manuelinho dEvora, n. 767, 1896-02-1 6,

    p,

    1.

    33

    Ea

    de

    Queirs, op. dt.,

    p.

    164.

    34 Cft

    oManuelinhodEvora,

    n.

    767,

    1896-02-16,

    p.

    1.

    Notas

    75

    3 5 Ibid.

    36

    Embora o jornal tenha

    sobrevivido pouco tempo cerca de

    um ano a importncia do artigo

    citado

    justifica a

    sua

    incluso