UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA CAMPUS I...

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARABA

CAMPUS I CAMPINA GRANDE

CENTRO DE CINCIAS BIOLGICAS E DA SADE

CURSO DE GRADUAO EM PSICOLOGIA

RAYZZA TAVARES GOMES

A funo do olhar e do ser visto nas redes sociais: interlocues com a psicanlise

CAMPINA GRANDE PB

2016

1

RAYZZA TAVARES GOMES

A funo do olhar e do ser visto nas redes sociais: interlocues com a psicanlise

Trabalho de Concluso de Curso, em

formato de artigo, apresentado ao Curso de

Graduao em Psicologia da Universidade

Estadual da Paraba, em cumprimento

exigncia para obteno do grau de Bacharel

e Licenciado em Psicologia

Orientadora: Profa.: Dr. Jailma Belarmino

Souto

CAMPINA GRANDE PB

2016

2

3

4

Dedico esse trabalho aos meus pais,

irmos e ao meu noivo que estiveram ao meu

lado me auxiliando e apoiando...

5

AGRADECIMENTOS

Agradeo primeiramente a Deus pelas graas obtidas e pela benevolncia em sempre

me abenoar e me guiar. Agradeo aos meus pais, Maria Aparecida e Pedro Fialho e irmos

Patrick Tavares e Polansk Tavares pelo apoio, ao meu noivo Weiller Felipe, pelo incentivo e

companheirismo. As minhas amigas Llian Michelly, Patrcia Kcia, Tamires Oliveira e

Amanda Santos, pela amizade. minha orientadora Jailma Souto pela pacincia e

prestatividade, aos professores Roniere Batista e Maria Lgia por aceitaram participarem da

minha banca. todos que indiretamente contriburam e fizeram parte da caminhada do meu

curso.

6

Pelo motivo real de que o homem s comemora e

ama o que lhe aprazvel ou vantajoso, e pelo

motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza

uma ao que virtualmente a destri

(Quincas Borba)

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A funo do olhar e do ser visto nas redes sociais: interlocues com a psicanlise

GOMES, Rayzza Tavares1

RESUMO

O presente estudo uma reviso bibliogrfica, com objetivos de analisar com o aporte da

teoria psicanaltica, a funo do olhar e ser olhado nas redes sociais. Visto que o ambiente

virtual cada vez mais presente na vida do homem Ps-moderno. Visa ainda identificar as

novas formas de subjetivao e a maneira de reinterpretao da sociedade diante das novas

tecnologias e formas de interao social; relacionando s perspectivas de formao de laos

sociais, na cultura do narcisismo, sociedade do espetculo, destinos do desejo, e o Mal-estar

no campo da subjetividade, com relao ao vnculo estabelecido virtualmente dos sujeitos nas

redes sociais.

PALAVRAS-CHAVES: Olhar e ser olhado. Redes Sociais. Psicanlise. Contemporaneidade.

1 Graduanda em Psicologia pela Universidade Estadual da Paraba. Email: [email protected]

8

ABSTRACT

The present work is a literature review, with aims to analyze the contribution of

psychoanalytic theory, the function look and be seen on social networks, since the virtual

environment is increasingly present in the life of the post man modern. As well as identify

new forms of subjectivity as a way to reinterpretation the society in the face of new

technologies and forms of social interaction, relating to the prospect so formation of social

ties, culture of narcissism, spectacle society, desire destinations, and evil be in the field of

subjectivity with respect to the bond established virtually the subjects in social networks.

KEYWORDS: To Look and be seen. Social Networks. Psychoanalysis. Contemporaneity.

9

SUMRIO

1 INTRODUO .................................................................................................................... 9

2 SOCIEDADE CONTEMPORNEA ............................................................................... 11

3 SUJEITO DAS REDES SOCIAIS .................................................................................... 15

4 O OLHAR E O SER VISTO ............................................................................................. 18

5 AS REDES SOCIAIS ......................................................................................................... 20

6 CONSIDERAES FINAIS ............................................................................................ 23

REFERNCIAS .................................................................................................................... 25

9

1 INTRODUO

No atual contexto social e tecnolgico da sociedade vigente muito comum encontrar

pessoas em ambientes pblicos ou privados conectados internet, especialmente s redes

sociais. O uso das redes sociais se tornou algo fortemente presente e discutido na vida das

pessoas, na qual o que impera a lei do ser visto. Justificando assim, o interesse de

investigar a influncia que a internet, especialmente as redes sociais operam na vida das

pessoas, assim como as implicaes sob as formas de subjetivao e relaes estabelecidas

atualmente.

O presente artigo tem por objetivo analisar as implicaes entre o olhar e ser olhado

nas redes sociais, com parmetros relacionados a constituio do sujeito e o cotidiano na

sociedade contempornea. A hiptese e justificativa da escolha do tema aqui trabalhado de

que h um interesse massivo das pessoas no tocante participao no campo virtual das redes

sociais, enfatizando assim, o interesse no sentido de analisar as implicaes do olhar e ser

visto nas redes sociais, no cotidiano como lugar possvel da experincia virtualizada na

atualidade.

Vislumbrar a nfase da necessidade atual de implicao nas redes sociais, aponta para

a fragilidade das novas formas de comunicao e interao social, associadas aos processos de

utilizao das redes sociais, e a necessidade de buscar novas teorias que levem em conta a

retomada de uma relao favorvel do sujeito com o mundo.

O interesse sobre o assunto surgiu em decorrncia de uma inquietao pessoal, diante

da observao da superexposio das pessoas nas redes sociais. Mostrando ser uma

necessidade quase que intrnseca s necessidades bsicas do ser, como comer, dormir e isso se

mostra nitidamente no investimento e tempo que destinado s redes sociais. Sejam em

publicao de fotos, vdeos, comentrios ou apenas observar o que os outros esto

compartilhando.

O presente estudo resultado de uma reviso bibliogrfica, realizada na literatura

correspondente funo do olhar e ser visto nas redes sociais, com o aporte na Psicanlise e

no sujeito da ps modernidade, enquanto relao com as novas tecnologias e formas de

interao social. Interligando s perspectivas de formao de laos sociais do sujeito

contemporneo, a cultura do narcisismo, a sociedade do espetculo, os destinos do desejo, e o

mal-estar no campo da subjetividade, com relao ao vnculo estabelecido virtualmente dos

sujeitos nas redes sociais.

Para a construo terica utilizou-se como base a leitura de alguns autores, quais

10

sejam: Quinet (2004); Freud (1914-1916), (1920), (1927), (1930), (1980); Otero (2012,

2013); Forbes (2010, 2013); Roza (1988); Bauman (2001); Lipovetsky (2004); Seligman

(2014); Debord (2003); Birman (1997, 2007), entre outros. Diante disso, houve o interesse de

averiguar os processos que se manifestam na atualidade, frente a repercusso que as mdias

virtuais tm sobre as pessoas, na exagerada exposio dos sujeitos s redes. Numa sociedade

baseada mais no ter do que em ser, ou no mostrar ter/ser, assim como o afrouxamento das

relaes pessoais, apontando a fragilidade do eu, na qual as redes sociais tomam lugar de

constituir e marcar o sujeito, alienado numa cultura reforadora do narcisismo e da

visibilidade social.

Sendo assim, Quinet (2004), no livro - Um olhar a mais: ver e ser visto na psicanlise,

diz que alm de seres visuais, somos seres vistos, atuando no palco do mundo com mscaras e

sintomas sob o olhar do outro, o autor descreve os conceitos fundamentais sob a perspectiva

do olhar, vigentes na sociedade contempornea, relacionando a teoria psicanaltica (QUINET,

2004).

Freud, em Narcisismo (1914/1996) e em Os Instintos e Suas Vicissitudes (1915/1996),

elucida que o investimento libidinal aos objetos de amor so escolhidos de acordo com a

prpria imagem pela via do narcisismo e na instncia da libido investida no prprio ego,

assim como, A identificao com o objeto idealizado contribuiria para a formao tanto do

ego ideal quanto do ideal do ego (FERNANDES, 2002, p.13 e 23). Na qual esse ideal de ego

projetado pelo sujeito como seu ideal, um substituto a se espelhar.

notrio observar que no mais preciso haver uma catstrofe ou um grande

acontecimento repercutido mundialmente, mas o simples e ao mesmo tempo complexo fato de

viver em sociedade, de viver e conviver cotidianamente uns com os outros e assim j

caracterizar Mal-estar na e da sociedade. A busca por felicidade segundo a perspectiva

Freudiana, fala que [...] Pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir um outro

mundo, no qual os seus aspectos mais insuportveis sejam eliminados e substitudos por

outros mais adequados a nossos prprios desejos (FREUD, 1930/1996, p.38). Evidencia-se

na atualidade a fragilidade dos laos sociais e a busca de satisfao substitutivas, sejam elas

encontradas nas redes sociais.

Segundo Zygmunt Bauman, A sociedade atual vem dando prioridade aos

relacionamentos virtuais, os quais podem ser tecidos e desmanchados com igual facilidade e

frequentemente sem que isso envolva nenhum contato alm do virtual. A esse avano da

tecnologia, se mostra a ambiguidade dos sentimentos que servem de ferramentas para

recriao de laos sociais e da identidade do sujeito (OTERO, 2013, p. 29).

11

A condio da subjetividade na atualidade e sua respectiva fragmentao, abre

margens para o desenvolvimento de sintomas na atualidade, Birman (2007), fala sobre a

condio da subjetividade construda nos primrdios da modernidade, tinha seus eixos

constitutivos nas noes de interioridade e reflexo sobre si mesma, mas agora essa leitura

da subjetividade voltada para o autocentramento est paradoxalmente com o valor de

exterioridade. Sendo assim, o autor aponta que a subjetividade assume uma configurao

estetizante, em que o olhar do Outro no campo social e meditico passa a ocupar uma posio

estratgica em sua economia psquica (BIRMAN, 2007, p.23).

Sendo assim, tanto Birman (2007) e Debord (2003), falam sobre a cultura do

narcisismo e a sociedade do espetculo respectivamente, na qual os destinos dos desejos

assumem uma direo marcadamente exibicionista e autocentrada, na qual o horizonte

intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido das trocas inter-humanas (BIRMAN,

2007. p.24), j sobre o espetculo no significa outra coisa seno o sentido da prtica total da

formao econmico-social, o seu emprego de tempo. o momento histrico que nos

contm (DEBORD, 2003, p.11). Momento do apogeu das imitaes, de sujeitos que tentam

renegar a falta, numa suposta sutura do falta-a-ser, que tentam preencher as latuzas do Mal-

estar contemporneo (LACAN, [1958-1959]).

O espetculo no quer outra coisa, seno a si mesmo, a principal produo da

sociedade atual, sobre a vida social, assim tambm da degradao do ser e do ter,

generalizando desse modo para o ter e o aparecer. Numa mediao do espetculo para

tendncia de se fazer ver (BIRMAN, 2007; DEBORD, 2003).

com base em tais perspectivas que ser guiado o presente estudo, relacionando

aspectos como, os laos sociais, a cultura do narcisismo, sociedade do espetculo, destinos

dos desejos, estabelecidos na sociedade vigente. Como meio de interligao de contedos que

fomentem os objetivos propostos e lancem questionamentos acerca dos movimentos atuais da

sociedade, do sujeito contemporneo conectado s redes sociais.

2 SOCIEDADE CONTEMPORNEA

O avano da sociedade desde as evolues cientficas, do advento tecnolgico e da

sofisticao dos meios de comunicao, como a implementao da internet, trouxe acesso

dispositivos mveis, e s redes sociais (virtuais). Assim como o domnio do homem sobre a

natureza e suas produes, possibilitou utiliz-la de acordo com seus desejos, at mesmo a

12

transformao dos ncleos familiares e as novas formas de subjetivaes, que seguem as

transformaes da sociedade.

notvel tambm aspectos como o distanciamento relacional das pessoas, frente ao

surgimento e a implementao das redes sociais, assim como, a exacerbada valorizao da

exibio e autoimagem para o outro. Reconfigura-se a referncia de comrcio, do ser humano

como mercadoria das redes sociais, expostos a quem tenha interesse. Pode-se pensar que tipo

de evoluo essa que traz distanciamento e modifica o estatuto do sujeito. Sendo permeada

pela cultura, as transformaes vivenciadas na sociedade acarretam mudanas no sujeito, e

seus modos de viver e pensar, ocasionando o Mal-estar dos laos sociais.

Freud (1930/1996), em Mal-estar na civilizao, sustenta a existncia de um

descompasso entre o homem e o mundo, que acarreta estar mal na civilizao. Forbes (2010)

reitera que A relao entre o homem e o mundo sendo incompleta, desarmnica, a maior

parte das vezes mediada h algo que se interpe entre eles, na qual ele aponta como

exemplo a lei e a civilizao, estando o sujeito em busca da plena satisfao que no

alcanada, mas buscada em variadas vias, assim como nas redes sociais (FORBES, 2010, p.55

e 56).

De acordo com Birman (2007) A sensibilidade excessiva dos indivduos em relao

autoimagem transbordante, de forma que a depresso passa a dominar a cena

contempornea, assumindo o lugar privilegiado que era ocupado anteriormente pela angstia

(BIRMAN, 2007, p.49). Verdade que em relao a esse fator civilizao de acordo com o

discurso Freudiano marcado pelo mal-estar. No obstante, a insatisfao como intrnseca

a vida e a existncia humana, no sendo caracterizada por uma liberdade e prazer pleno.

Enquanto o homem vive em sociedade lhe barrado a pulso avassaladora a fim de ser

possvel a vivncia em comunidade, em que a felicidade paliativa, e os recursos agregados

para ser um homem completo so insuficientes, e nesse sentido a idealizao do ser

sustentada atravs das redes sociais. Diante disso, podemos observar o quanto o homem ainda

se encontra limitado aos artifcios de contato com o Outro.

Embora o homem j possua alto nvel de aquisio de poder sobre o meio e a natureza,

modelando esses recursos a seu favor, cria-se artifcios de utilidades para que se possa obter

maiores prazeres. Prazer esse que em nosso imaginrio seja equivalente ao vivenciado em

seus primrdios, ao prazer de estar no tero materno, condio essa difcil de ser conseguida

na civilizao. Esta erguida pelo abandono das pulses desregradas do ID, o que leva quase

que automaticamente a no satisfao. Sabendo que, no havendo uma compensao

energtica equilibrada, o aparelho psquico pode estar passvel a vrios tipos de distrbios

13

(FREUD, 1927-1931).

De acordo com Freud (1930/1996): Somos feitos de modo a s podermos derivar

prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas. Assim

nossas possibilidades de felicidade sempre so restringidas por nossa prpria constituio

(FREUD, 1930/1996, p. 95). Na qualidade de sujeitos faltantes em busca de satisfaes.

Freud no texto (1927-1931), destaca que no mais obscuro o significado da evoluo

da civilizao. E que ela representa a luta entre Eros e Thanatos, entre os instintos de vida e

de destruio, tal como ela se elabora na espcie humana. Descrito como a luta da espcie

humana pela vida, o que se visa a busca pela felicidade.

Mesmo que custos altos. O autor ainda diz, Uma satisfao irrestrita de todas as

necessidades apresenta-se-nos como o mtodo mais tentador de conduzir nossas vidas; isso,

porm, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu prprio castigo

(FREUD, 1930/1996, p. 96).

Um outro ponto bastante relevante, a potncia do superego sobre o ego, na qual dita

regras e pune, trazidas para o sujeito o sentimento de culpa que bem caracterstico nas

estruturas neurticas, na qual Freud designa como sendo o medo da perda de amor, uma

ansiedade social, que no necessariamente est ligada a fazer algo mau, mas at mesmo a

inteno de faz-la, pois para o superego nada pode ser escondido, nem mesmo os

pensamentos (FREUD, 1927-1931).

Para o homem evoluir e encontrar o caminho da felicidade, sempre existir algo ao

qual o sujeito se deparar como sendo desprazeroso, e pelo contexto da no satisfao plena,

que o homem busca sadas, para no se haver com as faltas, com o desprazer, em busca

sempre de uma satisfao total inalcanvel, na procura no outro o que nele no se faz

presente. Lipovetsky (2004) denomina de hipermodernidade o momento atual, caracterizado

pelo retorno modernidade e pela exacerbao de suas caractersticas essenciais: o

individualismo, o consumismo, a escalada tcnico-cientfica, todas elevadas a potncia hiper.

Em Recordar, Repetir e Elaborar, Freud (1914), fala que o paciente ao invs de

recordar o que esqueceu e foi reprimido, ele expressa os fatos por meio da atuao (acting-

out), desse modo o mundo virtual e das redes sociais, enquanto ambiente de livre atuao,

evidencia a repetio como mecanismo de atuao.

Em Freud (1920), diz que, [...] existe realmente na mente uma compulso repetio

que sobrepuja o princpio de prazer (FREUD, 1920, p.14). Na vida do sujeito

contemporneo, esto presentes pequenos ou grandes fatores que no estaro em perfeita

sincronia com a vida idealizada do mesmo, seja da ordem do inimaginvel, algo estar

14

bloqueando a satisfao plena, e assim o jogo de atuaes se apresentam nas redes sociais.

Diz Roza (1988), pelas mscaras que a repetio se constitui, isto , como disfarce.

As mscaras, porm, no encobrem seno outras mscaras, o que faz com que no haja um

primeiro termo da repetio, mas que a prpria mscara seja o sujeito da repetio (ROZA,

1988, p.44). Segundo o autor, a repetio constituinte do sexual, ou seja, da ordem das

pulses de morte, embora sabendo que, o prazer um princpio que ordena a vida psquica, na

qual o sujeito est em busca e que tenta vislumbrar em processos que tem seus representantes

pulsionais implicados, como a auto exposio nas redes sociais. Embora toda mscara tem um

buraco por onde a verdade sempre escapa, sendo no real que se mostra (ROZA, 1988).

Todavia, segundo Birman (1997),[...] a insero do sujeito na cultura permeada

pelo conflito e pela impossibilidade do sujeito em solucion-lo de forma absoluta

(BIRMAN, 1997 p. 9). Assim como as pulses sempre visam a satisfao.

O sistema de compensao no aparelho psquico proposto por Freud (1920), no

sentido de prazer/desprazer, resistncia e repetio, e a projeo como mecanismo de defesa,

so oriundos do mundo interno e evidenciados como pertencentes da realidade externa.

Na segunda tpica, Freud fala sobre o aparelho psquico do ponto de vista econmico,

no mais dinmico ou topogrfico, regido por pulso de vida e pulso de morte, da compulso

repetio, movida pela ordem pulsional, e antagnica ao princpio de prazer. Evidenciando

desse modo, a vertente da vida psquica e da repetio de uma experincia prazerosa, ele

ainda diz que, A tendncia dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, o

esforo para reduzir, para manter constante ou para remover a tenso interna devida aos

estmulos do princpio do Nirvana. Na qual a satisfao no sendo plena, sempre

permanece um resto que vai sempre querer alcanar mais satisfao, a esse resto que

evidencia-se a repetio compulsiva estampado nas redes sociais (FREUD, 1920/1996, p.

36).

Desse modo, Freud, falando sobre o conceito de pulso, Um instinto uma pulso -

um impulso, inerente vida orgnica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que

a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a presso de foras perturbadoras externas

(FREUD, 1920/1996, p. 24). Foras essas que tendem a expressar inrcia inerente vida

orgnica, isso se evidencia mais ainda quando falamos do Real, que Lacan em seus ensinos

traz a segunda clnica - do Real, e o investimento que cada vez est direcionado para o novo,

o inesperado e inevitvel.

Como coloca Forbes (2013), que esse Real no alcanado por meio da representao,

na qual o Real no o mundo, e suas influncias recaem sobre o homem de forma peculiar, a

15

qual cada um ressignifica de maneira singular. Todavia, por mais que haja avanos

significativos das cincias, das tecnologias, o sujeito vai ainda se deparar com esse Real

amedrontador, estando a cargo do sujeito ter que responsabilizar-se frente a esse acaso,

reinventando respostas para lidar de modo singular e contnuo, at o estranho amedrontador

vir a se reformar numa ao criativa. Restando ao sujeito a responsabilidade, Lacan em seu

axioma, diz: Por nossa condio de sujeitos somos sempre responsveis (LACAN, 1955-56,

p. 873).

Remetendo assim, a lgica da vida, em que por algumas ou muitas vezes deixa-se de

lado a responsabilidade pela ao ou consequncia dos eventos, transferindo esse processo

para a culpa direcionada ao outro. Na maior parte uma lgica desprazerosa para o sujeito,

que causam mudanas profundas na estrutura psicolgica dos mesmos, e que operam como

alvo principal o sujeito e suas atuaes (FORBES, 2013).

Portanto, h degraus para uma nova oportunidade de crescimento e sabedoria para o

bem viver, na sociedade da totalidade, da homogeneidade compulsria e do espelho coletivo.

H a necessidade pungente de se guiar por padres uniformizantes estabelecidos, em

detrimento da liberdade de escolhas, da autonomia de ser voc mesmo, na qual importante

distinguir o que da ordem do intrapessoal e interpessoal no plano das redes sociais

(BAUMAN, 2001).

3 SUJEITO DAS REDES SOCIAIS

O sujeito contemporneo est integrado numa sociedade cheia de inovaes e com

itinerrios diversificados, que submetem o mesmo a d direcionamentos a sua vida, tal como

remonta o sentir pertencente a um grupo s redes sociais. Em um vdeo disponvel na

plataforma YouTube1 intitulado: Zigmunt Baumam - Sobre os laos humanos, redes sociais,

liberdade e segurana. No referido vdeo, o autor nomeia os jovens que se conectam as redes

sociais como sendo uma: multido de solitrios.

Nesse vdeo, Bauman fala sobre os laos humanos e as redes sociais, na qual ele

comenta sobre um jovem que veio at ele e disse que em apenas um dia conseguiu 500

amigos. O autor comenta o quanto essa fala incongruente da realidade sem ser a virtual. O

autor ainda traz a diferena entre comunidade e rede, a primeira precede de voc, na qual a

1 YouTube um site que permite que os seus usurios carreguem e compartilhem vdeos em formato digital. Foi

fundado em fevereiro de 2005.

16

pessoa nasce j numa comunidade estabelecida anteriormente.

J a rede caracterizada por duas atividades diferentes entre si: conectar e

desconectar, sendo a atratividade desse tipo de amizade estabelecida nas redes sociais a

facilidade de se desvincular de qualquer vnculo estabelecido. Ele enfatiza a facilidade no

conectar (fazer amigos) e desconectar (desfazer amigos), pois romper relaes que so feitas

face a face, corpo a corpo e olho a olho, so muito mais traumticas do que pela internet,

pressionando em deletar o relacionamento online.

A ambivalncia da vida tambm trazida em uma mistura de prazer e desprazer por

Bauman, na medida que para ele, no sentido de conseguir uma vida satisfatoriamente feliz

necessrio ter segurana e liberdade, mas ambas no possuem uma frmula exata e nem todas

as pessoas conseguem alcan-las de modo coeso. O equilbrio entre ambas quase

impossvel na medida que quando se consegue um pouco a mais de uma est em detrimento

da diminuio da outra e vice-versa, voc ganha algo, voc perde algo.

Freud (1920/1996), nos remete vislumbrar o quanto a sociedade avana no que tange

aos aspectos sociais e solidifica em outras questes. Freud em seu texto intitulado Alm do

princpio do Prazer, aborda justamente o quanto penoso para sujeito se desfazer de algo em

favor de outro. O que concebvel com a exposio nas redes sociais (publicaes pessoais,

fotos, selfies, etc.). Sendo esse um processo que traz um retorno prazeroso para o sujeito ou

proporciona necessidade instintiva/pulsional de uma falta anterior, na qual o sujeito tenta dar

conta no virtual, de modo precrio, pois mesmo assim, recebe um retorno prazeroso (elogios,

curtidas, etc.), embora isso seja remoto e passageiro.

As formas de relaes na atualidade no esto pautadas pura e simplesmente no

contato presencial, mas nas trocas virtuais e com barreiras cada vez mais frouxas, pois o

ambiente virtual das redes sociais, um espao onde quase tudo se pode expressar, ser e

mostrar. Principalmente aspectos que estejam notoriamente relacionados com a mdia e as

atualidades globais, fazer registros da vida privada. Com a massificao do uso das redes

sociais, a vida privada, no mas se denota como em geraes anteriores. Diante dessa

situao, Otero (2012), fala que:

O sujeito contemporneo conta com recursos tecnolgicos para

lhe auxiliar nessa busca atravs de interaes com a mquina,

uma entidade que passou a constituir uma nova via na

reinveno de aspectos de si, na constituio de uma vida que

pode ser construda em parte e ao mesmo tempo filtrada pelas

telas de um computador (OTERO, 2012, p.7).

17

Questiona-se ento que modo de vida est sendo buscada? No investimento que est

sendo feito diante do que se almeja viver, em uma vida representada em comparao ao outro,

numa dinmica social da cpia, do modismo, da esttica e dos padres sociais estabelecidos

culturalmente, da repetio e identificao do que o outro e faz. Seligman (2014) apud

Peixoto (2003), diz que, [...] as representaes que construmos acerca de ns prprios

permitem interpretar e dar significado s experincias cotidianas, possibilitando a manuteno

de uma imagem coerente de ns prprios (SELIGMAN, 2014, p. 6). A versatilidade da era

digital est includo o processo de exibio/atrao visual, modo na qual a vida representada

e idealizada, no jogo da compulso irrefreada e incompleta, em olhar e se mostrar, na crena

de ser reconhecido e aceito, que estampada nas publicaes nas redes sociais.

J para Sodr (1996), representa fenmenos em que o sujeito delega a um outro (o

representante, o signo), o poder de interpret-lo em sua ausncia (SODR, 1996, p.23). Na

implicao de sujeitos voltados para a sociedade do espetculo e da exibio, em um ambiente

virtual que permite ao sujeito possibilidades de ver e ser visto, de representar e de se

reinventar individualmente, mas no ambiente coletivo das redes sociais.

Como descreve Otero (2013), estaramos diante de uma queda do mito do dipo e do

pai da horda que fundamenta a civilizao, descrito por Freud em Totem e Tabu (1913), na

qual esses dois mitos so responsveis pela implantao de normas, da relao com a lei e do

respeito autoridade (OTERO, 2013, p.17). A contemporaneidade possibilitou uma

repaginada no modo como se encara antigos estigmas, alterando o predomnio do registro do

real sobre o simblico, e o imaginrio dos sujeitos, em uma sociedade para alm do Nome-do-

Pai, onde as regras e limites regidos socialmente se tornam cada vez mais transmutveis.

J para Baudrillard (1995), A climatizao geral da vida, dos bens, dos objetos, dos

servios, das condutas e das relaes sociais representa o estdio completo e consumado na

evoluo que vai da abundncia pura e simples, atravs dos feixes articulados dos objetos, at

o ar condicionado total dos atos e do tempo (BAUDRILLARD, 1995, p. 18-19). A

transformao das relaes e do atual status viver conectado, que representado nas redes

sociais, denota um novo olhar para os efeitos gerados na vida dos sujeitos, que aponta para

um processo repetitivo de tentativa de ser reconhecido e aceito, na medida que as pessoas se

prendem cada vez mais na lgica do olhar e ser olhado, mesmo que de modo superficial.

A autora Barbosa (2013), diz que as Realidades concretas e virtuais se sobrepem e

se confundem na percepo do sujeito, que pode sentir aquela virtual como contendo

caractersticas importantes de realidade, em medida da percepo de companhia, de afeto,

de compartilhamento de ideias (BARBOSA, 2013, p.97 ). Na medida que o ambiente das

18

redes sociais veio agregar lugar de trocas de informaes, contedos, mas tambm de

compartilhamento de sentimentos e emoes, no processo sistemtico e catrtico de elaborar

questes como as angstias, anseios e desprazeres expressados nas redes.

4 O OLHAR E O SER VISTO

Desde poca de Freud j era por ele vivenciado na clnica situaes relacionadas ao

ver/ser visto, que desse modo traziam para o sujeito um enlace com suas afeces, como o

caso das histricas, que atravs da hipnose, sugesto e autossugesto, trouxeram aparato

motriz para os casos tratados por Freud. Ele teorizou tambm sobre a importncia que a

funo do olhar tem em algumas sintomatologias como o caso da neurose.

Quinet (2004), fala sobre os trs registros postulados por Lacan real, simblico e

imaginrio, referenda que o registro simblico age como barreira entre o imaginrio e o real,

ao mesmo tempo que os articula, sendo o imaginrio como o campo do visvel, onde se

encontram os objetos perceptveis e as imagens. Seguindo a tpica especular, que o eu

reina, do simblico como lgica significante, e o real enquanto registro pulsional, em um

espao de causalidade, em que o olhar faz de todos (os que veem e os que no veem), serem

vistos, mergulhados na viso (QUINET, 2004, p.41 e 42). Partindo do pressuposto que o

olhar e ser olhado nas redes sociais configura um espao em que o sujeito foi por ele tomado e

guiado, no direcionamento do mesmo ao fardo de ter que olhar e ser visto.

Quinet (2004), lana a contra argumentao no que concerne a lgica do olhar em

Freud (o olhar vem do supereu) e Lacan (o olhar vem do Outro), caracterizando assim uma

anlise no voltada para o eu, mas para o supereu, com implicao ao olhar que vem do outro.

Ainda em Freud, traz que a instncia mortfera do supereu se manifesta na vigilncia do olhar

pela via da pulso de morte (FIGUEIREDO, 2002, p. 158 e 159). Considerando a realidade

projetada e o olhar compreendido como objeto da pulso (QUINET, 2004, p. 42). Na lgica

do olhar enquanto objeto coletivo e de gozo.

Hassan (2013) conceitua que o olho que v tambm tem prazer de ver: o Schaulust

(olhar), que vai interferir, vai perturbar a funo biolgica. Ela ainda aponta que Freud pe

a pulso escpica em relao com a pulso oral quando diz que os olhos tm a mesma funo

que a boca no sentido que ambos precisam obedecer a dois senhores diferentes: a alimentao

e o beijo, e a viso e o olhar.

Haja visto que h uma diferena plausvel em ser representada, no que concerne ao ver

19

e ao olhar, possuindo posies e destaques diferenciados. Em Trs ensaios sobre a

sexualidade (1905), Freud vai explorar as funes do olho em dois sentidos distintos entre si,

o sehen, como advindo do verbo ver e schau (olhar) na Schaulust, ou prazer de olhar

(HASSAN, 2013). Na qual a pulso escpica ver caracteriza o domnio do real para o

imaginrio sob o simblico, sendo a imagem que prevalece nas redes sociais, na relao dual-

imaginria sintomtica do ver e ser visto.

Desse modo, pressupe-se as redes sociais na figura de agente propiciador de mal estar

no sujeito da contemporaneidade que utiliza dos artifcios tecnolgicos para se fazer

percebido ao outro, seja no plano virtual das redes sociais ou no plano da realidade concreta,

haja visto a interligao simbitica que se pode considerar entre o que concerne o ambiente

virtual e da realidade, no existindo barreiras limtrofes visveis de onde uma comea ou

termina.

Um outro parmetro trazido a do Sou visto, logo existo (QUINET, 2004, p.284),

falando sobre a sociedade escpica vigente, ordenada atravs do capitalismo e pela ordem do

consumo, da esttica, do espetculo e controle. Onde a visibilidade a chave mestra, visto que

o conceito de pulso escpica permitiu a psicanlise restabelecer uma funo de atividade

para o olho, no mais como fonte de viso, mas como fonte de libido (QUINET, 2004, p.10).

Demarcando a fragilidade do eu em ser reconhecido pelo outro, proporcionando o gozo pelo

olhar e pelo ser visto.

Em Pulses e seus Destinos (1915), Freud define a reversibilidade na pulso de ver,

isto , o que vai configurar o circuito pulsional do olhar-se, olhar o outro, e se fazer

visualizvel ao outro. Observa-se que, o estatuto da individualidade est para o conceito de

narcisismo contemporneo, no que tange as investidas de mostrar-se ao outro, embora se

corrobora no senso coletivo da repetio gozosa e do modelo de visibilidade social, a se guiar

atravs do outro nas redes sociais.

J segundo Lvy (1998), A virtualizao atinge mesmo as modalidades do estar

junto, a constituio do ns: comunidades virtuais, empresas virtuais, democracia virtual...

(LVY, 1998, p.2). Com a atualizao da dimenso escpica voltada ao centrar-se ao

narcisismo ou no prprio pensamento, ele ainda diz que, [...] a virtualizao fluidifica as

distines institudas, aumenta os graus de liberdade, cria um vazio motor. Se a virtualizao

fosse apenas a passagem de uma realidade a um conjunto de possveis, seria desrealizante

(LVY, 1998, p.7). Preso e alienado s redes sociais, como diz Caetano (2011):

20

Surge, portanto, como desafio ao estudioso das dinmicas

interacionais da sociedade contempornea, mediadas pelos

meios de comunicao ou pautadas pela co-presena, investigar,

sem apelo a polarizaes tradicionais, em que medida os

acionamentos das sensaes, dos afetos, das paixes e emoes

constroem um encontro comunicacional, ou confinam seus

usos aos fins da cultura de consumo, encerrando o sujeito na

reificao, no s cognitiva, mas sensorial com os objetos

(CAETANO, 2011, p.22).

A inveno e reinvenes construdas pelo sujeito e o advento das redes sociais

fundiram a perspectiva de vida aliada com a tecnologia, voltada cada vez para a tentativa de

dar conta no virtual, problemticas e experincias da realidade material e objetiva do sujeito.

5 AS REDES SOCIAIS

Com o surgimento de novas formas de tecnologias, a internet, trouxe impactos para

variados nveis, sejam culturais, sociais, econmicos, pessoais, psquicos, alm de ser um

majoritrio meio de comunicao entre as pessoas, permitindo que barreiras como a distncia

e o tempo sejam mobilizadas com um clique. Com a instantaneidade de estabelecer

comunicao, muitas vezes sem um propsito definido ou sem mesmo uma necessidade

pungente, o sujeito deposita a necessidade de se expor virtualmente, de visualizar e se fazer

visvel para o outro.

De tal modo, o homem desbussolado continuar sem rumo se no lhe oferecermos a

responsabilidade frente ao acaso, surpresa, enfim, frente ao seu inconsciente(FORBES,

2010, p.114). O sujeito das redes sociais se dispe ao lugar de especularizao dos momentos

do seu cotidiano, que compartilha nas redes sociais. O advento tecnolgico e o acesso ao

mundo virtual e das redes sociais, propiciou o avano no uso de novos mecanismos para

apropriao do estatuto da liberdade, que se fixa no plano virtual.

A liberdade nos laos sociais, da comunicao e interao que se desenvolvem sem

freios, livre de barreiras fsicas, impulsionada pelo desejo da liberdade subjetiva, finca-se

no desejo de felicidade, distinto do princpio de realidade, proposto por Freud (1920), sobre a

busca dos sujeitos por prazer e felicidade. Mecanismo pelo qual o sujeito da era digital tomou

posse, ou foi por esse dominado, atingido pelo intenso compndio de informaes que

21

circulam nas redes sociais, sendo essas encaradas como um plano de fundo da realidade

objetiva (BAUMAN, 2001).

Em um espetculo de cores e faces em que se mostrar a quem quiser ver, diz Debord

(2003) falando sobre a sociedade do espetculo: O espetculo no um conjunto de imagens,

mas uma relao social entre pessoas, mediatizada por imagens (DEBORD, 2003, p. 14). A

exposio exacerbada nas redes sociais, mostra-se representada pelo grande investimento no

culto autoimagem, assim como da perfeio, principalmente no mostrar e ver o belo, o

atrativo, aquilo que venha a despertar e ser causa de desejo do outro.

No contexto virtual das redes sociais outro ponto a ser discutido a rapidez e

quantidade de informaes e contedos que so compartilhados e expostos nas mesmas, na

qual se torna ainda mais notria a plasticidade das relaes, com os objetos e sua interao

com a vida no virtual. Kowacs (2014), falando sobre estabelecimento da comunicao

atravs das redes sociais, diz que a instantaneidade da comunicao:

[...] favorece o entrecruzamento de respostas imediatas, sem

reflexo, e estimula uma forma de relao objetal, na qual o

indivduo espera do outro a satisfao imediata de suas

necessidades narcisistas. Na rede, praticamente no existe um

perodo de latncia entre o desejo e a realizao deste.

Comparativamente, a vida real pode parecer difcil, tediosa ou

frustrante (KOWACS, 2014, p.632).

A compulso necessidade de se colocar diante do olhar do outro (virtualmente),

pertencer a esfera virtual da submisso cultura de massa Redes Sociais - enquanto

condio primordial para a visibilidade social. Seguindo Freud (1914) O que elimina uma

necessidade a satisfao, ou seja, a necessidade expressada e satisfeita no ser visto e

curtido pelo o outro. Desse modo esse ciclo se repete e se repete, pois, se eu me mostro

porque tem quem veja, nesse parmetro se guia as redes sociais e seu pblico alvo, que a

utilizam com veemncia.

Na medida que o sujeito vinculado ao olhar das redes sociais se coloca na posio de

submetido razo social vigente, em estar conectado s redes, faz uso da internet e das redes

sociais como mecanismos de extenso de suas vidas, vale salientar at que ponto esse

processo se torna plausvel ou exaustivo, haja visto que a modernidade repercute

transformaes na vida dos sujeitos, na qual o sentido e a dialtica que desenvolvida a partir

disso relativo em cada pessoa e suas consequncias tambm.

22

As implicaes do olhar e ser visto nas redes sociais repercutem no somente na vida

social do sujeito, mas no cerne relacional da sociedade enquanto tal, como traz Kowacs

(2014), acerca das novas formas de interao estabelecida entre paciente e terapeuta:

Os pacientes de Freud escreviam-lhe cartas; os de hoje usam

SMS e WhatsApp para comunicar faltas, atrasos e pedir

mudanas de horrio; a secretria eletrnica, cujo uso foi

polmico na poca de sua introduo, est em acelerado

processo de obsolescncia. Relatos de sonhos chegam ao

terapeuta por e-mail e solicitaes de amizade via Facebook. Os

celulares dos pacientes tocam em plena sesso; fotos e

mensagens so mostradas nos tablets e telefones (KOWACS,

2014, p.635).

A efetivao da cultura das redes sociais implica na mudana do olhar e se ver diante

da sociedade, categorizada na construo de vnculos fragilizados, mas em relaes

intermediadas pela coero social, voltada para a substituio de "ser" por "ter', da abdicao

da vida privada pelo enaltecimento do narcisismo contemporneo.

Seligman (2014), diz que os [...] compartilhamentos (de mdias: fotos, depoimentos,

comentrios e etc.) funcionariam como representaes de si uma imagem virtualizada

(construda ou reconstruda) que aparente s suas redes sociais. A autora ainda, fala sobre

as possibilidades que o universo virtual traz para a representao de eu ou ideal de eu, diz

representar personagens ou mesmo criar papeis prximos ou muito distantes do que somos

ou podemos ser, tudo conforme o que desejamos (SELIGMAN, 2014, p.6).

Atravs da constituio enquanto ser de falta, incompleto e imperfeito, o sujeito

contemporneo atravessa esse impasse pelo acesso conveno sociocultural de estar

conectado. Como artifcio compensatrio da falta constituinte do sujeito, faz uso da imitao

e recriao, constroem imagens de si e personagens, criam mscaras dentro do universo

virtualizvel.

significativo observar no comportamento do pblico que utiliza das fontes

virtualizadas nas redes sociais, como o Facebook, Whastapp, Instagram, Twitter dentre

outras, que as condies pelas quais se busca tamponar a falta constituinte do sujeito

contemporneo, cultiva uma cultura arraigada nas relaes superficiais e fludicas. Na

necessidade de se exibir excessivamente, e que nem sempre vivel, pois por mais que a

exposio traga ao sujeito uma satisfao substitutiva/parcial, e que faa um semblante

23

prazeroso, o sentimento de incompletude e imperfeio tendem a permanecer na vida dos

sujeitos.

6 CONSIDERAES FINAIS

As mudanas que ocorreram e ainda permanecem acontecendo no mundo civilizado e

hipermoderno repercutem na maneira do homem ser e se colocar diante da sociedade. Seguem

em ritmo acelerado de respostas e se mostram cada vez mais presentes no cotidiano das

pessoas, influenciando na vida psquica, nas relaes interpessoais, no modo como agem e

pensam, permitindo recriaes no plano das redes sociais. Torna-se visvel e miditica novos

modos de subjetivao do sujeito em virtude dessas tecnologias.

O conceito de identidade est baseado no contexto mltiplo e coletivo, a partir do

parmetro dos compartilhamentos e interaes intermediadas pelas redes sociais. Tais

reconfiguraes sociais trazem modificaes culturais, estticas, sociais e psquicas para o

sujeito. Portanto, em uma viso geral das redes sociais -onde tudo pode, expandem o plano

de convivncia e interao social, eu compartilho, logo existo, assim como o curtir,

postar, sejam fotos, vdeos, comentrios e/ou declaraes, a cada frao do dia, que vo

sendo mitigados ao olhar do outro.

Na ostentao do ser visto a qualquer custo, na dinmica das redes sociais,

evidencia-se a perspectiva da visibilidade social e, na aceitao de si pelo olhar do outro.

Significados esto sendo operados no fato que as pessoas passam considervel tempo do dia

conectados as redes sociais, lapidando relaes, construindo mscaras, demarcando sintomas,

estabelecendo fronteiras entre a presena fsica e escancarando os limites da vida privada.

As relaes esto sendo fortificadas na alienao do plano virtual significante para o

outro, e fragilizada na realidade. Haja visto o que se mostra presente nas redes sociais, nem

sempre remete a uma presena de fato no plano da realidade psquica.

Na base de toda virtualidade compartilhada, est o cerne da tentativa de fixar qualquer

tipo de lao, seja em fotos, opinies, curtidas, numa espcie de fuga da solido. Considerando

que a cada funo executada nas redes sociais, estejam ligadas a um retorno subjetivo, posto

na construo de um lugar onde sejamos sempre aceitos, e aclamados pela plateia que assiste,

adequando-os aos prprios desejos.

As redes sociais tambm so timas ferramentas de comunicao, propiciam auxlio

na ligao de relacionamentos distncia, na oportunidade de mostrar talentos, em ser um

24

ambiente para expressar sentimentos e pensamentos. Assim como, a caracterstica de

entretenimento, em visualizar as publicaes de variados contedos que so publicados. O

modo como os sujeitos as utilizam que denotam efeitos positivos e/ou negativos.

Na era das redes sociais, registrar tudo pouco, est baseada no processo compulsrio

e de repetio, para se fazer pertencente algo ou algum, dentro de uma sociedade de

valores horizontais e permissivos. Fica cada vez mais problemtico manter um nico

pensamento acerca das implicaes subjetivas no plano virtual, e da realidade, no contexto em

que se transmuta a todo instante.

A sociedade que, antes era prioritariamente de produo e subsistncia, foca-se hoje

mais para o consumo, baseada no ter, para suprir os desejos do olhar egico e do outro,

voltada para o narcisismo contemporneo, trazendo desse modo a individualizao na

sociedade. Na qual, o conceito de identidade se tornou mais ntido e fludico, no

entrelaamento pautado no estilo de vida coletivo e instantneo das redes sociais. Evidencia-

se nas redes sociais, na velocidade das trocas de informaes e do poder da liberdade da

fluidez, daquilo que desliza e passa com facilidade, e que possvel diante da perspectiva de

busca por aceitao.

A dedicao em olhar e mostrar-se, o desinvestimento do estatuto de ser para o

ter, a busca pela perfeio, esto como mecanismos de tamponar uma falta, nesse

parmetro que se insere as redes sociais, em poder elaborar e ter o reconhecimento do outro,

no gozo atravs do olhar e ser olhado, evidenciando a fragilidade do eu em se haver com seu

mal-estar subjetivo e dos laos sociais. Se colocando assim, numa posio de idealizao e

fantasia do parecer ser nas redes sociais, construindo para isso vrias mscaras. Conclui-se,

que possvel utilizar as redes sociais usufruindo com responsabilidade, satisfazendo-se com

cautela, mas, responsvel do lugar de sujeito da falta e da imperfeio.

Adoramos a perfeio porque no a podemos ter!

Repugn-la-amos se a tivssemos. O perfeito o

desumano, porque o humano imperfeito

(Fernando Pessoa)

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