Vilfredo Pareto - Manual de Economia Política

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OS ECONOMISTAS

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OS ECONOMISTAS

VILFREDO PARETOMANUAL DE ECONOMIA POLTICATraduo de Joo Guilherme Vargas Netto

Fundador VICTO CIVITA (1907 - 1990)

Editora Nova Cultural Ltda. Copyright desta edio 1996, Crculo do Livro Ltda. Rua Paes Leme, 524 - 10 andar CEP 05424-010 - So Paulo - SP Ttulo original: Manual dEconomia Poltica Direitos exclusivos sobre a Apresentao, Editora Nova Cultural Ltda., So Paulo Direitos exclusivos sobre as tradues deste volume: Crculo do Livro Ltda. Impresso e acabamento: Grfica Crculo

ISBN 85-351-091405

APRESENTAO

H autores que so conhecidos pela capacidade de sintetizar as idias de seu tempo e lanar as bases para o desenvolvimento do conhecimento. H outros cujo reconhecimento emerge do conjunto de sua obra, por sua amplitude e profundidade. H ainda aqueles que tm seus nomes associados a uma obra-prima ou a um conceito fundamental e revolucionrio. H, por fim, autores que so reconhecidos por todos esses motivos. Vilfredo Pareto um economista que pertence a essa seleta classe de autores. Tratar, em pouco espao, a vida e a obra de um intelectual como Pareto que transitou da Matemtica Sociologia, passando pela Economia, e que ocupou importantes cargos executivos, polticos e acadmicos no tarefa fcil. Nesta apresentao buscarei resumir o essencial de sua vida e de sua produo intelectual no que diz respeito especificamente ao campo da Economia, apesar das limitaes de um esforo como este. Esta apresentao est dividida em duas sees. A primeira uma breve memria da vida de Vilfredo Pareto em seus vrios aspectos pessoal, profissional, poltico e acadmico. A segunda seo apresenta suas contribuies aos vrios ramos da Teoria Econmica e uma breve bibliografia do autor.Uma Breve Biografia Vilfredo Pareto nasceu em Paris em 15 de julho de 1848. Raffaele Pareto, seu pai, descendia de uma nobre famlia italiana que governou a Repblica de Gnova at as conquistas napolenicas. Engenheiro civil, especializado em hidrulica, ele pertenceu ala jovem do Ressurgimento Italiano da primeira metade do sculo XIX. A mudana para a Frana ocorreu por causa de seu envolvimento na Conspirao de Mazzini. Em funo das mudanas polticas acontecidas na Itlia por volta de 1852,1 Raffaele foi convidado a regressar ao seu pas natal1 Os registros de algumas datas e acontecimentos importantes da vida de Vilfredo Pareto so imprecisos. Por exemplo, algumas biografias indicam o regresso da famlia Pareto Itlia no ano de 1852, ao passo que outras registram o ano de 1854. Nesta apresentao, adotarei as datas utilizadas por Busino (1987).5

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para trabalhar como professor de francs na Real Escola Naval de Gnova. Em 1859, passou a lecionar Contabilidade e Economia Agrcola na Escola Tcnica Leardi, dirigida pelo famoso matemtico Ferdinando Pio Rosellini. Nessa instituio, Vilfredo Pareto iniciou seus estudos de Fsica e Matemtica. Em 1862, a famlia mudou-se novamente para Turim e, logo em seguida, para Florena, ento capital da Itlia. Entre 1864 e 1867, Vilfredo Pareto cursou cincias matemticas no Instituto Politcnico de Turim. Na mesma escola, ingressou no curso de engenharia em 1867 e obteve sua titulao em 1870 com a dissertao intitulada Princpios Fundamentais da Teoria da Elasticidade dos Corpos Slidos e as Anlises Relativas Integrao de Equaes Diferenciais que Determinam o Equilbrio. A essa obra atribuda grande importncia na formao de sua viso de mundo, uma vez que ela trata do conceito que veio a permear toda a concepo econmica e social de Pareto: a noo de equilbrio. Entre 1870 e 1892, Pareto desenvolveu ativa vida profissional como tcnico e homem de negcios em importantes empresas italianas. Aps diplomar-se, foi empregado pela Companhia Ferroviria de Florena como engenheiro-consultor, cargo que ocupou at 1873, aps o que ingressou numa das principais indstrias siderrgicas da Itlia, a Companhia Siderrgica, situada em San Giovanni, no vale do rio Arno, que era controlada pelo Banco Nacional de Florena. Nessa empresa ocupou vrias posies tcnicas e de direo: at 1875 foi encarregado tcnico e de 1875 a 1882 foi diretor tcnico. Em 1882, a Companhia Siderrgica foi transformada em Siderrgica Italiana Ferriere Italiane e Vilfredo Pareto assumiu a posio de diretor geral da empresa. Durante sua vida profissional, ele no esteve ausente da vida pblica. Em 1877, assumiu uma cadeira no Conselho Municipal de San Giovanni e, aps essa experincia, se candidatou por duas vezes a representante do povo na Cmara de Deputados (1880 e 1882), mas no obteve sucesso eleitoral em nenhuma delas. Em 1882, foi agraciado com o ttulo de Cavaleiro da Ordem da Coroa Italiana. Tambm nesse perodo (1874-1892), Pareto manteve uma vida intelectual bastante ativa. Em 1874, tornou-se membro da Seo de Cincias Naturais da Accademia dei Giorgofili de Florena e, depois, ingressou na Sociedade Adam Smith de Ferrara. Desde o incio de sua vida pblica nutriu fortes sentimentos liberais, que foram expressos em uma srie de artigos de jornais, de grande circulao e especializados, e em conferncias pblicas. Nessas oportunidades, exercitava seu esprito crtico e tornou-se um articulista audaz e polmico, sempre preocupado com as grandes questes nacionais. Partidrio ardoroso de princpios democrticos, Pareto defendeu publicamente ideais progressistas, como o sufrgio universal, a liberdade de imprensa e a educao6

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primria universal e gratuita. Crtico da poltica comercial protecionista, pregava o livre-comrcio e o fim das tarifas aduaneiras e dos subsdios indstria. Pacifista e humanista convicto, foi um crtico contumaz do sistema poltico italiano, marcado poca pelo patrimonialismo e o clientelismo. Foi um dos principais intelectuais de seu tempo a condenar de forma enftica o iderio armamentista que comeava a permear a poltica europia. Foi tambm nesse perodo que Pareto desenvolveu o interesse pela Economia e firmou amizade com Maffeo Pantaleoni, proeminente economista da Escola Italiana.2 Mas, ao contrrio da maior parte dos economistas de sua poca, Vilfredo Pareto ingressou na academia e desenvolveu suas principais obras sobre Economia quando j havia atingido a maturidade intelectual. Antes de desenvolver suas obras cientficas, ele foi matemtico, tcnico, homem de negcios, poltico e articulista. Apenas em 1893, aos 45 anos, assumiu a cadeira de Economia Poltica da Universidade de Lausanne, at ento ocupada por Len Walras. Em 1899, Pareto deixou sua ctedra em Lausanne e mudou-se para Cligne, no Canto de Genebra, onde passou a dedicar-se quase exclusivamente produo cientfica. Nesse perodo, Pareto distanciou-se gradativamente de sua viso reformista da Economia e passou a se dedicar teoria pura e Economia Matemtica. Aos poucos, seu interesse foi migrando da Economia para a Sociologia, rea do conhecimento na qual tambm deixou importantes contribuies. No final de sua vida, Vilfredo Pareto foi nomeado Senador do Parlamento Italiano, no perodo de ascenso do fascismo, e membro da Comisso de Desarmamento da Liga das Naes, mas no chegou a exercer nenhuma das posies. Faleceu em 19 de agosto de 1923, aos 75 anos de idade. Contribuies Economia Neoclssica3 As contribuies de Pareto Economia moderna so abundantes. O desenvolvimento da Microeconomia seguiu, em essncia e mtodo, os princpios por ele trabalhados na virada do sculo. Entre essas contribuies destacaram-se trs: a gestao de uma teoria ordinal de bem-estar, que foi provavelmente a que se enraizou de forma mais ampla e profunda; o desenvolvimento da Teoria do Equilbrio Geral de Walras, a qual desencadeou importante mudana de mtodo na Economia Neoclssica; e a criao de um critrio de avaliao do bemestar social (timo de Pareto), que inaugurou uma nova linha de pesquisa e levou seu nome a todos os livros de texto e estudos na matria.2 3 Sobre este assunto, ver Schumpeter. As citaes de Pareto contidas nesta seo foram traduzidas pelo autor da apresentao, com base na traduo inglesa do Manual de Economia Poltica.7

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Alm destas, houve inmeras contribuies de menor importncia relativa, mas no absoluta. O desconforto que hoje alunos de cursos de Economia sentem ao estudar o conceito da funo utilidade que dimensiona, como um termmetro, o nvel de bem-estar dos consumidores, das firmas e da sociedade foi tambm sentido por Pareto em sua poca. Para compreender melhor as razes desse desconforto e o papel que Pareto desempenhou no desenvolvimento da Economia Neoclssica, necessrio discutir em maior profundidade a noo fundamental da teoria do valor neoclssica. A Teoria da Utilidade Marginal, desenvolvida paralelamente por Jevons (1871), Menger (1871) e Walras (1874), constituiu o ncleo da chamada Revoluo Marginalista e representou a alforria em relao ao conceito clssico de valor de uso que no permitia uma anlise integrada e completa das relaes entre utilidade, demanda e preo de mercado. O conceito de utilidade data dos primrdios da Cincia Econmica, mas foi a noo de utilidade marginal que tornou a demanda um elemento-chave na determinao do equilbrio de mercado. Por esses motivos a funo utilidade tornou-se pea fundamental da Economia Neoclssica. A funo utilidade U (x1 , x2 ,..., xn), tal como foi concebida pela Escola Marginalista, mensurava a percepo psicolgica e subjetiva de bem-estar dos consumidores obtida com o consumo dos bens i, representados por quantidades xi dos bens i = 1, 2,...,n. A respeito dessa funo supunha-se que fosse crescente em relao s quantidades de cada bem, mas que apresentasse taxas decrescentes de crescimento, ou seja, que a utilidade proveniente de uma unidade adicional de consumo de um bem qualquer diminusse conforme aumentasse o consumo do bem. A utilidade marginal, medida do adicional de utilidade proveniente do incremento de consumo, seria positiva e decrescente.4 A escolha do consumidor era, nesse contexto, concebida como um problema de maximizao da funo utilidade sujeita restrio oramentria da famlia. E o aspecto mais importante dessa teoria era a possibilidade de se obter a relao entre preo e quantidade consumida, chamada de funo demanda, a partir do processo de maximizao da utilidade do consumidor. Ao maximizar seu bem-estar, o consumidor igualava a utilidade marginal de uma unidade adicional de renda, denotada por , com as relaes entre utilidade marginal e preo dos bens consumidos:4 Em termos matemticos, a utilidade marginal de um bem i medida pela derivada parcial da funo utilidade em funo do incremento de uma unidade do bem: u (xi) = U/xi.8

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u (x1) Px1

=

u (x2) Px2

= .... =

u (xn) Pxn

=

Assim, se o preo de um bem eventualmente subisse, mantido o nvel de renda constante, a quantidade demandada e a utilidade marginal deveriam diminuir para compensar a elevao do denominador e manter a identidade com . Estava estabelecida, pois, a relao entre preo e quantidade consumida. Note-se, contudo, que a determinao das quantidades consumidas, dados os preos dos bens, assim como a anlise da reao do consumidor a variaes dos preos dos bens, dependiam fundamentalmente do conhecimento prvio da funo utilidade e do nvel especfico de bem-estar do consumidor, uma vez que eram definidas em termos da utilidade marginal dos bens. Apesar dos enormes avanos obtidos pela Revoluo Marginalista, a Teoria da Utilidade trazia consigo inquietaes de natureza metafsica. A maior parte dos economistas insatisfeitos com a teoria, entre os quais Vilfredo Pareto, no questionava seus resultados e proposies, como a condio de equilbrio do consumidor e a curva de demanda. As crticas e inquietaes estavam associadas a duas decorrncias dos postulados fundamentais da teoria: (i) a prpria existncia de uma medida de bem-estar e (ii) a possibilidade de comparaes interpessoais de bem-estar. Conforme atesta Viner (1925), os peridicos de Economia da poca traziam, em oposio aos principais tratados de Economia, severas crticas Teoria da Utilidade, a maioria delas relativas aos pontos assinalados acima. Vilfredo Pareto impunha restries ao prprio termo empregado pela Escola Marginalista para designar a expresso do bem-estar dos agentes econmicos. Para ele, o termo utilidade trazia consigo o peso de seu significado na linguagem coloquial: algo teria utilidade se fosse til ao indivduo. Ressalta em mais de uma passagem do Manual de Economia Poltica que certos bens, como a morfina, trazem bem-estar aos seus consumidores, mas, de forma alguma, lhes so teis. Como alternativa, ele empregava o termo ophelimite derivado do grego ophelimos para designar a propriedade que bens ou aes tm de gerar bem-estar e satisfao ao seu usurio ou ator. Contudo, sua principal inquietao em relao ao conceito de utilidade dizia respeito diretamente mensurabilidade do nvel de bem-estar dos agentes econmicos. A esse respeito, assinalou: Temos admitido que esta coisa chamada prazer, valor de uso, utilidade econmica, ... seja uma quantidade; contudo, uma demonstrao disto ainda no foi apresentada. Assumindo que essa demonstrao seja efetuada, como essa quantidade seria mensurada?5. De fato, o pressuposto5 Pareto (1906), captulo 3, item 35. As palavras em negrito esto ressaltadas no original.9

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de uma funo quantificada em alguma escala mtrica de unidades de utilidades, prazeres ou valores de uso exigiu dos economistas contemporneos de Pareto um esforo mental que ele provaria desnecessrio. Pareto superou esse problema lanando mo de engenhoso artifcio lgico e singular intuio econmica e matemtica. A partir das curvas de indiferena de Edgeworth, um importante corolrio da viso tradicional da Teoria da Utilidade, ele desenvolveu uma nova abordagem da escolha dos agentes econmicos, que mantinha os principais resultados da viso dominante e prescindia de uma funo utilidade mensurvel. Sua teoria, que tornou clara a noo de preferncia, empregava o conceito ordinal de bem-estar. As curvas de indiferena de Edgeworth indicavam as combinaes de bens x = (x1 , x2 ,..., xn) que mantinham inalterado o bem-estar do consumidor. Como os bens tinham a propriedade de ser substituveis uns pelos outros, a curva de indiferena apontava para as eventuais trocas entre bens que o consumidor, segundo suas preferncias, estaria disposto a fazer, mantido constante seu nvel de bem-estar. O conjunto das curvas de indiferena do consumidor, chamado de mapa de indiferena, era informao suficiente para estabelecer sua escolha; no se fazia necessrio o conhecimento de sua funo utilidade. Bastava, para tal, associar a cada curva de indiferena do mapa um ndice tal que: 1 duas combinaes entre as quais a escolha indiferente devem ter o mesmo ndice; 2 de duas combinaes, aquela que for preferida a outra deve ter o maior ndice Pareto (1906), captulo 3, item 55. Assim, as vrias combinaes de bens estariam ordenadas segundo as preferncias do consumidor, e sua escolha se resumiria em selecionar a combinao com o maior ndice a preferida entre aquelas acessveis a sua renda. Ou ainda: dadas as preferncias do consumidor, bastaria atribuir a cada combinao um ndice que preservasse a ordenao subjetiva de preferncias. Pareto constatou que, ao quantificar o bem-estar dos agentes econmicos associado a cada combinao de consumo, a funo utilidade atribua a elas um nmero que, em ltima instncia, ordenava o conjunto das combinaes de consumo do agente; e isto era suficiente para os fins a que a teoria se propunha. Essa abordagem alternativa revolucionou a concepo econmica de utilidade e de comportamento econmico. A Teoria da Deciso, o ncleo da Microeconomia contempornea, desenvolveu-se a partir dos fundamentos ordinais construdos por Pareto. Hoje, os textos de Economia baseiam a anlise de comportamento econmico (consumo, produo, trocas, bem-estar social etc.) no conceito de ordenao de preferncias primeiramente desenvolvido por ele. A funo utilidade , nessa abordagem, uma conseqncia dos pressupostos da teoria ordinal e no uma hiptese primria de trabalho. O trabalho criativo de Pareto com relao ao problema da escolha10

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no se resumiu introduo do enfoque ordinal de preferncias na anlise do comportamento do consumidor. Em verdade, consumidores, produtores, Estado e sociedade eram, para ele, entidades semelhantes em essncia: todos buscavam satisfazer da melhor forma possvel seus prprios interesses, dados os meios disponveis. O que distinguia um de outro qualquer era, to-somente, o interesse o volume de consumo para o consumidor e o lucro para o empresrio e os meios disponveis restrio oramentria e possibilidades tecnolgicas de produo. Pareto tomou os princpios da Teoria da Utilidade e generalizou sua aplicao, tratando as questes de alocao de consumo e de produo com um mesmo instrumental terico. O comportamento econmico passou a ser visto como a contraposio entre preferncias e restries. Esse enfoque significou outra revoluo no ncleo da Economia Neoclssica e possibilitou o avano da Teoria do Equilbrio Geral, proposta primeiramente por Walras. O estado das artes no desenvolvimento terico herdado por Pareto contrapunha, de um lado, a excessiva nfase no papel da demanda desconsiderando os aspectos produtivos da economia e, de outro, a anlise de equilbrio geral de Walras complexa e pouco operacional. Com seu enfoque generalizante, ele foi capaz de reduzir o complexo problema da determinao simultnea do consumo e da produo a uma anlise de preferncias e restries de diferentes agentes econmicos. Ao analisar o funcionamento de uma economia de trocas e, depois, o equilbrio de uma economia com produo , concebeu o mercado como sendo formado por agentes com diferentes preferncias e restries, mas todos buscando a satisfao de seus interesses. As preferncias e restries se referem a cada um dos indivduos considerados. Para um indivduo as preferncias de outro com o qual ele tem relaes est entre seus obstculos Pareto (1906), captulo 3, item 25. Vale ressaltar que, para ele, o estudo das relaes econmicas deveria considerar, alm da associao entre utilidade e preo, a dependncia mtua entre os agentes econmicos consumidores e produtores. A respeito disto, escreveu: ...as teorias que unem apenas o valor (preo) e o nvel de bem-estar (ophelimite) no tm muita utilidade para a Economia Poltica. As teorias mais teis so aquelas que consideram o equilbrio econmico geral e que investigam como ele se origina na oposio de preferncias e restries. Pareto (1906), captulo 3, item 228. Alm de introduzir esse novo enfoque metodolgico, que acabou constituindo um novo estilo de ensino e de estudo da Microeconomia, Pareto trouxe inmeras contribuies teoria walrasiana. Entre outras, introduziu a funo de produo com coeficientes variveis no estudo do equilbrio geral, que permitiu a anlise da substituio tcnica entre diversos fatores produtivos (trabalho, capital, terra etc.) e suas conseqncias para o equilbrio do produtor. No obstante, a mais importante11

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contribuio nessa rea foi a conjugao do estudo do equilbrio geral com as propriedades de bem-estar coletivo da economia. Para compreender esse ponto, faz-se necessrio retornar, uma vez mais, discusso sobre o conceito de utilidade. A segunda questo controversa da Teoria da Utilidade tradicional era a possibilidade de comparaes interpessoais de bem-estar. Uma vez que a funo pressupunha a mensurao da quantidade de utilidade em alguma escala numrica, em princpio seria tambm admissvel a comparao do bem-estar de dois ou mais indivduos, assim como a agregao de utilidades individuais. De fato, vrios economistas que compartilhavam a viso tradicional de John Stuart Mill, muitos anos antes, a Marshall e Pigou acreditavam possvel e buscavam mtodos de comparao dos nveis de satisfao individual e agregao destes em bem-estar coletivo. O estabelecimento de comparaes interpessoais de bem-estar, uma categoria particular de comparao de diferentes sensaes e sentimentos, era severamente criticado por Pareto. Em primeiro lugar, porque constitua um abuso lgico que ignorava a existncia de conflitos na sociedade. Em Pareto (1906), captulo 2, itens 36, l-se: A felicidade dos romanos reside na destruio de Cartago; a felicidade dos cartagineses talvez na destruio de Roma, ou, de qualquer forma, na salvao de sua cidade. Como ambas, a felicidade dos romanos e a dos cartagineses, podem ser realizadas? Depois, porque essa viso permitia julgamentos de valor moral duvidoso: se for possvel a comparao interpessoal de bem-estar, tambm admissvel justificar o sofrimento de alguns com base no aumento de bem-estar de outros indivduos da mesma sociedade. ...Como algum pode comparar essas sensaes, agradveis ou de sofrimento, e som-las? Mas para levar nossas concesses ao extremo, vamos admitir que isso seja possvel e tentemos resolver o seguinte problema: a servido moral? Se os senhores so numerosos e poucos os escravos, possvel que as sensaes agradveis dos senhores formem uma soma maior que as sensaes de sofrimento dos escravos; o contrrio ocorreria se houvesse poucos senhores e muitos escravos... Pareto (1906), captulo 2, item 37. No primeiro caso, por exemplo, a concluso lgica seria a de rechaar uma eventual demanda pelo fim do regime de escravido, como forma de evitar a diminuio do bem-estar da sociedade. Assim, qualquer mudana nas relaes de poder e de direito da sociedade poderia ser justificada pelo aumento, ou no, do bem-estar coletivo. Munido de esprito humanista, Pareto contestou a possibilidade de comparaes interpessoais de utilidade e introduziu o conceito ordinal de bem-estar social. Segundo a nova abordagem, apenas seriam possveis as comparaes de bem-estar entre situaes cuja mudana de uma para outra no envolvesse transferncias de utilidade entre os indivduos. Seu critrio de avaliao do bem-estar social estabelecia que:12

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o bem-estar social associado a um estado x maior que o de um outro estado y se e somente se h, em x, pelo menos um indivduo com bem-estar maior do que em y e no h outro indivduo que tenha um nvel de bem-estar inferior; ou seja, um estado superior a outro se possvel aumentar o bem-estar de pelo menos um indivduo sem prejudicar os demais (Superioridade de Pareto); o bem-estar de uma sociedade mximo se no existe outro estado tal que seja possvel aumentar o bem-estar de um indivduo sem diminuir o bem-estar dos demais; isto , no h forma de melhorar a situao de um, sem prejudicar a situao dos outros (timo de Pareto)6. Em ltima instncia, o critrio proposto por Pareto revelou os limites entre os quais possvel estabelecer comparaes de bem-estar social, sem o recurso a valores morais. Aplicado esse critrio, a Economia Poltica preservaria, enquanto cincia, sua neutralidade tica. Pareto demonstrou a serventia de seu critrio para a Economia Poltica ao aplic-lo anlise das propriedades do equilbrio geral. Ele provou o chamado primeiro teorema da Economia do Bem-Estar, o qual afirma que todo equilbrio geral de economias em concorrncia perfeita, independentemente da distribuio inicial de recursos, maximiza o bem-estar da sociedade. Tambm sugeriu, conquanto no tenha demonstrado, a proposio conhecida por segundo teorema da Economia do Bem-Estar: toda situao tima no sentido de Pareto pode ser atingida por um equilbrio competitivo, dada uma distribuio inicial de recursos apropriada. Ao demonstrar que o equilbrio de uma economia em concorrncia perfeita conduzia ao mximo de bem-estar da sociedade (primeiro teorema), Pareto tornou preciso o conceito clssico de mo invisvel: a capacidade de os agentes econmicos atingirem, de forma descentralizada e no intencional, o mximo de bem-estar da sociedade. Esse resultado fundamentou, por exemplo, a idia de que o livre-comrcio entre as naes levaria suas economias ao mximo de bem-estar social, defendida por expoentes da Economia Clssica como Adam Smith e Ricardo. No incio deste sculo, a Cincia Econmica ainda no dispunha de um conceito, to universal e simples como o proposto por Pareto, para orientar as discusses sobre o bem-estar social associado a diferentes distribuies de recursos, nveis de produo ou alocaes de consumo. A inovao analtica de Pareto permitiu, de forma bastante simples, comparar diferentes estados da economia, observando apenas6 Esse critrio tambm conhecido como eficincia de Pareto.13

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se o bem-estar de cada indivduo em uma situao maior ou menor do que em outra. Assim, diferentes polticas por exemplo, distribuies alternativas de despesas pblicas poderiam ser analisadas em termos de perdas e ganhos dos agentes econmicos envolvidos. E essa capacidade de estabelecer comparaes, at o ponto em que isto possvel, tornou o critrio de Pareto pea fundamental nas anlises de Economia aplicada. Empregado pelo autor para discutir as propriedades do equilbrio geral competitivo, o critrio de Pareto acabou se difundindo para outras reas da Economia. E desta difuso desenvolveu-se a Economia do Bem-Estar, uma rea do conhecimento econmico dedicada ao estudo de diferentes mtodos de avaliao do bem-estar social e sua aplicao na comparao de distintos estados da Economia. Hoje, a Economia do Bem-Estar d respaldo a vrios campos de pesquisa pura e aplicada, como a Escolha Pblica, a Teoria Econmica do Direito e a Economia do Meio Ambiente. Vilfredo Pareto deixou outras contribuies importantes para a Economia, como o estudo economtrico pioneiro sobre distribuio da renda e as discusses sobre metodologia e o emprego de matemtica em Cincias Sociais. Todas comprovam sua singular intuio econmica e seu exemplar rigor lgico. Deixou, tambm, contribuies para a Sociologia consubstanciadas em seu Tratado de Sociologia Geral (1916). Muito embora eu no seja capaz de julgar o valor destas outras contribuies, acredito que um socilogo no dedique a Pareto menos entusiasmo. Fernando Garcia Fernando Garcia Doutor em Economia pela FEA-USP, assessor econmico do SindusCon-SP e professor do Programa de Ps-graduao em Economia Poltica da PUC-SP e do MBA em Finanas do Ibmec-SP.

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BIBLIOGRAFIA

Obras

de Vilfredo Pareto

La mortalit infantile e il costo delluomo adulto. Em Giornale degli economisti, 7, 451-6. Teoria matematica dei cambi forestiere. Em Giornale degli economisti, 8, 142-73. La curve della entrate e le osservazione del professor Edgeworth. Em Giornale degli economisti, 13, 439-48. Cours dconomie politique. 2 vol. Lausanne, Librairie de lUniversit. The new theories of economics. Em Journal of Political Economy, 5, 485-502. Quelques exemples dapplication de la mthode de moindres carrs. Em Journal de Statistique Suisse, 121-50. Di un nuovo errore nello interpretare le teorie delleconomia matematica. Em Giornale degli economisti, 25, 401-33. Manuale dEconomia Politica. Milo, Societa Editrice Libraria. Traduzido para o francs e revisado em 1909 como Manuel dEconomie Politique, Paris, Giard Brire. Traduzido para o ingls como Manual of Political Economy: Traduo de Ann S. Schwier, The Macmillan Press LTD, Nova York, 1971. Walras. Em Economic Journal, 20, 138-39. Economie Mathmathique. Em Encyclopdie des Sciences Mathmathiques, I (iv,4), Paris, Teubner, Gauthier, Villars. Il massimo de utilit per una collettivit in sociologia. Em Giornale degli economisti, 46, 337-38. Trattato di Sociologia Generale. 4 vol. Florena, Barnera. Economia sperimentale. Em Giornale degli economisti, 52, 1-18. Oeuvres Complts. Editado por G. Busino. 28 vol. Genebra, Librairie Droz. Sociological Writings. Textos selecionados por S.E. Finer. Rowman and Littlefield. Totowa, Nova Jersey, 1966.15

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Outros autores AMOROSO, L. Vilfredo Pareto. Em Econometrica, VI, Jan., 1-21. ARROW, K.J. Social Choice and Individual Values. Nova York, John Wiley & Sons, Inc. BERGSON, A. A reformulation of certain aspects of welfare economics. Em Quarterly Journal of Economics, 52, 310-34. BLACK, R.D.C. Utility. Em The New Palgrave, Utility and Probability, eds. John Eatwell, Murray Milgate and Peter Newman. London and Basingstoke, The Macmillan Press Limited, 295-302. BOUSQUET, G.H. Vilfredo Pareto, le Savant et lHomme. Lausanne, Payot. Vilfredo Pareto, sa Vie et son Ouevre. Lausanne, Payot. BUSINO, G. Vilfredo Pareto. Em The New Palgrave, Utility and Probability, 799-804. CIRILLO, R. The Economics of Vilfredo Pareto. Totowa, Frank Cass and Company LTD. JEVONS, W.S. A Teoria da Economia Poltica. So Paulo, Editora Nova Cultural, 1996. JOHANSSON, P. An Introduction to Modern Welfare Economics. Cambridge, Cambridge University Press. KIRMAN, A.P. Pareto as an economist. Em The New Palgrave, eds. John Eatwell, Murray Milgate, and Peter Newman. London and Basingstoke, The Macmillan Press Limited, 804-9. LOCKWOOD, B. (1987) Pareto efficiency, em The New Palgrave, 811-13. MERGER, C. Principles of Economics. Glencoe, Illinois, Free Press, 1951. PANTALEONI, M. Vilfredo Pareto. Em Economic Journal, 33, 582-590. SCHUMPETER, J. A. Vilfredo Pareto (1848-1923). Em Quarterly Journal of Economics, 63, 147-73. History of Economic Analysis. Nova York, Oxford University Press. SIMONSEN, M.H. Teoria Microeconmica. 2 vol. Rio de Janeiro, Fundao Getlio Vargas. STEINDL, J. Pareto Distribution. Em The New Palgrave, 809-11. TARASCIO, V.J. Paretos Methodological Approach to Economics: A Study in the History of Some Scientific Aspects of Economic Thought. Chapel Hill, The University of North Caroline Press.16

PARETO

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MANUAL DE ECONOMIA POLTICA*

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Traduzido de PARETO, Vilfredo. Manuel dconomie Politique. 5 edio, Genebra, Librairie Droz, 1981.

ADVERTNCIA1

Quando se cita, num captulo, um pargrafo do mesmo captulo, esse indicado simplesmente por . Se o pargrafo de outro captulo, o nmero romano que indica o captulo precede o nmero do pargrafo. Exemplos: no captulo I, ( 4) indica o pargrafo 4 do prprio captulo. Sempre no captulo I, (II, 6) indica o pargrafo 6 do captulo II. Nas citaes, Cours indica o nosso Cours dconomie Politique, Lausanne 1896, 1897 e Systmes indica o nosso livro Systmes Socialistes, Paris, 1903.

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Extrada de PARETO, Vilfredo. Manuale di Economia Politica con una Introduzione alla Scienza Sociale. Milo, Societ Editrice Libraria, 1909. (N. do Ed.)21

SUMRIO

CAP. I. Princpios Gerais 1. Os objetivos que se podem ter no estudo da Economia Poltica e da Sociologia. 2, 3. Os mtodos empregados. 4, 5, 6. As uniformidades ou as leis. 7. As excees aparentes. 8. As uniformidades ou as leis so verdadeiras apenas sob certas condies. 9. Essas condies so, s vezes, implcitas, s vezes, explcitas. 10. No podemos jamais conhecer um fenmeno concreto em todas as suas particularidades. 11. Podemos ter dele apenas um conhecimento aproximativo. 12. Declarar que a teoria se afasta, em certos pontos, do fenmeno concreto, eis uma objeo sem alcance. 13. Exemplo. 14. Aproximaes sucessivas. 15, 16, 17. No podemos conhecer os fatos raciocinando com os conceitos que temos; preciso recorrer observao direta. 18. Em que inexato o raciocnio por eliminao. 19. Os resultados da teoria sempre diferem, ainda que pouco, da realidade. 20. As cincias que podem recorrer experincia e as que devem se contentar com a observao. Uma teoria no pode ter outro critrio seno sua maior ou menor concordncia com a realidade. 21. Abstrao: seu papel na cincia. 22, 23, 24. Ela pode se revestir de duas formas que so equivalentes. 25, 26. A cincia essencialmente analtica; a prtica, sinttica. 27, 28, 29, 30. A teoria de um fenmeno concreto apenas a teoria de uma parte desse fenmeno. A cincia separa as diferentes partes de um fenmeno e as estuda separadamente; a prtica deve aproximar os resultados assim obtidos. 31. Inutilidade da crtica simplesmente negativa de uma teoria. 32. s vezes, para conseguir mais sinceridade, distanciamo-nos, voluntariamente, em teoria, do fenmeno concreto. 33. O estudo histrico dos fenmenos econmicos: em que til e em que intil. 34. Evoluo. 35. Inutilidade das discusses sobre o mtodo em Economia Poltica. 36. Afirmaes que se podem verificar experimentalmente e afirmaes que no se podem observar experimentalmente. 37, 38. A cincia ocupa-se somente das primeiras. 39, 40. Tudo que tenha aparncia de um preceito,23

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a menos que tenha apenas aparncia formal, no cientfico. 42. Confuso entre a cincia e a f. 43. A intuio: seus modos e formas. 44, 45, 46. O consentimento universal no um critrio da verdade cientfica. 47. Erro dos metafsicos que querem transportar proposies absolutas para as proposies cientficas que, por natureza, so essencialmente subordinadas, e para as quais preciso sempre subentender a condio de que elas so verdadeiras nos limites do tempo e da experincia conhecidos por ns. 48. absurdo querer substituir a f pela cincia. 49, 50. Concluses deduzidas de premissas no experimentais. 51. A inveno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 CAP. II. Introduo Cincia Social 1. O estudo da sociologia ainda deve partir de certos princpios empricos. 2, 3. Aes no lgicas e aes lgicas. 4, 5. Tendncia a se apresentar como lgicas as aes no lgicas e a encaminhar todas as relaes dos fenmenos entre si relao de causa e efeito. 6. Relaes objetivas. 7, 8, 9. Como e em que a relao subjetiva se afasta da relao objetiva. 10, 11, 12. Variedades de relaes entre os fatos reais. 13, 14, 15. Relaes entre os fatos imaginrios e os fatos reais. 16, 17. Como experincias renovadas podem aproximar a relao subjetiva da relao objetiva. 18, 19. Noes sobre a teoria das aes no lgicas. A moral um fenmeno subjetivo. 20. Pesquisas experimentais que, de maneira til, se podem estabelecer sobre os sentimentos morais e sobre os sentimentos religiosos. 21. Relao entre a moral e a religio. 22. Relaes entre os sentimentos no lgicos de maneira geral. 23. Relaes lgicas e relaes no lgicas entre a moral e a religio. 24 a 40. Exame dos sistemas lgicos de moral. Trata-se de construes vs, sem contedo real. 41. Pesquisas que, de maneira til, se podem estabelecer sobre os sentimentos morais ou sobre outros sentimentos semelhantes. 42. Esses sentimentos so essencialmente subjetivos. 43. A dependncia entre esses diferentes sentimentos no uma dependncia de ordem lgica, mas resulta do fato de que esses sentimentos tm razes comuns e distanciadas. 44. Essa dependncia varia no tempo, no espao e, numa mesma sociedade, segundo os indivduos. 45, 46, 47. No existe moral nica; existem tantas quantos os indivduos. 48. Oposio entre os diferentes sentimentos no lgicos, por exemplo, entre os sentimentos morais e os sentimentos religiosos. Como uma f intensa impede observar essas oposies. 49. Como e por que elas em geral no so percebidas. 50. O homem se esfora em estabelecer entre esses sentimentos no lgicos as relaes lgicas que ele imagina dever existir. 51, 52, 53. Certas circunstncias so favorveis ao desenvolvimento de certos sentimentos, outras lhes so contrrias e atuam diferentemente segundo os indivduos. 54, 55. Como a moral e24

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as religies das diferentes classes sociais atuam uma sobre as outras. 56, 57. Exemplos histricos. 58, 59. Essa ao recproca provoca movimentos rtmicos. 60, 61. Males que resultam da extenso dos sentimentos das classes superiores s classes inferiores. 62 a 74. Exemplos histricos. 75. Problema geral da Sociologia. 76 a 79. Soluo darwiniana; em que verdadeira, em que inexata. 80 a 82. Soluo segundo a qual a sociedade organizada de maneira a satisfazer o interesse de uma classe. 83. intil pesquisar se os sentimentos morais tm origem individual ou social. 84. til conhecer, no sua origem, mas como os sentimentos nascem e se transformam. 85, 86, 87. Exemplos histricos. 88. Imitao e oposio. 89 a 93. Como as relaes objetivas, que acabamos de estudar, se transformam em relaes subjetivas. 94 a 96. Uma mesma relao objetiva pode se traduzir sob diferentes formas subjetivas. Persistncia de certos fenmenos sociais sob formas completamente diferentes. 97. Movimentos reais e movimentos virtuais. Problema que consiste em pesquisar a maneira como certas modificaes hipotticas de certos fatos sociais atuam sobre outros fatos. 98, 99. Exame desse problema. 100, 101. Dificuldades subjetivas e dificuldades objetivas que encontramos nesse estudo. 102. A sociedade no homognea. 103. Circulao das aristocracias. 104, 105, 106. Como se traduz subjetivamente a luta entre as diferentes classes sociais. Objetivamente, o conceito de igualdade dos homens absurdo; subjetivamente, ele tem uma parte bastante importante nos fenmenos sociais. 107. Como certos homens, agindo para se movimentar num sentido, vo em sentido oposto. 108. As teorias sociais e econmicas atuam sobre a sociedade, no por seu valor objetivo, mas por seu valor subjetivo. 109. Preconceito da igualdade diante da lei. 110 a 114. A moral e as crenas variam com os homens; utilidade social dessas variaes. 115 a 123. Como a aparncia difere da realidade na organizao poltica. Exemplos histricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 CAP. III. Noo Geral do Equilbrio Econmico 1, 2. Objeto da Economia Poltica. 3. Dificuldades do problema econmico e como o emprego das Matemticas serve para sobrepujar certas dificuldades. 4, 5, 6. Simplificao do problema econmico; a Economia pura. 7. As trs partes da Economia pura. 8, 9, 10. A esttica econmica. Estuda-se um fenmeno contnuo. 11, 12. Duas classes de teoria: a primeira busca comparar as sensaes de um indivduo; a segunda busca comparar as sensaes de indivduos diferentes. A Economia Poltica ocupa-se apenas dos primeiros. 13. Como faremos esse estudo. 14, 15. Estudaremos os gostos, os obstculos e como, por seu contraste, nasce o equilbrio econmico. 16, 17, 18. Bens econmicos e sensaes que proporcionam. 19. preciso25

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combinar os gostos e obstculos. 20, 21. Combinaes qualitativas e quantitativas dos bens econmicos. 22. Definio do equilbrio econmico; movimentos reais e movimentos virtuais. 23, 24, 25, 26. Dados do problema do equilbrio. 27. Como se determina o equilbrio em geral. 28, 29. Os gostos dos homens; noo imperfeita que deles tinham os economistas; o valor de uso. 30, 31. Como nasceu a Economia pura atravs da retificao das noes errneas da Economia. 32 a 36. A ofelimidade. 37. Laos que existem entre as condies do fenmeno econmico. 38. Tentaremos explicar as teorias da Economia pura sem que nos sirvamos dos smbolos algbricos. 39. Efeitos diretos e efeitos indiretos dos gestos. 40 a 48. Tipos de fenmenos concernentes aos efeitos dos gostos; livre concorrncia; monoplio. 49. Tipo da organizao socialista. 50, 51. Como os tipos se misturam e como preciso estud-los. 52 a 54. Linhas de indiferena dos gostos. 55, 56. ndices de ofelimidade. 57, 58, 59. Como so representados os gostos do indivduo; a colina do prazer. 60, 61. Como se representa, por um atalho, a condio de um homem que possui, sucessivamente, quantidades diferentes de um bem econmico. 62, 63, 64. Consideraes sobre os atalhos; pontos terminais e pontos de tangncia com as linhas de indiferena. 65, 66, 67. Variaes contnuas e variaes descontnuas. 68. Os obstculos. 69. Primeiro gnero de obstculos. 70, 71, 72. Transformao dos bens econmicos. 73, 74. Segundo gnero de obstculos. 75. As linhas de indiferena dos obstculos nas transformaes objetivas. 76. As linhas de indiferena do produtor. 77 a 80. Analogia das linhas de indiferena dos gostos e das linhas de indiferena dos obstculos. 81. A colina da utilidade. 82. A concorrncia. 83. A concorrncia na troca. 84. A concorrncia na produo. 85. preciso comear por estudar uma coletividade separada de todas as outras. 86 a 88. Os modos da concorrncia. 89. Tipos dos fenmenos concernentes aos produtores. 90, 91, 92. O equilbrio em geral. 93 a 99. O equilbrio concernente aos gostos; como o equilbrio sobre um atalho ocorre num ponto terminal ou num ponto de tangncia desse atalho e de uma curva de indiferena. 100 a 104. O equilbrio para o produtor. 105. A linha da utilidade mxima. 106 a 111. O equilbrio dos gostos e dos obstculos. 112 a 115. Teoria geral que determina os pontos de equilbrio. 116 a 133. Modos e formas do equilbrio na troca. Diferentes pontos de equilbrio. Equilbrio estvel e equilbrio instvel. 134. Mximo de ofelimidade. 135 a 151. Modos e formas do equilbrio na produo. A linha da utilidade mxima. A concorrncia dos produtores. 152 a 155. Os preos. 156, 157. O valor de troca. 158. O preo de uma mercadoria em outra. 159 a 166. Os fenmenos econmicos descritos com a utilizao da noo de preo. 167 a 174. Os preos26

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e o segundo gnero dos obstculos. Preo do custo e preos variveis. 175. O oramento do indivduo. 176. O oramento do produtor. 177, 178, 179. O custo de produo. 180 a 183. Oferta e procura. 184. Curva da oferta e da procura. 185, 186, 187. A oferta e a procura dependem de todas as circunstncias do equilbrio econmico. 188 a 192. A igualdade da oferta e da procura no ponto de equilbrio. 193. Modo de variao da oferta e da procura. 194. A igualdade do custo de produo e dos preos de venda. 195. Equilbrio estvel e equilbrio instvel; suas relaes com as noes de oferta e procura. 196 a 204. Equilbrio em geral. 205 a 216. O equilbrio da produo e da troca em geral. 217, 218. Qual a utilidade do emprego das Matemticas. 219 a 226. Erros engendrados pelo no emprego das Matemticas onde ele era indispensvel. 227. intil buscar a causa nica do valor. 228. A Economia pura pde, at aqui, fornecer sozinha uma noo sinttica do fenmeno econmico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 CAP. IV. Os Gostos 1. Objetivo do presente captulo. 2 a 7. Os gostos e a ofelimidade. Considera-se apenas o consumo voluntrio. 8. Consumos independentes e dependentes. Dois tipos de dependncia. 9 a 13. Estudo do primeiro gnero de dependncia. Ele se divide em duas espcies. 14 a 18. Estudo do segundo gnero de dependncia. 19. Hierarquia das mercadorias. 20 a 23. Maneira de considerar o segundo gnero de dependncia. Equivalncia dos consumos. 24. Grande extenso do fenmeno da dependncia dos consumos. 25, 26. Podemos estudar o fenmeno econmico apenas numa pequena regio em torno do ponto de equilbrio. 27, 28. As curvas de indiferena variam com o tempo e as circunstncias. 29 a 31. Divergncias do fenmeno terico e do fenmeno concreto. 32. A ofelimidade e seus ndices. 33, 34. Caracteres da ofelimidade para consumos independentes. 35, 36. Consumos dependentes. 37 a 42. Caracteres da ofelimidade em geral. 43 a 47. Caracteres das linhas de indiferena. 48 a 53. Relao entre a ofelimidade ou as linhas de indiferena da oferta e da procura. Relaes com os rendimentos do consumidor. 54, 55. Diferentes formas das linhas de indiferena e das linhas das trocas. Considerao dos diferentes gneros de dependncia. 56 a 68. O fenmeno da ofelimidade em geral. 69, 70. A colina da ofelimidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199 CAP. V. Os Obstculos 1. O estudo da produo mais complexo do que o estudo dos gostos. 2 a 7. A diviso do trabalho e a empresa. 8 a 10. O fim a que tende a empresa. 11. Como, perseguindo determinado fim, ela, s vezes, atinge outro. 12. O tipo da organizao socialista. 13 a 16. As diversas vias da empresa. 17 a 24. Os capitais. Em que essa noo no rigorosa27

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e como torn-la rigorosa. 25 a 29. A teoria do equilbrio econmico sem e com a noo de capital. 30, 31, 32. Amortizao e seguro. 33. Os servios dos capitais. 34. Bens materiais e bens imateriais. 35, 36, 37. Os coeficientes de produo. 38. Transformaes no espao. 39 a 42. Transformaes no tempo. 43 a 47. O balano da empresa e as transformaes no tempo. Diferentes maneiras de considerar essas transformaes. 48 a 51. O rendimento dos capitais. 52 a 57. O rendimento lquido e suas causas. 58. Rendimentos lquidos de diversos capitais. 59, 60. O oramento da empresa e os rendimentos dos capitais. 61. O balano da empresa, o trabalho e os capitais do empresrio. 62 a 65. O empresrio e o proprietrio dos bens econmicos. 66 a 69. As empresas reais, seus rendimentos e suas perdas. 70 a 75. Variabilidade dos coeficientes de produo. 76, 77. Compensao possvel entre as variaes dos diferentes coeficientes. 78 a 80. Repartio da produo. 81 a 87. Equilbrio geral da produo. 88. Produo de capitais. 89. Posies sucessivas de equilbrio. 90. A renda. 91, 92. Renda adquirida. 93, 94, 95. A renda de Ricardo; sua relao com o custo de produo. 96, 97. Como esse caso particular faz parte da produo . . . . . . . . . . . . . . . . 227 CAP. VI. O Equilbrio Econmico 1 a 18. Exemplos de equilbrio. A lei do custo de produo. Como atua a concorrncia. 19 a 25. Formas ordinrias das curvas de indiferena na troca e na produo; mercadorias a custo de produo crescente e mercadorias a custo de produo decrescente. 26. O equilbrio dos gostos e da produo. 27 a 31. O equilbrio em geral. Aproximao maior do fenmeno concreto. 32, 33. Propriedade do equilbrio. Mximo de ofelimidade. 34 a 38. Propriedade do equilbrio na troca. Como se obtm o mximo de ofelimidade. 39 a 47 Propriedades do equilbrio da produo. Como se obtm o mximo de ofelimidade. 48. Argumento em favor da produo coletivista. 49 a 51. Como atua a livre-concorrncia para determinar os coeficientes de produo e para se chegar igualdade de todos os rendimentos lquidos dos diferentes capitais. 52 a 61. O equilbrio econmico na sociedade coletivista. 62, 63, 64. Mximo de ofelimidade para coletividades parciais. 65 a 69. Teoria pura do comrcio internacional. 70. O equilbrio dos preos. 71 a 79. Teoria quantitativa da moeda. Variao dos preos. 80 a 89. Relao entre equilbrio, os preos dos fatores da produo e os preos dos produtos. 90 a 91. Traduo subjetiva dos fenmenos estudados. 92. Circulao econmica. 93 a 96. Interpretaes inexatas da concorrncia dos empresrios. 97 a 101. Concepes errneas da produo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265 CAP. VII. A Populao 1. O fenmeno econmico, seu ponto de partida e seu ponto de chegada no homem. 2. Heterogeneidade28

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social. 3 a 10. O tipo mdio e a repartio das divergncias. A curva dos erros. 11 a 17. A curva da repartio dos rendimentos. 18 a 22. Circulao social. 23 a 25. Em certos limites de tempo e de espao as mudanas na forma da curva dos rendimentos foram debilitadas. 26. A parte inferior mudou mais do que a parte superior. 27 a 31. Conseqncias tericas desses fatos. 32 a 45. Relaes entre as condies econmicas e a populao. 46, 47. O esquecimento da considerao das crises econmicas pode conduzir a erros graves. 48. Teoria das correlaes. 49, 50. Efeitos do aumento da prosperidade econmica. 51 a 56. O efeito da variao da quantidade da riqueza pode ser completamente diferente do efeito dessa quantidade. Estudo desse ltimo efeito. 57 a 60. A produo dos capitais pessoais. 61. Custo de produo do homem adulto. 62 a 67. Obstculos fora geradora. Crescimento excepcional da populao no sculo XIX. 68 a 70. As subsistncias e a populao. 71 a 80. Natureza dos obstculos. Seus efeitos diretos e seus efeitos indiretos. 81 a 88. Viso subjetiva dos fenmenos dependendo do crescimento da populao. 89 a 96. Malthus e suas teorias. 97 a 101. A sociedade humana em geral. Os fatos principais que determinam seus caracteres so: a hierarquia; a ascenso das aristocracias; a seleo; a proporo mdia de riqueza ou de capitais por indivduo. 102, 103. Condies quantitativas para a utilidade da sociedade e para a utilidade dos indivduos. 104 a 115. Estabilidade e seleo. Princpio de estabilidade e princpio de mudana. 116, 117. Traduo subjetiva dos fatos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293

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CAPTULO IPrincpios Gerais

1. Entre os objetivos a que pode se propor o estudo da Economia Poltica e da Sociologia podemos indicar os trs seguintes: 1) Esse estudo pode consistir em recolher receitas teis aos particulares e s autoridades pblicas para sua atividade econmica e social. O autor ento tem simplesmente em vista essa utilidade, assim como o autor de um tratado sobre a criao de coelhos tem por objetivo simplesmente ser til aos criadores desses pequenos animais. 2) O autor pode acreditar estar de posse de uma doutrina que lhe parece excelente, que deve propiciar todo tipo de benefcios a uma nao ou mesmo ao gnero humano e se propor sua divulgao, como o faria um apstolo, a fim de tornar as pessoas felizes, ou, simplesmente, como diz a frmula consagrada, para fazer um pouco de bem. O objetivo continua a ser a utilidade, mas uma utilidade muito mais geral e menos terra a terra. Entre esses dois gneros de estudo h, de modo geral, a diferena que pode haver entre uma coleo de preceitos e um tratado de Moral. Ocorre exatamente o mesmo, apenas sob uma forma mais velada, quando o autor subentende que a doutrina por ele professada a melhor e simplesmente declara que estuda os fenmenos a fim de realizar o bem da humanidade.2 Da mesma maneira a Botnica estudaria os2 Em 1904, G. de Greef d ainda esta definio (Sociologie conomique, p. 101): A econmica parte fundamental da Cincia Social que tem por objeto o estudo e o conhecimento do funcionamento e da estrutura do sistema nutritivo das sociedades, tendo em vista sua conservao e tambm seu aperfeioamento pela reduo progressiva do esforo humano e do peso morto e pelo crescimento do efeito til, no interesse e para a felicidade comum do indivduo e da espcie organizada em sociedade. 1) De sada, estranho que o autor nos d por definio uma metfora (sistema nutritivo). 2) A econmica ocupa-se da produo dos venenos, da construo das estradas de ferro, dos tneis das estradas de ferro, dos couraados etc.? Se no, que cincia se ocupa disso? Se sim, tudo isso comido pela sociedade (sistema nutritivo)? Que apetite! 3) Esse estudo feito com uma meta prtico-humanitria (tendo em vista); portanto, a definio de uma arte e no de uma cincia. 4) As definies, ns o sabemos, no se discutem; portanto, no devem conter nenhum teorema. Nosso autor introduziu em sua definio um bocado deles.31

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vegetais visando a conhecer os que so teis ao homem, a Geometria estudaria as linhas e as superfcies visando medida das terras etc. verdade que foi assim que as cincias comearam; foram primeiro artes, mas pouco a pouco puseram-se a estudar os fenmenos independentemente de qualquer outro objetivo. 3) O autor pode se propor unicamente pesquisar as uniformidades que os fenmenos apresentam, isto , suas leis ( 4), sem visar nenhuma utilidade prtica direta, sem se preocupar de modo algum em dar receitas ou preceitos, sem mesmo buscar a felicidade, a utilidade ou o bem-estar da humanidade ou de uma de suas partes. O objetivo nesse caso exclusivamente cientfico; quer apenas conhecer, saber e basta. Devo advertir o leitor que me proponho, neste Manual, exclusivamente este ltimo objetivo. No que menospreze os outros dois; quero simplesmente distinguir, separar os mtodos e indicar aquele que ser adotado neste livro. Advirto igualmente que me esforo, tanto quanto me possvel e, sabendo o quanto isso difcil, temo no poder cumprir sempre minha meta , em empregar unicamente palavras que correspondem claramente a coisas reais bem definidas e em nunca me servir de palavras que possam influenciar o esprito do leitor. No que eu queira rebaixar ou menosprezar essa maneira de proceder, eu o repito, j que o considero, pelo contrrio, como a nica capaz de levar a persuaso a um grande nmero de indivduos e qual devemos nos ater necessariamente se objetivamos esse resultado. Mas nesta obra no busco convencer ningum; procuro simplesmente as uniformidades dos fenmenos. Aqueles que tiverem um outro objetivo encontraro facilmente uma infinidade de obras que lhes daro plena satisfao; no tm necessidade de ler esta obra. 2. Em quase todos os ramos do conhecimento humano os fenmenos foram estudados segundo os pontos de vista que acabamos de indicar; e, normalmente, a ordem cronolgica desses pontos de vista corresponde nossa enumerao; entretanto, muitas vezes, o primeiro misturado com o segundo e, em certas matrias muito prticas, o segundo nem mesmo empregado. A obra de Cato, De Re Rustica, pertence ao primeiro gnero; no prefcio, entretanto, ele se situa s vezes no segundo ponto de vista. As obras publicadas na Inglaterra no final do sculo XVIII em favor dos novos mtodos de cultivo pertencem em parte ao segundo gneroFala-nos do aperfeioamento obtido pela reduo do peso morto (os capitalistas devem fazer parte dele; assim, ei-los condenados por definio) e tambm da felicidade comum do indivduo e da espcie e destarte se desembaraa, por definio, do difcil problema que consiste em saber quando existe essa felicidade comum e quando, ao contrrio, a felicidade do indivduo ope-se felicidade da espcie, ou inversamente. Poderamos ainda fazer um bom nmero de observaes sobre essa definio, mas ficaremos por aqui.32

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e em parte ao primeiro. Os tratados de Qumica Agrcola e de outras cincias semelhantes pertencem em grande parte ao terceiro gnero. A Histria Natural de Plnio d receitas de Fsica e de Qumica; so receitas, igualmente, que encontramos nos livros de Alquimia; os trabalhos modernos sobre a Qumica pertencem, pelo contrrio, ao terceiro gnero. 3. Na maioria das obras consagradas Economia Poltica ainda se utiliza os trs mtodos, e a cincia ainda no se separou da arte. Os autores no s no se colocam clara e francamente nesse terceiro ponto de vista nos tratados de Economia Poltica, como a maioria dos autores desaprova a utilizao exclusiva desse mtodo. Adam Smith declara abertamente que a Economia Poltica, considerada como um ramo dos conhecimentos do legislador e do estadista, prope-se dois objetivos distintos: primeiro, propiciar ao povo uma renda ou uma subsistncia abundante ou, melhor dizendo, coloc-lo em condies de obter por si prprio essa renda ou essa subsistncia abundante; o segundo objetivo consiste em fornecer ao Estado ou comunidade uma renda suficiente para o servio pblico: ela se prope simultaneamente enriquecer o povo e o soberano. Isso representaria colocar-se exclusivamente em nosso primeiro ponto de vista; felizmente Smith no se submete sua definio e na maioria das vezes coloca-se em nosso terceiro ponto de vista. John Stuart Mill declara que os economistas atribuem-se a misso, quer de pesquisar, quer de ensinar a natureza da riqueza e as leis de sua produo e de sua distribuio. Essa definio pertence ao terceiro gnero; mas, muitas vezes Mill se situa no segundo ponto de vista e prega em defesa dos pobres. Paul Leroy-Beaulieu diz ter retornado ao mtodo de Adam Smith. Talvez suba mesmo mais alto: em seu Tratado atm-se na maioria das vezes ao primeiro mtodo, algumas vezes ao segundo e raramente ao terceiro. 4. As aes humanas apresentam certas uniformidades e apenas graas a essa propriedade que podem ser objeto de um estudo cientfico. Essas uniformidades tm ainda um outro nome; chamamo-las de leis. 5. Qualquer pessoa que estude uma cincia social, qualquer um que afirme algo sobre os efeitos de tal ou qual medida econmica, poltica e social, admite implicitamente a existncia dessas uniformidades, porque seno seu estudo no teria objeto, suas afirmaes seriam sem fundamento. Se no houvesse uniformidades no se poderia estabelecer, com alguma aproximao, o oramento de um Estado, de uma Comuna e nem mesmo, alis, de uma modesta sociedade industrial. Certos autores, ao mesmo tempo em que negam a existncia das33

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uniformidades (leis) econmicas, propem-se entretanto escrever a histria econmica de tal ou qual povo; mas h a uma contradio evidente. Para proceder a uma escolha entre os fatos acontecidos num momento dado e destacar os que queremos reter dos que negligenciamos, necessrio admitir a existncia de certas uniformidades. Se separamos os fatos A, B, C..., dos fatos M, N, P..., porque constatamos que os primeiros sucedem-se uniformemente, enquanto no so produzidos de uma maneira uniforme com os segundos; essa afirmao a afirmao de uma lei. Se quem descreve a semeadura do trigo no admite a existncia de uniformidades, dever destacar todas as particularidades da operao: dever nos dizer, por exemplo, se o homem que semeia tem cabelos ruivos ou negros, assim como nos diz que se semeia aps ter lavrado a terra. Por que omite o primeiro fato e leva em conta o segundo? Porque, pode-se dizer, o primeiro nada tem a ver com a germinao ou com o crescimento do trigo. Mas o mesmo que dizer que o trigo germina e cresce do mesmo modo, tenha o semeador cabelos ruivos ou negros, isto , a combinao desses dois fatos no apresenta nenhuma uniformidade. E, ao contrrio, existe uniformidade entre o fato de que a terra tenha sido lavrada ou no e o outro fato de que o trigo brote bem ou mal. 6. Quando afirmamos que A foi observado ao mesmo tempo que B, normalmente no dizemos se consideramos essa coincidncia fortuita ou no. sobre esse equvoco que se apiam aqueles que querem constituir uma Economia Poltica, negando que ela seja uma cincia. Se lhes fazemos observar que ao afirmarem que A acompanha B admitem que h nisso uma uniformidade, uma lei, respondem: simplesmente narramos o que se passou. Mas, depois de terem obtido a aceitao de sua proposio nesse sentido, empregam-na em um outro e declaram que no futuro A ser seguido por B. Ora, se, do fato de que os fenmenos econmicos ou sociais A e B estiveram unidos em certos casos no passado, tira-se a conseqncia de que estaro igualmente unidos no futuro, afirma-se com isso que manifestam uma uniformidade, uma lei; e, depois disso, ridculo querer negar a existncia de leis econmicas e sociais. Se no se admite que h uniformidades, o conhecimento do passado e do presente uma pura curiosidade e nada se pode deduzir quanto ao futuro; a leitura de um romance de cavalaria ou de Os Trs Mosqueteiros tem o mesmo valor que a leitura de Tucdides. Se, ao contrrio, pretende-se tirar do conhecimento do passado a mnima deduo referente ao futuro, porque se admite, pelo menos implicitamente, que h uniformidades. 7. Estritamente falando, no pode haver excees s leis econmicas e sociolgicas, assim como no h s outras leis cientficas. Uma uniformidade no uniforme no tem sentido.34

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Mas as leis cientficas no tm uma existncia objetiva. A imperfeio de nosso esprito no nos permite considerar os fenmenos em seu conjunto3 e somos obrigados a estud-los separadamente. Em conseqncia, em vez de uniformidades gerais, que so e sempre permanecero incgnitas, somos obrigados a considerar um nmero infinito de uniformidades parciais, que se cruzam, se superpem e se opem de mil maneiras. Quando consideramos uma dessas uniformidades e seus efeitos so modificados ou ocultados pelos efeitos de outras uniformidades, que no temos inteno de levar em conta, comumente dizemos, mas a expresso imprpria, que a uniformidade ou a lei considerada sofre excees. Se admitimos essa maneira de falar, as leis fsicas e at mesmo as leis matemticas4 comportam excees, bem como as leis econmicas.3 Um autor de muito talento, Benedetto Croce, me fez, quando da publicao da edio italiana, algumas crticas que julgo conveniente anotar aqui, no com um fito de polmica, porque esta uma coisa que em geral bastante intil, mas porque podem servir de exemplos para esclarecer teorias gerais. O autor que acabamos de citar observa: O que a imperfeio do esprito humano? Conheceramos, por acaso, um esprito perfeito, em comparao ao qual pudssemos estabelecer que o esprito humano imperfeito?. Poderamos responder que, se a utilizao do termo imperfeito somente for lcita quando pudermos, por oposio, indicar qualquer coisa do perfeito, deve-se banir do dicionrio o termo imperfeito, porque jamais encontraremos ocasio de utiliz-lo: como se diz, a perfeio no desse mundo. Mas essa resposta seria apenas formal. preciso ir ao fundo das coisas e ver o que h sob as palavras. Croce, sendo hegeliano, viu-se evidentemente agastado pelo epteto malsoante de imperfeito aplicado ao esprito humano. O esprito humano no poderia ser imperfeito, j que a nica coisa existente neste mundo. Mas, se quisermos nos dar ao trabalho de pesquisar o que exprimem os termos de nosso texto, perceberemos imediatamente que o sentido permanece absolutamente o mesmo se, em vez de dizermos: A imperfeio de nosso esprito no nos permite etc., dissssemos: A natureza de nosso esprito no nos permite etc.. Em uma discusso objetiva e no verbal , portanto, intil ater-se a esse termo: imperfeio. Mas, algum poderia nos objetar que, j que reconhecemos no ser esse termo imperfeio essencial para exprimir nosso pensamento, por que no o riscamos da traduo francesa? Dessa maneira contentaramos, a baixo custo, os admiradores do esprito humano. Isso exige algumas observaes gerais, que bom fazer de uma vez por todas. O uso da linguagem vulgar em vez da linguagem tcnica de certas cincias tem grandes inconvenientes, e o menor deles no a falta de preciso; tem tambm algumas vantagens; de tal modo que, padecendo dos primeiros, bom aproveitar-se das segundas. Entre estas encontra-se a faculdade de sugerir, por meio de uma palavra, consideraes acessrias que se fossem longamente desenvolvidas distrairiam a ateno do assunto principal que est sendo tratado. O uso feito aqui do termo imperfeio sugere que se trata de uma coisa podendo ser mais ou menos imperfeita, que varia por graus. Com efeito, os homens podem considerar uma poro mais ou menos extensa dos fenmenos; certos espritos sintticos abarcam uma parte maior que outros espritos inclinados anlise; mas todos, em qualquer caso, somente podem abarcar uma parte muito restrita do conjunto. Essas consideraes so acessrias, elas podem ser postas em uma nota; no poderiam ser inseridas no texto sem prejudicar gravemente a clareza do discurso. Suponhamos que um matemtico possa observar, ao mesmo tempo, espaos euclidianos e espaos no-euclidianos. Ele constatar que os teoremas de Geometria que dependem do postulado de Euclides no so verdadeiros para estes ltimos e, em seguida, aceitando a maneira de falar proposta no texto, dir que esses teoremas comportam excees.35

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De acordo com a lei da gravidade uma pluma lanada ao vento deveria cair em direo ao centro da terra. Muitas vezes, ao contrrio, ela se afasta desse centro, sob a influncia do vento. Poder-se-ia dizer, portanto, que a lei da gravidade comporta excees; mas esta seria uma expresso imprpria, que os fsicos no utilizam. Simplesmente estamos em presena de outros fenmenos que se superpem aos fenmenos considerados pela lei da gravidade.5 8. Uma lei ou uma uniformidade apenas verdadeira sob certas condies que precisamente nos servem para indicar quais so os fenmenos que queremos destacar do conjunto. Por exemplo, as leis qumicas que dependem da afinidade so diferentes, segundo a temperatura se mantenha dentro de certos limites ou os ultrapasse. At certa temperatura dois corpos no se combinam; alm dessa temperatura combinam-se, mas se a temperatura continua aumentando e ultrapassa certo limite, eles se dissociam. 9. Algumas dessas condies so implcitas, outras so explcitas. S se deve introduzir entre as primeiras as que so subentendidas facilmente por todos sem o mnimo equvoco; seno teramos uma charada e no um teorema cientfico. No h proposio que no se possa certificar como verdadeira sob certas condies, a serem determinadas. As condies de um fenmeno so parte integrante desse fenmeno e no podem dele ser separadas. 10. Ns no conhecemos, no podemos jamais conhecer um fenmeno concreto em todos os seus pormenores; h sempre um resduo.6 s vezes, essa constatao se faz materialmente. Por exemplo, acreditava-se que5 6 Systmes. II, p. 75 et seq. Aqui, Croce pergunta: E quem o conhecer, a no ser o homem?. Todos os crentes so ranzinzas a respeito de sua f; Croce deve ter tornado a ver aqui ( 7, nota) uma nova blasfmia contra o esprito humano. Mas, verdadeiramente, eu no tinha nenhuma m inteno desse gnero. Basta ler, mesmo muito superficialmente, este pargrafo para ver que ele simplesmente exprime que novos pormenores de um mesmo fenmeno chegam continuamente a nosso conhecimento. O exemplo do ar atmosfrico parece-me exprimi-lo claramente. Talvez Croce tenha acreditado que eu quisesse resolver incidentalmente a grave questo do mundo objetivo. Os partidrios da existncia do mundo exterior exprimir-se-o dizendo que o argnio existia antes de sua descoberta; os partidrios da existncia apenas dos conceitos humanos diro que o argnio somente existiu no dia em que foi descoberto. Devo advertir ao leitor que no pretendo de forma alguma entregar-me a esse gnero de discusses. Portanto, no se deve nunca buscar no que est escrito neste volume qualquer soluo para esses problemas, que abandono inteiramente aos metafsicos. Repetirei que apenas combato a invaso pelos metafsicos do terreno da sendo esse termo estendido a tudo o que real se permanecem fora, alm da no quero em nada lhes molestar e at mesmo admito que atingem, exclusivamente nesse domnio, resultados que so inacessveis a ns, adeptos do mtodo experimental. Finalmente, a questo do valor intrnseco de certas doutrinas no tem nada a ver com sua utilidade social. No h relao entre uma coisa e outra.36

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se conhecia completamente a composio do ar atmosfrico e um belo dia se descobre o argnio e logo em seguida, uma vez tomado esse caminho, descobre-se na atmosfera um grande nmero de outros gases. Que pode haver de mais simples que a queda de um corpo? E entretanto no conhecemos e nunca conheceremos todas as suas particularidades. 11. Da observao precedente resulta um grande nmero de conseqncias de enorme importncia. J que no conhecemos inteiramente nenhum fenmeno concreto, nossas teorias sobre esses fenmenos so apenas aproximativas. Somente conhecemos fenmenos ideais, que se aproximam mais ou menos dos fenmenos concretos. Estamos na situao de um indivduo que apenas conhecesse um objeto por meio de fotografias. Qualquer que seja a perfeio delas, sempre diferem de algum modo do prprio objeto. Portanto, no devemos nunca julgar sobre o valor de uma teoria pesquisando se ela se afasta de algum modo da realidade, j que nenhuma teoria resiste e jamais resistir a essa prova. preciso acrescentar que as teorias no passam de meios de conhecer e estudar os fenmenos. Uma teoria pode ser boa para atingir certo alvo; uma outra pode s-lo para atingir um outro; mas, de todo o modo elas devem estar de acordo com os fatos, porque seno no teriam utilidade nenhuma. preciso substituir o estudo qualitativo pelo estudo quantitativo e pesquisar em que medida a teoria afasta-se da realidade. Entre duas teorias escolheremos a que menos se afaste dela. No devemos jamais esquecer que uma teoria somente deve ser aceita temporariamente; a que consideramos verdadeira hoje, dever ser abandonada amanh, desde que se descubra uma outra que mais se aproxime da realidade. A cincia est em um perptuo vir a ser. 12. Seria absurdo fazer da existncia do Monte Branco uma objeo teoria da esfericidade da terra, porque a altura dessa montanha desprezvel em relao ao dimetro da esfera terrestre.7 13. Ao representarmos a terra como uma esfera, aproximamo-nos mais da realidade que ao figur-la como plana ou cilndrica, como alguns o fizeram na Antiguidade;8 conseqentemente, a teoria da esfericidade da terra deve ser preferida teoria da terra plana ou cilndrica.7 Plnio enganava-se em sua avaliao da altitude das montanhas dos Alpes; a propsito da observao de Dicearco, segundo o qual a altitude das montanhas desprezvel comparada grandeza da terra, disse: Mihi incerta haec videtur conjectatio, haud ignaro quosdam Alpium vertices, longo tractu, nec breviore quinquaginta millibus passuum assurgere. Hist. Mundi. II, 65. Teramos assim uma altitude de cerca de 74 mil metros, enquanto na realidade o Monte Branco s tem 4 810 metros. Anaxmenes acreditava que fosse plana; Anaximandro acreditava que fosse cilndrica.37

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Ao representarmos a terra como um elipside de revoluo, aproximamo-nos mais da realidade que ao figur-la esfrica. Portanto, til que a teoria do elipside tenha substitudo a da esfera.9 Entretanto, mesmo essa teoria do elipside deve ser hoje abandonada, porque a moderna geodsia nos ensina que a forma do esferide terrestre muito mais complexa. A cada dia novos estudos nos aproximam cada vez mais da realidade. Entretanto, para certos clculos aproximativos, servimo-nos ainda da forma do elipside. Assim fazendo, cometemos um erro, mas sabemos que menor que outros aos quais esses estudos esto sujeitos e ento, para simplificar os clculos, podemos negligenciar as diferenas existentes entre o elipside e o esferide terrestre. 14. Essa maneira de se aproximar da realidade por meio de teorias que cada vez mais concordam com ela e que em seguida, geralmente, tornam-se mais e mais complexas o que se chama mtodo das aproximaes sucessivas; servimo-nos dele, implcita ou explicitamente, em todas as cincias ( 30, nota). 15. Outra conseqncia. falso acreditar que se possa descobrir exatamente as propriedades dos fatos concretos raciocinando com as idias que fazemos a priori desses fatos, sem modificar esses conceitos ao comparar a posteriori essas conseqncias com os fatos. Esse erro anlogo ao erro que cometeria um agricultor que imaginasse poder julgar a convenincia de comprar uma propriedade conhecida por ele apenas por meio de fotografia. A noo que temos de um fenmeno concreto concorda em parte com esse fenmeno e dele difere em outros aspectos. A igualdade que existe entre as noes de dois fenmenos no tem como conseqncia a igualdade dos prprios fenmenos. evidente que um fenmeno qualquer somente pode ser conhecido mediante a noo que faz nascer em ns; mas, exatamente porque dessa forma apenas chegamos a uma imagem imperfeita da realidade, sempre precisamos comparar o fenmeno subjetivo, isto , a teoria, com o fenmeno objetivo, isto , o fato experimental. 16. Alis, as noes que temos dos fenmenos, sem qualquer verificao experimental, formam os materiais que mais facilmente se9 Tannery, falando sobre o postulado da esfericidade da terra, diz: Entretanto, relativamente a sua parte objetiva, tinha o valor de uma primeira aproximao, assim como para ns a hiptese do elipside de revoluo constitui uma segunda aproximao. A grande diferena consiste em que, como conseqncia de medidas e observaes realizadas em diferentes pontos do globo, podemos estabelecer limites aos desvios entre essa aproximao e a realidade, enquanto os antigos no o podiam fazer de maneira sria. TANNERY, Paul. Recherches sur lHistoire de lAstronomie Ancienne. p. 106.38

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acham nossa disposio, j que existem em ns, e ocasionalmente pode-se tirar alguma coisa desses materiais. Da resulta que os homens, sobretudo nos primrdios de uma cincia, tm uma tendncia irresistvel a raciocinar sobre as noes que j possuem dos fatos, sem se preocupar em retificar essas noes por meio de pesquisas experimentais. Do mesmo modo, tambm querem encontrar na etimologia as propriedades das coisas expressas pelas palavras. Fazem experincias com os nomes dos fatos em vez de fazer experincias com os prprios fatos. Pode-se at mesmo descobrir certas verdades dessa forma, mas apenas quando a cincia est em seus primrdios; quando est um pouco desenvolvida, esse mtodo torna-se absolutamente vo e preciso, para adquirir noes que se aproximem sempre mais dos fatos, estud-los diretamente e no mais observando-os atravs de certas noes a priori ou atravs do significado das palavras que servem para design-los. 17. Todas as cincias naturais chegaram agora ao ponto no qual os fatos so estudados diretamente. Tambm a Economia Poltica chegou a esse ponto, pelo menos em grande parte. Apenas nas outras cincias sociais que ainda h quem se obstine em raciocinar sobre palavras;10 no entanto, preciso desembaraar-se desse mtodo, se quisermos que as cincias progridam.10 Croce observa: Como se o prprio Manual de Pareto no fosse um tecido de concepes e de palavras! O homem pensa por meio de concepes e as exprime por meio de palavras!. Eis uma outra crtica verbal, como as que j anotamos ( 7, nota; 10, nota). evidente que jamais pensamos em negar que toda obra um tecido de concepes e de palavras; mas quisemos distinguir as palavras sob as quais apenas h sonhos das palavras sob as quais h realidades. Agora, se algum metafsico ficar chocado com o termo realidades, somente posso aconselh-lo a no continuar a leitura deste livro. Advirto-o se que j no percebeu que falamos duas lnguas diferentes, de tal forma que nenhum de ns dois compreende o que o outro fala. Por minha parte creio ser suficientemente claro ao dizer que preciso distinguir um lus de ouro de um lus de ouro imaginrio; e se algum afirmasse que no h diferena, eu lhe proporia uma simples troca: dar-lhe-ia luses de ouro imaginrios e ele me entregaria luses reais. Finalmente, deixando de lado qualquer discusso sobre a maneira de nomear as coisas, h vrios tipos de tecidos de concepes e de palavras. H um tipo utilizado pelos metafsicos, do qual tento me afastar tanto quanto possvel; h um outro tipo que encontrado nas obras que tratam das cincias fsicas e que o tipo do qual me esforarei por aproximar-me ao tratar de Cincias Sociais. Hegel diz: O cristal tpico o diamante, esse produto da terra vista do qual o olho se alegra porque v nele o primeiro filho da luz e da gravidade. A luz a identidade abstrata e completamente livre. O ar a identidade dos elementos. A identidade subordinada uma identidade passiva para a luz e nisso reside a transparncia do cristal. (Essa traduo no me pertence, ela de um hegeliano clebre: VERA, A. Philosophie de la Nature. II, p. 21.) Essa explicao da transparncia pode ser excelente, mas confesso humildemente que nada entendo dela, e este um modelo que me preocupo bastante em no imitar. A demonstrao dada por Hegel das leis da mecnica celeste (Systmes. II, p. 72) me parece o cmulo do absurdo, enquanto entendo perfeitamente livros como: Novos Mtodos da Mecnica Celeste, de H. Poincar. Quando o autor diz: O objetivo final da mecnica celeste resolver esta grande questo de saber se a lei de Newton explica por si s todos os fenmenos astronmicos; o nico meio de se chegar a isso fazer observaes to precisas39

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18. Outra conseqncia. O mtodo de raciocnio, que poderamos denominar por eliminao e que ainda freqentemente empregado nas cincias sociais, inexato. Eis em que consiste. Um fenmeno concreto X tem certa propriedade Z. De acordo com o que j sabemos, esse fenmeno compe-se das partes A, B, C. Demonstra-se que Z no pertence nem a B nem a C e conclui-se que deve necessariamente pertencer a A. A concluso inexata porque a enumerao das partes de X nunca e nunca pode ser completa. Alm de A, B, C, que conhecemos ou que o autor do raciocnio conhece apenas ou que apenas considera pode haver outras D, E, F..., que ignoramos ou que o autor do raciocnio negligenciou.11 19. Outra conseqncia. Quando os resultados da teoria passam para a prtica, podemos estar certos de que sero sempre mais ou menos modificados por outros resultados, que dependem de fenmenos no considerados pela teoria. 20. Desse ponto de vista h duas grandes classes de cincias: as cincias que, como a Fsica, a Qumica, a Mecnica, podem recorrer experincia e as que, como a Meteorologia, a Astronomia, a Economia Poltica, no podem ou apenas dificilmente podem recorrer experincia e que devem se contentar com a observao. As primeiras podem separar materialmente os fenmenos que correspondem uniformidade ou lei que querem estudar, as segundas s podem separ-los mentalmente, teoricamente; mas, tanto em um caso como no outro, sempre o fenmeno concreto que decide se uma teoria deve ser aceita ou rejeitada. No h, no pode haver, outro critrio sobre a verdade de uma teoria que no seja sua concordncia mais ou menos perfeita com os fenmenos concretos. Quando falamos do mtodo experimental, exprimimo-nos de uma maneira elptica e compreendemos o mtodo que utiliza quer a experincia, quer a observao, quer as duas juntas, se isso for possvel. As cincias que somente podem utilizar a observao separam pela abstrao certos fenmenos de outros; as cincias que podem igualmente servir-se da experincia realizam materialmente essa abstrao; mas a abstrao constitui para todas as cincias a condio preliminar e indispensvel de toda pesquisa.quanto possvel, comparando-as, a seguir, aos resultados dos clculos (I, p. 1), encontro um conglomerado de concepes e palavras completamente diferente do que encontrei em Hegel, Plato e outros autores semelhantes; e meu objetivo , justamente, fazer, para as Cincias Sociais, observaes to precisas quanto possvel, comparando-as, a seguir, aos resultados das teorias. Um autor deve advertir seus leitores do caminho que ele quer seguir; e foi precisamente com esse objetivo que escrevi este primeiro captulo. Systmes. II, p. 252.40

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21. Essa abstrao decorre de necessidades subjetivas, no tem nada de objetivo; ela , pois, arbitrria, pelo menos dentro de certos limites, porque se tem que levar em conta a meta qual deve servir. Em conseqncia, certa abstrao ou certa classificao no excluem necessariamente uma outra abstrao ou uma outra classificao. Todas as duas podem ser utilizadas, segundo a meta a que se proponha. Quando a Mecnica Racional reduz os corpos a simples pontos materiais, quando a Economia Pura reduz os homens reais ao homo oeconomicus, servem-se de abstraes perfeitamente semelhantes12 e impostas por necessidades semelhantes. Quando a Qumica fala de corpos quimicamente puros, utiliza igualmente uma abstrao, mas tem a possibilidade de obter artificialmente corpos reais que realizam mais ou menos essa abstrao. 22. A abstrao pode revestir duas formas que so exatamente equivalentes. Na primeira, considera-se um ser abstrato que possui apenas as qualidades que se quer estudar; na segunda, essas propriedades so diretamente consideradas e separadas das outras. 23. O homem real executa aes econmicas, morais, religiosas, estticas etc. Exprime-se exatamente a mesma idia, quando se diz: estudo as aes econmicas e fao abstrao das outras, ou: estudo o homo oeconomicus, que apenas executa aes econmicas. Igualmente, exprime-se a mesma idia sob as duas seguintes formas: estudo as reaes do enxofre e do oxignio concretos, fazendo abstraes dos corpos estranhos que possam conter, ou: estudo as relaes entre o enxofre e o oxignio quimicamente puros. Esse mesmo corpo que considero como quimicamente puro tendo em vista um estudo qumico, posso consider-lo como um ponto material tendo em vista um estudo mecnico; posso considerar apenas sua forma, tendo em vista um estudo geomtrico etc. O mesmo homem que considero como homo oeconomicus para um estudo econmico, posso consider-lo como homo ethicus para um estudo moral, como homo religiosus para um estudo religioso etc. O corpo concreto compreende o corpo qumico, o corpo mecnico, o corpo geomtrico etc.; o homem real compreende o homo oeconomicus, o homo ethicus, o homo religiosus etc. Em suma, considerar esses diferentes corpos, esses diferentes homens, corresponde a considerar as diferentes propriedades desse corpo real, desse homem real e visa apenas a cortar em fatias a matria que deve ser estudada. 24. Erra-se, pois, redondamente quando se acusa quem estuda12 VOLTERA, Vito. Giornale degli Economisti. Novembro de 1901.41

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as aes econmicas ou o homo oeconomicus de negligenciar ou mesmo de desdenhar as aes morais, religiosas etc. isto , o homo ethicus, o homo religiosus etc. ; seria a mesma coisa que dizer que a geometria negligencia, desdenha as propriedades qumicas dos corpos, suas propriedades fsicas etc. Comete-se o mesmo erro quando se acusa a Economia Poltica de no levar em conta a moral, como se acusssemos uma teoria sobre o jogo de xadrez de no levar em conta a arte culinria. 25. Ao estudar A separadamente de B, submetemo-nos implicitamente a uma necessidade absoluta do esprito humano; mas com o estudo de A no se quer de modo algum afirmar sua preeminncia sobre B. Separando-se o estudo da Economia Poltica do estudo da moral no se quer de modo algum afirmar que o primeiro tem mais importncia que o segundo. Ao se escrever um tratado sobre o jogo de xadrez no se quer de modo algum afirmar com isso a preeminncia do jogo de xadrez sobre a arte culinria, ou sobre qualquer outra cincia ou sobre qualquer outra arte. 26. Quando se volta do abstrato ao concreto preciso de novo reunir as partes que, para serem melhor estudadas, foram separadas. A cincia essencialmente analtica; a prtica essencialmente sinttica. A Economia Poltica no tem que levar em conta a moral; mas quem preconiza uma medida prtica deve levar em conta, no apenas as conseqncias econmicas, mas tambm as conseqncias morais, religiosas, polticas etc. A Mecnica Racional no tem que levar em conta as propriedades qumicas dos corpos; mas quem quiser prever o que se passar quando um dado corpo for posto em contato com um outro corpo, dever levar em conta, no apenas os resultados da Mecnica, mas tambm os da Qumica, da Fsica etc. 27. Para certos fenmenos concretos o lado econmico predomina sobre todos os outros; poder-se--ento, sem erro grave, considerar apenas as conseqncias da cincia econmica. H outros fenmenos concretos nos quais o lado econmico insignificante; seria absurdo considerar para estes apenas as conseqncias da cincia econmica; pelo contrrio, ser preciso menosprez-las. H fenmenos intermedirios entre esses dois tipos; a cincia econmica nos far conhecer um lado mais ou menos importante deles. Em todos os casos, uma questo de grau, de mais ou de menos. Pode-se dizer em outros termos: s vezes as aes do homem concreto so, salvo erro ligeiro, as do homo oeconomicus; s vezes elas concordam quase exatamente com as do homo ethicus; s vezes concordam com as do homo religiosus etc.; outras vezes ainda elas participam das aes de todos esses homens.42

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28. Quando um autor se esquece dessa observao, costumamos, para combat-lo, colocar em oposio a teoria e a prtica. uma maneira imperfeita de nos exprimir. A prtica no se ope teoria, mas rene as diferentes teorias aplicadas ao caso considerado, servindo-se disso para uma finalidade concreta. O economista, por exemplo, que preconiza uma lei levando em considerao apenas seus efeitos econmicos, no s no muito terico como no o bastante, j que negligencia outras teorias que deveria reunir sua para produzir um julgamento sobre esse caso prtico. Quem preconiza o livre-cmbio atentando apenas para seus efeitos econmicos, no faz uma teoria inexata do comrcio internacional, mas faz uma aplicao inexata de uma teoria intrinsecamente verdadeira; seu erro consiste em negligenciar outros efeitos polticos e sociais, que formam o objeto de outras teorias.13 29. Distinguir as diferentes partes de um fenmeno para estud-las separadamente e em seguida reuni-las novamente para obter uma sntese um procedimento que somente se pratica e somente se pode praticar quando a cincia j est muito avanada; no incio, estudamos ao mesmo tempo todas as partes, a anlise e a sntese esto confundidas. Esta uma das razes pelas quais as cincias nascem primeiro sob a forma de arte e tambm uma das razes pelas quais as cincias, medida que progridem, se separam e se subdividem. 30. Sorel, em sua Introduo Economia Moderna, prope o retorno a esse estado da cincia, no qual no se distingue a anlise da sntese, e sua tentativa se explica se considerarmos o estado pouco avanado das cincias sociais; mas isso subir o rio em direo fonte e no desc-lo, seguindo-se a corrente. Alis, preciso observar que assim, implicitamente, se faz teoria. Com efeito, Sorel no se prope apenas descrever o passado, ele quer igualmente conhecer o futuro; mas, como j o mostramos, o futuro somente pode ser ligado ao passado se certas uniformidades so admitidas, implcita ou explicitamente, e somente podemos conhecer essas uniformidades procedendo a uma anlise cientfica.1413 G. Sorel tem em parte razo quando diz: O homem de Estado ser comumente muito pouco sensvel demonstrao onde se prove que o protecionismo sempre destri a riqueza, se ele acredita que o protecionismo o meio menos custoso para aclimatar a indstria e o esprito da empresa em seu pas. (...). (Introduction lconomie Moderne. p. 26.) preciso substituir essa comparao qualitativa por uma quantitativa e dizer perderei tantos milhes por ano e ganharei tanto, e decidir-se em seguida. Se chegssemos a destruir assim 500 milhes de riqueza por ano, para ganhar apenas 100, teramos feito um mau negcio. Observo ainda que Sorel coloca o problema apenas do ponto de vista econmico, e que h um lado social e poltico muito importante que precisa ser levado em considerao.43

OS ECONOMISTAS

31. A crtica essencialmente negativa de uma teoria perfeitamente v e estril; para que tenha alguma utilidade preciso que a negao seja seguida de uma afirmao, que se substitua a teoria falsa por uma teoria mais exata. Se algumas vezes as coisas no se passam assim, simplesmente porque a teoria mais exata est presente ao esprito, ainda que subentendida. Se algum nega que a terra tem a forma de um plano, em nada aumenta a soma de nossos conhecimentos, como o faria se declarasse que a terra no tem a forma de um plano, mas a de um corpo redondo. Observemos, alis, que se quisermos ser perfeitamente rigorosos, toda teoria falsa, no sentido de que no corresponde e jamais poder corresponder realidade ( 11). Portanto, um pleonasmo repetir para uma teoria particular aquilo que verdadeiro para todas as teorias. No somos obrigados a escolher entre uma teoria mais ou menos aproximada e uma teoria que corresponde em tudo e por tudo ao concreto, j que no existe tal teoria, mas sim entre duas teorias, das quais uma se aproxima menos e outra mais do concreto. 32. No apenas devido nossa ignorncia que as teorias se afastam mais ou menos do concreto. Muitas vezes afastamo-nos do concreto a fim de chegar, como compensao desse desvio, a uma maior simplicidade. As dificuldades com que deparamos no estudo de um fenmeno so de dois gneros, isto , objetivas; dependem da natureza do fenmeno e das dificuldades que temos em perceber um conjunto um pouco mais amplo de objetos ou de teorias particulares.14 Sorel diz (op. cit., p. 25): No se poderia (...) imaginar um mtodo de aproximaes sucessivas para resolver a questo de saber se compensa mais desposar uma jovem inteligente e pobre ou uma rica herdeira desprovida de esprito. Observemos, primeiramente, que o problema que se coloca de interesse privado, sendo normalmente resolvido pelo sentimento e no pela razo. Entretanto, se queremos utilizar a razo, pode-se imaginar perfeitamente o mtodo que se poderia seguir. 1 aproximao. Far-se- o exame das condies materiais e morais dos futuros esposos. O homem, por exemplo, valoriza mais os bens materiais que as faculdades intelectuais. Ele ter razes para desposar a rica herdeira. 2 aproximao. Examinemos mais de perto as qualidades dessa riqueza. Antigamente, se o homem e a mulher possussem propriedades territoriais prximas, um casamento que reunisse essas propriedades era considerado muito vantajoso. Vejamos se a mulher, sendo rica, no teria, por acaso, o hbito de gastar mais do que sua renda. Qual a natureza da inteligncia daquela que pobre? Se ela possui aptides para o comrcio, e se o futuro marido est testa de um comrcio ou indstria que no capaz de dirigir e que a mulher poderia dirigir bem, ser-lhe-ia vantajoso ficar com a mulher pobre e inteligente. 3 aproximao. Falamos da riqueza e da inteligncia; no seria porm necessrio considerar a sade, a beleza, a docilidade do carter etc.? Para muitos essas qualidades tomariam o primeiro lugar. E ainda nos falta considerar um nmero infinito de circunstncias. Se o problema fosse social, em vez de ser individual, isto , se perguntssemos se seria til para um povo que os jovens escolhessem suas companheiras preocupando-se com sua riqueza ou sua inteligncia, chegaramos a consideraes anlogas, que se compem de anlise (separao das partes), aproximaes sucessivas e, finalmente, de snteses, isto , da reunio dos elementos anteriormente separados.44

PARETO

O fenmeno econmico excessivamente complexo e h grandes dificuldades objetivas em conhecer as teorias de suas diferentes partes. Suponhamos por um momento que vencemos essas dificuldades e que, por exemplo, em certos grossos volumes in-flio estejam contidas as leis dos preos de todas as mercadorias. Estaremos longe de ter uma idia do fenmeno do preo. A prpria abundncia de informaes que encontramos em todos esses volumes no nos permitiria ter qualquer noo do fenmeno dos preos. O dia em que alguma pessoa, depois de ter folheado todos esses documentos, dissesse-nos que a demanda cai quando o preo sobe, nos daria uma indicao muito preciosa, ainda que mais afastada, muito mais afastada do concreto que os documentos estudados por ela. Tambm o economista, como alis todos os que estudam fenmenos muito complexos, deve a cada instante resolver o problema de saber at que ponto conveniente prosseguir o estudo dos pormenores. No se pode determinar de uma maneira absoluta o ponto onde vantajoso parar; esse ponto depende da meta a que se prope. O produtor de tijolos que quer saber a qual preo poder vend-los, deve levar em conta outros elementos que no os considerados pelo sbio que pesquisa, genericamente, a lei dos preos dos materiais de construo; outros elementos so os que, igualmente, deve levar em considerao quem pesquisa no mais a lei dos preos especficos, mas a lei dos preos em geral. 33. O estudo da origem dos f