Metodologia Do Treino Desportivo

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Índice das matériasPrefácioParte I - Conceitos do treino desportivo 11. O treino e a treinabilidade 61.1. Preparação desportiva precoce 71.2. A especialização precoce 82. A carga e a cargabilidade 92.1. A natureza da carga 92.1.1. Cargas de treino ou de competição 92.1.2. Cargas específicas e não específicas 102.1.3. Cargas em função da época desportiva 102.2. A grandeza da carga 102.2.1. Externos 102.2.2. Internos 102.3. A orientação da carga 112.3.1. Selectiva 112.3.2. Complexa 123. A adaptação e a capacidade de rendimento 133.1. Adaptação rápida 133.2. Adaptação a longo termo 144. A fadiga e a recuperação 154.1. Fadiga evidente 154.2. Fadiga latente 155. O estado de treino e o estado de preparação 16Parte II - Factores do rendimento desportivo 171. Os factores do rendimento desportivo (Matvéiev) 211.1. As capacidades individuais e o seu grau de preparação 211.2. A amplitude do movimento desportivo e as condições sociais 221.3. A eficiência do sistema de treino 222. O modelo teórico de Claude Bouchard 232.1. O sub-grupo das determinantes invariáveis da performance 242.1.1. Contributo da hereditariedade nas estruturas morfológicas 252.1.2. Contributo da hereditariedade nas estruturas orgânicas 252.1.3. Contributo da hereditariedade nas estruturas perceptivas 252.1.4. Contributo da hereditariedade no plano das características psicológicas 252.2. O subgrupo das determinantes variáveis da performance 262.2.1. A eficácia técnica 262.2.2. A influência da inteligência táctico-estratégica 262.2.3. A condição física geral 272.2.4. A condição física específica 272.2.5. Nível de preparação psicológica 272.2.6. A influência do meio social 282.2.7. Conjunto de factores complementares 282.2.8. O repouso, a relaxação, a recreação e os tempos livres 282.3. O subgrupo dos factores da organização e do controlo associado à performance 29VI • Metodologia do treino desportivo I !2.3.1. O sistema organizativo que programa e controla o treino 292.3.2. O dossier de treino e o dossier do atleta 292.3.3. O exame médico geral preventivo ou correlativo do praticante 292.3.4. Avaliação das condicionantes variáveis gerais 302.3.5. Avaliação das condicionantes variáveis específicas 302.3.6. A acção do pessoal técnico e dos especialistas 30Parte III - O exercício de treino desportivo 31Capítulo 1 - Os fundamentos do exercício de treino 331. O processo de treino como vertente fundamental do rendimento desportivo 371.1. O exercício como elemento determinante do processo de treino 371.2. A relação metodológica entre treino e exercício 382. Definição de exercício de treino 393. Caracterização do exercício de treino 393.1. Especificidade 403.1.1. Exercícios específicos determinam respostas biológicas específicas 403.1.2. A base operacional do exercício e a lógica da modalidade desportiva 403.1.3. A dimensão transfer 413.2. Identidade 423.2.1. A dimensão isomórfica e analógica da identidade do exercício 423.2.2. As implicações da inadequação do grau identidade do exercício 434. A natureza do exercício de treino 444.1. O recurso informacional 464.1.1. Definição do termo informação 464.1.2. As fases do tratamento da informação 474.1.3. Os limites do recurso informacional 474.2. O recurso energético 494.2.1. As reacções para a produção de energia 494.2.2. Os limites do recurso energético 504.2.3. As vias de produção energética 504.2.3.1. O processo anaeróbio aláctico 514.2.3.2. O processo anaeróbio láctico 514.2.3.3. O processo aeróbio 524.2.4. As relações entre o custo energético e o gesto motor 524.3. O recurso afectivo 525. A estrutura do exercício de treino 545.1. O objectivo 545.2. O conteúdo 555.3. A Forma 555.4. O nível de performance 566. As componentes estruturais do exercício de treino 576.1. No plano fisiológico 576.1.1. A duração 596.1.2. O volume 606.1.3. A Intensidade 606.1.

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universidade técnica de lisboa FACULDADE DE MOTRICIDADE HUMANA

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DO DESPORTO

METODOLOGIA DO

TREINO DESPORTIVO

Textos de apoio (exclusivamente para uso interno)

Jorge Castelo, Hermínio Barreto, Francisco Alves, Pedro Mil-Homens,

João Carvalho, Jorge Vieira

Ciências do Desporto

Edições FMH

Page 3: Metodologia Do Treino Desportivo

II • Metodologia do treino desportivo I !

Ficha técnica

Page 4: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • III

Prefácio

O trabalho que agora se publica deriva de um esforço conjunto, coordenado

pelo Prof. Jorge Castelo, no âmbito da disciplina de Metodologia do Treino da

Licenciatura em Educação Física e Desporto Escolar. Até agora, ainda não

tinha havido capacidade para realizar tal desiderato no âmbito da Cadeira, pelo

que este facto, representa, antes de tudo, um acréscimo da capacidade

organizativa e de intervenção das pessoas que nela intervêm. O que se espera é

que trabalhos desta qualidade e volume possam, também, ser desenvolvidos

por outras disciplinas.

Não podemos ainda de deixar de referir que nesta obra, para além de terem

colaborado diversos professores da FMH, dá-se a circunstância de nela terem

também participado professores externos à FMH que aqui trabalham em

termos pontuais. É um esforço de cooperação entre a FMH - Departamento de

Ciências do Desporto e o Sistema Desportivo que nos apraz referenciar. Na

realidade, todos sabemos que é da conjugação de esforços, entre as diversas

entidades que interagem no Sistema Desportivo, que podem ser dados passos

significativos na procura da qualidade e da excelência.

Finalmente, gostaríamos de concluir referindo que esta obra para além de

satisfazer as necessidades internas do curso, ela poderá, também, ser de grande

utilidade no âmbito do Sistema Desportivo. O conhecimento não é desta ou

daquela pessoa, deste ou daquele organismo ou até sistema. O conhecimento é

um bem universal que deve ser comungado e partilhado por todos, em prol do

desenvolvimento humano. Estão pois de parabéns todos aqueles que

participaram nesta publicação. O futuro vai ser necessariamente diferente

daquele que seria caso não o tivessem feito.

Parabéns

Gustavo Pires

Presidente do Departamento de Ciências do Desporto

Page 5: Metodologia Do Treino Desportivo

IV • Metodologia do treino desportivo I !

Resumo do conteúdo programático da disciplina de Metodologia do Treino I

Conceitos do treino desportivo Parte I

Parte IIFactores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Fundamentos doexercício de treino

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Parte III

Parte IV Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Parte V

Parte VI

Parte VII

Estudo sobrea forca

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O treinadorperfil e competências

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Organigrama 1

Page 6: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • V

Índice das matérias

Prefácio Parte I - Conceitos do treino desportivo 1

1. O treino e a treinabilidade 6 1.1. Preparação desportiva precoce 7 1.2. A especialização precoce 8

2. A carga e a cargabilidade 9 2.1. A natureza da carga 9

2.1.1. Cargas de treino ou de competição 9 2.1.2. Cargas específicas e não específicas 10 2.1.3. Cargas em função da época desportiva 10

2.2. A grandeza da carga 10 2.2.1. Externos 10 2.2.2. Internos 10

2.3. A orientação da carga 11 2.3.1. Selectiva 11 2.3.2. Complexa 12

3. A adaptação e a capacidade de rendimento 13 3.1. Adaptação rápida 13 3.2. Adaptação a longo termo 14

4. A fadiga e a recuperação 15 4.1. Fadiga evidente 15 4.2. Fadiga latente 15

5. O estado de treino e o estado de preparação 16

Parte II - Factores do rendimento desportivo 17 1. Os factores do rendimento desportivo (Matvéiev) 21

1.1. As capacidades individuais e o seu grau de preparação 21 1.2. A amplitude do movimento desportivo e as condições sociais 22 1.3. A eficiência do sistema de treino 22

2. O modelo teórico de Claude Bouchard 23 2.1. O sub-grupo das determinantes invariáveis da performance 24

2.1.1. Contributo da hereditariedade nas estruturas morfológicas 25 2.1.2. Contributo da hereditariedade nas estruturas orgânicas 25 2.1.3. Contributo da hereditariedade nas estruturas perceptivas 25 2.1.4. Contributo da hereditariedade no plano das características psicológicas 25

2.2. O subgrupo das determinantes variáveis da performance 26 2.2.1. A eficácia técnica 26 2.2.2. A influência da inteligência táctico-estratégica 26 2.2.3. A condição física geral 27 2.2.4. A condição física específica 27 2.2.5. Nível de preparação psicológica 27 2.2.6. A influência do meio social 28 2.2.7. Conjunto de factores complementares 28 2.2.8. O repouso, a relaxação, a recreação e os tempos livres 28

2.3. O subgrupo dos factores da organização e do controlo associado à performance 29

Page 7: Metodologia Do Treino Desportivo

VI • Metodologia do treino desportivo I !

2.3.1. O sistema organizativo que programa e controla o treino 29 2.3.2. O dossier de treino e o dossier do atleta 29 2.3.3. O exame médico geral preventivo ou correlativo do praticante 29 2.3.4. Avaliação das condicionantes variáveis gerais 30 2.3.5. Avaliação das condicionantes variáveis específicas 30 2.3.6. A acção do pessoal técnico e dos especialistas 30

Parte III - O exercício de treino desportivo 31

Capítulo 1 - Os fundamentos do exercício de treino 33 1. O processo de treino como vertente fundamental do rendimento desportivo 37

1.1. O exercício como elemento determinante do processo de treino 37 1.2. A relação metodológica entre treino e exercício 38

2. Definição de exercício de treino 39 3. Caracterização do exercício de treino 39

3.1. Especificidade 40 3.1.1. Exercícios específicos determinam respostas biológicas específicas 40 3.1.2. A base operacional do exercício e a lógica da modalidade desportiva 40 3.1.3. A dimensão transfer 41

3.2. Identidade 42 3.2.1. A dimensão isomórfica e analógica da identidade do exercício 42 3.2.2. As implicações da inadequação do grau identidade do exercício 43

4. A natureza do exercício de treino 44 4.1. O recurso informacional 46

4.1.1. Definição do termo informação 46 4.1.2. As fases do tratamento da informação 47 4.1.3. Os limites do recurso informacional 47

4.2. O recurso energético 49 4.2.1. As reacções para a produção de energia 49 4.2.2. Os limites do recurso energético 50 4.2.3. As vias de produção energética 50

4.2.3.1. O processo anaeróbio aláctico 51 4.2.3.2. O processo anaeróbio láctico 51 4.2.3.3. O processo aeróbio 52

4.2.4. As relações entre o custo energético e o gesto motor 52 4.3. O recurso afectivo 52

5. A estrutura do exercício de treino 54 5.1. O objectivo 54 5.2. O conteúdo 55 5.3. A Forma 55 5.4. O nível de performance 56

6. As componentes estruturais do exercício de treino 57 6.1. No plano fisiológico 57

6.1.1. A duração 59 6.1.2. O volume 60 6.1.3. A Intensidade 60

6.1.3.1. As relações entre a intensidade e o volume 61 6.1.4. A Densidade 62 6.1.5. A Frequência 64

6.2. No plano técnico-táctico 64 6.2.1. O número 64

Page 8: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • VII

6.2.2. O espaço 65 6.2.3. O tempo 66 6.2.4. A Complexidade 67

6.2.4.1. No domínio da velocidade de execução 68 6.2.4.2. No domínio do esforço 69

7. A classificação dos exercícios de treino 69 7.1. O factor de treino predominante no conteúdo do exercício 70

7.1.1. Exercícios técnicos 70 7.1.2. Exercícios tácticos 70 7.1.3. Exercícios físicos 70

7.2. Em função do grau de identidade do exercício 72 7.2.1. Exercícios de competição 72 7.2.2. Exercícios especiais 73 7.2.3. Exercícios gerais 74

8. Orientações e tendências dos exercícios de treino 76 8.1. Aumento do volume de treino utilizando exercícios de carácter geral e especial 77 8.2. Maior utilização dos exercícios de treino de carácter específico 77 8.3. Adequação dos exercícios de treino à realidade competitiva. Indivisibilidade dos factores de treino 77

8.3.1. A objectividade 78 8.3.2. A modelação 78

8.4. Estabelecimento das bases científicas dos exercícios de treino 80

Capítulo 2 - Bases conceptuais para a construção dos exercícios de treino 81 1. As relações entre a interpretação da natureza da modalidade e os exercícios de treino 85

1.1. As perspectivas associativistas 86 1.2. As perspectivas da forma 89 1.3. As perspectivas estruturalistas 91

1.1.3. O modelo 92 1.1.3.1. os modelos técnico-tácticos 93 1.1.3.2. o modelo de esforço 93 1.1.3.3. o modelo de ambiente 93 1.1.3.4. o modelo integrativo 94

Capítulo 3 - Bases de aplicação dos exercícios de treino 95 1. Os princípios biológicos 99

1.1. Princípio da sobrecarga 99 1.2. Princípio da especificidade 101 1.3. Princípio da reversibilidade 103 1.4. Princípio da heterocronia 104

2. Os princípios metodológicos 105 2.1. Princípio da relação óptima entre o exercício e o repouso 106

2.1.1. A determinação do exercício óptimo 107 2.1.2. A determinação do momento óptimo de aplicação de um novo exercício 108

2.2. Princípio da continuidade da aplicação do exercício de treino 111 2.3. Princípio da progressividade do exercício de treino 112 2.4. Princípio da ciclicidade do exercício de treino 115 2.5. Princípio da individualização do exercício de treino 116 2.6. Princípio da multilateralidade 116

Page 9: Metodologia Do Treino Desportivo

VIII • Metodologia do treino desportivo I !

2.6.1. A inseparabilidade da preparação geral e da preparação especial 117 2.6.2. O intercondicionalismo do conteúdo da preparação geral e especial 117 2.6.3. A incompatibilidade da preparação geral e especial 118

3. Os princípios pedagógicos 119 3.1. Princípio da actividade consciente 119 3.2. Princípio da sistematização 119 3.3. Princípio da actividade apreensível 120 3.4. Princípio da estabilidade e desenvolvimento das capacidades do praticante 120

Capítulo 4 - Bases de eficácia dos exercícios de treino 121 1. Preocupação de unidade do exercício de treino 125

1.1. Unidade da actividade 125 1.2. Unidade do praticante 125 1.3. Unidade da equipa 126

2. Seleccionar correctamente o exercício de treino 126 2.1. Fazer correlacionar a lógica interna da modalidade com o exercício de treino 127 2.2. Ajustar os níveis de complexidade e dificuldade à capacidade dos praticantes 128

3. Repetição sistemática do exercício de treino 131 3.1. Repetir para consolidar os elementos críticos do exercício de treino 131

4. Corrigir correctamente o exercício de treino 132 4.1. Aspectos chave para a correcção do exercício de treino 132

5. Motivar correctamente para o exercício de treino 134 5.1. Aspectos chave para a motivação no exercício de treino 135

Parte IV - Os factores do treino desportivo 137

Capítulo 1 - Estudo sobre o factor técnico desportivo 139 1. Definição de técnica desportiva 143 2. Objectivos do treino técnico-desportivo 143

2.1. Aquisição de um conjunto de aptidões técnico-desportivas 143 2.2. Aperfeiçoamento e desenvolvimento das aptidões técnico-desportivas 144

3. A importância da técnica nas diferentes modalidades desportivas 144 3.1. As modalidades de força explosiva 144 3.2. As modalidades de resistência 145 3.3. As modalidades de exactidão 145 3.4. As modalidades de estrutura complexa 145

4. Relações entre o factor técnico e o factor táctico desportivo 146 5. As diferentes fases do processo de aprendizagem da técnica desportiva 146

5.1. Fase de generalização ou de coordenação global do movimento 148 5.1.1. A compreensão da tarefa motora 148 5.1.2. A coordenação motora global 149

5.2. Fase de concentração ou da etapa da coordenação fina 150 5.2.1. Melhoramento do programa motor 151 5.2.2. Diminuição da energia necessária para a sua execução 152 5.2.3. Aumento da velocidade, precisão e melhoramento do timing de execução 152 5.2.4. Melhoramento da capacidade antecipativa 153 5.2.5. Aumento da confiança do praticante/jogador em si próprio 153

5.3. Fase de automatização ou da estabilização e aplicação variável do movimento 154

Page 10: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • IX

5.3.1. A evolução técnica desportiva e a sua relação com as modalidades mono e poliestruturais 155

6. Os diferentes aspectos metodológicos do processo de aprendizagem da técnica 157 6.1. Introdução do gesto técnico-desportivo 159

6.1.1. Atrair a atenção de todos os praticantes 159 6.1.2. Posicionamento do grupo de praticantes 160 6.1.3. A adopção de um nome terminologicamente correcto do gesto 160

6.2. A explicação verbal do gesto técnico-desportivo 160 6.2.1. Ser pouco rico em pormenores 161 6.2.2. Objectivar um estado mental positivo 161 6.2.3. Relacioná-la com aprendizagens anteriores 161

6.3. A exemplificação/demonstração do gesto técnico 162 6.3.1. Execução correcta do gesto técnico 162 6.3.2. Correcta velocidade de execução 163 6.3.3. Ritmo de execução apropriado 163 6.3.4. Optar por uma execução completa ou parcial 163 6.3.5. Estabelecer um número de exemplificações/demonstrações 164 6.3.6. Evidenciar um conjunto restrito de instruções-chave 164

6.4. A prática do gesto técnico-desportivo 165 6.4.1. A prática global do gesto técnico-desportivo ou "por partes" 166 6.4.2. A formação de um rítmo-padrão de execução do gesto técnico-desportivo 168 6.4.3. A regulação da velocidade de execução do gesto técnico desportivo 169

6.5. A correcção do gesto técnico-desportivo 169 6.5.1. Profundo conhecimento do gesto técnico desportivo 170 6.5.2. Estabelecer objectivos realistas do gesto técnico desportivo 171 6.5.3. Hierarquizar os erros observados no gesto técnico desportivo 171 6.5.4. A atitude do treinador na correcção do gesto técnico desportivo 172 6.5.5. Aspectos metodológicos a introduzir quando se verifica a consolidação do gesto técnico desportivo com erros 174

6.6. A repetição do gesto técnico-desportivo 175 6.6.1. A estabilização das aptidões técnico-desportivas 176

6.6.1.1. Criação de condições favoráveis 176 6.6.1.2. Exercitar o gesto técnico-desportivo isento de erros 177 6.6.1.3. Não confundir estabilidade com estereótipos rotineiros 178 6.6.1.4. Aproximação gradual aos valores-padrão 178

6.6.2. A diversidade de aptidões técnico-desportivas 178 6.6.2.1. Variação rigorosamente dirigida 180 6.6.2.2. Variação livremente dirigida 180

6.6.3. A segurança das aptidões técnico-desportivas 181 6.6.3.1. Adaptação das aptidões técnicas às condições máximas de manifestação das qualidades físicas no treino 182 6.6.3.2. Modelação de situações psiquicamente tensas e introdução de dificuldades adicionais 182 6.6.3.3. A prática competitiva 183

7. Planeamento da preparação técnico-desportiva 184 7.1. Durante o processo plurianual e anual 184

7.1.1. A fase da preparação técnica de base 184 7.1.2. A fase de aperfeiçoamento técnico 185

7.1.2.1. Primeira fase 185 7.1.2.2. Segunda fase 185 7.1.2.3. Terceira fase 186

Page 11: Metodologia Do Treino Desportivo

X • Metodologia do treino desportivo I !

7.2. O treino técnico durante o microciclo 187 7.3. O treino da técnica desportiva na unidade de treino 188

Capítulo 2 - Estudo sobre o factor táctico desportivo 189 1. Definição de comportamento táctico desportivo 194 2. Objectivo do comportamento táctico desportivo 194 3. A natureza do comportamento táctico desportivo 195

3.1. Ser orientado exigindo a participação da consciência 195 3.2. Exprime um pensamento produtor 196

4. Frequência de ocorrência do comportamento táctico desportivo 197 5. Características do comportamento táctico desportivo 197

5.1. Fluidez 197 5.2. Adaptabilidade 197 5.3. Originalidade 198 5.4. Reestruturação 198 5.5. Antecipação 198 5.6. Execução 198

6. Elementos que influenciam o comportamento táctico desportivo 199 6.1. As características básicas das situações competitivas 199 6.2. A qualidade de observação por parte do atleta/jogador 200 6.3. Os fundamentos reais dos conhecimentos e das experiências dos jogadores 200 6.4. A memória 201 6.5. Solução associativa dos problemas tácticos 201 6.6. A rapidez do atleta/jogador a reconhecer as invariantes da situação competitiva 202 6.7. Os factores emotivo-psicológicos 203

7. As fases do comportamento táctico desportivo 203 7.1. A percepção e análise da situação 206

7.1.1. A percepção do envolvimento 207 7.1.1.1. Definição de percepção 207 7.1.1.2. A percepção como investigação activa do envolvimento 208 7.1.1.3. A estratégia perceptiva 209 7.1.1.4. A atenção selectiva 211 7.1.1.5. Os orgãos da visão 212

7.1.2. Os cálculos óptico-motores 213 7.1.2.1. A antecipação 214

7.1.3. As experiências e os conhecimentos tácticos 218 7.1.3.1. O transfer 220

7.2. A solução mental do problema 221 7.2.1. Os automatismos 223 7.2.2. As acções sensório-motoras 225 7.2.3. A forma superior do acto táctico 226

7.2.3.1. Valor interno 228 7.2.3.2. O valor externo 229

7.3. A solução táctica e as respostas técnicas 231 7.3.1. Um exemplo elucidativo 232

Page 12: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • XI

8. As diferentes fases do processo de aprendizagem da táctica desportiva 235 8.1. 1ª. Fase: aprendizagem e aperfeiçoamento das habilidades motoras inerentes à modalidade desportiva 236

8.1.1. Aprendizagem dos elementos técnicos desportivos 236 8.1.2. Consolidação dos elementos técnicos desportivos 237

8.2. 2ª. Fase: aprendizagem, estabilização e aperfeiçoamento das acções técnico-tácticas determinadas pelas situações competitivas 238 8.3. 3ª. Fase: desenvolvimento, estabilização e aperfeiçoamento da capacidade competitiva global 239

8.3.1. Situações competitivas em treino sob condições facilitadas 239 8.3.2. Situações competitivas em treino sob condições próximas da competição 240 8.3.3. Situações competitivas em treino sob condições mais difíceis do que as colocadas pela realidade competitiva 241

8.4. 4ª. Fase: utilização e aperfeiçoamento da capacidade competitiva global em competições oficiais 241

9. Princípios metodológicos da formação táctica desportiva 242

9.1. Princípio da sistematização 244 9.2. Princípio do carácter alternativo 244 9.3. Princípio da formação táctica elementar e da formação táctica complexa 246 9.4. Princípio da formação táctica individual e da formação táctica colectiva 247 9.5. Princípio da unidade da formação táctica teórica e da formação táctica prática 248 9.6. Princípio da síntese óptima indutiva e da dedutiva 249

Capítulo 3 - Estudo sobre o factor físico desportivo 251 Secção A - Estudo sobre a força muscular 251

1. Definição 251 2. Factores condicionantes da capacidade de produção de força 251

2.1. Factores nervosos 258 2.1.1. Factores nervosos Centrais 259

2.1.1.1. O recrutamento das Unidades Motoras 259 2.1.1.2. A frequência de activação das unidades motoras 260 2.1.1.3. A sincronização das unidades motoras 261

2.1.2. Factores Nervosos Periféricos 262 2.1.2.1. Fuso neuromuscular (FNM) 262 2.1.2.2. Orgão Tendinoso de Golgi (OTG) 264 2.1.2.3. Receptores articulares (RA) 264

2.1.3. Consequências metodológicas para o treino da força, decorrentes dos factores nervosos 265

2.1.3.1. A coordenação intra e inter-muscular 265 2.1.3.2. A activação nervosa e as características da dinâmica da carga 266

2.2. Factores musculares 267 2.2.1. Fisiológicos e bioquímicos 267

2.2.1.1. Área da secção transversal do músculo 267 2.2.1.2. Tipos de fibras musculares 270

2.2.1.2.1. A modificação da percentagem relativa do tipo de fibras no músculo 272

2.2.1.3. Consequências metodológicas decorrentes dos factores musculares 273

Page 13: Metodologia Do Treino Desportivo

XII • Metodologia do treino desportivo I !

2.2.2. Mecânicos (contracção muscular) 273 2.2.2.1. Tipos de contracção muscular 273 2.2.2.2. Relação força-alongamento 275 2.2.2.3. Relação força-velocidade 276

2.3.3. Factores biomecânicos 277 2.3.3.1. A alavanca muscular 278 2.3.3.2. A alavanca da resistência exterior 280 2.3.3.3. Tipos de resistências exteriores 282

2.3.3.3.1. Resistências constantes 282 2.3.3.3.2. Resistências variáveis-progressivas 283 2.3.3.3.3. Resistências variáveis-acomodativas 284 2.3.3.3.4. Resistênciasa isocinéticas 285 2.3.3.3.5. A utilização dos diferentes tipos de resistências-equipamentos 287

3. Componentes e formas de manifestação da força muscular 289 3.1. Força Máxima 289

3.1.1. Definição 289 3.1.2. As componentes da força máxima 289 3.1.3. A força absoluta, relativa e limite 294 3.1.4. A relação da força máxima com as outras manifestações de força 295

3.2. Força Rápida 296

3.2.1. Definição 296 3.2.2. As componentes da força rápida 296 3.2.3. As relações entre Força Máxima e Força Rápida 301

3.3. Força de Resistência 302 4. Os Métodos de Treino 304

4.1. Os Métodos da Hipertrofia Muscular 305 4.1.1. Método da carga constante 307 4.1.2. Método da carga progressiva 307 4.1.3. Método do culturismo (extensivo) 307 4.1.4. Método do culturismo (intensivo) 307 4.1.5. Método isocinético 308

4.2. Os Métodos da Taxa de Produção de Força 311 4.2.1. Método quase máximo 313 4.2.2. Método concêntrico máximo 313 4.2.3. Método excêntrico máximo 313 4.2.4. Método concêntrico excêntrico máximo 314

4.3. Os Métodos Mistos 317 4.4. Os Métodos Reactivos 318

4.4.1. Saltos sem progressão 320 4.4.1. Saltos com progressão 320 4.4.1. Saltos em profundidade 321 4.4.1. Exercícios para tronco e braços 322

Secção B - Estudo sobre a resistência 323 1. Definição de resistência 327 2. Objectivos da resistência 327 3. Factores determinantes da resistência 328

3.1. O sistema nervoso central 328 3.2. Capacidade volitiva 328 3.3. Adaptações aeróbias e anaeróbias 329

Page 14: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • XIII

4. Formas de manifestação da resistência 329 4.1. Quanto à participação do sistema muscular 329

4.1.1. Geral 329 4.1.2. Local 330

4.2. Quanto ao regime de contracção muscular 330 4.2.1. Estática 331 4.2.2. Dinâmica 331

4.3. Quanto à solicitação metabólica 331 4.3.1. Resistência aeróbia 331 4.3.2. Resistência anaeróbia 332

4.4. Tendo como referência a situação de competição 332 4.4.1. Geral ou de Base 332

4.4.1.1. Resistência de Base I 333 4.4.1.2. Resistência de Base II 334 4.4.1.3. Resistência de Base Acíclica 334

4.4.2. Resistência Específica 335 4.4.2.1. Resistência de Curta Duração 336 4.4.2.2. Resistência de Média Duração 336 4.4.2.3. Resistência de Longa Duração 337

4.4.2.3.1. Resistência de Longa Duração I 337 4.4.2.3.2. Resistência de Longa Duração II 337 4.4.2.3.3. Resistência de Longa Duração III 338

5. Métodos de treino da resistência 339

5.1. Método contínuo 339 5.1.1. Método contínuo uniforme 339

5.1.1.1. Método contínuo uniforme extensivo 340 5.1.1.2. Método contínuo uniforme intensivo 340

5.1.2. Método contínuo variado 342 5.2. Método por intervalos 343

5.2.1. Pausa incompleta - Treino intervalado 343 5.2.2. Pausa completa - Treino de repetições 349

5.3. Método de competição ou controlo 350 6. Métodos intervalados versus métodos contínuos 351

Secção C - Estudo sobre a velocidade 353 1. A velocidade como capacidade elementar 358 2. Definição 359 3. Em que modalidades desportivas se manifesta a velocidade 360 4. Formas básicas de estruturação da velocidade 362

4.1. Velocidade de reacção 362 4.2. Velocidade de execução 363 4.3. Capacidade (velocidade) de aceleração 364 4.4. A velocidade máxima 365 4.5. A velocidade resistente 365

5. Factores de que depende a velocidade 366 5.1. Velocidade de propagação dos impulsos nervosos 367 5.2. Elevada quantidade de fibras de contracção rápida 368 5.3. Capacidade de recrutar um número elevado de fibras musculares 368 5.4. Capacidade de alternância de contracção e descontracção musculares 369 5.5. A mobilização da vontade 370

Page 15: Metodologia Do Treino Desportivo

XIV • Metodologia do treino desportivo I !

5.6. Eficiência dos mecanismos bioquímicos 370 5.7. A qualidade técnica 371 5.8. Nível de mobilidade articular 372

6. Conceitos fundamentais no treino da velocidade 372 6.1. Programa temporal 373

6.1.1. Movimentos acíclicos 374 6.1.1.1. Programa temporal de curta duração 374 6.1.1.2. Programa temporal de longa duração 374

6.1.2. Movimentos cíclicos 375 6.2. transferência dos programas temporais 377

7. Orientaçõesmetodológicas para o treino da velocidade 379 7.1. Treino da velocidade elementar 380

7.1.1. Velocidade acíclica elementar 380 7.1.2. Velocidade cíclica elementar 382

7.1.2.1. Intensidade e volume no treino da velocidade elementar 383 7.1.2.2. Recomendações metodológicas 384

7.2. Treino da velocidade complexa 387 7.2.1. Nos jogos desportivos colectivos e nos jogos de combate 389 7.2.2. Recomendações metodológicas 391

7.3. O treino da velocidade de reacção 394 7.4. Treino das capacidades de velocidade no sprint 396

7.4.1. Capacidade de aceleração 396 7.4.2. Velocidade máxima 398 7.4.3. Velocidade resistente 400

Secção D - Estudo sobre a flexibilidade 405 1. Definição 409 2. Importância da flexibilidade 410

2.1. União entre o corpo, a mente e o espírito 410 2.2. Relaxação da tensão e do stress 410 2.3. Relaxação muscular 411 2.4. Auto-disciplina 411 2.5. Forma física, postura e simetria 411 2.6. Dores na região lombo-sagrada 412 2.7. Alívio da dor muscular 412 2.8. Melhoria da capacidade de execução 412 2.9. Prevenção de lesões 413

3. Potenciais desvantagens do treino da flexibilidade 414 4. Tipos de flexibilidade (classificação) 415

4.1. A flexibilidade estática e dinâmica 415 4.2. A flexibilidade activa e passiva 415 4.3. A flexibilidade geral e específica 416

5. Principais factores que condicionam a flexibilidade 416 5.1. Ósteo-articular 416

5.1.1. Superfícies articulares 416 5.1.2. Cartilagens, cápsulas e ligamentos 417 5.1.3. Cápsulas e ligamentos 417 5.1.4. Consequências metodológicas 417

5.2. Muscular (estrutura muscular) 418 5.2.1. a extensibilidade 418

Page 16: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • XV

5.2.2. A elasticidade 419 5.2.3. Consequências metodológicas 419

5.3. Neuromuscular 420 5.3.1. Fusos neuromusculares 420 5.3.2. Os orgãos tendinosos de Golgi 420 5.3.3. Receptores articulares 421 5.3.4. Consequências metodológicas 421

5.4. Outros factores que influenciam a flexibilidade 421 5.4.1. A idade 421 5.4.2. Sexo 422 5.4.3. Factores externos 423 5.4.4. A temperatura muscular 423 5.4.5. A fadiga 423 5.4.6. Estados emotivos 423

6. Métodos e conteúdos do treino da flexibilidade 424 6.1. Métodos dinâmico e estático 425

6.1.1. Argumentos que suportam o método dinâmico 425 6.1.2. Argumentos contra o método dinâmico 426 6.1.3. Argumentos que suportam o método estático 426 6.1.4. Argumentos contra o método estático 427

6.2. Outras formas de classificação 427 6.2.1. Estiramento passivo 427 6.2.2. Estiramento passivo-activo 428 6.2.3. Estiramento activo-assistido 429 6.2.4. Estiramento activo 429

6.3. Método de facilitação neuromuscular proprioceptiva (PNF) 431

6.3.1. Bases fisiológicas do método PNF 431 6.3.1.1. Vantagens do método PNF 433 6.3.1.2. Desvantagens e argumentos contra o método PNF 433

6.3.2. Técnicas de PNF 434 6.3.2.1. Contracções repetidas 434 6.3.2.2. Ritmo de iniciação 434 6.3.2.3. Lenta inversão 435 6.3.2.4. Lenta inversão-manter 435 6.3.2.5. Estabilização do ritmo 435 6.3.2.6. Contracção-relaxamento 435 6.3.2.7. Manter-relaxar 436 6.3.2.8. Lenta inversão-manter-relaxar 436 6.3.2.9. Inversão agonistica 437

7. Princípios metodológicos do treino da flexibilidade 437

Parte V - O planeamento do treino desportivo 439 1. Conceito de planeamento 442 2. A natureza do planeamento 443 3. Objectivos do planeamento 444 4. A importância do planeamento 444 5. Os níveis de planeamento 445

Page 17: Metodologia Do Treino Desportivo

XVI • Metodologia do treino desportivo I !

Capítulo 1 - O planeamento conceptual 447 1. Conceito de planeamento conceptual 451 2. Natureza do planeamento conceptual 451 3. Objectivos do planeamento conceptual 452 4. Etapas do planeamento conceptual 453

4.1. Descrição e análise da situação 454 4.1.1. O subsistema cultural 454 4.1.2. O subsistema estrutural 454 4.1.3. O subsistema metodológico 455 4.1.4. O subsistema relacional 455 4.1.5. O subsistema técnico-táctico 456 4.1.6. O subsistema táctico-estratégico 456 4.1.7. Avaliação da época desportiva anterior 456

4.2. Descrição do modelo no futuro 457 4.2.1. Definição de modelo 458 4.2.2. A natureza do modelo 458 4.2.3. Objectivos do modelo 459 4.2.4. Bases para a construção do modelo 459

4.2.4.1. O responsável pela construção do modelo 460 4.2.4.2. O factor referencial do modelo 461 4.2.4.3. As regras fundamentais do modelo 461 4.2.4.4. Tendências evolutivas do modelo 463

4.2.5. Determinação dos objectivos da próxima época desportiva 464 4.3. Elaboração de programas de acção 464

4.3.1. Reproduzir o modelo 465 4.3.2. Controlar o processo de evolução individual e colectiva 465 4.3.3. Definir realisticamente objectivos intermédios 466

Capítulo 2 - O planeamento estratégico 467 1. Conceito de planeamento estratégico 471 2. Natureza do planeamento estratégico 471 3. Objectivos do planeamento estratégico 472 4. Meios (condicionantes favoráveis) do planeamento estratégico 472

4.1. Gerais 472 4.2. Específicos 473

5. Princípios de orientação do planeamento estratégico 474 6. Limites do planeamento estratégico 474 7. Etapas do planeamento estratégico 475

7.1. Recolha dos dados 476 7.1.1. As particularidades dos outros factores de treino 476 7.1.2. A qualidade dos adversários 477 7.1.3. A qualidade do treinador adversário 477

7.2. Comparação das forças 479 7.3. Elaboração do plano táctico-estratégico 479

7.3.1. A orientação geral do jogo colectivo 480 7.3.2. A adaptação dos métodos de jogo da equipa em função das particularidades da expressão táctica adversária 481

Page 18: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • XVII

7.3.3. Planear acções tácticas diferentes de forma a surpreender o adversário 481 7.3.4. Constituição da equipa 483 7.3.5. Distribuição das missões tácticas 485

7.4. Reunião de reconhecimento do(s) adversário(s) 486 7.4.1. Importância da reunião 486 7.4.2. Os meios da reunião 486 7.4.3. Os princípios da reunião 486

7.5. Elaboração do programa de preparação para o ciclo de treino 487 7.5.1. Número, duração, gradação, e objectivos fundamentais das sessões de treino para o ciclo de preparação 487 7.5.2. A construção dos exercícios de treino para o ciclo de preparação 488

7.6. Experimentação do plano táctico-estratégico 488 7.7. A preparação nas horas que antecedem a competição 489

7.7.1. A concentração para a competição 489 7.7.2. O último treino antes da competição 489 7.7.3. Reunião de preparação para a competição 490

7.7.3.1. Importância da reunião 490 7.7.3.2. Objectivos da reunião 490 7.7.3.3. Os meios da reunião 491 7.7.3.4. Os princípios da reunião 492

7.7.3.4.1. Gerais 492 7.7.3.4.2. Específicos 493

7.7.3.5. Metodologia da reunião 493 7.7.3.5.1. Organizativos 494 7.7.3.5.2. Táctico-estratégicos 494

7.7.4. Aquecimento para a competição 496 7.7.4.1. Objectivos do aquecimento 496 7.7.4.2. Efeitos do aquecimento 497 7.7.4.3. Aspectos metodológicos do aquecimento 498

7.7.5. O regresso à calma 498 7.8. Reunião de análise da competição 499

7.8.1. Importância da reunião 499 7.8.2. Objectivos da reunião 499 7.8.3. Os meios da reunião 500 7.8.3. Os princípios da reunião 501

Capítulo 3 - O planeamento táctico 503 1. Conceito de planeamento táctico 507 2. Natureza do planeamento táctico 507

2.1. Concepção unitária para o desenrolar da competição 507 2.2. Inseparabilidade da acção técnica das intenções tácticas 508 2.3. Maximização e valorização das particularidades dos praticantes/jogadores 508 2.4. Confrontação das expressões tácticas quando em confronto directo 508 2.5. Carácter aplicativo e operativo da planeamento táctico 509

3. Objectivo do planeamento táctico 509 4. Meios do planeamento táctico 509

4.1. Os praticantes/jogadores 509 4.2. O treinador 510

5. Limites do planeamento táctico 510 6. O responsável pela direcção do planeamento táctico 511 7. Etapas do planeamento táctico 511

7.1. Direcção durante a competição 512

Page 19: Metodologia Do Treino Desportivo

XVIII • Metodologia do treino desportivo I !

7.1.1. A sucessão, o momento, e as circunstâncias do resultado da competição 513 7.1.2. As lesões que sucedem durante a competição 514 7.1.3. As substituições 514 7.1.4. Os descontos de tempo 518 7.1.5. A acção do juiz da partida 519 7.1.6. Os adversários 520

7.2. Direcção durante o intervalo da competição 520 7.2.1. Relaxar/tranquilizar 520 7.2.2. Vigilância médica 521 7.2.3. Preparação para a segunda parte 521

7.3. Acções a ter em conta logo após o terminus da competição 522

Parte VI - A estrutura do processo de treino 523

Capítulo 1 - A microestrutura do treino desportivo 525 1. Os tipos de sessões (unidades) de treino 529

1.1. Sessões de treino para conhecer o(s) praticante(s) ou a equipa 529 1.2. Sessões de treino de aprendizagem 530 1.3. Sessões de treino de repetição 530 1.4. Sessões de treino de controlo (verificação) 531 1.5. Sessões de treino mistos 532

2. A forma da sessão de treino 532 2.1. Em grupo 532 2.2. Individualmente 533 2.3. Mistas 533 2.4. Livres 533

3. A duração da sessão de treino 534 4. A estrutura da sessão de treino 534

4.1. Parte de introdução da sessão de treino 535 4.2. Parte preparatória da sessão de treino 536 4.3. Parte principal da sessão de treino 536 4.4. Parte final da sessão de treino 537

5. A elaboração da sessão de treino 537

Capítulo 2 - A mesoestrutura do processo de treino 539 1. Constituição do microciclo 543 2. Duração do microciclo 543 3. Parâmetros metodológicos para a construção dos microciclos 543 4. Critérios para a construção dos microciclos 545 5. Classificação dos microciclos 546

5.1. Os microciclos graduais 546 5.2. Os microciclos de choque 547 5.3. Os microciclos de aproximação 547 5.4. Os microciclos de recuperação 547 5.5. Os microciclos de competição 547

6. A estrutura dos microciclos 548

Page 20: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • XIX

Capítulo 3 - A macroestrutura do processo de treino 549 1. Constituição do macrociclo 553 2. Duração do macrociclo 553 3. Estrutura do macrociclo 553 4. A macroestrutura do treino desportivo e a periodização 554

4.1. A forma desportiva 555 4.1.1. As fases da forma desportiva 555

4.1.1.1. A fase de aquisição 556 4.1.1.2. A fase de estabilização 556 4.1.1.3. A fase da perda temporária 556

4.2. Razões da periodização do treino desportivo 557 4.3. Duração da forma desportiva 558 4.4. As fases da forma desportiva e os períodos de treino 559

5. Classificação das macroestruturas de treino 560 5.1. Periodização simples 560 5.2. Periodização dupla 561 5.3. Periodização tripla 562

6. Diferentes modelos de periodização do treino 563 6.1. O modelo proposto por Matveiev 563 6.2. O modelo pendular 565 6.3. O modelo por "saltos" 566 6.4. O modelo por "blocos" 566 6.5. O modelo proposto por Tschiene 567 6.6. O modelo proposto por Bondartchouk 568

Parte VII - A periodização do treino desportivo 569

Capítulo 1 - O período preparatório 571 1. Objectivos do período preparatório 575 2. A duração do período preparatório 575 3. A divisão do período preparatório 576

3.1. A etapa de preparação geral 576 3.1.1. Dinâmica da carga de treino 577

3.2. A etapa de preparação específica 579 3.2.1. Dinâmica das cargas 580 3.2.2. A correlação entre a preparação geral e específica 581 3.2.3. As competições no período preparatório 581

Capítulo 2 - O Período Competitivo 583 1. Objectivos do período competitivo 587 2. A duração do período preparatório 588 3. A dinâmica das cargas de treino 588 4. As competições no período competitivo 589

4.1. As competições preparatórias 590 4.2. As competições principais 591

Capítulo 3 - O Período de Transição 593 1. Duração do período transitório 597

Page 21: Metodologia Do Treino Desportivo

XX • Metodologia do treino desportivo I !

2. Objectivos do período transitório 598 3. Variantes do período transitório 598

3.1. Transição passiva 599 3.2. Transição activa 599

4. Dinâmica da carga de treino 600

Parte VIII - O controlo do treino desportivo 601 1. Os limites do controlo do treino 605 2. Formas de controlo do treino 605

2.1. O controlo por etapa 606 2.2. O controlo corrente 607 2.3. O controlo operacional 607

Parte IX - O treinador desportivo 609 1. Estatuto e função do treinador desportivo 613 2. A autoridade do treinador desportivo 614 3. Diferentes estilos de liderança do treinador desportivo 614

3.1. Estilo na base da imposição da ordem e da disciplina 614 3.2. Estilo na base das relações afectivas 615 3.3. Estilo na base na participação 615 3.4. Os estilos de liderança e a especificidade da situação 616 3.5. A gestão de problemas/conflitos 619

4. Atributos caracteriais da personalidade do treinador 621 4.1. Ser um líder 621 4.2. Aptidão para criar um grupo ou equipa 622 4.3. Ter imaginação 623 4.4. Afastamento ou aproximação 623 4.5. Espírito combativo 624 4.6. Sentido de humor 624 4.7. Ser firme - mente forte 625 4.8. Serenidade e dignidade 626 4.9. Independência, decisão e coragem 626 4.10. Ter entusiasmo 627 4.11. Saber reagir face ao resultado 627

5. Competências do treinador desportivo 629 5.1. Competência técnico-desportiva 629

5.1.1. Técnico especializado 629 5.1.2. Saber comunicar 630

5.1.2.1. Credibilidade 630 5.1.2.2. Aproximação positiva 631 5.1.2.3. Comunicar com coerência 633

5.1.3. Saber ouvir 633 5.1.3.1. Aprender a ouvir 634 5.1.3.2. Ouvinte activo 635 5.1.3.3. A comunicação não verbal 635

5.2. Competência táctico-estratégica 636 5.2.1. Dimensão conceptual 637

5.2.1.1. Descrição e análise da situação 637 5.2.1.2. O responsável pela construção do modelo 638

Page 22: Metodologia Do Treino Desportivo

Índice • XXI

5.2.1.3. Elaboração de programas de acção 639 5.2.2. Dimensão estratégica 640

5.2.3.1. Recolha de dados e a elaboração de planos 640 A/ Recolha de dados 640 B/ Elaboração do programa de preparação para o ciclo de treino 640 C/ Elaboração do plano táctico-estratégico 640

5.2.3.2. Orientação e constituição da equipa 641 A/ A orientação geral do jogo colectivo 641 B/ Constituição da equipa 641 C/ Distribuição das missões tácticas 642

5.2.3.3. Reuniões com a equipa 642 A/ Reunião de reconhecimento do adversário 642 B/ Reuniões de preparação para a competição 643 C/ Reuniões de análise da competição 644

5.2.4. Dimensão táctica 644 5.2.4.1. Direcção durante a competição 645

A/ As substituições 645 B/ Os descontos de tempo 646

5.2.4.2. Direcção durante o intervalo da competição 646 5.2.4.3. Direcção logo após o terminus da competição 647

Page 23: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE I

CONCEITOS DO TREINO DESPORTIVO

Resp: Jorge Castelo

Page 24: Metodologia Do Treino Desportivo

2 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo da Parte I

Nesta 1ª Parte incidiremos o nosso esforço de reflexão sobre um

conjunto de conceitos do treino desportivo por forma a objectivar dois

aspectos fundamentais: i) por um lado, contribuir para a sua

clarificação e, ii) por outro, estabelecer um código referencial por forma

que o leitor valorize homogénea e relevantemente os diferentes

significados nela implícitos.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Page 25: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 3

Organigrama 2

Parte I

Conceitos do treino desportivo

Sumário

1. O treino e a treinabilidade

1.1. Preparação desportiva precoce

1.2. A especialização precoce

2. A carga e a cargabilidade

2.1. A natureza da carga

2.1.1. Cargas de treino ou de competição

2.1.2. Cargas específicas ou não específicas

2.1.3. Cargas em função da época desportiva

2.2. A grandeza da carga

2.2.1. Externo

2.2.2. Interno

2.3. A orientação da carga

2.3.1. Selectiva

2.3.2. Complexa

3. A adaptação e a capacidade de rendimento

3.1. Adaptação rápida

3.2. Adaptação a longo termo

4. A fadiga e a recuperação

4.1. Fadiga evidente

4.2 Fadiga latente

5. O estado de treino e o estado de preparação

Page 26: Metodologia Do Treino Desportivo

4 • Metodologia do treino desportivo I !

Bibliografia:

BOMPA, T. (1990) - Theory and methodology of training. York University,

Toronto

CARVALHO, A., (1985) Organização e condução do processo de treino I,

Revista horizonte, Vol.I, nº4, Nov/Dez 1984, pp 111-114, Vol I, nº5, Jan/Fev

MARQUES, A., (1991) A especialização precoce na preparação desportiva,

Revista treino desportivo, IIº série, nº19, Março

MATVEYEV, L., (1986), Fundamentos do Treino Desportivo, Livros

Horizonte, Lisboa

PLATONOV, V., (1988) L' Entrâinement Sportif: Théorie et Méthodologie,

Ed. E.P.S., Paris

WEINECK, J., (1983), Manuel d' Entrâinement, Ed. Vigot, Paris

Sector de formação da DGD, O conceito do treino desportivo, Revista treino

desportivo, nº1, pp. 3-6

ZATSIORSKY, V., (1966) Les qualités physiques du sportif, Moscovo, Doc

INS nº685

Page 27: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 5

A noção de "treino", é empregue nas mais variadas áreas, abrangendo um

processo que, através de exercícios, visa a atingir um nível mais elevado na

área do objectivo previsto.

O treino desportivo liga-se indissoluvelmente ao fenómeno desportivo e é

condição essencial ao cumprimento de uma das facetas definidoras deste

fenómeno: a superação. De facto, universalmente o treino desportivo tem como

um dos seus objectivos obter um rendimento desportivo máximo.

A preparação de um praticante ou de uma equipa para a competição desportiva

pretende conseguir que estes sejam capazes de resolver as situações que

enfrentam durante a competição, procurando obter a vitória através:

do domínio das acções técnicas e dos comportamentos tácticos de uma

determinada modalidade;

da adaptação do organismo aos esforços intensos solicitados pela

competição; e,

da habituação progressiva dos praticantes às exigências psico-emocionais

da competição.

O treino desportivo procura pois, estabelecer pelos seus efeitos, uma adaptação

do(s) praticante(s) às condições que lhe são impostas pela competição, de

modo assegurar:

• uma eficiência máxima;

• com um dispêndio mínimo de energia; e

• uma recuperação rápida.

Se bem que a problemática profunda do treino desportivo se vincule

prioritariamente à prática desportiva de alta e média competição não podemos

desligá-los da prática desportiva de carácter recreativo e de manutenção. Os

Page 28: Metodologia Do Treino Desportivo

6 • Metodologia do treino desportivo I !

princípios e os aspectos assinalados no conceito de treino desportivo mantêm-

se válidos só variando a sua latitude de aplicação e os limites dos seus

objectivos.

Seguidamente iremos desenvolver cinco conceitos fundamentais e

"tradicionais" do treino desportivo: o treino e a treinabilidade, a carga e a

cargabilidade, a adaptação e a capacidade de rendimento, a fadiga e a

recuperação, o estado de treino e o estado de preparação.

1. O treino e a treinabilidade

O treino é um processo pedagógico que visa desenvolver as capacidades

técnicas, tácticas, físicas e psicológicas do(s) praticante(s) e das equipas no

quadro específico das situações competitivas através da prática sistemática e

planificada do exercício, orientada por princípios e regras devidamente

fundamentadas no conhecimento científico. Aumenta os limites de adaptação

do indivíduo ou grupo de indivíduos com a finalidade de atingir com o máximo

de rendimento e sob um regime de economia de esforço e de resistência à

fadiga, um resultado pré-estabelecido de acordo com uma previsão anterior.

A treinabilidade exprime o grau de adaptabilidade e de modificação positiva do

estado informacional, funcional e afectivo do(s) praticante(s) como resultado

dos efeitos dos exercícios de treino. Trata-se de uma medida dinâmica que

depende de uma série de factores. Na infância ou na adolescência, as fases

chamadas "sensitivas" são muito importantes para a treinabilidade. Isto

significa a existência de períodos de desenvolvimento particularmente

favoráveis ao treino de determinados factores da "performance" motora

desportiva, isto é, a treinabilidade é particularmente elevada nesse período

(Hirtz, 1976, Winter, 1980). Todavia, a discussão em torno da exacta

ocorrência dessas fases não está ainda esgotada. O não aproveitamento dessas

fases "sensitivas" pode resultar em que factores de "performance", que a um

Page 29: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 7

dado momento e com um estímulo conveniente acusariam taxas elevadas de

melhoria, já não podem ser atingidos a não ser mediante um esforço

desproporcional despendido no treino.

1.1. Preparação desportiva precoce

Uma questão que está intimamente ligada à treinabilidade é o problema da

especialização precoce do treino da criança e do jovem. Como é do

conhecimento comum, a preocupação generalizada de todas as modalidades

desportivas é de iniciarem o processo de formação e preparação dos seus

praticantes cada vez mais cedo, isto é, em idades jovens. Neste sentido,

entende-se a preparação desportiva como "um processo permanente que

começa cedo na vida da criança e acaba tarde numa fase avançada na vida

do indivíduo" (Marques, 1991). Com efeito, embora a preparação/formação

dos jovens comece cedo, é realizada através de cargas de treino de carácter

multilateral que não visam a obtenção de elevados níveis de rendimento

relativos, mas preocupam-se fundamentalmente com a formação global e

integrada dos jovens praticantes.

Page 30: Metodologia Do Treino Desportivo

8 • Metodologia do treino desportivo I !

Capacidade de

aprendizagem motora

Capacidade de diferenciação

e controlo

6 7 8 9 10 11 12 13 14 15

Capacidade de reacção

óptica e auditiva

Capacidade de orientação

espacial

Capacidade de ritmo

Capacidade de equilíbrio

Resistência

Força

Velocidade

Flexibilidade

Capacidade afectivo-

-cognoscitiva

Capacidade de

aprendizagem

Co

mp

on

ente

s p

sico

mo

tora

sC

om

po

nen

tes

con

dic

ion

ais

Co

mp

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sico

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cog

no

scit

ivas

Idade

Figura 1. Modelo das fases sensíveis para cada componente da capacidade de

desempenho motor (Martin, 1982)

1.2. A especialização precoce

Por especialização precoce entende-se a potencialização dos jovens para se

atingir resultados desportivos e níveis de rendimento elevados de forma

precoce, isto é, rápida. Daqui se infere, que a preparação dos jovens

praticantes é orientada e potencializada de forma unilateral prematuramente,

forçado-os a cumprir regimes de treino com um elevado ritmo no

incremento das cargas, fundamentalmente na componente intensidade e na

especificidade de um número limitado de gestos técnicos.

Segundo Matveiev (1983), a formação multilateral tem reflexos a longo

prazo no rendimento e faz parte integrante do processo pedagógico unitário

de formação e educação no treino desportivo, mas pela sua orientação

multivariada não cria as condições para os êxitos imediatos numa dada

modalidade desportiva. Pelo contrário, a especialização precoce permite

Page 31: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 9

uma rápida obtenção de resultados, mas limita a sua evolução posterior,

reduzindo o tempo de actividade desportiva a alto nível e em muitos casos

os praticantes nem chegam a essas fases porque esgotam prematuramente a

sua capacidade de prestação, abandonando por vezes a carreira desportiva

mais cedo.

Concluindo, todos os especialistas convergem para as seguintes

necessidades:

• respeitar na prática desportiva o princípio da universalidade, isto é, o

primado da preparação multilateral sobre a preparação especializada, nas

fases mais baixas do processo de preparação desportiva;

• adequar o treino à idade biológica dos praticantes;

• assegurar a preponderância do desenvolvimento das técnicas

desportivas sobre o aumento da capacidade funcional do organismo;

• privilegiar no desenvolvimento das capacidades motoras o princípio da

dominância das exigências no plano coordenativo, isto é, da prioridade

no desenvolvimento da velocidade, das capacidades coordenativas e da

mobilidade articular;

• assegurar um ritmo mais lento no incremento das cargas de treino, ou

seja observar o princípio da relação óptimal entre carga e recuperação, o

que passa por considerar também a necessidade de compatibilização de

cargas duplas escola/treino num ser em crescimento e desenvolvimento.

Com efeito, em paralelo com os processos de biosíntese necessários para

a recuperação das cargas de treino, isto é para a renovação tecidular,

ocorrem processos de biosíntese para o crescimento;

• respeitar o princípio da variação das condições de exercitação, da

realização de movimentos, da variação dos exercícios;

• recorrer a métodos de treino mais atraentes e agradáveis, ou seja, a

uma maior valorização do jogo como método de treino mais efectivo para

a criança.

Page 32: Metodologia Do Treino Desportivo

10 • Metodologia do treino desportivo I !

2. A carga e a cargabilidade

A carga é o elemento central do sistema de treino, compreende no sentido lato

o processo de confronto do praticante com as exigências que lhe são

apresentadas durante o treino, com o objectivo de optimizar o rendimento

desportivo. A carga é definida por três vertentes fundamentais: natureza,

grandeza e orientação.

2.1. A natureza da carga

A natureza da carga pode ser denominada da cargas de treino ou de

competição, cargas específicas e não específicas e cargas em função da

época desportiva.

2.1.1. Cargas de treino ou de competição

A reconstituição de um clima competitivo durante as sessões de treino

assegura uma maior mobilização informacional, energética e afectiva dos

praticantes, permitindo, assim, integrar numa estrutura única o conjunto

de capacidades e de qualidades fundamentais predominantes à

consecução dos objectivos da modalidade desportiva em análise.

2.1.2. Cargas específicas ou não específicas

A especificidade da carga é definida pela analogia dos exercícios que a

constituem e a actividade competitiva da modalidade desportiva. Se a

analogia é elevada o efeito de transfer no binómio treino/competição

também o é, aumentando-se assim, o rendimento desportivo dos

praticantes ou das equipas. Neste sentido, embora as cargas específicas,

não possam substituir completamente os exercícios de competição,

devem reproduzi-los total ou parcialmente de forma mais fiel possível.

2.1.3. Cargas em função da época desportiva

Page 33: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 11

As cargas podem ser igualmente denominadas em função do período de

planeamento anual de treino na qual esta se insere (preparação geral ou

especial, de competição, de transição).

2.2. A natureza da carga

A grandeza da carga é determinada pela importância das solicitações (fraca,

média, elevada, ou máxima) exigidas aos praticantes, sendo avaliada sob

dois tipos de índices: externos e internos.

2.2.1. Externas

Traduz as tarefas que o(s) praticante(s) deverá(m) cumprir sendo

determinado pelo exercício ou exercícios efectuados (volume) na unidade

de tempo (intensidade).

2.2.2. Internos

Corresponde à repercussão ao nível dos diferentes recursos do praticante

(informacional, energética e afectiva, sendo altamente individualizada),

que a aplicação da carga externa provoca.

Os índices externos e internos da carga são interdependentes, pois, o

aumento do volume ou da intensidade determina de imediato o aumento

das solicitações dos sistemas funcionais. Importa igualmente referir que o

estado de treino ou de preparação do(s) praticante(s) influem de forma

decisiva sobre a reacção interna de uma determinada carga. Neste

contexto, "a mesma carga externa utilizada por diferentes praticantes

provoca neles diferentes níveis de adaptação, uma vez que esta depende

da capacidade momentânea de rendimento de cada um deles. Assim,

para aqueles que estão num estado de treino avançado, essa carga pode

ser demasiado baixa e não atingir o limiar de adaptação, logo não

Page 34: Metodologia Do Treino Desportivo

12 • Metodologia do treino desportivo I !

reproduzir qualquer efeito, enquanto para um principiante poderá ser

demasiado elevada, se for continuamente repetida poderá mesmo

originar uma situação de supertreino" (Carvalho, 1984)

Do mesmo modo a aplicação de cargas limite suscitam diferentes

reacções em praticantes com diferentes níveis de preparação. Com efeito,

os praticantes melhor preparados apresentam reacções mais intensas

perante a carga e uma recuperação mais rápida.

2.3. A orientação da carga

A orientação da carga é definida pela qualidade ou capacidade que é

potencializada (no plano, físico, técnico, táctico, ou psicológico) e pela fonte

energética predominantemente solicitada (processos aeróbios, ou anaeróbios).

Esta orientação pode ser classificada em: selectiva e complexa.

2.3.1. Selectiva

A carga é selectiva quando privilegia uma determinada capacidade e

concomitantemente uma determinada fonte energética.

2.3.2. Complexa

A carga é complexa quando se solicita diferentes capacidades e

diferentes fontes energéticas.

Page 35: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 13

carga Recuperação

Rea

cção

Praticantes pouco treinados

Praticantes de nível médio

Praticantes de nível superior

carga limite Recuperação

Rea

cção

Praticantes de nível médio

Praticantes de nível superior

Figura 2. A reacção e a recuperação dos praticantes de diferentes níveis de rendimento

perante uma carga semelhante e perante uma carga limite

Cargabilidade ou capacidade de suportar a carga de treino, é o nível óptimo das

componentes estruturais (fisiológicas: volume e da intensidade, etc.,

técnico-tácticos: espaço, tempo, etc.), com o que se pode realizar um ou vários

exercícios sem que dai advenham malefícios (lesões) para o(s) praticante(s).

Basicamente podemos definir dois tipos de carga: limite e máxima.

a carga limite: é a carga que se encontra no limite das capacidades

funcionais do organismo dos praticantes. Nunca deve servir de ponto de

referência de forma a traduzir as possibilidades de adaptação dos praticantes

ao treino, pois a sua utilização diminuirá não só essas possibilidades como

originará um estado de supertreino com todas as implicações que daí

advêm; e,

a carga máxima: a medida quantitativa concreta desta carga depende

naturalmente do nível de treino prévio do praticante, das suas características

individuais e dos aspectos específicos da modalidade desportiva em causa.

É a carga que permite alcançar o mais alto nível de treino, exigindo do

organismo do praticante um estado fisiológico pleno. À medida que o efeito

do treino se faz sentir e se elevem as possibilidades funcionais e de

adaptação, aumenta na mesma proporção os valores máximos da carga.

3. A adaptação e a capacidade de rendimento

Page 36: Metodologia Do Treino Desportivo

14 • Metodologia do treino desportivo I !

A adaptação é a reacção natural do organismo quando as cargas de treino são

aplicados regular, metódica e sistematicamente criando um novo estado de

equilíbrio qualitativamente superior através das progressivas modificações

neurológicas, biológicas, fisiológicas e psicológicas. A dinâmica da adaptação

é consubstanciado pela dinâmica da carga. Neste sentido, o ser humano para

além da capacidade de reagir a estímulos, quando estes possuem uma certa

intensidade e quando são aplicados regularmente, tem também a capacidade de

se adaptar, criando as condições mais favoráveis ao aumento do rendimento

desportivo dos praticantes e das equipas. Podemos distinguir dois tipos de

adaptação (Platonov, 1988): rápida e a longo termo.

3.1. A adaptação rápida

A adaptação rápida traduzida pela reacção do organismo a um exercício de

intensidade máxima. Os sistemas funcionais atingem, neste contexto, uma

actividade elevada desde o seu início até ao seu terminus. Observa-se três

fases fundamentais na reacção do organismo a este tipo de carga:

• a primeira é caracterizada pela activação dos sistemas funcionais

solicitados que se traduz por um aumento brusco da frequência cardíaca,

do débito ventilatório, do consumo de oxigénio, da concentração de

lactato, etc.;

• a segunda é caracterizada por se atingir um estado estável. A

actividade dos diferentes sistemas funcionais mantêm-se a um nível

constante; e,

• a terceira é caracterizada pela diminuição progressiva do equilíbrio

entre as necessidades ligadas à actividade e a capacidade do organismo

em satisfazê-las.

3.2. A adaptação a longo termo

Page 37: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 15

A adaptação a longo termo; faz intervir mecanismos totalmente diferentes

da adaptação rápida. Com efeito, a aplicação de uma carga superior ao nível

habitual, mas com uma intensidade submáxima opera uma adaptação em

quatro fases:

• a primeira é constituída pela utilização repetitiva de cargas de forma a

solicitar os mecanismos de adaptação rápida;

• durante a segunda fase a repetição planificada das cargas e o seu

aumento progressivo, determinam a adaptação dos orgãos e dos sistemas

nas suas novas condições de funcionamento;

• a terceira fase é de estabilização, implicando uma correcta

coordenação entre os orgãos de execução e os sistemas funcionais de

base. Esta coordenação assegura o aumento das reservas funcionais; e,

• a quarta fase produz-se logo que a terceira se torna demasiado intensa,

ou conduzida de forma pouco racional, não respeitando os intervalos

necessárias para recuperação.

A diferença entre a adaptação rápida e a adaptação a longo termo é

consubstanciada fundamentalmente pela rápida normalização dos diferentes

índices fisiológicos (por exemplo: uma corrida de 400 metros), enquanto que a

segunda poderá levar alguns dias para que estes se normalizem (por exemplo

uma prova de maratona).

A capacidade de rendimento é o grau de expressão de um determinado

rendimento desportivo individual ou colectivo. Representa o resultado real.

4. A fadiga e a recuperação

Page 38: Metodologia Do Treino Desportivo

16 • Metodologia do treino desportivo I !

A fadiga é considerada um importante factor de mobilização dos recursos

funcionais e, neste sentido, um potente factor de adaptação.

Complementarmente, a fadiga intervem na limitação do volume de treino e na

frequência na prestação desportiva. Podemos distinguir (Platonov, 1988) a:

fadiga evidente e a fadiga latente.

4.1. A fadiga evidente

A fadiga evidente manifesta-se pela redução da capacidade de trabalho e a

incapacidade de suportar o regime de treino num determinado nível.

4.2. A fadiga latente

A fadiga latente corresponde à capacidade de manter a capacidade de

trabalho, fazendo continuamente apelo a diferentes recursos funcionais e a

mecanismos de compensação. Verifica-se ainda, neste contexto, o aumento

da despesa energética.

A recuperação

Após a aplicação de uma carga de treino, a capacidade de trabalho do

organismo vai evoluir de uma forma sistemática na qual podemos distinguir

quatro etapas: diminuição das capacidades, restauração das capacidades,

supercompensação e estabilização num nível próximo do inicial. Com efeito,

após o trabalho, subrevem um período durante o qual as possibilidades de

adaptação do sistema funcional é reforçado. Logo, o treino tem por objectivo

tirar partido dessa elevação de possibilidades de adaptação para as solicitar

cada vez mais.

Podemos distinguir duas fases na reacção dos sistemas funcionais a uma carga

de treino:

Page 39: Metodologia Do Treino Desportivo

" Conceitos do treino desportivo • 17

uma fase de retorno à homeostase que demora entre alguns minutos e

umas horas;

uma fase construtiva, no decurso do qual se organizam as modificações

funcionais e estruturais ao nível dos tecidos ou sistema funcionais

solicitados.

Segundo Bompa (1990) 70% da recuperação verifica-se no primeiro terço do

tempo necessário para essa recuperação, 20% no segundo terço e os restantes

10% no terceiro terço.

100%

0%

1/3

70%

2/3

20%

3/3

10%

Nív

el d

e fa

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a

Tempo de recuperação

Figura 3. A dinâmica da curva de recuperação (Bompa, 1990)

5. O estado de treino e o estado de preparação

O estado de treino reflecte a adaptação biológica geral do organismo.

Distingue-se habitualmente:

o treino geral que resulta de exercícios que melhoram a saúde e

aumentam as possibilidades funcionais gerais;

o treino específico que resulta do aperfeiçoamento no domínio

especializado da actividade.

O estado de preparação exprime a capacidade do organismo de manifestar as

suas possibilidades máximas durante o decurso da competição. Este estado

condiciona a forma desportiva.

Page 40: Metodologia Do Treino Desportivo

18 • Metodologia do treino desportivo I !

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Page 41: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE II

FACTORES DO RENDIMENTO DESPORTIVO

Resp: Jorge Castelo

Page 42: Metodologia Do Treino Desportivo

18 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo da Parte II

A segunda parte deste livro reflecte a análise dos factores fundamentais

do rendimento desportivo. Embora se observe uma multiplicidade e

variabilidade de componentes, incidiremos a nossa reflexão sobretudo

na eficácia do sistema de treino considerando-o como vertente central

do rendimento dos atletas/praticantes. Dentro deste sistema

evocaremos a importância do exercício no contexto do treino

desportivo bem como as suas relações metodológicas.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 3

Page 43: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 19

Parte II

Factores do rendimento desportivo

Sumário

1. Os factores do rendimento desportivo (Matvéiev) 1.1. As capacidades individuais e o seu grau de preparação 1.2. A amplitude do movimento desportivo e as condições sociais 1.3. A eficiência do sistema de treino

2. O modelo teórico de Claude Bouchard 2.1. O sub-grupo das determinantes invariáveis da performance

2.1.1. Contributo da hereditariedade nas estruturas morfológicas 2.1.2. Contributo da hereditariedade nas estruturas orgânicas 2.1.3. Contributo da hereditariedade nas estruturas perceptivas 2.1.4. Contributo da hereditariedade no plano das características psicológicas

2.2. O subgrupo das determinantes variáveis da performance 2.2.1. A eficácia técnica 2.2.2. A influência da inteligência táctico-estratégica 2.2.3. A condição física geral 2.2.4. A condição física específica 2.2.5. Nível de preparação psicológica 2.2.6. A influência do meio social 2.2.7. Conjunto de factores complementares 2.2.8. O repouso, a relaxação, a recreação e os tempos livres

2.3. O subgrupo dos factores da organização e do controlo associado à performance

2.3.1. O sistema organizativo que programa e controla o treino 2.3.2. O dossier de treino e o dossier do atleta 2.3.3. O exame médico geral preventivo ou correlativo do praticante 2.3.4. Avaliação das condicionantes variáveis gerais 2.3.5. Avaliação das condicionantes variáveis específicas 2.3.6. A acção do pessoal técnico e dos especialistas

Page 44: Metodologia Do Treino Desportivo

20 • Metodologia do treino desportivo I !

Bibliografia:

BOUCHARD, C. (1973) "La preparation d´un champion" Un essai sur la

préparation à la performance sportive. Pélican. Québec.

MATVÉIEV, L. (1986) Fundamentos do treino desportivo. Livros Horizonte,

Lisboa

PLATONOV, V., (1988) L' Entrâinement Sportif: Théorie et Méthodologie,

Ed. E.P.S., Paris

ULATOWSKI, T. La theorie de l´entrainement sportif. Comité Internacional

Olympique, 1975

WEINECK, J., (1983), Manuel d' Entrâinement, Ed. Vigot, Paris

Page 45: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 21

Numa análise substancial e profunda do rendimento desportivo a qualquer

nível, quer individual (desportos individuais) como colectivo (desportos

colectivos) em competição, observa-se uma multiplicidade e uma variabilidade

de componentes, uns de origem endógena (respeitantes aos praticantes) e,

outros, de origem exógena (respeitantes ao contexto em que a competição se

desenvolve) que intervêm directa ou indirectamente nos resultados obtidos.

1. Os factores do rendimento desportivo (Matvéiev)

Segundo Matvéiev (1977), podemos agrupar a dinâmica do rendimento

desportivo na base de três vertentes fundamentais: i) as capacidades individuais

e o seu grau de preparação, ii) a amplitude do movimento desportivo e as

condições sociais e, iii) a eficiência do sistema de treino.

1.1. As capacidades individuais e o seu grau de preparação

Numa primeira análise, todo o indivíduo é portador de um potencial

genético cuja importância é decisiva na obtenção de elevados rendimentos

desportivos. Este factor de base é relativamente constante. Todavia, embora

não menosprezando a importância deste factor no contexto do rendimento

desportivo, a sua expressão depende das experiências vividas, que são

determinadas por uma actividade (treino/competição) racionalmente

conduzida. Durante o qual o praticante domina os comportamentos técnicos

e tácticos de base da lógica interna da modalidade escolhida, aperfeiçoando-

as e, desenvolve as suas capacidades naturais criando as aptidões

necessárias para o seu progresso desportivo que consubstancia o grau de

preparação do(s) praticante(s). Nestas circunstâncias, o treino/competição

aparece como um factor dinâmico o qual modifica constantemente a

capacidade de rendimento do(s) praticante(s), em função do empenhamento

Page 46: Metodologia Do Treino Desportivo

22 • Metodologia do treino desportivo I !

deste(s) à modalidade que escolheram e à qualidade científico-metodológica

deste processo.

Com efeito, entre os factores do rendimento desportivo, não é difícil

distinguir por um lado, factores internos estabelecidos pelas possibilidades

genéticas do(s) praticante(s) e o seu estado de preparação e, por outro, os

factores externos que se ligam indissoluvelmente aos meios e métodos de

treino que asseguram a sua preparação. Logo, na actualidade, nem os mais

dotados no plano genético podem atingir elevados níveis de rendimento se

não criarem as condições mais favoráveis para a sua obtenção, que é

consubstanciado pelo treino persistente num grande esforço de

auto-aperfeiçoamento, nas diferentes fases da formação competitiva.

1.2. A amplitude do movimento desportivo e as condições sociais

"Como fenómeno social o desporto está organicamente contido no sistema

de relações sociais e o seu desenvolvimento é condicionado pelos factores

sociais, económicos e correlativos. É por esse motivo que o nível de

resultados desportivos obtidos num ou noutro país depende, em última

análise, das condições de vida da sociedade e da sua organização social,

que determinam o desenvolvimento do movimento desportivo" (Matvéiev,

1977).

No entanto, refere o mesmo autor (1977), "o efeito deste factor, mediante

um certo número de relações e condições indirectas, não garante

automaticamente, a melhoria do rendimento desportivo dos praticante(s),

havendo a necessidade de canalizar de forma correcta as possibilidades

existentes"

1.3. A eficácia do sistema de treino

Page 47: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 23

"À medida que se aperfeiçoa o sistema de treino desportivo, especialmente

as suas bases científicas e metodológicas, o seu conteúdo, a sua orgânica,

as disponibilidades materiais e técnicas aumentaram o seu efeito no nível

geral dos resultados desportivos" (Matvéiev, 1977). Isto só foi possível

devido à diversificação de estudos que estabeleceram um conhecimento

profundo sobre o conteúdo (lógica interna) das diferentes modalidades

desportivas, bem como, os processo inerentes à aprendizagem,

aperfeiçoamento e desenvolvimento dos diferente(s) praticante(s), numa

simbiose cada vez mais adaptada às necessidades e evoluções da actividade

competitiva.

Neste sentido, é sintomático que as marcas dos Jogos Olímpicos da era

moderna, que nos seus tempos pareceram extraordinárias, estejam hoje em

dia ao alcance de muitos milhares de praticantes de nível mediano. Este

facto explica-se especialmente, pela elaboração de métodos de treino e de

meios de execução dos exercícios novos e cientificamente fundamentados.

2. O modelo teórico de Claude Bouchard

Claude Bouchard (1973) no seu livro "A preparação de um campeão"

apresenta um conjunto de determinantes, tão gerais e universais quanto

possível da performance desportiva superior. O presente modelo teórico da

performance desportiva (P) apoia-se essencialmente em três subgrupos:

H - o subgrupo das determinantes invariáveis da performance;

D - o subgrupo das determinantes variáveis da performance; e,

C - o subgrupo dos factores da organização e do controlo associado à

performance.

Da observação da figura 4 facilmente podemos constatar os seguintes aspectos:

• o subgrupo H (determinantes invariáveis da performance) é perfeitamente

constante e invariável exercendo uma influência directa sobre a

Page 48: Metodologia Do Treino Desportivo

24 • Metodologia do treino desportivo I !

performance não podendo ser ignorada quando se pretende explicar uma

alta, uma fraca ou simplesmente uma performance desportiva;

• O subgrupo D (determinantes variáveis da performance) exerce

igualmente influência sobre a performance desportiva. Todavia, este

subgrupo é dinâmico e composto por factores flexíveis, isto é, podem ser

objecto de um tratamento ou de uma manipulação; e finalmente,

• O subgrupo C (factores de organização e do controlo da performance) tal

como o subgrupo anterior sendo dinâmico exige a presença de informações

para se adequarem ao valor visado ou efectivo da performance do

praticante. Este subgrupo tem uma dupla influência sobre a performance

desportiva, uma directa, que provém dos seus próprios elementos de

organização e controlo e, uma indirecta, devido ao seu efeito retroactivo

sobre o subgrupo D. Esta influência sobre o subgrupo D reveste-se da mais

alta importância no quadro da preparação sistemática para uma performance

de alto nível.

Por fim, importa salientar que a performance (P) exerce igualmente uma

influência sob o subgrupo C exigindo que este tenha em conta as modificações

positivas ou negativas das performances e as suas flutuações aleatórias ou

previsíveis com o intuito de activar os mecanismo de controlo requeridos

permitindo desta forma despoletar os mecanismos subjacentes.

Performance

(P)

Determinantes

invariáveis da

performance

(H)

Determinantes

variáveis da

performance

(D)

Determinantes da

organização e do

controlo associado

à performance (C)

Figura 4. Modelo teórico das determinantes da performance desportiva

(adaptado de Bouchard, 1973)

2.1. Análise do subgrupo das determinantes invariáveis (H)

Page 49: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 25

O conjunto de factores que parecem desempenhar um papel importante

neste subgrupo de determinantes invariáveis da performance desportiva são

os seguintes:

H Hm, Ho, Hp, Hps ...

2.1.1. Contributo da hereditariedade no seio dos factores do subgrupo das

estruturas morfológicas do praticante (Hm)

O reconhecimento do Hm sobre o P implica que um certo tipo de

praticante é nitidamente favorecido pela hereditariedade no que respeita

ao seu tipo físico, à altura, comprimento dos seus segmentos, etc. Eis um

conjunto de factores que permitem a um praticante estar em vantagem ou

desvantagem, na obtenção da performance visada.

2.1.2. Contributo da hereditariedade nas estruturas orgânicas e da capacidade

funcional do praticante (Ho)

Admitindo que Ho representa uma fonte significativa da variância da

performance, aceita-se o facto que certas pessoas estão favorecidas em

relação a outras, no plano da sua estrutura orgânica e na capacidade de

efectuar trabalho ou esforço físico. Esta constatação implica que, os

indivíduos estarão nitidamente favorecidos face a uma performance que

se apoia de forma apreciável sobre o rendimento das estruturas orgânicas

e, mais concretamente sobre o sistema de transporte do oxigénio. Uma tal

vantagem poderia, teoricamente, persistir para além da influência dos

programas de treino.

2.1.3. Contributo dos factores hereditários no subgrupo das estruturas perceptíveis

do praticante (Hp)

Page 50: Metodologia Do Treino Desportivo

26 • Metodologia do treino desportivo I !

A existência de uma contribuição do Hp na realização de uma

performance pertinente, implica que alguns praticantes serão favorecidos

pelo código genético, independentemente dos programas de treino

seguidos, ao nível da eficácia perceptiva e motora que poderão atingir.

2.1.4. Contributo dos factores hereditários no plano das características psicológicas

e sociais da personalidade do praticante (Hps)

Eis o sector onde o contributo da hereditariedade é provavelmente muito

reduzido. Parece no entanto, que todos os praticantes não são iguais em

relação à características psicológicas e sociais do seu comportamento, e

do seu estado, durante a selecção desportiva e, face aos máximos que são

capazes de atingir, nas suas performances motoras.

2.2. O subgrupo das determinantes variáveis da performance (D)

As determinantes variáveis dizem respeito às que, de entre os factores que

influenciam a performance desportiva, podem ser modificadas ou

manipuladas no quadro de uma estratégia de treino. Constitui-se pois, em

factores que exercem uma influência sobre a performance, muito embora

não se apresentem sempre da mesma forma, nem intervenham sempre com a

mesma intensidade. Embora o número destas variáveis seja elevado,

podemos analisá-las de forma sistemática reagrupando-as em oito diferentes

factores:

D Et, Is, Dpg, Dps, Ppd, Vs, Fc, R...

2.2.1. Eficácia técnica do praticante no seio da actividade desportiva em causa (Et)

O rendimento em determinado acto motor é influenciado pelos diferentes

aspectos da eficácia técnica. Várias destas componentes da eficácia

técnica podem ser significativamente influenciadas através de programas

apropriados. Em relação ao que foi referido, convém acrescentar que a

eficácia técnica, é consequentemente uma determinante variável,

Page 51: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 27

susceptível de ser objecto de uma atenção particular no quadro do

programa de treino. 2.2.2. A influência da inteligência táctico-estratégica do praticante na actividade

desportiva em causa (Is)

É certo que os praticantes diferem entre eles, quanto à sua compreensão

da situação de jogo, ou da situação de performance. A inteligência

táctico-estratégica, pode contudo ser objecto de uma atenção especial e,

melhorar significativamente objectivando a realização de uma melhor

performance.

2.2.3. A condição física geral do praticante (Dpg)

A condição física geral exerce uma comprovada influência sobre o

rendimento na actividade desportiva. a condição física geral do praticante

deve apoiar-se principalmente, num eficiente sistema de transporte de

oxigénio, num bom desenvolvimento muscular e numa fraca

percentagem de adiposidade no peso corporal. Todos estes factores

podem ser objecto de uma atenção particular no quadro de um programa

apropriado de treino e, desta forma se elevar o nível de preparação física

face à prestação desportiva. 2.2.4. A condição física específica do praticante face a uma dada performance

desportiva (Dps)

Para além de uma boa condição física geral, o praticante deve contar com

uma preparação física específica totalmente orientada para a modalidade.

Neste quadro, o praticante deve atingir um rendimento máximo no plano

das qualidades físicas mais solicitadas pela própria modalidade

desportiva, aproximando-se desta forma do potencial das suas qualidades

físicas específicas, às quais fará apelo durante a situação competitiva. A

condição física específica deverá variar consoante as modalidades

desportivas e consoante os perfis de exigência dentro de cada

especialidade dentro da modalidade desportivas (por exemplo: maratona

Page 52: Metodologia Do Treino Desportivo

28 • Metodologia do treino desportivo I !

e salto em comprimento no atletismo ou o defesa e o avançado no

futebol). 2.2.5. Nível de preparação psicológica do praticante face à performance desportiva

a realizar (Ppd)

Um praticante bem preparado física, técnica e tacticamente poderá não

estar necessariamente apto no plano mental a fornecer uma performance

máxima. A preparação psicológica do praticante, influência

consequentemente o resultado final da performance desportiva. Importa

pois, tomar atenção à preparação psicológica e desenvolvê-la tanto a

curto como a longo prazo, tendo por objectivo a criação de condições

mais favoráveis para a obtenção de uma performance elevada. 2.2.6. A influência do meio social do praticante sobre o seu treino e sobre a sua

performance

Como todo o ser humano, o praticante não se encontra isento das

influências do seu meio familiar, do seu meio profissional, etc. Estas

diversas influências podem reflectir-se de forma subtil ou irredutível.

Existem praticantes para os quais tais influências representam um

estímulo positivo embora para muitos outros, em boa verdade, tais

influências, signifiquem o fim dos seus objectivos. É possível, recorrendo

a uma sólida organização, ter em atenção o meio social do praticante, e

tentar exercer uma influência positiva sobre este. Os seus efeitos sobre a

performance, são suficientemente importantes para que os encaremos

com seriedade.

2.2.7. Conjunto de factores complementares que agem directamente sobre a

performance: alimentação, equipamentos, etc.

Esses factores complementares exercem sempre qualquer influência

sobre a performance. Torna-se então, bastante importante, tomar

preocupações, afim que esses numerosos factores, podem ser controlados

Page 53: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 29

de forma adequada, sendo responsáveis pela preparação e realização da

performance de um determinado praticante.

2.2.8. A influência do repouso, da relaxação, da recreação e dos tempos livres,

sobre a disponibilidade do praticante face à realização de uma performance (R)

À muito tempo que está demonstrado que R pode exercer uma influência

determinante sobre a receptividade do praticante para um programa de

treino intensivo e, sobre a sua disponibilidade ao longo de um período

intensivo de competições. Torna-se assim importante que este factor

receba uma atenção suficiente no conjunto de factores de preparação do

praticante para a performance desportiva.

2.3. O subgrupo das determinantes da organização e controlo (C)

Este subgrupo é provavelmente o menos compreendido e o que incute

algum receio por parte dos diferentes treinadores. Por este facto é muitas

vezes subestimado na sua importância relativamente à preparação do

praticante, todavia, estamos perante uma ferramenta fundamental e

indispensável dos programas de treino. O conjunto de factores que parecem

desempenhar um papel importante na organização da preparação para a

performance desportiva e, na supervisão do praticante na situação de treino

são os seguintes:

C Cr, Ce, Emg, Adg, Ads, Ss...

2.3.1. O sistema organizativo que programa e controla o treino (Cr)

Um programa de treino deverá dirigir o processo de desenvolvimento do

praticante. Deve ser estabelecido a partir de um delineamento rigoroso,

deixando a possibilidade de ajustamentos tendo em conta as informações

que chegam das performances atingidas. A ausência de um programa de

desenvolvimento ou a inexistência de uma progressão criteriosa parece-

nos constituir um risco adicional, que reduz substancialmente as

Page 54: Metodologia Do Treino Desportivo

30 • Metodologia do treino desportivo I !

hipóteses de atingir os objectivos predeterminados. Não existe nenhuma

organização desportiva ou não desportiva que possa permitir-se a tal

omissão. 2.3.2. O dossier de treino e o dossier do atleta (Cc)

Eis dois agentes importantes na supervisão do praticante, das situações

de treino e da organização de um programa de preparação para a

performance desportiva. 2.3.3. O exame médico geral preventivo do praticante (Emg)

O controlo médico do praticante é essencial e deve ser objecto de uma

atenção permanente. A sua ausência num sistema de controlo e

supervisão implica o risco de compreender as hipóteses de realização de

uma performance elevada. Essa verificação do estado de saúde do

praticante deve ser feita periodicamente e estar prevista no quadro do

sistema geral de controlo. 2.3.4. Avaliação das determinantes variáveis gerais da performance desportiva

(Adg)

A avaliação periódica do estado das determinantes variáveis gerais da

performance desportiva, é susceptível de fornecer inúmeros dados

importantes para o treinador. Essa informação poderá ser uniformizada e

modificada por forma a ser acessível a todos os praticantes. 2.3.5. Avaliação das determinantes específicas associadas a uma performance

desportiva (Ads)

Um correcto sistema de controlo deve também prescrever avaliações

periódicas das determinantes específicas da modalidade desportiva em

questão. Não obstante as dificuldades que existem na avaliação dessas

determinantes, torna-se imperioso realizar um esforço visando a obtenção

de tais informações. 2.3.6. A acção do pessoal técnico e dos especialistas na organização e controlo do

praticante em situação de treino

Page 55: Metodologia Do Treino Desportivo

" Factores do rendimento desportivo • 31

A complexidade dos problemas levantados pelo funcionamento dos

mecanismos inerentes a este subgrupo de organização e controlo, exige a

participação de especialistas em ciências e organização desportiva.

Torna-se assim importante abordar a estratégia do treino no quadro de

uma equipa, reservando ao treinador o papel de chefe da equipa, sem o

que, seria completamente impossível a exploração de todo um conjunto

de recursos necessários à obtenção de um rendimento máximo. Neste

contexto, a presença ou ausência de uma equipa integrada e

suficientemente experiente, representa um factor que influência o

rendimento do sistema organizativo e de controlo aumentando ou

diminuindo, consequentemente, as hipóteses de atingir uma performance

desportiva de alto nível.

ww

Page 56: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE III

O EXERCÍCIO DE TREINO DESPORTIVO

Resp: Jorge Castelo

Page 57: Metodologia Do Treino Desportivo

Parte III O exercício de treino desportivo

Sumário

Capítulo 1 Os fundamentos do exercício de treino Capítulo 2 Bases conceptuais para a construção do exercício de treino Capítulo 3 Bases de aplicação do exercício de treino Capítulo 4 Bases de eficiência do exercício de treino

Page 58: Metodologia Do Treino Desportivo

Metodologia do treino 33

PARTE III

O EXERCÍCIO DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 1

Os fundamentos do exercício de treino

Resp: Jorge Castelo

Page 59: Metodologia Do Treino Desportivo

34 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo do Capítulo 1 da Parte III

O presente Capítulo pretende sistematizar e analisar os fundamentos do exercício de treino considerado como a célula base do treino desportivo. Neste contexto, incidiremos o nosso estudo sob sete questões nucleares: definição, características (do ponto de vista da identidade e da especificidade), natureza (que engloba os recursos informacionais, energéticos e afectivos), estrutura (objectivos, conteúdo, forma e nível de performance), componentes (no plano fisiológico e técnico-táctico), classificação (do ponto de vista da predominância do conteúdo e do grau de identidade), e das tendências actuais e futuras do exercício.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 4

Parte III

Page 60: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 35

O exercício de treino desportivo

Sumário

Capítulo 1 - Os fundamentos do exercício de treino 1. O processo de treino como vertente fundamental do rendimento

1.1. O exercício como elemento determinante do processo de treino 1.2. A relação metodológica entre treino e exercício

2. Definição de exercício de treino 3. Caracterização do exercício de treino

3.1. Especificidade 3.2. Identidade

4. A natureza do exercício de treino 4.1. O recurso informacional

4.2. O recurso energético 4.3. O recurso afectivo

5. A estrutura do exercício de treino 5.1. O objectivo 5.2. O conteúdo

5.3. A Forma 5.4. O nível de performance

6. As componentes estruturais do exercício de treino 6.1. No plano fisiológico

6.1.1. A duração 6.1.2. O volume 6.1.3. A Intensidade 6.1.4. A Densidade 6.1.5. A Frequência

6.2. No plano técnico-táctico 6.2.1. O número 6.2.2. O espaço 6.2.3. O tempo 6.2.4. A Complexidade

7. A classificação dos exercícios de treino 7.1. O factor de treino predominante no conteúdo do exercício 7.2. Em função do grau de identidade do exercício

8. Orientações e tendências dos exercícios de treino 8.1. Aumento do volume de treino utilizando exercícios de carácter geral e especial 8.2. Maior utilização dos exercícios de treino de carácter específico 8.3. Adequação dos exercícios de treino à realidade competitiva. Indivisibilidade dos factores de treino 8.4. Estabelecimento das bases científicas dos exercícios de treino

Bibliografia:

Page 61: Metodologia Do Treino Desportivo

36 • Metodologia do treino desportivo I !

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Page 62: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 37

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1. O processo de treino como vertente fundamental do rendimento desportivo

Centrando unicamente a nossa reflexão sobre a eficácia do sistema de treino,

podemos afirmar, que o rendimento desportivo é determinado por um estado

dinâmico complexo que se caracteriza por um elevado nível de eficiência física

e psicológica, e pelo grau de aperfeiçoamento das aptidões técnicas, tácticas e

conhecimentos teóricos da modalidade.

Ora, a dimensão "resultado", em qualquer circunstância tomada como ponto de

análise e independentemente dos outros factores que o influenciam, é

consubstanciada na base de um denominador comum - o exercício de treino,

sendo neste contexto, o meio (leia-se ferramenta) fundamental do

professor/treinador de poder definir, orientar e modificar o processo de

formação e desenvolvimento, ou seja, de transformação do(s) praticante(s),

sem o qual não é possível que estes respondam de forma adequada e eficaz às

exigências que a competição em si encerra.

1.1. O exercício como elemento determinante do processo de treino

É nesta linha de raciocínio que inúmeros autores, ligados aos desportos

individuais e colectivos, tais como Ulatowski (1975), Weineck (1986),

Bompa (1990), Teodorescu (1984, 1987), Matveiv (1977), Palfai (1982),

entre outros, se posicionam perante o problema, sendo-lhes inequívoco que

o exercício de treino é o meio prioritário e operacional de preparação dos

praticantes e das equipas, consubstanciando as adaptações físicas, técnicas,

Page 63: Metodologia Do Treino Desportivo

38 • Metodologia do treino desportivo I !

tácticas, psicológicas e sociológicas fundamentais para a consecução de um

elevado desempenho quando em confronto directo. "O mais importante no

treino é a selecção de exercícios e a execução dos que conduzem, sem falha,

ao objectivo desejado" (Ozolin, 1981).

O exercício é, em última análise, a estrutura de base de todo o processo

responsável pela elevação, mantimento e redução do rendimento dos

praticantes. Naturalmente o sucesso obtido em treino e em competição está

em relação directa com a eficácia do próprio exercício.

1.2. A relação metodológica entre o treino e o exercício

O fundamento metodológico do treino desportivo assenta, com efeito, numa

repetição lógica, sistemática e organizada de diversos exercícios que

determinam a linha de orientação e a profundidade das adaptações dos

praticantes à especificidade da modalidade, ou seja, à sua lógica interna.

Neste contexto, partindo do pressuposto de que as equipas e os praticantes

são treináveis, o treino desportivo desenvolve-se segundo um programa que

é constituído por um conjunto de exercícios essenciais para atingir um

modelo individual e colectivo óptimo, expresso na prestação:

• das capacidades motoras (força, velocidade, resistência, etc.);

• das capacidades técnico-tácticas (acções individuais-passe, recepção,

remate, etc., e acções colectivas-combinações, desdobramentos,

permutações, etc.); e,

• das capacidades psicológicas (atenção, concentração, emoção,

angústias, etc.).

Do que foi referido, não significa que o treino desportivo não tenha outros

meios diferentes do dos exercícios, o que é importante, é analisar e

compreender que a sua base estrutural constitui-se num sistema de

exercícios subordinados às exigências de uma aprendizagem,

Page 64: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 39

aperfeiçoamento e desenvolvimento óptimos. Logo, o exercício de treino

constituindo-se como método prioritário e operacional do melhoramento do

rendimento desportivo individual e colectivo, deverá ser construído, num

quadro referencial alargado abarcando vários campos, tais como a táctica, a

técnica, a fisiologia, a psicologia, numa convergência real sem o qual o

exercício de treino ficará à partida diminuído e, por inerência os seus

resultados. Concluindo, o estudo do exercício integra-se, em última análise,

na determinação do exercício óptimo. Parte-se pois, do pressuposto racional

e objectivo que não existem exercício inócuos e de que a melhor adaptação

produzir-se-à somente em resposta ao melhor exercício.

2. Definição de exercício de treino

O exercício de treino pode ser considerado como uma construção hipotética

sendo potencialmente capaz de desencadear, organizar e orientar a actividade

dos praticantes em direcção a um objectivo válido, específico e idêntico à

modalidade desportiva que se procura aprender, aperfeiçoar ou desenvolver.

Neste contexto, o exercício de treino pode ser definido como um acto motor

sistematicamente repetido cuja "essência assenta na realização de movimentos

de diferentes segmentos do corpo, executados simultaneamente ou

sucessivamente, coordenados e organizados numa estrutura segundo um

determinado objectivo a atingir. Cada movimento e o exercício, no seu

conjunto, devem ter, entre outras especificidades: direcção, amplitude,

velocidade, duração, ritmo e tempo de duração" (Teodorescu, 1987).

3. Caracterização do exercício de treino

Para que o exercício de treino substancie claramente a elevação do rendimento

dos praticantes e das equipas, qualquer que seja a modalidade desportiva em

Page 65: Metodologia Do Treino Desportivo

40 • Metodologia do treino desportivo I !

causa, este deverá caracterizar-se sob duas vertentes indissociáveis e

essenciais, que se estabelecem como as duas faces de uma mesma verdade: a

especificidade e a identidade.

3.1. Especificidade

O exercício de treino é específico quando consubstancia uma estrutura

(objectivo, conteúdo e forma) que no seu conjunto provoca as adaptações de

base que estão na origem na elevação do rendimentos dos praticantes e das

equipas.

3.1.1. Exercícios específicos determinam respostas biológicas específicas

Edington (1982), refere que "um exercício provoca uma resposta

específica em cada indivíduo e num momento específico temporal",

acrescenta ainda que "ao examinarmos os efeitos da actividade sobre o

corpo humano, constatamos que as exigências físicas - específicas - de

exercícios específicos determinam respostas biológicas específicas. Neste

sentido, vários trabalhos de investigação, segundo Proença (1990) "vêm

comprovar:

• a existência de fontes energéticas específicas para tipos de exercícios

específicos;

• os efeitos do treino são específicos em função da intensidade e

duração do programa de treino; e,

• os conceitos do exercício e do treino têm uma base a nível celular.

Assim, "os orgãos e sistemas de orgãos submetidos a esforço,

desenvolvem-se funcional e morfologicamente, enquanto que os

orgãos inactivos serão reduzidos à sua estrutura e função" (Lamarck).

3.1.2. A base operacional do exercício e a lógica da modalidade desportiva

Page 66: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 41

Os exercícios de treino provocam efeitos em termos de adaptação

precisa, quando se estabelece uma correspondência exacta entre a base

operacional do exercício e a lógica da modalidade, no que refere:

à possibilidade de precisar o contexto de aplicação das soluções

tácticas em função dos problemas que a competição em si encerra e da

execução técnica de resolução eficiente desses mesmos problemas;

à possibilidade de normalizar as cargas físicas e de conduzir a sua

dinâmica no decurso da aplicação do(s) exercício(s), simultaneamente

na regulação das pausas de repouso e a sua intercalação entre os

momentos de carga; e,

à criação de condições de execução externas óptimas e similares à

competição que se traduzem num maior domínio do factor

psicológico.

É compreensível a essência desta precisão na construção e aplicação

do(s) exercício(s) de treino, pois, esta procura assegurar um estrito

domínio dos efeitos de treino, ou por outras palavras, uma específicidade

que se exprime segundo uma correcta direcção.

3.1.3. A dimensão transfer

O conceito de especificidade do exercício permite um mínimo de transfer

de uma actividade para outra. Por exemplo, se executarmos

quotidianamente uma certa actividade específica, constatamos

rapidamente que estamos "treinados" nessa actividade. Contudo, ao

executarmos uma nova actividade somos incapazes de competir com

aqueles que já estavam treinados nessa actividade. Um sinal dessa

especificidade é revelado por algumas dores musculares que sentimos

após as primeiras tentativas nessa nova actividade. Os músculos doridos

são os músculos mais específicos dessa nova actividade. Esses músculos

não funcionavam tão intensamente durante os períodos de treino da

actividade precedente.

Page 67: Metodologia Do Treino Desportivo

42 • Metodologia do treino desportivo I !

Concluindo, Mellerowicz e Meller (1978) citados por Proença (1990)

"advertem para o facto de os processos de adaptação específica e de

aumento de rendimento especializado serem prejudicados quando

predomina o treino de outros factores, mesmo tratando-se apenas de

ocorrência temporária".

3.2. Identidade

A identidade do exercício de treino, fundamenta-se no nível de relação

existente entre este e as condições objectivas em que se desenrola a

competição. Isto significa que a estrutura do exercício (objectivo-conteúdo-

forma) estabelece uma plataforma de relação, ou melhor, um grau de

significação (concordância) com a lógica da modalidade em causa.

3.2.1. A dimensão isomórfica e analógica da identidade do exercício

A identidade como característica do exercício de treino pode ter uma das

seguintes dimensões:

isomórfica quando podemos estabelecer uma correspondência

"unívoca" entre os elementos referentes à lógica da modalidade

desportiva em causa, e os elementos da lógica do exercício no que

concerne: às relações das suas componentes estruturais, às mesmas

operações no domínio informacional, energético, e afectivo, e às

mesmas formas de organização. Bertrand e Guillement (1988) referem

que o isomorfismo é uma qualidade que dois ou vários sistemas

possuem quando têm propriedades comuns ou semelhantes; e,

analógica, quando existe uma associação, ou melhor uma certa

semelhança, entre os elementos referentes à lógica da modalidade, e

os elementos da lógica do exercício. Com efeito, o raciocínio

analógico é um pensamento que se baseia em relações de similitude

entre objectos diferentes. Bertrand e Guillement (1988) referem que

Page 68: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 43

"uma analogia implica uma certa semelhança entre dois objectos,

assim, uma analogia assemelha-se à realidade que é suposta

representar, mas não se pode confundi-lo com a realidade".

Concluindo, e segundo os mesmos autores (1988) "todos os

isomorfismos são análogos, mas todas as analogias não são

isomorfismos".

3.2.2. As implicações da inadequação do grau identidade do exercício

A inadequação do grau de identidade do exercício de treino à lógica da

modalidade desportiva em análise, ou à capacidade do(s) praticante(s)

não é somente supérfluo, como também negativo, pois, determinará para

além dos elevados custos na mobilização dos diferentes recursos de

suporte à efectivação da acção, implicações na estabilização dos

comportamentos motores em fase de aprendizagem, como naqueles que

já foram adquiridos e aperfeiçoados.

Neste contexto, importa salientar o factor velocidade - intensidade de

execução das acções motoras que estão na base da resolução dos

problemas postos pelas situações competitivas. Com efeito, observamos

que estas se desenvolvem numa estrutura temporal que consubstancia,

um ritmo, um tempo, uma orientação, que por si estabelece um sentido.

"A acção motora está inteiramente emergida no tempo, não somente

porque o utiliza, mas também porque joga estrategicamente com esta, em

particular utilizando variações de velocidade de execução em função dos

adversários" (Grehaigne, 1992), e da sua organização colectiva.

Duas situações semelhantes em todos os outros aspectos, não são

idênticas se uma é executada mais rapidamente que a outra, apesar de,

aparente e formalmente - carácter externo - ser o mesmo, pois, a

Page 69: Metodologia Do Treino Desportivo

44 • Metodologia do treino desportivo I !

velocidade entra na composição de uma forma tão decisiva que modifica

as intenções e os significados do conteúdo das situações competitivas, e

por inerência o grau de identidade do exercício de treino.

Concluindo, neste contexto, quanto mais o exercício de treino reproduzir

parcial ou integralmente a lógica ou parte dessa lógica (fases) interna da

modalidade, maior será o seu grau de identidade, por via de razão, quanto

maior for este grau maior será a especificidade do exercício.

Esclarecido as bases da elevação e desenvolvimento do rendimento

desportivo, a importância do exercício encarada como a célula base a

partir do qual todo o processo de treino se consubstancia, definido e

caracterizado o exercício de treino, iremos continuar a aprofundar esta

problemática equacionando duas vertentes fundamentais dos quais

derivam directamente dois domínios de análise da questão:

• qual é a utilidade do exercício de treino (domínio funcional, isto é a

sua natureza); e,

• qual é a sua composição (domínio morfológico, isto é, a sua

estrutura).

4. A natureza do exercício de treino

A natureza do exercício de treino radica-se essencialmente em solicitar aos

praticantes a mobilização de um conjunto de recursos informacionais,

energéticos e afectivos, de forma:

• a decifrar e a descoadificar continuamente a dinâmica das interacções

observadas no contexto da situação estabelecida, e,

• a executar a solução mais adaptada à situação problemática, através de

acções significativas, orientadas em relação a um objectivo pré-

estabelecido.

Page 70: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 45

Por outras palavras, procura-se adquirir conhecimentos subjectivamente novos

que consubstanciam uma modificação/melhoria das atitudes, dos

comportamentos, das capacidades, dos conhecimentos, das aptidões, etc., que

os praticantes possuem. Neste contexto, a natureza dos exercícios de treino é

estabelecer as condições fundamentais e favoráveis sobre o qual se desenvolve

a actividade cognitiva e motora dos praticantes, os quais ampliaram

significativamente as suas capacidades adaptativas às situações problemáticas.

Escolhendo não só, a resposta mais eficaz entre várias possíveis, como se

auto-aperfeiçoam ao mesmo tempo que se resolve o problema posto.

Do exposto, e tal como referimos, a natureza do exercício de treino

consubstancia a mobilização de um conjunto de recursos, todavia, estes não se

constituem como compartimentos estanques, existe sim, uma relação íntima

entre eles, e a concretização eficiente do exercício só é possível graças ao

"trabalho" conjunto de todos os recursos. Todavia, é preciso ter presente que o

mesmo, ou diferentes exercício(s) de treino, podem ser orientados para atingir

efeitos de dimensão selectiva ou de dimensão acumulativa (que deriva do grau

de maturidade dos praticantes), o que por si só irá provocar naturalmente uma

incidência principal do exercício (solicitação determinante) e uma secundária

(mobilização acessória), estabelecendo um recrutamento diferenciado dos

recursos informacionais, energéticos e afectivos.

Apesar do referido, podemos afirmar, que o exercício de treino solicita duas

realidades diferentes mas interdependentes (Famose, 1990):

a diversidade de recursos mobilizados: embora o exercício de treino seja

um fenómeno global e integrado, isto é, todos os recursos referenciados são

mobilizados, a verdade é que a participação de cada um destes na sua

realização apresenta um grau diferenciado; e,

o grau (nível) de mobilização: um exercício de treino com uma

dificuldade objectiva necessitará de uma mobilização mais ou menos

importante de um dado recurso para ultrapassar as dificuldades impostas

Page 71: Metodologia Do Treino Desportivo

46 • Metodologia do treino desportivo I !

segundo a capacidade (competência-experiências anteriores) dos

praticantes.

Em jeito de conclusão, para um mesmo exercício de treino a diversidade e grau

de mobilização de recursos variam consoante a capacidade de evolução do

rendimento dos praticantes. Com efeito, à medida que os praticantes

aprendem/aperfeiçoam e desenvolvem as suas capacidades, o mesmo exercício

envolverá um menor grau de mobilização de recursos necessários para a

concretização dos objectivos para os quais o exercício foi

elaborado/construído.

4.1. O recurso informacional

O comportamento humano no seu envolvimento pode ser estudado de vários

ângulos e formas, contudo, a mais generalizada na actualidade baseia-se na

noção que o Homem é um processador de informação. Neste sentido, a

actividade motora dos praticantes de uma qualquer modalidade desportiva, é

procedida por um conjunto de operações do sistema nervoso central. O

movimento observável é, com efeito, o resultado final de uma cadeia

específica e complexa de tratamento de informação.

4.1.1. Definição do termo informação

O termo informação "no sentido restrito é definido pela quantidade de

incerteza reduzida logo que o estimulo se apresente" (Famose, 1990). A

incerteza existente antes do estimulo e a redução dessa incerteza após

este consubstancia a quantidade de informação. Logo, "estímulos com

certeza prévia possuem capacidade de informação nula e não produzem

surpresas. Pelo contrário, estímulos pouco prováveis têm uma grande

capacidade de informação" (Vadamer, e Glogler, 1977).

Page 72: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 47

Do exposto, podemos referir, que quanto maior for o número de

alternativas de resolução técnica e táctica de uma determinada situação

competitiva, maior será o número de informações que os praticantes

terão de tratar para atingir uma execução eficiente/adaptada às condições

estabelecidas pelo contexto da situação. Todavia, a quantidade da

informação depende, para além das características da situação

competitiva, do nível de aprendizagem e aperfeiçoamento do praticante

(dos seus conhecimentos, experiências, aptidões, capacidades anteriores).

Isto significa que, uma mesma situação pode confrontar diferentes

quantidades de informação (incerteza) dependendo do praticante em

questão, e eventualmente do seu nível momentâneo (estado de forma) de

rendimento.

4.1.2. As fases do tratamento da informação

De forma sucinta, podemos isolar três etapas sucessivas no tratamento da

informação que intervêm entre a apresentação do estimulo e o

movimento:

numa primeira etapa o praticante deverá detectar e identificar a

situação de jogo. Este necessitará de mais ou menos tratamento de

informação dependendo da incerteza deste e do seu reconhecimento

em comparação com as informações armazenadas na memória de

curto e longo prazo;

após a situação de jogo ser concretamente identificada o praticante

estabelece a selecção da resposta, isto é, o plano de acção transmitindo

uma sequência de directrizes específicas. Esta etapa para além da sua

importância na produção motora, reduz as alternativas possíveis à

resolução da situação, e ainda é utilizada como critério de comparação

com o movimento em curso (feedback); por fim,

Page 73: Metodologia Do Treino Desportivo

48 • Metodologia do treino desportivo I !

após a resposta ser seleccionada o sistema deve preparar-se para a

acção a desenrolar-se -programação da resposta. Nesta etapa os

comandos motores necessários são organizados e enviados em

direcção aos músculos para produzirem a acção motora desejada.

4.1.3. Os limites do recurso informacional

Contudo, há que ter em atenção, que "o ser humano quando processa

informação fá-lo de um modo limitado, isto é, só pode processar um

conjunto de informação de cada vez, e só pode fazê-lo a uma velocidade

limitada". Se os requisitos informacionais (quantidade de informação a

tratar pelos mecanismos perceptivos de decisão, de programação e as

potencialidades do praticante) do exercício a executar se aproximam ou

excedem as capacidades limitadas do sistema, então a performance é

afectada negativamente.

Hyman, citado por Famose (1990) refere inequivocamente uma função

linear entre o tempo de tratamento e a quantidade de informação. Os

maiores tempos estão associados às grandes quantidades de informação

independentemente da sua natureza (temporal, descriminação, etc.).

Neste sentido, por exemplo, uma situação de jogo em futebol com um

grande número de jogadores (companheiros e adversários) determinará

um maior número de informações a tratar, logo, um maior tempo de

decisão. A redução do espaço de jogo e consequentemente do número de

jogadores determinará não um maior número de informações a tratar,

mas uma maior velocidade de decidir e executar a solução do problema,

pois o jogador ao intervir com maior frequência sobre a bola terá que agir

mais rápida e assiduamente perante o jogo.

Page 74: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 49

Mem

ória

de

curt

o pr

azo

Memória de longo prazoM

emór

ia d

e lo

ngo

praz

o Mem

ória de longo prazo

B/ Selecção da resposta1. reduzir em função da opção escolhida as alternativas possíveis de resolução da situação e optar por uma2. Estabelecer o plano de acção através de directrizes específicas3. Utilizar esta fase para comparar com o movimento em curso

A/ Mecanismo da percepção1. Detectar o estímulo2. Codificar o estímulo de forma que seja perceptivel pelo SNC, transformar os estímulos físicos em biológicos3. Identificar o estímulo através da comparação com as informações na memória de longa duração

C/ Programação da resposta1. Receber o projecto domovimento recrutando oscomandos motores para aexecução do movimento2. Articular o projecto domovimento no espaço e notempo3. Enviar o projecto domovimento em direcção aomecanismo de execução

Mem

ória de curto prazo

Orgãos dos sentidos1. Ópticos2. Acústico3. Táctil4. Cinestésico

Sistema neuromuscular1. Inervação2. Contracção damusculatura

INPUT/Entrada(tomada de informação)

OUTPUT/Saída (movimento)

Resposta reflexa

Reaferências

Resposta imediatamovimentoautomatizado

Figura 5. As etapas de tratamento da informação que intervêm entre a apresentação do estímulo

e o movimento (adaptado de Weineck, 1986)

4.2. O recurso energético

Para que haja movimento é necessário que os músculos se contraiam, e estes

só trabalham se duas condições básicas ocorrerem: o sistema nervoso

central fornece o impulso nervoso necessário, e se dispuserem de energia.

Com efeito, os músculos transformam a energia (química) que lhes é

fornecida em trabalho mecânico (movimento).

4.2.1. As reacções para a produção de energia

Existem várias formas de energia, no entanto, aquela que neste momento

nos interessa, é fundamentalmente a transformação da energia química

Page 75: Metodologia Do Treino Desportivo

50 • Metodologia do treino desportivo I !

em mecânica ao nível da fibra muscular esquelética. O ATP (ácido

adenosico trifosfórico), existe no interior das fibras musculares que ao

cindir-se em ADP (ácido adenosico difosfórico) + P (fósforo) liberta

energia a qual constitui-se como a fonte directa de energia utilizável para

a contracção muscular. Sempre que a fibra muscular disponha de ATP,

esta pode contrair-se, todavia, as reservas deste ácido ao nível dos

músculos são muito limitadas, o que determina a necessidade de se

assegurar a ressíntese do ATP.

Esta ressíntese é efectuada a partir de combustões que para se realizarem

necessitam de um combustível (alimentos) e um comburente (oxigénio):

alimentos, através de duas vias:

• hidratos de carbono (açucares) glicose + oxigénio

energia; ou,

• lípidos (gorduras) ácidos gordos + oxigénio energia; e,

do oxigénio, que é retirado do ar atmosférico pelos pulmões e

transportado pelo sangue até às fibras musculares onde se encontra

com a glicose estabelecendo-se a combustão da qual se liberta energia,

dióxido de carbono (CO2) e água (O2).

4.2.2. Os limites do recurso energético

No nosso organismo o factor limitativo do trabalho muscular não é a falta

de alimentos, mas sim do oxigénio. Os músculos dispõem normalmente

de hidratos de carbono (açúcares) e lípidos (gorduras) armazenados que

chegam para as necessidades impostas pela vida diária e pelos exercícios

de treino. Em relação ao oxigénio pese embora este existir em grandes

quantidades na atmosfera, a capacidade do ser humano em captar (pelos

pulmões), em fixar (trocas alvéolo-capilar), em transportar (pelo sangue

graças ao trabalho do coração), e em consumir (pelos músculos) é

limitada.

Page 76: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 51

4.2.3. As vias de produção energética

O nosso organismo realiza permanentemente reacções (mesmo quando

estamos em repouso), e à medida que se intensifica o trabalho, aumenta o

consumo de alimentos e de oxigénio. Mas existem momentos que a

quantidade de oxigénio de que dispomos não chega para as necessidades,

o que não quer dizer que seremos obrigados a parar, pois, mesmo que

falte oxigénio podemos continuar o trabalho (dentro de certos limites de

intensidade e de duração). Portanto, o nosso organismo pode produzir

energia com oxigénio (trabalho aeróbio) e sem oxigénio (trabalho

anaeróbio). Chegados a este ponto, facilmente compreendemos que, por

um lado, toda actividade humana está ligada a uma despesa energética e,

por outro, diferentes praticantes terão igualmente diferentes capacidades

de produzir energia com oxigénio (capacidade aeróbia) e sem oxigénio

(capacidade anaeróbia).

Neste sentido, o ser humano possui três processos para produzir energia,

também denominado de fontes energéticas para a contracção muscular: i)

anaeróbio aláctico, ii) anaeróbio láctico e, iii) aeróbio.

4.2.3.1. O processo anaeróbio aláctico

As células musculares têm a capacidade de armazenar ATP. Todavia,

esta constitui-se como uma pequena reserva que se esgota

rapidamente. Para além do ATP, a célula muscular armazena

igualmente um composto químico denominado de Creatina fosfato

(CP), cuja função principal é o de regenerar o ATP e permitir, com

efeito, a continuidade da contracção muscular. Este processo de

produção de energia, embora muito potente, esgota-se rapidamente e

só poderá ser utilizado durante 8 a 12 segundos. Neste contexto,

quando um determinado exercício é caracterizado por uma intensidade

Page 77: Metodologia Do Treino Desportivo

52 • Metodologia do treino desportivo I !

máxima (98 a 100%) e de curta duração (não superior a 15 segundos),

é este sistema energético que é preferencialmente utilizado. Esta fonte

energética é denominada de anaeróbia, porque não utiliza o oxigénio,

e aláctica porque não há produção de ácido láctico.

4.2.3.2. O processo anaeróbio láctico

Para além das reservas de ATP e CP as células musculares contêm

igualmente reservas de glicogénio que têm por objectivo produzir

energia para a ressíntes das reservas de ATP e CP. Neste contexto,

quando o exercício é caracterizado por uma intensidade próximo do

máximo (90 a 98%), e uma duração entre os 30 segundos e os 2

minutos é este sistema energético que é preferencialmente utilizado. O

factor limitativo na utilização deste sistema energético é a acumulação

do ácido láctico, e a capacidade do praticante em lhe resistir, dai que,

praticantes treinados poderão aumentar a duração do exercício, nas

condições indicadas, para próximo dos três minutos. Este processo de

produção de energia é denominado de anaeróbio porque não utiliza o

oxigénio, e láctico porque existe a produção de ácido láctico

(composto químico que quando atinge concentrações elevadas é factor

limitativo da continuidade do trabalho muscular.

4.2.3.3. O processo aeróbio

Este processo de produção de energia utiliza como substratos

energéticos não só os glúcidos (glicose) como também os lípidos, os

quais na presença do oxigénio não se transformam em ácido láctico,

mas sim em ácido pirúvico, que por reacções químicas sucessivas

produz dióxido de carbono (CO2) e água (HO2), com a produção

simultânea de grandes quantidades de ATP. Neste contexto, quando o

exercício é caracterizado por uma intensidade submáxima (60 a 70%)

e uma longa duração, este sistema energético é preferencialmente

Page 78: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 53

utilizado. Em termos bioquímicos esta fonte é inesgotável, podendo

ser utilizada sempre que exista oxigénio e alimentos passíveis de

oxidação. Neste caso o factor limitativo para a utilização desta fonte

energética situam-se ao nível das grandes funções orgânicas,

principalmente aquelas que condicionam um melhor consumo de

oxigénio (captação pelos pulmões, fixação pelos alvéolos/capilares,

transporte pelo sistema cardiovascular, e utilização ao nível da célula

muscular).

ATP+CP (fontes energéticas imediatas)

Fonte energética oxidativa

Fonte energática não oxidativa

10'' 30'' 2' 5'Duração (tempo)

100%

Os

três

pro

cess

os

de

pro

duçã

o d

e en

ergia

Figura 6. Sequência da produção de energia

4.2.4. As relações entre o custo energético e o gesto motor

Na actualidade muitos autores se têm debruçado sobre as relações

existentes entre as características mecânicas do acto motor - gesto

técnico, e os custos energéticos inerentes à sua execução. Para além desta

determinação procura-se estabelecer as relações quantificáveis entre o

potencial energético disponível (o que o organismo é capaz de produzir)

e o que é efectivamente utilizável na realização da acção motora. Esta

relação decerto constituirá, segundo Proença (1990) "a principal base

explicativa do desempenho competitivo de alguns atletas... A

perfectibilidade das capacidades técnico-coordenativas expressão da

coordenação intra e inter-muscular na execução do gesto motor,

condiciona o aproveitamento da energia mecânica produzida, logo é

possível economizar energia devido ao melhoramento desta

capacidade".

Page 79: Metodologia Do Treino Desportivo

54 • Metodologia do treino desportivo I !

4.3. O recurso afectivo

A afectividade é a ressonância emocional de toda a vivência. Quer dizer, é o

tónus psicofísico, agradável ou desagradável, com o qual vivemos

subjectivamente cada experiência, seja ela passiva ou activa. A afectividade

contém 3 componentes fundamentais:

os sentimentos: é tudo quanto há de psíquico que não pertença à

consciência objectiva ou à esfera intelectual - sensação, percepção,

ideias, juízos, etc.- nem ao impulso instintivo;

as emoções: são a exageração de um sentimento. A emoção é também

um fenómeno social: existe uma rica interacção emotiva entre o

indivíduo e o grupo Com recíprocas possibilidades de influência. O

pânico é um típico caso de contágio emotivo; e,

o humor: é um sentimento mais complexo e mais duradouro. É

influenciado pelos acontecimentos mas, ao mesmo tempo, condiciona os

seguintes. O estado de humor representa a soma de todos os sentimentos

presentes num determinado estado de consciência.

Nestas circunstâncias, "é por demais evidente o papel central da

afectividade na realização de qualquer acto. Fazemos melhor e mais

facilmente aquilo que nos dá prazer. Aprendemos mais e em menos tempo,

repetimos sem fastio, reduzimos as margens do impossível. A tonalidade

afectiva, impregna todo o nosso comportamento, constituindo-se no

fundamento motivacional determinante do empenhamento numa qualquer

tarefa e, quantas vezes, é mesmo o seu principal motor" (Proença, 1990). 5. A estrutura do exercício de treino

Da definição de exercício de treino ressalta o facto deste conter em si, uma

estrutura que é função de quatro componentes fundamentais que estão em

estreita relação, e formam uma unidade indivisível condicionando-se uns aos

outros. Neste contexto, podemos afirmar que o exercício de treino depende da

qualidade de resposta as seguintes questões:

Page 80: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 55

• que objectivos se pretende atingir?;

• que conteúdos técnicos, tácticos, físicos, etc., se pretende aprender ou

aperfeiçoar?;

• que formas de organização dos conteúdos estabelecidos se deve utilizar

para alcançar aqueles objectivos?; e,

• que nível de performance se deve observar para que o exercício tenha

atingido o objectivo pretendido?. 5.1. O objectivo

O estabelecimento do(s) objectivo(s) do(s) exercício(s) de treino baseiam-se

essencialmente em dois factores:

• na análise dos níveis actuais de prestação dos praticantes ou da equipa,

e

• no prognóstico das acções subsequentes e consequentes à elevação

desse mesmo rendimento.

Neste sentido, esta componente baseia-se na análise do passado e na

perspectivação do futuro, de forma a operacionalizar com um baixo nível de

abstracção, precisando quais os aspectos específicos da modalidade em

causa que devem ser trabalhados e por via disso melhorados. O objectivo do

exercício de treino poderá ser:

selectivo: quando o exercício é construído por forma que o seu

conteúdo é preferencialmente orientado para um problema preciso,

qualquer que ele seja;

múltiplo: quando o exercício é construído por forma que o seu

conteúdo seja orientado para diferentes problemas.

Os praticantes de elevado nível de rendimento utilizam preferencialmente

exercícios com objectivos selectivos, enquanto que os exercícios com

objectivos múltiplos têm um carácter auxiliar. Pelo contrário, os praticantes

com níveis de rendimento médio utilizam preferencialmente exercícios de

treino com objectivos múltiplos e aumentam de forma progressiva a

utilização de exercícios selectivos.

Page 81: Metodologia Do Treino Desportivo

56 • Metodologia do treino desportivo I !

5.2. O conteúdo

Uma vez estabelecido o que se deve treinar é necessário questionar-mo-nos

sobre a segunda componente, que conteúdos vamos utilizar para alcançar os

objectivos preconizados. O conteúdo diz respeito à totalidade dos elementos

técnicos, tácticos, físicos individuais (passe, remate, drible, etc.,) e

colectivos (combinações tácticas, deslocamentos ofensivos e defensivos,

etc.,) expressos ou não com oposição do adversário, com vista a atingir o

melhoramento dos praticantes num momento particular da competição.

Com efeito, o conteúdo do exercício de treino contem em si os elementos

(factores) decisivos para a execução correcta na qual o êxito da sua

aplicação em competição está dependente da sua aprendizagem e da sua

eficiência. É incontestável a importância do seleccionamento do conteúdo

do(s) exercício(s) de treino na promoção do desenvolvimento do rendimento

desportivos dos praticantes e das equipas. Com efeito, a adequação dos

meios a utilizar durante o treino requer, hoje particular atenção e reveste-se

de grande significado quando se pretende a maior eficiência possível na

obtenção dos objectivos de treino.

5.3. A Forma

A forma é definida pela organização que se estabelece a partir dos

elementos técnicos, tácticos e físicos considerados no conteúdo do

exercício. Com efeito, dois ou mais exercícios de treino cujo conteúdo é

idêntico, poderam provocar efeitos-adaptações completamente distintos,

pelo "simples" facto de o arranjo sistemático desse conteúdo consubstanciar

uma diferente organização. Neste sentido, teremos de considerar que os

exercícios são essencialmente diferentes, quando diferem no seu conteúdo

e/ou na sua forma de organização quer no plano motor, cognitivo,

fisiológico ou psicológico.

Page 82: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 57

A forma do exercício de treino deverá ter sempre em conta os princípios

pedagógicos e metodológicos do treino, principalmente no que diz respeito

à aplicação da carga e às suas componentes. Este último facto, assume

especial relevância e complexidade nas modalidades em que é necessário

trabalhar com elevado número de praticantes, os quais deverão cumprir o

objectivo e os detalhes determinados pelo conteúdo do exercício,

respeitando-se com igual rigor e exigência no que concerne aos aspectos da

duração, intensidade, densidade, e frequência.

5.4. O nível de performance

O nível de performance corresponde ao resultado obtido pelo(s)

praticante(s) logo após a execução das actividades inerentes ao exercício de

treino seleccionado. Com efeito, o conhecimento desse resultado e a sua

comparação ao objectivo definido pelo exercício, consubstancia o grau de

discrepância entre a performance que se deveria atingir e a performance que

se atingiu.

Este grau diferencial indica de imediato duas vertentes fundamentais, que o

professor/treinador deverá equacionar, por um lado, estabelece ou não a

possibilidade da eventual reformulação de uma ou de todas as componentes

da estrutura do exercício de treino, e por outro lado, indica qual ou quais os

elementos (aspectos) que influenciam de forma negativa a performance

global do(s) praticante(s) e que devem ser posteriormente corrigidos. Por

último, o nível de performance poderá ser exprimido em termos de êxito ou

inêxito (por exemplo: executou ou não executou), ou sob a forma de score

(por exemplo: em 10 remates à baliza conseguir 6 golos).

Concluindo, os diferentes componentes referidos que consubstanciam o

exercício de treino formam uma unidade e uma articulação com uma

coerência interna própria que é preciso conhecer e respeitar. Todavia, a sua

Page 83: Metodologia Do Treino Desportivo

58 • Metodologia do treino desportivo I !

compartimentação possibilita, dentro de certos limites, ao

professor/treinador intervir minimamente em qualquer uma dessas

componentes, sem necessitar de alterar as outras.

6. As componentes estruturais do exercício de treino

Definido o domínio funcional (natureza) e o domínio morfológico (estrutura)

do exercício de treino, iremos seguidamente analisar as suas componentes

estruturais no plano fisiológico e no plano técnico-táctico, bem como os

princípios de índole biológica, morfológica, e pedagógica de forma a controlar

a actividade prática na procura de uma maior eficácia na sua aplicação.

6.1. No plano fisiológico

A eficácia do processo de treino, e concomitantemente dos exercícios de

treino que lhe estão na base, na melhoria do rendimento dos praticantes,

baseia-se na capacidade que o ser humano tem de:

reagir a estímulos exteriores que perturbam o seu equilíbrio biológico

(homeostase), quando estes possuem uma certa intensidade. A

problemática do treino tem encontrado na teoria do síndroma geral da

adaptação (S.G.A.), a base racional para explicar os fenómenos gerais da

relação entre a aplicação das cargas de treino e as reacções do organismo

a esse esforço. O S.G.A., segundo Selye (1956), é a reacção do

organismo aos estímulos que provocam adaptações ou danos. Por outras

palavras, é a resposta adaptativa e não específica do organismo a toda

causa que ponha em causa o seu equilíbrio biológico. Ao complexo

mundo de estimulações físicas, químicas, sensoriais, etc, o organismo

responde (para um esforço de baixa intensidade e de longa duração) em

três fases:

• fase de alarme: mobilização dos meios de defesa do organismo que

se traduz pela actividade das estruturas de vigilância e neuro-

vegetativas;

Page 84: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 59

• fase de adaptação ou resistência: é a resposta óptima à agressão que

se caracteriza pela adaptação respiratória, cardiovascular, metabólica,

etc., (esta é a fase que nos interessa desenvolver, pretende-se assim,

que o(s) praticante(s) se mantenham nesta fase e evitar passar para

fase seguinte; e,

• fase de esgotamento ou readaptação: diminuição das resistências

biológicas. Alterações do equilíbrio interno, a fadiga produzida torna

forçoso parar o esforço.

Figura 7. Síndroma Geral de adaptação (Selye, 1956)

adaptar-se à situação, quando os estímulos são aplicados regular,

metódica e sistematicamente criando um novo estado de equilíbrio

qualitativamente superior através das progressivas modificações

neurológicas, biológicas, fisiológicas e psicológicas. O ser humano

modifica-se permanentemente. Com efeito, uma melhor capacidade de

rendimento dos praticantes tem por base uma melhor organização

estrutural dos diferentes recursos que consubstanciaram a adaptação aos

diferentes estímulos.

A aplicação de estímulos ou cargas, conduzem primeiramente o

organismo humano a um processo de desorganização estrutural, isto é, de

diminuição progressiva das suas capacidades (parabiose-fadiga), até a

carga finalizar a sua activação, surge assim um estado de incapacidade

funcional na estrutura ou estruturas que foram predominantemente

solicitadas pela carga. Logo após o esforço, e mesmo durante este,

começa a processar-se a reorganização estrutural (regeneração), o qual

não só atingirá o nível inicial como também o ultrapassa (fase de

Page 85: Metodologia Do Treino Desportivo

60 • Metodologia do treino desportivo I !

super-compensação) em que as capacidades funcionais dos praticantes

estão momentaneamente aumentadas.

Nível

Inicial

Adaptação

Fadiga

Tempo de treino

(dias, semanas, meses)

Carga

Regeneração

Curva de Folbort

Figura 8. A curva de Folbort

Perante os factos acima referidos, os exercícios de treino são os estímulos

que irão actuar sobre as diferentes estruturas do organismo. Logo, compete

ao professor/treinador seleccionar, e conduzir os exercícios com precisão e

rigor de forma a atingir os objectivos pretendidos para cada nível de

aprendizagem, aperfeiçoamento e desenvolvimento dos praticantes. Neste

contexto, para que isto aconteça é necessário: conhecer, adequar e

relacionar, inequivocamente os parâmetros das componentes estruturais do

treino, manipulando-os em função das circunstâncias objectivas nos quais o

exercício se desenvolve.

Figura 9. Níveis de concentração de glicogénio muscular no rato após o esforço, em função

do tempo de recuperação

6.1.1. A duração

A duração é caracterizada pelo tempo que demora a executar um

exercício ou uma série de exercícios, sem interrupção. Com efeito, a

duração corresponde ao período efectivo de tempo que o exercício(s)

Page 86: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 61

actuam sobre o organismo, sem pausas medindo-se em unidades de

tempo (horas, minutos, segundos).

6.1.2. O volume

O volume representa a quantidade total da carga efectuada pelos

praticantes num exercício, numa unidade de treino, ou num ciclo de

treino. Poderá ser expresso de muitas e diferentes formas, tais como

quilómetros, metros, quilogramas, número de repetições de um

determinado elemento técnico, horas, minutos, número de treinos etc. Os

conceitos das componentes duração e volume são semelhantes o que se

traduz em muitos casos numa identificação total entre ambos. Esta

semelhança pode ser ultrapassada se considerarmos o conceito de

duração como o volume efectivo da carga sem pausas, e o conceito de

volume como a duração total da carga incluindo naturalmente as pausas

entre os exercícios.

6.1.3. A Intensidade

De uma forma geral, a intensidade pode ser definida pela quantidade de

trabalho realizado na unidade de tempo. Todavia, esta definição parece-

nos não ser adequada para todas modalidades desportivas. Com efeito, a

intensidade deverá ser caracterizada pela exigência com que um

exercício ou série de exercícios são executados em relação ao máximo de

possibilidades do praticante ou da equipa, nesse ou nesses exercícios.

A intensidade do exercício poderá ser avaliado de acordo com a reacção

biológica do organismo ao esforço. Os indicadores mais utilizados,

embora nem todos possam ser aplicados durante a unidade de treino são:

• a frequência cardíaca;

• a ventilação pulmonar;

• o consumo de oxigénio;

Page 87: Metodologia Do Treino Desportivo

62 • Metodologia do treino desportivo I !

• a concentração sanguínea em lactatos;

• sinais exteriores do estado do atleta.

A intensidade pode ser avaliada durante o treino a partir da percentagem

em relação ao máximo de possibilidades do praticante utilizando

simultaneamente um indicador da reacção do organismo ao esforço - a

frequência cardíaca. Isto é possível especialmente nos desportos de

resistência, para os quais existem escalas percentuais que se traduzem

como meios referenciais que ajudam o treinador/professor a manipular e

a controlar a intensidade do(s) exercício(s).

Figura 10. Escala percentual para o treino da resistência

6.1.3.1. As relações entre a intensidade e o volume

Como facilmente se depreende, existe uma estreita dependência entre

o volume e a intensidade, pois, cargas muito intensas conduzem

rapidamente a um estado de fadiga e são tolerados durante pouco

tempo. Por outro lado, cargas pouco intensas são toleradas durante

muito tempo e não conduzem rapidamente a um estado de fadiga.

O volume e a intensidade do trabalho podem aumentar

simultaneamente, mas até um determinado limite. Para lá deste, o

volume provoca uma estabilização da intensidade e, logo, uma

diminuição da mesma. Inversamente, em certas etapas do processo de

treino há que estabilizar e mesmo diminuir o volume da carga, para se

poder alcançar o suficiente nível de intensidade.

% em relação ao máximo

Frequência cardíaca/minuto

Grau de intensidade

30 a 50 % 130 - 140 fraca 50 a 60% 140 - 150 leve 60 a 75% 150 - 165 média 75 a 85% 165 - 180 submáxima 85 a 100% + 180 máxima

Page 88: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 63

A diferença entre a dinâmica de ambas realidades,

volume-intensidade, está relacionado com os peculiares efeitos de

treino nos diferentes momentos do mesmo. Quando se procura

processos de adaptação a longo prazo, isto é, provocar variações

funcionais e estruturais maiores, aumenta-se sobretudo o volume da

carga. Se nos interessa melhorar rapidamente a capacidade de

rendimento desportivo, então há que dar importância primordial à

intensidade. Nestas circunstâncias, a intensidade de carga imprime a

direcção dos processos de adaptação do organismo, enquanto que o

volume vai definir o grau de profundidade dessa adaptação mas sem

alterar a sua direcção.

Figura 11. As relações estabelecidas entre volume e intensidade

Quando se torna necessário aumentar a carga de treino, o volume será

a primeira componente a ser aumentada. Todavia, o aumento do

volume não provoca de imediato uma melhoria do rendimento

competitivo, pelo contrário, um volume de carga suficientemente

elevado, pode mesmo, ao princípio, fazer baixar os rendimentos,

porque durante esse tempo estão a verificar-se as variações

adaptativas necessárias. Por conseguinte, o abaixamento dos

rendimentos nem sempre são devidos às variações readaptativas do

organismo mas sim às variações de adaptação em curso que ainda não

acabaram. Neste sentido, o volume da carga desempenha um papel

primordial na criação das bases necessárias para uma evolução ulterior

dos rendimentos desportivos, sendo a intensidade o factor

Page 89: Metodologia Do Treino Desportivo

64 • Metodologia do treino desportivo I !

preponderante na estimulação e desenvolvimento do rendimento sobre

a base funcional criada pelo volume.

6.1.4. A Densidade

A densidade é caracterizada pela relação temporal entre carga - exercício

ou série de exercícios realizados e o repouso na unidade de tempo. Mais

concretamente a densidade representa as pausas utilizadas entre os

exercícios para que haja uma relação óptima entre exercício e

recuperação.

É vulgar diferenciar-se as pausas em:

completas: visam essencialmente que os praticantes efectuem uma

recuperação que lhes permita, efectuar o mesmo, ou um diferente

exercício, em condições mínimas de fadiga, isto é, já não sintam os

efeitos do exercício anterior;

incompletas: visam essencialmente que os praticantes efectuem

uma recuperação de forma que ao iniciar o exercício seguinte ainda se

faça sentir os efeitos do exercício anterior, procurando assim acelerar,

ainda durante o treino, os processos de adaptação do organismo.

As diferentes tipos de pausas dependem de muitos e diferentes aspectos,

vejamos os principais:

• da modalidade desportiva;

• do conteúdo de exercício;

• do volume e intensidade da unidade de treino;

• dos objectivos da unidade de treino;

• do estado de forma ou de rendimento dos praticantes, etc.

Por último, há ainda a considerar ao nível das pausas a forma como elas

decorrem, podendo ser:

activas: durante a pausa entre dois exercícios contíguos os

praticantes executam acções complementares de forma a acelerar os

processos de recuperação; e,

Page 90: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 65

passiva: durante o qual os praticantes não executam nenhuns

exercícios complementares ou adicionais.

EsforçoPausa

1/3 2/3 3/3

Tempo

Pausa incompleta

Pausa completa

Figura 12. As pausas completas e incompletas

6.1.5. A Frequência

A frequência é caracterizada pelo número de repetições de um exercício

ou série de exercícios na unidade de tempo. Esta componente está

intimamente ligada à duração, intensidade e densidade, pois, quanto

maior for cada uma destas menor será a frequência.

6.2. No plano técnico-táctico

Dos vários autores consultados, tais como Bayer (1974, 1979), Teissie

(1970), Wade (1978), Gratereau (1963), Dietrich (1978), Hughes (1973,

1990), Dufour (1972), Mercier (1985), Heddergott (1978), Michels (1981),

Palfai (1982), Caron (1976), entre outros, evidenciam no desenvolvimento

dos seus exercícios técnico-tácticos três invariantes estruturais

fundamentais: o número, o espaço e o tempo.

6.2.1. O número

No plano da construção dos exercícios de treino técnico-táctico, a

invariante número é de fundamental importância porque, ao diminuirmos

o número de praticantes envolvidos num exercício aumentamos

claramente o número de possibilidades destes serem solicitados para a

Page 91: Metodologia Do Treino Desportivo

66 • Metodologia do treino desportivo I !

execução das acções programadas. Por outras palavras, a redução do

número de praticantes irá aumentar o número de vezes que estes podem

relacionar-se de forma:

• directa com a bola; ou,

• próximo dos companheiros e adversários que num dado momento a

detêm; e,

• tão ou mais importante, serem eles próprios a concretizarem o

objectivo final estabelecido para o exercício (por exemplo:

lançamento, remate, recuperar a bola, etc.).

Consequentemente, ao aumentarmos o número de possibilidades de

solicitação dos praticantes consubstancia-se a oportunidade destes

desenvolverem os aspectos técnico-tácticos não só de ordem individual

(relação com a bola - acção técnica) como de ordem colectiva (relação

com os companheiros -combinações tácticas).

Máxima Média Mínima

Densidade do exercício

Máxima

Média

Mínima

Mínima

Média

Máxima

MáximaMédiaMínima

Volume do exercício

Inte

nsi

dad

e do e

xer

cíci

o

Núm

ero d

e re

pet

ições

do e

xer

cíci

o

Figura 13. As relações estabelecidas entre o volume, a intensidade, a densidade, e a

frequência (número de repetições)

6.2.2. O espaço

"Todo o desporto assenta sobre uma definição de espaço..." Com efeito,

"qualquer prova desportiva evolui no interior de um campo fechado no

qual todas as acções são canalizadas no interior das fronteiras que o

Page 92: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 67

espaço em si encerra, e para lá deste o jogo não tem sentido" (Parlebas,

1974). No plano da construção dos exercícios de treino técnico-táctico, é

preciso ter presente que cada praticante encontra-se confrontado por

espaços dinâmicos funcionalmente ligados entre si, que se modificam:

• em função das tarefas que lhes são determinadas;

• da evolução das acções programadas; e,

• do tempo para as executar.

Com efeito, ao diminuirmos o espaço, maiores serão as dificuldades

encontradas pelos praticantes na concretização dos objectivos

consubstanciados pelos conteúdos dos exercícios de treino. Este facto

deriva de que quanto menor for o espaço, menor será o tempo que os

praticantes possuem para analisar a situação, e executar as acções

técnicas correspondentes à sua solução, o que implica consequentemente

um aumento da velocidade e do ritmo de execução das acções individuais

e colectivas, diminuindo a eficiência estabelecida para a concretização

dos objectivos propostos. Neste sentido, "à que adequar o espaço de

forma precisa, visto que entre o espaço e a actividade desenvolvida pelos

praticantes existe uma relação directa e precisa" (Queiroz, 1986).

6.2.3. O tempo

A resolução eficaz das situações de jogo é consequência de dois

parâmetros fundamentais: "a velocidade com que se encontra a solução

do problema, e, a adequação dessa solução a essa mesma situação"

(Mahlo, 1966). A rapidez e a adequação são duas qualidades que

interagem em sentidos inversos. Isto significa que a solução dos

problemas postos pelo jogo, é tanto mais adequada, quanto o jogador

pode reflectir essa situação durante mais tempo. Se considerarmos o

tempo reduzido que o jogador dispõe para resolver durante o jogo os

problemas postos, torna-se claro que a actividade no seu conjunto, não

pode atingir a correcção absoluta. Logo, é o grau de adequação de cada

Page 93: Metodologia Do Treino Desportivo

68 • Metodologia do treino desportivo I !

uma das acções no seu seio da actividade colectiva global que caracteriza

o nível táctico de um jogador e, em definitivo, de uma equipa.

Com efeito, a invariável tempo está estritamente ligado ao espaço, isto

significa que são interdependentes quanto mais temos de um mais temos

do outro. Quanto mais tempo tiver para agir, maior margem de erro é

possível por parte do jogador. Queiroz (1986), citando Helmut Schon,

refere que "o rendimento de um jogador está directamente relacionado

pelo factor tempo e pelo factor espaço, isto é, a eficácia técnica depende

de um complexo de variáveis técnicas e tácticas desenvolvidas em

competição que podem, ou não, perturbar o jogador quando se o

pressiona pelo tempo e se o priva de espaço".

6.2.4. A Complexidade

Em qualquer situação competitiva observa-se a conjugação constante do

número, do espaço, e do tempo, que reflectem intrinsecamente uma certa

complexidade. A complexidade da situação representa assim, as

condições de execução, ou seja, o conjunto de condicionantes que irão

fundamentar as razões da opção de um certo comportamento em

detrimento de outros, e que deverá ser o mais adaptado à situação

competitiva (iremos voltar a este problema da complexidade quando

diferenciarmos este conceito com o da dificuldade quando nos

debruçarmos nas bases da eficiência do exercício de treino).

Do mesmo modo, no que se refere à construção dos exercícios de treino

técnico-táctico é de primordial importância que exista uma interrelação

óptima entre o número-espaço-tempo. A adequação eficaz e ajustada

destas invariantes permitirá estabelecer um número de solicitações

correcta dos praticantes, em espaços correctos de actuação e com tempo

correctos para analisar e executar, de forma a consubstanciar uma

aquisição e assimilação das soluções tácticas e das execuções técnicas

diferentes, em função da variabilidade dos dados da situação.

Page 94: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 69

E

T

N

CC

C +

-

nível

de

complexidade

Figura 14. As invariantes estruturais do exercício no plano técnico-táctico as suas

interrelações e os níveis de complexidade

Neste contexto, a relação estabelecida entre o número-espaço-tempo

determinam, consequente e continuamente um certo grau (nível) de

complexidade que poderá ser aumentado ou diminuído consoante as

modificações operadas numa ou mais invariantes, e do grau de alteração

das relações estabelecidas entre estas. Com efeito, é necessário conhecer

profundamente as implicações de cada invariante (que se mantêm

funcionalmente interdependentes) e a sua articulação interna com as

outras, de forma a estabelecer um grau de complexidade do exercício de

treino concordante: i) com o nível de rendimento dos praticantes e da

equipa, e, ii) com a lógica interna da modalidade em causa. Permitindo

assim, controlar de forma segura os efeitos finais do exercício

procurando estabelecer um elevado grau de significação com os

objectivos delineados.

Para além dos raciocínios expressos, é importante, embora de forma

sucinta, analisar o parâmetro complexidade dos exercícios de treino sob

dois ângulos essenciais, cuja a sua consciencialização determina uma

maior eficiência e validade na aquisição e assimilação dos conteúdos

inerentes ao cumprimento dos objectivos que o determinam:

6.2.4.1. No domínio da velocidade de execução

Page 95: Metodologia Do Treino Desportivo

70 • Metodologia do treino desportivo I !

O aumento da velocidade de execução e do ritmo das acções em

competição na actualidade manifestam uma tendência para o seu

incremento, pois constitui-se como a única fórmula de desequilibrar o

sistema de forças do adversário. Logo, há que estabelecer um

compromisso realista nas invariantes técnico-tácticas dos exercícios

de treino, de forma a não diminuir deliberadamente a velocidade/ritmo

de execução das acções, mesmo que isso tenha reflexos evidentes na

eficiência e na precisão das acções. É preciso pois encontrar, uma

plataforma que consubstancie uma assimilação dos objectivos e dos

conteúdos dos exercícios de treino a uma velocidade máxima relativa,

isto é, nem demasiadamente elevada pondo em causa de forma

irredutível a sua eficiência, nem demasiadamente baixa que conduza a

análises e a execuções incorrectas do ponto de vista táctico, e do ponto

de vista técnico.

6.2.4.2. No domínio do esforço

No domínio do esforço, cabe assinalar que a modificação de qualquer

das invariantes técnico-tácticas referidas (número-espaço-tempo) e as

modificações interrelacionais que daí advêm, reflectem-se

inequivocamente nos parâmetros da intensidade do exercício, e por via

de consequência na relação duração-intensidade, obrigando assim a

reconsiderar a carga de treino. Isto significa a necessidade de adequar

a complexidade do exercício de treino às outras invariantes estruturais

no plano fisiológico. Tendo igualmente em atenção, que esta seja o

mais concordante possível com o modelo de esforço físico

estabelecido na competição para a modalidade em causa.

Concluindo, o que se pretende referir, é que toda a modificação de

uma ou mais invariantes quer ao nível técnico-táctico quer ao nível

fisiológico tem implicações estruturais as quais devem determinar

uma readaptação de todos os outros parâmetros de forma que os

Page 96: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 71

praticantes e as equipas possam em função: i) dos objectivos

estabelecidos, ii) do nível do rendimento e, iii) da lógica interna da

modalidade, conceptualizar uma metodologia na construção dos

exercícios de treino cujas invariantes propiciem as condições

essenciais para uma eficaz aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento.

7. A classificação dos exercícios de treino

No domínio da Teoria e Metodologia Geral do Treino existem actualmente

diversas classificações dos exercícios de treino, que advêm dos critérios

(pressupostos) estabelecidos. Com efeito, os exercícios de treino podem ser

classificados de acordo com o grau de dificuldade (A;B;C), outros de acordo

com o volume da massa muscular utilizada (parcial, regional, total), outros em

função do tipo de trabalho muscular (estático, dinâmico), etc.

Todavia, pensamos que os exercícios de treino poderam ser classificados sob

dois critérios fundamentais: i) o factor de treino predominante no conteúdo do

exercício, ii) em função do grau de identidade do exercício.

7.1. O factor de treino predominante no conteúdo do exercício

Esta classificação estabelece que factor técnico, táctico, ou físico é

predominante no conteúdo do exercício ou exercícios que constituem a

unidade de treino. Neste sentido, a dedução do tipo e número de factores

técnico, táctico, físico que integram o conteúdo do exercício e das suas

interrelações, consubstancia uma predominância que determina a seguinte

classificação: os exercícios técnicos, os exercícios tácticos, e os exercícios

físicos.

7.1.1. Exercícios técnicos

Page 97: Metodologia Do Treino Desportivo

72 • Metodologia do treino desportivo I !

É constituído por exercícios para aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento do factor técnico.

7.1.2. Exercícios tácticos

É constituído por exercícios para aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento do factor táctico.

7.1.3. Exercícios físicos

É constituído por exercícios para o desenvolvimento das qualidades

físicas.

Adicionalmente, em função do objectivo técnico e pedagógico que se

atribua a cada exercício de treino dever-se-à considerar numa segunda

análise a dominante e o regime do mesmo. Nesta perspectiva, e de acordo

com Teodorescu (1984), o(s) exercício(s) de treino podem ser divididos em

exercícios "técnico-tácticos" em regime de preparação física (por exemplo:

condução e remate em regime de velocidade, ou manutenção de posse de

bola em regime de resistência) ou exercícios de preparação física em regime

de execução técnico-táctica (por exemplo: velocidade em regime de passe e

remate, ou resistência em regime de marcação individual).

No domínio metodológico, seja qual for a predominância de um dos

elementos referidos sobre outros, os exercícios de treino, devem no entanto

estabelecer, a concordância entre as situações seleccionados e as condições

objectivas da competição na qual a modalidade se desenvolve. Com efeito, é

necessário estabelecer no plano físico a definição das qualidades motoras

dominantes da modalidade, a sua caracterização (em termos de volume,

intensidade, complexidade, processos metabólicos, etc.), e da dinâmica do

esforço. No que se refere às acções técnico-tácticas, há que estabelecer um

aperfeiçoamento constante dos comportamentos já consolidados fazendo-os:

• corresponder ao crescente grau de preparação dos praticantes;

Page 98: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 73

• ao modelo táctico final como expressão dos factores individuais e

colectivos;

• às tendências evolutivas que advêm da modificação dos regulamentos

da competição, e pelas inovações tácticas que dai resultam; e,

• à optimização da distribuição de forças ao longo da competição, em

função da sua própria concepção e das modificações resultantes do

conhecimento das particularidades dos adversários.

Segundo Ulatowski (1975) no processo de aprendizagem e aperfeiçoamento

das acções competitivas podemos distinguir quatro fases essenciais:

• demonstração e explicação, no qual se apresenta ao praticante a forma

de executar de um dado comportamento, o seu objectivo e as condições

de aplicação durante a competição;

• aprendizagem e aperfeiçoamento em condições simples e acessíveis

para os praticantes;

• aprendizagem e aperfeiçoamento em condições próximas das

competições; e,

• aperfeiçoamento durante a competição. 7.2. Em função do grau de identidade do exercício

O grau de identidade estabelece que a complexidade do exercício de treino

estará mais ou menos próxima da estrutura da actividade competitiva, o que

determina a seguinte classificação: os exercícios de competição, os

exercícios especiais, e os exercícios gerais.

7.2.1. Exercícios de competição

Em tudo semelhantes à essência e natureza da competição, são aqueles

que provocam uma adaptação mais complexa e contribuem com especial

eficácia para estabelecer a harmonia entre as várias componentes do

treino ajustando os factores técnicos, tácticos, físicos e psicológicos de

preparação para as situações específicas da modalidade.

Page 99: Metodologia Do Treino Desportivo

74 • Metodologia do treino desportivo I !

Matveiev (1977), considera dois tipos de exercícios de competição:

os exercícios de competição propriamente ditos; que são em tudo

idênticos aos executados nas condições reais de competição e de

acordo com as regras das mesmas. Com efeito, estes exercícios

coincidem no conteúdo da acção, nos fundamentos estruturais, e na

orientação geral. Diferem da competição visto que são executados

durante o treino e orientam-se para a resolução das tarefas de treino

(por exemplo: jogo de treino entre duas equipas, lançamento do dardo,

etc.); e,

os exercícios de competição adaptados; em que se utilizam

exercícios que na sua estrutura de base são concordantes com a

competição mas são executados em condições com uma exigência de

carga diferente com o objectivo de reforçamento e aperfeiçoamento

das acções competitivas correctas. Estes exercícios são utilizados

essencialmente nas modalidades ou especialidades em que é

impossível reproduzir durante o treino, todas as particularidades dos

comportamentos pois estes têm de ser executados em consequência de

situações muito variáveis (por exemplo: jogo de treino entre duas

equipas num campo de dimensões reduzidas, lançamento do dardo

com um engenho ligeiramente mais pesado).

Por último, segundo Matvéiev (1977) "os exercícios competitivos

desempenham um papel extremamente importante no treino, porque sem

eles, é impossível reconstituir os requisitos específicos que a modalidade

impõe ao praticante e estimular, assim, a consecução de um determinado

nível de treino. No entanto, a sua parte é, no treino relativamente

reduzida (em proporção ao tempo global de treino). Isto explica-se,

principalmente, por duas circunstâncias":

• a importância das modificações funcionais provocadas no organismo

pelos exercícios competitivos; e,

Page 100: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 75

• a inutilidade da sua frequente repetição sem preparação, a qual tem

de criar constantemente pré-requisitos para o aperfeiçoamento das

características quantitativas e qualitativas das acções competitivas (de

outro modo a repetição não produz o efeito desejado, nos melhores

dos casos o praticante apenas consolida aquilo que já adquiriu)".

7.2.2. Exercícios especiais

Estes caracterizam-se essencialmente pelo seu carácter específico, tendo

sempre algo de comum com os exercícios de competição. Têm como

objectivos fundamentais o aperfeiçoamento da técnica, da táctica, e das

capacidades condicionais. Os exercícios especiais são concebidos

fundamentalmente:

para assegurar uma acção mais selectiva e mais significativa para

determinados parâmetros das cargas de treino; e,

na modelação de novas variantes das acções competitivas, isto é, na

atempada criação de pré-requisitos do domínio de formas

aperfeiçoadas da técnica que correspondem a um novo nível de

resultados.

Harre (1981), divide os exercícios especiais em dois tipos:

• os exercícios especiais I; são idênticos aos exercícios de competição

mas com menos exigência de carga; e,

• os exercícios especiais II; que contêm partes dos gestos específicos

da modalidade executados com as mesmas exigências da competição.

A vantagem dos exercícios especiais sobre os exercícios de

competição reside no facto da possibilidade de um controlo mais

efectivo da carga de treino.

7.2.3. Exercícios gerais

Page 101: Metodologia Do Treino Desportivo

76 • Metodologia do treino desportivo I !

São exercícios que do ponto de vista do seu efeito não correspondem

nem aos exercícios de competição nem aos exercícios especiais. Ao

seleccionar-se os exercícios gerais é importante respeitar dois requisitos

de base:

incluir meios que asseguram uma ampla preparação do praticante,

isto é, construir/elaborar exercícios que tenham um efeito suficiente

no desenvolvimento de todas as capacidades técnicas, tácticas, físicas

e psicológicas enriquecendo assim a sua "reserva de aptidões"; e,

deve reflectir particularidades da especialidade desportiva em

causa, isto porque, durante o desenvolvimento do nível de preparação

do praticante podem aparecer efeitos não só positivos como também

negativos. Daqui deriva a necessidade de especializar-se a composição

dos exercícios gerais de forma a poder utilizar eficientemente as suas

"transferências positivas".

Os exercícios gerais têm, no processo de treino, três funções

fundamentais:

• formar, incutir ou reestruturar aptidões que desempenham um papel

auxiliar ou de apoio ao aperfeiçoamento desportivo;

• meios de educação das capacidades insuficientemente desenvolvidas

melhorando o seu nível de eficiência; e,

• como factor de repouso activo que coadjuvam o processo de

recuperação.

Concluindo, os exercícios gerais visam essencialmente estimular e

desenvolver todas as qualidades físicas fundamentais, bem como todas as

qualidades técnicas e tácticas e hábitos de base dos praticantes. Com

efeito, os "exercícios gerais contribuem para o nível de preparação dos

praticantes através de uma acção indirecta" (Bompa, 1990). Embora

seja difícil de comprovar de uma forma precisa a influência directa dos

exercícios gerais sobre o rendimento global do praticante, Harre (1981),

considera que "na idade dos máximos rendimentos a estagnação ou uma

Page 102: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 77

reduzida elevação do rendimento, ou ainda o aparecimento frequente de

lesões, se devem ao facto de, no processo de treino, se aplicarem

relativamente poucos exercícios de carácter geral".

Exercícios de treino

Exercícios de

competição

Exercícios

especiais

Exercícios

gerais

Estrutura

do gesto

Função

Carga do treino

em relação à carga

de competiçao

A B C D E F G H

12 3

4

51 13

134

35 5

4 45

Figura. 15. Modelo de classificação dos exercícios segundo Berger, e Hauptman

A- formação e estabilização do complexo de rendimento específico da competição; B- formação e estabilização essencialmente das capacidades condicionais específicas; C- Aperfeiçoamento e consolidação essencialmente das capacidades técnicas específicas; D- formação essencialmente das capacidades técnico-tácticas; E- formação das capacidades condicionais de base; F- Aperfeiçoamento de outras técnicas desportivas; G- relaxação emocional; H- Descanso activo, aceleração da regeneração 1- específico de competição; 2- insignificante divergência; 3- mais elevada; 4- sensivelmente mais baixa; 5- mais baixa

Concluindo, Berger, J., e Hauptman, M. (1981), propõem um modelo de

classificação dos exercícios de treino fundamentado em três vertentes

essenciais: i) a estrutura do gesto, ii) a função e, iii) a relação existente

entre a carga de treino usada na execução dos exercícios e a carga de

competição.

As classificações referidas têm um carácter generalista e,

consequentemente estabelece uma delimitação não muito clara entre os

vários tipos de exercícios de treino, sendo difícil em muitos dos casos de

os classificar de forma correcta, pois têm lugar nos diferentes níveis

propostos. Neste sentido, não negando a importância destas

classificações, é importante que cada modalidade desportiva, após

observar e analisar os fundamentos da sua estrutura competitiva

Page 103: Metodologia Do Treino Desportivo

78 • Metodologia do treino desportivo I !

estabeleça, segundo critérios e pressupostos correctos, uma classificação

e organização própria dos seus exercícios específicos de treino.

8. Orientações e tendências dos exercícios de treino

Segundo Teodorescu (1987), a Teoria e Metodologia Geral do Treino

Desportivo conhece na actualidade mudanças significativas na concepção, no

conteúdo e na organização da preparação dos praticantes e das equipas. Estas

modificações, ainda segundo o mesmo autor (1987), resultam de três vertentes

fundamentais:

• das pesquisas cientificas interdisciplinares;

• da prática de vanguarda de alguns treinadores; e,

• da aplicação de alguns resultados provenientes de outras áreas do saber,

tais como, a matemática, a cibernética, a psicologia, a pedagogia, etc.

De forma didáctica podemos estabelecer convencionalmente quatro etapas

pelos quais os exercícios e o treino evoluíram ao longo dos tempos modernos:

i) aumento do volume de treino utilizando exercícios de carácter geral e

especial, ii) maior utilização dos exercícios de treino de carácter específico, iii)

adequação dos exercícios de treino à realidade competitiva - indivisibilidade

dos factores de treino e, iv) estabelecimento das bases científicas dos exercícios

de treino.

8.1. Aumento do volume de treino utilizando exercícios de carácter geral e especial

No passado recente, a primeira grande orientação do treino desportivo foi o

aumento do volume de trabalho dos praticantes e das equipas. Este aumento

do volume de trabalho. Este aumento do volume permitiu num certo

momento ascender rapidamente a um nível de performance mais elevado.

Todavia, limitado naturalmente pelo factor tempo (ninguém consegue

Page 104: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 79

treinar mais de 24 horas por dia), o volume de treino ao chegar muito

próximo do seu limiar máximo, provocou uma influência negativa em

determinados desenvolvimentos, devido fundamentalmente à sobrecarga

dos sistemas funcionais dos praticantes. Este facto pôs em evidência duas

questões fundamentais:

• uma ao nível dos aspectos de recuperação dos praticantes; e,

• outra ao nível dos exercícios de treino empregues.

8.2. Maior utilização dos exercícios de treino de carácter específico

Numa "segunda fase" adaptou-se os exercícios de treino ao objectivo

visado, o que se traduziu num aumento do tempo de treino dedicado aos

exercícios de carácter específico, perdendo os de carácter geral a sua

preponderância como meio de base na preparação dos praticantes e das

equipas sendo utilizados sobretudo como meios de repouso activo e de

aceleração dos processos de recuperação.

8.3. Adequação dos exercícios de treino à realidade competitiva. Indivisibilidade dos

factores de treino

Esta "fase" muito ligada à anterior, consubstanciou o desenvolvimento de

novos exercícios de treino através do estabelecimento de modelos técnico,

tácticos, físicos e psicológicos construídos a partir da realidade competitiva

da modalidade desportiva em causa. Procura-se assim, que entre o exercício

de treino e a competição, exista um elevado grau de concordância em que o

desenvolvimento das qualidades físicas e das acções técnico-tácticas se

efectuem conjuntamente, em climas de elevada tensão psicológica, de forma

a acelerar e a intensificar os processos de adaptação. Estes pressupostos

estão igualmente ligados à utilização de materiais e equipamentos que

permitem explorar na totalidade as reservas funcionais do organismo.

Page 105: Metodologia Do Treino Desportivo

80 • Metodologia do treino desportivo I !

Dentro desta fase Teodorescu (1987), apresenta como orientação

fundamental do treino a racionalização, a qual numa primeira análise procura:

• a redução do número de exercícios de treino; e,

• o aumento do número de repetições do mesmo, tendo como objectivo

de base a optimização do treino e implicitamente o rendimento dos

praticantes e das equipas.

Esta orientação resulta da aplicação de dois procedimentos metodológicos,

que contêm implicações teóricas, e sobretudo práticas, na

elaboração/construção dos exercícios de treino, que consubstanciam: i) a

objectividade e, ii) a modelação.

8.3.1. A objectividade

É um processo que procura, numa primeira análise, identificar e

caracterizar os elementos que constituem o conteúdo da competição, e

numa fase posterior, sempre que possível estabelecer os índices

quantitativos e qualitativos óptimos do rendimento dos praticantes e das

equipas em condições variáveis.

8.3.2. A modelação

É um processo através do qual se procura correlacionar o exercício de

treino com as exigências específicas da competição, com base nos

índices mensuráveis das componentes de rendimento. Segundo este

raciocínio, quanto maior for o grau de correspondência entre os modelos

utilizados (exercícios de treino) e a competição de uma dada modalidade,

melhores e mais eficazes serão os seus efeitos, fundamentando-se assim a

optimização do processo de treino.

Page 106: Metodologia Do Treino Desportivo

" Fundamentos do exercício de treino • 81

É através do processo da modelação, ainda segundo o mesmo autor

(1987), que os exercícios de treino passam primeiramente por uma:

tipificação; o que implica a selecção e síntese das componentes

essenciais e similares (análogas) das diferentes fases da competição,

quer do ponto de vista técnico, táctico, físico e psicológico, numa

estrutura única (indivisibilidade dos factores de treino), procurando

eliminar os consumos inúteis de energia e de tempo e, seguidamente

pela,

estandardização; que tem um carácter modelador do esforço e das

acções técnico-tácticas desenvolvidas durante a competição. Os

exercícios estandardizados quando aplicados em condições similares

os seus efeitos (eficiência/resultados) são aproximadamente

conhecidos.

A tipificação e a estandardização permitem o desenvolvimento de

exercícios multifactoriais, isto é, a utilização de um mesmo exercício

para atingir efeitos tanto selectivos como acumulativos no domínio

técnico, táctico, físico e psicológico, e das tarefas pedagógicas de

aprendizagem, aperfeiçoamento e desenvolvimento dos praticantes e das

equipas. Neste sentido, por exemplo, um exercício para a aprendizagem

do contra-ataque, as dominantes são a acção táctica e o aperfeiçoamento

da técnica de controlo da bola e de passe em condições de velocidade e

manutenção da velocidade de deslocamento dos jogadores (efeito

selectivo). Após a aprendizagem do contra-ataque o mesmo exercício

pode ser utilizado para o seu aperfeiçoamento no qual é importante

manter a velocidade e a técnica de controlo da bola e de passe,

desenvolvendo igualmente a resistência específica, e aumentando o

número de repetições (efeito acumulativo).

Com efeito, o recurso a uma destas funções é determinada por critérios

metodológicos que têm como objectivos ganhar o máximo de tempo para

Page 107: Metodologia Do Treino Desportivo

82 • Metodologia do treino desportivo I !

se efectuar um grande número de repetições na procura de uma técnica

correcta (quase automatizada), assim como a eficiência das acções. Os

exercícios com efeitos acumulativos são utilizados sobretudo no

aperfeiçoamento e desenvolvimento das qualidades físicas e das aptidões

técnico-tácticas. Os exercícios de efeitos selectivos são utilizados

particularmente nas situações de aprendizagem e de correcção das

aptidões técnico-tácticas.

8.4. Estabelecimento das bases científicas dos exercícios de treino

A "quarta fase" deste processo de transformação é constituída pelo

aperfeiçoamento de organização do treino através do estabelecimento de um

suporte científico que consubstancie leis, princípios, metodologias, etc. É

através destes que se pode definir as estruturas de treino mais eficientes na

orientação e preparação dos praticantes e das equipas, sendo esta adaptada

ao nível dos resultados projectados.

w

Page 108: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE III

O EXERCÍCIO DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 2

Bases conceptuais para a construção dos exercícios de treino

Resp: Jorge Castelo

Page 109: Metodologia Do Treino Desportivo

82 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo do Capítulo 2 da Parte III

O Capítulo 2 reflecte a análise das bases conceptuais para a construção

dos exercícios de treino. Com efeito, a construção dos exercícios de

treino liga-se indubitavelmente à forma de se observar e interpretar a

natureza das diferentes modalidades desportivas, mais precisamente à

sua lógica interna. Neste contexto, os métodos de análise para a

interpretação de uma dada realidade competitiva converge num quadro

teórico que evidencia três perspectivas fundamentais: associativista, da

forma e estruturalista.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 5

Page 110: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 83

Parte III

O exercício de treino desportivo

Sumário

Capítulo 2 - Bases conceptuais para a construção dos exercícios de treino

1. As relações entre a interpretação da natureza da modalidade e os

exercícios de treino

1.1. As perspectivas associativistas

1.2. As perspectivas da forma

1.3. As perspectivas estruturalistas

1.1.3. O modelo

1.1.3.1. os modelos técnico-tácticos

1.1.3.2. o modelo de esforço

1.1.3.3. o modelo de ambiente

1.1.3.4. o modelo integrativo

Bibliografia:

Page 111: Metodologia Do Treino Desportivo

84 • Metodologia do treino desportivo I !

BAYER, C. (1979) L´enseignement des jeux sportifs collectifs, Editions Vigot,

Paris

BAYER, C. (1974) La pratique du hand-ball et son approche psycho-social,

Librairie J.Vrin, Paris

CARON, J., PELCHAT, C. Apprentissage des Sports Collectifs, Les presses de

l'Université du Quebec, 1976

PARLEBAS, P. (1985) Activités Physiques et Éducation Motrice, Dossiers

Éducation Physique et Sport, nº 4, Paris

QUEIROZ, C. (1986) Estrutura e organização dos exercícios de treino em

futebol, F.P.F.

TEODORESCU, L. (1984) Problemas de teoria e metodologia nos desportos

colectivos, Livros Horizonte, Lisboa

ULATOWSKI, T. (1975) La theorie de l´entrainement sportif. Comité

Internacional Olympique

WRZOS, J. (1980) Atlas des exercices specifiques du footballeur, INSEP, Paris

Page 112: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 85

Segundo Queiroz (1986) citando Worthington "em cada treino, em cada

momento, o treinador confronta-se com uma determinada situação específica

para a qual terá que saber seleccionar um ou outro tipo de exercício, de

acordo com o objectivo que se deseja atingir. Fundamentalmente, é necessário

que o treinador saiba organizar os seus próprios exercícios em função dos

problemas que se lhe deparam, sendo fundamental a compreensão e o domínio

dos critérios de organização dos exercícios no processo de treino".

1. As relações entre a interpretação da natureza da modalidade e os exercícios de treino

As bases conceptuais para a construção dos exercícios, na longa história do

treino desportivo, estão indubitavelmente ligados à forma de observar e

interpretar a natureza (essência) da modalidade desportiva em causa, isto é, do

método de análise aplicado para evidenciar a sua lógica interna.

Segundo Bayer (1972), "o contexto histórico, sociológico e filosófico possui

um impacto incontestável na forma de encarar o conhecimento de uma

actividade: a evolução dos seus métodos, os seus conflitos, e os eu respectivo

desenvolvimento não é muito diferente da história das ideias. São as diferentes

correntes do pensamento, que orientam irremediavelmente o ponto de vista

através do qual o ser humano perspectiva uma disciplina particular, quer ela

seja literária, científica, ou desportiva, de forma a elaborar uma metodologia

e definir os fundamentos pedagógicos do seu ensino".

Com efeito, os treinadores/professores, ao longo dos tempos, foram sentindo a

necessidade cada vez mais premente, de desenvolverem um pensamento que

consubstancia-se uma correcta análise e caracterização da estrutura da

actividade competitiva da sua modalidade desportiva, de molde a evidenciar a

sua lógica interna, que por sua vez irá influenciar inequivocamente as bases

conceptuais para a construção dos seus exercícios específicos de treino.

Page 113: Metodologia Do Treino Desportivo

86 • Metodologia do treino desportivo I !

A definição dos métodos de análise para a interpretação de uma dada realidade

competitiva, converge, em nossa opinião, num quadro teórico que evidencia

três pensamentos (perspectivas) fundamentais: i) a perspectiva associativista, ii)

a perspectiva da forma e, iii) a perspectiva estruturalista.

1.1. As perspectivas associativistas

A primeira fase do pensamento de base à construção/elaboração dos

exercícios de treino, foi fundamentalmente influenciada pelo "período

mecanicista" marcado por duas correntes filosóficas: o dualismo cartesiano

(que consubstancia uma visão mecânica do corpo humano para explicar o

seu funcionamento), e o associativismo (que pretende reduzir

grosseiramente o complexo a elementos simples, através de um excessivo

espírito de análise e da lei da associação de ideias, sobre o qual automática e

espontaneamente se desenvolve todo o pensamento). As perspectivas

associativistas procuravam decompor todas as actividades em elementos

simples, e pela adição dessas pequenas unidades, pretendia-se reconstruir as

representações mais complexas através da simples justaposição dos

elementos no tempo e no espaço permitindo forjar uma ligação entre eles.

Nesta perspectiva, pressupunha-se que as actividades essenciais às

diferentes fases do processo de aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento dos praticantes era bem elaborado, bastando para isso,

justapor os elementos técnicos constituintes da modalidade desportiva em

causa, de forma parcelar, sob a condição de se recorrer à repetição

sistemática.

Com efeito, Wrzos (1980) refere, baseando-se na teoria dos reflexos

condicionados de Ivan Pavlov que "os mecanismos motores que constituem

o complexo sistema de reflexos condicionados formam-se durante a

execução do exercício. Para materializar um automatismo motor, o atleta

deverá consciencializar a acção a executar porque a sua formação depende

Page 114: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 87

do primeiro e do segundo sistema de sinalização". Neste processo podemos

distinguir 3 etapas consecutivas:

• no primeiro estado: os exercícios são caracterizados por um despertar

do sistema nervoso central, com um baixo nível de desenvolvimento das

capacidades de coordenação no trabalho muscular que se traduz pela

imperícia do movimento;

• no segundo estado: os movimentos em questão são melhor utilizados

constatando-se uma redução progressiva das despesas energéticas e de

variações metabólicas. Os movimentos do corpo tornam-se mais

precisos, melhor coordenados, e económicos. Nesta fase, a atenção do

atleta dirige-se em direcção a diferentes detalhes da execução do

movimento. As indicações orais contribuem para a eliminar os

movimentos supérfluos e de fixar os movimentos correctos, tendo uma

importância particular para a precisão da formação dos automatismos

motores; e,

• no terceiro estado: os movimentos estabilizam-se e começam a ser

executados de forma estereotipada com precisão e exactidão.

Estas são as bases teóricas sobre as quais se edifica a prática e o ensino das

diferentes modalidades desportivas (individuais e colectivas). Esta teoria,

interpretada de uma forma rígida trouxe uma aparente validade desta

tendência que privilegiou os factores de associação e de repetição, levando

os treinadores a evidenciar uma preocupação mecanicista tanto do gesto

técnico como do comportamento táctico na resolução das situações

competitivas. Tudo se resumia assim, a um problema de técnica individual,

na qual era necessário que cada praticante adquiri-se previamente um

repertório de gestos.

Neste contexto, a preocupação dominante era de identificar e definir

concretamente os comportamentos técnicos de base das diferentes

modalidades, decompondo-os em elementos simples que eram necessário

trabalhar (exercitar), e de associá-los para obter a realização de uma conduta

Page 115: Metodologia Do Treino Desportivo

88 • Metodologia do treino desportivo I !

complexa. O que era importante é o aspecto exterior do movimento,

independentemente do contexto em que esses comportamentos eram

executados. "Estas aquisições eram realizadas de forma abstracta, igual

para todos, sem qualquer relação com a realidade, existindo para cada

domínio parcelar um modelo ideal (geralmente de um campeão) em

direcção do qual, e por imitação, a execução de cada praticante deveria

desenvolver-se independentemente da sua idade, ou do seu nível de

formação" (Bayer, 1983).

Esta análise foi complementada, numa segunda fase pelo estudo energético

que visava o conhecimento do rendimento máximo e a eficácia funcional de

cada acto permitindo formular um modelo ideal, que respondesse às leis

bio-mecanicistas precisas, em direcção a uma execução que todos os

praticantes deveriam obedecer. Esta pedagogia, "trouxe abundantes

progressões, fruto de execuções e sistematizações rigorosas, onde os

exercícios descritos ou propostos, eram realizados numa estrita ordem

constituindo uma ajuda preciosa nas condutas práticas das sessões de

treino. No entanto, o gesto era encarado de uma forma abstracta, sem

nenhuma relação com a realidade" (Bayer, 1972).

Concluindo, os exercícios de treino segundo esta perspectiva, são

seleccionados e organizados segundo uma certa ordem, incluindo um

elemento técnico preciso que se extrai do seu contexto real e que, depois de

adquirido, se associa a outros ou serve de base a outros cada vez mais

complexos. Em síntese os exercícios de treino, depois da análise dos

elementos que constituem o conteúdo da modalidade, são construídos e

organizados da seguinte forma (Queiroz, 1983):

exercícios de treino de aprendizagem, aperfeiçoamento ou

desenvolvimento sistemático dos elementos em questão;

exercícios de treino de aprendizagem, aperfeiçoamento ou

desenvolvimento de associação dos diferentes elementos;

Page 116: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 89

exercícios de treino que procuram reproduzir todos ou quase todos os

aspectos ligados à competição.

1.2. As perspectivas da forma

A segunda fase deste processo evolutivo do pensamento à

construção/elaboração dos exercícios de treino, nasceu da reacção às

perspectivas atomistas, que preconizavam uma associação mecânica das

actividades gerando um movimento extremamente importante que se

desenvolveu rapidamente no princípio do nosso século. Esta teoria que se

opõe aos métodos analíticos pressupõe que cada elemento não tem

significado, senão na sua relação com o conjunto, e que os diferentes

elementos de uma estrutura articulam-se uns com os outros para constituir

uma forma. Neste contexto, uma forma é algo mais que a soma das suas

partes, ela tem propriedades que não resultam da simples adição dos seus

elementos, sendo estes interdependentes e organizados num "campo" total

segundo certas leis.

Caron, e Pelchat (1976), referem o seguinte exemplo que nos ajudam a

compreender melhor esta questão: "seis superfícies idênticas misturadas

num saco não formam provavelmente um cubo pela sua simples

justaposição. Para obter o resultado pretendido (o cubo), é preciso compor

as seis superfícies entre elas. A "forma" criada a partir desta nova

disposição das superfícies não representa mais uma simples soma sem

significado, mas sim uma nova estrutura coerente denominada "cubo"

possuindo uma nova característica; o volume. Da mesma forma que ao

observarmos as partes de uma caixa verificamos que estas formam um todo

na medida em que eles se dispõem em função de um objectivo preciso. É

este objectivo que permite a essas partes estarem estruturadas e terem um

sentido. Por outras palavras, a caixa tem na sua totalidade uma função na

qual as suas partes individualmente não têm".

Page 117: Metodologia Do Treino Desportivo

90 • Metodologia do treino desportivo I !

Neste sentido, Bayer (1972), refere que "cada elemento está dialecticamente

relacionado com o conjunto, e que a génese dos fenómenos complexos

explicam-se pela emergência de formas, ou seja, de conjuntos estruturados

dotados duma articulação que lhe é própria..." Assim, no plano particular

dos jogos desportivos colectivos, um jogador não joga ao "lado" dos outros,

mas "com" os companheiros e "contra" os adversários, Bouet (1968),

emprega a fórmula "com e contra". Pedagogicamente, ainda segundo o

mesmo autor (1983) "esta atitude caracteriza-se por centrar a formação

sobre a equipa que representa uma totalidade (como ponto de partida), e

por dirigir e desenvolver a formação individual de uma forma integrada em

função de uma dada organização colectiva utilizada e adaptada pela

equipa".

Inversamente às teorias associativistas, parte-se do geral, ou seja, da

totalidade (contexto das situações competitivas), para atingir o particular, ou

seja, o praticante, isto permite a aquisição de uma técnica integrada à

dinâmica competitiva, em articulação com as possibilidades próprias de

cada praticante que se encontra dentro desse sistema. Neste contexto, "o

movimento não é concebido como uma junção de execuções motoras

parcelares, mas como uma unidade dinâmica una e indivisível. Logo, a

aprendizagem de um comportamento representa uma modificação total na

relação dos actos motores e do campo perceptivo, ou por outras palavras,

cada tentativa para atingir o objectivo previamente definido representa

uma estrutura original" (Bayer, 1972). Concluindo, as perspectivas da

forma estabelecem que entre o conteúdo da modalidade desportiva e o

conteúdo do exercícios de treino haja uma relação dialéctica. Neste sentido,

a aprendizagem, aperfeiçoamento e desenvolvimento dos praticantes

decorrem no contexto da realidade competitiva, embora em formas menos

complexas mas que não desvirtuam a sua natureza fundamental. Após a

análise dos elementos do conteúdo no seu contexto real em que estes se

desenvolvem e exprimem os exercícios de treino são construídos e

organizados da seguinte forma (Queiroz, 1983):

Page 118: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 91

exercícios de treino para a aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento dos elementos do conteúdo da modalidade em

condições mais ou menos próximas da actividade onde decorrem essas

acções;

exercícios de treino para a aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento das relações elementares e complexas da modalidade

com a inclusão de um maior número de elementos técnicos, tácticos e

físicos do seu conteúdo. 1.3. As perspectivas estruturalistas

"A realidade manifesta-se aos nossos olhos de um modo fortemente

estruturado" (Eigen, e Winkler, 1989). Os princípios da teoria da forma,

segundo vários autores, foram um factor importante na evolução da noção

de estrutura ao definir forma "como algo mais que a soma das suas partes,

em que as suas propriedades não resultam da simples adição dos seus

elementos, sendo estes interdependentes e organizados num "campo" total

segundo certas leis". Esta teoria rejeita assim toda a ideia que o

conhecimento do conjunto possa ser deduzido a partir do conhecimento das

partes, ou que estas possam ser conhecidas na sua totalidade sem referência

ao conjunto, estabelecendo dois aspectos complementares e fundamentais

que caracterizam a noção de estrutura: o conjunto e a interacção,

evidenciando assim, a importância das relações observáveis e das

significações vividas.

Neste contexto, o estruturalismo, é um método de análise que estuda os

fenómenos da realidade, examinando-os à luz da sua articulação interna e

das interrelações entre os seus diferentes componentes que se mantêm

funcionalmente interdependentes. Para Ferdinand de Saussure, fundador da

linguística moderna, "o que é estrutural na multitude dos diferentes casos é

a gramática do jogo... A estrutura não se revê no posicionamento dos

jogadores mas no sistema de relações entre os jogadores, a bola, o terreno,

as relações ao código de jogo... É comparando os diferentes conjuntos que

Page 119: Metodologia Do Treino Desportivo

92 • Metodologia do treino desportivo I !

podemos extrair a ordem interna que finalmente estabelece essas diferenças

e que consubstancia o ressurgimento de uma estrutura comum. A estrutura

não diz respeito às disposições espaciais perceptíveis, mas às relações e

mais ainda às relações de relações".

Ainda o mesmo autor, apresenta um exemplo eloquente da sua opinião

"todo o elemento linguístico é comparável a uma peça de xadrez, para o

antropólogo ela aplica-se a todos os membros da sociedade, e para o

treinador para todos os jogadores da equipa. Ora uma peça de xadrez não

se define pela sua cor, suas dimensões, da matéria de que é feito, nem pelos

seus atributos físicos ou pela sua "forma", mas pela regra do jogo e pelas

relações que essas regras lhe permitem entrevir com as outras peças no

conjunto dos casos. Assim o avançado centro ou o guarda-redes têm um

valor estrutural não pelas características físicas da sua aparência e dos

seus deslocamentos, mas por um sistema de relações estabelecidos entre

eles... É o que os estruturalistas pretendem referir por analogia à

linguística que a estrutura é uma "sintaxe" que, apesar das modificações e

das diferenças, têm uma relação comum. Aparentemente paradoxal, são

estas diferenças que determinam uma analogia".

1.3.1. O modelo

O pensamento estruturalista introduz, com efeito, um conceito

operacional fundamental - o modelo, que consubstancia uma construção

teórica de forma a definir e a reproduzir com rigor, todo o sistema de

relações que se estabelecem entre os diversos elementos de uma dada

realidade. Como refere Parlebas (1968) "o modelo é uma construção

esquemática e teórica que procura relatar a realidade, sob forma

abstracta e se possível matematizada..."

A maioria dos autores esforçam-se assim, por conceptualizar e

pragmatizar um ou mais modelos (estruturas) como ponto de partida

essencial na análise e caracterização da modalidade desportiva em causa,

Page 120: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 93

evidenciando quatro aspectos fundamentais para a sua construção

(Queiroz, 1986):

identificar, no conteúdo da modalidade, quais os factores básicos

através dos quais esta se desenvolve, ou seja, a sua lógica interna;

reproduzir com rigor, todo o sistema de relações que se estabelecem

entre os vários elementos de uma dada situação;

definir de forma precisa os comportamentos exigíveis aos

praticantes face aos modelos e em função do nível de aptidões e

capacidades destes, bem como das suas possibilidades de

desenvolvimento;

determinar ainda, os índices de eficácia do comportamento dos

praticantes de acordo com um determinado nível de rendimento.

Procura-se assim, transpor para o treino, os modelos de acção mais

eficazes bem como as tendências evolutivas da modalidade que

caracterizam o desempenho dos melhores praticantes e das melhores

equipas do mundo, de forma a estimular através dos exercícios o

desenvolvimento dos "comportamentos" definidos, integrados em

estruturas funcionais que consubstanciam as suas exigências dominantes.

Neste sentido, a dinâmica que preside à construção e organização dos

exercícios de treino, tem em vista a definição de modelos operativos

parciais (devido à impossibilidade de reproduzir determinados factores,

como por exemplo a existência de adversários reais, do público, etc.), os

quais procuram reproduzir a dinâmica dos complexos processos

psicológicos, fisiológicos e motores, passíveis de influenciar o

rendimento. Teodorescu, L. (1984), considera os seguintes modelos: i)

técnico-tácticos, ii) de esforço, iii) de ambiente e, iv) integrativo.

1.3.1.1. Os modelos técnico-tácticos

São constituídos: i) pelos modelos dos procedimentos técnicos,

integrados de acordo com a lógica da actividade dos praticantes, (a

acção individual), ii) dos modelos individuais em correlação com um

Page 121: Metodologia Do Treino Desportivo

94 • Metodologia do treino desportivo I !

ou vários companheiros consubstanciando acções tácticas colectivas,

e, iii) o modelo de acções individuais e colectivas em condições de

adversidade, ou seja, com oposição dos adversários.

1.3.1.2. O modelo de esforço

Correlaciona a actividade com as reacções de adaptação do organismo

às exigências do esforço, que se expressam por parâmetros de volume,

intensidade e complexidade.

1.3.1.3. O modelo de ambiente

Caracteriza as condições externas com o objectivo de adaptar os

praticantes aos efeitos causados pela tensão dos processos psíquicos,

estabelecendo dois níveis de análise: i) o modelo das condições em

que se desenrola a actividade (instalações material, luz, a hora do

treino coincidente com a hora da competição, com o tipo de

arbitragem, etc.), ii) o modelo de microclima social (barulho do

público simulado ou treinos com público, pressão do público hostil ou

favorável, da imprensa, etc.). 1.3.1.4. O modelo integrativo

Objectiva fundamentalmente situações de treino que integrem

sucessivamente os modelos técnico-tácticos, de esforço, e de ambiente

anteriormente descritos. Com base neste raciocínio, os exercícios

assim definidos, mais do que pragmatizar uma determinada concepção

de treino, devem, constituir, a expressão da concepção da competição,

isto é, os modelos operativos definidos no treino devem corresponder

e expressar todas as particularidades, especificidades e exigências da

competição da modalidade desportiva em análise.

Neste contexto, tanto Bompa, (1990) como Teodorescu, (1984, 1987),

referem a necessidade de definir um ou vários modelos técnico,

táctico, físico e psicológico para cada praticante na competição

Page 122: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases conceptuais para a construção dos exercícios • 95

(ataque/defesa, cooperação/oposição, defesa/atacante, etc.), e em

qualquer momento do período anual de treino (preparatório,

competitivo, transitório). A conceptualização destes modelos implica

numa primeira fase a observação e análise dos "modelos" mais

representativos de um nível superior de rendimento de forma a

identificar e a caracterizar os seus elementos quantificando e

qualificando a sua eficácia. Numa segunda fase há que seleccionar e

definir os exercícios de treino a utilizar. Com efeito, a partir destes

modelos, constrói-se e organiza-se os exercícios de treino que

consubstanciam:

a aprendizagem, aperfeiçoamento e desenvolvimento dos

modelos técnico-tácticos individuais e colectivos adequados aos

modelos de esforço;

a preparação física de acordo com modelos técnico-tácticos

individuais e colectivos.

Page 123: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE III

O EXERCÍCIO DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 3

Bases de aplicação dos exercícios de treino

Resp: Jorge Castelo

Page 124: Metodologia Do Treino Desportivo

96 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo do Capítulo 3 da Parte III

Abordamos neste Capítulo as bases fundamentais de aplicação do

exercício de treino. Para este efeito, partimos da necessidade de

direccionar, orientar e controlar a actividade prática por forma a

conferir-lhe uma maior eficácia na sua aplicação, estabelecendo

Princípios fundamentais quer no plano biológico, metodológico e

pedagógico, esforçando-nos para que estes não sejam visto de forma

isolada, mas sim como um todo coordenado entre as suas partes.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 6

Page 125: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 97

Parte III

O exercício de treino desportivo

Sumário

Capítulo 3 - Bases de aplicação dos exercícios de treino

1. Os princípios biológicos

1.1. Princípio da sobrecarga

1.2. Princípio da especificidade

1.3. Princípio da reversibilidade

1.4. Princípio da heterocronia

2. Os princípios metodológicos

2.1. Princípio da relação óptima entre o exercício e o repouso

2.1.1. A determinação do exercício óptimo

2.1.2. A determinação do momento óptimo de aplicação de um novo

exercício

2.2. Princípio da continuidade da aplicação do exercício de treino

2.4. Princípio da ciclicidade da carga de treino

2.5. Princípio da individualização do exercício de treino

2.6. Princípio da multilateralidade ou da relação óptima entre a

preparação geral e especial

3. Os princípios pedagógicos

3.1. Princípio da actividade consciente

3.2. Princípio da sistematização

3.3. Princípio da actividade apreensível

3.4. Princípio da estabilidade e desenvolvimento das capacidades do

praticante

Page 126: Metodologia Do Treino Desportivo

98 • Metodologia do treino desportivo I !

Bibliografia:

CARVALHO, A. Organização e condução do processo de treino II, Revista

horizonte, Vol.I, nº5, Jan/Fev 1985, pp 163-166

CARVALHO, A. Organização e condução do processo de treino III, Revista

horizonte, Vol.II, nº1, Mai/Jun 1985, pp 14-18

MATVEYEV, L., (1986) Fundamentos do Treino Desportivo, Livros

Horizonte, Lisboa

PROENÇA, J. Metodologia do treino desportivo - problemática e

problematização, Revista Ludens, Vol.3, nº6, Abr/Jun. 1982, pp. 19-24

RAPOSO, V. (1989) A periodização do treino I, Revista treino desportivo, IIª

série, Vol.11, Março, pp. 55-59

RAPOSO, V. (1989) A periodização do treino II, Revista treino desportivo, IIª

série, Vol.12, Junho, pp. 55-59

Page 127: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 99

Os exercícios de treino devem obedecer a um conjunto de princípios:

biológicos, metodológicos e pedagógicos, que têm por objectivo fundamental

direccionar, orientar e controlar a actividade prática de forma a conferir uma

maior eficácia na sua aplicação. Todavia, deverá haver um esforço permanente

para que os diferentes princípios não sejam encarados de forma isolada e

compartimentada, mas sim como um todo coordenado entre as suas partes.

1. Os princípios biológicos

Basicamente iremos estudar quatro princípios fundamentais denominados de

biológicos: i) o princípio da sobrecarga, ii) o princípio da especificidade, iii) o

princípio da reversibilidade e, iv) o princípio da heterocronia.

1.1. Princípio da sobrecarga

O exercício de treino só poderá provocar modificações no organismo dos

praticantes melhorando a sua capacidade de rendimento, desde que seja

executado numa duração e intensidade suficientes que provoque uma

activação óptima dos mecanismos informacionais, energéticos e afectivos.

Segundo Burk (1979) "as modificações funcionais causadas no organismo

pelo esforço físico só permitem melhorar o estado de treino quando a sua

intensidade é suficiente para provocar uma activação do metabolismo

energético ou plástico da célula". Ainda segundo este autor "as adaptações

que beneficiam a actividade Humana só se produzem quando respondem a

tensões aplicadas a níveis superiores aos limites, mas sempre dentro dos

limiares de tolerância... Os níveis abaixo destas tensões aos quais o

organismo se adaptou não são suficientes para produzir a adaptação ao

treino".

Page 128: Metodologia Do Treino Desportivo

100 • Metodologia do treino desportivo I !

Segundo a lei de Roux Arndt-Schultz, as:

• cargas de fraca intensidade (inferiores ao habitual); provocam uma

atrofia e uma perda de capacidades, já que há uma diminuição da

actividade do organismo;

• cargas de média intensidade (habituais): mantêm o mesmo nível

estrutural e de capacidade de rendimento. Não têm consequentemente

efeito de treino;

• cargas de intensidade forte (superiores ao habitual): provocam um

melhor arranjo estrutural e consequentemente uma melhoria funcional.

Tem efeito de treino; e,

• cargas de intensidade demasiado forte: provocam habitualmente um

esgotamento e uma perda de capacidades, já que ultrapassa os limites

fisiológicos.

Figura 16. As modificações funcionais para as diferentes intensidades da carga

Por último, os diferentes exercício que constituem a unidade de treino

estabelece a mobilização duma diversidade e de um nível mais ou menos

elevado de recursos informacionais, energéticos e afectivos, do(s)

praticante(s). Esta mobilização é altamente individualizada, ou seja, uma

mesma carga de treino pode ser forte para um praticante e fraco para outro.

Page 129: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 101

Neste sentido, esta deverá encarada sob dois vertentes:

a carga externa: traduz as tarefas que o praticante deverá cumprir na

unidade de treino (cumprimento dos conteúdos estabelecidos pelo

treinador); e,

a carga interna: corresponde à repercussão ao nível dos diferentes

recursos do praticante (altamente individualizada), que a aplicação da

carga externa provoca.

1.2. Princípio da especificidade

Embora a especificidade se constitua como uma das características

fundamentais do exercício de treino, esta estabelece-se igualmente como um

dos seus princípios biológicos. Com efeito, se compararmos praticantes de

diferentes especialidades desportivas verificamos por exemplo, que um

saltador em altura e um jogador de futebol, ambos necessitam de uma

elevada potência muscular, particularmente ao nível dos membros

inferiores, que lhes permita uma grande capacidade de impulsão. Todavia, o

domínio técnico que é determinado pelas suas especialidades desportivas

(atletismo e futebol), estabelece diferentes exercícios de treino que são

específicos das modalidades em questão.

Brouha (1970) realizou experiências em corredores de fundo e a remadores,

aplicando a ambos uma prova de esforço. Enquanto os remadores corriam

sobre o tapete rolante, os corredores remavam. Controlando-se a frequência

cardíaca e a concentração de ácido láctico no sangue. As reacções do

sistema cardiovascular foram similares, enquanto que as concentrações de

ácido láctico no sangue mostravam variações de acordo com o teste

realizado e com a natureza da especificidade da modalidade. Os remadores

acumulavam mais ácido láctico quando corriam e os fundistas acumulavam

mais ácido láctico quando remavam. Assim o exercício de treino, tem uma

Page 130: Metodologia Do Treino Desportivo

102 • Metodologia do treino desportivo I !

relação específica definida e direccional com o grau de recrutamento dos

recursos do praticante que, por sua vez, em função dos níveis de

adaptabilidade destes ao exercício, consubstanciam uma maior ou menor

produção de substâncias (por exemplo o ácido láctico) que devido à sua

acumulação provocam o aparecimento precoce da fadiga, quando se realiza

um esforço para o qual o indivíduo não está especificamente preparado. Não

se pode ser desportivamente universal, refere Matveiev (1977), "este

princípio estabelece que a concentração de tempo e esforço numa

determinada modalidade desportiva é uma condição objectiva e necessária

para se poder alcançar resultados elevados".

Neste contexto, as modificações que se produzem no organismo através do

treino têm um carácter perfeitamente dirigido a objectivos concretos. O

conceito de especificidade do exercício é reforçado pelo facto de existir

fontes específicas de energia, dentro de cada músculo que respondem a

exercícios específicos. Ou seja, existe uma diferença entre os tipos de

produção de energia necessária para as diferentes actividades físicas. Com

efeito, no treino da velocidade predominam nos músculos reacções

anaeróbias, no caso do treino da resistência predominam as reacções

aeróbias. Mas, por exemplo, se no treino se trabalha uma série de gestos

técnicos à velocidade máxima (especificidade), logo que haja uma

diminuição desta (devido à fadiga), começa a modificar-se a direcção em

que se realiza o processo de adaptação e o efeito de treino será cada vez

mais de resistência e menos de velocidade.

Outro elemento importante e o que se refere à estimulação nervosa

voluntária. Burke (1979), considera que a melhoria das capacidades

funcionais através da actividade física, são específicas quando o desportista

pratica os exercícios de treino dirigidos a uma estimulação nervosa

voluntária. O exercício passivo, como por exemplo a massagem a

Page 131: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 103

estimulação eléctrica directa dos músculos por meios artificiais só são

adequados em situações patológicas.

1.3. Princípio da reversibilidade

As alterações do organismo adquiridas ao longo das actividades inerentes

aos exercícios de treino são transitórias. Mas também, não podemos afirmar

o desaparecimento total de uma adaptação, até aos níveis iniciais. Isto

porque as adaptações conseguidas através do exercício determinam um

traço no organismo humano, há por assim dizer o aparecimento de uma

nova adaptação, se por um lado, o efeito de treino é função da

especificidade do exercício e, por outro, os efeitos são transitórios,

logicamente há adaptações que permanecem mais tempo que outras.

Neste contexto, podemos afirmar:

as cargas de grande volume e de pequena intensidade, têm um efeito

de treino mais prolongado;

as cargas de grande intensidade e de pequeno volume, têm um efeito

mais breve;

as aquisições que levam mais tempo a ser obtidas, mantêm-se durante

muito mais tempo;

o decréscimo dos efeitos da adaptação da carga, será tanto maior

quanto mais recente e menos consolidados forem os níveis de adaptação.

Concluindo, o decréscimo dos efeitos do exercício de treino, será tanto maior

quanto mais recente e menos consolidados forem os níveis de adaptação, ou

por outras palavras, as aquisições que levam mais tempo a ser obtidas,

mantêm-se durante muito mais tempo.

Page 132: Metodologia Do Treino Desportivo

104 • Metodologia do treino desportivo I !

Exercícios

de força

Treino de

força

Exercícios

de potência

Treino de

potência

Exercícios

resistência

Treino de

resistência

??

Figura 17. O princípio da especificidade (Edington e Edgerton, 1976)

1.4. Princípio da heterocronia

Entre o momento em que se executa os exercícios de treino e o

aparecimento do correspondente processo de adaptação existe um

desfasamento temporal. Com efeito, depois da aplicação de um ou série de

exercícios de treino surge inicialmente uma perda de capacidades que são

devidas à utilização dos recursos informacionais e energéticos e que se

traduzem num estado denominado de fadiga. O organismo, como que numa

atitude de auto-defesa às "agressões" regenera-se ultrapassando o nível

inicial consubstanciando momentaneamente uma maior capacidade do

praticante.

Como os exercícios de treino têm um efeito específico, logicamente que

essa especificidade traduz o momento em que surge o efeito retardado do

exercício, logo há exercícios que têm um efeito mais rápido que os outros.

Basicamente, o efeito retardado do exercício é função da intensidade do

mesmo, pois parece existir uma relação directa entre os tempos de

mobilização, aquisição e manutenção das capacidades. Neste sentido,

quanto maior for a intensidade do exercício, de curta duração (já que há um

rápido esgotamento da capacidade funcional) mais rapidamente o efeito do

exercício se faz sentir, todavia, também mais rapidamente desaparece esse

efeito quando deixamos de fazer esse tipo de esforço. Contrariamente,

quanto menor for a intensidade do exercício, e longa a sua duração

(esgotamento lento da capacidade funcional dos praticantes) mais tarde o

efeito de treino se fará sentir, todavia, mais lentamente desaparece esse

efeito, quando deixamos de fazer esse tipo de esforço.

Page 133: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 105

É através do conhecimento deste princípio biológico e, da dinâmica das

cargas e da adaptação, que se pode controlar a elevação ou diminuição

(dentro de certos parâmetros) da forma desportiva, considerada como um

estado temporário em que as diferentes qualidades físicas, técnico-tácticas, e

psicológicas, se encontram num ponto alto do seu processo de

desenvolvimento.

Com efeito, é necessário saber como, e qual o grau de predominância que se

deve mobilizar os recursos dos praticantes, e os factores de treino

implicados no rendimento desportivo de uma dada modalidade, para que os

efeitos apareçam num mesmo momento, que deverá ser traduzido na

competição.

Carga I

Carga III

Carga IV

Carga II

Competição

Tempo

Din

âm

ica d

a c

arg

a

Figura 18. Princípio da heterocronia

2. Os princípios metodológicos

Basicamente iremos estudar seis princípios fundamentais denominados de

metodológicos: i) o princípio da relação óptima entre o exercício e o repouso, ii)

o princípio da continuidade da aplicação do exercício de treino, iii) o princípio

da progressividade do exercício de treino, iv) o princípio da ciclicidade do

Page 134: Metodologia Do Treino Desportivo

106 • Metodologia do treino desportivo I !

exercício, v) o princípio da individualização do exercício de treino e, vi) o

princípio da multilateralidade ou da relação óptima entre a preparação geral e

especial.

2.1. Princípio da relação óptima entre o exercício e o repouso

Como foi amplamente referido ao longo deste trabalho, uma eficiente

organização estrutural e funcional do organismo, é consubstanciado por um

recrutamento racional e específico dos recursos informacionais, energéticos

e afectivos, necessários à resolução eficaz das situações competitivas. O

correcto e preponderante recrutamento dos referidos recursos estabelecem a

base de uma maior capacidade de rendimento do(s) praticante(s), que por

sua vez, necessita de efectuar uma série de exercícios de treino, os quais

conduzirão primeiramente o organismo a um estado de fadiga que

corresponde a uma "desorganização estrutural". Ao processar-se a

regeneração (recuperação) o organismo, como que numa atitude de

auto-defesa a "agressões", ultrapassa o nível inicial podendo

momentaneamente fazer uso de uma maior capacidade funcional.

Embora, a construção e aplicação dos exercícios de treino devem decorrer

cada vez mais, por um lado, da reflexão metodológica da análise

competitiva da modalidade desportiva em causa e, por outro, da

profundidade do conhecimento de como os praticantes aprendem e se

desenvolvem do ponto de vista da motricidade, relegando perspectivar o

treino numa "simples" alternância entre carga (esforço) e descanso

(recuperação). O estudo do princípio da relação óptima entre o exercício e o

repouso centra-se fundamentalmente no organismo do praticante sendo

Page 135: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 107

regido por leis biológicas. Todavia, importa tomar em consideração que este

processo não é tão linear nem tão determinista, como parece numa primeira

análise. A relação dialéctica entre o organismo e os exercícios de treino

encontra aqui apenas um elemento de base, e só isso.

Sucintamente, pode-se dizer que neste ponto surgem duas questões

essenciais que é necessário equacionar: a determinação do exercício óptimo,

e a determinação do momento óptimo de aplicação de um novo exercício.

2.1.1. A determinação do exercício óptimo

Esta questão interliga-se incondicionalmente com o estado do atleta, o

qual está sujeito a múltiplas variações, a uma actualização constante, em

consequência de todos os agentes que sobre si actuam, uma grande parte

é de muito difícil controlo. A determinação do estado das estruturas

informacionais, energéticas e afectivas do(s) praticante(s), constitui o

factor decisivo na selecção e aplicação da exercício óptimo, que visa a

obtenção de um determinado efeito, concordante com os objectivos

traçados.

Esta relação é de tal modo íntima, que a certos níveis torna-se

problemático avaliar qual o verdadeiro efeito do exercício podendo

mesmo ser contrário ao pretendido. A avaliação do praticante e a

determinação do exercício óptima é uma questão de capacidade e

experiência do treinador, em relação à especificidade da modalidade

desportiva em causa.

Concluindo, é fundamental ajustar as componentes do treino, como por

exemplo a intensidade, a duração, a complexidade, etc., à capacidade dos

praticantes, propondo exercícios que solicitem uma capacidade mais

elevada mas que continuem adaptadas às possibilidades dos

intervenientes. Logo, quanto mais as componentes do exercício de treino

Page 136: Metodologia Do Treino Desportivo

108 • Metodologia do treino desportivo I !

se aproximam do valor óptimo relativo à capacidade do praticante "no

momento da carga", melhor se processa a adaptação. Ao contrário quanto

maior for a diferença em relação a esse valor óptimo (para mais ou para

menos), menos eficiente será essa adaptação.

2.1.2. A determinação do momento óptimo de aplicação de um novo exercício

Esta questão relaciona o tempo de intervalo entre a aplicação de dois

exercícios ou de duas unidades de treino. A solução é frequentemente

estabelecida seguindo a concepção da curva de Folbort, segundo a qual, o

tempo de recuperação entre a aplicação das cargas de treino é

determinada pela mútua relação existente entre os processos de fadiga e o

restabelecimento das capacidades funcionais do organismo.

Figura 19. A curva de Folbort

I - Carga de Treino corresponde à excitação da função A - Ponto de fadiga. Diminuição momentânea das capacidades funcionais.

II - Período durante o qual os efeitos da sessão de treino se fizeram sentir com maior intensidade. Reorganização da estrutura

B- Ponto mais elevada Supercompensação. Nível de organização estrutural superior ao normal III - Período de Supercompensação. Melhoria da função, melhoria do rendimento.

Quando os exercícios que configuram a unidade de treino são aplicados

de forma intensa, mas o tempo que medeia a aplicação de uma nova

unidade de treino é demasiado longo, não haverá uma adaptação dos

diferentes recursos do praticante ao esforço. Didacticamente, podemos

Page 137: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 109

afirmar que as potencialidades do praticante, depois de estarem

momentaneamente aumentadas (fase de supercompensação), retomam o

seu nível inicial.

Figura 20. O tempo que medeia a aplicação entre duas unidades de treino é demasiado

longo

Pelo contrário, quando durante a unidade de treino os exercícios são

aplicados de forma intensa, e o tempo que medeia a aplicação de uma

nova unidade de treino é demasiadamente curto, provoca-se a degradação

das potencialidades do praticante, tendo o treino um efeito negativo,

perdendo assim, toda a sua eficácia.

Figura 21. O tempo que medeia a aplicação entre duas unidades de treino é

demasiado curto

A aplicação de cargas em intervalos óptimos, provoca a melhoria

progressiva das potencialidades do praticante. Isto deverá acontecer,

quando a nova unidade de treino é aplicada no momento, em que ainda

não desapareceram todas as "sequelas" do treino precedente.

Esta regra não pode ser aplicada forçosamente a cada unidade de treino,

pois, numa fase mais elevada do praticante, este já não reage tão

facilmente às cargas simples, como no início da mesma. Assim, torna-se

necessário criar-se periodicamente situações em que se verifique o

somatório do efeito de uma série de sessões de treino numa perspectiva

Page 138: Metodologia Do Treino Desportivo

110 • Metodologia do treino desportivo I !

de ausência parcial de recuperação. Por exemplo, o somatório de vários

treinos (microciclo) é, considerado neste caso, como a carga total. O

objectivo desta medida é a de forçar os mecanismos de adaptação dos

diferentes recursos dos praticantes a enfrentar maiores exigências.

Podemos afirmar que enquanto que uma fase de supercompensação é

rapidamente transformada, num nível mais elevado de rendimento nos

praticantes em desenvolvimento, este processo leva semanas ou meses

em atletas de alto rendimento. Toda a carga óptima acarreta consigo um

traço de supercompensação, mas para o praticante de elite, o aumento do

seu rendimento resulta do efeito acumulativo das cargas de treino,

aumento esse que se processará por intervalos não necessariamente

regulares. Matveiv (1977) chama-lhe "transformação demorada".

Figura 22. O tempo que medeia a aplicação entre duas unidades de treino é óptimo

"A correcta gestão das componentes de qualquer exercício ou conjunto

de exercícios, é inseparável do conhecimento preciso do estado de

recuperação das estruturas solicitadas, entre treinos consecutivos, entre

treinos de natureza idêntica, entre competições, entre treinos e

competições, ou entre exercícios na mesma unidade de treino" (Proença,

1990).

Page 139: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 111

Figura 23. Somatório do efeito de uma série de sessões de treino

Concluindo, "a correcta gestão das componentes de qualquer exercício

ou conjunto de exercícios, é inseparável do conhecimento preciso do

estado de recuperação das estruturas solicitadas, entre treinos

consecutivos, entre treinos de natureza idêntica, entre competições, entre

treinos e competições, ou entre exercícios na mesma unidade de treino"

(Proença, 1990).

O desenvolvimento do nível de adaptação e consequentemente da

capacidade de rendimento efectua-se muito rapidamente no princípio do

treino, e torna-se depois mais lento e laborioso.

Figura 24. O nível de rendimento em função do tempo de treino

2.2. Princípio da continuidade da aplicação do exercício de treino

Para existir adaptação, os exercícios de treino devem ser aplicados

regularmente, isto é, a sistematização do trabalho programado não deverá

permitir uma quebra de continuidade desta, apresentando uma intervenção

Page 140: Metodologia Do Treino Desportivo

112 • Metodologia do treino desportivo I !

unitária de todas as variáveis interactuantes. "As cargas de treino devem

realizar-se de forma suficientemente espaçada, para que tenha lugar o

crescimento dos tecidos, a reposição energética e a síntese bioquímica, se

bem que devem ser suficientemente frequentes para contribuir para o

desenvolvimento fisiológico" (Burke).

Com efeito, a interrupção demasiado prolongada do processo de treino, leva

a um retrocesso de capacidades de rendimento do atleta (princípio da

reversibilidade). Assim, para que o processo de treino seja contínuo, é

necessário, em princípio que a nova sessão de treino seja aplicada quando

ainda não desapareceu o efeito da sessão anterior, sempre que possível no

período de supercompensação, em que as capacidades funcionais do atleta

estão momentaneamente aumentadas. Segundo Matveiev (1977), o princípio

da continuidade caracteriza-se por três proposições:

o treino desportivo consiste, na realidade, num encadeamento de

máximo efeito da especialização desportiva;

a ligação entre os vários elos desse encadeamento é garantida na base

da continuidade dos efeitos de treino imediatos, atrasados e acumulados;

e,

os intervalos entre as sessões de treino são mantidos entre os limites

que asseguram, como tendência geral, um desenvolvimento constante do

nível de preparação.

Continuidade significa igualmente repetição sistemática das diferentes

actividades consubstanciadas pelo exercício, na medida que esta repetição é

essencial para que os efeitos de treino "não se percam". Contudo, esta

repetição não se processa ao acaso mas devidamente adaptada às

circunstâncias e objectivos a atingir. Com efeito, a eficiência das "respostas"

depende da fixação e integração, as quais por sua vez, dependem de uma

periodicidade mínima na execução dessas actividades. "O princípio da

continuidade do processo de treino não se reduz, à exigência de repetir os

efeitos de treino tantas vezes quantas possível. Pressupõe uma combinação

Page 141: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 113

regular dos elementos recorrentes e mutáveis do sistema das sessões de

treino e permite muitas variantes de planeamento da sessão de treino desde

que elas ajudem a assegurar um ritmo relativamente intenso do

desenvolvimento gradual do nível de treino" (Matveiev, 1977).

2.3. Princípio da progressividade do exercício de treino

Após a aplicação de um ou série de exercícios de treino com uma

determinada intensidade, segue-se a adaptação do organismo. Passando este

a dispor de um nível mais elevado de capacidade que corresponde a um

maior potencial de recursos disponível. Para mobilizar esta "nova"

capacidade, dever-se-à aplicar exercícios de treino mais complexos e mais

difíceis, pois, exercícios que se mantenham imutáveis, podem causar uma

melhoria durante um certo tempo, provocando uma diminuição do grau de

recursos, mas o seu efeito diminui até se manter num estado estacionário de

adaptação. "Estagnação da carga de treino, significa a estagnação das

resultados" (Harre).

Todavia, os esforços intensos não são ilimitados, não só devido ao

esgotamento das substâncias energéticas, mas também da inibição do

organismo em continuar o esforço, como medida de segurança. Quando

através do treino com a adaptação progressiva do organismo a esforços

crescentes, aumenta a capacidade de resposta emocional, aumenta a

mobilização das reservas e substâncias energéticas intensificando-se desta

forma a capacidade de trabalho (supercompensação). Assim, para que o

organismo possa suportar o regime de intensidade preconizada, sem perigo

para a saúde e normal desenvolvimento das capacidades, tem de se definir

esse regime de modo progressivo e de acordo com a melhoria da adaptação

funcional. O aumento da carga de treino sem que se tenha em conta esta

adaptação, pode representar um estímulo excessivo e conduzir a uma

diminuição das capacidades para além de outros efeitos prejudiciais. Logo, a

Page 142: Metodologia Do Treino Desportivo

114 • Metodologia do treino desportivo I !

progressão das cargas deve respeitar os mecanismos de regeneração, ou seja

a capacidade que o indivíduo possui de recuperar do esforço.

As unidades de treino podem ser aumentadas das seguintes formas:

pelo aumento do volume da unidade de treino, que corresponderá a

uma maior duração quer dos exercícios, do número de repetição destes,

das sessões de treino, etc;

pelo aumento da intensidade da carga, que corresponderá a um

aumento da velocidade de execução, e um menor tempo de pausa entre

uma ou outra série de exercícios (densidade), etc;

pelo aumento da complexidade ou da dificuldade dos exercícios, que

corresponderá a uma maior concentração do praticante, sobre a análise e

resolução das situações competitivas, com a correspondente resposta

motora (execução técnico-táctica).

Os tipos de progressão das cargas que normalmente se consideram são:

• progressão linear ( );

• progressão por níveis ( ); e a,

• progressão ondulada ( ).

O organismo reage mais intensamente à forma de progressão ondulada, por

ser este que melhor se identifica. Ao alternar-se cargas fortes com cargas

fracas, a acumulação destas permite uma reacção mais intensa do

organismo, assim como uma maior estabilidade dos efeitos produzidos,

devido a um "distúrbio" mais acentuado no equilíbrio dinâmico orgânico,

solicitando, não só maiores exigências das capacidades funcionais do atleta

como maior intensificação dos seus processos de adaptação.

Segundo Matveiv (1977), é possível mostrar-se um esquema orientador das

tendências gerais das cargas nos diversos intervalos do processo de treino.

De acordo com tal sistema, existem 3 tipos de ondas:

pequenas: que caracterizam a dinâmica da carga nos microciclos que

compreendem entre 2 a 7 dias;

Page 143: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 115

medias: que exprimem a tendência geral das cargas de umas quantas

"ondas" pequenas (por exemplo 3 a 6, ou seja 3 a 4 meses), nos limites

das etapas do treino; e,

grandes: que caracterizam a tendência geral das "ondas" médias, nos

períodos de treino.

Ainda segundo o mesmo autor (1977), a arte de estruturação do treino

consiste, em grande medida, na combinação correcta de todas as "ondas"

entre si, quer dizer, em assegurar a correspondência necessária entre a

dinâmica das cargas nos microciclos (conjunto de "ondas" pequenas) nas

tendências mais gerais do processo de treino (macrociclo). Concluindo, as

cargas de treino, terão de ser modificadas periodicamente e o seu

crescimento realiza-se em saltos, que aumentam em concordância com as

necessidades de adaptação do organismo.

2.4. Princípio da ciclicidade do exercício de treino

O aumento das capacidades funcionais do praticante, que corresponderá ao

melhoramento do seu rendimento, tem um carácter essencialmente cíclico

(alternância), assim como a estrutura (objectivos, conteúdo, forma, nível de

performance) dos exercícios ou séries de exercícios que constituem as

unidades de treino necessárias para o atingir.

A eficiência deste princípio depende particularmente do planeamento do

treino, em que se estabelece a necessidade de repetir de forma sistemática e

racional os elementos dinâmicos fundamentais da modalidade desportiva em

causa, e de modificá-los numa sequência lógica em função das fases ou

períodos de treino.

Page 144: Metodologia Do Treino Desportivo

116 • Metodologia do treino desportivo I !

Com efeito, cada ciclo sucessivo é uma repetição parcial do anterior,

exprimindo concomitantemente as tendências da evolução do processo de

treino, difere assim do anterior, pelo seu conteúdo renovado, pela

modificação parcial de meios e métodos utilizados, pelo incremento das

cargas, etc. A utilização racional dos meios e métodos de treino, segundo

Matveiev (1977), é determinado pela sua efectivação no momento adequado

dentro da estrutura dos ciclos de treino - visto que qualquer exercício, meio

ou método, por muito bom que seja em si, perde a eficácia quando não é

utilizado no devido momento ou quando é utilizado de maneira deslocada,

sem se levar em linha de conta as particularidades das fases e períodos do

treino.

Concluindo, a essência do princípio do carácter cíclico dos exercícios

exprime-se concretamente na análise pormenorizada dos fundamentos

estruturais do planeamento do processo de treino.

2.5. Princípio da individualização do exercício de treino

O ser humano possui uma individualização biológica e psicológica

(fenómeno que explica a variabilidade entre os elementos da mesma

espécie), ou seja, cada praticante reage e adapta-se de forma diferente a um

ou sequência de exercícios de treino semelhantes. Isto explica o facto de

diferentes adaptações do sistema motor, e dos outros orgãos aos mesmos

exercícios de treino, não só nos diferentes praticantes, como também nos

mesmos praticantes durante os diferentes períodos de preparação.

Consequentemente obriga-nos a admitir que as modificações dos gestos

(afinamento técnico do gesto) e do resultado desportivo (eficiência e

rendimento do gesto técnico) e das transformações hormonais, metabólicas,

etc., (orgânicas) durante o exercício de treino exercem uma influência

Page 145: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 117

importante na capacidade de cada praticante em se adaptar às actividades.

Concluindo, o que é fundamental equacionar é que a eficiência funcional de

cada praticante é diferente, logo, a aplicação de qualquer exercício de treino

requer uma estreita individualização dos meios e métodos a utilizar, os quais

deverão corresponder estritamente às capacidades individuais dos

praticantes tendo em conta os aspectos orgânicos, adaptativos e os seus

ritmos de evolução (aprendizagem, aperfeiçoamento). 2.6. Princípio da multilateralidade ou da relação óptima entre a preparação geral e

especial

O rendimento numa determinada modalidade desportiva, não se baseia

apenas na sua prática específica. O organismo é um todo, o

desenvolvimento de uma capacidade, não pode acontecer isoladamente do

desenvolvimento das outras capacidades.

Sobre este princípio Matveiv (1977), estabelece três proposições

fundamentais na unidade da preparação geral e da preparação especial dos

praticantes: i) a inseparabilidade da preparação geral da especial, ii) o

intercondicionalismo do conteúdo da preparação geral e especial e, iii) a

incompatibilidade da preparação geral com a preparação especial.

2.6.1. A inseparabilidade da preparação geral e da preparação especial

A especialização desportiva não exclui o desenvolvimento múltiplo do

praticante. Pelo contrário, o progresso máximo num determinado

desporto só é viável, através do desenvolvimento geral das possibilidades

funcionais do organismo e do desenvolvimento múltiplo das

possibilidades técnicas, tácticas, físicas e psicológicas. Este princípio é

explicado, pela unidade do organismo que consiste na interdependência

orgânica de todos os seus elementos, sistemas e funções no processo da

actividade e no seu desenvolvimento (ainda que cada desporto requeira

correlações- especiais). E pelas interacções dos diferentes hábitos

motores, pois quanto mais amplo for este circulo, mais favoráveis serão

Page 146: Metodologia Do Treino Desportivo

118 • Metodologia do treino desportivo I !

as premissas para que se consiga novas formas de actividade motora e o

aperfeiçoamento dos já assinalados.

2.6.2. O intercondicionalismo do conteúdo da preparação geral e da preparação

especial

O conteúdo da preparação especial depende dos pré-requisitos que são

criados pela preparação geral Todavia, o conteúdo da preparação geral

adquire particularidades que são determinadas pela especialização

desportiva. Por paradoxal que isto pareça, a preparação geral do

praticante vai-se especializando à medida que se aprofunda a sua

especialização desportiva. Com efeito, o sentido básico da especialização

da preparação geral consiste em esta estabelecer um efeito de

transferência positiva para a preparação especial ou, pelo menos,

restringir o efeito da transferência negativa. Neste sentido se explica, as

diferenças dos meios e métodos de treino de preparação geral para cada

caso concreto de especialização desportiva, que se exprimem tanto mais

significativamente quanto mais diferem entre si as respectivas

modalidades. Também, Vorabiev, considera que a preparação geral influi

positivamente sobre a capacidade do organismo Humano e tem um papel

preponderante para atingir altos níveis de rendimento desportivo.

Contudo, a preparação geral deve ser constituído na base e no respeito da

especificidade da modalidade praticada, tanto os meios e métodos de

treino como o volume e intensidade.

2.6.3. A incompatibilidade da preparação geral com a preparação especial

A preparação geral e especial tem de ser compreendida como uma

unidade. Logo, isto levanta um problema de combinação óptima da

preparação geral com a preparação especial, ou seja, a medida da sua

correlação. Assim, nem todas as correlações destes aspectos no decurso

do treino serão úteis para o aperfeiçoamento desportivo. Por exemplo,

Page 147: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 119

um volume excessivo de preparação geral acarreta uma diminuição do

volume de preparação especial necessário e, portanto, do seu efeito,

expresso na consecução de um especial nível de treino. Por outro lado,

uma diminuição exagerada do volume de preparação geral em proveito

da preparação especial faz estreitar a base da especialização desportiva o

que, no fim de contas, exerce também uma influência desfavorável na

melhoria dos resultados desportivos.

Figura 25. As relações de proporcionalidade entre a preparação geral e especial ao

longo do período anual de treino

3. Os princípios pedagógicos

3.1. Princípio da actividade consciente

O exercício de treino deverá ter como objectivo último a "construção" de

praticantes que conseguem resolucionar as diferentes situações de jogo de

forma autónoma, consciente e criativa. Isto só é possível, se a actividade ser

organizada consubstanciando o empenhamento activo e consciente dos

praticantes na execução das exigências determinadas pelo exercício de

treino, o que pressupõe a compreensão clara dos objectivos operacionais,

Page 148: Metodologia Do Treino Desportivo

120 • Metodologia do treino desportivo I !

dos conteúdos para a concretização destes, e os níveis de performance, isto

é, da avaliação dos resultados produzidos.

Daí que, torna-se por vezes necessário a explicação sumária das finalidades

do exercício de treino (objectivos), bem como das condições que o

acompanham e de instruções precisas para a sua realização. Neste sentido,

as intervenções do professor/treinador, antes, durante, e depois do exercício

de treino são uma via para a actividade consciente dos praticantes sem o

qual a sua racionalização (objectividade, modelação) não poderá ser

entendida como uma das etapas para a cientificação do treino. 3.2. Princípio da sistematização

Para a aquisição de uma capacidade específica, os praticantes passam por

um conjunto de etapas traduzidas pela aplicação de um conjunto de

exercícios de treino aplicados de forma sistematizada e integrada num todo.

Neste sentido, para se atingir um objectivo mais elevado (global) dever-se-à

estabelecer um processo de progressão pedagógica, prevista

antecipadamente, através se irá rentabilizar e racionalizar a diversidade e o

grau de mobilização de recursos a serem utilizados.

3.3. Princípio da actividade apreensível

Este princípio estabelece um compromisso entre a complexidade e a

dificuldade do exercício de treino, com a capacidade (habilidade) do(s)

praticante(s). Com efeito, as exigências do exercício deverá estabelecer-se

do simples para o complexo, do conhecido para o desconhecido, do pouco

para o muito, e do concreto para o abstracto.

3.4. Princípio da estabilidade e desenvolvimento das capacidades do praticante

Page 149: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de aplicação do exercício de treino • 121

O exercício de treino correctamente construído e orientado pressupõe uma

lógica que consubstancia a aquisição de determinadas capacidades motoras

e intelectuais específicas dos seus praticantes. Todavia, para que o exercício

de treino tenha êxito é necessário que os praticantes passem por um ciclo

de: aquisição, estabilização, e desenvolvimento, sem o qual a evolução da

capacidade de rendimento será irremediavelmente equacionado. Com efeito,

o referido ciclo é fomentado por dois factos essenciais: i) o treino e a

competição sistemática (a prática estimula a inactividade retrocede), e, ii) de

uma avaliação e controlo frequentes (que poderá determinar, ou não, a

modificação dos métodos e dos conteúdos do exercício de treino).

Clarificados os aspectos fundamentais referentes à natureza e à estrutura dos

exercícios de treino, iremos seguidamente debruçarmo-nos sobre as bases

conceptuais:

• para a construção dos exercícios a partir de três perspectivas;

associativista, da forma, e estruturalista; e,

• da eficiência do exercício baseada numa preocupação de unidade (das

actividades, do praticante, e da equipa), num correcto seleccionamento e

correcção do exercício, bem como a motivação inerente à sua prática.

w

Page 150: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE III

O EXERCÍCIO DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 4

Bases da eficácia dos exercícios de treino

Resp: Jorge Castelo

Page 151: Metodologia Do Treino Desportivo

122 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo do Capítulo 4 da Parte III

Por último, o Capítulo 4 procura eventariar as bases da eficácia de

aplicação dos exercícios de treino. Com efeito, qualquer exercício não

provoca necessária e exclusivamente os mesmos efeitos - positivos ou

negativos. Neste sentido, é correcto e pertinente a sistematização e

análise dos elementos que assumem particular importância neste

contexto., tais como: a preocupação de unidade (da actividade, do

praticante e da equipa), seleccionar correctamente o exercício (fazendo-

o corresponder à lógica interna da modalidade e às capacidades do

praticante), repetir para consolidar os elementos críticos do exercício,

corrigir e motivar correctamente para o exercício.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 7

Page 152: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 123

Parte III

O exercício de treino desportivo

Sumário

Capítulo 4 - Bases de eficácia dos exercícios de treino

1. Preocupação de unidade do exercício de treino

1.1. Unidade da actividade

1.2. Unidade do praticante

1.3. Unidade da equipa

2. Seleccionar correctamente o exercício de treino

2.1. Fazer correlacionar a lógica interna da modalidade com o exercício

de treino

2.2. Ajustar os níveis de complexidade e dificuldade à capacidade dos

praticantes

3. Repetição sistemática do exercício de treino

3.1. Repetir para consolidar os elementos críticos do exercício de treino

4. Corrigir correctamente o exercício de treino

4.1. Aspectos chave para a correcção do exercício de treino

5. Motivar correctamente para o exercício de treino

5.1. Aspectos chave para a motivação no exercício de treino

Bibliografia:

Page 153: Metodologia Do Treino Desportivo

124 • Metodologia do treino desportivo I !

BAYER, C. (1979) L´enseignement des jeux sportifs collectifs, Editions Vigot,

Paris

BAYER, C. (1974) La pratique du hand-ball et son approche psycho-social,

Librairie J.Vrin, Paris

BOMPA, T. (1990) Theory and methodology of training, Kendal/Hunt

publishing company, USA

FAMOSE, J.P. (1990) Apprentissage moteur et difficulté de la tache, INSEP -

Publications, Paris

MAHLO, F. (1966) O acto táctico, Compendium, Lisboa

SALMELA, H. (1975) Manipulation de l'information au volleyball, Révue

Mouvement, Vol.10, nº2, Juin, pp. 83-95

ULATOWSKI, T. (1975) La theorie de l´entrainement sportif. Comité

Internacional Olympique

Page 154: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 125

Dos raciocínios expostos, é incontestável a importância dos exercícios de

treino no contexto de desenvolvimento do rendimento desportivo dos

praticantes. Todavia, há que evidenciar que nem todos os exercícios são iguais,

isto é, nem todos provocam os mesmos efeitos, nem todos têm a mesma

eficácia em função dos objectivos que se pretendem atingir. Neste sentido, é

importante e pertinente referenciar quais os elementos, que segundo a nossa

opinião, assumem particular importância na eficácia dos exercícios de treino: i)

preocupação de unidade do exercício de treino, ii) seleccionar correctamente o

exercício de treino, iii) repetição sistemática do exercício de treino, iv) corrigir

correctamente o exercício de treino e, v) motivar correctamente para o exercício

de treino.

1. Preocupação de unidade do exercício de treino

A aplicação dos exercícios de treino dever-se-à apoiar numa preocupação de

unidade, a qual é entendida sob três vertentes: a unidade da actividade, a

unidade do praticante, e a unidade da equipa.

1.1. Unidade da actividade

As diferentes actividades que os exercícios de treino contêm devem ser

devidamente coordenadas de forma a constituírem um processo unitário e

global, um todo. Esta preocupação deve presidir em cada sessão de treino

(unidade), assim como a cada período semanal (microciclo), mensal

(mesociclo), e anual (macrociclo).

1.2. Unidade do praticante

Os exercícios de treino devem ser dirigidos aos praticantes, às suas

características, particularidades e capacidades. Com efeito, a actividade

realizada pelos praticantes têm repercussões não só ao nível do seu

rendimento, mas também, ao nível do seu comportamento global.

Page 155: Metodologia Do Treino Desportivo

126 • Metodologia do treino desportivo I !

1.3. Unidade da equipa

Os exercícios de treino devem ser dirigidos à equipa. Partindo-se de uma

concepção dever-se-à procurar atingir um modelo de jogo que

consubstancie um conjunto de características fundamentais que, em última

análise, estabelecem a expressão táctica da equipa.

2. Seleccionar correctamente o exercício de treino

É importante questionarmo-nos se todo e qualquer exercício consubstancia o

melhoramento do rendimento desportivo dos praticantes. Em nossa opinião,

cremos que não, mesmo quando tomamos como ponto de referência diferentes

praticantes com diferentes níveis de rendimento. Com efeito, praticantes em

formação, exercícios mal seleccionados e repetidos sistematicamente irão

equacionar de forma inequívoca toda a capacidade de resposta destes no futuro,

isto é, na assimilação de novos e complexos conteúdos da modalidade em

questão. Enquanto nos praticantes de alto rendimento, exercícios mal

seleccionados irão equacionar de forma inequívoca toda a capacidade de

desenvolvimento, na estagnação e mesmo retrocesso dos resultados aí

conseguidos. Nesta dimensão, deriva a necessidade premente de seleccionar e

organizar o(s) exercício(s) de treino que responda(m) adequadamente às

exigências de uma determinada situação, seja ela de aprendizagem, de

aperfeiçoamento, ou de desenvolvimento.

Como refere Bompa (1990) "no treino existe um grande número de exercício,

alguns de efeitos limitados e outros de efeitos muito complexos". Assim de

uma multiplicidade de exercícios possíveis de aplicar no treino, cabe ao

treinador "seleccionar cuidadosamente aqueles que melhor atinjam os

objectivos definidos e que assegurem o mais alto nível de desenvolvimento".

Para Harre (1981), os exercícios são "o meio mais importante para a elevação

dos rendimentos desportivos. Estes têm de corresponder às metas e tarefas do

processo de treino e não devem ser elegidos e aplicados sem ordem. A

Page 156: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 127

utilidade de um exercício no treino desportivo resulta exclusivamente do seu

aproveitamento para o desenvolvimento do rendimento".

Todavia, o correcto seleccionamento do(s) exercício(s) de treino parte de uma

dupla articulação do problema de contornos amplos e complexos que iremos

seguidamente analisar: i) a correlação da lógica interna da modalidade e o

exercício de treino e, ii) o ajustamento dos níveis de complexidade e

dificuldade do exercício à capacidade dos praticantes.

2.1. Fazer correlacionar a lógica interna da modalidade com o exercício de treino

Como referimos, o fundamento essencial do treino desportivo assenta, numa

repetição lógica, sistemática e organizada de diversos exercícios

consubstanciando conteúdos variados, que abordam os objectivos

estabelecidos através de diferentes formas, podendo estas serem mais ou

menos complexas, com um maior ou menor grau de concordância com a

lógica interna da modalidade desportiva em questão (primeiro nível da

articulação do problema). Neste sentido, os vários exercícios programados

para a sessão de treino devem apresentar uma articulação/identidade interna,

isto é, uma inter-analogia susceptível de ser reconhecida pelos praticantes

que em função das suas experiências adquiridas através dos exercícios

anteriores, atribuem: i) um significado à situação de treino criada

(interpretando e organizando a sua percepção) e, ii) orientam a escolha e a

execução das acções técnico-tácticas para a resolução das tarefas que lhes

deparam.

Com efeito, parte-se do pressuposto da existência do fenómeno de transfert

no domínio motor, isto é, "uma aprendizagem modifica, facilitando, ou pelo

contrário, interferindo numa outra aprendizagem subsequente" (Bayer,

1979). Logo, a sucessão dos exercícios de treino devem ser construídos,

orientados e organizados de forma que os praticantes possam aplicar as

experiências das suas aprendizagens, aperfeiçoamentos e desenvolvimentos

anteriores, não havendo assim, espaço onde prolífera diferenças estruturais

Page 157: Metodologia Do Treino Desportivo

128 • Metodologia do treino desportivo I !

significativas entre um exercício e o exercício seguinte. Assim, observar-se-

à por parte dos praticantes a capacidade destes descobrirem e interpretarem

as analogias entre os exercícios e, por via disso, reflectir os princípios e

executar os meios de acção idênticos que se aplicam à resolução eficaz das

diferentes tarefas criadas. Tal como refere Mahlo (1966) "para responder às

condições de prática é necessário fazer com que a solução mental leve cada

vez menos tempo. É preciso aumentar a amplitude e a rapidez do efeito de

transfert, melhorando sem cessar a capacidade de percepção analítica da

constelação táctica essencial. Agir deste modo é garantir que os novos

problemas possam ser resolvidos de uma melhor forma do que o são graças

às associações já existentes". A este propósito Rubinstein (1966), refere que

"o problema do transfert surge em definitivo sob o ângulo do pensamento,

quando da aplicação a problemas novos de situações anteriormente

descobertas (conhecimentos)".

Concluindo, a questão levantada relativamente à selecção e sucessão

(encadeamento) dos exercícios de treino, projecta-a para uma dimensão

onde a coerência, homogeneidade e a interrelatividade são as orientações

fundamentais, e que consubstanciam consequentemente uma maior

complexidade e cuidado na construção da unidade de treino. 2.2. Ajustar os níveis de complexidade e dificuldade à capacidade dos praticantes

A manipulação dos níveis de complexidade e de dificuldade e o seu

ajustamento ao nível das capacidades (habilidades) do(s) praticante(s)

representa a condição essencial para uma aprendizagem, aperfeiçoamento e

desenvolvimento eficientes. Com efeito, o(s) exercício(s) de treino com

níveis de complexidade e dificuldade elevadas provocam erros prejudiciais

e estagnação do rendimento do(s) praticante(s), e o(s) exercício(s) de treino

com níveis de complexidade e dificuldade reduzidos provocam

desmotivação e desinteresse.

Page 158: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 129

Neste sentido, ajustar correctamente os níveis de complexidade e

dificuldade às habilidades do(s) praticante(s), significa, em última análise,

propor exercício(s) de treino cujos níveis referidos são superiores às

capacidades destes (sem o qual não poderá haver aprendizagem,

aperfeiçoamento e desenvolvimento), mas que continuam adaptadas às suas

possibilidades ("dificuldade óptimal" Famose, 1990), mantendo uma

elevada percentagem de eficácia na concretização do objectivo do exercício.

Do exposto, não existem dúvidas que a segunda articulação do correcto

seleccionamento do(s) exercício(s) de treino passam indubitavelmente pelo

enquadramento de dois níveis essenciais: o nível de complexidade e o nível

de dificuldade que o exercício deve consubstanciar, em relação ao nível da

capacidade (habilidade) do(s) praticante(s) que por sua vez, segundo o

modelo de Desharnais, citado por Famose (1990) "depende do produto da

interacção de dois factores que representam os recursos postos à sua

disposição..." para ultrapassar as exigências do(s) exercício(s) de treino: "o

potencial que corresponde às componentes hereditárias de ordem

morfológica, orgânica e psicológicas, e a aprendizagem que correspondem

às condições de prática específica".

O nível de complexidade de um exercício de treino deriva essencialmente

das condições estabelecidas pelo contexto (meio) em que o(s) praticante(s)

iram estar inserido(s), que corresponde, por exemplo, à existência ou não de

companheiros (cooperação) adversários (oposição), espaço de jogo

(reduzido ou não), condicionantes às leis do jogo, condicionalismos em

relação à forma (só pé esquerdo, só pé direito) e ao número (um, dois, ou

três toques) de contacto com a bola.

No que concerne ao nível da dificuldade alguns autores consideram que a

sua manipulação pode ser realizada aumentando ou diminuindo a grandeza

do erro (Alain e Salmela, 1980), por exemplo, numa situação de treino de

finalização o nível de dificuldade será menor se diminuir-mos, o critério de

Page 159: Metodologia Do Treino Desportivo

130 • Metodologia do treino desportivo I !

êxito através da marcação de menor golos mantendo-se o número de

remates. Todavia, para Desharnais, citado por Famose (1990) "o nível de

dificuldade é o produto da interacção de dois factores de base. O primeiro

relaciona-se com o nível de complexidade e o segundo com o nível de

habilidade. Assim, o nível de dificuldade será: ND=NC/NH".

Nestas circunstâncias, para um mesmo exercício de treino (isto é, um nível

de complexidade idêntico), o nível de dificuldade é sempre relativo

dependendo do nível de habilidade do(s) praticante(s). Logo, à medida que

estes progridem na sua aprendizagem, a sua actividade torna-se mais

eficiente diminuindo consequentemente o nível de dificuldade para a sua

concretização. Ainda segundo o mesmo autor (1990) "o nível de dificuldade

pode variar ao longo do tempo devido às flutuações do nível de habilidade

e devido aos factores situacionais, que são representados pelas condições

atmosféricas, aquecimento, solo escorregadio, etc., estes factores

influenciam de forma indirecta o nível de dificuldade".

Potencial

Aprendi-

zagem

Nível de

habili-

dade

Nível de

comple-

xidade

Nível de

dificul-

dade

Factores

situacio-

nais

Figura 26. Ilustração da interacção dos diferentes factores da dificuldade (segundo

Desharnais citado por Famose, 1990)

Finalizando, podemos determinar objectivamente o grau de dificuldade dos

exercícios de treino através de um dos seguintes procedimentos:

a performance obtida na execução dos diferentes exercícios a partir de

um leque alargado de praticantes. Com efeito, o exercício terá um maior

Page 160: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 131

ou menor nível de dificuldade consoante as elevadas ou reduzidas

performances obtidas;

a diversidade e o grau de recursos que os diferentes praticantes

utilizam na realização dos diferentes exercícios. Assim, quanto maior ou

menor for esse investimento maior ou menor será o grau de dificuldade

das diferentes actividades em causa.

Concluindo, o exercício de treino correctamente seleccionado é aquele que

melhor estabelece a concordância entre a lógica interna da modalidade

desportiva em causa, e ajustar (adaptar) os seus níveis de complexidade e de

dificuldade em função dos níveis de capacidade (aprendizagem,

aperfeiçoamento, ou desenvolvimento) do(s) praticante(s).

3. Repetição (exercitar) sistemática do exercício de treino

O exercício de treino como construção hipotética capaz de desencadear,

organizar e orientar a actividade do(s) praticante(s) em direcção a um objectivo

válido, consubstancia-se essencialmente numa sistemática e racional repetição

de determinados acto(s) motor(es) por forma a aperfeiçoá-los e a desenvolver

os elementos técnicos, tácticos, e físicos nele incluídos. Com efeito, a correcta

e eficaz execução dos diferentes factores inerentes a cada comportamento

específico de uma dada modalidade desportiva, está intimamente ligada à

frequente repetição dos exercícios de treino, pois só assim os actos motores

adquirem a estabilidade e a segurança indispensáveis à sua aplicação tanto no

treino como na competição.

3.1. Repetir para consolidar os elementos críticos do exercício de treino

Aspecto fundamental a ter em mente é o facto de a repetição sistemática do

exercício de treino "não ser selectivo, isto é, consolidar e estabilizar todos

os elementos que se repetem muitas vezes, independentemente de a sua

execução ser ou não a mais correcta. Queremos dizer com isto que , no

caso de o permitirmos, a repetição sistemática de um erro vai criar no(s)

praticante(s) um gesto ou um movimento errado mas que agora se

Page 161: Metodologia Do Treino Desportivo

132 • Metodologia do treino desportivo I !

apresenta da mesma forma estável e consolidado pela repetição" (Soares,

1986).

Neste contexto, a repetição do exercício de treino deve favorecer a

consolidação dos elementos críticos do comportamento motor, diminuindo

as possibilidades de consolidação dos erros que depois é normalmente muito

difícil de debelar. Com efeito, as bases da eficácia do exercício passam

indubitavelmente por uma correcta e eficaz intervenção do treinador por

forma a corrigir o exercício.

4. Corrigir correctamente o exercício de treino

Do que foi anteriormente referido podemos correr o risco compreensível de

cairmos na tentação de atribuirmos apenas ao correcto seleccionamento do

exercício de treino a razão do sucesso do caminho para alcançar um

determinado objectivo. Neste contexto, é necessário reter uma segunda questão

fundamental, é que para além da definição exaustiva dos elementos que

constituem o conteúdo do exercício os quais derivam, por um lado, do

estabelecimento de objectivos concisos e, por outro, do nível do

desenvolvimento (rendimento) dos praticantes, é necessário compreender que a

correcta aquisição e assimilação desses elementos (técnicos, tácticos, físicos,

psicológicos, incluídos no conteúdo do exercício) decorram no mesmo nível de

importância.

Com efeito, é necessário deixar claro, que qualquer exercício, mesmo que

tenha passado por um correcto processo de seleccionamento, só terá

utilidade/validade, isto é, só poderá ser considerado meio de treino efectivo,

capaz de cumprir o objectivo que o determina, se for explicado, corrigido e

apreendido convenientemente de forma que a execução dos elementos

técnico-tácticos que o constituem e em função da variabilidade da situação,

decorram em conformidade com os objectivos pré-estabelecidos. Ulatowski

(1975), refere concretamente que "a eficácia do treino depende em primeiro

lugar, da escolha e da execução dos exercícios", acrescentando que "sem um

Page 162: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 133

conhecimento das suas características e particularmente das suas vantagens e

desvantagens "é pouco provável uma utilização racional do(s) mesmo(s).

4.1. Aspectos chave para a correcção do exercício de treino

Para se corrigir correctamente o exercício de treino é necessário que o

professor/treinador, preencha os seguintes pressupostos:

conhecer a natureza da sua própria modalidade, isto é, a sua lógica

interna, e conhecer a personalidade dos seus praticantes e a forma como

estes melhor aprendem e evoluem. Só a partir destes conhecimentos o

professor/treinador poderá estimular, organizar e articular os exercícios

de treino numa direcção pré-determinada;

conhecer profundamente os objectivos a atingir com o exercício

seleccionado e os conteúdos utilizados para os atingir, bem como, as

diferentes hipóteses de manipulação das suas componentes de forma a

estabelecer diferentes "caminhos" (respostas) perante o problema posto.

Neste sentido, o professor/treinador poderá acelerar os processos de

aprendizagem, aperfeiçoamento ou desenvolvimento dos praticantes de

forma que não haja percas desnecessárias de tempo;

deverá consciencializar-se que é ele que dirige o treino, e isso significa

que os praticantes deverão cumprir escrupulosamente os objectivos, os

conteúdos, e as instruções estabelecidas. Elucidativo é a afirmação de

Famose (1990) "a noção de tarefa apresenta a ideia de prescrição, de

obrigação, sendo composto por factores que devem ser respeitados

senão o indivíduo sai fora da tarefa";

deverá despertar nos seus praticantes a importância e as vantagens a

curto e a longo prazo de uma execução correcta, consciente e criativa,

evitando-se, com efeito, a consolidação de erros que radicam, de tal

forma, que podem em certos casos equacionar de forma irremediável a

capacidade dos praticantes;

Page 163: Metodologia Do Treino Desportivo

134 • Metodologia do treino desportivo I !

deverá intervir sem demoras, e conscientemente na correcção do

exercício de treino sempre que este esteja a ser defraudado nos seus

objectivos fundamentais. Todavia, a intervenção do professor/treinador

na correcção do exercício não pode reduzir-se a evidenciar os aspectos

negativos de execução mas também e concomitantemente na valorização

dos aspectos positivos, de forma a motivar os praticantes a reforçá-los e a

melhorar os aspectos negativos. Neste contexto, a correcção/intervenção

deverá saldar-se por uma resposta positiva por parte dos praticantes;

a correcção/intervenção constitui factor decisivo na relação com os

praticantes, pois determina uma tripla dimensão:

• existe a preocupação do professor/treinador de direccionar o

investimento e empenhamento dos praticantes no "caminho" correcto;

• diminui a possibilidade de haver grandes discrepâncias entre as

capacidades dos diferentes praticantes, pois o que executam mais

correctamente têm maiores possibilidades de evoluir mais

rapidamente; e,

• evitar a ideia de haver preferências e proteccionismos por parte do

professor/treinador a certos praticantes, a qual destrói por completo

qualquer tipo de coesão de grupo ou de equipa;

por último, uma vez assimilados os aspectos referentes à correcção do

exercício há a possibilidade dos praticantes realizarem-no sem

interrupção directa do professor/treinador, estabelecendo-se assim, o

espaço e o tempo para que estes possam exprimir a sua própria

criatividade e improvisação.

5. Motivar correctamente para o exercício de treino

A análise da essência do desporto, caracteriza-o como uma actividade

inseparável da tendência para a máxima realização. Além das motivações

pessoais, esta orientação é facilitada pela significação social que advém da

objectivação de elevados rendimentos desportivos. Todavia, o rendimento

Page 164: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 135

máximo baseia-se num grande número de competições e de treinos, cuja sua

dureza e continuidade, exige renúncias e restrições na vida pessoal dos

praticantes, influenciando de forma decisiva a personalidade destes. Os

aspectos enunciados são secundados pelo o grande número de repetições dos

exercícios de treino, e a própria estandardização destes, criam os pressupostos

essenciais para que os praticantes diminuam gradualmente os níveis de

motivação perante as tarefas do treino, baixando por consequência a eficácia

do exercício.

A motivação faz interferir um elemento fundamental: a atitude do praticante

face aos objectivos e conteúdos do exercício de treino. Só o praticante é capaz

de dar sentido à estrutura do exercício, de o modificar, seleccionando a

informação, direccionando a percepção e orientando as acções em função do

significado atribuído às situações em que este se encontra implicado. Com

efeito, manter um elevado nível de motivação, é igualmente um dos factores

fundamentais à construção das bases de eficácia do exercício de treino. Daí a

necessidade de se estabelecer condicionamentos no domínio técnico, táctico ou

psicológico, no seleccionamento dos exercícios de forma que os praticantes

executem-nos com elevados graus de motivação. Mesmo na realização de

exercícios, que sendo importantes do ponto de vista da preparação, mas devido

à sua especificidade não serem tão "atractivos", há que encontrar formas para

que os praticantes não lhes atribuam menos importância, e por via disso menos

efectividade.

5.1. Aspectos chave para a motivação no exercício de treino

A correcta motivação dos praticantes para a execução dos exercícios de

treino passa fundamentalmente pelos seguintes aspectos:

ajustar a dificuldade e a complexidade do exercício às capacidades dos

praticantes é, como anteriormente referimos, o elemento fundamental que

concorre para manter um nível motivacional elevado, de forma que estes

Page 165: Metodologia Do Treino Desportivo

136 • Metodologia do treino desportivo I !

se empenhem na concretização dos objectivos estabelecidos, os quais

devem ser delineados no realismo da situação;

os exercícios seleccionados devem transmitir aos praticantes que são

importantes para o melhoramento do seu nível de capacidades. Por outras

palavras, os praticantes têm de acreditar nos efeitos positivos, a curto e a

longo prazo, do exercício;

manter a prática motivante passa igualmente pela utilização de uma

variedade de exercícios de treino, ou de uma variedade de manipulações

das condicionantes dos exercícios. Desta forma é possível atingir os

mesmos objectivos através de percursos diferentes evitando-se a

monotonia. Poder-se-à eventualmente pedir aos praticantes que

estabeleçam eles próprios condicionantes do exercício de treino, assim

três aspectos poderam ser atingidos:

• maior empenhamento dos praticantes, pois foram estes que

conceptualizaram, em parte, o exercício;

• o professor/treinador observará até que ponto os praticantes

compreendem a lógica do exercício em causa ou a sequência de

exercícios a executar, e como estes podem contribuir para atingir um

dado objectivo; e,

• aumentar o tempo de prática, através da possibilidade de fora do

período de treino, os praticantes utilizarem esses exercícios como

forma de diversão;

os exercícios de treino devem ser organizados de forma a englobar

todos os praticantes para que o grupo esteja continuamente activo. longos

períodos de paragem (por exemplo "à espera de vez") diminui a

motivação e consequentemente o interesse pela actividade;

dever-se-à evitar dar continuamente instruções interrompendo o

exercício de treino, ou durante a realização do mesmo. Há que ter

presente que os praticantes devem absorver toda a sua atenção ao

exercício e não podem ocupar parte deste, dando atenção às instruções do

professor/treinador;

Page 166: Metodologia Do Treino Desportivo

" Bases de eficácia do exercício de treino • 137

por último, há que ter presente dois aspectos fundamentais na

organização dos exercícios de treino que incrementaram o

empenhamento e a motivação dos praticantes, e que devem ser, sempre

que possível, utilizados: i) o divertimento, e a, ii) competição, estes são os

melhores argumentos para que os praticantes se mantenham "ligados ao

exercício".

Concluindo, neste contexto, reforçamos a importância e a necessidade de se

construírem exercícios de treino nos quais os praticantes mantenham

elevados níveis de motivação e vontade na execução dos seus conteúdos,

encarando-os como os meios mais importantes para o seu aperfeiçoamento e

desenvolvimento, isto é, para a sua superação, sem esta atitude não poderá

haver eficácia nem evolução.

ww

Page 167: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE IV

OS FACTORES DO TREINO DESPORTIVO

Page 168: Metodologia Do Treino Desportivo

138 • Metodologia do treino desportivo I !

Parte IV

Os factores do treino desportivo

Sumário

Capítulo 1

Estudo do factor técnico desportivo

Capítulo 2

Estudo do factor táctico desportivo

Capítulo 3

Estudo do factor físico desportivo Secção A - Estudo sobre a força muscular Secção B - Estudo sobre a resistência Secção C - Estudo sobre a velocidade Secção D - Estudo sobre a flexibilidade

Page 169: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE IV

OS FACTORES DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 1

Estudo do factor técnico desportivo

Resp: Jorge Castelo

Page 170: Metodologia Do Treino Desportivo

140 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo do Capítulo 1 da Parte IV

A Parte IV do presente livro estuda os denominados factores de treino:

técnico, táctico e físico. Neste sentido, iniciaremos a nossa abordagem

pelo factor técnico desportivo definido por um sistema especializado

de acções motoras para a obtenção de elevados rendimentos

desportivos. Com efeito, a aprendizagem da técnica desportiva permite

a aquisição de uma disponibilidade motora por forma que os

praticantes se adaptarem eficazmente às múltiplas e divergentes

situações de competição. Neste contexto, incidiremos a nossa análise

sobre a importância do gesto técnico desportivo, das suas diferentes

fases de aquisição, os diferentes aspectos metodológicos do seu ensino

e o planeamento anual e plurianual.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 8

Parte IV

Page 171: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 141

Os factores de treino

Sumário

Capítulo 1 - Estudo sobre o factor técnico desportivo

1. Definição de técnica desportiva

2. Objectivos do treino técnico-desportivo 2.1. Aquisição de um conjunto de aptidões técnico-desportivas 2.2. Aperfeiçoamento e desenvolvimento das aptidões técnico-desportivas

3. A importância da técnica nas diferentes modalidades desportivas 3.1. As modalidades de força explosiva 3.2. As modalidades de resistência 3.3. As modalidades de exactidão 3.4. As modalidades de estrutura complexa

4. Relações entre o factor técnico e o factor táctico desportivo

5. As diferentes fases do processo de aprendizagem da técnica-desportiva 5.1. Fase de generalização ou de coordenação global do movimento 5.2. Fase de concentração ou da etapa da coordenação fina 5.3. Fase de automatização ou da estabilização e aplicação variável do movimento

6. Os diferentes aspectos metodológicos do processo de aprendizagem da

técnica-desportiva 6.1. Introdução do gesto técnico-desportivo 6.2. A explicação verbal do gesto técnico-desportivo 6.3. A exemplificação/demonstração do gesto técnico 6.4. A prática do gesto técnico-desportivo 6.5. A correcção do gesto técnico-desportivo 6.6. A repetição do gesto técnico-desportivo

6.6.1. A estabilização das aptidões técnico-desportivas 6.6.2. A diversidade de aptidões técnico-desportivas 6.6.3. A segurança das aptidões técnico-desportivas

7. Planeamento da preparação técnico-desportiva 7.1. Durante o processo plurianual e anual

7.1.1. A fase da preparação técnica de base 7.1.2. A fase de aperfeiçoamento técnico

7.2. O treino técnico durante o microciclo 7.3. O treino da técnica desportiva na unidade de treino

Page 172: Metodologia Do Treino Desportivo

142 • Metodologia do treino desportivo I !

Bibliografia:

BAYER, C. (1979) L´enseignement des jeux sportifs collectifs, Editions Vigot,

Paris

CARVALHO, A. (1988) Aprendizagem e treino das técnicas desportivas,

"Dossier" Revista horizonte, Vol.IV, nº24, Mar/Abr

GOMEZ, R. (1982) Desarrollo de la habilidad motora, Revista Stadium, nº96,

Dezembro, pp. 11-18

LIMA, T. Princípios fundamentais do movimento, Revista treino desportivo,

nº3, pp. 11-19

MCGOWN, C. (1991) O ensino da técnica desportiva, Revista treino

desportivo, IIª série, Vol.22, Dezembro, pp. 15-22

RIEDER, H. (1984) La ensenanza de las técnicas, Revista Stadium, nº103,

Fevereiro, pp. 41-46

SCHABEL, G. (1990) El factor técnico-coordenativo, Revista Stadium, nº139,

Fevereiro, pp. 12-19

SCHABEL, G., MEINEL, K. (1984) Las fases del proceso de aprendizaje,

Revista Stadium, nº103, Fevereiro, pp. 8-11

TSCHIENE, P. (1992) Problemas actuales de la preparación técnica del

deportista, Revista Stadium, nº155, Outubro, pp. 23-27

Page 173: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 143

1. Definição de técnica desportiva

Djatschkow (1974) define técnica desportiva como "um sistema especializado

de acções motoras simultâneas e consequentes, orientadas para a cooperação

racional das forças internas e externas (que participam no movimento), com o

fim de as utilizar de forma completa e efectiva para a obtenção de (elevados)

rendimentos desportivos". Para Rothig (1983) a técnica desportiva é "uma

sequência específica de acções motoras que têm como objectivo solucionar as

tarefas exigidas por determinadas situações desportivas".

Ao dizer-se que este ou aquele praticante tem uma boa técnica isto significa

que a sua forma de resolver uma tarefa colocada por um exercício ou pela

competição é: i) mais precisa, ii) mais segura e, iii) mais económica. Em

consonância com o referido Matveiev (1986) refere que o "critério mais geral

da eficiência de uma técnica desportiva é determinado pela diferença entre o

resultado desportivo realmente conseguido e o resultado calculado, que o

praticante poderia ter conseguido se utilizasse o máximo das suas

possibilidades morfológico-funcionais".

2. Objectivos do treino técnico-desportivo

O objectivo da aprendizagem da técnica desportiva de uma dada modalidade

estabelece-se sob duas vertentes fundamentais: aquisição de um conjunto de

aptidões técnico-desportivas e o seu aperfeiçoamento e desenvolvimento.

2.1. Aquisição de um conjunto de aptidões técnico-desportivas

O treino técnico-desportivo permite a aquisição por parte dos

praticantes/jogadores de uma disponibilidade motora, ou de um repertório

de respostas motoras, que em última análise consubstanciam, o alargamento

das capacidades dos praticantes, por forma que estes se adaptem com o

máximo de eficácia possível às situações competitivas.

Page 174: Metodologia Do Treino Desportivo

144 • Metodologia do treino desportivo I !

2.2. Aperfeiçoamento e desenvolvimento das aptidões técnico-desportivas

O treino técnico-desportivo assegura o aperfeiçoamento e desenvolvimento

gradual dos praticantes/jogadores ao longo do seu processo anual ou

plurianual. Neste sentido, Matveiev (1986) refere a necessidade:

do conhecimento dos fundamentos teóricos da técnica desportiva;

modelação de formas individuais da técnica dos movimentos que

correspondam às possibilidades estruturais e funcionais dos

praticantes/jogadores;

formação de aptidões necessárias para a obtenção de êxito durante a

competição;

posterior renovação e restruturação das formas técnicas ditadas pelas

exigências do aperfeiçoamento desportivo; e,

criação, numa fase mais adiantada de novas variantes técnicas que

ninguém tenha ainda experimentado.

3. A importância da técnica nas diferentes modalidades desportivas

A técnica é para a grande maioria das modalidades desportivas factor

importante da sua estrutura de rendimento e para algumas é mesmo o elemento

preponderante e determinante desse rendimento. Com efeito, esta importância

deriva essencialmente da complexidade das habilidades motoras por ela

exigida, logo, a técnica tem para cada um delas uma função característica.

Neste contexto, Carvalho (1988) citando Djatschkow distingue quatro graus de

modalidades: as modalidades de força explosiva, as modalidades de

resistência, as modalidades de exactidão e as modalidades de estrutura

complexa.

3.1. As modalidades de força explosiva

As modalidades de força explosiva, como por exemplo os saltos, os

lançamentos e o halterofilismo, caracterizam-se pela intensidade máxima e a

curta duração dos impulsos de força. Nelas, a técnica desportiva serve para

Page 175: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 145

produzir no momento exacto e no mais breve tempo possível o máximo

impulso de força na direcção necessária. Por conseguinte nestas

modalidades ou disciplinas a técnica tem essencialmente como função

tornar máxima a aceleração. 3.2. As modalidades de resistência

As modalidades de resistência, como por exemplo o meio-fundo e fundo do

atletismo, o ciclismo, a natação, o remo, a canoagem, etc, a técnica serve

para tornar económico o processo motor. Nelas o objectivo do treino técnico

é o incremento da eficácia dos impulsos que se sucedem com diferentes

intensidades a fim de evitar desperdícios de energia. Para estas modalidades

a técnica tem como função diminuir a fadiga. 3.3. As modalidades de exactidão

As modalidades onde a exactidão e a expressão do movimento representam

o rendimento desportivo como por exemplo na ginástica desportiva, rítmica

desportiva, patinagem artística, saltos para a água, etc., a técnica desportiva

é conteúdo essencial do treino uma vez que serve fundamentalmente para

aumentar a precisão e expressão motora, componentes determinantes do

rendimento dessas modalidades. 3.4. As modalidades de estrutura complexa

As modalidades de estrutura complexa como os jogos desportivos e os

desportos de combate requerem o domínio de várias técnicas diferenciadas

que são executadas sob condições que variam frequentemente uma vez que

nas competições se apresentam as mais diversificadas situações. Nelas a

técnica tem diversos objectivos. Por um lado, para se ser bem sucedido na

acção, é necessária uma grande precisão do movimento com um intenso

empenho da força e simultaneamente uma elevada economia de todo o

processo motor. Por outro lado é necessário executar a própria acção de

modo que o adversário compreenda o mais tarde possível aquilo que se

Page 176: Metodologia Do Treino Desportivo

146 • Metodologia do treino desportivo I !

pretende fazer. Para estas modalidades a técnica tem uma função com

aspectos complexos e variados que não é possível definir com uma só

expressão.

4. Relações entre o factor técnico e o factor táctico desportivo

Em termos desportivos a técnica é encarada como o conjunto de todos os

movimentos permitidos numa determinada modalidade com o objectivo de

solucionar uma qualquer tarefa de forma eficiente no cumprimento de um

determinado objectivo (rendimentos desportivo) previamente determinado.

Importa salientar neste contexto que o gesto técnico desportivo, como meio de

solucionar os problemas que a competição em si encerra, está directa e

intrinsecamente ligado ao factor táctico desportivo encarado como o meio de

unificação das atitudes e dos comportamentos dos praticantes/jogadores a fim

de atingir os objectivos estabelecidos para uma dada competição. Com efeito,

pretende-se assim afirmar que durante a competição o gesto técnico desportivo

é praticamente inseparável da táctica desportiva, exprimindo-se na noção de

acção (gesto) técnico-táctica.

5. As diferentes fases do processo de aprendizagem da técnica-desportiva

Independentemente do nível de prestação motora em que um

praticante/jogador se encontre, quer seja na aprendizagem de um dado gesto

técnico que a modalidade em si encerra, quer seja no aperfeiçoamento ou

desenvolvimento do mesmo, a verdade é que este processo evolutivo ocorre de

forma silenciosa e invisível, ou seja, na interioridade do ser que o pratica.

Neste sentido, o treinador poderá avaliar, conferindo-lhe um certo significado

(positivo ou negativo), o nível de aprendizagem, aperfeiçoamento ou

desenvolvimento dos seus praticantes/jogadores somente através da

comparação das possíveis alterações comportamentais e gestuais evidenciadas

Page 177: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 147

por estes de exercício para exercício, de unidade de treino para unidade de

treino ou de competição para competição.

Em termos gerais, quando se observa e analisa:

alterações positivas da acção técnico-táctica dos praticantes/jogadores

esta consubstancia-se numa maior eficiência gestual e numa maior eficácia

comportamental através de um ajustamento mais adaptado ao contexto

competitivo. Com efeito, o treinador deverá assegurar-se da consistência e

da persistência deste novo nível de prestação motora e concomitantemente

criar as condições para o seu posterior aperfeiçoamento, desenvolvimento

ou mesmo a sua manutenção numa dimensão temporal mais ou menos

alargada;

se não houve quaisquer alterações é normal referir-se que não houve

evolução da aprendizagem, aperfeiçoamento ou desenvolvimento dos

praticantes/jogadores. Mas mesmo nesta situação, o treinador deverá ter o

cuidado de verificar e distinguir se existem aspectos colaterais que possam

estar a influenciar de forma irredutível a prestação motora e não o processo

de evolução gestual e comportamental. Os aspectos que podem influenciar

negativamente a prestação motora poderão ter origem em problemas da vida

particular do praticante, lesões musculares ou articulares, etc.

O ensino da técnica, ou do gesto desportivo (entendida como uma estrutura

funcional e económica visando a obtenção de altos rendimentos - Meinel),

implica uma metodologia adequada em que é necessário conhecer e reconhecer

no praticante as características dos estádios (fases de aprendizagem)

normalmente percorridas por este até atingir a eficiência motora. Neste

contexto, podemos caracterizar de uma forma global os estádios (fases ou

etapas) que normalmente o praticante percorre até atingir a eficiência motora,

as quais denominamos: fase de generalização ou de coordenação global do

Page 178: Metodologia Do Treino Desportivo

148 • Metodologia do treino desportivo I !

movimento, fase de concentração ou da etapa da coordenação fina e a fase de

automatização ou da estabilização e aplicação variável do movimento.

5.1. Fase de generalização ou de coordenação global do movimento

Esta primeira fase do processo de aprendizagem do gesto técnico desportivo

situa-se temporalmente desde a compreensão da tarefa motora a executar

pelo praticante/jogador até à coordenação global do movimento. Neste

sentido, vamos analisar esta fase do processo de aprendizagem dividindo-a

em duas subfases: a compreensão da tarefa motora e a coordenação global

do movimento.

5.1.1. A compreensão da tarefa motora

A compreensão da tarefa motora que o praticante/jogador deve executar

envolve quatro aspectos metodológicos fundamentais (os quais serão

desenvolvidos mais aprofundadamente no ponto 6.): a introdução do

gesto técnico, a sua explicação verbal, a exemplificação/demonstração do

gesto e por último, o começo da sua prática, isto é, as primeiras

tentativas.

Os aspectos metodológicos referidos visam essencialmente atingir os

seguintes três objectivos:

criação de um estado mental positivo que relacione na memória dos

praticantes/jogadores um nome (terminologia), uma imagem motora

(exemplificação/demonstração) e uma experiência anterior;

motivá-los para a aprendizagem de um determinado gesto técnico

evidenciando claramente a necessidade e importância deste dentro do

contexto competitivo da modalidade desportiva em que se encerem; e,

Page 179: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 149

direccionar a atenção dos praticantes/jogadores através de uma

explicação verbal clara e sucinta, evocando somente os aspectos

críticos absolutamente necessários para a compreensão do gesto

técnico e para as primeiras execuções práticas.

5.1.2. A coordenação motora global

Os aspectos metodológicos anteriormente referidos quando

correctamente utilizados, estabelecem a compreensão básica de como

executar um determinado gesto técnico desportivo possibilitando o

começo da construção de um programa motor ou de uma representação

mental aproximada, mas suficiente para controlar as primeiras execuções

e dai retirar as experiências fundamentais para uma posterior correcção

do movimento. Com efeito, depois de compreender a tarefa motora o

praticante/jogador efectua as suas primeiras tentativas de execução do

gesto técnico pondo em prática e experimentando o programa motor

concebido verificando se este funciona de forma apropriada.

Geralmente as primeiras execuções são caracterizadas pelo grande

número de erros e pela sua instabilidade. São exemplos dessa

instabilidade: os erros na aplicação da força, pausas entre as diferentes

partes do movimento, execuções demasiado rápidas ou demasiado lentas,

falta de precisão do movimento, etc. As principais causas dessa

instabilidade ou falta de controlo são: a fraca recepção e elaboração das

informações sobretudo por parte dos analisadores cinestésicos, a

imperfeição do programa de movimento e a consequente insuficiente

regulação da execução motora. Todavia, logo a partir das primeiras

execuções os praticantes/jogadores revêem o programa motor na base: i)

das suas experiências anteriores, ii) dos feedbacks que estes recebem em

Page 180: Metodologia Do Treino Desportivo

150 • Metodologia do treino desportivo I !

consequência dessas mesmas execuções e, iii) dos feedbacks que o

treinador providencia. Esta fase de coordenação global do movimento

completa-se quando o praticante/jogador executa o gesto técnico de

forma próxima à demonstração realizada.

Finalizando, a duração desta primeira fase de coordenação global do

movimento pode durar entre alguns minutos ou abarcar um largo período

de prática que são função:

do nível de simplicidade ou complexidade do gesto técnico;

do nível de formação dos praticantes/jogadores; e,

das similaridades entre o gesto técnico a aprender e as experiências

anteriores de outros gestos técnicos já assimilados. Neste sentido, o

treinador ao evidenciar estas similaridades está a contribuir para a

aceleração desta fase do processo de aprendizagem, podendo-se assim

aproveitar um programa motor já idealizado, o qual sofre um conjunto

de modificações e adaptações para atingir os objectivos propostos.

Motivação

Talento

capacidade de

aprendizagem

Experiências

anteriores

Aprendizagem de

um novo gesto

técnico

Informações

InstruçõesCaracterísticas

físicas

Condições exter-

nas à situação de

aprendizagem Figura 27. Condições para a aprendizagem de novos gestos técnicos (Rieder, 1983)

5.2. Fase de concentração ou da etapa da coordenação fina

A segunda fase do processo de aprendizagem do gesto técnico desportivo

situa-se entre a fase da coordenação global do movimento até à fase de

coordenação fina.

Page 181: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 151

Depois dos praticantes/jogadores compreenderem como executar o gesto

técnico e conseguirem executá-lo de uma forma aceitável, estes devem

praticá-lo com o objectivo de o aperfeiçoar. Contudo, é preciso ter presente

que a prática (repetição) por si só não resolve as questões inerentes a esta

fase de aprendizagem. Neste contexto, para que a prática seja efectiva é

fundamental:

que os praticantes/jogadores estejam motivados para aprender;

sejam intransigentes no cumprimento dos aspectos críticos de

execução; e,

atendam aos feedbacks dados pelo treinador com o objectivo de

corrigir as suas execuções.

A duração desta fase da aprendizagem necessita de mais tempo que a fase

anterior, todavia, mantém-se válido os pressupostos referidos anteriormente:

i) nível de simplicidade ou complexidade do gesto técnico, ii) do nível de

formação dos praticantes/jogadores e, iii) da qualidade de treino estabelecido

pelo treinador.

Durante esta fase intermédia do processo de aprendizagem muitas

modificações se podem observar traduzindo-se numa maior eficiência e

eficácia do gesto técnico desportivo. Estas modificações fundamentam-se

essencialmente nos seguintes níveis de análise: i) no melhoramento do

programa motor, ii) na diminuição da energia necessária para a sua

execução, iii) no aumento da velocidade, precisão e melhoramento do timing

de execução, iv) no melhoramento da capacidade antecipativa e, v) no

aumento da confiança do praticante/jogador em si próprio.

5.2.1. Melhoramento do programa motor

A maioria dos gestos da nossa vida diária, repousa sobre um fundo

automático que por sua vez, se estrutura com base no aproveitamento das

possibilidades dos mecanismos que lhe estão na origem. O gesto técnico

Page 182: Metodologia Do Treino Desportivo

152 • Metodologia do treino desportivo I !

desportivo consiste numa série de movimentos em estreita ligação, em

que o encadeamento temporal destes movimentos é mais ou menos

constante, criando assim uma interdependência. Logo, a aprendizagem e

o aperfeiçoamento do gesto técnico desportivo aproveita o mesmo tipo de

organização estrutural e funcional, diminuindo consequentemente, o

nível de vigilância dos centros nervosos centrais à medida que este se

automatiza.

À medida que os praticantes/jogadores aumentam o número de

execuções de um determinado gesto técnico desportivo, aumenta

igualmente o número de correcções produzindo-se consequentemente um

afinamento cada vez mais particular do programa motor de base. Este

afinamento deve-se a uma maior elaboração de informações cinestésicas

e à precisão da imagem motora com base na melhor elaboração dos

sentidos do movimento. O aumento do automatismo motor determina

igualmente, a possibilidade dos praticantes/jogadores poderem focalizar a

sua atenção durante a execução, nos factores pertinentes da situação

proposta.

5.2.2. Diminuição da energia necessária para a sua execução

Durante a primeira fase do processo de aprendizagem os

praticantes/jogadores sentem, por vezes, que os gestos técnicos são muito

fatigantes por envolverem um conjunto de acções "parasitárias" da

globalidade do movimento que se pretende executar, o que determina

uma maior quantidade de energia. Com efeito, à medida que se verifica a

melhoria da execução do gesto técnico, diminui a taxa de energia

dispendida podendo assim, aumentar o número de execuções na unidade

de tempo.

5.2.3. Aumento da velocidade, precisão e melhoramento do timing de execução

Page 183: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 153

Nesta fase da aprendizagem os praticantes/jogadores melhoram o

compromisso entre a velocidade de execução, a precisão do movimento,

a consistência da execução do gesto técnico, tornando-se repetidamente

mais regular e desenvolve-se um timing mais adaptado à situação devido

a um melhor programa motor. 5.2.4. Melhoramento da capacidade antecipativa

À medida que a prática se desenvolve os praticantes/jogadores aprendem

a reagir menos e a antecipar mais. Isto significa a possibilidade destes

preverem com mais eficácia o desenvolvimento e o resultado de uma

dada situação desportiva, e por inerência pôr em acção os

correspondentes processos cognitivos imediatamente ligados a esquemas

de respostas motoras consoante a modificação da situação.

Técnicas

simples e

complexas

Constituição

corporal

Capacidade

cognitiva

Estado

emocional

Capacidade

coordenativa

Capacidade

física

Interacção

treinador/pratica.

Instuções

Influências da

situação externa

Figura 28. Factores que contribuem para o sucesso da aprendizagem de novos gestos técnicos (Rieder, 1983)

5.2.5. Aumento da confiança do praticante/jogador em si próprio

Esta fase intermédia da aprendizagem aumenta a confiança do praticante

na sua própria capacidade de execução do gesto técnico, procurando por

vezes executá-lo de diferentes formas e em diferentes circunstâncias. O

praticante/jogador quando aumenta a confiança em si próprio está

Page 184: Metodologia Do Treino Desportivo

154 • Metodologia do treino desportivo I !

potencialmente mais propenso a aceitar outras aprendizagens técnicas

que daí derivam.

Concluindo, embora nesta segunda fase de aprendizagem do gesto técnico

desportivo se estabeleça rapidamente uma forma exterior de movimento

correcto, os progressos não são contínuos, existem frequentes estagnações

temporárias a que se seguem grandes progressos. Mas esta relativa

correcção do gesto não significa igualmente que a organização nervosa e

fisiológica subjacente esteja terminada, ou mesmo quase concluída. Assim,

o afinamento de cada momento do gesto técnico, mesmo quando pouco

modificado na sua forma exterior, recebe um conteúdo novo à medida que

se melhora o nível de treino do praticante/jogador, o qual deriva da melhoria

dos processos nervosos e fisiológicos de suporte. Com efeito, no final desta

segunda fase de aprendizagem, o gesto técnico pode ser executado, se as

condições externas forem favoráveis, quase sem erros e com facilidade.

Porém se as condições são mais difíceis do que as normais (por exemplo em

competição) volta a evidenciar-se os erros técnicos que julgávamos já terem

sido superados.

Antecipação Prestação Confrontação das instruções

Objectivos Resultados

Execução prática

Imagem motora

Figura 29. O factor cognitivo no melhoramento do gesto técnico (Rieder, 1983)

5.3. Fase de automatização ou da estabilização e aplicação variável do movimento

A terceira fase do processo de aprendizagem do gesto técnico desportivo

situa-se entre a fase da coordenação fina até à estabilização da execução do

movimento mesmo em condições difíceis.

Page 185: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 155

Nesta fase a execução motora tem todas as características de uma técnica

"quase perfeita", pelo que existem todas as condições para serem alcançados

rendimentos elevados. A estabilidade obtida expressa-se especialmente

através da grande exactidão e consistência do movimento. A elevada

capacidade de adaptação do desportista a condições variáveis baseia-se

sobretudo no aperfeiçoamento contínuo dos processos de recepção e

elaboração das informações. O nível mais elevado no processo de

aprendizagem motora nem sempre é obtido, ou só parcialmente é obtido

pela maioria dos desportistas.

Observa-se igualmente nesta fase, a diminuição progressiva do controlo

intencional, por parte do sistema nervoso central, durante a execução do

gesto técnico. A intervenção do cérebro, só será necessária para o inicio e

para a terminação do gesto técnicos, no entanto, podemos em qualquer

momento tomar consciência de cada detalhe deste, como da sua totalidade

se para isso dermos atenção especial. Portanto, depois de cada execução do

gesto, os detalhes deste poderão ser conscientemente analisados, devido aos

processos de retroacção (feedback) dos quais não tomamos consciência

durante a sua execução. A automatização dos gestos facilita a mobilização

da actividade motora do praticante pela:

influência generalizada do pensamento sobre a execução do gesto na

sua globalidade;

intervenção corrente do consciente na concretização deste ou daquele

detalhe da estrutura.

Segundo Carvalho (1988) "uma estabilização e fixação das técnicas contra

influências perturbadoras só é possível se for treinada sob essas condições

(por exemplo: influência de um adversário, sob diferentes condições de

"stress" com elevada carga psíquica, em situação de fadiga, em condições

climatéricas desfavoráveis, etc.). A estabilização da técnica de competição

só se verificará se as acções motoras se executarem com a dinâmica da

competição ou mesmo com uma dinâmica mais elevada. Assim, só através

Page 186: Metodologia Do Treino Desportivo

156 • Metodologia do treino desportivo I !

da competição e aplicação na própria competição será fomentada uma

elevada capacidade de adaptação da técnica às condições variáveis da

competição".

5.3.1. A evolução técnica desportiva e a sua relação com as modalidades mono e

poliestruturais

Os gestos técnicos desportivos executados por um dado

praticante/jogador no início da sua carreira desportiva não podem

naturalmente coincidir de forma total com os modelos técnicos que lhe

serão úteis nas fases seguintes. Segundo Matveiev (1986) "a técnica é

determinada decisivamente pelo grau de desenvolvimento das qualidades

físicas e psicológicas do praticante, as quais vão evoluindo regular e

progressivamente ao longo do processo de aperfeiçoamento

desportivo"... Neste sentido, "as formas da técnica individual têm de

modificar-se em conformidade com essas transformações. Daqui resulta

a noção que a preparação técnica dos praticantes não tem fim, vai-se

realizando durante toda a sua vida desportiva".

No caso na preparação técnica especializada numa modalidade

monoestrutural, (que se baseiam em acções técnicas para as quais existe

um modelo ideal de movimento que é treinado com o objectivo de

automatizar esse modelo) segundo Matveiev (1986) "o objecto de

profundo aperfeiçoamento técnico ao longo de vários anos é sempre (no

fundamental) o mesmo exercício competitivo (salto, lançamento, etc).

Nisto, uma das mais difíceis tarefas do treinador e do praticante é a da

transformação periódica e renovação de formas de movimento já

firmemente consolidadas por forma a fazê-las corresponder ao crescente

grau de preparação física e psicológica do praticante".

Page 187: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 157

Nas modalidades poliestruturais (que se baseiam em acções técnicas

complexas uma vez que é possível utilizar diferentes formas para atingir

o mesmo objectivo), o arsenal técnico do praticante é praticamente

ilimitado estando dependente: i) da variabilidade e diversidade das

situações que a competição em si encerra (no caso dos jogos desportivos

colectivos), ii) da renovação das condições de modificação periódica do

programa obrigatório das competições (no caso da ginástica desportiva,

rítmica, etc.) ou, iii) por iniciativa do próprio treinador ou praticante.

6. Os diferentes aspectos metodológicos do processo de aprendizagem da técnica-

desportiva

Ao pretendermos ensinar um determinado gesto desportivo, temos de começar

por fornecer a quem vai executar, uma imagem global e clara do gesto,

garantindo simultaneamente que o executante se tenha apercebido quais os

objectivos e a importância desse gesto dentro do contexto da modalidade

desportiva. A vantagem do respeito por este princípio pode ser resumido da

seguinte forma:

o treinador tem de estar consciente dos objectivos da aprendizagem desse

gesto e da razão da sua inclusão na unidade de treino;

respeitar o princípio pedagógico do treino, da participação e actividade

consciente do praticante no processo. Logo, a explicação por parte do

treinador dos objectivos de determinado gesto técnico, tem por finalidade a

criação de condições favoráveis a participação do praticante, estando este

mais atento aos pormenores do gesto e das situações da sua aplicação,

facilitando deste modo o auto-controlo que este deve exercer sobre o que

está a fazer outro aspecto importante (senão o mais importante) e que o

conhecimento dos objectivos de um gesto introduz factores positivos de

ordem emocional, contribuindo para a entrega do praticante no trabalho. É

por demais conhecida a importância da vontade como factor determinante

Page 188: Metodologia Do Treino Desportivo

158 • Metodologia do treino desportivo I !

na assimilação das atitudes e comportamentos em qualquer processo de

aprendizagem. A vontade de vencer determina uma melhor mobilização das

funções do organismo do praticante e um melhor desenvolvimento dos

processos fisiológicos a par da execução do(s) gesto(s) técnico(s). Por

último a percepção das características do trabalho a efectuar, precisamente

antes do treino ou competição terá por consequência na altura própria

modificações funcionais que preparam o organismo de forma adequada para

a realização do trabalho.

A criação de imagens motoras nos praticantes são a base de uma assimilação

consciente de qualquer tipo de gesto técnico desportivo. Neste contexto, para a

criação de claras imagens motoras, o treinador utiliza uma série de meios

iniciais de ensino do gesto técnico que são:

introdução do gesto técnico:

atrair a atenção de todos os praticantes;

posicionamento do grupo de praticantes;

adopção de um nome terminologicamente correcto do gesto técnico

que se pretende ensinar/aprender;

a explicação verbal do gesto;

ser pouco rico em pormenores;

objectivar um estado mental positivo;

relacioná-la com anteriores aprendizagens;

a exemplificação/demonstração do gesto;

execução correcta do gesto técnico;

correcta velocidade de execução;

ritmo de execução apropriado;

optar por uma execução completa ou parcial;

estabelecer um número de exemplificações/demonstrações;

evidenciar um conjunto restrito de instruções-chave;

a prática do gesto:

a prática global do gesto técnico-desportivo ou "por partes";

Page 189: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 159

a formação, desde muito cedo, de um ritmo-padrão de execução do

gesto técnico desportivo;

a regulação da velocidade de execução do gesto técnico desportivo;

a correcção do gesto:

profundo conhecimento do gesto técnico desportivo;

estabelecer objectivos realistas do gesto técnico desportivo;

hierarquizar os erros observados no gesto técnico desportivo;

a atitude do treinador na correcção do gesto técnico desportivo; e,

aspectos metodológicos a introduzir quando se verifica a consolidação

do gesto técnico desportivo com erros; e por último,

a repetição do gesto:

a estabilização das aptidões técnico-desportivas:

• criação de condições favoráveis;

• exercitar o gesto técnico-desportivo isento de erros;

• não confundir estabilidade com estereótipos rotineiros;

• aproximação gradual aos valores-padrão;

a diversidade de aptidões técnico-desportivas:

• variação rigorosamente dirigida;

• variação livremente dirigida; e,

a segurança das aptidões técnico-desportivas

• adaptação das aptidões técnicas às condições máximas de

manifestação dos factores físicos de treino;

• modelação de situações psiquicamente tensas e introdução de

dificuldades adicionais; e

• a prática competitiva.

6.1. Introdução do gesto técnico-desportivo

Basicamente a introdução do gesto técnico a ensinar/aprender deve ser

breve, simples e directa. Neste contexto, deve assegurar três aspectos

fundamentais: i) atrair a atenção de todos os praticantes, ii) posicionar

Page 190: Metodologia Do Treino Desportivo

160 • Metodologia do treino desportivo I !

convenientemente o grupo de praticantes e a, iii) adopção de um nome

terminologicamente correcto do gesto que se pretende ensinar/aprender.

6.1.1. Atrair a atenção de todos os praticantes

A introdução eficaz de um gesto técnico requer o desenvolvimento de

uma estratégia que consiga "prender" a atenção de todos os praticantes e

mantê-los interessados durante toda a introdução. Para manter este

interesse alguns treinadores começam a introdução de uma forma

entusiástica ou utilizam uma história ou uma anedota relacionada com

esse gesto que se pretende ensinar/aprender. Durante a introdução é

importante que o treinador esteja de frente para os praticantes, mantenha

o contacto visual com todos eles e explique o que estava planeado

falando firmemente. 6.1.2. Posicionamento do grupo de praticantes

O posicionamento do grupo de praticantes para observarem e ouvirem o

conteúdo a ensinar, deve respeitar formas que todos possam ver o

treinador de frente e que não haja nenhuma actividade ou situações que

possam distrair os praticantes. 6.1.3. A adopção de um nome terminologicamente correcto do gesto

Um nome terminologicamente correcto do gesto técnico que se pretende

ensinar/aprender desempenha um papel importantíssimo no processo

ensino/aprendizagem. Os termos correctos, geralmente, são melhores,

que as descrições técnicas. Quanto melhor o praticante conhecer a

terminologia, mais rapidamente se forma na sua mente a imagem e o

movimento. A denominação terminologicamente correcta, que precede a

demonstração, consubstancia na memória do praticante, um conjunto de

imagens relacionadas com experiências motoras anteriores, com isso

Page 191: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 161

prepara-se para uma atenta percepção visual do novo elemento

demonstrado.

6.2. A explicação verbal do gesto técnico-desportivo

A explicação verbal do gesto técnico a executar desempenha um papel

muito importante durante o processo didáctico. Basicamente esta explicação

deve ser curta e clara tendo por objectivo fundamental indicar: i) as

finalidades deste, ii) as situações de utilização e, iii) a sua descrição global.

Metodologicamente, no princípio, não se fazem mais que breves

observações explicando o que vai ser demonstrado. Assim, a explicação

deverá: ser pouco rica em pormenores, objectivar um estado mental positivo

e relacioná-la com aprendizagens ou experiências anteriores.

6.2.1. Ser pouco rico em pormenores

Quem aprende tem uma capacidade limitada de processar a informação.

Neste sentido, se for apresentada muita informação ao mesmo tempo, os

praticantes não vão ser capazes de fixar a maior parte desta nem vão ser

capazes de a aplicar. Logo, o treinador/professor poderá começar por

facilitar a aprendizagem dos seus praticantes/alunos reduzindo a

quantidade de informação que transmitem quando estão e explicar um

gesto técnico. Concluindo, a explicação verbal do gesto técnico a

aprender deverá ser pouco rico em pormenores referindo-se somente os

aspectos críticos (fundamentais) absolutamente necessários para a sua

compreensão e para as primeiras execuções (experiências).

Quando melhor preparado estiver o praticante, mais abundantes devem

ser as explicações. Aos praticantes qualificados, há que explicar-lhes não

só como se faz o gesto, mas o porquê. Depois de ter explicado os

principais detalhes, pouco a pouco, à medida que se vão fazendo as

primeiras tentativas, o professor/treinador vai dando explicações

Page 192: Metodologia Do Treino Desportivo

162 • Metodologia do treino desportivo I !

complementares, expressivas, metafóricas, baseadas nos movimentos e

sensações conhecidas. 6.2.2. Objectivar um estado mental positivo

A explicação verbal do gesto técnico a executar deve objectivar numa

primeira análise a criação de um estado mental positivo na mente dos

praticantes/jogadores estabelecendo-se assim condições propícias a uma

correcta aprendizagem. Neste sentido, deve-se seleccionar as palavras

mais indicadas para descrever o gesto técnico e concomitantemente

motivar os praticantes para a sua concretização. 6.2.3. Relacioná-la com aprendizagens anteriores

A explicação verbal do gesto técnico a aprender deve relacioná-lo com

experiências aprendizagens anteriores por forma a beneficiar do princípio

do transfer.

6.3. A exemplificação/demonstração do gesto técnico

A exemplificação/demonstração objectiva, em última análise, a

concretização de uma imagem visual que se dá aos praticantes/jogadores

daquilo que vai ser ensinado/aprendido. Deverá ser efectuada por alguém

que forneça efectivamente uma demonstração correcta do gesto podendo ser

o treinador/professor ou alguém por ele escolhido, ou através da utilização

de meios audiovisuais que apresentam as seguintes vantagens: i) observa-se

o gesto técnico as vezes que for necessário, ii) observa-se o gesto técnico sob

diferentes ângulos, iii) poder-se-à diminuir a velocidade da

exemplificação/demonstração, por forma a aumentar a atenção/concentração

dos praticantes nos aspectos mais importantes do gesto.

Metodologicamente a exemplificação/demonstração do gesto técnico a

ensinar/aprender deve estabelecer seis aspectos essenciais: i) execução

correcta no que se refere ao seu conteúdo e forma, ii) exprimir uma

velocidade de execução consentânea coma complexidade do gesto e das

Page 193: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 163

experiências anteriores dos praticantes, iii) ritmo de execução apropriados,

iv) optar por uma execução completa ou parcial, v) estabelecer um número de

exemplificações/demonstrações e, vi) evidenciar um conjunto restrito de

instruções-chave.

6.3.1. Execução correcta do gesto técnico

A exemplificação/demonstração do gesto técnico deverá ser

correctamente executado, pois o praticante procurará reproduzir o que

viu na demonstração. Neste sentido, demonstrações incorrectas

conduzem os praticantes a imagens motoras e a execuções técnicas

erradas, diminuindo consequentemente, a velocidade de assimilação e

estabilização do novo gesto técnico. A demonstração correcta é nesta

fase o grande factor de prevenção contra a aquisição errada da técnica.

6.3.2. Correcta velocidade de execução

A exemplificação/demonstração do gesto técnico deverá ser executado

primeiramente a uma velocidade reduzida, para que os praticantes

"apanhem" visualmente o maior número de pormenores, e seguidamente

a uma velocidade normal, com o objectivo de os praticantes construírem

desde o início a noção de realidade e construir uma imagem motora

correcta.

6.3.3. Ritmo de execução apropriado

A exemplificação/demonstração do gesto técnico deverá responder

constantemente ao ritmo de execução - estrutura rítmica do gesto. Com

efeito, uma das características mais importantes do gesto técnico

desportivo é o seu carácter rítmico, que exprime uma ordem reguladora e

unificadora de todas as suas componentes. Logo, a formação rítmica do

Page 194: Metodologia Do Treino Desportivo

164 • Metodologia do treino desportivo I !

gesto técnico é, na sua essência, um problema central de toda a

preparação do praticante.

6.3.4. Optar por uma execução completa ou parcial

A exemplificação/demonstração do gesto técnico deverá ser executado

completamente de acordo com a totalidade do que se pretende ensinar.

Todavia, em função da elevada complexidade do gesto técnico este

poderá ser subdividido em partes: i) se por ventura o gesto técnico

contém partes que se podem executar de forma isolada, então poder-se-à

fazer coincidir essas partes com as subdivisões da demonstração, por

outro, ii) poder-se-à subdividir a demonstração em função do número de

aspectos críticos que o gesto técnico contém.

6.3.5. Estabelecer um número de exemplificações/demonstrações

O número de exemplificações/demonstrações a fornecer aos praticantes

deve depender do nível de complexidade do gesto técnico. Neste sentido,

é natural diminuir-se o número de demonstrações em função da menor

complexidade do gesto em causa e vice-versa. No caso de existirem

dúvidas quanto ao número de demonstrações a realizar é preferível

executar-se mais do que menos, o único risco que se corre é de ser

aborrecido para alguns praticantes.

6.3.6. Evidenciar um conjunto restrito de instruções-chave

Quando a atenção dos praticantes não é dirigida e orientada existe o

perigo destes reterem a informação não essencial do gesto técnico

proposto. Neste sentido, é necessário recorrer às instruções-chave

Page 195: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 165

capazes de caracterizar e sintetizar o essencial da execução do gesto

técnico, tendo assim quatro aspectos importantes a desempenhar:

concentrar a informação;

reduzir o número de palavras, diminuindo assim as exigências

levantadas ao processamento da informação;

focalizar a atenção dos praticantes em informações mais relevantes;

auxiliar a memória.

As palavras entram em ligação com os movimentos que elas

caracterizam. Isto é de grande importância, pois, logo que o praticante

pode, com a ajuda de uma terminologia precisa expor o encadeamento

das partes do gesto, criam-se as condições mais favoráveis que se

encontram na base deste ou daquele gesto técnico. Logo, importa

considerar: i) quais as instruções-chave a utilizar no ensino-aprendizagem

dos diferentes gestos, ii) a ordem segundo estas deverão ser apresentadas,

e por último, iii) fazer uma correcta combinação entre a demonstração e o

uso das instruções-chave.

Concluindo, a exemplificação/demonstração deve ser utilizada em três

momentos chave do ensino/aprendizagem de um gesto técnico

desportivo:

antes da prática: como já foi referido, objectiva a concretização de

uma imagem visual que se dá aos praticantes;

durante a prática: por forma a reforçar a primeira e a reforçar os

aspectos que ainda não estão a ser correctamente executados; e,

depois da prática: por forma a reforçar a imagem da execução

correcta do gesto técnico.

6.4. A prática do gesto técnico-desportivo

Efectuada a introdução e a explicação verbal do gesto técnico (valor

desejado) desenvolve-se no praticante/jogador processos internos: i) de

recepção de informações por meio dos orgãos sensoriais, ii) elaboração das

Page 196: Metodologia Do Treino Desportivo

166 • Metodologia do treino desportivo I !

informações recebidas nos centros nervosos superiores e a, iii) formação de

uma imagem motora. Segundo Carvalho (1988) "com base nessa imagem e

tendo em conta as experiências precedentes armazenadas na memória

motora, forma-se um programa de acção motora. É com base nesse

programa que o praticante vai executar o movimento... Ao resultado da

execução da acção motora denominamos valor realizado que é comparado

ao valor desejado... Esta comparação conduz à conservação ou

modificação (correcção) do programa consoante os valores se mostram

iguais ou diferentes... Estas correcções podem incidir sobre a avaliação de

detalhes da própria execução motora (erros e formas de os eliminar). sobre

o resultado da própria acção motora (execução conseguida ou não) e ainda

sobre a avaliação do nível técnico alcançado depois de um certo tempo de

treino".

A prática do gesto técnico possibilita que os praticantes realizem a sua

interpretação do gesto que ouviram e visualizaram. Após algumas tentativas

com erros é a partir da primeira execução global que os praticantes obterão

as retroinformações necessárias para o aperfeiçoamento da programação

motora. Dai a importância de se observar uma exercitação sob condições

facilitadas estabilizando as condições de aprendizagem e aperfeiçoamento.

É fundamental que os praticantes executem o gesto técnico desportivo com

o mínimo de erros, pois, quanto menos faltas se cometem no começo, tanto

mais rápido se formará o novo gesto técnico. Importa neste contexto

evidenciar três aspectos fundamentais: i) a prática global do gesto técnico-

desportivo ou "por partes", ii) a formação, desde muito cedo, de um rítmo-

padrão de execução, e iii) a regulação da velocidade de execução.

Page 197: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 167

Factores

perturbadores

Execução

motora

Valor realizado

(resultado)Programa motor

Valor desejado

(Objectivo)

Comparação valor

desejado do realizadoRetroacções/referências

sobre os resultados

Treinador

Professor Figura 30. Modelo do processo de aprendizagem motora Grosser/Neumaier (Carvalho, 1988)

6.4.1. A prática global do gesto técnico-desportivo ou "por partes"

O princípio fundamental na prática e aperfeiçoamento técnico dos

praticantes é a utilização sempre que possível de exercícios de carácter

global. Situam-se neste princípio os gestos técnico-desportivos:

não complexos;

os que derivam de modalidades cuja estrutura é caracterizada pela

sua ciclicidade, isto é, existe uma fusão natural dos diferentes

movimentos; e,

quando existem obstáculos sérios para a sua unificação num todo

único.

Nisto, segundo Matveiev (1986) "quase tudo depende de como elas se

ligam organicamente entre si. Por exemplo: nas combinações da

ginástica é relativamente pouco importante o perigo de excessiva fixação

desses elementos como aptidões isoladas; mas quando as fases de um

exercício monoestrutural são separadas umas das outras (saltos,

lançamento do disco, etc.), esse risco é muito maior. Em caso de

continuidade natural da acção competitiva, as diversas partes devem ser

reunidas e interligadas na primeira oportunidade e novamente

assimiladas e dominadas no contexto global com isolamento selectivo

dos pormenores (se disso houver necessidade)".

Page 198: Metodologia Do Treino Desportivo

168 • Metodologia do treino desportivo I !

No caso de gestos técnico-desportivos complexos quando estão a ser

aprendidos ou aperfeiçoados predominam os exercícios sob forma

decomposta ("por partes") que tem por característica essencial o

isolamento das respectivas fases para depois as unificar num todo único.

Neste contexto, a construção e utilização de exercícios decompostos não

devem diferir essencialmente, como refere Matveiev (1986) "nos seus

índices estruturais principais, das "partes" do exercício competitivo que

reproduzem. Se esta condição não for respeitada, o exercício

preparatório formar-se-á não como parte da aptidão para a acção

competitiva mas como parte de alguma outra aptidão, e isso poderá

provocar interferência (negativa) entre as aptidões. O perigo de

distorção de partes isoladas de um exercício competitivo complexo

diminui quando ele se compõe de elementos relativamente independentes

(movimentos elementares e de ligação de combinações ginásticas,

combinações de jogo, etc.) que figuram no processo do treino técnico

quer como um "todo" quer como "partes" de conjuntos mais complexos".

Ainda o mesmo autor (1986) refere que "a ordem da formação ou

reestruturação das fases de um exercício decomposto depende das

particularidades da sua estrutura como da preparação do atleta

(experiência motora). Em princípio, quanto mais o praticante dispuser

de formas "prontas" de movimentos de coordenação que venham a fazer

parte de uma aptidão nova (ou renovada) menor será a parte do

exercício decomposto na formação da nova aptidão Se houver

imperfeições na execução da fase inicial da acção elas terão de ser

evidentemente, eliminadas em primeiro lugar".

Concluindo, independentemente de uma dada acção ser estudada

preferencialmente por partes ou no todo, os praticantes terão, na primeira

fase, de estudar o domínio e a correcção dos movimentos "operação a

operação". Para esse efeito é necessário conhecer os principais "pontos

chave" de cada fase.

Page 199: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 169

6.4.2. A formação de um rítmo-padrão de execução do gesto técnico-desportivo

Um dos problemas centrais de toda a prática do gesto técnico desportivo

(para além das tarefas de modelação das capacidades coordenativas, do

aperfeiçoamento das relações espaço-temporais e da capacidade de

regulação das tensões/descontracções musculares) é o seu carácter

rítmico (que exprime uma ordem regular de unificação de todas as suas

componentes) e a sua optimização.

Neste contexto e como se compreende, no início da prática do gesto

técnico desportivo os praticantes não têm ainda sob uma forma pronta

uma estrutura rítmica das acções recentemente formadas, todavia, é

importante que se crie desde muito cedo a noção de rítmo-padrão da

acção. Quando o gesto não é propriamente novo essa tarefa resolve-se

com uma demonstração tecnicamente correcta com a atenção posta no

aspecto rítmico, através da exibição de registos vídeo à velocidade

normal ou reduzida e com o acompanhamento sonoro (por exemplo

através da voz) reproduzindo o ritmo dos movimentos.

Concluindo, outra questão importante dentro deste aspecto é

fundamentada na optimização do ritmo. A resposta a esta questão passa

concretamente pela individualização do ritmo dos gestos técnicos

desportivos que surge imediatamente logo que se cria a noção de

rítmo-padrão, pois este não pode corresponder inteiramente às diferentes

características individuais dos praticantes. 6.4.3. A regulação da velocidade de execução do gesto técnico desportivo

A velocidade de execução do gesto técnico desportivo deve ser regulada,

ou seja, não deve ser superior aquela que o praticante consegue dominar

a correcção do seu movimento (Donskoy). Assim é preferível limitar a

velocidade do movimento nos primeiros níveis de treino, até que seja

Page 200: Metodologia Do Treino Desportivo

170 • Metodologia do treino desportivo I !

conseguido um alto grau de precisão. A velocidade será então

gradualmente aumentada (lei de Poppeireuter). Esta teoria baseia-se na

hipótese de que é mais fácil acelerar os movimentos precisos do que

corrigir os que são rápidos e imprecisos. No entanto há que ter presente

que um movimento lento não é igual a um movimento rápido (embora as

trajectórias exteriores o sejam), pois as variações de velocidade

provocam variações extremas nos aspectos fisiológicos (Sperry).

6.5. A correcção do gesto técnico-desportivo

A correcção do gesto técnico é determinado pelo professor/treinador que

observa, crítica e corrige a execução dos praticantes. É de salientar nesta

fase do processo a intervenção do treinador, que para além de saber

correctamente os objectivos e os conteúdos (técnico, tácticos) do gesto,

compara o movimento reproduzido pelo praticante ao modelo que possui.

Estabelecendo a comunicação verbal (feed-back) com o praticante

constituindo para este uma fonte importante de informações para o processo

em que ambos são intervenientes.

InteracçõesTreinador

Avalia

Corrige

Praticante

disponibilidade

autocorrecção

Análise

Instruções

Reprogramar

Comparação

objectivo-resultado

Figura 31. Interacção praticante/treinador na aprendizagem do gesto técnico (Rieder, 1983)

Antes de desenvolvermos as questões inerentes à correcção do gesto

técnico desportivo importa compreendermos na sua essência o conceito

de erro para se estabelecer um quadro referencial comum. Basicamente, o

erro é definido pela diferença entre aquilo que é observado e o que é

esperado pelo treinador da execução do(s) praticante(s). Desta definição

importa realçar dois aspectos fundamentais:

Page 201: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 171

só é considerado erro se houver diferenças entre a execução e os

objectivos pré-determinados;

só pode ser considerado erro na execução se os objectivos

pré-determinados forem de facto estabelecidos realisticamente e por

isso mesmo, possíveis de alcançar. Estabelecer objectivos realistas

significa ajustar a complexidade e a dificuldade de execução do gesto

técnico desportivo às capacidades do praticante ou grupo de

praticantes.

Estabelecido o presente quadro referencial definido pelo conceito de erro

importa evidenciar cinco aspectos metodológicos fundamentais a

considerar na correcção do gesto técnico desportivo: i) profundo

conhecimento do gesto técnico desportivo, ii) estabelecer objectivos

realistas do gesto técnico desportivo, iii) hierarquizar os erros observados

no gesto técnico desportivo, iv) a atitude do treinador na correcção do

gesto técnico desportivo e, v) aspectos metodológicos a introduzir quando

se verifica a consolidação do gesto técnico desportivo com erros.

6.5.1. Profundo conhecimento do gesto técnico desportivo

O treinador deverá conhecer profundamente o gesto técnico desportivo,

isto é, as suas componentes-chave, bem como as diferentes hipóteses de

manipulação dessas componentes por forma a estabelecer as melhores

condições contextuais de aprendizagem ou de aperfeiçoamento.

6.5.2. Estabelecer objectivos realistas do gesto técnico desportivo

A detecção e correcção dos erros de execução do gesto técnico

desportivo é determinado, como referimos, pelo correcto ajustamento

entre o nível de capacidades do(s) praticante(s) e os objectivos propostos.

Page 202: Metodologia Do Treino Desportivo

172 • Metodologia do treino desportivo I !

Com efeito, se estes forem muito precisos, muito detalhados e muito

ambiciosos para as reais capacidades do(s) praticante(s) então é natural

observarem-se muitos erros.

Nestas circunstâncias, a manipulação dos objectivos pré-determinados e

o seu ajustamento ao nível de capacidades do(s) praticante(s) representa

uma condição essencial para uma aprendizagem ou aperfeiçoamento

eficientes. Quanto menos experimentados forem os praticantes menor o

número de pormenores técnicos os objectivos deverão conter porque

podem provocar erros prejudiciais e a estagnação do rendimentos dos

praticantes. Pelo contrário e no extremo oposto, o(s) praticante(s) com

elevados níveis de rendimento os objectivos não poderão ser

demasiadamente reduzidos pois não irão alcançar a desejada melhoria do

rendimento provocando desmotivação e desinteresse.

Concluindo, é óbvio que o treinador e os praticantes têm de modificar,

ajustando os objectivos para que estes correspondam aos níveis de

capacidade dos praticantes, o que ajuda a evitar o desenvolvimento de

maus hábitos que poderão, posteriormente, colidir com o

aperfeiçoamento e desenvolvimento do gesto técnico desportivo.

6.5.3. Hierarquizar os erros observados no gesto técnico desportivo

Desde inicio dever-se-à corrigir fundamentalmente os aspectos globais

decisivos ou condicionantes de uma execução correcta, deixando para

posteriores intervenções os pormenores ou componentes com maior

independência.

Segundo Daniels (1987) "não é necessariamente o pior ou o primeiro

erro a ser detectado na execução que precisa ser corrigido. A prioridade

na estrutura do gesto técnico desportivo tem de ser respeitada. Pode-se

assim verificar que a causa de muitos erros técnicos está na defeituosa

Page 203: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 173

execução de uma determinada componente fundamental. A localização

da causa principal do erro deve ser portanto, a preocupação primordial

dos treinadores que desejam corrigir e melhorar o rendimento

desportivo dos seus praticantes". Isto significa, ainda segundo a mesma

autora (1987) "que a causa de um erro é aquilo que deve ser corrigido e

não necessariamente o próprio erro observado ... Provavelmente muitos

dos erros observados no início irão desaparecer sem necessidade de lhes

dar particular importância" acrescenta. 6.5.4. A atitude do treinador na correcção do gesto técnico desportivo

A atitude do treinador na correcção do gesto técnico desportivo não deve

reduzir-se a evidenciar os aspectos negativos da execução mas sim na

valorização dos aspectos positivos, por forma a motivar os praticantes a

reforçá-los e consequentemente a melhorar os aspectos negativos. Neste

contexto, a intervenção do treinador na correcção deverá saldar-se por

uma resposta positiva sendo o melhor método para aprender ou

aperfeiçoar a aptidão técnica dos praticantes. Logo, o treinador deve

esforçar-se para não se concentrar naquilo que poderá estar mal

executado mas antes no que está a ser executado correctamente.

Para além do aspecto referido, se o treinador elogiar o(s) praticante(s) por

aquilo que eles estão a executar com correcção, irá dar uma informação

positiva importante para reforçar a motivação e o interesse destes no

treino. Segundo Daniels (1987) "seja qual for o nível de execução

verificada, o conhecimento dos resultados é um aspecto decisivo para a

aprendizagem. Quanto mais eficaz for transmitida uma informação

baseada em aspectos positivos de uma execução ou do rendimento

desportivo mais rapidamente se efectuará a aprendizagem. Pelo

contrário, se nessa altura o treinador só apontar os erros que eles estão

a cometer, os praticantes irão automaticamente concentrar-se neles com

prejuízo daquilo que estão a executar bem. Trata-se de uma situação que

Page 204: Metodologia Do Treino Desportivo

174 • Metodologia do treino desportivo I !

irá diminuir o ritmo de aprendizagem, sendo mesmo possível que alguns

aspectos positivos da execução venham a ser também prejudicialmente

afectadas".

Outra atitude importante do treinador na correcção do gesto técnico

desportivo é de não dar demasiada informação ao praticante, sendo

necessário que este se concentre num ou dois aspectos mais importantes

e assim alterá-los de acordo com as suas indicações:

quando existe um erro generalizado, devido a uma má informação

ou outro factor intrínseco, a correcção deverá ser colectiva. Logo que

detectada interrompe-se o treino volta-se a explicar, exemplificar

reforçando os aspectos essenciais. A interrupção do treino poderá ser

evitada, em que o treinador com duas ou três palavras ditas

oportunamente (entre cada repetição da prática do gesto, por exemplo)

lembra aos praticantes os aspectos que foram evidenciados e que estão

a ser descurados;

quando existe um ou outro praticante com deficiências, não e

necessário interromper o treino para corrigir apenas esse(s)

praticante(s). Nestas situações mesmo com o risco de

momentaneamente o treinador perder o controlo do trabalho

desenvolvido pelos restantes, deverá interromper a execução desse

praticante e informá-lo do(s) aspecto(s) negativo(s), dando-lhe a

conhecer a forma como ele o deve corrigir. Nestas situações poder-se-

à igualmente com o decorrer do treino chamar a atenção o praticante,

indicando em voz alta o seu nome, e de forma sucinta, alertá-lo para a

incorrecção cometida;

depois da correcção (individual ou colectiva) intervenção do

treinador volta a ser decisiva, pois e preciso estar atento às

modificações observadas no(s) gesto(s) técnico(s) dos praticantes.

Desta observação e análise duas situações podem acontecer:

Page 205: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 175

• ou os erros técnicos se mantêm, sendo necessário voltar a

corrigir seguindo as regras anteriormente estabelecidas;

• ou se verifica uma progressão na execução técnica, tornando-se

fundamental nestas situações reforços clara e positivamente

dirigido ao colectivo ou ao praticante individualmente.

6.5.5. Aspectos metodológicos a introduzir quando se verifica a consolidação do

gesto técnico desportivo com erros

O perigo de execução sistemática de um erro no gesto técnico é que

depois este se apresenta da mesma forma estável e consolidado pela

repetição, sendo mais tarde muito difícil de corrigir. Assim, é necessário

que o carácter padronizado do gesto deve ser frequentemente repetido

sem que sejam repetidos os vários erros de execução, tendo o treinador

de assumir a observância cabal deste aspecto, para que o conteúdo do

gesto técnico seja correctamente executado, estando assim (e só assim) a

contribuir verdadeiramente para o progresso do(s) praticante(s). O

"segredo" do treino técnico não é essencialmente determinado pela

utilização deste ou daquele exercício, mas sim pela intervenção do

treinador visando (o cumprimento do conteúdo do exercício escolhido)

precisamente essa finalidade. Quando se verifica a consolidação do gesto

técnico desportivo misturado com erros de execução. Para os eliminar

podem empregar-se os seguintes métodos:

deixar de fazer o elemento por algum tempo para travar as suas

ligações e, somente depois de o ter conseguido, recomeçar a sua

aprendizagem;

se o gesto técnico permitir, voltar a aprender o elemento;

deixar de lado o elemento que se estava aprender e passar a outro

mais difícil, mas parecido com o primeiro, pela sua estrutura, e em

seguida passar do elemento mais difícil para o mais fácil;

fazer com que o praticante fale do gesto técnico, pois, muitos deles

cometem erros só porque o concebem de forma incorrecta.

Page 206: Metodologia Do Treino Desportivo

176 • Metodologia do treino desportivo I !

Apresentando oralmente todos os detalhes da técnica, eles vêem-se

obrigados a pensar sobre os aspectos críticos e, porventura, deixarem

de cometer erros.

Finalizando, escutar com atenção as explicações do professor/treinador,

compreender as suas observações correctamente, analisar devidamente as

tentativas realizadas, apreciar todos os êxitos e falhas, são os principais

meios que asseguram a formação do gesto técnico, advertindo e eliminando

os erros. Com efeito, a correcta e eficaz execução dos diferentes factores

inerentes a cada comportamento específico de uma dada modalidade

desportiva, está intimamente ligada à frequente repetição dos exercícios de

treino, pois só assim os actos motores adquirem a estabilidade e a segurança

indispensáveis à sua aplicação tanto no treino como na competição.

6.6. A repetição do gesto técnico-desportivo

A repetição do gesto é um dos meios através do qual o praticante repete

sucessiva e metodicamente a execução do(s) gesto(s) técnico(s). A formação

ou o aperfeiçoamento de um determinado gesto técnico, não é conseguido

sem existir uma repetição frequente. A estabilidade técnica é mais

rapidamente conseguida quando a acção é reproduzida com frequência e de

forma relativamente estereotipada. Efectivamente a execução de elevado

nível de eficiência dos gestos técnicos está intimamente ligado ao número

de repetições, pois só assim os gestos adquirem a estabilidade, a variedade e

a segurança indispensáveis para a sua aplicação.

O hábito motor consolida-se graças à repetição constante do exercício já

assimilado. Quando um movimento se faz correctamente, naquilo que tem

de fundamental, teremos que passar a consolidar e aperfeiçoar o gesto

técnico. Todavia, a consolidação do hábito motor está indissoluvelmente

Page 207: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 177

ligado à estabilização do movimento. Assim, como no princípio da

aprendizagem a consolidação da execução do praticante não é ainda

suficientemente eficiente, senão em determinadas condições (estáveis),

depois dessa fase de estabilização estas condições deverão variar

procurando aperfeiçoá-lo nas condições mais diversas, isto é, em situações

cuja variabilidade do meio de treino é maior.

Esta etapa de aprendizagem, aperfeiçoamento ou desenvolvimento da

técnica desportiva leva-nos a três problemas essenciais: i) o problema da

estabilidade técnica, ii) o problema da diversidade técnica e da iii) segurança

de execução técnica.

6.6.1. A estabilização das aptidões técnico-desportivas

"A estabilização da técnica significa, não a estabilização da aptidão

técnico-desportiva mas sim da performance elevada" (Donskoy). A

estabilização das aptidões técnico-desportivas são determinadas, segundo

Matveiev (1986) pelos seguintes quatro princípios: criação de condições

favoráveis, exercitar o gesto técnico-desportivo isento de erros, não

confundir estabilidade com estereótipos rotineiros e a aproximação

gradual aos valores-padrão.

6.6.1.1. Criação de condições favoráveis

Uma aptidão é estabilizada com maior facilidade quanto mais

mecanicamente reproduzidas forem, no processo da repetição, as

particularidades assimiladas. Daí a regra: os factores que provocam

desvios em relação aos parâmetros óptimos da técnica do movimento

(condições externas difíceis, fadiga, tensão psíquica, "concorrência"

de hábitos motores anteriores, etc.) devem ser postos de parte no início

da aprendizagem, para a execução integral das acções e deve-se criar

Page 208: Metodologia Do Treino Desportivo

178 • Metodologia do treino desportivo I !

condições que diminuam a possibilidade de tais desvios (regulando a

aplicação de cargas e repousos, distribuindo os exercícios pela

estrutura das sessões de modo a facilitar a assimilação das aptidões,

utilizando postos de treino adequados e rítmicos diversos,

regularizando e estabilizando as condições exteriores, etc.).

6.6.1.2. Exercitar o gesto técnico-desportivo isento de erros

Segundo Carvalho (1988) "a aprendizagem e aperfeiçoamento técnico

exige do praticante uma elevada actividade e consequentemente

disposição para repetir inúmeras vezes o movimento de forma

consciente. A atenção deve recair directamente nos detalhes da

execução do movimento contribuindo frequentemente para acelerar o

desenvolvimento do processo de aprendizagem, nomeadamente nas

acções motoras complexas".

Os esforços tendentes à estabilização das aptidões serão inúteis se

durante este processo forem incutidos erros e imperfeições. Por outras

palavras: é necessário assegurar uma estabilização de carácter

positivo. Deste modo estes devem ser repetidos sem que sejam

repetidos os erros e com rigorosa realização dos parâmetros de

movimento assimilados. Nesta fase de estabilização, tal como em

todas as outras fases, a preparação técnica tem de ser combinada com

a modelação da capacidade de distinguir e regular com precisão os

parâmetros de espaço e tempo e os parâmetros dinâmicos do

movimento, de alternar racionalmente as contracções e descontracções

musculares e de dominar o conjunto dos momentos variáveis da acção.

6.6.1.3. Não confundir estabilidade com estereótipos rotineiros

Page 209: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 179

É conveniente consolidar as aptidões técnico-desportivas de tal modo

que elas ganhem a suficiente estabilidade, sem que com isso redundem

em estereótipos rotineiros, e coordená-las com a tendência geral de

evolução do nível de treino da respectiva fase. Como se sabe, nas

diversas modalidades são necessários diferentes graus de estabilização

das aptidões e das suas componentes. Na ginástica e nas modalidades

análogas, que têm uma estrutura cinética relativamente estável de

movimentos competitivos, a qual se modifica muito pouco com a

evolução do nível de treino, o grau de estabilização global das

aptidões é consideravelmente mais elevado que em qualquer outra

modalidade. Neste caso, a estabilização das aptidões é a tendência

principal do seu aperfeiçoamento em relação ao programa

competitivo. Nos jogos desportivos colectivos e de confrontação

individual, estabiliza-se principalmente a base conservando uma gama

de variações dessas aptidões suficientemente vasta.

6.6.1.4. Aproximação gradual aos valores-padrão

À medida que vão sendo consolidadas as aptidões já assimiladas,

todos os parâmetros do movimento que assegurem a estabilização

devem aproximar-se gradualmente dos seus valores-padrão

(adequados à prestação desportiva planeada para o respectivo ciclo de

treino).

6.6.2. A diversidade de aptidões técnico-desportivas

Segundo Matveiev (1986) "a segurança da técnica desportiva depende

também da possibilidade de modificação das aptidões já formadas, em

conformidade com a modificação das condições competitivas e, portanto,

da gama de diversidade dessas aptidões. A este respeito, devemos recordar

Page 210: Metodologia Do Treino Desportivo

180 • Metodologia do treino desportivo I !

que a estabilidade e a dinâmica de uma aptidão são propriedades não

apenas opostas mas inter-relacionadas. Esta sua inter-relação mostra-se,

por exemplo, no facto de que os parâmetros cinemáticos prescritos para

uma acção podem manter-se sem alteração quando ela é executada em

condições diferentes".

O mesmo autor (1986) acrescenta que "a útil diversidade da técnica das

acções competitivas caracteriza-se pela sua mutabilidade justificável, uma

mutabilidade que seja adequada às condições das competições e que facilite

a conservação da eficácia das acções. Permite desvios em relação às

formas de movimento que foram aprendidas, mas desvios que não vão além

do necessário para a consecução do objectivo da competição. A gama

destas variações, conforme já ficou dito, é diferente de umas modalidades

para outras. Uma das tarefas principais do treino técnico de um praticante,

quando ele aperfeiçoa as aptidões aprendidas, consiste em assegurar a

variedade correspondente às particularidades da modalidade escolhida.

Isso consegue-se variando directamente as características individuais dos

exercícios, as suas fases e as suas formas, e variando também as condições

externas da sua execução".

A mais ampla gama de variações justificadas dos desígnios operacionais é

típica das modalidades com uma composição de situações competitivas não

padronizada (jogos desportivos colectivos e modalidades de confronto

individual). Na esgrima, por exemplo, a eficácia das acções competitivas

depende da amplitude com que no treino são utilizados exercícios com

variação quanto à velocidade, à precisão dos movimentos), à previsão

(antecipação às acções do opositor) e à mudança (imediatamente a seguir ao

fim de uma acção ou a meio dela).

No aspecto metodológico, temos de distinguir dois tipos de atitude e os

respectivos métodos particulares para a expansão da gama de diversidade

Page 211: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 181

das aptidões já aprendidas (Matveiev, 1986): variação rigorosamente

dirigida e a variação livremente dirigida.

6.6.2.1. Variação rigorosamente dirigida

A sua direcção e o seu grau são rigorosamente prescritos nas

instruções do treinador, reflectem uma regulação exacta das

influências externas. Os métodos de variação rigorosamente dirigida

incluem a execução de exercícios que requerem a aptidão de modificar

os parâmetros individuais de movimento e de modificar também as

suas ligações e as formas de coordenação entre limites rigorosamente

definidos (por exemplo: execução de um exercício competitivo ou dos

seus elementos a partir de várias posições iniciais, com diferentes

volumes de tensão muscular, utilizando variações de técnica

desportiva, realizando combinações diversas, etc.). Muitos métodos

deste tipo podem ser subdivididos, segundo a condição de variação,

em dois grupos:

acções sem relação com a modificação das condições externas;

acções relacionadas com a introdução de condições externas,

regulando-se rigorosamente a direcção e os limites da variação.

6.6.2.2. Variação livremente dirigida

A realização da variação depende de modificações imprevisíveis das

condições externas. Os exercícios com variações e executados sem

influências externas reguladas impõem maiores exigências à

capacidade de regulação fina dos movimentos. Acções deste grupo

como a variação das posições iniciais, de elementos isolados e de

combinações competitivas são importantes porque permitem reduzir a

possibilidade de situações de ruptura nos momentos críticos das

competições. Os métodos de variação livremente dirigida relacionam-

se com diversas atitudes metodológicas que diferem entre si pela sua

Page 212: Metodologia Do Treino Desportivo

182 • Metodologia do treino desportivo I !

essência concreta e pelos meios e condições da variação. Neste

contexto, deve-se ter em atenção o seguinte:

variação relacionada com a resolução de problemas tácticos em

condições de interacção (com oponentes ou parceiros) livremente

regulada. É o que se chama variação táctica livre;

variações de jogo relacionados com a utilização de elementos

dos métodos de jogo e de competição no treino;

variação relacionada com a utilização, durante o treino e em

condições inabituais de ambiente natural, de aparelhos e acessórios,

com o objectivo de realizar treino psicológico especial e de

melhorar a estabilidade das aptidões.

6.6.3. A segurança das aptidões técnico-desportivas

Segundo Matveiev (1986) "a maioria dos métodos que asseguram a

estabilidade e a variedade das aptidões desportivas podem também ser

vistas como a dos métodos de obtenção da segurança da técnica das

acções competitivas. A "segurança" das acções do praticante durante as

competições é o resultado complexo do aperfeiçoamento das suas

capacidades e aptidões que garante uma grande eficácia das acções a

despeito das interferências internas e externas. Juntamente com a

estabilidade e a variedade das aptidões, a segurança é determinada pela

estabilidade psíquica, pela resistência específica, pelo alto grau de

desenvolvimento das aptidões de coordenação e outras".

Em termos metodológicos as condições fundamentais para melhorar a

segurança da técnica desportiva (para além dos que já foram

mencionados) são os seguintes (Matveiev, 1986): adaptação das aptidões

técnicas às condições máximas de manifestação das qualidades físicas no

treino, modelação de situações psiquicamente tensas e introdução de

dificuldades adicionais e a prática competitiva.

Page 213: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 183

6.6.3.1. Adaptação das aptidões técnicas às condições máximas de manifestação

das qualidades físicas no treino

A preparação técnica do praticante, nestas condições, funde-se

organicamente com o treino físico especial. O volume e a intensidade

das cargas específicas do treino são levados a valores próximos dos

competitivos e podem mesmo excedê-los (em certos parâmetros). É

esse o principal factor de adaptação. A segurança técnica nas

modalidades que exigem manifestações de resistência máxima

depende do grau de estabilidade das aptidões perante a fadiga. Assim,

o problema da criação de capacidades de perfeita execução das acções

competitivas é resolvido em unidade com os problemas da formação

da resistência específica. A este respeito, a direcção metodológica

principal é o aumento do volume dos exercícios executados à

intensidade máxima e combinados com o aumento da fadiga durante o

trabalho. Naturalmente que o grau de fadiga tem de ser limitado de tal

modo que sejam evitadas distorções permanentes das aptidões

assimiladas. Em princípio, a fadiga, se não for excessiva, não destruirá

as aptidões firmemente assimiladas e até facilitará ao aperfeiçoamento

das coordenações de movimentos. 6.6.3.2. Modelação de situações psiquicamente tensas e introdução de

dificuldades adicionais

À medida que se vão estabilizando as aptidões recém-formadas (ou

transformadas) correspondentes às acções competitivas, uma das

condições necessárias para posterior aumento da sua segurança é a

superação das interferências descoordenadoras que surgem em

situações de tensão psicológica, que são típicas das competições

desportivas. A estabilidade das aptidões em relação aos factores deste

tipo é assegurada mediante uma combinação mais íntima do treino

Page 214: Metodologia Do Treino Desportivo

184 • Metodologia do treino desportivo I !

técnico com o treino da vontade e o treino psicológico especial. Logo

desde o início da estabilização das aptidões é conveniente excluir a

pouco e pouco os métodos que facilitam a execução dos exercícios e

introduzir determinadas dificuldades que compliquem as tarefas de

domínio dos movimentos. À medida que se aproxima o período das

principais competições, as situações competitivas que envolvam

tensão psíquica deverão ser mais completamente trabalhadas no treino.

Tudo isso faz aumentar o grau de segurança das aptidões já formadas

desde que, é claros sejam usados ao mesmo tempo métodos eficazes

de verificação objectiva e de correcção dos erros observados,

juntamente com os métodos de treino da vontade e de treino psíquico

especial que mobilizem o atleta para vencer as dificuldades. 6.6.3.3. A prática competitiva

É conveniente utilizar a participação sistemática em condições de

treino, ou oficiais, de níveis diversos, como factor de aperfeiçoamento

de novas (ou renovadas) formas da técnica desportiva depois de

estarem inicialmente estabilizadas as aptidões assimiladas (não há

justificação para experimentar a sua solidez em competições quando

elas não são estáveis porque conduz normalmente à consolidação de

erros que mais tarde dificilmente serão corrigidos). Antes que termine

o período preparatório, a prática competitiva tem de constituir uma

componente importante de todo o sistema do treino.

Ver, ouvir, experimentar, corrigir e repetir são por assim dizer os aspectos

salientes desta fase de ensino/aprendizagem do gesto técnico desportivo. Esta é

caracterizada pela diminuição da tensão inicial, por parte do praticante.

Aprender é ascender a um nível que o praticante não tem, logo este passa

sempre por uma situação de stress, que se liga ao factor postural e ao factor

psicológico, em que tudo vai sendo desencadeado dentro de uma esfera

emotiva. Daí que o praticante sinta que os exercícios são fatigantes, não por

Page 215: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 185

serem difíceis (complexos), mas sim por serem executados com um elevado

controlo e domínio do sistema nervoso central o que origina por consequência

uma intensa e precoce fadiga de origem nervosa.

Concluindo, a racionalização e sistematização do processo de treino só advirá

de uma criteriosa selecção de objectivos, conteúdos, métodos e meios de treino

em situações adequadas à aprendizagem, aperfeiçoamento e estabilização.

7. Planeamento da preparação técnico-desportiva

Iremos seguidamente analisar a preparação técnico-desportiva dos praticantes

em função do processo de planeamento plurianual e anual, microciclo e

unidade de treino.

7.1. Durante o processo plurianual e anual

De um modo geral, segundo Matveiev (1986) o processo plurianual da

preparação técnica do praticante/jogador pode ser dividido em duas fases

principais: a fase da preparação técnica de base e a fase de aperfeiçoamento

técnico.

7.1.1. A fase da preparação técnica de base

Esta fase inclui o ensino inicial da técnica desportiva da modalidade e

uma preparação desportiva convenientemente concebida que possa servir

de base para o posterior aperfeiçoamento do praticante graças à

acumulação de um rico conjunto de aptidões técnico-desportivas. O

ensino, na acepção mais imediata da palavra, manifesta-se mais

completamente na primeira fase. Mas continua ainda na segunda fase a

ser um dos aspectos de maior importância da preparação desportiva.

Apenas se modificam o seu conteúdo concreto e a sua forma.

Page 216: Metodologia Do Treino Desportivo

186 • Metodologia do treino desportivo I !

7.1.2. A fase de aperfeiçoamento técnico

Na segunda fase da preparação técnica prossegue-se no domínio de novas

formas ou variantes da técnica e na sua consolidação e aperfeiçoamento

em dependência das exigências de aquisição, conservação e posterior

aperfeiçoamento da forma desportiva no âmbito dos grandes ciclos do

treino. Um praticante em aperfeiçoamento tem pelo menos três fases de

treino técnico em cada ciclo (Matveiev, 1986):

7.1.2.1. Primeira fase

Coincide, de um modo geral, com a primeira metade do período

preparatório dos grandes ciclos de treino, quando a preparação do

atleta se encontra completamente subordinada à necessidade de

criação dos pré-requisitos para o estabelecimento da forma desportiva.

Em relação à preparação técnica, é esta a fase de "construção" de um

modelo de nova técnica das acções competitivas (ou de uma sua

variante), de melhoramento dos seus pré-requisitos, do domínio

prático e do estudo (ou novo estudo) de determinados exercícios que

fazem parte das acções competitivas e da modelação das suas bases

coordenativas gerais.

7.1.2.2. Segunda fase

Nesta fase, a preparação técnica orienta-se para o domínio completo

das acções competitivas e para a formação de aptidões complexas

como componentes da forma desportiva. Regra geral, cobre uma parte

Page 217: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 187

considerável da segunda fase do período preparatório dos grandes

ciclos do treino (fase preparatória especial).

7.1.2.3. Terceira fase

Nesta fase, a preparação técnica é conduzida no âmbito da preparação

imediatamente anterior às provas e orienta-se para o aperfeiçoamento

das aptidões adquiridas, para a expansão da respectiva gama de

variantes úteis e para a consecução de um certo grau de "segurança"

em relação às condições das principais competições. Esta fase

costuma começar na parte final do período preparatório do treino e

prolonga-se pelo período competitivo. Se este for muito longo, o

treino técnico conservará, no essencial, os aspectos que o caracterizam

na terceira fase e só se modificará parcialmente, em função das

particularidades especificas da estrutura do período competitivo.

O conteúdo e a forma do treino técnico do praticante sofrem a

influencia: i) das suas particularidades de assimilação dos

procedimentos técnicos em relação à forma desportiva já atingida por

este, ii) das peculiaridades da modalidade desportiva praticada, iii) da

estrutura geral do ciclo de treino e, iv) de outros factores.

Assim, se a técnica do praticante num determinado ciclo de treino não

estiver sujeita a transformações essenciais e a preparação técnica se

reduzir, no essencial, a um pequeno aperfeiçoamento de aptidões

anteriormente adquiridas, os limites que separam estas fases

desaparecem e a duração das primeiras fases diminui. Quando há

necessidade de reestruturar aptidões firmemente formadas e de vencer

erros ou insuficiências fortemente enraizadas, pelo contrário, a

primeira fase tem de ser prolongada com a introdução de uma fase

Page 218: Metodologia Do Treino Desportivo

188 • Metodologia do treino desportivo I !

especial de "readaptação" (que costuma coincidir com o período de

transição do treino).

Para Carvalho (1988) "as modalidades onde a técnica é muito

importante para o rendimento, como sejam as de exactidão e

expressão do movimento, ela deve representar a parte predominante

do treino durante todo o ano. Nos desportos colectivos e desportos de

combate deve também ser treinada durante todo o ano juntamente

com a condição física e a táctica. Nas modalidades onde os factores

da condição física são determinantes para o rendimento, também a

técnica deve ser treinada durante todo o ano mas com especial

incidência no período de competição, embora a carga de treino seja

ao longo do macrociclo predominantemente dirigida para o

desenvolvimento das capacidades condicionais fundamentais para o

rendimento da modalidade".

7.2. O treino técnico durante o microciclo

A aprendizagem, aperfeiçoamento e desenvolvimento da técnica desportiva

durante o microciclo de treino deve obedecer, em última análise, a um dos

seus princípios metodológicos fundamentais: o da relação óptima entre a

carga de treino e o repouso. Deste princípio surgem duas questões

essenciais:

a determinação do exercício óptimo o qual consubstancia uma

estrutura (objectivo, conteúdo, forma e nível de performance) e

componentes estruturais fisiológicas (duração, volume, intensidade,

densidade e frequência) e técnico-táctica (espaço, tempo, número e

complexidade); e,

a determinação do momento óptimo de aplicação de uma nova carga

de treino, isto é, a sua aplicação deve decorrer em função dos processos

regenerativos correspondentes às unidades de treino anteriores, sendo

Page 219: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor técnico desportivo • 189

fundamental que esta ocorra no momento em que existe um nível de

organização superior (melhoria do rendimento).

Nestas circunstâncias, a aplicação de uma unidade de treino cujo

objectivo/conteúdo é de aprendizagem, aperfeiçoamento e desenvolvimento

da técnica desportiva não deve ser aplicado imediatamente após uma

unidade de treino que devido às características da carga conduziram os

praticantes/jogadores a um elevado estado de fadiga especialmente no que

diz respeito aos sistemas nervoso e muscular.

7.3. O treino da técnica desportiva na unidade de treino

Um dado inegável no treino da técnica desportiva é o facto deste decorrer

sob uma forte participação do sistema nervoso central. Com efeito, perante

um ou mais exercícios de treino o sistema nervoso fatiga-se mais

rapidamente que qualquer outro sistema do corpo humano. Daqui se infere

que o primeiro aspecto metodológico a reter no treino da técnica desportiva

é que a eficácia dos exercícios que o consubstanciam não é determinado

pelo volume das modificações funcionais que provocam fadiga, mas sim

pela correcção e precisão das formas de coordenação dos movimentos.

Neste sentido, numa primeira fase de aprendizagem o número de repetições

desses exercícios é relativamente pequeno e limitado no decurso de cada

unidade de treino especialmente quando haja o perigo da fixação de erros

técnicos que derivam de estados de fadiga. Todas as argumentações teóricas

sobre a aprendizagem da técnica desportiva referem a regra de "mais vezes e

aos poucos". Segundo Matveiev (1987) "uma eficácia suficientemente

elevada do trabalho de formação e reestruturação de aptidões técnico-

desportivas complexas fica assegurada, ao que parece, na maior parte dos

casos, com sessões diárias com um volume relativamente pequeno. Essa

eficácia diminui consideravelmente quando aumenta o intervalo entre as

sessões, mesmo que aumente o volume de trabalho em cada sessão".

Page 220: Metodologia Do Treino Desportivo

190 • Metodologia do treino desportivo I !

Para Carvalho (1988) "se na mesma unidade de treino pretendemos treinar

a técnica e a condição física, a técnica deve treinar-se no início (logo após

o aquecimento) pois o sistema nervoso central não estará fatigado e obter-

se-á assim um melhor rendimento no treino. Só quando o desportista tem a

técnica bem estabilizada poderá treiná-la em condições de fadiga. No

entanto aqui o objectivo não será o aperfeiçoamento dos gestos técnicos

mas sim a adaptação às condições da competição, isto é, a estabilização da

técnica em condições desfavoráveis como seja, neste caso, um elevado

estado de fadiga".

w

Page 221: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE IV

OS FACTORES DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 2

Estudo do factor táctico desportivo

Resp: Jorge Castelo

Page 222: Metodologia Do Treino Desportivo

190 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo do Capítulo 2 da Parte IV

O factor táctico desportivo representa o processo intelectual de

solução das questões que a competição em si encerra. Com efeito, a

competição desportiva reflecte, na maioria das modalidades, um

conjunto diversificado de situações que determinam a necessidade

destas serem resolvidas através de acções significativas, orientadas em

relação a um objectivo comum, logo exigindo a participação da

consciência. Neste contexto, incidiremos a nossa análise sobre a

natureza do comportamento táctico, frequência, características,

elementos que o influenciam, as fases e os princípios metodológicos da

sua formação nos praticantes.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 9

Page 223: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 191

Parte IV

Os factores de treino

Sumário

1. Definição de comportamento táctico desportivo

2. Objectivo do comportamento táctico desportivo

3. A natureza do comportamento táctico desportivo 3.1. Ser orientado exigindo a participação da consciência 3.2. Exprime um pensamento produtor

4. Frequência de ocorrência do comportamento táctico desportivo

5. Características do comportamento táctico desportivo

6. Elementos que influenciam o comportamento táctico desportivo 6.1. As características básicas das situações competitivas 6.2. A qualidade de observação por parte do atleta/jogador 6.3. Os fundamentos reais dos conhecimentos e das experiências dos jogadores 6.4. A memória 6.5. Solução associativa dos problemas tácticos 6.6. A rapidez do atleta/jogador a reconhecer as invariantes da situação competitiva 6.7. Os factores emotivo-psicológicos

7. As fases do comportamento táctico desportivo 7.1. A percepção e análise da situação 7.2. A solução mental do problema 7.3. A solução táctica e as respostas técnicas

8. As diferentes fases do processo de aprendizagem da táctica desportiva 8.1. 1ª. Fase: aprendizagem habilidades motoras inerentes à modalidade desportiva 8.2. 2ª. Fase: aprendizagem das acções técnico-tácticas 8.3. 3ª. Fase: desenvolvimento da capacidade competitiva global 8.4. 4ª. Fase: utilização da capacidade competitiva global em competições oficiais

9. Princípios metodológicos da formação táctica desportiva 9.1. Princípio da sistematização 9.2. Princípio do carácter alternativo 9.3. Princípio da unidade da formação táctica elementar e complexa 9.4. Princípio da formação táctica individual e da formação táctica colectiva 9.5. Princípio da unidade da formação táctica teórica e da formação táctica prática 9.6. Princípio da síntese óptima indutiva e da dedutiva

Page 224: Metodologia Do Treino Desportivo

192 • Metodologia do treino desportivo I !

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Page 225: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 193

Ao observarmos as modalidades desportivas na actualidade imediatamente

chegamos à conclusão do elevado grau de complexidade que os

comportamentos técnico e tácticos dos atletas/jogadores em si encerram.

Executar uma acção correcta, no momento exacto, empregando a força

necessária, imprimindo a velocidade ideal, antecipando as acções dos

adversários e tornar compreensível a sua acção em relação aos companheiros,

são alguns dos elementos que qualquer atleta/jogador deve ter em conta antes

de tomar uma decisão.

Nestas circunstâncias, ao exigir-se quer do plano individual quer do plano

colectivo melhores níveis de eficiência/eficácia, aumentou-se a intensidade e o

ritmo competitivo o que afectou sobremaneira não só os aspectos técnicos,

como também os aspectos psicológicos, consubstanciados pelo aumento da

pressão sobre o raciocínio táctico dos atletas/jogadores. O comportamento

destes só é compreensível considerando-os como indivíduos que têm que dar

uma resposta eficaz às diferentes situações competitivas, sendo obrigados a

adaptar-se rápida e continuamente a si próprio, às necessidades do colectivo e

aos problemas postos pelos adversários.

O aumento do ritmo competitivo na actualidade (número de acontecimentos na

unidade de tempo), afecta radicalmente o modo como o atleta/jogador "sente"

as situações à sua volta, na qual a instabilidade-transitoriedade do

envolvimento, imprime um novo sentido à estrutura da situação, influenciando

a continuidade e a descontinuidade da expressão pessoal da maturidade e

criatividade dos atletas/jogadores, das suas capacidades de cooperação (com os

companheiros), das suas capacidades de oposição (com os adversários), pelas

regras da competição, ou por quem é o seu garante (árbitro) e com o público.

Page 226: Metodologia Do Treino Desportivo

194 • Metodologia do treino desportivo I !

1. Definição de comportamento táctico desportivo

O acto/comportamento táctico desportivo é definido pelo "processo intelectual

de solução dos problemas competitivos, sendo uma componente indissociável

da actividade, devendo ser rápida e deliberado, visando o maior grau de

eficiência possível" (Mahlo, 1966).

Desta definição podemos inferir que o comportamento táctico dos

atletas/jogadores pressupõe uma actividade cognitiva, sendo resultado de

complicados mecanismos de recepção, transmissão, avaliação e elaboração da

resposta, relacionando o resultado dessa acção com a memória. É esta

actividade cognitiva ou intelectual, que amplia significativamente a capacidade

das respostas adaptativas dos praticantes às situações competitivas, permitindo

que este reconheça, oriente e regule a sua acção motora.

O comportamento táctico desportivo, com efeito, não se reduz a um sistema

fechado de relação que se estabelece por ensaio e erro, ou pelo

condicionamento consolidando-se através de reforçamentos positivos. O

sentido táctico em situação competitiva exige para ser eficaz uma elaboração

realizada a partir de sistemas abertos de relação baseados sobre códigos

simbólicos de informação.

2. Objectivo do comportamento táctico desportivo

O objectivo fundamental do comportamento táctico desportivo é o encontrar de

soluções para a resolução prática dos diferentes problemas postos pelas

diversificadas situações competitivas.

Page 227: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 195

3. A natureza do comportamento táctico desportivo

A natureza do comportamento táctico desportivo consubstancia-se basicamente

em duas componentes fundamentais: i) ser orientado exigindo a participação da

consciência e, ii) exprime um pensamento produtor.

3.1. Ser orientado exigindo a participação da consciência

A competição reflecte um conjunto diversificado de situações que por si

encerram inúmeros problemas que deverão ser resolvidos pelos

atletas/jogadores, através de acções significativas orientadas em relação a

um objectivo comum, logo, exigindo a participação da consciência. Deste

facto extraí-se a primeira componente fundamental da natureza do

comportamento táctico dos atletas/jogadores, é que a dimensão das acções

motoras visíveis para a resolução desses problemas, reflectem uma relação

consciente e inteligível, de manifestação de uma personalidade, mas não

representam "mais que" a fase final de um longo e complexo processo

psico-fisiológico.

Segundo Rubinstein (1962), "o jogo traduz uma actividade composta por

um conjunto de acções complexas não fortuitas, ligadas entre si pela

unidade da motivação... Existe entre a actividade e o psiquismo do homem

uma verdadeira unidade e uma ligação dialéctica... Esta unidade da

consciência e do comportamento não significam necessariamente

identidade. A consciência é ao mesmo tempo, a condição e o resultado da

actividade, do mesmo modo que as qualidades psíquicas da personalidade

são a condição e o resultado do comportamento humano".

Page 228: Metodologia Do Treino Desportivo

196 • Metodologia do treino desportivo I !

Neste contexto, desenvolve-se uma intensa e determinante actividade

operatória através da qual os atletas/jogadores procuram decifrar as

flutuações (modificações) do meio, tentando descoadificar continuamente a

dinâmica das interacções observadas. Estes processos operatórios

complexos estabelecem os princípios organizadores das acções dos

atletas/jogadores consubstanciando-se: na apreciação das velocidades, das

distâncias, da profundidade, da estimação dos projectos dos outros

(companheiros e adversários), dos antagonismos ou das convergências.

Todos estes elementos são analisados em termos de probabilidade

subjectiva partindo de um grau de confiança variável, com a qual se

estabelece a estratégia da acção relativamente à situação competitiva.

3.2. Exprime um pensamento produtor

O facto de se resolver pela acção, problemas em plena situação competitiva,

obriga na maior parte das vezes a ordenar com discernimento a situação

problemática, e a solução leva os atletas/jogadores a obterem conhecimentos

subjectivamente novos. "O acto táctico é um sistema de investigação que

não se contenta em escolher a melhor resposta entre várias possíveis, esta

auto-aperfeiçoa-se ao mesmo tempo que resolve o problema posto" (Mahlo,

1966). Isto significa que as soluções tácticas evoluem dos mais simples para

os lógicos, mais racionais, sendo fundamental reconhecer e identificar quais

os principais processos e invariantes que consubstanciam esta

transformação.

Com efeito, cada comportamento é portador de um sentido ao qual todos os

atletas/jogadores (companheiros e adversários) deverão interpretar de forma

eficaz, compreendendo assim as significações das acções tácticas que se

intercruzam perante os seus olhos. Não existe assim, a simples percepção e

os estímulos, mas a interpretação do comportamento motor e a comunicação

Page 229: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 197

de um sentido. Os atletas/jogadores interpretam os deslocamentos, as

paragens, as posições, as marcações, etc., detectando os sinais e impondo

igualmente as suas próprias significações.

4. Frequência de ocorrência do comportamento táctico desportivo

Os mecanismos que fundamentam o comportamento táctico desportivo dos

atletas/jogadores, ocorrem continua e permanentemente durante a competição.

Cada situação competitiva comporta índices de identificação bem definidos e

hierarquizados que são o testemunho do seu significado táctico e que

transportam já em si as ligações essenciais, através dos quais os jogadores ao

"lerem" a situação (atribuindo-lhe um determinado significado):

• avaliam as suas possibilidades de êxito;

• preparam mentalmente a sua acção futura;

• antecipam o seu comportamento em função do prognóstico por ele

elaborado; e,

• executam uma resposta que seja previsível aos olhos dos seus

companheiros e imprevisível aos dos adversários.

5. Características do comportamento táctico desportivo

O comportamento táctico desportivo exprime seis características fundamentais

(Hucko, 1981): i) fluidez, ii) adaptabilidade, iii) originalidade, iv) reestruturação,

v) antecipação e, vi) execução.

5.1. Fluidez

Page 230: Metodologia Do Treino Desportivo

198 • Metodologia do treino desportivo I !

A fluidez reflecte a capacidade de criar rápida, fluida e facilmente o maior

número possível de mecanismos psíquicos de um determinado tipo num

tempo limitado para a resolução da situação de competição.

5.2. Adaptabilidade

A adaptabilidade representa a capacidade de se encontrar soluções

heterogéneas para uma dada situação problemática.

5.3. Originalidade

A originalidade representa a capacidade de idealizar soluções mentais e

motoras que sejam engenhosas, subtis, descobrindo coincidências e

conexões imperceptíveis.

5.4. Reestruturação

A reestruturação representa a capacidade de modificar ou reestruturar o

significado e a utilização dos elementos ou das suas partes, em função dos

novos condicionalismos da situação competitiva.

5.5. Antecipação

A antecipação representa a capacidade de discernir e prever as necessidades

e consequências da situação competitiva.

5.6. Execução

A execução representa a capacidade de realizar em termos práticos a

solução mental encontrada.

Page 231: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 199

Neste contexto, também Korcek (1980), refere que as qualidades fundamentais

dos jogadores durante as fases de percepção e análise da situação/solução

mental do problema são:

i) o alto sentido de orientação;

ii) capacidade de antecipação;

iii) capacidade de modificar a ordem dos diferentes elementos da

actividades; e,

iv) capacidade de valorizar retrospectivamente e reflectir sobre a solução da

situação de jogo anteriores, procurando encontrar outras diferentes.

6. Elementos que influenciam o comportamento táctico desportivo

Existe um conjunto de variáveis que intervêm e influenciam de forma decisiva

o comportamento táctico desportivo dos atletas/jogadores nomeadamente, no

que se refere: à qualidade do pensamento táctico, à rapidez do pensamento e a

compreensão adequada da solução em função da situação competitiva presente.

Entre as diversas variáveis enumeraremos as seguintes que consideramos

fundamentais: i) as características básicas das situações competitivas

(variabilidade transitoriedade), ii) a qualidade de observação por parte do

atleta/jogador, iii) os fundamentos reais dos conhecimentos e das experiências

dos atletas/jogadores, iv) a memória, v) a solução associativa dos problemas

tácticos, vi) a rapidez do atleta/jogador em reconhecer as invariantes de uma

situação competitiva e, vii) os factores emotivo-psicológicos.

6.1. As características básicas das situações competitivas

De uma forma geral as situações competitivas evidenciam duas

características fundamentais:

• a variabilidade (ritmo de mudança) que evidencia grandes exigências

dos mecanismos perceptuais, obrigando os atletas/jogadores a uma

concentração constante na competição para realizar uma correcta leitura

desta e decidir por uma resposta motora eficaz; e,

Page 232: Metodologia Do Treino Desportivo

200 • Metodologia do treino desportivo I !

• a constante transitoriedade (complexidade da mudança) que determina

um aumento da complexidade de todas as componentes da estrutura da

situação, obrigando o atleta/jogador a realizar acções que procuram

prever antecipadamente o desenvolvimento e o resultado dos

acontecimentos de uma dada situação de jogo (antecipação) tornando

assim, a sua capacidade de intervenção mais eficiente.

Neste contexto, tanto a variabilidade como a transitoriedade das situações

competitivas limitam o tempo disponível para a tomada de decisão

adequada e apropriada para cada situação, influenciando assim, a qualidade

do pensamento táctico.

6.2. A qualidade de observação por parte do atleta/jogador

As experiências e os conhecimentos são factores essenciais, num processo

perceptual que não se pode desenvolver senão pela prática activa, da qual

nascerá o "dom da observação" fonte de soluções tácticas novas às tarefas

impostas pela competição. Mahlo (1966), prefaseando Smirnov define "dom

da observação como a capacidade de descobrir nos objectos e nos

fenómenos o que não aparece, ou aparece muito pouco, mas apesar de tudo

é essencial e interessante seja qual for o ponto de vista. Um traço

característico do dom da observação é também a velocidade com a qual

este pouco aparente é apreendido". Ainda o mesmo autor (1966) refere que

"a prática do jogo pode desenvolver um dom ou uma capacidade de

observação, permitindo reconhecer qualquer coisa essencial do ponto de

vista do problema a resolver, isto é, do ponto de vista da táctica".

6.3. Os fundamentos reais dos conhecimentos e das experiências dos jogadores

A qualidade do pensamento táctico aumenta simultaneamente à progressão

dos conhecimentos tácticos práticos, a partir desse momento apercebe-se

daquilo que é essencial para resolver o problema. Cada situação competitiva

comporta índices de identificação bem definidos e hierarquizados que são

Page 233: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 201

testemunho do seu significado táctico e que transportam já em si as ligações

essenciais. Isto significa, que a actualização dos conhecimentos tácticos,

como forma de pensamento táctico, faz-se a partir: i) da análise da situação

e, ii) da análise dos conhecimentos. "Produz-se um fluxo de ligações

continuas entre os problemas e as disposições individuais - conhecimentos,

técnicas e capacidades" (Mahlo, 1966). Ainda segundo este autor, "um bom

jogador deve dispôr de sólidos conhecimentos e rapidamente utilizáveis em

função da alternância continua dos problemas concretos ...Sente-se a

necessidade dum sistema lógico de conhecimentos tácticos organizados

numa relação lógica do ponto de vista prático".

Mahlo (1966) ao referir-se a Rubinstein afirma que "não se deve separar o

pensamento do conhecimento, contudo, não há identidade entre o volume de

conhecimentos e a qualidade do pensamento. Pensar não é somente

actualizar conhecimentos, é também criar novos...". "A actualização dos

conhecimentos necessários para a solução de um dado problema, implica a

análise do problema e dos conhecimentos que entram em linha de conta

para a sua solução. Esta análise determina que se faça uma correlação

sintética do problema e dos conhecimentos".

6.4. A memória

Segundo Carrière (1976) "a prospecção do campo visual pode ter uma

sequência automatizada, visto que, com a experiência o jogador desenvolve

um quadro perceptual, que armazena o tipo de informação a observar e as

principais fontes de informação pertinente. Esta sequência é controlada

pela memória de longo prazo". Ainda o mesmo autor alerta para o facto,

que algumas vezes os índices pertinentes da situação estão incompletos,

tendo o jogador de utilizar as informações armazenadas na sua memória de

longo prazo, para poder interpretar os fragmentos de informação e prever

antecipadamente o desenvolvimento da situação de competição. "Cada

percepção apropriada deixa um traço na memória" (Rubinstein, 1962).

Page 234: Metodologia Do Treino Desportivo

202 • Metodologia do treino desportivo I !

6.5. Solução associativa dos problemas tácticos

A capacidade de estabelecer uma associação mental entre a situação

percebida e a solução correspondente representa na competição, o meio

mais rápido de resolver o problema mentalmente e no momento próprio.

Neste sentido, Mahlo (1966), refere o seguinte exemplo "se todos os

membros de uma equipa tivessem uma formação táctica idêntica (se

jogassem juntos há muito tempo beneficiando duma educação teórica e

prática comum) existiria entre eles uma compreensão quase cega fundada

sobre esta solução associativa. Estas associações não se limitam

forçosamente a problemas simples, podem-se também resolver problemas

mais difíceis que exigem a intervenção de vários jogadores, se a

aprendizagem táctica foi realizada com correcção. É evidente, então, que

as soluções associativas dos jogadores nos seus diversos posicionamentos

tácticos devem formar um todo conveniente, e que todos devem optar pela

mesma acção colectiva para resolver a situação competitiva adaptando as

suas acções individuais"

6.6. A rapidez do atleta/jogador a reconhecer as invariantes da situação competitiva

Gibson (1966), refere que "o melhoramento perceptual é caracterizado por

um aumento progressivo na especificidade de descriminação face ao

estímulo da informação". Por seu lado Mahlo (1966), afirma que "o

conteúdo, a amplitude e a riqueza da percepção ou da observação do jogo

depende de dois factores: i) da velocidade da acção de jogo e, ii) da

velocidade de observação dos jogadores". Portanto, "jogadores com o

mesmo nível de conhecimentos e a mesma preparação táctica, poderam

evidenciar diferentes velocidades de percepção... o que permite concluir

pela existência de capacidades individuais de observação, susceptíveis de

serem melhoradas pelo treino".

Page 235: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 203

Neste contexto, a velocidade perceptiva requerida para discernir com

eficiência entre vários estímulos, os mais pertinentes, no menor tempo

possível é de fundamental importância nos desportos colectivos. Para Bayer

(1974), "saber definir no meio a onda de informação, a importância

relativa dos diferentes estímulos, saber hierarquizar os elementos que

assaltam o jogador na sua acção, constituem uma qualidade que facilita a

capacidade de uma reacção eficaz. Cada jogador, através de um esforço de

análise, vai discernir, seleccionar e interpretar os diferentes índices da

situação competitiva segundo o seu sistema de valores, constituídos pela

sua própria personalidade para orientar as suas respostas".

6.7. Os factores emotivo-psicológicos

Os factores emotivo-psicológicos podem ter um influência positiva (a

alegria, o entusiasmo) ou negativa (medo, falta de treino) sobre o

pensamento táctico e consequentemente sobre a actividade do

atleta/jogador. Com efeito, "aspectos como a vontade, a motivação, o nível

de inspiração, as diferenças individuais no que respeita a este factor podem

exercer sobre a solução mental adequada de um problema com uma

influência por vezes decisiva" (Mathey, 1956).

7. As fases do comportamento táctico desportivo

Numerosos autores distinguem 3 fases sucessivas e fundamentais, em estreita

correlação, do comportamento táctico dos atletas/jogadores durante a resolução

das situações de competição:

1/ a percepção e análise da situação competitiva: esta fase representa um

processo único de: i) tomada de informação da situação competitiva, através

Page 236: Metodologia Do Treino Desportivo

204 • Metodologia do treino desportivo I !

dos órgão sensoriais, fazendo apelo a todos os mecanismos perceptuais -

mais particularmente à visão e, ii) da análise da situação, pois como refere

Rubinstein (1962), "perceber uma situação, é ao mesmo tempo

reconhecê-la";

2/ a solução mental da situação competitiva: esta fase implica um processo

intelectual de tomada de decisão face aos dados concretos da fase de

percepção e análise relacionando-os com os conhecimentos anteriormente

adquiridos pela experiência do atleta/jogador; e,

3/ a solução motora da situação competitiva: esta fase representa a solução

prática da situação de competição que depende essencialmente dos

mecanismos efectores suportados pelos sistemas nervosos e musculares.

Sinteticamente, o presente modelo tenta evidenciar que os jogadores ao

procurarem resolver uma determinada situação competitiva, ajustam a sua

acção de acordo com: 1) a percepção e análise dessa situação, 2) elabora para

esta uma solução mental, 3) expressa-a numa resposta motora cujo, 4) resultado

irá ser interpretado em função da eficiência (baseado na comparação de dois

pólos "deve ser/foi"), 5) simultaneamente o analisador do efeito (externo e

interno), permite interiorizar o resultado da acção na memória, tornando a

experiência significativa (produto mental), logo facilitadora da resolução de

outras situações idênticas, ou servindo de base para uma nova situação.

memóriareceptor

do efeito

resultado

+ -

solução motora

do problema

solução

mental do

problema

percepção

e análise

da situação

referência

Figura 32. As fases do acto táctico (Mahlo, 1966)

Page 237: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 205

As ligações temporais das fases do comportamento táctico desportivo

Importa neste momento salientar que uma sucessão hierarquizada das fases do

comportamento táctico corresponderia que o atleta/jogador não começaria a

mover-se senão depois de reconhecer a situação competitiva e tomado a sua

decisão. Ora, "durante a competição, os atletas/jogadores têm uma actividade

quase ininterrupta, isto é, as fases do processo de percepção e análise da

situação assim como a solução mental do problema realizam-se em

movimento. Isto significa a existência de uma modificação contínua da

actividade motora como consequência de processos intelectuais, sendo

alterada na sua qualidade, quantidade e orientação espacial. Logo, as

ligações temporais das fases enunciadas, desenvolvem-se de forma sucessiva e

simultânea" (Mahlo, 1966).

Nestas circunstâncias, acrescenta o mesmo autor (1966) "enquanto se resolvem

mentalmente as situações, devem subsistir relações mútuas entre as três fases

da acção, graças às percepções marginais da situação exterior e da sua

própria motricidade. Pode-se assim ter em conta, a todo o momento, a

dinâmica da situação. Esta percepção marginal pode conduzir a uma

percepção central nova, a uma modificação ou a um aperfeiçoamento da

situação mental e da acção motora. Graças a ela, a continuidade da

percepção encontra-se assegurada durante toda a acção e, logo, durante a

actividade competitiva".

Constata-se assim que a percepção e a solução mental se relacionam com a

solução motora, cujo o resultado aferirá o valor da primeira, dados estes que

serão registados na memória e que irão por si, consubstanciar a base de suporte

a novas percepções e soluções mentais. A consciência tem aqui um papel

fundamental de interiorização e abstracção da acção motora, sendo através da

consciencialização do resultado obtido que as experiências de natureza prática

Page 238: Metodologia Do Treino Desportivo

206 • Metodologia do treino desportivo I !

se tornam significativas. Estamos perante um sistema aberto que se

auto-aperfeiçoa numa constante evolução.

Figura 33. As ligações temporais das fases do comportamento táctico desportivo (adaptado de Mahlo, 1966)

7.1. A percepção e análise da situação

Em competição, especialmente nos desportos em que o envolvimento é

instável, os atletas/jogadores deverão fazer constantemente uma síntese dos

elementos desse envolvimento a fim de executarem uma resposta rápida e

adequada, logo a fase de tomada de informação é de primordial importância.

O ser humano pode ser considerado como um processador de informação,

devido à sua capacidade de codificar, armazenar, recordar e transformar a

informação. Nesta perspectiva, o atleta/jogador perante o problema

consubstanciado pela situação competitiva, opera mentalmente a solução

táctica, com a ajuda de informações (antes e durante essa solução), que se

estabelecem fundamentalmente a dois níveis:

Page 239: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 207

sobre o envolvimento (mundo exterior); que se modifica a todo o

instante, através dos órgão dos sentidos (visão, audição, tacto), e,

sobre si próprio (mundo interno) que estabelece informações relativas:

à sua própria motricidade, ou seja o estado momentâneo do sistema

locomotor, através das sensações quinestésicas;

das imagens retidas na memória, resultantes das experiências

significativas anteriores; e,

das imagens planeadas antecipadamente e associadas no momento

da acção.

Estas informações são enviadas ao sistema nervoso central e aí

categorizadas e classificadas, traduzidas num código particular que

contribuirá para o desencadear, corrigir e parar a acção. Na realidade, o

atleta/jogador deve estar preparado para tratar simultaneamente e com

rapidez muitas informações pertinentes, pois, quanto mais rico for o seu

pensamento em operações mentais, maior é a probabilidade de se chegar a

soluções motoras eficazes para a resolução das situações. A tomada de

informação, é pois, um fenómeno relativamente complexo devido depender

de diferentes factores, tais como: i) a percepção do envolvimento, ii) dos

cálculos óptico-motores e, iii) dos conhecimentos específicos adquiridos pela

experiência.

7.1.1. A percepção do envolvimento

Neste contexto iremos analisar a definição de percepção, a percepção

como acção exploratória do envolvimento, a estratégia perceptiva, a

atenção selectiva e os orgãos da visão.

7.1.1.1. Definição de percepção

A percepção é encarado como "um processo activo e complexo, não

sendo um decalque da realidade, nem uma simples justaposição de

sensações elementares, mas uma integração de mensagens sensoriais

Page 240: Metodologia Do Treino Desportivo

208 • Metodologia do treino desportivo I !

e de esquemas do conhecimento". (Bard e Fleury, 1976). Com efeito,

"a percepção é mais que um agregado de sensações, ele é a unidade

das sensações com o pensamento, que analisa e sintetiza os estímulos

escolhidos e os relaciona com os conhecimentos resultantes das

experiências anteriores e, de imediato, com os resultados das acções

que desencadeiam" (Rubinstein, 1962).

A percepção da situação de competição no seu contexto particular é

sem dúvida uma etapa decisiva, no complexo processo do factor

táctico desportivo. A resposta motora, última fase do processo

observação acção, depende da qualidade das informações

recebidas, mas sobretudo da qualidade da percepção do envolvimento,

(estável ou instável) na qual se desenrola a acção. Nos desportos

colectivos as fontes críticas de informação evoluem constantemente

que resultam das movimentações dos jogadores. Os acontecimentos

são imprevisíveis no tempo e no espaço, sendo necessário estabelecer-

se constantes ajustamentos.

7.1.1.2. A percepção como investigação activa do envolvimento

A percepção é o resultado de uma análise que se desenvolve durante

um certo intervalo de tempo, e passa por um número de fases, que

correspondem a uma série de transformações das informações

(S análise R), segundo Neisser (1967), "a existência destas

fases não se podem constatar por observação directa, apenas se pode

inferir a partir dos comportamentos ou pela forma como esses

comportamentos são afectados". Neste sentido, a percepção não é a

simples recepção do estímulo é o significado que o indivíduo atribuí

ao conjunto de estímulos que ele consegue integrar numa situação. Por

Page 241: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 209

singular importância, Gibson (1969), afirma que "a percepção não é

uma recepção passiva. É uma investigação activa... percepção é uma

acção exploratória e não uma acção executiva, no sentido de

manipulação do envolvimento".

Nestas circunstâncias, Bayer (1974), refere que "o melhoramento das

capacidades perceptivas induz o jogador para uma melhor

organização e uma melhor interpretação da realidade. Ter um campo

perceptivo o mais alargado possível, a partir do qual se elaboram as

reacções comportamentais, depende essencialmente da personalidade

de cada um, estabelecendo para os diferentes elementos da situação

um significado próprio, resultado das experiências vividas

anteriormente e de apreensão da possível evolução dos

acontecimentos".

Finalizando, Bard e Fleury (1976), referem a presença de "uma

estrutura perceptiva que pode ser definida pela capacidade dos

indivíduos tirarem conclusões a partir de evidências fragmentadas.

Esta estruturação perceptiva é constituída: i) pela selecção perceptiva

(atenção), ii) pela velocidade de percepção (tempo de reacção) e, iii)

pela flexibilidade perceptiva. Esta última pode ser entendida pela

maior ou menor facilidade de um jogador passar de um dado contexto

para outro contexto, isto é, da capacidade de reconhecer um objecto

dentro de uma variabilidade de posições e de situações diferentes".

7.1.1.3. A estratégia perceptiva

Bard e Carrière (1975), afirmam que o indivíduo não capta de forma

incoerente a informação presente no envolvimento. Ao contrário,

parece existir uma distribuição económica na busca perceptiva, que

poderia-mos apelidar de uma estratégia perceptiva. Os mesmos

autores (1975), referindo-se a Vurpillot, mencionam que a

"exploração visual dum indivíduo revela as informações escolhidas e

Page 242: Metodologia Do Treino Desportivo

210 • Metodologia do treino desportivo I !

consequentemente julgadas como as mais importantes para alcançar

uma decisão. Esta selecção é ao mesmo tempo quantitativa e

qualitativa. A duração das fixações visuais, a sua localização, a sua

sequência e os campos úteis de visão constituem os parâmetros mais

pertinentes para a avaliação da informação útil pelo indivíduo".

Para Godinho (1985), o termo estratégia perceptiva "pressupõe um

plano consciente ou não por parte do indivíduo que observa. Este

privilegia os elementos do envolvimento por ele considerados como os

mais importantes. Mas esse juízo depende naturalmente das

experiências e das informações complementares recebidas". Com a

experiência ou a idade verifica-se uma transformação na estratégia

perceptiva visual que traduz, segundo o mesmo autor (1985):

numa sistematização progressiva do processo, que implica uma

adequação da estratégia exploratória às exigências da tarefa;

num aumento de selectividade, ou seja, diminuição do número

de fixações e pesquisa selectiva dos índices pertinentes;

num aumento da velocidade de exploração porque diminui a

duração média por fixação; e

num alargamento do campo visual útil, pois é possível retirar um

maior conjunto de informações por fixação reduzindo o número

destes e aumentando a distância interfixação.

Por último a estratégia perceptiva visual também varia em função das

características da tarefa, verificando-se um aumento da duração e do

número de fixações quando a dificuldade desta aumenta.

Carrière (1976), refere que "a prospecção do campo visual pode ter

uma sequência automatizada, visto que, com a experiência o jogador

desenvolve um quadro perceptual, que armazena o tipo de informação

a observar e as principais fontes de informação pertinente. Esta

sequência é controlada pela memória de longo prazo". "Esta

Page 243: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 211

prospecção é a base da análise, com o qual o atleta/jogador realiza a

detecção das diferentes condições do envolvimento filtrando as

informações" (Gagné, 1962). Os jogadores experientes adquirem

rotinas de observação que são armazenadas na memória de longo

prazo, e que facilitam a filtragem dos índices pertinentes. "Não se

trata só de ver muita coisa, tenta-se também, a partir da percepção de

tudo, separar aquilo que é essencial, de abstrair do acessório e de

fazer tudo isto no mais breve espaço de tempo possível".

"Percebemos melhor, porque sabemos o que deve ser percebido".

Gibson (1969), adianta que "o estímulo invariante, isto é, o estímulo

que mantém a sua identidade malogrado as transformações e as

mudanças causadas pelo movimento do objecto ou o deslocamento do

observador, é a base da percepção desse objecto". Portanto, a busca

pela propriedade invariante, ignorando as propriedades mutacionais e

impertinentes, poderá trazer respostas adequadas, mesmo quando

novos estímulos se verificam. Neste contexto, "ter atenção à

invariante e aprender a procurá-la é o objectivo principal para

desenvolver uma economia cognitiva" (Gibson, 1969). No entanto, a

actualização e a assimilação da invariante, obriga a uma intervenção

activa dos jogadores, aumentando a concentração susceptível de

melhorar a sua capacidade de descriminação e afinar a selecção

pertinente da informação.

7.1.1.4. A atenção selectiva

Whitting (1969), adianta que "devido à limitação dos órgãos dos

sentidos, e a quantidade de informações presentes no envolvimento, é

necessário que a atenção seja selectiva, traduzindo a obtenção de

uma quantidade óptima de informação num alto nível de velocidade e

de precisão". Para Gibson (1969) "da grande quantidade de

informação, a atenção selectiva extrai o que é saliente". Segundo o

Page 244: Metodologia Do Treino Desportivo

212 • Metodologia do treino desportivo I !

mesmo autor (1969), a atenção torna-se o aspecto selectivo da

percepção. Referindo-se aos estudos de Zinchenko, de Vurpillot e de

Dobrinine, aponta que a atenção repousa nas seguintes fases de

desenvolvimento: i) uma concentração fixa ou imposta pelo objecto,

desta passamos a uma fase de, ii) exploração que confina numa

atenção selectiva e sistemática e por último, iii) um modelo flexível de

investigação adaptado à tarefa. Assim quando um indivíduo é exposto

a um estimulo complexo e continuo, deverá ignorar a informação

indesejável. Contudo, escolher a informação pertinente pressupõe, um

conhecimento racional de tudo o que deve ser visto com o objectivo

de realizar uma tarefa precisa.

Finalizando, segundo Cei, Bergerone, e Ruggieri (1986), durante o

jogo desenvolvem-se diferentes tipos de atenção, assim é necessário

que o jogador saiba utilizar a direcção e a selectividade das próprias

operações mentais de modo flexível, esta organização favorece uma

melhor adaptação às diferentes situações de jogo. Nideffer (1976,

1979), refere que "o processo de antecipação, é favorecido por uma

atenção flexível, que se manifesta pela capacidade de passar de um

foco amplo de atenção a um restrito, externo ou interno, segundo as

exigências da situação de jogo".

7.1.1.5. Os orgãos da visão

Os olhos são os orgãos sensoriais fundamentais na percepção das

situações competitivas. A retina através dos seus receptores

transformam os "inputs" luminosos em influxos nervosos que são

encaminhados para o sistema nervoso central.

Page 245: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 213

Mahlo (1966), ao tratar da importância da amplitude da visão, no

processo perceptual, refere que esta depende de três factores

essenciais:

da excitabilidade da recepção visual: o gesto específico dos

desportistas, modifica o estado funcional do olho, levando assim a

uma maior excitabilidade dos elementos da visão. Logo esta

circunstância traduz-se num aumento do campo visual dos

jogadores, mesmo quando este se encontra em repouso. O mesmo

autor acrescenta (1966) "que existe uma relação entre a

excitabilidade do olho e as emoções dos basquetebolistas e

futebolistas. Constatou-se que a excitabilidade diminui quando se

apresenta uma situação negativa e que aumenta nos casos

contrários. A existência desta relação de alargamento do campo

visual por um lado, e por outro, o estado e as disposições emotivas

dos jogadores, demonstram a importância dos factores psíquicos

para a performance";

a excitação das zonas periféricas da retina - visão periférica:

sendo o seu papel decisivo no jogo para a percepção marginal

externa, informando o jogador sobre as modificações do meio que o

rodeia. A visão periférica é primordial, pois permite receber

informações sobre o envolvimento, ou seja, dos deslocamentos dos

companheiros e adversários, mantendo sempre a visão central sobre

a bola, na programação da resposta adequada. Gaybiel (1955), ao

analisar a importância da visão periférica e central nas diversas

actividades físicas, concluiu que a exclusão da visão central parece

ter menos efeitos negativos que a supressão da visão periférica; e,

a mobilidade dos olhos: a amplitude de visão não depende

unicamente do olho imóvel (campo visual), mas também e de

forma decisiva da sua mobilidade, que se relaciona

fundamentalmente com o aparelho muscular do olho. Bard e

Carrière (1975), referem que "os movimentos dos olhos, assim

Page 246: Metodologia Do Treino Desportivo

214 • Metodologia do treino desportivo I !

como os factores dos quais ele depende, revelam-se muito

importantes para informar que estímulos o indivíduo deve

direccionar a sua atenção e sobretudo quais os que mais o

influenciam. Estes movimentos oculares poderão ajudar a estudar

o caminho pelo qual o jogador investiga os elementos do seu

envolvimento. É também primordial, não somente aquilo que o

jogador observa mas interessa igualmente a sequência que ele

escolhe para estudar o elemento desejado. Sendo importante

descobrir se existe um esquema óptimal para perceber as situações

de forma eficaz e rápida".

7.1.2. Os cálculos óptico-motores

A possibilidade de se executar uma resposta eficaz e adequada às

situações competitivas, não passam prioritariamente pelo número de

informações a retirar do envolvimento, mas sim pela qualidade dessas

mesmas informações. A avaliação óptico-motora (formada pelo tempo de

latência) e os cálculos óptico-motores, são elementos indispensáveis à

qualidade da informação. Estes cálculos exprimem a sua importância no

plano espacial (apreciação das distâncias entre os jogadores, da bola, da

dimensão e direcção e dos desvios), no plano temporal (apreciação da

velocidade de deslocamento da bola e dos jogadores) e finalmente no

plano espaço-temporal (apreciação das trajectórias dos deslocamentos

dos jogadores e da bola).

Contudo, esta percepção está estrita e intimamente relacionada com as

sensações quinestésicas dos atletas/jogadores, isto é, "com o sentido

muscular que intervém para completar uma série de funções do

organismo, para além da manutenção do equilíbrio corporal, até à

criação das representações do tempo e do espaço" (Krestovnikov). Um

dos aspectos que diferenciam os jogadores de alto nível técnico-táctico

dos outros, é a sua capacidade de ao intervirem sobre a bola, asseguram o

Page 247: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 215

controle e a condução desta através das sensações quinestésicas,

libertando assim, as outras instâncias receptoras para a percepção e

análise da situação envolvente. Mahlo (1966), refere que "a condução

sincronizada e precisa dos cálculos óptico-motores e das sensações

quinestésicas, são a base essencial do rendimento técnico-táctico".

7.1.2.1. A antecipação

"Os processos mentais integrados na percepção que procuram a

compreensão e o significado da estruturação do meio, englobam na

sua realidade funcional, uma qualidade fundamental que favorece a

acção imediata: a antecipação ... para um atleta/jogador é essencial

concentrar-se a partir dos dados presentes para a elaboração de um

futuro possível, pois só assim a sua capacidade de intervenção se

torna eficiente" (Bayer, 1974).

A antecipação é um processo psíquico de base de qualquer actividade

humana que consubstancia, a partir da percepção, a capacidade de

prever não só o resultado, mas também o desenvolvimento dos

acontecimentos de uma dada situação. Nos jogos desportivos

colectivos, a bola, os companheiros e os adversários, deslocam-se em

direcções e velocidades variáveis, logo, para que os jogadores se

adaptem a esta variabilidade situacional, exige-se concretamente o

desenvolvimento de um pensamento táctico, que por si traduz a

antecipação continua e extremamente diversificada às situações

momentâneas de jogo. Neste sentido, podemos afirmar que a

antecipação é um dos maiores fenómenos da adaptação das condutas

motoras sendo a raiz fundamental das interacções tácticas.

Mahlo (1966), refere que "a percepção e a antecipação dos

deslocamentos da bola, dos companheiros e adversários revestem-se

de uma importância capital para a actividade do jogo. Não basta

perceber os objectos de forma instantânea. Todo o processo tem um

Page 248: Metodologia Do Treino Desportivo

216 • Metodologia do treino desportivo I !

passado, um presente e um futuro. É necessário em jogo, a partir da

percepção instantânea, ter imediatamente ideia da sequência do

processo (trajectória da bola, deslocação dos jogadores)". Este

fenómeno de antecipação "ao apoiar-se na construção mental, da

pré-percepção, da pré-decisão e da pré-acção, introduz o futuro no

presente motor" (Parlebas, 1981), sendo sem dúvida, e antes de tudo, o

aspecto chave dos desportos colectivos que são caracterizados, por

uma perpétua modificação do campo perceptual.

Meinel (1984), refere que "o decurso coordenado de cada acto motor

pressupõe a antecipação do objectivo e a antecipação de um projecto

de acção. O prognóstico do programa (programação), ocorre

baseado na experiência armazenada sobre a elaboração de cada

aferência da situação. Através disso torna-se possível também um

cálculo de previsão do decurso do movimento do aparelho (bola),

parceiros e adversários no jogo, e a correspondente adaptação do

programa motor à respectiva situação". Neste contexto, "a acção dos

jogadores em jogo está ligada intrinsecamente a uma antecipação

constante e múltipla. Baseando-se na tomada de informação e das

suas experiências tácticas armazenadas, os jogadores analisam

correctamente a situação de jogo e antecipam as possibilidades de

continuidade e desenvolvimento dessa situação... Não é simples

calcular totalmente os mais diferentes factores que o influenciam, e

combiná-los correctamente para se chegar a uma eficaz acção

motora". Das duas afirmações referidas, Meinell (1984), torna

evidente que: a acção do jogador repousa sobre uma estreita ligação de

antecipação da situação e de uma antecipação do objectivo e do

programa motor.

Portanto, o processo de antecipação não reflecte somente o facto de

prever o desenvolvimento e o resultado de uma situação de jogo, é

também e por inerência, pôr em acção os correspondentes e precisos

Page 249: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 217

processos cognitivos imediatamente ligados a esquemas de resposta

motora consoante as modificações das acções dos adversários.

Em conformidade com o referido, o processo de antecipação consiste

na: (segundo Cei, Bergerone, e Ruggieri, 1986):

1/ síntese rápida das aferências;

2/ tomada de decisão;

3/ formulação de programas e a sua continua verificação; e,

4/ o desenvolvimento do programa que o jogador efectua. Nesta

fase, o jogador realiza mais duas operações fundamentais:

a) antecipa mentalmente as possibilidades de resposta do

adversário; e,

b) vincula imediatamente cada uma destas possibilidades de

resposta com os correspondentes esquemas motores formulados

anteriormente.

Este último aspecto é de extrema importância, pois permite que o

atleta/jogador não necessita de formular, depois da resposta do

adversário, uma nova síntese aferente com a correspondente tomada

de decisão. Portanto, o atleta/jogador passará continuamente de 4a)

para 4b), sem ter que voltar aos pontos 1, 2 e 3. A vantagem do

jogador possuir esquemas cognitivos conexos com esquemas de

resposta motora, evidencia não só o desenvolvimento

(aperfeiçoamento) do pensamento táctico, mas também na redução do

tempo de resposta, consubstanciado pela redução do tempo de decisão

mental do problema da situação competitiva.

O processo descrito ocorre milhares de vezes durante a competição. O

jogador quando intervém ou não sobre a bola, estando em fase

defensiva ou ofensiva, está perante várias soluções possíveis em

função da situação de jogo, isto é, sobre circunstâncias com diversas

Page 250: Metodologia Do Treino Desportivo

218 • Metodologia do treino desportivo I !

possibilidades e objectivos. Enquanto este combina antecipadamente

as possíveis acções e reacções dos seus companheiros e adversários

em fracções de segundo, chega a uma variante que lhe parece óptima.

Todavia, há que ter presente que o processo de antecipação do

desenvolvimento de qualquer situação competitiva, não tem só

aspectos positivos, esta acarreta igualmente aspectos negativos

inerentes à incorrecta operação do fenómeno de análise que, no seu

contexto global será mais ou menos elevada consoante a conjectura da

situação em que esta se verifica. "A antecipação correcta repousa em

larga medida no pensamento táctico, na apreensão exacta da

situação, o que permite limitar o número de eventualidades" (Meinell,

1984).

Para Mahlo (1966) "o tempo necessário para a solução do problema

de jogo, está em ligação directa com a antecipação mental... Quer

esta seja a projecção para um futuro imediato (no caso da

antecipação), quer esta seja a previsão a longo prazo da evolução da

situação... Portanto, o jogador na sequência da tendência evolutiva

ultrapassará em pensamento a situação presente e ajustar-se-à à

situação vindoura... Isto significa que o tempo total para a solução,

não é só aquele que se gasta entre a aparição da constelação e a

reacção de resposta, assim, o tempo disponível depende em larga

medida da capacidade do jogador em reconhecer as tendências

evolutivas, ou seja a sua antecipação e previsão a longo prazo. O

jogador ajusta-se ao acontecimento (mesmo que haja dificuldades, ou

sendo enganado), descobrindo sempre a evolução do jogo. Isto é

devido a uma observação reflectida fundamentada nos conhecimentos

e nas experiências próprias". Antecipar como o adversário se vai

comportar tacticamente numa situação concreta, situando-se

mentalmente no seu lugar, e partilhando as suas intenções ele pode

Page 251: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 219

assim reagir com rapidez e segurança. "Desde o esboço do gesto do

adversário, isto é, sobretudo na sua antecipação morfológica nas

primeiras fases, o jogador deve descobrir as intenções do adversário,

para poder reagir rapidamente. Isto é uma condição importante, para

um bom resultado das acções quer estas sejam ofensivas ou

defensivas".

Concluindo, Whitting (1970) refere que "a antecipação implica um

prognóstico espaço-temporal, é esta interacção entre estas duas

dimensões que se vai determinar a eficiência da resposta. A

antecipação do acontecimento, quando é exacta, acelera a percepção

e a resposta, contudo se ela é falsa, provoca o retardamento

perceptual acompanhada com um tempo de reacção mais lento".

Bayer (1974) é da opinião que "os conhecimentos e as experiências

adquiridas pelo jogador no decurso do seu passado ocupa um lugar

privilegiado na actividade preditiva do desenvolvimento dos

acontecimentos". 7.1.3. As experiências e os conhecimentos tácticos

A percepção e a análise da situação de competição, primeira etapa do

comportamento táctico, não é suportado somente por uma boa

observação do essencial da situação envolvente. Depende também, e

intimamente, da quantidade e qualidade dos conhecimentos adquiridos

pela experiência do atleta/jogador. Neste sentido, as necessidades, ou

seja, o número de mecanismos perceptivos implicados na resolução

táctica de uma dada situação podem variar em função da experiência e

dos conhecimentos dos jogadores. Portanto, quanto maior for o nível de

familiarização com muitas situações diferentes, menor serão os

mecanismos necessários para fazer a análise dos índices pertinentes da

situação. As ligações associativas estímulo-resposta, são tão fixas ao

nível da memória de longo prazo que uma determinada tarefa que

Page 252: Metodologia Do Treino Desportivo

220 • Metodologia do treino desportivo I !

necessitava ao princípio de uma decisão formal mais elaborada, pode

tornar-se, devido ao treino, uma simples tarefa automática.

A qualidade do comportamento táctico aumenta simultaneamente à

progressão dos conhecimentos tácticos práticos, a partir desse momento

apercebe-se daquilo que é essencial para resolver o problema. Cada

situação competitiva comporta índices de identificação bem definidos e

hierarquizados que são testemunho do seu significado táctico e que

transportam já em si as ligações essenciais. "Um jogador com

experiência não necessita de discernir todos os aspectos da situação de

jogo para agir de forma adequada" (Mahlo, 1966). Em competição, isto

significa, que a actualização dos conhecimentos tácticos, como forma de

pensamento táctico, faz-se a partir da análise da situação e da análise dos

conhecimentos. "Produz-se um fluxo de ligações continuas entre os

problemas e as disposições individuais - conhecimentos, técnicas e

capacidades" (Mahlo, 1966). Ainda segundo este autor, "um bom

jogador deve dispôr de sólidos conhecimentos e rapidamente utilizáveis

em função da alternância continua dos problemas concretos ... Sente-se

a necessidade dum sistema lógico de conhecimentos tácticos organizados

numa relação lógica do ponto de vista prático".

Quando os atletas/jogadores são advertidos para as particularidades deste

ou daquele adversário, das combinações e esquemas tácticos, a sua

percepção e análise da situação encontra-se favoravelmente

influenciados, que facilita e acelera a resposta adequada. A experiência, e

os conhecimentos são os factores essenciais da rapidez da percepção

perante as situações adversas da competição. Neste sentido, Mahlo

(1966), refere que "tendo em conta que a percepção e a solução mental

dependem da rapidez de actualização dos conhecimentos e da forma

como é accionada a táctica em função do adversário (estratégia), a

reflexão teórica consequente dos jogadores em função da equipa

adversária, implica: i) que sejam recapitulados os conhecimentos

Page 253: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 221

indispensáveis de base da equipa e, ii) das particularidades tácticas do

adversário para que a sua atenção se possa fixar nas possíveis

variantes".

7.1.3.1. O transfer

O transfer é fonte de discussão, representando um conceito por alguns

contestado e controverso. Todavia, Bayer (1979), apresenta como

hipótese de explicação do transfert, a teoria fenómeno-estrutural,

repousando sobre a identidade das estruturas existentes entre duas

tarefas. "Identidade que é reconhecida pelos jogadores, que na sua

relação com o envolvimento, adoptam uma atitude que permite

assinalar ou não esta analogia. É em função dos significados dados

às diversas situações que os jogadores interpretam e organizam a sua

percepção, orientando igualmente a escolha dos diferentes meios de

forma mais ou menos explícita no seu contacto com o real".

Esta teoria, ainda segundo o mesmo autor (1979), "para além de

estabelecer estruturas ou princípios dinâmicos capazes de se

transformarem e de se modificarem em qualquer momento, fazem

intervir um outro elemento fundamental neste processo de transfert: a

atitude do jogador face à tarefa a realizar". Pois, só este é capaz de

dar sentido à estrutura e de a modificar. Como toda a atitude, esta

revela-se efectivo-estruturante, isto é, esta constitui uma disposição do

jogador em relação com a efectividade vivida com as motivações

dinâmicas e profundas da sua personalidade, para seleccionar a

informação, direccionar a percepção e orientar a acção, em função do

significado que cada um reflecte da realidade das situações de jogo em

que se encontra implicado. Neste sentido, "a base explicativa do

transfert é representado pela capacidade descriminativa, ou seja, a

Page 254: Metodologia Do Treino Desportivo

222 • Metodologia do treino desportivo I !

identificação do código genérico dos diversos conjuntos significativos

do envolvimento, observados sobre a perspectiva do jogador activo".

Bayer (1979), citando Mucchielli refere que, "aprender é construir, é

estabilizar uma forma geral. Esta construção torna-se operatória e

faz parte de um novo sistema de análise de informação. Uma mesma

forma impõe-se a conteúdos variados que representam para o

indivíduo uma analogia de estruturas susceptíveis de serem

reconhecidas". "Ter experiência de uma estrutura não é recebê-la

passivamente, é vivê-la, é revê-la, é assumi-la, é encontrar o seu

sentido perdurável" (Merleau-Ponty, 1945). "Para responder às

condições de prática é necessário fazer com que a solução mental

leve cada vez menos tempo. É preciso aumentar a amplitude e a

rapidez do efeito de transfert, melhorando sem cessar a capacidade

de percepção analítica da constelação tacticamente essencial. Agir

deste modo é garantir que novos problemas possam ser resolvidos de

uma melhor forma do que o são graças às associações já existentes"

(Mahlo, 1966). A este propósito Rubinstein (1972), refere que "o

problema do transfert surge em definitivo sob o ângulo do

pensamento, quando da aplicação a problemas novos de situações

anteriormente descobertas (conhecimentos)".

7.2. A solução mental do problema

Representa o processo intelectual de tomada de decisão face aos dados

concretos da fase de percepção e análise relacionando-os com os

conhecimentos anteriormente adquiridos pela experiência do atleta/jogador.

Cada atleta/jogador consoante as suas particularidades percepciona, analisa

e resolve mentalmente as situações competitivas de forma diferente.

Portanto, os processos mentais de base à resolução eficaz duma mesma

situação irá concretamente determinar diferentes níveis de elaboração.

Page 255: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 223

Assim, a solução mental de uma mesma situação competitiva, poderá para

uns, envolver um pensamento que resulta de uma actividade mental

criadora, enquanto para outros, envolve um processo mental menos

elaborado, resolvendo a situação mais "economicamente". Este facto

determina, que os atletas/jogadores poderão preservar a atenção para o

tratamento de outros aspectos, tal como a previsão do desenvolvimento da

direcção da competição.

Contudo, a resolução mental de um elevado número de situações idênticas

de competição, determina um auto-aperfeiçoamento, que consubstancia por

seu lado uma diminuição da elaboração mental e da vigilância da situação.

Logo, à medida que o atleta/jogador eleva a sua capacidade de solução

mental do problema de jogo, necessita cada vez menos, que o processo

mental adjacente a esta solução seja menos elaborado. Isto significa que a

resposta à situação competitiva, é realizada mais rapidamente, mas

mantendo o mesmo nível de eficiência, não consagrando toda a atenção a

essa situação particular da competição.

Rubistein (1962), distingue por seu lado, na solução mental os seguintes três

níveis de pensamento táctico:

a reflexão sobre os dados concretos da situação, em ligação estreita

com a percepção e o acto; permite a partir das técnicas e da experiência

de cada um adaptar e utilizar judiciosamente a situação em função do

problema a resolver;

o pensamento táctico, ligado ao acto mas ultrapassando a situação

concreta; opera uma aproximação entre essa situação tal como foi

reconhecida, e generalizações, regras, princípios e soluções; pode levar a

conhecimentos tácticos e colectivos novos; e,

o pensamento táctico abstracto que não está directamente ligado ao

acto mas que age com a ajuda de representações figuradas ou de meios

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224 • Metodologia do treino desportivo I !

de concretização mais ou menos abstractos, ou com a ajuda de

generalizações abstractas.

Resumidamente, podemos caracterizar os três graus de complexidade das

acções, da seguinte forma (Mahlo, 1966): i) os automatismos, ii) as acções

sensório-motoras e, iii) a forma superior do acto táctico. Todavia o mesmo

autor refere que "não se deve ver nestes níveis do pensamento táctico várias

espécies de pensamento diferentes. Não diferem pela natureza, mas pelo

carácter da sua ligação com a prática e pelo seu grau de generalização do

conteúdo do seu pensamento. Os dois primeiros níveis do pensamento

prático correspondem a formas de acção que repousam sobre técnicas

sensório-motoras e sobre aquelas que são fruto dum pensamento criador.

Os resultados do pensamento táctico abstracto, isto é, os conhecimentos, os

princípios, as regras são utilizadas no jogo pelo pensamento produtor e

reprodutor do mesmo modo que as experiências práticas concretas são o

objecto do pensamento teórico e conduzem a outras generalizações".

7.2.1. Os automatismos

Os automatismos são acções elementares que não exigem mais que uma

pequena concentração do atleta/jogador para a sua realização.

Pressupõem a mobilização mínima da atenção, deixando assim, a

consciência disponível para a percepção e análise do contexto global da

competição, o que implica necessariamente, uma maior elaboração dos

processos mentais de base estando sempre apta a reagir a um problema-

situação mais exigente.

Tal como Rubinstein (1962), refere "a actividade consciente do homem,

só poderá consagrar à solução de problemas duma certa complexidade

porque certas acções se reforçam tornando-se actos automatizados,

aliando assim a consciência da regulação destes actos relativamente

elementares". Estas acções suprimem igualmente a necessidade de uma

Page 257: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 225

percepção analítica e sintética da situação competitiva, isto significa, a

disponibilidade de uma observação precisa da situação, base fundamental

dum comportamento inteligente, permitindo consequentemente, a tomada

de consciência dos novos aspectos que a variabilidade das situações em

si encerram.

Todavia, isto não significa que a execução destas acções escapam à

consciência, pois logo após a sua realização, e a todo o momento o

atleta/jogador poderá tomar consciência das acções executadas e

relembrar todas as fases pelo qual este processo passou, fundamentando-

se essencialmente na estreita coordenação da componente quinestésica.

Neste contexto, as acções automáticas apresentam um encadeamento e

uma estrutura imutável, sendo caracterizadas pela segurança, precisão e

rapidez de execução. Estas acções são meios fundamentais para a

resolução das situações competitivas que se reproduzem frequentemente.

Contudo, estas acções são também meios para a resolução de situações

mais complexas, sendo parte importante das acções sensório-motoras e

das acções resultantes da acção mental criadora.

É evidente que as combinações tácticas colectivas (observadas

especialmente nos jogos desportivos colectivos) mais complexas têm

igualmente um carácter automático. No entanto, estes devem ser

utilizados, não de uma forma esquemática e imutável, mas sim

adaptadamente em função da variabilidade das situações de jogo. Estas

combinações serão condenadas ao fracasso se forem realizadas sob um

fundo totalmente automático (em termos individuais ou colectivos), se

não tiverem em conta as diferentes condicionantes da situação de jogo,

que por si exigirá outro tipo de resposta. Para isso, necessitará, fruto da

reflexão de uma maior elaboração dos processos mentais subjacentes à

eficácia da resposta. De igual modo, as combinações e as movimentações

estereotipadas da equipa, não são utilizadas preponderantemente para a

criação de desequilíbrios organizativos da equipa adversária, mas sim

Page 258: Metodologia Do Treino Desportivo

226 • Metodologia do treino desportivo I !

para preparar a realização de acções colectivas cuja sua previsão

(situação favorável) e a sua exploração permanece ligada ao pensamento

táctico criador dos jogadores e à sua iniciativa, mesmo quando se fazem

a partir de situações fixas.

7.2.2. As acções sensório-motoras

As acções sensório-motoras representam simples soluções válidas para

numerosas situações fazendo apelo a técnicas complexas caracterizadas

pela sua estreita ligação à componente quinestésica. Estas acções são

igualmente elementos das acções tácticas complexas, cujos seus

elementos contêm uma curta amplitude e variabilidade, a importância da

sua componente intelectual (pensamento) e motora (execução) faz delas

técnicas complexas de adaptação e de utilização em situações concretas

face ao problema. Caracterizam-se por uma "antecipação" intelectual da

acção motora, apresentando diferenças qualitativas que vai desde a

simples "antecipação" da trajectória da bola até à "antecipação" das

acções dos adversários, mas mantém-se sempre, no domínio dos dados

imediatos (curto prazo). Em termos comparativos, as acções inteiramente

automatizadas não necessitam de nenhuma "antecipação intelectual", elas

só precisam dum simples estímulo para se iniciarem, por meio de um

qualquer receptor.

Neste sentido, comportam processos mentais mais ou menos elementares,

segundo a complexidade do problema. Este pensamento concreto e

imediato é já uma forma de pensamento táctico. As técnicas complexas

resultam do aperfeiçoamento da observação (associações, actualização

do conhecimento), assim como de aptidão motora, vê-se então diminuir o

nível de consciência da acção. A importância do pensamento concreto

imediato, e a duração entre a percepção da situação e a acção motora.

Page 259: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 227

Com efeito, a maior parte das acções na competição são sensório-

motoras Rubinstein (1962), refere que "há problemas para a solução dos

quais a situação em si próprio já dá todos os dados úteis. Neste caso os

problemas mecânicos mais simples que não pedem senão um cálculo das

relações espaciais e mecânicas exteriores elementares. É então que

intervém aquilo que se convencionou chamar de inteligência sensório-

motora na inteligência agindo a partir do sensível imediato. Para

resolver estes problemas, basta, pôr de novo em relação uns com os

outros, os dados imediatos e repensar outra vez a situação".

Concluindo, o nível destas acções dependem essencialmente da

amplitude e da qualidade da percepção, da aptidão intelectual e motora

dos conhecimentos, e das qualidades das ligações às suas componentes

sensoriais e motoras. Os automatismos e as acções sensório-motoras

constituem os elementos e as ligações mais importantes das acções que

são fruto dum pensamento produtor.

7.2.3. A forma superior do acto táctico

A forma superior do acto táctico caracteriza-se pela importância da sua

componente intelectual, isto é, por um pensamento autónomo. Para

Hiebsch, o pensamento criador caracteriza-se essencialmente por uma

aproximação judiciosa: de um problema, de uma solução, e pelo

aparecimento de uma nova forma de conhecimento que ultrapasse as suas

condições subjectivas à partida. Neste sentido, as acções competitivas

são o ponto de partida e o resultado do pensamento táctico.

Com efeito, tal como refere Rubinstein (1962), "a solução das situações

implica em geral o recurso a certos princípios que se deduzem de

conhecimentos pré-existentes para resolver o problema". A utilização de

regras compreende duas operações mentais distintas:

Page 260: Metodologia Do Treino Desportivo

228 • Metodologia do treino desportivo I !

a primeira que é a mais difícil na maior parte das vezes, consiste em

determinar a que regra é necessário recorrer para resolver o problema

levantado; e,

a segunda diz respeito à aplicação de uma determinada regra, às

condições particulares do problema a resolver.

Poulain (1965), refere que "os princípios tácticos de base, são durante o

jogo as ligações comuns de todos os espíritos, estabelecendo os pontos

de referência sobre os quais a imaginação, o génio deverão apoiar-se

para elevar o nível do jogo". No mesmo sentido, Frantz (1964), salienta

"a importância de se transmitir aos jogadores as bases comuns para que

eles falem a mesma "língua" permitindo exprimirem-se num estilo

diferente". Mialaret (1979) refere que os "princípios são regras de acção

representadas pelo pensamento... e o meio de os jogadores explicarem

racionalmente os seus comportamentos". Para Grehaigne (1992) "são as

condições a respeitar e os elementos a tomar em consideração para que

o comportamento seja eficaz".

Neste contexto, pensamento táctico é também, no que respeita à acção,

um pensamento que recorre com conhecimento de causa a regras tácticas,

para as transpor para a situação concreta, adaptando-as. É um

pensamento que procura soluções concretas, subjectivamente novas. É

fonte de conhecimentos gerais novos (motor do desenvolvimento e do

pensamento criador). As acções tácticas relativamente complexas

comportam operações ou acções parciais sensório-motoras mais ou

menos automatizadas, do mesmo modo que uma componente criadora.

Logo, podemos encontrar-lhe todas as formas de acção descritas.

A escolha da resposta está dependente da interpretação que o

atleta/jogador dá aos índices e que correspondem à tomada de decisão

que dele deriva. Em competição, a escolha da resposta é determinada:

Page 261: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 229

pela disposição dos elementos no envolvimento;

pela estratégia individual dos atletas/jogadores; e,

pela sua eficácia na execução técnica.

Uma execução eficiente necessita de uma escolha e de uma organização

da resposta que deverá ser não somente adaptada às condições do

envolvimento, mas também imprevisível para os adversários, frustrando a

possibilidade destes poderem prever e antecipar os acontecimentos

subsequentes. Logo, a importância dos princípios (regras) tácticos

consubstancia-se sobre dois valores de ordem interna e externa.

7.2.3.1. Valor interno

O valor interno dos princípios (regras) tácticos radica-se em dois

aspectos fundamentais:

a possibilidade de os atletas/jogadores atingirem rapidamente a

solução táctica para o problema que a situação competitiva em si

encerra. Estes processos operatórios complexos estabelecem os

princípios organizadores das acções dos jogadores

consubstanciando-se:

• na apreciação das velocidades, das distâncias, da

profundidade;

• da estimação dos projectos dos outros (companheiros e

adversários); e

• dos antagonismos ou das convergências.

o facto de se resolver, pela acção, problemas em plena situação

competitiva, leva o jogador a obter conhecimentos subjectivamente

novos. Com efeito, as soluções encontradas fixam-se como

experiências acumuladas, que por sua vez, tornam-se fundamentais

na formulação de novas soluções tácticas, com um maior grau de

Page 262: Metodologia Do Treino Desportivo

230 • Metodologia do treino desportivo I !

eficácia, isto é, constituem-se concomitantemente como elementos

de modificação e comparação.

Uma execução eficiente necessita de uma escolha e de uma

organização da resposta que deverá ser não somente adaptada às

condições do envolvimento, mas também imprevisível para os

adversários, frustrando a possibilidade destes poderem prever e

antecipar os acontecimentos subsequentes.

7.2.3.2. O valor externo

O valor externo dos princípios (regras) tácticos é determinado pelo

estabelecimento dos aspectos relacionados com a comunicação da

equipa, isto é, de uma "linguagem comum" por forma a melhorar a sua

funcionalidade. Com efeito, ao assegurar-se constantemente uma

linguagem comum, ou seja um "código de leitura", contribui-se

claramente para de que os jogadores ao lerem e valorizarem as

situações de jogo, possam imputar-lhes um significado mais ou menos

relevante e homogéneo em função das necessidades para a sua

resolução táctica.

Com efeito, a construção de um conjunto de princípios tácticos

estabelece o quadro de referências, aceites pelo grupo quer no plano

cognitivo, quer no plano afectivo, que orientam o pensamento táctico

dos atletas/jogadores, e consequentemente o comportamento

técnico-táctico com vista à resolução eficiente das diferentes situações

que a competição em si encerra.

Neste contexto, todos os atletas/jogadores, devem consciencializar e

valorizar constantemente, a sua contribuição para o desenvolvimento

eficaz, tanto do processo ofensivo, como do processo defensivo. Isto

Page 263: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 231

significa, a necessidade de procurem uma cooperação, racionalização

e coerência dinâmica da movimentação da equipa com vista à

concretização dos objectivos definidos. Assim, no plano funcional

(valor externo), os princípios utilizados durante a competição devem

permitir a comunicação dentro do colectivo, considerando: i) a

situação competitiva (compreendê-la), e, ii) a sua evolução (prevê-la).

Concluindo, os princípios tácticos de resolução das situações

competitivas, são uma construção teórica e um instrumento operatório

que orienta um certo número de comportamentos dos

atletas/jogadores, representando assim uma fonte que permite agir

sobre a realidade competitiva. As suas principais características são:

serem conscientes;

serem simples;

possuírem um certo grau de generalização;

concorrerem na planificação, selecção e execução da acção em

relação estreita com os mecanismos motores, sem se confundir com

esta; e,

participarem na explicação da acção.

Interligação das diferentes formas de comportamento táctico

Todas estas formas do acto táctico, não se encontram isoladas umas das

outras na competição, elas constituem antes uma unidade. Diferem entre

si, pelo nível de elaboração mental, ou seja dos processos mentais, logo,

a transição entre cada uma delas faz-se fluidamente sem dificuldade ou

interrupção.

Segundo Mahlo (1966), "a eficiência da solução táctica dum problema

complexo depende da qualidade das três formas de comportamento. Se

os automatismos e as acções sensório-motoras estão pouco

desenvolvidas, não se pode esperar senão um fraco nível táctico, mesmo

Page 264: Metodologia Do Treino Desportivo

232 • Metodologia do treino desportivo I !

que o pensamento táctico-produtor esteja bem desenvolvido. Mas se tal

tipo de pensamento não tiver atingido um desenvolvimento mínimo a

despeito de toda a eventual perfeição dos automatismos e das técnicas

sensório-motoras, não se pode atingir um nível desejável".

A ordem escolhida para representar o processo da solução (parte

automatizada, parte sensório-motora e parte produtivo-mental) não é

senão uma das ordens possíveis no desenrolar das acções complexas. A

ordem inversa também é possível e muito corrente na prática. É

sobretudo a natureza do problema que há que resolver que decide do

momento em que as técnicas intervêm na acção. A figura representada,

pretende demonstrar que a solução mental não é o único factor para uma

actividade adequada. Os automatismos e as técnicas sensório-motoras

são tão importantes para o pensamento táctico como para a acção prática.

São, do mesmo modo que ele, os componentes de uma acção prática

possível, e a mais rápida. Mas é absolutamente decisivo para levar a

efeito durante o jogo acções complicadas, encontrar mentalmente a

melhor solução e o mais rapidamente possível. O pensamento táctico não

pode ser, portanto, só um pensamento produtor, deve também comportar

técnicas mentais (associações e reproduções mentais).

Finalizando, a solução mental do problema de jogo antecipa a solução

motora, e representa, no essencial, a escolha dos processos que permitem

a resolução dos problemas propostos. Estes processos podem ser

combinações gestuais, acções individuais e colectivas, não se tornando

acções tácticas senão quando são utilizadas com um fim próprio.

Page 265: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 233

A A A

S

S

S

P

PP

A - parte automatizada da acção

S - parte sensória-motora da acção

P - parte produto-mental da acção

a b c

Nív

el t

ácti

co

tempo tempotempo

Figura 34. Os graus de complexidade das acções (Mahlo, 1966)

7.3. A solução táctica e as respostas técnicas

Representa a solução prática da situação de competição que depende

essencialmente dos mecanismos efectores suportados pelos sistemas

nervosos e musculares. "O aspecto motor da acção, é a parte visível da

actividade, é o resultado de processos psicológicos e psíquicos da

percepção e do pensamento em simultaneidade com as condições interiores

da personalidade, estabelecendo-se assim, entre o sistema motor e o

sistema sensorial (entendida do ponto de vista de uma síntese cognitiva

complexa que comporta a percepção e a solução mental), uma relação

circular, ainda que não se possa dissociar nenhuma das partes" (Mahlo,

1966).

"Na competição os diversos membros da equipa agem ao mesmo tempo mas

de modo diverso. Os factores de unificação de todas as acções particulares

que participam na acção colectiva são a igualdade de objectivo, a

similitude de análise de situação, e de pensamento táctico. De uma forma

ou de outra, o que é importante e fulcral, é que os jogadores exprimam

através das suas atitudes e comportamentos técnico-tácticos individuais e

colectivos um conjunto de ajustamentos espaço-temporáis, reflectindo uma

antecipação e uma eficaz adaptabilidade (plasticidade), a essa presente

situação, como a consonância dessa resposta com os objectivos táctico da

competição ou dos objectivos tácticos da equipa" (Mahlo, 1966).

Page 266: Metodologia Do Treino Desportivo

234 • Metodologia do treino desportivo I !

7.3.1. Um exemplo elucidativo

O futebol actual exige jogadores que tenham a capacidade de executar de

forma eficiente (solucionando os problemas evidenciados pela situação

de jogo), nas condições mais adversas, a grande velocidade desde o início

ao final da partida. Com efeito, a acção motora visível é um elemento em

constante desenvolvimento, pois, os futebolistas modernos são postos

perante um grande número de tarefas muito diversas e complexas em

relação aquelas que se exigiam à 20 anos atrás. As diferenças

consubstanciam-se:

por uma técnica dinâmica; quase todos os comportamentos técnico-

tácticos com bola são executados em movimento;

frequentes mudanças bruscas de direcção e de velocidade;

pressão exercida pelo adversário directo, e por vezes sendo

carregado por este;

aumento da velocidade de precisão e de destreza na execução e,

a acção técnica está sempre associada a uma intenção táctica.

Vejamos esta problemática de uma forma mais concreta. Dos dados da

análise do futebol moderno evidenciamos dois aspectos essenciais:

"reduzido" número de intervenções directas sobre a bola; existem

cerca de 1000 intervenções momentâneas sobre a bola,

consubstanciadas pelos jogadores das duas equipas aquando dos

respectivos processos ofensivos. Não tomando em consideração as

posições dos jogadores dentro do sistema de jogo da equipa, verifica-

se em média 45 a 50 intervenções sobre a bola, por jogo, para cada

jogador; e,

"reduzido" tempo individual de posse de bola; o tempo total de

posse de bola, durante um jogo, para cada jogador, situa-se entre os 45

e os 120 segundos, e a média do tempo de intervenção sobre a bola

não ultrapassa os 2 segundos.

Page 267: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 235

Nestas circunstâncias, o reduzido número de vezes que os jogadores

intervêm directamente sobre a bola, e o reduzido tempo que têm para

analisar, decidir e executar os seus comportamentos técnico-tácticos,

ressaltam-nos de imediato duas constatações fundamentais:

evidencia-se a necessidade impreterível de o jogador que num certo

momento da partida tem a posse da bola, consciencializar, por um

lado, de que cada intervenção se revista de uma eficiência máxima, e

por outro, a sua execução técnica é a que decide a direcção do jogo, ou

seja, a concretização ou não dos objectivos tácticos do processo

ofensivo da sua equipa. Por outras palavras, em função das

condicionantes que cada situação de jogo em si encerra, cabe ao

jogador optar pelas soluções que permitam de uma forma simultânea,

estando na posse da bola conservá-la e lograr o objectivo do jogo;

dos 90 minutos de jogo somente 55 são utilizados, daqui se infere

(uma vez que cada jogador não tem a posse da bola mais de 2 minutos

- caso extremo) que durante os restantes 58 minutos os jogadores

analisam, decidem e executam os seus comportamentos técnico-

tácticos em função do deslocamento da bola, dos companheiros e dos

adversários. Neste contexto, podemos afirmar, que a organização da

equipa deve permitir que, quando um jogador recebe a bola, deve

receber igualmente e de uma forma imediata por parte dos seus

companheiros acções de cobertura, e de apoio, para que lhe possam

dar várias opções de solução técnico-táctica, e consequentemente

tornar mais fácil a sua tarefa. Assim, o comportamento técnico-táctico

observado para a resolução táctica da situação de jogo, deverá resultar

da mútua responsabilidade do jogador de posse de bola, e dos seus

companheiros.

De uma forma ou de outra, o que é importante e fulcral, é que os

jogadores exprimam através das suas atitudes e comportamentos técnico-

tácticos individuais e colectivos um conjunto de ajustamentos espaço-

Page 268: Metodologia Do Treino Desportivo

236 • Metodologia do treino desportivo I !

temporáis, reflectindo uma antecipação e uma eficaz adaptabilidade

(plasticidade), a essa presente situação, como a consonância dessa

resposta com os objectivos do jogo ou dos objectivos tácticos da equipa.

Processos

que se

desenvolvem

- Intensão

- Antecipação

- Observação

- Recepção

da

informação

através dos

orgãos dos

sentidos

- Análise

- Elaboração

da informa-

ção

Pensamento:

a)associativo

b)reprodutivo

c)creativo

d)programação

motora

e)antecipação

ao adversár.

- Processos

psico-fisioló-

gicos

-Vias aferentes

e aferentes

- Receptoras

para receber e

retransmitir as

informações

Interpretação

da execução

comparando

com os valo-

res deve

ser/foi

Armazenamen

to na memória

do resultado

da acção ba-

seado na aná-

lise deve

ser/foi

Capacidades

que se

desenvolvem

- Capacidades

perceptivas:

a)Observação

b)Análise e

calculos mot.

c)Visão perifé-

rica

d) Identifica-

ção da situação

e)Diferencia-

ção

- Capacidades

intelectuais

- personalida-

de

- capacidade

cognitiva da

acção táctica

- capacidade

de comparação

dos vários

pensamentos

Capacidades

físicas gerais

e específicas

- resistência

- força

- velocidade

- coordenação

Capacidades

técnico-tácti-

cas- acções de

jogo

Memória de

curto prazo

Memória de

longo prazo

Fases Percepção Decisão ExecuçãoMemóriaInterpretação

Figura 35. Os processos e as capacidades intrínsecas do comportamento táctico (segundo Greco, 1989)

Concluindo, a qualidade da solução motora não depende só da percepção e

análise da situação, e do pensamento táctico, depende também, e

largamente, das possibilidades funcionais humanas do organismo, das

qualidades físicas, como a força, a velocidade, a resistência, a agilidade, e

isto porque, as qualidades físicas e as técnicas motoras constituem uma

unidade dialéctica.

8. As diferentes fases do processo de aprendizagem da táctica desportiva

O ensino da táctica desportiva implica uma metodologia adequada em que é

necessário conhecer e reconhecer nos praticantes as características dos estádios

normalmente percorridos por estes até atingirem a eficácia técnico-táctica.

Page 269: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 237

Konzag (1983), estabelece quatro fases fundamentais da aprendizagem e

aperfeiçoamento da táctica desportiva: i) aprendizagem e aperfeiçoamento das

habilidades motoras inerentes à modalidade desportiva (que engloba a

aprendizagem dos elementos técnicos e a sua consolidação), ii) aprendizagem,

estabilização e aperfeiçoamento das acções técnico-tácticas determinadas pelas

situações competitivas, iii) desenvolvimento, estabilização e aperfeiçoamento

da capacidade competitiva global (que engloba situações competitivas em

condições facilitadas, em condições próximas da competição e em condições

mais difíceis do que as colocadas pela realidade competitiva) e, iv) utilização e

aperfeiçoamento da capacidade competitiva global em competições oficiais. O

mesmo autor (1983) salienta que a formação táctica desportiva dos praticantes

todas estas fases são aplicadas no tempo, tanto de um modo sequencial como

em simultâneo, através de uma escolha adequada dos exercícios e dos métodos

de treino a utilizar, bem como da sua aplicação prática.

8.1. 1ª. Fase: aprendizagem e aperfeiçoamento das habilidades motoras inerentes à

modalidade desportiva

Esta fase exige a aprendizagem motora na sequência dos movimentos

individuais e colectivos tanto na sua forma global como nas suas

componentes mais pormenorizadas e ainda a estabilização da coordenação

fina e a sua adaptação às condições que se alteram face às seguintes

modificações:

variação do "tempo", dos movimentos, das distâncias, lateralidade,

etc.;

diferentes combinações entre os vários elementos técnicos e as suas

variantes de execução;

Page 270: Metodologia Do Treino Desportivo

238 • Metodologia do treino desportivo I !

coordenação e sincronização no espaço e no tempo, em função dos

movimentos próprios e dos companheiros da equipa; e,

aumento do nível de solicitação colocada aos atletas/jogadores do

ponto de vista coordenativo, condicional e psicológico.

8.1.1. Aprendizagem dos elementos técnicos desportivos

A aprendizagem de um novo elemento técnico desportivo, o treinador

deve atender, entre outros, aos seguintes aspectos metodológicos:

deve começar por dar ao atleta/jogador uma representação do gesto

técnico desportivo o mais exacto possível, recorrendo-se tanto à

exemplificação como da explicação verbal;

verificar e utilizar exercícios preparatórios (propedêuticos) de modo

a facilitar o processo de aprendizagem, isto é, por uma execução

global ou decomposto em função dos pontos-chave do exercício;

o exercício técnico deve decorrer de forma que os atletas/jogadores

se concentrem inicialmente na execução motora do elemento técnico

considerado, sem a necessidade de se fazer opções restritas do ponto

de vista táctico;

os atletas/jogadores deverão exercitar os elementos técnicos através

de exercícios relativamente estáveis, isto é, em condições quase

sempre constantes (fixas);

recorrer a frequentes e sistemáticas repetições quer nos exercícios

em condições pré-determinadas quer em condições de permanente

alteração.

Page 271: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 239

Elaboração dos

elementos técnicos

Criação de uma representação

do movimento

Exercícios

preliminares

Condições

facilitadas

Forma básica

Da posição

de parado

Em movimento

correr/saltar

Consolidação dos elementos técnicos

sem a oposição do adversário

Variações da forma básica

- "tempo" do movimento

- distância

- direcção do movimento

- lateralidade

Ligação da forma básica

com outros elementos:

- elementos de ligação

antes da forma de base

- elementos de ligação

depois da forma de base

Consolidação da forma de

base em condições:

- após ou em simultâneo

com umaelevada carga física

- com elevadas solicitações

coordenativas

- com carga psíquica

- solicitações para além das

exigidas pela competição Figura 36. Sucessão metodológica para o desenvolvimento das habilidades motoras de uma dada modalidade desportiva (Konzag, 1983)

8.1.2. Consolidação dos elementos técnicos desportivos

Depois de ter sido aprendido a forma global dos elementos técnicos da

modalidade desportiva, estes deverão ser exercitados tomando em

consideração os seguintes aspectos metodológicos:

os vários elementos técnicos deverão ser executados de modo

diferenciado começando por fazê-lo sem oposição do adversário e

depois em combinação com outros elementos técnicos;

aumentar a velocidade, variar distâncias, direcções e diferenciando

a utilização de qualquer dos membros inferior ou superior (direito ou

esquerdo);

Page 272: Metodologia Do Treino Desportivo

240 • Metodologia do treino desportivo I !

combinar de forma padronizada do movimento com outros gestos

técnicos que podem ser incluídos no início ou no final da respectiva

execução; e,

criar condições de maior complexidade colocando maiores

exigências ao nível da componente condicional, coordenativa e

psicológica.

8.2. 2ª. Fase: aprendizagem, estabilização e aperfeiçoamento das acções

técnico-tácticas determinadas pelas situações competitivas

O objectivo principal desta segunda fase de aprendizagem, estabilização e

aperfeiçoamento da formação táctica desportiva dos atletas/jogadores é o

desenvolvimento:

da capacidade de decisão táctica sob a forma de escolha de programas

de acção baseado em percepções e antecipações correctas da situação; e,

a estabilidade da execução das acções motoras adequadas à situação

em condições ainda simplificadas relativamente ao que se exige em

competição.

Neste contexto, para se atingir os objectivos anteriormente referidos há que

atender aos seguintes pressupostos metodológicos:

a presença de oposição que exige a tomada de decisões tácticas;

situações competitivas construidas com poucos (relativas) alternativas

de solução táctica;

formas muito próximas da competição, por exemplo sobre uma baliza,

sobre um dos cestos, etc., durante o qual os praticantes são colocados

perante tarefas técnico-tácticas mais diversificadas devendo estes

aprenderem a reconhecer ou a criar a possibilidade de utilizar outras

acções tácticas; e,

modificar a relação numérica podendo ser superior, igual ou inferior e

da relação do espaço de acção dos praticantes (maior ou menor). 8.3. 3ª. Fase: desenvolvimento, estabilização e aperfeiçoamento da capacidade

competitiva global

Page 273: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 241

O objectivo fundamental desta terceira fase da formação da táctica

desportiva é o desenvolvimento da capacidade competitiva global através da

própria competição aperfeiçoando comportamentos adequados.

A verdadeira capacidade competitiva é o resultado da interacção racional

entre os factores técnico, táctico, físico e psicológico e a sua utilização na

competição propriamente dita. Esta fase tem uma importância chave em

todo o processo de formação táctica dos atletas/jogadores durante o qual se

utiliza meios de treino que enquadram: i) situações competitivas em

condições facilitadas, ii) em condições próximas da competição e, iii) em

condições mais difíceis do que as colocadas pela realidade competitiva.

8.3.1. Situações competitivas em treino sob condições facilitadas

Nesta vertente da formação táctica desportiva, o treinador deverá atender

aos seguintes aspectos metodológicos:

introduzir a competição sobre duas balizas ou sobre dois cestos

recorrendo-se a pequenas competições preparatórias e formas lúdicas

competitivas;

referir apenas algumas regras principais da modalidade desportiva e

deduzir o tempo de competição;

criar algumas facilidades que correspondam à idade e à experiência

dos praticantes (por exemplo: bolas mais leves ou mais pequenas,

espaço reduzido, menor número de praticantes, rede mais baixa, cestos

mais baixos, etc;

inicialmente faz-se apelo apenas às capacidades técnicas de base;

em relação à componente táctica dominam as acções tácticas

individuais e as combinações tácticas colectivas simples.

8.3.2. Situações competitivas em treino sob condições próximas da competição

Page 274: Metodologia Do Treino Desportivo

242 • Metodologia do treino desportivo I !

Nesta vertente da formação táctica desportiva, o treinador deverá atender

aos seguintes aspectos metodológicos:

dever-se-à aumentar as exigências que se colocam aos praticantes

de competição para competição;

paralelamente à realização da aprendizagem técnico-táctica vai-se

melhorando quer o repertório técnico quer a qualidade da sua

execução motora;

é importante que os praticantes tenham as oportunidades suficientes

para poderem aplicar os elementos técnicos aprendidos;

o treinador deverá interromper a competição quando julgar

oportuno chamando à atenção e clarificando determinadas soluções no

plano táctico;

procurar ampliar os conhecimentos aplicando novos método

ofensivos e defensivos em função das concepções tácticas do treinador

e dos adversários.

Desenvolvimento das capacidades de avaliação da situação de competição,

de escolha táctica dos programas e dos objectivos de acção correspondentes

ao fim visado e as execuções motoras adequadas às situações com oposição

semi-activa e activa dos adversários em situações simplificadas

Em situações construídas

Situações de jogo prédeterminadas

escolha entre duas alternativas

Adversário semi-activo

adversário activo

Situações de jogo prédeterminadas

escolha entre três ou mais alternativas

Adversário semi-activo

adversário activo

Formas semelhantes à competição

Reconhecer e utilizar tacticamente

situações expeditas para a solução

Criação consciente de situações

expeditas para a solução

Adversário activo

Utilização da capacidade nas competições oficiais

2ª fase

3ª fase

4ª fase

Figura 37. Sucessão metodológica para o desenvolvimento de acções técnico-tácticas condicionadas por uma dada situação (Konzag, 1983) 8.3.3. Situações competitivas em treino sob condições mais difíceis do que as

colocadas pela realidade competitiva

Page 275: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 243

Nesta vertente da formação táctica desportiva dos atletas/jogadores

dever-se-à incluir competições completas ou parciais cujas condições

sejam temporariamente mais difíceis e exigentes do que aquelas que são

colocadas pela competição. Estas condições podem ser consubstanciadas

através do aumento da dificuldade quer no plano físico, técnico, táctico

ou psicológico. Todavia, o aumento da exigência apenas sobre um destes

factores os restantes são de imediato influenciados, aumentando

igualmente o nível de solicitação que se colocam aos praticantes.

8.4. 4ª. Fase: utilização e aperfeiçoamento da capacidade competitiva global em

competições oficiais

O objectivo fundamental desta quarta fase da formação da táctica desportiva

é a utilização e o aperfeiçoamento da capacidade competitiva durante a

competições oficiais. Com efeito, a competição é o objectivo final de todos

os esforços dos atletas/jogadores. Estes devem demonstrar até que ponto são

capazes em condições de competição, as suas capacidades técnicas e

tácticas apreendidas e consolidadas durante a preparação.

Nestas circunstâncias, a competição oficial põe as maiores exigências ao

nível das várias capacidades, bem como da sua integração, permitindo

realizar plenamente as potencialidades educativas e formativas inerentes às

diferentes modalidades desportivas. Por último, a competição deverá ser

avaliada para se poder retirar as consequências que vão influenciar

posteriormente o processo de treino.

9. Princípios metodológicos da formação táctica desportiva

Page 276: Metodologia Do Treino Desportivo

244 • Metodologia do treino desportivo I !

Perante o caudal de situações-problema provocado pela situação real de jogo,

os jogadores e as equipas têm como motivação principal a sua resolução, tendo

em vista a obtenção dos melhores resultados possíveis. Para que tal seja

alcançado de um modo rentável e pedagogicamente correcto, impõe-se:

uma formação elementar, através de:

o desenvolvimento das qualidades físicas.

a educação das qualidades psicocaracteriais de personalidade

(vontade, disciplina, espírito colectivo).

a formação das técnicas motoras (técnicas elementares e capacidades

técnicas).

a aprendizagem das regras de jogo.

uma formação das capacidades tácticas, através de:

a educação do poder de observação (amplitude visual, cálculos

óptico-motores, atenção);

a formação do pensamento táctico, a aquisição de conhecimentos

tácticos (regras, princípios e conceitos fundamentais, soluções

individuais e colectivas possíveis);

• o pensamento táctico criador (a aquisição activa de conhecimentos);

• o «transfert» de conhecimentos tácticos para situações análogas;

• o pensamento táctico reproduzível - a fixação dos conhecimentos

por actualização dos conhecimentos;

• as associações mentais (actualização associativa dos

conhecimentos);

o desenvolvimento das técnicas sensório-motoras (reforço das acções

úteis);

• as acções reactivas indirectas (percepção-motricidade);

• as técnicas tácticas individuais (estereótipos dinâmicos

associativos);

• as técnicas tácticas colectivas (estereótipos dinâmicos associativos);

Page 277: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 245

a aprendizagem do acto táctico criador individual, ou colectivo, a

partir de conhecimentos sólidos e de técnicas tácticas (variação criadora).

Konzag (1983) estabelece quatro princípios metodológicos fundamentais no

treino da táctica desportiva:

criar pressupostos de desenvolvimento das capacidades condicionais, das

aptidões técnico-tácticas, das qualidades psicológicas e a sua respectiva

utilização durante a competição. Este princípio deverá ser dirigido de forma

consciente, no sentido de se aumentar sistematicamente as várias exigências

da situação;

o desenvolvimento da capacidade de resolução das diferentes situações

competitivas deve surgir da prática (treino) dessas mesmas situações

concretas (especificidade) diminuindo ou aumentando (progressão

pedagógica) a complexidade destas face às condições reais da competição

(identidade);

o objectivo final da formação táctica desportiva dos atletas/jogadores é a

utilização durante a competição de todas as suas capacidades técnicas,

físicas e psicológicas que serão tanto mais eficazes quanto melhor ter sido

possível desenvolver e consolidar as várias componentes que fazem parte da

prestação em formas semelhantes à competição; e por último,

a formação técnico-táctica dos jogadores assumem na didáctica dos jogos

desportivos colectivos uma posição central, pois é a partir desta que se

treina e estimula as restantes capacidades e não ao contrário porque é

impossível.

A preparação táctica desportiva (para Mahlo, 1966) deve obedecer a um

conjunto de princípios metodológicos: i) princípio da sistematização, ii)

princípio do carácter alternativo, iii) princípio da unidade da formação táctica

elementar e da formação táctica complexa, iv) princípio da formação táctica

individual e da formação táctica colectiva, v) princípio da unidade da formação

táctica teórica e da formação táctica prática e, vi) princípio da síntese óptima

indutiva e dedutiva.

Page 278: Metodologia Do Treino Desportivo

246 • Metodologia do treino desportivo I !

9.1. Princípio da sistematização

Ressalta da análise do comportamento táctico das diferentes modalidades

desportivas na actualidade, o facto deste ser um processo com um elevado

grau de complexidade e de especificidade. Neste sentido, a preparação

táctica eficaz e integral dos praticantes (individualmente) quer das equipas

(colectivamente) passa de forma inapelável pelo estabelecimento de uma

sistematização dos meios e dos métodos indicados para a sua consecução.

Com efeito, o processo ensino/aprendizagem do factor táctico dos

praticantes durante o decorrer da efectivação dos exercícios de treino e

consequentemente da unidade de treino os quais deverão ser construidos

numa temporalidade, segundo uma ordem que corresponde à lógica da

matéria considerada, numa relação estreita com o conteúdo técnico e físico

do tema de treino que se aborda. Esta é a condição básica essencial para a

eficiência do processo de preparação táctica.

Se tomarmos em consideração especificamente os desportos colectivos em

que a organização do jogo (sistema e método) das equipas têm de passar

pela construção de exercícios de treino que estabeçam tácticas individuais e

tácticas colectivas, facilmente chegamos à conclusão de quanto é importante

à definição de objectivos coerentes com o nível de elaboração que

pretendemos atingir com a equipa.

9.2. Princípio do carácter alternativo

Page 279: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 247

A preparação táctica deve consubstanciar um carácter alternativo, através do

qual se estabelece (segundo Mahlo, 1966):

pela programação do conteúdo táctico;

pela elaboração de concepções tácticas alternativas;

pela efectivação prática dos seguintes aspectos:

fazer compreender aos praticantes a importância do carácter

alternativo da preparação táctica, através da resolução de diferentes

situações competitivas, para as quais a observação e o pensamento

táctico têm um papel preponderante;

formulando paralelamente os meios;

formulando as acções tácticas e as respectivas variantes; e,

utilização destas acções em condições semelhantes à competição;

pela efectivação teórica dos seguintes aspectos:

transmitindo princípios e conhecimentos tácticos sistematizados

que correspondam às situações competitivas (diferentes alternativas

para a sua resolução);

desenvolvendo prioritariamente o pensamento táctico criador

levando os praticantes a participar na resolução das situações postas

pelo treino e pela competição (fazê-los participar na preparação táctica

da competição e na análise critica depois da sua realização).

Neste contexto, o carácter alternativo da preparação táctica visa habilitar os

praticantes de uma bagagem múltipla de respostas perante os problemas

postos pelas situações competitivas, através de exercícios de treino que

consubstanciam situações sob a forma de problemas. A resolução destas

passa inapelável e basicamente pela eficaz observação (percepção), e

pensamento táctico criador (solução mental) como aspectos prioritários na

construção desses exercícios para o tema em causa.

Embora seja importante, elaborar e programar comportamentos (respostas)

tácticas esteriotipados, constituindo-se fundamentalmente como ponto de

Page 280: Metodologia Do Treino Desportivo

248 • Metodologia do treino desportivo I !

referência, através dos quais se desenvolve conscientemente todas as outras.

Importa no entanto evitar-se, a apropriação mecânica por parte dos

praticantes e das equipas, de acções tácticas que na maior parte das

situações se apresentam inadequadas às soluções justas devido à grande

variabilidade do contexto competitivo característico de um grande número

de modalidades desportivas. 9.3. Princípio da unidade da formação táctica elementar e da formação táctica

complexa

A formação das capacidades tácticas não pode ser somente entendida nem

limitada no seu desenvolvimento ao conjunto de capacidades relativas

apenas ao pensamento táctico e aos conhecimentos tácticos. Esta deverá

englobar igualmente todas as outras componentes representativas da

actividade, isto é, os aspectos psicomotores, sensoriais, ou psicocaracteriais.

Com efeito, um processo coerente e integral das capacidades tácticas deverá

assentar numa formação complexa que desenvolve todas as outras

componentes da actividade. A construção e programação dos exercícios de

treino para a aprendizagem táctica, num contexto técnico, e físico, deverá

corresponder sempre à concepção de praticante ou de equipa atingir no

futuro (curto, médio, e longo prazo), e ao nível de evolução momentânea

dos praticantes ou da equipa (no presente).

Estabelecendo-se exercícios mais simples, no plano informacional, e

energético, mas que não desvirtuam a natureza (essência) da modalidade

competitiva em causa, sendo assim possível, uma actividade cujas

condições de prática se assemelham, correspondendo á competição,

devendo os praticantes e as equipas adaptar-se continuamente à diversidade

e multiplicidade das situações que se traduziram num repertório de respostas

tácticas e motoras variáveis.

No entanto, isto não significa que não se encontrem outros exercícios de

treino complementares (subsidiários) que têm como objectivo essencial, por

um lado, colmatar possíveis insuficiências que um processo de treino desta

Page 281: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 249

natureza possa representar, como, por outro lado, potencializar certos

comportamentos da actividade que devido à sua especificidade deverão ser

programados e executados de forma "isolada" (por exemplo: velocidade de

reacção, cálculos óptico-motores, etc.). Todavia, é por demais importante

concorrer sistematicamente para a elaboração de exercícios cuja integridade

dos factores seja uma realidade. 9.4. Princípio da formação táctica individual e da formação táctica colectiva

A argumentação teórica de base do princípio da formação táctica individual

e da formação táctica colectiva, consubstancia-se na formação de três níveis

diferenciados de acção (comportamento) táctico, que mantém estreitas

correlações. Com efeito, os comportamentos tácticos individuais (sistemas

elementares) representam os elementos constitutivos do jogo, cuja ligação

temporária estabelece acções tácticas de grupo (sistemas parciais) que

estabelecem novas qualidades comportamentais. O comportamento táctico

de equipa (sistema integral) funciona por intermédio dos sistemas

elementares e dos parciais que agem de forma temporal, associados ou

isoladamente uns aos outros. Neste contexto, para que qualquer um dos

sistemas possa funcionar necessita da ligação (temporária) dos outros

sistemas. Todavia, é o sistema integral (equipa) que determina o conteúdo, o

funcionamento, e a efectividade destas infra-estruturas.

Importa igualmente referir, que a cada um dos níveis tácticos enunciados

corresponde dispositivos de regulação (devido aos estados eventuais de

perturbação provocados pelos adversários) que são dependentes da

qualidade das diferentes alternativas de resposta aos problemas criados

pelas situações competitivas. Isto significa, que embora os sistemas

elementares, parciais e integrais se apresentam em qualquer nível de

organização de uma equipa, por exemplo, as interrelações que estas

estabelecem evidenciam diferentes qualidades. As quais, consequentemente,

fundamentam diferentes níveis de rendimento competitivo.

Page 282: Metodologia Do Treino Desportivo

250 • Metodologia do treino desportivo I !

Partindo desta teoria de base, este princípio preconiza:

as capacidades tácticas devem ser adquiridas por etapas,

correspondendo a cada uma das qualidades tácticas individuais, das

qualidades tácticas de grupo, e das qualidades tácticas de equipa;

desenvolvimento de acções reguladoras (alternativas/adaptativas) para

cada sistema (elementares, parciais, e integrais), a coordenação destas

acções em situações em que todo o sistema é posto à prova (competição);

e,

integração sistemática e aprendizagem táctica teórica no processo de

formação alternativo das qualidades tácticas individuais, de grupo, ou da

equipa.

9.5. Princípio da unidade da formação táctica teórica e da formação táctica prática

A formação táctica teórica é entendida como os exercícios que não

mobilizam a actividade motora, mas sim a palavra ou meios de

representação abstracta. É dirigido para educar e desenvolver especialmente

o pensamento táctico e a incultar, reforçar e sistematizar os conhecimentos

tácticos.

A formação táctica prática representa o objectivo último do praticante na

sua acção prática, objectivando assim as capacidades de acção elementar e

complexa, na resolução das diferentes situações competitivas.

Entre a formação táctica teórica e a formação táctica prática deverá

estabelecer-se uma estreita interligação e unidade através da sua intrínseca

complementaridade, obrigatoriamente existente entre estes dois tipos de

formação táctica para que tenham uma certa coerência e continuidade. Neste

contexto, é necessário:

Page 283: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 251

a formação táctica teórica precede a formação táctica prática

relacionada com o mesmo aspecto táctico;

os conhecimento teóricos não devem ultrapassar em muito aquilo que

pode ser aplicado na prática (o efeito pode ser negativo);

os conhecimentos teóricos sejam reforçados (através de actualização)

e sistematizados quando a sua utilização no exercício de treino não é

possível.

9.6. Princípio da síntese óptima indutiva e da dedutiva

A formação táctica dos praticantes deve comportar um grande equilíbrio,

entre as soluções previamente preparadas no treino (da responsabilidade do

treinador - indutiva), e a capacidade dos praticantes e da equipa criarem

(dedução) conscientemente, as soluções necessárias, face às acções adversas

criadas pelos adversários.

Com efeito, a duplicidade da formação táctica dos praticantes e das equipas,

passa por um lado, pela importância e necessidade de existir um conjunto de

acções treinadas sistematicamente, por outro lado, é fundamental

desenvolver o aspecto criador intrínseco aos praticantes e às equipas, o qual

é, muitas vezes, determinante no resultado competitivo final.

Este princípio toma a sua real dimensão ao nível dos jogos desportivos

colectivos, nos quais não é possível para o treinador, elaborar, sistematizar,

programar, e treinar todas as situações de jogo, possível de ocorrer durante a

competição, devido ao carácter diferenciado e variável que os contextos da

situação poderão assumir.

Nestas circunstâncias, a formação táctica dos jogadores de uma equipa na

aprendizagem, aperfeiçoamento, ou desenvolvimento, de um tema particular

(por exemplo: contra-ataque, ataque organizado, etc., ou defesa individual,

defesa zona, etc.), deverá passar incondicionalmente pela aplicação das

Page 284: Metodologia Do Treino Desportivo

252 • Metodologia do treino desportivo I !

características que lhe são adstritas, dos princípios (linhas orientadoras do

comportamento táctico), e dos factores (meios técnicos de resolução das

situações). A partir desta base racional (linguagem comum entre os

jogadores da mesma equipa), dever-se-à dar a possibilidade e a liberdade

aos jogadores de efectuarem um conjunto de adaptações em função dos

comportamentos (perturbações) dos adversários, criando-se determinadas

alternativas (regulações) dependendo do grau de êxito que a equipa obtenha.

Podemos assim concluir que, em termos de preparação táctica "os jogadores

vêem crescer a sua capacidade de organizar racionalmente o seu jogo, à

medida que desenvolvem as suas capacidades motoras e sensório-motoras,

o seu pensamento táctico e os seus conhecimentos tácticos".

Entende-se por conhecimentos tácticos:

os conhecimentos das regras das diferentes modalidades desportivas, e

a sua utilização óptimal para a resolução dos problemas tácticos;

conhecimentos dos sistemas e métodos de jogo e das suas variantes,

bem como das medidas mais eficazes a tomar no sentido de rentabilizar

esses sistemas no confronto com os do adversário;

domínio dos conceitos técnico-tácticos fundamentais;

o conhecimento das relações recíprocas entre preparação condicional

(física), volitiva (vontade), e técnico-táctica; e,

conhecimento teórico dos processos perceptivos, de análise das

situações de jogo e das soluções mentais.

Page 285: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor táctico desportivo • 253

w

Page 286: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE IV

OS FACTORES DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 3

Estudo do factor físico desportivo

Secção A - Estudo sobre a força muscular

Resp: Pedro Mil-Homens

Page 287: Metodologia Do Treino Desportivo

252 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo da Secção A do Capítulo 3 da Parte IV

Neste Secção estudaremos o factor físico desportivo no plano da força muscular qualidade fundamental para a obtenção de um elevado resultado desportivo. Com efeito, a força representa a capacidade de vencer uma resistência dependendo essencialmente da contracção muscular. Neste contexto, incidiremos a nossa reflexão sobre os factores condicionantes da capacidade de produção da força (nervosos, musculares e biomecânicos), as componentes e formas de manifestação da força muscular (máxima, rápida e resistente) e os métodos de treino da força (máximais, submaximais, mistos, reactivos e resistentes).

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 10

Parte IV

Page 288: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 253

Os factores de treino Sumário Capítulo 3 - Estudo sobre o factor físico desportivo

Secção A - Estudo sobre a força muscular 1. Definição 2. Factores condicionantes da capacidade de produção de força

2.1. Factores nervosos 2.1.1. Factores nervosos Centrais

2.1.1.1. O recrutamento das Unidades Motoras 2.1.1.2. A frequência de activação das unidades motoras 2.1.1.3. A sincronização das unidades motoras

2.1.2. Factores Nervosos Periféricos 2.1.2.1. Fuso neuromuscular (FNM) 2.1.2.2. Orgão Tendinoso de Golgi (OTG) 2.1.2.3. Receptores articulares (RA)

2.1.3. Consequências metodológicas decorrentes dos factores nervosos 2.1.3.1. A coordenação intra e inter-muscular 2.1.3.2. A activação nervosa e as características da dinâmica da carga

2.2. Factores musculares 2.2.1. Fisiológicos e bioquímicos

2.2.1.1. Área da secção transversal do músculo 2.2.1.2. Tipos de fibras musculares 2.2.1.3. Consequências metodológicas decorrentes deste factor

2.2.2. Mecânicos (contracção muscular) 2.2.2.1. Tipos de contracção muscular 2.2.2.2. Relação força-alongamento 2.2.2.3. Relação força-velocidade

2.3.3. Factores biomecânicos 2.3.3.1. A alavanca muscular 2.3.3.2. A alavanca da resistência exterior 2.3.3.3. Tipos de resistências exteriores

3. Componentes e formas de manifestação da força muscular 3.1. Força Máxima

3.1.1. Definição 3.1.2. As componentes da força máxima 3.1.3. A força absoluta, relativa e limite 3.1.4. A relação da força máxima com as outras manifestações de força

3.2. Força Rápida 3.2.1. Definição 3.2.2. As componentes da força rápida 3.2.3. As relações entre Força Máxima e Força Rápida

3.3. Força de Resistência 4. Os Métodos de Treino

4.1. Os Métodos da Hipertrofia Muscular 4.2. Os Métodos da Taxa de Produção de Força 4.3. Os Métodos Mistos 4.4. Os Métodos Reactivos

Page 289: Metodologia Do Treino Desportivo

254 • Metodologia do treino desportivo I !

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Page 292: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 257

1. Definição

Se quisermos procurar uma forma de definir força, só recolheremos alguma

unanimidade de conceitos se a entendermos como característica mecânica do

movimento: força é toda a causa capaz de modificar o estado de repouso ou de

movimento de um corpo, traduzido por um vector. É o produto da massa pela

sua aceleração: F=mxa. Contudo, se pretendermos transferir este conceito

mecânico de força, como entidade física, para definir a força produzida por um

músculo, ele não nos serve para incluir numa mesma definição as diferentes

componentes (formas de manifestação) da força muscular. Assim, é necessário

em primeiro lugar efectuar uma análise estrutural das diferentes formas de

manifestação da força

Page 293: Metodologia Do Treino Desportivo

258 • Metodologia do treino desportivo I !

2. Factores condicionantes da capacidade de produção de força

O primeiro requisito para que o músculo produza trabalho mecânico, e portanto

vença uma qualquer resistência, é que ocorra um estímulo nervoso que

desencadeie o processo de contracção muscular. Esse estímulo, é emanado dos

centros nervosos superiores e constitui um processo voluntário, sendo o

desencadeador da acção muscular. A acção muscular vai inevitavelmente

produzir o alongamento de uns músculos e o encurtamento de outros, o que por

sua vez, irá desencadear a actividade dos receptores musculares e tendinosos,

os quais passarão a desempenhar um papel importante no controlo nervoso a

nível medular. Estamos assim em presença do primeiro grande factor

condicionador da capacidade de produção de força: O factor nervoso.

Contudo, não é indiferente que o músculo ou grupo muscular activado tenha

um maior ou menor volume muscular, constituindo o grau de hipertrofia um

dos factores condicionantes da capacidade de desenvolver força,

particularmente força máxima. Também não será indiferente a composição

muscular do músculo activado, o regime de contracção muscular promovido

(isométrico, concêntrico ou excêntrico), o grau de alongamento muscular ou a

velocidade de contracção. Estes aspectos ilustram o segundo grande factor

condicionador da capacidade de produção de força: O factor muscular. O tipo

de resistência exterior, o grau articular e a alavanca muscular, são outro grupo

de factores - factores biomecânicos - que afectam a produção de força, já que

não é indiferente, por exemplo, desenvolver força contra um peso livre ou

numa máquina de musculação de resistência variável.

Page 294: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 259

SistemaNervosoCentral

NívelMedularReceptores

Musculares

ComandoCentral

Activaçãodas UM

FactoresNervosos

FactoresMusculares

FactoresBiomecânicos

Figura 38. Representação esquemática dos factores condicionadores da produção de força

2.1. Factores nervosos

Se desligarmos os músculos das suas ligações nervosas, estes são incapazes

de se contrair voluntariamente, impossibilitando a realização de qualquer

gesto. É o sistema nervoso central que fornece o estímulo necessário para

que os músculos possam assegurar a dinâmica do aparelho locomotor do ser

humano. Neste sentido, o comando central envia um impulso nervoso a um

determinado grupo muscular (inervação motora), o músculo ao contrair-se

vai solicitar uma informação aos receptores musculares que vão ter

influência na informação de retorno alertando permanentemente o sistema

nervoso central dos estados de tensão e de relaxamento do músculo

(inervação sensitiva). Com efeito, dentro dos factores nervosos que

influenciam a capacidade do músculo produzir força, podemos distinguir

aqueles que derivam do sistema nervoso central, e do sistema nervoso

periférico.

2.1.1. Factores nervosos Centrais

A unidade funcional através da qual o sistema nervoso central (SNC)

controla a regulação dos mecanismos responsáveis pela contracção

muscular, constitui o conceito de unidade motora (UM). Uma UM

consiste, assim, no conjunto formado pelo motoneurónio e pelas fibras

musculares que este inerva. No homem, o número de UM existentes em

Page 295: Metodologia Do Treino Desportivo

260 • Metodologia do treino desportivo I !

cada músculo pode variar entre 100, para os pequenos músculos da mão,

e 1000 ou mais, para os grandes músculos dos membros inferiores. As

diferentes capacidades de produção de força de cada UM constituem uma

das características diferenciadoras dos tipos de UM. No músculo

humano, é possível dizer que a variabilidade relativamente a este

parâmetro, pode discriminar um leque de 100 ou mais tipos de UM com

diferentes capacidades de produção de força. São mais abundantes no

músculo as UM com menores dimensões (menos força) do que as de

grande calibre, sendo admitido que a sua distribuição em termos de

capacidade de produção de força é quase exponencial. O sistema nervoso

central dispõe de três mecanismos fundamentais para regular a

intensidade da contracção muscular: (1) o número de unidades motoras

recrutadas, (2) a frequência de activação das unidades motoras, e (3) a

sincronização da activação das unidades motoras.

2.1.1.1. O recrutamento das Unidades Motoras

Um dos mecanismos de regulação da força produzida pelo músculo é

o recrutamento de UM. Estas UM são recrutadas por ordem crescente

da sua capacidade de produção de força. Este padrão de recrutamento

é conhecido como o principio de Henneman (Henneman et al. 1965).

As UM de menores dimensões possuem limiares de excitabilidade

mais baixos e são recrutadas em primeiro lugar. À medida que as

necessidades de produção de força vão aumentando, as UM de

maiores dimensões vão sendo recrutadas progressivamente. Desta

forma, há uma correlação positiva entre as capacidades de produção

de força das UM e o seu limiar de recrutamento, ou seja, de

excitabilidade. Enquanto este limiar não for alcançado o grupo de

fibras musculares constituinte desta unidade motora permanece sem se

contraír. A partir do momento em que este limiar é alcançado todas as

fibras constituintes se contraem, é a chamada lei do "Tudo ou Nada".

Page 296: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 261

Neste contexto, quando o neurónio envia um influxo nervoso às fibras

musculares pertencentes a uma determinada unidade motora, só pode

ocorrer uma das seguintes duas respostas:

as fibras permanecem descontraidas se a intensidade do estímulo

for inferior ao seu limiar de excitabilidade;

contraem-se com toda a intensidade, se o estímulo for igual ou

superior ao seu limiar de excitabilidade.

Concluindo, perante um estímulo acima do limiar de estimulação a

contracção obtida é sempre máxima. No entanto, esta lei não se aplica

ao músculo como um todo, já que este é constituído por várias

unidades motoras, o que leva a que cada músculo possa desenvolver

forças de intensidades gradativas, podendo ir de uma contracção fraca

a uma contracção forte.

2.1.1.2. A frequência de activação das unidades motoras

A força produzida por uma contracção muscular pode ser aumentada

não só pelo maior número de UM recrutadas, mas também pela

variação da força gerada por cada UM individualmente. Este aumento

de força pode ser conseguido através de uma maior frequência de

activação de cada UM. A frequência de activação das UM está

intimamente relacionada com a velocidade de contracção, o que por si

só, é condição suficiente para que este mecanismo de regulação

nervoso adquira papel predominante no estudo dos factores neurais

que condicionam a capacidade do músculo produzir força.

A figura 39 ilustra de que forma a alteração da frequência de activação

das UM pode influenciar as características de produção de força. O

aumento da frequência de activação das UM permite incrementar a

taxa de produção de força, i.e., o declive da curva de força-tempo.

Page 297: Metodologia Do Treino Desportivo

262 • Metodologia do treino desportivo I !

F F

T T

60 Hz 120 Hz

Figura 39. Representação esquemática da influência da frequência de

activação na curva força-tempo de uma contracção voluntária máxima.

2.1.1.3. A sincronização das unidades motoras

A sincronização de UM pode ser definida como a coincidência

temporal dos impulsos de duas ou mais UM. Um aumento da força de

contracção pode ser obtido através da sincronização dos processos de

somação temporal. A frequência de activação é o processo

responsável pelo controlo da força produzida enquanto que o princípio

de recrutamento é aquele que possibilita o atingir da força máxima

através de mecanismos mais rápidos e mais potentes. Neste sentido,

quanto maior for a capacidade de recrutar simultaneamente, num dado

momento, um elevado número de unidades motoras maior será a força

produzida pelo músculo. A utilização do presente mecanismo parece

só estar ao alcance de praticantes altamente treinados ao nível do

treino da força. Os estudos clássicos de Milner-Brown et al. (1975)

mostraram que halterofilistas possuiam uma maior sincronização no

disparo das UM do que os seus sujeitos controlo. Estes autores,

observaram também, num estudo longitudinal com um reduzido

número de sujeitos (n=4) que, após seis semanas de treino isométrico

do primeiro interósseo dorsal, a um aumento de 20% da força

isométrica máxima estava associado um significativo incremento de

27% da taxa de sincronização de disparo das UM (Milner-Brown et

al., 1975) . Se uma maior sincronização de disparo das UM não

conduz a um aumento da força máxima, poder-se-á admitir que

contribua para um aumento da taxa de produção de força (Sale, 1988).

Page 298: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 263

2.1.2. Factores Nervosos Periféricos

Os factores nervosos periféricos estão associados aos processos de

inervação sensitiva do músculo. Os músculos, tendões e articulações

possuem orgãos sensoriais cuja função principal é veicular as

informações-sensitivas até ao sistema nervoso central. O fuso

neuromuscular, os orgãos tendinosos de Golgi, e os receptores

articulares, constituem os proprioceptores que mais se relacionam e

interagem nos processos de produção de força muscular. Sem a pretensão

de realizar uma revisão sobre o tema, porque não constitui o objecto

deste capítulo, mas apenas recordar os mecanismos básicos deste

processo, construímos a figura 40 e procedemos a uma breve referência

aos seus elementos constituintes fundamentais e às suas interacções, para,

posteriormente, interpretar o significado funcional do sistema do reflexo

de alongamento, no contexto do treino da força.

2.1.2.1. Fuso neuromuscular (FNM)

Qualquer alongamento muscular, ao implicar o estiramento das fibras

intra-fusais, origina uma estimulação das fibras sensitivas Ia e II,

oriundas, respectivamente, dos receptores primários e secundários do

fuso. As fibras Ia são sensíveis ao grau e à velocidade do estiramento

e o facto de realizarem no seu trajecto apenas uma sinapse, permite-

lhes uma grande velocidade de intervenção. Uma ramificação destas

fibras termina monosinapticamente no motoneurónio alfa e é

responsável pela sua excitação e, naturalmente, pela contracção

muscular, i.e., pelo reflexo de alongamento. As fibras Ia não terminam

apenas nos motoneurónios alfa, pois as suas ramificações influenciam

o interneurónio inibitório Ia, que exerce uma acção inibidora sobre o

motoneurónio alfa do músculo antagonista, fenómeno que é conhecido

por inibição recíproca. Adicionalmente a este circuito existem as

Page 299: Metodologia Do Treino Desportivo

264 • Metodologia do treino desportivo I !

células de Renshaw, as quais recebem uma influência excitatória de

ramos colaterais do motoneurónio alfa. O seu "output" termina no

motoneurónio alfa e no interneurónio inibitório Ia, sobre os quais

exerce uma acção inibidora, mecanismo conhecido por inibição

recorrente. Esta acção inibidora, particularmente sobre o interneurónio

inibitório Ia, parece poder facilitar o fenómeno da co-activação de

agonistas e antagonistas. Voltando ao Fuso Neuromuscular, para além

das fibras sensitivas Ia, também as fibras II, apesar de mais

lentamente, transportam informação sobre o alongamento total do

músculo e exercem acção excitatória sobre os moteneurónios.

Fuso Fuso

OTG OTG

Agonista Antagonista

Ia

IbIb

Ia

!

"

!

"R R

IaeII

Ia e II

Ia

Ib

Ib

Ia e II

Ia

Ib

Ib

IaeII

Figura 40. Representação esquemática dos principais circuitos medulares do sistema proprioceptivo reflexo, para um par de músculos agonista e antagonista. Fibras sensitivas primárias (Ia) e secundárias (II); fibras sensitivas (Ib) do Orgão tendinoso de Golgi (OTG); inervação alfa (!) e gama ("); interneurónios Ia e Ib; Células de Renshaw (R). O diagrama ilustra os circuitos do reflexo de alongamento, inibição recíproca e inibição recorrente. A tracejado ilustra-se a influência das estruturas supramedulares. As setas a cheio representam sinapses excitatórias enquanto que as setas a tracejado representam sinapses inibitórias.

2.1.2.2. Orgão Tendinoso de Golgi (OTG)

Page 300: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 265

O outro grande receptor muscular, o Orgão Tendinoso de Golgi, envia

continuamente informações sobre a intensidade da contracção

muscular, através das fibras sensitivas Ib. Estas fibras terminam no

interneurónio inibitório Ib que por sua vez age inibitoriamente sobre o

motoneurónio alfa, facilitando o relaxamento do músculo. A exemplo

do que referimos para as fibras aferentes do fuso, também as fibras Ib

recorrem a um processo de inibição recíproca, o que torna a sua acção

mais eficaz. Por último, refira-se o papel muito importante que é

desempenhado pelo circuito gama. Ao receber intervenção dos centros

superiores, o motoneurónio gama procede à inervação das fibras

intra-fusais do fuso neuromuscular, promovendo um constante

ajustamento relativamente ao seu estiramento. Esta acção das fibras

gama, constitui um mecanismo de servo-assistência que permite um

controlo muito perfeito das acções musculares. Naturalmente que o

sistema do reflexo de alongamento, bem como todos os outros

circuitos medulares a que nos referimos de forma breve, estão

presentes em todos os movimentos e devem ser encarados como

mecanismos não exclusivos e interdependentes, sobretudo pela larga

acção que sobre eles exercem as estruturas supra medulares apoiadas

nas influências recíprocas entre redes de interneurónios medulares.

2.1.2.3. Receptores articulares (RA)

São responsáveis pela informação relativa à posição das articulações,

velocidade e amplitude do movimento. Estes orgãos (RA) são de

extrema importância devido ao seu carácter preventivo e de protecção

no que se refere a possíveis lesões.

2.1.3. Consequências metodológicas para o treino da força, decorrentes dos factores nervosos

Page 301: Metodologia Do Treino Desportivo

266 • Metodologia do treino desportivo I !

Para aumentar a capacidade de produção de força de um músculo ou

grupo muscular, é necessário:

mobilizar (activar) todas as suas fibras, o mesmo é dizer, todas as

suas unidades motoras. Para isto é necessário a utilização de cargas

máximas de forma a mobilizar todas as unidades motoras,

especialmente, as unidades motoras rápidas que são as que produzem

mais força; e,

para cumprir com o princípio da frequência de activação, é

necessário que essas resistências sejam mobilizadas à velocidade

máxima. Todavia, devido às cargas serem muito elevadas, não é

possível movimentar essas cargas a grande velocidade, contudo, o

simples facto de se tentar deslocar a carga a grande velocidade garante

que a velocidade de contracção das fibras musculares seja a maior

possível, apesar da velocidade exteriormente observável não ser muito

grande.

Na prática do treino da força existe a convicção que se as cargas a

mobilizar não foram muito elevadas, i.e., se trabalharmos com

resistências mais baixas mas com um elevado número de repetições,

conseguimos mobilizar as fibras de contracção rápida ao fim de muitas

repetições. Contudo, é muitas vezes ignorado que as fibras rápidas são as

que se fatigam mais rapidamente e que após muito poucas repetições não

é mais possível envolvê-las no processo de contracção.

2.1.3.1. A coordenação intra e inter-muscular

No decorrer de um processo de treino da força, os primeiros ganhos

são sempre de natureza nervosa, independentemente do método de

treino utilizado. Apesar deste facto, as primeiras adaptações nervosas

não são de natureza intramuscular, mas sim de carácter intermuscular.

Ao fim das primeiras semanas de treino o SNC "aprende" a ser mais

Page 302: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 267

económico, isto é, a relação agonista/antagonista melhora

substancialmente, podendo-se adiantar que se trata de um processo de

aprendizagem técnica.

Se considerarmos, a título de exemplo, um processo de treino da força

com 4 unidades de treino por semana, pode dizer-se que o processo de

adaptações se caracteriza por:

ao fim de duas semanas os primeiros ganhos devem-se a

processos de coordenação intermuscular, isto é, uma melhoria da

execução técnica do gesto, que fica a dever-se a uma melhor

relação entre a contracção dos músculos agonistas/antagonistas, dos

sinergistas e estabilizadores do movimento;

ao fim de 6 a 8 semanas ocorrem as principais adaptações

nervosas de natureza intramuscular, isto é, um aumento do número

de UM recrutadas, e um aumento da sua frequência de activação.

2.1.3.2. A activação nervosa e as características da dinâmica da carga

Se o treino de força for realizado com o objectivo de melhorar a

activação nervosa dos músculos envolvidos, deve assumir as seguintes

características:

utilizar cargas elevadas (80 a 100% da Contracção Voluntária

Máxima);

.ritmo de execução explosivo;

poucas repetições (entre 1 a 5);

número de séries entre 3 a 5;

grandes intervalos (5 minutos); e,

o requisito mínimo para que um atleta se envolva num processo

de treino com estas características são 2 anos de sólido treino de

força.

Page 303: Metodologia Do Treino Desportivo

268 • Metodologia do treino desportivo I !

2.2. Factores musculares

Podemos dividir os factores musculares que afectam a capacidade do

músculo produzir força em: fisiológicos, bioquímicos e mecânicos.

2.2.1. Fisiológicos e bioquímicos

Dentro dos factores que poderemos classificar como de natureza

fisiológica e bioquímica centraremos a nossa análise nos seguintes

factores: a influência da área da secção transversal do músculo e a

influência da composição muscular.

2.2.1.1. Área da secção transversal do músculo

O primeiro aspecto que influencia a capacidade de produzir força é a

área da secção transversal do músculo, o que está intimamente

associado ao fenómeno de hipertrofia muscular, ou seja, ao aumento

do volume do músculo. Existe uma estreita relação entre a força e o

diâmetro fisiológico do músculo. Neste sentido, a força de um

músculo é proporcional ao seu diâmetro transversal. Aspecto

importante a reter é o facto do diâmetro fisiológico (soma dos

diâmetros de todas as fibras musculares individuais) ser diferente do

diâmetro anatómico. Com efeito, dois músculos com o mesmo

diâmetro anatómico, podem desenvolver niveis de força diferentes.

Por exemplo, os músculos com fibras não paralelas desenvolvem mais

força do que os músculos com fibras paralelas (no caso de um igual

corte anatómico).

As explicações sobre os mecanismos que fundamentam o aumento da

massa muscular têm provocado alguma polémica, especialmente a

discussão sobre a prevalência de um dos seguintes mecanismos:

a hipertrofia, como o aumento do volume das fibras musculares;

Page 304: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 269

a hiperplasia como o aumento do número de fibras musculares,

como factores responsáveis pelo aumento do volume da massa

muscular.

Alguns autores têm reportado alguma evidência da existência de

hiperplasia, contudo, os estudos realizados com culturistas

comparativamente com sujeitos que podem ser considerados "sujeitos

controlo", não mostraram diferenças significativas no número de

fibras musculares, mas sim na sua dimensão (McDougall, 1986).

Desta forma, apesar de algumas evidências científicas acerca do

fenómeno da hiperplasia, no que diz respeito ao treino da força, o

mecanismo mais importante para o aumento da massa muscular

parece ser a hipertrofia muscular.

Importa assim conhecer as características básicas dos estímulos que

conduzem ao aumento da massa muscular, ou por outras palavras,

como se pode induzir hipertrofia. A hipertrofia muscular parece

resultar de um aumento da síntese proteica. O conteúdo proteico do

músculo está num contínuo estado de fluxo. As proteínas estão

constantemente a ser sintetisadas e degradadas, mas as taxas a que

estes fenómenos ocorrem variam de acordo com o esforço solicitado

ao sujeito (figura 41). Durante o treino de força de relativa intensidade

quase toda a energia disponível é requerida para que o processo de

contracção muscular resulte em trabalho mecânico, o que ao implicar

uma redução da energia necessária para a síntese proteica, faz

aumentar a taxa de degradação das proteínas (figura 42).

Page 305: Metodologia Do Treino Desportivo

270 • Metodologia do treino desportivo I !

Repouso Treino de Força Intenso

EnergiaEnergia

Trabalho Mecânico

Trabalho Mecânico

SínteseProteica

SínteseProteica

Figura 41. Fornecimento de energia durante o repouso e durante treino de força intenso

A entrada de aminoácidos da circulação sanguínea para o músculo

diminui durante o treino de força intenso, pelo que a quantidade de

proteínas degradadas excede o número de proteínas novamente

sintetizadas. Este facto conduz a uma diminuição da quantidade de

proteínas musculares após uma sessão de treino de força e a um

aumento da sua síntese no intervalo entre as sessões de treino. A

entrada de aminoácidos para o músculo passa a ser superior ao que

ocorre normalmente em repouso. A repetição deste processo de

aumento da degradação e da síntese de proteínas musculares, parece

resultar num fenómeno de supercompensação das proteínas (figura

42), semelhante ao que ocorre com o glicogénio muscular em resposta

ao treino de resistência.

Apesar do mecanismo do estímulo para a hipertrofia muscular

permanecer não completamente esclarecido, parece poder aceitar-se

que a deplecção energética é um dos estímulos que induz ao aumento

do volume do músculo em termos crónicos. Assim, poderemos dizer

que os parâmetros vitais para conseguir induzir hipertrofia muscular

são a correcta manipulação da intensidade e do volume de treino, por

forma a conduzir a uma grande deplecção energética a nível muscular.

Desta forma o estímulo deve caracteriizar-se por ser sub-máximo (60-

80% do máximo), de longa duração (muitas séries e muitas repetições)

Page 306: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 271

e organizado de forma a induzir fadiga (reduzidos intervalos de

recuperação).

Tempo

Estímulo

Sintese Proteica

Energia disponivelpara a sintese

proteica

Figura 42. Potencial energético do músculo e taxa de anabolismo proteíco.

2.2.1.2. Tipos de fibras musculares

Para além da capacidade contráctil, as UM diferem em muitas outras

características funcionais. Ainda que a composição muscular seja um

assunto colateral a este capítulo, importa realizar uma breve

referência, dado que a uniformidade estrutural e funcional que

encontramos entre as fibras musculares que constituem uma UM,

estão adaptadas a um determinado tipo de contracção e são

determinadas pelas características e tipo de motoneurónios (MN)

respectivos, como foi verificado nos clássicos estudos de inervação

cruzada (Buller et al., 1960a; 1960b).

As UM de maior capacidade contráctil apresentam tempos de

contracção curtos e fraca resistência à fadiga. Ao invés, as UM de

menor capacidade de contracção, são mais resistentes à fadiga e o seu

tempo de contracção é bastante maior. Entre estes dois tipos extremos

de UM, existem UM com valores intermédios de (1) tamanho, (2)

tempo de contracção e (3) resistência à fadiga. Tendo como base estas

e outras características funcionais, bem como características

morfológicas e bioquímicas, as UM e as respectivas fibras musculares

têm sido classificadas em diferentes tipos.

Page 307: Metodologia Do Treino Desportivo

272 • Metodologia do treino desportivo I !

As fibras musculares das UM de menor dimensão, também

denominadas de fibras vermelhas (pelo seu maior teor em mioglobina)

estão mais adaptadas à produção de contracções lentas e de fraca

intensidade durante longos períodos de tempo, atingindo o tétano a

frequências de activação inferiores. São inervadas por motoneurónios

(MN) de menor calibre, com limiares de excitabilidade mais baixos e

mais sensíveis ao reflexo de alongamento. O seu excelente

metabolismo oxidativo permite-lhes grande resistência à fadiga. A sua capacidade em receber e utilizar O2, está relacionada com um elevado

teor em mioglobina, maior número de mitocôndrias e respectiva

actividade enzimática, e elevado número de capilares sanguíneos.

Estas fibras são denominadas de tipo I, oxidativas, ou de contracção

lenta. As fibras brancas (tipo II, glicolíticas ou de contracção rápida)

estão mais preparadas para contracções fortes e rápidas, sendo a

glicólise anaeróbia o principal processo de produção de energia a que

recorrem. As concentrações de fosfocreatina, miosina ATPase e

enzimas glicolíticas são mais elevadas neste tipo de fibras. A sua

capacidade em tetanizar é mais rápida, bem como em relaxar. Os MN

que inervam este tipo de fibras são de maiores dimensões, com axónio

mais espesso, garantindo maior velocidade de condução nervosa entre

a medula e o músculo. Apresentam cronaxia inferior, maior rapidez de

transmissão na placa motora e maior capacidade do retículo

sarcoplasmático e do sistema tubular T nos processos de libertação e

recaptação do cálcio.

As fibras do tipo II podem ser classificadas em subgrupos de acordo

com a sua actividade enzimática: tipo IIa, IIb e IIc. As fibras IIa e IIb,

apesar de serem ambas fibras de contracção rápida, podem

diferenciar-se face à capacidade oxidativa: as IIa apresentam um

potencial aeróbio mais elevado, enquanto que as fibras IIc são fibras

relativamente pouco diferenciadas com características fisiológicas e

Page 308: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 273

histoquímicas intermédias entre as IIa e IIb (Gollnick & Hodgson,

1986).

Tabela 1. Resumo dos diferentes tipos de fibras musculares

2.2.1.2.1. A modificação da percentagem relativa do tipo de fibras no músculo

Dos estudos clássicos de inervação cruzada realizados por Buller et

al. (1960a, 1960b) e após um grande número de estudos

posteriores, sabemos hoje que a composição das fibras musculares

depende da consistência e da utilização ou não utilização das

células nervosas da medula que inervam as correspondentes fibras

musculares. Com efeito, os estudos efectuados demonstram a

possibilidade de se mudar completamente a predominância e

consequentemente a composição do tipo de fibras musculares

(lentas e rápidas) alterando a frequência de activação. Não devemos

esquecer, contudo, que este tipo de estudos foram realizados no

animal, nos quais se cruzou a inervação, i. e., as fibras musculares

lentas passaram a ser inervadas por motoneurónios de elevado

calibre, enquanto que os motoneurónios mais pequenos passaram a

inervar as fibras rápidas. Ao fim de algum tempo as características

das fibras musculares alteraram-se completamente.

Em treino não se consegue reproduzir algo de semelhante. Durante

a maior parte das horas do dia os nossos músculos recebem

Características Fibras Tipo I Fibras Tipo IIa Fibras Tipo IIb

SO FOG FG % no músculo 50 34 16 Vel. de Contracção Lenta Rápida Rápida Cor (à preparação) vermelhas brancas brancas Resistência à Fadiga Grande Pequena Pequena Motoneurónios Pequenos Grandes Grandes Vel. de Estimulação Lenta Rápida Rápida Limiar- Excitabilidade Baixo Alto Alto Tensão desenvolvida Baixa Média Elevada Cap. Aeróbia Elevada Média Baixa Enzimas Oxidativas Muitas Nº Médio Poucas Cap. Anaeróbia Baixa Média Elevada Produção A. Láctico Baixa Média Elevada

Page 309: Metodologia Do Treino Desportivo

274 • Metodologia do treino desportivo I !

activações de natureza tónica. Os atletas que treinam com elevadas

intensidades fazem-no num relativo curto período de tempo,

quando comparado com as restantes horas do dia durante as quais

os músculos são activados tonicamente. Deste modo podemos

concluir que:

as fibras musculares vulgarmente designadas por lentas, não

se transformam em fibras rápidas por acção do treino;

as fibras rápidas, podem alterar-se e aproximarem-se das

características das fibras lentas por acção do treino,

particularmente através de actividades que requeiram um

constante baixo nivel de activação neural;

o treino da força pode organizar-se de forma a conduzir a

uma hipertrofia selectiva das fibras lentas ou rápidas, alterando

assim a percentagem relativa da sua área de secção transversal.

2.2.1.3. Consequências metodológicas decorrentes dos factores musculares

Relativamente às características da dinâmica da carga, o treino da

força com o objectivo de melhorar a hipertrofia muscular deve

assumir as seguintes características:

utilizar cargas submáximas (60 a 80% da contracção voluntária

máxima);

ritmo de execução moderado a lento;

número de repetições entre 8 a 20;

número de séries entre 3 a 5; e,

intervalos de 2 a 3 minutos.

Se o processo de hipertrofia muscular se pretender diferenciado, i. e.,

se o objectivo for promover uma hipertrofia muscular mais

significativa na área da secção transversal das fibras rápidas, a

intensidade não deve ser inferior a 80%.

Page 310: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 275

2.2.2. Mecânicos (contracção muscular)

Para além da magnitude do volume muscular e da percentagem relativa

dos diferentes tipos de fibras musculares, a mecânica da contracção

muscular influencia igualmente a capacidade de um músculo produzir

força.

2.2.2.1. Tipos de contracção muscular

Sempre que activados os músculos desenvolvem tensão e tendem a

encurtar-se, podendo ou não ocorrer deslocamento dos segmentos

ósseos que lhes estão associados. O tipo de resistência exterior

determinará a existência ou não de movimento. Classicamente existem

três tipos de acções musculares:

acção muscular concêntrica: quando a tensão desenvolvida pelo

músculo é superior à resistência que ele tem de vencer, ocorre um

encurtamento. Este tipo de acção ocorre na fase positiva

(concêntrica) da maioria dos exercícios de treino da força, como o

supino ou o agachamento;

acção muscular excêntrica: quando a tensão desenvolvida pelo

músculo é inferior à resistência que ele tem de vencer, apesar do

músculo tentar encurtar-se, ocorre um alongamento das fibras

musculares. Este tipo de acção ocorre na fase negativa (excêntrica)

da maioria dos exercícios de treino da força, como o supino ou o

agachamento; e a,

acção muscular isométrica: se a tensão desenvolvida pelo

músculo é igual à resistência que ele tem de vencer, o comprimento

das fibras musculares, mantém-se essencialmente inalterasdo. Este

tipo de acção muscular ocorre quando se pretende exercer força

contra uma resistência inamovível.

Page 311: Metodologia Do Treino Desportivo

276 • Metodologia do treino desportivo I !

Para além destas três formas clássicas de acções musculares, há ainda

a considerar a forma natural de funcionamento muscular. Nos

movimentos da locomoção humana, como a marcha, a corrida e o

salto, os músculos extensores dos membros inferiores estão

periodicamente sujeitos a impactos com o solo que provocam um

alongamento muscular seguido de uma fase de encurtamento. A figura

43 ilustra esta forma natural de funcionamento muscular. Na grande

maioria dos gestos desportivos, os músculos não funcionam de forma

puramente isométrica, concêntrica ou excêntrica. Funcionam num

Ciclo Muscular de Alongamento-Encurtamento (CMAE), tal como descrito

por Komi (Komi, 1984).

Esta forma de funcionamento muscular é relativamente independente

das outras formas de manifestação da força e é regulada,

essencialmente, pela qualidade do padrão de activação nervoso dos

músculos envolvidos, i.e., pelo balanço entre os factores nervosos

facilitadores e inibidores da contracção muscular. No ponto 3.2.2

deste capítulo abordaremos esta forma de manifestação da força com

maior detalhe.

Figura 43. Na locomoção humana (marcha, corrida, salto) os músculos extensores dos membros inferiores são periodicamente sujeitos a um ciclo muscular de alongamento encurtamento, que se assemelha ao rodar de um cubo.

2.2.2.2. Relação força-alongamento

Page 312: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 277

A força desenvolvida pelo músculo é maior no seu comprimento de

repouso, já que o número de pontes cruzadas entre a actina e a miosina

é maior nesta posição. À medida que o músculo se encurta ocorre uma

diminuição das ligações entre as proteínas contrácteis porque ocorre

alguma sopreposição dos filamentos, com uma diminuição da tensão

que pode ser desenvolvida. De forma semelhante, se o músculo for

alongado para além do seu comprimento de repouso, o número de

pontes cruzadas vai também diminuindo, porque a sobreposição dos

filamentos se reduz drasticamente. Contudo, quando um músculo é

alongado, ainda que passivamente, e porque o seu tecido conjuntivo

possui um determinado potencial elástico, há um acréscimo de força

devido a este contributo dos factores elásticos, que actuam em

paralelo com o material contráctil. O efeito combinado dos factores

contrácteis e elásticos está ilustrado na figura 44, que apresenta a

clássica curva da relação entre a forçe e o alongamento.

Força

Alongamento

Figura 44. Relação força-alongamento de um músculo isolado. A curva II representa o contributo do elemento contráctil e a curva I o contributo das estruturas elásticas. a curva III representa o efeito combinado do elemento contráctil e elástico

2.2.2.3. Relação força-velocidade

Se todos os outros factores se mantiverem iguais, a capacidade do

músculo produzir força é mais elevada numa situação isométrica,

Page 313: Metodologia Do Treino Desportivo

278 • Metodologia do treino desportivo I !

diminuindo esta capacidade à medida que se aumenta a velocidade de

contracção concêntrica. Este facto deve-se, por um lado, à acção

desempenhada pela viscosidade das fibras musculares que resistem ao

movimento de forma proporcional ao aumento da velocidade. Por

outro lado, a acção de ligar e desligar das pontes cruzadas para que o

deslizamento dos filamentos ocorra faz-se muito mais frequentemente

com o aumento da velocidade de contracção, o que reduz as condições

de produção de força. Contudo, quando o aumento da velocidade de

contracção se faz não em termos concêntricos, mas sim em regime

excêntrico, o músculo é capaz de desenvolver maiores tensões

musculares com o aumento da velocidade (figura 45).

Este aumento de força é aproximadamente de 1.3 vezes o valor da

força concêntrica. O facto do aumento da força em regime excêntrico

acontecer em função do aumento da velocidade de alongamento,

sugere-nos que para além do já referido contributo dos factores de

natureza elástica, o maior papel para explicar este aumento de força é

desempenhado pelo reflexo de alongamento, que, como sabemos, é

especialmente sensível à velocidade do estiramento.

Força Isométrica

Vel. Alongamento Vel. Encurtamento

Força

0

ConcêntricaExcêntrica

Figura 45. Relação força -velocidade de um músculo isolado

2.3.3. Factores biomecânicos

O fenómeno que a figura 46 ilustra é bem conhecido da prática do treino

da força. Em determinadas posições (leia-se angulações) qualquer sujeito

evidencia uma capacidade aumentada de produzir força, enquanto que

Page 314: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 279

em angulações maiores e menores relativamente a essa posição óptima,

observa-se uma menor capacidade de produzir força.

100%

70%

60%

Figura 46. Num movimento de flexão do cotovelo existe um momento óptimo para a produção de força pelo músculo bicípete braquial. Com angulações do cotovelo maiores ou menores a cerca de 90 graus verifica-se uma maior dificuldade em produzir força.

Contudo, se a resistência a movimentar não for, como despista a figura,

um peso livre mas sim a alavanca de uma máquina de musculação de

resistência progressiva, de resistência variável ou, de um equipamento

isocinético, o fenómeno ilustrado pode sofrer alterações consideráveis.

Neste sentido iremos abordar de forma breve os aspectos de natureza

biomecânica que mais afectam a capacidade do músculo produzir força, a

saber: a influência que as variações angulares exercem na alavanca

muscular (braço da força), na alavanca exterior (braço da resistência) e a

influência dos diferentes tipos de resistências (pesos livres, máquinas de

musculação, etc.).

2.3.3.1. A alavanca muscular

A figura 47 ilustra a influência que diferentes alavancas musculares,

definidas como a distância perpendicular entre o eixo de rotação da

articulação e a linha de acção do tendão, exercem na capacidade de

produção de força. Quando o braço da alavanca é maior (na figura na

posição c) a vantagem mecânica é a mais elevada. Sempre que a

Page 315: Metodologia Do Treino Desportivo

280 • Metodologia do treino desportivo I !

modificação do ângulo articular condiciona uma alteração no braço da

alavanca muscular (posições a,b e d,e) a vantagem mecânica diminui,

logo o músculo diminui a sua capacidade de produção de força.

A B

C

D

E

Figura 47. Variação do braço da alavanca (distância perpendicular entre o eixo de rotação da articulação e a linha de acção do tendão) em função da alteração do ângulo articular, num movimento de flexão da articulação do cotovelo. Quando o braço da alavanca é menor a vantagem mecânica é mais reduzida.

Uma leitura linear da figura anterior poderia levar a concluir que seria

vantajoso, em quaisquer circunstâncias, uma maior distância entre o

eixo articular e a inserção músculo-tendinosa. Observemos, contudo, a

figura 48. Nela se exemplifica o efeito que diferentes braços da

alavanca muscular podem exercer na velocidade do deslocamento

angular num movimento de flexão do cotovelo.

Na configuração B a alavanca muscular é maior o que significa uma

vantagem mecânica em termos da capacidade de produção de força

máxima. Contudo, se pensarmos no deslocamento angular para um

mesmo grau de encurtamento muscular (contracção concêntrica),

verificamos que uma maior distância entre a articulação e a inserção

do tendão condiciona um menor deslocamento angular para o mesmo

nivel de força produzido. Por outras palavras, quando a inserção

muscular está mais afastada, o músculo precisa de aumentar a

velocidade de encurtamento para obter o mesmo deslocamento

angular. Face à relação inversa entre a força e a velocidade, este facto

significa que os músculos que estão inseridos mais longe do eixo

Page 316: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 281

articular estão especialmente vocacionados para esforços de força

máxima (p.e., halterofilia) e não para se contrairem a altas velocidades

(p.e., remate de voleibol).

37

16

16

22

16

34

15

11

17.5

11

AA

A B

Figura 48. Influência da maior ou menor proximidade da inserção muscular relativamente ao centro articular (A), no deslocamento angular para o mesmo encurtamento muscular. Em B o braço da alavanca é maior logo o momento da força é também maior para um determinado nível de força, contudo o deslocamento angular por unidade de contracção muscular é mais reduzido, o que significa uma menor velocidade do movimento.

2.3.3.2. A alavanca da resistência exterior

Para além da influência exercida pelo braço da força há igualmente

que considerar que quando modificamos o ângulo articular, alteramos

o momento (braço) da resistência, i. e., a distância entre o eixo

articular e o ponto de aplicação da resistência. Na figua 49 é possível

constatar o que acima referimos. Apesar do peso da resistência

exterior se manter constante, na posição 1 a distância entre o eixo

articular e o ponto de aplicação da resistência é maior do que na

posição 2, o que significa que o momento da força é maior (momento

= peso x distância). Nestas condições o sujeito tem de produzir mais

força na posição 1 do que na posição 2 para poder superar a mesma

resistência.

Quando o peso se encontra directamente acima ou abaixo, i.e., na

linha que contém o eixo articular não há momento da resistência

devido à acção do peso. As alterações na técnica de realização dos

Page 317: Metodologia Do Treino Desportivo

282 • Metodologia do treino desportivo I !

exercícios podem fazer variar o momento da resistência durante um

exercício. Quando na realização de um agachamento se promove uma

maior inclinação do tronco à frente, desloca-se o peso horizontalmente

para uma posição mais próxima da articulação do joelho e por sua vez

mais longe da articulação coxo-femural. Desta forma aumenta-se o

momento da resistência pa os músculos glúteos e posteriores da coxa,

reduzindo-se o mesmo momento para o quadricípete crural.

1

D

D

2D

Figura 49. Apesar do peso do objecto se manter constante, a variação da distância (D) horizontal entre o peso e o eixo articular, condiciona uma alteração do momento da resistência.

A conjugação do aspecto abordado no ponto anterior (alavanca

muscular face ao grau de alongamento do músculo) com o que

acabamos de referir (influência do braço da resistência face à variação

do ângulo articular) , conduz a que para cada movimento específico

(flexão do cotovelo, extensão do joelho, etc.) existe uma curva de

força, i.e., uma curva que descreve o comportamento das capacidades

de produção de força face à variação do ângulo articular. A figura 50

ilustra o que acabámos de expôr.

Alongamento

MuscularÂngulo articularÂngulo articular

Força Muscular Braço da Alavanca

X = Força (Momento)

Page 318: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 283

Figura 50. O momento da força de umdeterminado movimento é o produto da tensão muscular que o músculo é capaz de produzir face ao alongamento muscular pelo braço da alavanca.

Na figura 51 apresentam-se exemplos de algumas curvas de força para

a extensão e flexão do cotovelo e do joelho. De salientar que todas as

curvas têm uma fase ascendente e/ou descendente mais ou menos

pronunciada.

Figura 51. Exemplos de curvas de força, para as articulações do cotovelo e joelho.

2.3.3.3. Tipos de resistências exteriores

Da prática do treino da força sabemos que existem diferenças entre

mobilizar um peso livre (barra com pesos) ou produzir força numa

máquina de musculação. Estas diferenças devem-se a diferentes

características mecânicas, principalmente à relação entre a magnitude

do braço da força e da resistência que cada uma destas resistências

exteriores proporciona ao longo do deslocamento angular de um

determinado movimento. Se quisermos classificar os diferentes tipos

de resistências exteriores que vulgarmente encontramos nos

equipamentos de treino de força, o critério mais importante prende-se

com as características do tipo de resistência que o equipamento

proporciona.

Page 319: Metodologia Do Treino Desportivo

284 • Metodologia do treino desportivo I !

2.3.3.3.1. Resistências Constantes

O tipo de resistência exterior mais comum são os pesos livres, i.e.,

as barras de musculação com pesos, os manúbrios, as bolas

medicinais. Com este tipo de equipamentos o peso (massa x

aceleração da gravidade) é sempre constante, mas o momento de

força varia durante o deslocamento angular. Como ilustrado na

figura 52, o momento de força num movimento de flexão do

cotovelo é igual ao peso da resistência exterior vezes a distância

horizontal (D) entre o eixo de rotação e ponto de aplicação da

força.

1

D

D

2D

Figura 52. Apesar do peso do objecto se manter constante, a variação da distância (D) horizontal entre o peso e o eixo articular, condiciona uma alteração do momento da resistência.

No movimento de flexão do cotovelo a distância horizontal entre a

articulação do cotovelo e o ponto de aplicação da força (mão do

sujeito) varia durante o deslocamento angular. Esta distância é

menor no início do movimento, atinge o seu valor máximo próximo

dos 90 graus e volta a baixar nas posições de maior flexão do

cotovelo. Quando a distância D é maior o sujeito necessita de

produzir mais força muscular para resistir ao efeito do peso,

enquanto que nas posições intermédias a força muscular para

resistir ao peso é mais reduzida.

Page 320: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 285

2.3.3.3.2. Resistências Variáveis-Progressivas

Alguns equipamentos de treino de força, como por exemplo os

elásticos e alguns tipos de máquinas de musculação, funcionam de

forma a oferecer uma maior resistência na parte final do

movimento. São as chamadas resistências progressivas. Quando

estiramos um elástico a resistência que ele oferece é maior em

função do seu grau de alongamento. Algumas máquinas de

musculação fazem variar de forma crescente o braço da resistência,

oferecendo por isso uma maior resistência na parte final do

movimento.

Resistência

Resistência

Braço da Força

Braço da Força

Braço da Resistência

Braço da Resistência

Fulcro

Fulcro

Figura 53. Alteração do braço da resistência numa máquina de resistência progressiva

Na figura 53 é possível identificar que do início para o final do

movimento (exemplo de uma máquina de supino) à custa da

variação do ponto de aplicação da resistência, é possível modificar

a magnitude do braço da resistência, implicando deste modo uma

maior dificuldade em realizar o exercício no final.

Contudo e como já referimos anteriormente, este mecanismo está

em oposição com o comportamento mecânico do músculo humano,

o qual evidencia uma quebra de capacidade de produção de força

nas posições finais do deslocamento angular, normalmente por

Page 321: Metodologia Do Treino Desportivo

286 • Metodologia do treino desportivo I !

ocorrerem a graus muito elevados de encurtamento muscular e por

isso não permitirem o maior número possível de pontes cruzadas

entre as proteínas contrácteis.

2.3.3.3.3. Resistências Variáveis-Acomodativas

Para obviar ao facto anteriormente mencionado, algumas máquinas

de musculação oferecem uma variação do braço da resistência que

pretende acomodar-se à variação das capacidades de produção de

força do músculo, daí a denominação de "acomodativas"

A figura 54 ilustra o princípio de funcionamento das máquinas de

resistência variável-acomodativas. A utilização de uma "cam"

excêntrica, i.e., em que a distância do eixo de rotação ao ponto de

aplicação da força varia à medida que a "cam" roda, estes

equipamentos podem oferecer uma variação da resistência que

pretende adaptar-se às possibilidades de produção de força (curva

de força) de determinado grupo muscular. Para que o sistema

funcione nos termos dos seus pressupostos, é suposto que a

velocidade angular seja mantida o mais constante possível o que na

prática é difícil de ser realizado, particularmente quando se

pretende trabalhar com velocidades algo mais elevadas. Por outro

lado, a concepção da "cam" é realizada tendo em vista sujeitos com

determinadas características antropométricas médias, o que poderá

implicar que nem todas as máquinas estarão concebibas para se

acomodar às curvas de força de todos os sujeitos.

Page 322: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 287

M1

1

2

M2

Figura 54. Numa máquina de resistência variável-acomodativa o braço da resistência varia ao longo do deslocamento angular. Quando a "cam" é rodada da posição 2 para a posição 1 o braço da alavanca aumenta (M1>M2) aumentando assim o momento da resistência.

2.3.3.3.4. Resistências Isocinéticas

Os equipamentos isocinéticos, para além de oferecerem uma

resistência acomodativa implicam que a velocidade angular seja

constante. A resistência é controlada electronicamente e em cada

posição angular o equipamento oferece uma resistência

proporcional à força desenvolvida pelo sujeito. Se o sujeito

aumentar a velocidade angular o equipamento oferece uma maior

resistência permitindo deste modo que o sujeito não ultrapasse a

velocidade pré-seleccionada. Este tipo de equipamentos são

normalmente utilizados para a avaliação e monitorização de

processos de reabilitação onde a manipulação da intensidade da

carga a utilizar, bem como a máxima solicitação muscular em todo

o deslocamento angular do movimento em causa, são aspectos

importantes a salvaguardar. Por outro lado, os equipamentos

isocinéticos são bastante seguros já que permitem trabalhar com

cargas muito baixas e graduar o seu aumento progressivo com um

completo controlo de vários parâmetros. Este tipo de equipamentos,

bem como a quase totalidade das máquinas de musculação, são

Page 323: Metodologia Do Treino Desportivo

288 • Metodologia do treino desportivo I !

normalmente uniarticulares, o que significa que se pode isolar com

facilidade um determinado grupo muscular, mas não é tão fácil, ou

mesmo impossível, realizar um exercício em cadeia cinética

fechada.

A utilização deste tipo de equipamentos na prática do treino da

força deve ser restrita aos periodos de preparação geral, onde se

pretende um ganho de massa muscular. O facto de oferecerem uma

resistência acomodativa permite que a estimulação muscular seja

muito próxima do máximo em todos os graus articulares, pelo que

condicionam um bom estímulo para a hipertrofia muscular.

Contudo, o facto dos equipamentos isocinéticos permitirem

essencialmente movimentos em cadeia cinética aberta, não serão o

tipo de equipamento a previligiar na rotina diária do treino da força

com atletas. O treino, por exemplo, dos músculos extensores dos

membros inferiores teria de ser realizado por etapas, i. e., primeiros

os extensores do joelho, depois um outro exercício para os flexores

plantares e ainda um outro exercício para os extensores da bacia.

Nos movimentos desportivos estas três articulações funcionarem

normalmente em cadeia cinética fechada o que não é facilmente

reproduzível num equipamento isocinético. Uma outra limitação

para a sua generalização no treino de atletas prende-se com o facto

de estes equipamentos funcionarem a velocidades angulares

constantes o que na realidade raramente acontece nos movimentos

desportivos. A natação, a canoagem e o remo serão eventualmente

as modalidades onde os movimentos são quase-isocinéticos, mas

na grande maioria dos gestos desportivos as variações de

velocidade são uma constante. Acresce que as velocidades

angulares máximas a que grande parte destes equipamentos

funcionam (400-500 graus por segundo) ficam muito aquém das

velocidades angulares da maioria dos gestos competitivos. Num

Page 324: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 289

salto vertical, p.e., a velocidade angular da articulação do tornozelo

pode com relativa facilidade ser superior aos 1000 graus por

segundo.

2.3.3.3.5. A utilização dos diferentes tipos de resistências-equipamentos

Todos os tipos de equipamentos para o treino da força têm as suas

vantagens e inconvenientes, pelo que todos eles devem ser

considerados e correctamente seleccionados em função dos

objectivos em causa e das características dos atletas.

Os pesos livres (barras com pesos, manúbrios e bolas medicinais)

constituem o equipamento mais comum no treino de atletas.

Permitem a realização de exercícios em cadeia cinética fechada, os

quais mobilizam articulações contíguas e dessa forma permitem

recriar com mais facilidade os movimentos competitivos. Ao

mobilizarem articulações contíguas evitam grandes desiquilíbrios

entre os grupos musculares que cruzam essas articulações (p.e.,

gémeos, quadricípete crural e glúteos). Por outro lado, permitem

variações de velocidade durante a sua execução, o que constitui

uma das características de grande parte dos gestos desportivos. A

utilização de pesos livres pode iniciar-se com relativamemte pouco

material, já que qualquer pequena resistência (barra, manúbrios)

pode ser utilizada. À medida que a intensidade da carga tem de ser

aumentada, a utilização dos pesos livres requer um bom

conhecimento acerca da técnica de execução dos exercícios de

musculação, pelo que o seu domínio técnico se constitui como um

importante requisito.

É aqui, que muitas vezes se opta pela utilização sem critério das

máquinas de musculação por atletas. A falta de domínio técnico

dos exercícios e a necessidade de trabalhar com cargas mais

elevadas, levam muitas vezes a optar pela utilização das máquinas

Page 325: Metodologia Do Treino Desportivo

290 • Metodologia do treino desportivo I !

de musculação. Elas não requerem grandes preocupações técnicas,

o seu design ergonómico é normalmente facilitador da

auto-aprendizagem da sua utilização. Como vantagens podemos

salientar a facilidade de utilização, os reduzidos requisitos técnicos,

a facilidade de manuseamento das cargas e a segurança. As

máquinas de musculação são o equipamento ideal para utilizar com

sujeitos indiferenciados que pretendem realizar programas de

condição física. A sua utilização com atletas deve ser criteriosa,

principalmente os equipamentos que não permitem a realização de

exercícios em cadeia cinética fechada. De entre os diferentes tipos

de máquinas de musculação, a escolha de máquinas de resistência

variável-acomodativa apresenta vantagens óbvias. A possibilidade

de aproximar da estimulação máxima os grupos musculares

envolvidos no exercício, em função dos diferentes graus articulares,

constitui obviamente uma vantagem a não desperdiçar.

Em síntese, podemos recomendar a utilização de máquinas de

musculação, preferencialmente de resistência variável-

acomodativa, preferencialmente para o treino de sujeitos

indiferenciados que visam a melhoria da sua condição física geral.

Os atletas devem restringir a utilização de máquinas de musculação

aos períodos de preparação geral, particularmemnte para o treino

que vise a hipertrofia muscular, já que as máquinas de resistência

variável-acomodativa têm alguma vantagem para este objectivo

específico. Ao seleccionar as máquinas de musculação, para o

treino de atletas de elevado rendimento, deve procurar-se escolher

exercícios em cadeia cinética fechada. Os pesos livres constituem o

equipamento a previligiar para o treino da força com atletas de alto

rendimento. Permitem a realização de exercícios mais próximos

dos gestos desportivos, permitem a variação da velocidade,

Page 326: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 291

mobilizam os grupos musculares de toda a cadeia cinética, bem

como os músculos sinergistas e estabilizadores.

3. Componentes e formas de manifestação da força muscular

Quando dizemos ou ouvimos dizer que um atleta está envolvido num processo

de treino da força, apenas veiculamos que esse atleta tem a intenção de

melhorar a força muscular, sem contudo podermos dizer que tipo ou que

componente da força está ele a trabalhar. O conhecimento científico dos

últimos dez quinze anos permite realizar uma análise estrutural da força

muscular, por forma a identificar as suas componentes, as suas relações de

dependência e os principais factores que afectam e influenciam as

características de produção de força de um atleta.

3.1. Força Máxima

3.1.1. Definição

A Força Máxima (Fmax) é, talvez, de entre as diferentes formas de

manifestação da força, a expressão que com maior unanimidade entre os

diferentes autores, podemos encontrar na literatura. Por Fmax devemos

entender o valor mais elevado de força que o sistema neuromuscular é

capaz de produzir, independentemente do factor tempo, e contra uma

resistência inamovível (Schmidtbleicher, 1985a; 1985b).

3.1.2. As componentes da força máxima

Se aceitarmos esta definição de Fmax estaremos a dizer que ela se deve

avaliar em termos isométricos, ainda que se possa exprimir também em

termos concêntricos ou excêntricos. Se compararmos, num grupo de

sujeitos, os valores da sua Fmax avaliada em termos isométricos,

concêntricos e excêntricos, muito provavelmente, encontraremos

coeficientes de correlação entre estes três valores de Fmax, muito

próximos de r=0.90, o que nos levaria a dizer que a avaliação e o

Page 327: Metodologia Do Treino Desportivo

292 • Metodologia do treino desportivo I !

significado da Fmax em regime isométrico, concêntrico e excêntrico

seriam muito idênticos (Schmidtbleicher, 1985a; 1985b). Em termos

estritamente estatísticos esta conclusão afigura-se correcta, mas apenas

em termos estatísticos, o que equivale a dizer que em termos funcionais,

avaliar a Fmax em termos isométricos, concêntricos ou excêntricos,

comporta significados diferentes. Para melhor compreender este e outros

aspectos, consideremos a seguinte situação: um sujeito realiza um

movimento de extensão do cotovelo contra uma barra, na qual está

instalado um sensor de força que permite o seu registo contínuo. A

colocação de cargas em ambos os topos da barra permite graduar as

resistências a vencer pelo sujeito, através de acções musculares

concêntricas. A colocação de uma resistência inamovível, permitirá a

realização de uma acção isométrica, assim como a utilização de

resistências superiores ao máximo permitirá a realização de acções

musculares excêntricas (figura 55).

Figura 55. Representação esquemática do aparelho para avaliação da força muscular dos músculos extensores do cotovelo e curvas de força-tempo de acções isométricas e concêntricas realizadas contra diferentes resistências. A linha a tracejado representa a porção concêntrica da curva, enquanto que a linha a cheio representa a porção isométrica da curva, (adaptado de Schmidtbleicher, 1992).

Ao realizar um movimento de extensão do cotovelo contra uma

resistência muito leve (3.5 Kg) o sujeito até vencer esta carga, realizará

Page 328: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 293

uma acção isométrica (primeira seta do gráfico da figura 55) após o que,

ao equilibrar o valor da carga (3.5 Kg) esta será acelerada até ao final do

movimento de extensão. A partir de determinado momento, para

continuar o movimento de extensão do cotovelo o sujeito já não precisa

de produzir o mesmo valor de força, já que a inércia inicial foi vencida.

Se aumentarmos progressivamente o valor da resistência a vencer, p.e.,

10 e 25Kg, observar-se-á o mesmo comportamento atrás descrito. Se este

aumento progressivo da carga a vencer for feito de forma muito gradual,

atingiremos um valor de carga que o sujeito não será capaz de

movimentar, realizando apenas uma acção isométrica. A força registada

nesta última situação, representa o valor da Fmax do sujeito. Poderemos

assim dizer, que a acção isométrica não é mais do que um caso especial

da acção muscular concêntrica, em que a velocidade é zero

(Schmidtbleicher, 1992).

Se para além do registo da força produzida, avaliarmos também o tempo

do movimento, observaremos uma correlação negativa entre a Fmax e o

tempo do movimento. Esta correlação, aumentará de valores de r=-0.50

para cargas muito baixas (2-3 Kg) até r=-0.90 para cargas próximas do

máximo individual (Schmidtbleicher, 1992). Este comportamento fica a

dever-se, como já referimos anteriormente, ao facto da acção isométrica

voluntária máxima ser um caso especial das acções concêntricas e

também por outras razões que passaremos a analisar. Se a carga externa é

baixa a influência da Fmax diminui enquanto que o factor determinante é

a Taxa de Produção de Força (TPF), definida em termos quantitativos

como o declive da curva de força-tempo.

Como pode ser observado na figura 56, quando a carga a vencer é

pequena o impulso de aceleração depende essencialmente da TPF,

enquanto que com cargas de maior magnitude o impulso é determinado

mais pela Fmax que o sujeito pode produzir contra essa resistência. Se

Page 329: Metodologia Do Treino Desportivo

294 • Metodologia do treino desportivo I !

após uma acção muscular isométrica realizada contra uma resistência

inamovível, o sistema neuromuscular for sujeito a uma carga supra-

maximal que conduza a uma acção excêntrica do sistema, a curva de

força-tempo registará um incremento, que poderá ser de maior ou menor

dimensão, e estaremos, então, a avaliar a força excêntrica máxima (figura

57).

Para atingir a força isométrica máxima o sistema neuromuscular activará

o número de unidades motoras (UM) que o sistema nervoso for capaz de

mobilizar de forma voluntária, através dos mecanismos de recrutamento

e de frequência de activação de UM. A limitação fisiológica para

alcançar o valor de força mais elevado, pode ser de dupla natureza. Uma

limitação ao nível da quantidade de massa muscular ou uma incapacidade

nervosa para mobilizar toda a massa muscular disponível.

Figura 56. Curvas de Força-Tempo de acções concêntricas realizadas contra diferentes resistências. As áreas a tracejado representam o impulso de aceleração, (adaptado de Schmidtbleicher, 1992).

Se após alcançar a força isométrica máxima, i.e., o valor máximo

voluntário de força que o sistema é capaz de produzir face à massa

muscular disponível e à capacidade de activação nervosa, quando sujeito

a uma sobrecarga que condiciona uma acção muscular excêntrica à qual o

Page 330: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 295

indivíduo tem de resistir, este consegue produzir ainda mais força, o que

pode ser observado pelo incremento na curva de força-tempo, estaremos

então em presença de um importante factor de diagnóstico: o sistema não

teve capacidade de mobilizar/activar toda a massa muscular existente

através da acção isométrica voluntária máxima, mas ao ter de resistir

excentricamente, de forma não voluntária, houve capacidade para

produzir ainda mais força, o que significa que nem toda a massa

muscular terá sido anteriormente mobilizada. A avaliação da força

excêntrica máxima é assim um indicador da força absoluta, isto é, a força

produzida face à área da secção transversal do músculo (Schmidtbleicher,

1985a; 1985b).

A diferença entre a força excêntrica máxima e a força isométrica

máxima traduz assim uma indicação sobre a capacidade do sistema

neuromuscular activar toda a massa muscular de um determinado

grupo muscular, sendo assim um indicador da capacidade de activação

nervosa.

Esta diferença numérica (FExc - FIsom) traduz o Défice de Força

(DF), o qual pode variar entre 0 e 50% da força isométrica máxima

para os membros superiores e entre 0 e 25% para os membros

inferiores. Este conceito de DF constitui um importante critério para o

diagnóstico da capacidade de produção de força de um indivíduo num

determinado momento e sobretudo um indicador da natureza da

limitação, se nervosa se muscular.

Por outro lado, constitui também um importante factor para a

prescrição do treino da força, já que indicará ao técnico se a opção

deve ser feita por métodos que conduzam à hipertrofia muscular ou à

melhoria da activação nervosa (Schmidtbleicher, 1985a; 1985b; 1992).

Em síntese:

a Fmax é o valor mais elevado de força que o sistema

neuromuscular é capaz de produzir, independentemente do factor

tempo, e contra uma resistência inamovível.

Page 331: Metodologia Do Treino Desportivo

296 • Metodologia do treino desportivo I !

Apesar da Fmax se poder também expressar em termos

concêntricos, desde que se produza força o mais rapidamente possível,

só a magnitude da resistência exterior determina o valor máximo de

força que se pode atingir. Por esta razão, a Fmax deve ser avaliada em

regime isométrico.

A força excêntrica máxima constitui um indicador da força

absoluta, ou seja, da capacidade de produção de força face à área da

secção transversal do músculo.

Por esta razão, a força absoluta está directamente associada ao grau

de hipertrofia muscular, enquanto que a força isométrica máxima

reflecte a capacidade do sistema nervoso activar de forma voluntária a

massa muscular no sentido de atingir o valor mais elevado de força.

A diferença entre a força excêntrica máxima e a força isométrica

máxima, traduz o conceito de Défice de Força, o qual pode ser

definido como um indicador da capacidade momentânea do sistema

neuromuscular, em activar toda a massa muscular.

Por último, a Fmax deve ser entendida como uma forma de

manifestação da força que influencia todas as outras componentes e

por essa razão se encontra a um nível hierárquico superior.

0.500 1.000 1.500 2.000 2.500

segundos

200 Newtons

FIso Max FExc Max

F (N)

0

Page 332: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 297

Figura 57. Curva de Força-Tempo de um movimento de extensão dos membros inferiores. Até à linha vertical o sujeito realizou uma acção muscular isométrica, após o que uma carga supra-maximal foi aplicada, tendo o sujeito que resistir através de uma acção muscular excêntrica. A diferença entre o valor da força excêntrica máxima (FExcMax) e isométrica máxima (FIsoMax) traduz o conceito de Défice de Força (DF).

3.1.3. A força absoluta, relativa e limite

Os limiares de mobilização da força muscular podem ser deslocados sob

condições motivacionais e sob condições correspondentes de treino.

Deste modo, um praticante altamente treinado e altamente motivado

desenvolve níveis de força superiores em relação a um individuo forte

não treinado com niveis idênticos de massa muscular.

Poliquin e Patterson (1989) entendem por força limite o pico de força que

o sistema neuro-muscular é capaz de exercer numa única contracção

máxima. A força limite diferencia-se de todas as outras formas de

manifestação da força por ser considerada uma resposta instintiva a uma

situação de elevado risco, que envolva pouca ou nenhuma acção

voluntária. Existem ainda algumas definições de formas de manifestação

da força que estão intimamente relacionadas com o peso de um

indivíduo:

a força absoluta é o valor de força mais elevado que um atleta pode

produzir, independentemente do peso do corpo e do tempo de

desenvolvimento da força. O peso do corpo e a "performance" estão

intimamente correlacionados em atletas onde a força absoluta é uma

importante qualidade física. A força excêntrica máxima é um bom

indicador do nível de força absoluta; e,

a força relativa é o valor de força produzido por um atleta por

unidade de peso corporal. Elevados níveis de força relativa são

importantes em desportos em que os atletas têm de movimentar todo o

Page 333: Metodologia Do Treino Desportivo

298 • Metodologia do treino desportivo I !

seu peso corporal como é o caso dos saltos na Ginástica, e nos

desportos que envolvem classes de pesos tais quais o Judo e o Boxe.

3.1.4. A relação da força máxima com as outras manifestações de força

A força máxima é a componente básica da força muscular, está do ponto

de vista hierárquico num nível superior, o que significa em termos

práticos que, qualquer alteração dos níveis da força máxima

condicionam, por si só, alterações nos parâmetros da força rápida e da

força de resistência.

3.2. Força Rápida

3.2.1. Definição

Por Força Rápida devemos entender a capacidade do Sistema

Neuromuscular produzir o maior impulso (I=FxT) possível num

determinado período de tempo. Se considerearmos uma curva de força

em ordem ao tempo, o impulso traduz-se pela área delimitada pela curva

(ver figura 56).

Força Máxima

Força Rápida Força de Resistência

Figura 58. Componentes da força muscular e sua relação hierárquica

3.2.2. As componentes da força rápida

Para atingir a Fmax um atleta muito bem treinado necessitará de cerca de

500-600 ms se se tratar de um movimento de extensão dos membros

Page 334: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 299

superiores, enquanto que para uma acção de extensão dos membros

inferiores necessitará de 800-900 ms. Se pensarmos que o tempo de

contacto com o solo de um bom velocista é de cerca de 100 ms, ou que o

tempo de contacto para um saltador em comprimento ou triplo deve ser

inferior a 170 ms, ou por último que os tempos de contacto com o solo da

grande maioria dos deslocamentos realizados nos desportos colectivos se

situa entre os 250 e os 400 ms, com facilidade nos aperceberemos que em

muitos gestos desportivos o tempo para produzir força é muito limitado.

Por esta razão, na grande maioria dos gestos desportivos o parâmetro

mais importante não é o valor de força mais elevado mas sim a

velocidade com que a força muscular pode ser produzida.

Por força rápida, deve assim entender-se o melhor impulso que o sistema

neuromuscular é capaz de produzir num determinado período de tempo

(Schmidtbleicher, 1985a; 1985b; 1992). A análise da curva força-tempo é

a melhor forma de ilustrar os diferentes componentes da força rápida

(figura 59). Quando a resistência a vencer é muito pequena (inferior a

25% da Fmax) e o movimento a realizar pode considerar-se de natureza

balística, o factor predominante é a Taxa Inicial de Produção de Força

(TIPF), também denominada de Força Inicial (Schmidtbleicher, 1992).

Por Força Inicial entende-se a capacidade do sistema neuromuscular

acelerar o mais rapidamente possível desde o zero. Na curva força-tempo

representada na figura 59, a TIPF é o início do declive da curva. Esta

componente da Força Rápida é essencial em gestos desportivos nos quais

é requerida uma grande velocidade inicial, p.e., karate, esgrima, boxe,

etc.

À medida que a resistência a vencer vai aumentando, como por exemplo

em gestos desportivos como os lançamentos, a Taxa Máxima de

Produção de Força (TMPF), também designada por Força Explosiva,

assume preponderância. Para resistências superiores a 25% da Fmax, o

Page 335: Metodologia Do Treino Desportivo

300 • Metodologia do treino desportivo I !

valor da TMPF é sempre o mesmo, o que equivale a dizer, que a força

explosiva pode ser avaliada quer através de uma acção isométrica quer

através de uma acção concêntrica, desde que a resistência a vencer seja

superior a 25% da Fmax.

Tempo (ms)

Força (N)

4000

3000

2000

1000

0

200 400 600 800 1000

Fmax

Figura 59. Curva isométrica de Força-Tempo e componentes da força Rápida: Força Inicial e Força Explosiva. A seta indica o momento (250 ms) até onde a Taxa Inicial de Produção de Força (TIPF), ou Força Inicial e a Taxa Máxima de Produção de Força (TMPF), ou Força Explosiva assumem papel preponderante.

Até aqui temos vindo a considerar apenas acções isométricas ou

concêntricas, contudo a grande maioria dos gestos desportivos envolve a

realização de ciclos musculares de alongamento-encurtamento (CMAE),

pelo que a última componente da Força Rápida é a Força Reactiva.

Figura 60. Na locomoção humana (marcha, corrida, salto) os músculos extensores dos membros inferiores são periodicamente sujeitos a um ciclo muscular de alongamento encurtamento, que se assemelha ao rodar de um cubo.

Page 336: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 301

A Força Reactiva é uma forma de manifestação da força relativamente

independente das outras componentes da força, quer isto dizer, que, p.e.,

se relacionarmos a influência dos niveis de Fmax na "performance" do

CMAE (figura 61), não será de estranhar que encontremos valores de

correlação muito baixos. Esta observação traduz a já referida

independência entre o funcionamento muscular em CMAE e as acções

isométricas e concêntricas. A produção de força em CMAE está

dependente da interacção de vários mecanismos que se completam e

potenciam. Assim, antes do contacto com o solo, os músculos agonistas

do movimento são pré-activados, como resultado de um processo de pré-

programação do Sistema Nervoso Central (Dietz et al., 1981) (momentos

a e b na figura 61). Este nível de pré-activação ao permitir a ligação de

algumas pontes cruzadas entre as proteínas contrácteis, vai ser

responsável pelo nível inicial de stiffness muscular, o qual será o

primeiro factor para resistir de forma activa ao rápido e forte

alongamento do complexo músculo-tendinoso durante o período inicial

de contacto com o solo (momento b da figura 61).

0-100 40 120 T (ms)

a

b c d

Pre AR ARet

Fz

Gon

EMG

Page 337: Metodologia Do Treino Desportivo

302 • Metodologia do treino desportivo I !

Figura 61. Representação de um exercício (salto em profundidade) que envolve um ciclo muscular de alongamento-encurtamento, e respectiva curva de força, de deslocamento angular do joelho e electromiograma do músculo vasto interno.

A partir de determinado momento, a tensão muscular será tão grande que

se torna necessário um forte "input" nervoso para equilibrar o sistema

(momentos b - c da figura x). A ocorrência deste "input" nervoso de

natureza reflexa, vai permitir que a maior parte da energia elástica possa

ser armazenada nos tendões dos músculos extensores da perna (Gollhofer

et al., 1992). Este conjunto de mecanismos permitirá na fase propulsiva

(fase concêntrica) uma utilização desta energia elástica, que se traduzirá

numa potenciação da força e numa baixa activação nervosa (Gollhofer et

al., 1992) (momentos c - d na figura 61).

A "performance" do CMAE está assim, essencialmente associada à

qualidade dos mecanismos de regulação neurais (Dietz et al., 1981;

Gollhofer et al., 1992; Komi, 1984; Schmidtbleicher, 1992) e ao estado

de treino/adaptação do complexo músculo-tendinoso relativamente ao

seu potencial contráctil e elástico (Dietz et al., 1981; Gollhofer et al.,

1992; Komi, 1984; Schmidtbleicher, 1992).

SISTEMA

NERVOSO

SISTEMA

MUSCULAR

COMPONENTES

Tipo de FibrasSecção

Transversal

FORÇA REACTIVA

ElasticidadeMúsculo

Tendinosa

Pré-TensãoCapacidade de

AbsorçãoCapacidadePropulsiva

Pré-Activação

ActivaçãoReflexa

Inibição

Menos Actv.F. Concêntrica

Figura 62. Representação esquemática da análise estrutural da força, para acções musculares que envolvam o Ciclo Muscular de Alongamento - Encurtamento. As

Page 338: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 303

linhas mais carregadas traduzem uma influência maior de uma estrutura sobre a outra.

A duração do tempo de contacto com o solo permite distinguir entre dois

tipos de CMAE.

O CMAE do tipo longo é caracterizado por um grande

deslocamento angular das articulações coxo-femoral, do joelho e tibio-

társica e por uma duração total superior a 250 ms. Como exemplos de

gestos desportivos nos quais estão envolvidos CMAE deste tipo,

poderemos referir o salto para o lançamento no basquetebol, o salto de

bloco no voleibol e os deslocamentos laterais da maior parte dos

desportos colectivos.

Ao invés, o CMAE do tipo curto caracteriza-se por um

deslocamento angular das referidas articulações muito reduzido e com

uma duração total entre 100-200 ms. A chamada para o salto em

comprimento, triplo-salto e salto em altura, constituem os exemplos

mais significativos deste tipo de CMAE.

A figura 62 ilustra de forma esquemática as relações de dependência

entre a produção de força em CMAE e os principais factores nervosos e

musculares que regulam este tipo de funcionamento muscular.

3.2.3. As relações entre Força Máxima e Força Rápida

A figura 63 sintetiza as relações de dependência entre as diferentes

formas de manifestação da força (para acções musculares concêntricas e

isométricas) e os principais factores nervosos (recrutamento e frequência

de activação) e musculares (composição muscular e grau de hipertrofia)

que estão associados. Em síntese:

a Fmax e a Força Rápida não são entidades distintas e comportam

uma relação hierárquica entre elas. A Fmax é a componente básica e

Page 339: Metodologia Do Treino Desportivo

304 • Metodologia do treino desportivo I !

fundamental, influenciando a produção de força rápida,

particularmente em acções isométricas e concêntricas.

A TPF é determinada pela capacidade do sistema nervoso aumentar

o recrutamento e a frequência de activação das unidades motoras, bem

como pelas características contrácteis das respectivas fibras

musculares.

SISTEMA

NERVOSO

SISTEMA

MUSCULAR

COMPONENTES

Recrutamento F. Activação

Tipo de FibrasSecção

Transversal

F.Absoluta F.Máxima TMPF TIPF

FORÇA RÁPIDA

Figura 63. Representação esquemática da análise estrutural da força, para acções musculares concêntricas e isométricas. As linhas mais carregadas traduzem uma influência maior de uma estrutura sobre a outra. TMPF = Taxa Máxima de Produção de Força; TIPF = Taxa Inicial de Produção de Força.

Para resistências muito baixas a TIPF constitui o factor mais

importante, com o aumento progressivo da carga a TMPF constitui o

elemento predominante, até a Fmax assumir a liderança do processo,

nas situações em que as resistências a vencer são muito elevadas.

A participação relativa da TIPF, TMPF e Fmax pode também ser

caracterizada face à duração do movimento. Assim, para movimentos

inferiores a 250 ms a TIPF e a TMPF são os factores predominantes,

enquanto que a Fmax desempenha um papel mais importante em

movimentos com duração superior a 250 ms.

A produção de força em CMAE é relativamente independente da

Fmax, sendo a sua correlação muito baixa. A qualidade do padrão de

Page 340: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 305

inervação parece ser o critério fundamental para determinar a

"performance" muscular do CMAE.

3.3. Força de Resistência

Representa uma capacidade mista de força e resistência. Manifesta-se na

possibilidade de realizar esforços de força em actividades de média e longa

duração, resistindo à fadiga e mantendo o funcionamento muscular em

níveis elevados.

O nível de força máxima exerce uma influência positiva na força de

resistência. Consideremos o seguinte exemplo. Se a uma determinada

velocidade um remador necessita de realizar em termos médios cerca de

500N de força por remada e possui nesse movimento um nível de força

máxima de 1000N, então o remador estará a trabalhar a 50% do seu máximo

em cada remada realizada. Se o nível de força máxima do atleta fosse

apenas de 750N, então o remador teria de trabalhar a cerca de 67% do seu

máximo, atingindo mais precocemente a fadiga.

Um exemplo semelhante acerca da importância que os níveis de força

máxima exercem sobre a força de resistência, pode ser visto se observarmos

a relação inversa entre a carga de 1RM e o número máximo de repetições

que um sujeito é capaz de realizar com uma determinada percentagem desse

máximo.

Tomando como referência os dados da figura x, um sujeito com um valor

máximo de 100kg no supino, será capaz de realizar cerca de 6 a 7 repetições

com uma carga de 75kg (i.e., 75% do máximo). Contudo, se o seu máximo

for aumentado para 150kg uma carga de 75kg representará apenas 50% do

máximo e ele será capaz de realizar 12 a 13 repetições. Assim, com um

aumento de apenas 50% no valor de 1RM (100 para 150kg) o aumento na

força de resistência foi de 100% (6 para 12 repetições).

Page 341: Metodologia Do Treino Desportivo

306 • Metodologia do treino desportivo I !

Para além das acções musculares concêntricas e isométricas, a força de

resistência pode também exercer um papel importante nas acções

musculares em ciclo muscular de alongamento-encurtamento (CMAE). A

componente da força muscular que intervém com relevância na

"performance", p.e., de atletas corredores de fundo é o CMAE. Durante a

corrida os músculos extensores dos membros inferiores são sujeitos a

milhares de impactos com o solo que resultam num funcionamento

muscular em CMAE.

0 2 4 6 8 10 12 1450

55

60

65

70

75

80

85

90

95

100

% Máximo

Nº repetições Figura 64. Relação entre o número de repetições e a carga (McDonagh e Davies, 1984).

4. Os Métodos de Treino

A mesma diversidade terminológica que salientámos a propósito da

classificação das diferentes formas de manifestação da força, está patente na

tradicional classificação dos métodos de treino. As classificações mais comuns

baseiam-se na carga utilizada e outras utilizam a denominação da modalidade

desportiva que mais os utilizam (método do halterofilista, método do culturista,

etc.). Este tipo de classificação tem conduzido muitas vezes a uma generalizada

Page 342: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 307

imprecisão entre o nome do método, o objectivo que se pretende atingir e o

verdadeiro resultado obtido. A título de exemplo, refira-se a convicção

generalizada de que o Método da Força Máxima conduz ao aumento da força

máxima, o que na realidade não acontece. A Fmax incrementa-se com a

utilização de cargas sub-máximas, possibilitando a realização de um número

suficiente de repetições que induza um estímulo de longa duração, que conduza

à deplecção energética. Só uma organização da carga deste tipo pode conduzir à

hipertrofia, a adaptação muscular que permite alcançar níveis mais elevados de

Fmax. Como este exemplo, poderíamos referir outros que reflectem um

conjunto de convicções que se generalizaram na prática do treino da força, mas

que correspondem a imprecisões que podem tornar-se gravosas.

Uma outra dificuldade advém do facto de muitas vezes se considerar, que o

treino da força apenas faz apelo a alterações a nível da actividade enzimática no

seio das fibras musculares, o que em última análise conduz à hipertrofia

muscular. Com base nesta convicção, muitos atletas são desaconselhados de se

envolverem em processos de treino da força, sob o argumento de que isso

implica forçosamente um aumento da massa muscular e, logo, do peso, o que

seria prejudicial para a realização de acções musculares explosivas. Convém a

este propósito salientar que qualquer incremento na Fmax implica sempre uma

alteração na força relativa (força por quilograma de peso corporal) e por isso

uma adaptação positiva na potência muscular.

Os resultados da investigação científica fundamental sobre a fisiologia

muscular, em conjunto com as observações da investigação mais aplicada,

permitem um agrupamento das formas de trabalho mais utilizadas no treino da

força em redor das suas características principais e sobretudo face ao tipo de

adaptações a que conduzem. Na nossa opinião, foi Schmidtbleicher

(Schmidtbleicher, 1985a; 1985b; 1992) quem melhor conseguiu construir uma

classificação para os métodos de treino da força, reunindo em quatro grandes

conjuntos os principais tipos de organização da carga, tipos de acção muscular

Page 343: Metodologia Do Treino Desportivo

308 • Metodologia do treino desportivo I !

e sobretudo fazendo coincidir claramente o nome do método com a adaptação,

muscular ou nervosa, a que conduzem.

Os métodos de treino da força devem especificar os seguintes aspectos:

Tipo de trabalho muscular:

concêntrico

excêntrico

isométrico

Modo de aplicação da força:

explosivo

moderado

lento

Características da dinâmica da carga

intensidade da carga (% em relação à carga máxima)

número de repetições

número de séries

duração dos intervalos

4.1. Os Métodos da Hipertrofia Muscular

Os Métodos da Hipertrofia Muscular também designados por Métodos Sub-

Máximos, têm como objectivo incrementar a força máxima (Fmax), através

do aumento da massa muscular, i.e., hipertrofiando o músculo. Sob esta

classificação podemos encontrar diferentes sub-métodos com diversas

variantes ao nível do arranjo da dinâmica da carga, mas com uma filosofia

base comum:

induzir a fadiga, através de um estímulo sub-máximo e de longa

duração para que ocorra uma determinada deplecção energética e

consequentemente se estimulem os fenómenos de resíntese para a prazo

se poder observar aumento da área da secção transversal do músculo.

Page 344: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 309

A dinâmica da carga para esta grande família de métodos caracteriza-se por

uma intensidade entre 60 - 80% do máximo isométrico individual, e um

elevado número de séries (3 a 5) e de repetições (6 a 20). O ritmo de

execução deve ser moderado para permitir que o estímulo tenha duração

suficiente. É comum que nas últimas repetições da última série seja

necessário alguma assistência para que o atleta consiga realizar o

movimento, face à fadiga que entretanto se terá instalado.

Tabela 2. Métodos da Hipertrofia Muscular

Método da Método Método do Método do Método da Carga da Carga Culturista Culturista Isocinético Constante Progressiva (extensivo) (intensivo)

Acção Muscular Concêntrica * * * * * Excêntrica * Intensidade (%) 80 70, 80, 85, 90 60 - 70 85 - 95 70 Repetições 8 - 10 12, 10, 7, 5 15 - 20 8 - 5 15 Séries 3 - 5 1, 2, 3, 4 3 - 5 3 - 5 3 Intervalo (min) 3 2 2 3 3 Adaptado de Schmidtbleicher, 1992

A tabela 2 sumaria os principais métodos para o desenvolvimento da

hipertrofia muscular, a saber:

4.1.1. Método da Carga Constante

Com uma carga equivalente a 80% do máximo individual (1RM), devem

realizar-se 3 a 5 séries com 8 a 10 repetições cada e um intervalo de 3

minutos entre cada série. 4.1.2. Método da Carga Progressiva

Page 345: Metodologia Do Treino Desportivo

310 • Metodologia do treino desportivo I !

Com um incremento progressivo entre séries (70 - 80 - 85 - 90%), o

número de repetições baixará da primeira até à última série (12, 10, 7, 5).

O intervalo de repouso entre séries é de 2 minutos. Se as últimas

repetições oferecerem grande dificuldade é comum ser necessário

recorrer à ajuda de um companheiro para suavemente assistir na

realização destas últimas repetições. 4.1.3. Método do Culturista (extensivo)

Como o próprio nome sugere, é um dos métodos mais utilizados pelos

culturistas, os atletas que levam ao extremo a hipertrofia do músculo.

Apesar dos objectivos do treino do culturista não poderem ser

comparados com o que um atleta de qualquer outra modalidade espera de

um processo de treino da força, o tipo de organização da carga dos

métodos sub-máximos receberam bastante influência do tipo de treino

dos culturistas. Neste método a carga a utilizar varia entre 60 a 70% do

máximo individual e o número de repetições entre 15 e 20. O número de

séries varia entre 3 e 5 e o respectivo intervalo de repouso é de 2

minutos. 4.1.4. Método do Culturista (intensivo)

Utilizado também com frequência pelos culturistas, este método utiliza

cargas mais elevadas, entre 85 a 95% do máximo individual e um número

de repetições naturalmente mais reduzido (entre 5 e 8). O intervalo de

repouso entre as séries é de 3 minutos. Por utilizar uma intensidade mais

elevada o aumento da massa muscular consegue-se mais por uma

hipertrofia das fibras rápidas do que das fibras lentas.

4.1.5. Método “isocinético”

Este tipo de trabalho de força requer a utilização de equipamento que

permita uma resistência acomodativa e uma velocidade de deslocamento

exterior também constante. Ao promover uma resistência variável

durante o deslocamento angular, este tipo de equipamento solicita do

Page 346: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 311

músculo uma activação máxima durante todos os graus angulares, sendo

este um aspecto importante para ser considerado um bom método para

aumentar a massa muscular. À excepção de modalidades em que o tipo

de movimento competitivo se assemelha a algo que poderíamos designar

de “quase-isocinético” como por exemplo a natação, o remo, a

canoagem, nos quais é justificável a integração de treino isocinético no

âmbito do trabalho específico de força, este tipo de estimulação muscular

deve ser restringido, no caso de actividades de potência, às fases de

preparação iniciais.

Em todos estes métodos, a velocidade de execução dos movimentos diminui

da primeira para a última repetição e da primeira para a última série. Por

esta razão, o estímulo caracteriza-se por ser longo, contínuo e sub-máximo.

Para que os ganhos de força e de massa muscular sejam os maiores

possíveis, em cada microciclo é determinante que o máximo individual seja

reaferido. Se este procedimento não for seguido, o princípio mais

importante do treino da força - o princípio da sobrecarga - não está a ser

cumprido e o atleta está a utilizar, eventualmente, uma carga inferior às suas

reais possibilidades. É preciso não esquecer que, sobretudo em atletas

iniciados, os ganhos de força são mensuráveis logo após as primeiras

sessões de treino, o que reforça a necessidade de reaferir os valores de 1RM

frequentemente. Outro requisito importante para evitar a estagnação,

consiste na mudança de método (dentro do tipo de métodos escolhido para o

período em causa) ou pelo menos na variação da organização da carga ao

fim de 2/3 microciclos se considerarmos quatro sessões semanais de treino

de força. Com esta frequência semanal, os maiores efeitos deste tipo de

métodos poderão ser alcançados ao fim de 10-12 semanas. Este duração só

tem um interesse científico, já que, como salientámos, não se poderá nunca

submeter um atleta ao mesmo método de treino durante 10 ou 12 semanas.

A avaliação dos ganhos de força deve acompanhar o processo de treino.

Como já salientámos, quando nos referimos à Fmax estamos a referirmo-nos

Page 347: Metodologia Do Treino Desportivo

312 • Metodologia do treino desportivo I !

à força isométrica máxima, já que, como também verificámos, só em regime

isométrico se pode aceder a uma contracção voluntária máxima (CVM).

Esta avaliação da força isométrica permitirá a obtenção de uma curva de

força-tempo, na qual será também possível determinar outros parâmetros da

curva força-tempo que não apenas a Fmax.

Fmax

Tempo (ms)

Força (N)

4000

3000

2000

1000

0

200 400 600 800 1000

a

b

Figura 65. Curvas de força tempo de um movimento isométrico de extensão do joelho. A curva "a" representa o momento inicial e a curva "b" representa o momento após 8 semanas de treino com métodos sub-máximos.

Na figura 65 é possível observar o tipo de alterações que o treino com

métodos sub-máximos induz no sistema neuromuscular e que pode ser

observado através de uma curva de força-tempo. O nível máximo de força

aumentou claramente do primeiro para o segundo momento de avaliação,

enquanto que a taxa de produção de força não registou alterações muito

significativas. Apesar de ser este o procedimento ajustado para monitorizar

os ganhos de força máxima, não está acessível ao nível da prática do treino.

Para prescrever a intensidade da carga, bem como para determinar o

máximo individual, o procedimento expedito é o recurso ao teste de 1RM -

o valor da carga com que o atleta consegue realizar uma única repetição. Por

se tratar de um procedimento de terreno e de fácil aplicação, enfatiza-se a

necessidade de o utilizar com a frequência necessária para reavaliar

continuamente o máximo individual.

Page 348: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 313

Salientámos já anteriormente a necessidade de incluir, nos procedimentos de

avaliação e controlo, para além da avaliação do máximo individual, um

indicador da capacidade momentânea de activação da massa muscular. Este

indicador é o Défice de Força (DF), mas os instrumentos para a sua

determinação também não estão à disposição, tal como para a Fmax, nos

locais de treino habituais. Sem significar um teste de substituição, rigoroso e

eficaz, Schmidtbleicher (1992) sugeriu que o número de repetições que um

atleta é capaz de realizar 90% de 1RM, constitui um indicador da magnitude

do DF desse atleta. Entre 1 e 3 repetições considera-se um indicador de que

o DF é pequeno, enquanto que mais do que 3 repetições sugere um grande

défice. Deste modo, na prática do treino os procedimentos de avaliação e

controlo devem ser: (1) o teste de 1RM, para estimar a Fmax individual e

(2) o número de repetições realizáveis com 90% de 1RM, como indicador

grosseiro do DF individual. Estes procedimentos permitirão a selecção

ajustada das cargas (% do máximo individual), bem como a selecção

momentânea do tipo de métodos a utilizar (métodos hipertróficos ou

nervosos).

Se quisermos monitorizar os ganhos de massa muscular, o procedimento

mais rigoroso, apesar do seu difícil acesso, é a tomografia computorizada.

Esta técnica de imagem permite obter, em corte, a secção transversal de um

segmento corporal, possibilitando a determinação do diâmetro delimitado

pela massa muscular de determinado músculo. O procedimento mais

expedito, apesar da magnitude do erro que lhe está associado, consiste na

utilização das técnicas antropométricas clássicas. Os perímetros musculares,

acompanhados da respectiva correcção para a camada adiposa subcutânea,

constituem o procedimento de terreno mais ao alcance do técnico desportivo

e podem fornecer indicações sobre os ganhos de massa muscular.

4.2. Os Métodos da Taxa de Produção de Força

Os Métodos da Taxa de Produção de Força, também designados de Métodos

Máximos, têm como objectivo incrementar a taxa de produção de força

Page 349: Metodologia Do Treino Desportivo

314 • Metodologia do treino desportivo I !

(TPF) ou força explosiva, através do aumento da capacidade de activação

nervosa. Por aumento da capacidade de activação nervosa, devemos

entender todo o conjunto de mecanismos neurais, já revistos no início deste

capítulo, que podem contribuir para aumentar a capacidade do músculo

produzir força, nomeadamente o recrutamento, a frequência de activação e a

sincronização de activação das unidades motoras (UM).

Se as UM que têm a capacidade de produção de força mais elevada, são as

UM das fibras tipo II (vulgarmente designadas de fibras rápidas), de acordo

com o Princípio do Recrutamento das UM, estas só serão recrutadas se a

resistência a vencer for suficientemente grande para que o seu limiar de

recrutamento seja atingido. Por esta razão, para mobilizar as fibras rápidas,

é necessário vencer resistências muito próximas do máximo individual, pois

só assim se garante o recrutamento dessas fibras. Complementarmente, para

solicitar o aumento da frequência de activação das UM, i.e., o número de

estímulos por unidade de tempo, é crucial que a acção muscular seja

realizada de forma explosiva, i.e., com uma grande velocidade de

contracção muscular.

A observância destes dois pressupostos fundamentais conduz a que a

organização da carga deste tipo de métodos se caracterize por:

cargas muito elevadas; e,

acção muscular explosiva.

Só desta forma se garante que em cada repetição se tentem mobilizar todas

as UM de um determinado grupo muscular, bem como aumentar a

frequência dos disparos. Em conjunto e sobre o tempo, estes dois

mecanismos poderão conduzir a uma certa sincronização dos disparos das

diferentes UM, constituindo este (sincronização) o terceiro grande

mecanismo nervoso de incremento da produção de força.

Um dos aspectos determinantes do êxito deste tipo de métodos, prende-se

com a necessidade de distinguir entre velocidade de acção ou de contracção

Page 350: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 315

muscular e velocidade de movimento. Naturalmente que com resistências

muito próximas do máximo, não é possível realizar movimentos com a barra

de musculação a grande velocidade, contudo, é possível acelerar contra a

barra à máxima velocidade de contracção, apesar do movimento observável

da barra ser naturalmente baixo. Este aspecto é de capital importância pois

só assim se poderá garantir que em cada repetição ao sistema neuromuscular

foi solicitado uma maior frequência de activação das UM. Se este

procedimento e esta explicação, naturalmente em termos simplificados, não

for dada aos técnicos e atletas, a utilização deste tipo de métodos não

induzirá benefícios significativos ao nível da força explosiva.

Tabela 3. Métodos da Taxa de Produção de Força

Método Método Método Método Quase Concêntrico Excêntrico Conc/Exc Máximo Máximo Máximo Máximo Acção Muscular Concêntrica * * * Excêntrica * * Intensidade (%) 90,95,97,100 100 150 70 - 90 Repetições 3,1,1,1+1 1 5 6 - 8 Séries 1,2,3,4+5 5 3 3 - 5 Intervalo (min) 3 - 5 3 - 5 3 5 Adaptado de Schmidtbleicher, 1992

A tabela 3 sumaria os principais Métodos da Taxa de Produção de Força ou

Métodos Máximos, a saber:

4.2.1. Método Quase Máximo

Page 351: Metodologia Do Treino Desportivo

316 • Metodologia do treino desportivo I !

Neste método são possíveis duas variantes. A utilização de uma pirâmide

em que a intensidade da carga vai aumentando progressivamente ao

longo das séries (90, 95, 97 e 100%), com a realização de 3 repetições na

primeira série e apenas 1 repetição nas restantes 3 séries. No final das

quatro séries é realizada uma repetição extra com o objectivo de reavaliar

o máximo individual (1RM). A segunda variante consiste na utilização de

uma carga constante (90%), para a realização de 3 séries de 3 repetições.

Em todos estes métodos o intervalo de repouso deve ser de 3 a 5 minutos

para o grupo muscular que foi trabalhado. Poder-se-á iniciar uma outra

série antes deste período de tempo desde que para solicitar outro grupo

muscular.

4.2.2. Método Concêntrico Máximo

Originalmente concebido e introduzido pela escola halterofilista búlgara,

este método só deve ser utilizado por atletas excepcionalmente bem

preparados ao nível das suas capacidades de produção de força. Em cada

sessão faz-se continuamente (5 séries) uma tentativa (1 repetição) de

aumentar o máximo individual (1 RM). É um método muito utilizado

pelos halterofilistas, em períodos próximos das competições, já que em

cada sessão de treino se tenta ultrapassar a melhor "performance" do

atleta.

4.2.3. Método Excêntrico Máximo

Neste método a carga utilizada dever ser sempre superior ao máximo

individual (100 %), pois só uma carga dessa grandeza constitui estímulo

de treino para o caso das acções musculares excêntricas. O valor desta

carga não deve, contudo ultrapassar 150%. Os exercícios de treino

podem ser realizados com o auxílio de equipamentos apropriados ou, na

falta destes, os colegas podem elevar as cargas, realizando a parte

concêntrica do movimento. O número total de séries pode atingir as 3

Page 352: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 317

com 5 repetições em cada, com um intervalo de repouso entre séries de 3

minutos.

4.2.4. Método Concêntrico Excêntrico Máximo

A lógica de utilização deste método baseia-se na dupla vantagem da

acção concêntrica para o desenvolvimento da TPF e na superioridade da

carga excêntrica para activar o sistema neuromuscular. Assim, na fase

excêntrica do movimento a resistência (barra e pesos) deve ser

desacelerada de forma semelhante a uma queda brusca, para depois, sem

qualquer paragem, ser de novo acelerada na fase concêntrica do

movimento, no menor período de tempo possível. As cargas a utilizar

devem ser um pouco mais reduzidas do que as referidas para os métodos

anteriores. Como referência, cargas entre 70 e 90% do máximo

individual são apropriadas para este tipo de trabalho. O número de séries

pode variar entre 3 e 5 com 6-8 repetições por série. Face ao maior

número de repetições, é aconselhável um intervalo de repouso de 5

minutos.

Em síntese, todos estes métodos, têm por objectivo aumentar a taxa de

produção de força (ou força explosiva), promovendo adaptações de natureza

nervosa - aumento do recrutamento e frequência de activação das UM - e

com alterações mínimas na massa muscular. Todos estes métodos requerem

a utilização de cargas muito elevadas (90-100% de 1RM), reduzido número

de repetições (1-5), número de séries entre 3 e 5 e um amplo intervalo de

repouso (3-5 min). Um dos factores críticos para o êxito da utilização destes

métodos, reside na necessidade de realizar os exercícios com a máxima

velocidade de contracção possível. A opção por este tipo de métodos requer

que se determine ou, se não for possível, que se estime o Défice de Força

(DF) do atleta em causa. Um grande DF, o que traduz uma incapacidade de

activar toda a massa muscular existente, sugere a necessidade de se optar

por métodos de treino da força que conduzam a adaptações de carácter

nervoso, ou seja, os Métodos da Taxa de Produção de Força ou Métodos

Page 353: Metodologia Do Treino Desportivo

318 • Metodologia do treino desportivo I !

Máximos. Os maiores ganhos, para uma frequência semanal de quatro

sessões semanais, podem ser alcançados ao fim de 6-8 semanas.

A figura 66 representa o tipo de adaptações, a que os métodos máximos

conduzem, observáveis através da curva de força-tempo. A curva (a)

representa o momento inicial e a curva (b) representa as alterações após 8

semanas de treino. Os ganhos mais significativos são visíveis no aumento da

taxa de produção de força (TPF) - definida pelo declive da curva de força-

tempo -, no tempo para atingir determinados níveis (em escala relativa e

absoluta) da Fmax. Os valores da Fmax regista apenas pequenas alterações

positivas.

Evidências acerca dos mecanismos nervosos que tenham contribuindo para

este tipo de adaptações, podem ser obtidas através de registos

electromiográficos (EMG) que apesar das suas limitações constituem o meio

indirecto de aceder às modificações ocorridas no padrão de inervação. O

IEMG tem sido o parâmetro electromiográfico mais utilizado para

monitorizar alterações da magnitude da activação nervosa.

Fmax

Tempo (ms)

Força (N)

4000

3000

2000

1000

0

200 400 600 800 1000

TPF

a

b

Figura 66. Curvas de força tempo de um movimento isométrico de extensão do joelho. A curva "a" representa o momento inicial e a curva b representa o momento após 8 semanas de treino com métodos máximos.

A figura 67 ilustra o tipo de registo EMG associado à respectiva curva de

força-tempo. O IEMG - definido quantitativamente como a área delimitada

pela curva EMG - só permite diagnosticar a ocorrência de um aumento do

Page 354: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 319

"input" nervoso que activou o músculo, não permitindo identificar se esse

incremento de activação se ficou a dever mais a (1) um aumento do

recrutamento, ou a (2) um aumento da frequência de activação, ou a (3) uma

melhoria da sincronização das unidades motoras. Contudo, o estudo do

declive da curva EMG nos momentos iniciais da contracção muscular, pode

fornecer alguma indicação sobre a velocidade dos processos de inervação.

A utilização de parâmetros caracterizadores do espectro de frequências do

sinal EMG pode fornecer alguma indicação mais detalhada sobre o

funcionamento do mecanismo do recrutamento. A utilização dos parâmetros

do espectro de frequências (média e mediana da frequência) no diagnóstico

de alterações no recrutamento de UM, requer a observância de duas

premissas básicas: a relação entre a média e a mediana da frequência e a

velocidade de condução das fibras e a verificação através de EMG que as

fibras musculares das UM de maiores dimensões apresentam maior

velocidade de condução, o que está de acordo com a relação entre o

diâmetro da fibra e a velocidade de condução dos potenciais na sua

membrana.

0.000 0.500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000

segundos

0

2000

4000

6000

New

tons

Fo

rça

iso

tric

a

0.00

0.05

0.10

0.15

0.20

0.25

0.30

mV

Va

sto

in

tern

o

Figura 67. Curvas de Força-Tempo de um movimento isométrico de extensão dos membros inferiores e registos electromiográficos rectificados do músculo vasto interno

Assim, um aumento do valor inicial da média e mediana da frequência, com

o aumento do nível de contracção, pode ser atribuído ao recrutamento

Page 355: Metodologia Do Treino Desportivo

320 • Metodologia do treino desportivo I !

progressivo de UM constituídas por maiores fibras, as quais apresentam

maior velocidade de condução.

Moritani et al., 1987 (cit. Moritani, 1993) sugeriram que a utilização de

correlações cruzadas entre os registos EMG de, p.e., duas porções do

mesmo músculo puderiam fornecer alguma evidência acerca da possível

sincronização de disparo de diferentes UM. Após um período de treino, a

comparação entre os valores da correlação cruzada entre a curta e a longa

porção do músculo bicípete braquial, sugeriu que o disparo das UM poderá

ter ocorrido de forma mais sincronizada, já que os valores do coeficiente de

correlação passou de r=0.402 para r=0.913.

Assim, e por último, esta poderá ser uma outra forma de através do EMG

identificar o tipo de alteração de carácter neural que possa ter ocorrido após

a utilização de Métodos Máximos e talvez, contribuir para explicar os

mecanismos dos incrementos na TPF.

4.3. Os métodos mistos

Os Métodos Mistos são uma tentativa de integrar num mesmo método os

princípios básicos dos dois tipos de métodos que temos vindo a analisar. O

objectivo é incluir numa mesma sessão de trabalho o treino da hipertrofia e

da activação nervosa, ou seja, conciliar a força máxima com a taxa de

produção de força.

A carga tem uma organização baseada numa pirâmide de intensidade e de

repetições. Consideremos um exemplo: na primeira série utiliza-se uma

carga de 70% para 8 repetições. Na segunda e terceira séries a intensidade

aumenta para 80 e 90% e as repetições reduzem-se para 5 e 3,

respectivamente. Na quarta série atinge-se a intensidade máxima (100%) e

realiza-se apenas 1 ou 2 repetições. Nas séries seguintes, procede-se à

diminuição da intensidade da carga e aumento progressivo do número de

Page 356: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 321

repetições, com o mesmo racional das séries anteriores, mas agora com a

lógica inversa.

Ainda que a ideia possa parecer atraente, é necessário estar atento para as

desvantagens de organizar a carga desta forma. Ao utilizar nas duas

primeiras séries a filosofia dos métodos da hipertrofia muscular, quando se

realizarem as séries com carga mais elevada já o sistema neuromuscular

poderá apresentar fadiga nervosa, o que não permitirá obter os resultados

esperados. Se se optar pela situação inversa, iniciar a pirâmide pelas séries

com carga mais intensa, ao chegar às séries da hipertrofia é admissível que

as concentrações de lactato intramuscular sejam consideráveis, o que

constitui uma desvantagem para as adaptações do sistema nervoso.

Se considerarmos um mesmo período de tempo, a utilização de dois sub-

períodos, um para os Métodos Sub-Máximos seguido de outro para os

Métodos Máximos, os resultados serão superiores aos obtidos apenas com a

utilização de Métodos Mistos (Schmidtbleicher, 1992).

4.4. Os métodos reactivos

Os Métodos Reactivos visam potenciar o ciclo muscular de alongamento-

encurtamento (CMAE).Esta forma natural de funcionamento muscular é

relativamente independente das outras formas de manifestação da força e

portanto, requer métodos próprios para o seu desenvolvimento. Estes

métodos dirigem-se essencialmente à melhoria do padrão de inervação dos

músculos envolvidos. Esta melhoria, tal como tem vindo a ser salientado ao

longo desta revisão, caracteriza-se por: (1) aumento da amplitude da fase de

pré-activação nervosa e melhoria da precisão do seu "timing", para melhor

preparar o complexo músculo-tendinoso para o forte e rápido alongamento a

que vai ser sujeito após o contacto com o solo; (2) potente activação

nervosa, de origem reflexa, durante a fase excêntrica, no sentido de

contribuir para a regulação do stiffness muscular e dessa forma permitir

Page 357: Metodologia Do Treino Desportivo

322 • Metodologia do treino desportivo I !

armazenar energia elástica no complexo músculo-tendinoso a qual possa vir

a contribuir para potenciar a fase concêntrica e (3) redução da activação

nervosa durante esta mesma fase.

Para que este tipo de adaptações nervosas ocorram como resultado do treino

com métodos reactivos, é fundamental observarem-se algumas regras, que

podemos considerar gerais, no desempenho técnico dos exercícios.

A primeira e mais importante regra diz respeito à necessidade de

realizar todo o trabalho reactivo à intensidade máxima, o que significa

dizer que quando realizamos, p.e., um multissalto ou um salto de

barreiras o objectivo deverá ser sempre saltar mais longe e mais alto.

Em segundo lugar, o contacto com o solo deve ser muito rápido e

reactivo, com um tempo de transição entre as fases excêntrica e

concêntrica o mais curto possível. Só desta forma se solicita um CMAE

que possa incluir os factores de potenciação que temos vindo a referir

(reflexo de alongamento > aumento do stiffness muscular >

armazenamento e utilização da energia elástica > potenciação da força) e

desta forma tornar-se um tipo de exercício mais económico.

Por último, neste tipo de métodos todo o trabalho deve ser realizado

em completa ausência de fadiga, pelo que os intervalos de repouso

devem ser rigorosamente observados.

Tabela 4. Métodos Reactivos.

Saltos sem Saltos com Saltos em Exercícios p/ Progressão Progressão Profundidade Tronco/braços Acção Muscular CMAE * * * * Intensidade (%) 100 100 100 100 Repetições 30 20 10 25 Séries 3 - 5 3 - 5 3 - 5 3 - 5 Intervalo (min) 5 5 10 5

Page 358: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 323

Adaptado de Schmidtbleicher, 1992

Talvez pela sua rápida divulgação, existe a convicção de que quando

falamos em exercícios reactivos, ou pliométricos, nos estamos a referir a

exercícios destinados apenas aos membros inferiores. Naturalmente que a

maioria das vezes assim é, mas é perfeitamente possível construir formas de

trabalho para os membros superiores, tal como referido na tabela 4. 4.4.1. Saltos sem Progressão

Neste grupo incluem-se todos os exercícios que não envolvem uma

progressão horizontal. Os "skipping", os saltos com contra-movimento,

os "hopping", constituem exemplos das formas de trabalho que podem

ser utilizadas. São essencialmente exercícios que envolvem

simultaneamente um duplo apoio. Um dos exercícios característicos deste

grupo, o "hopping", ou saltos verticais repetidos, são normalmente

realizados em três séries. Na primeira realizam-se 30 repetições à

frequência individual, para na segunda série se realizarem mais 30

repetições agora à máxima frequência (maior número de contactos com o

solo) e por último, na terceira série as mesmas 30 repetições com o

objectivo de alcançar a maior elevação possível do centro de gravidade.

É um procedimento que visa, com a alternância da frequência dos

contactos com o solo, adaptar o sistema neuromuscular a melhor

organizar a pré-activação muscular. Caso os exercícios envolvam apenas

um apoio, o número de repetições deve ser reduzido para 10.

4.4.2. Saltos com Progressão

Incluem-se, como o nome sugere, todos os exercícios que envolvem uma

progressão horizontal. Os multissaltos com todas as suas variantes, os

Page 359: Metodologia Do Treino Desportivo

324 • Metodologia do treino desportivo I !

saltos sobre bancos e os saltos de barreiras, entre outros, constituem os

exercícios fundamentais deste grupo. Este conjunto de exercícios pode

ser realizado com duplo apoio e progressivamente com um só apoio, o

que aumentará a carga de alongamento, i.e., a intensidade. Por número de

repetições deve entender-se o número de apoios ou de contactos com o

solo. Estes devem ser rápidos e explosivos, de forma a que o

alongamento não seja exagerado e o tempo de transição entre as fases

excêntrica e concêntrica seja o mais curto possível. Uma dificuldade em

realizar de forma tecnicamente correcta, os exercícios escolhidos ou uma

dificuldade em cumprir o número de repetições previamente

estabelecido, devem ser critérios para interrupção da série de exercícios.

Todo o trabalho reactivo é essencialmente um trabalho de qualidade,

sendo, por isso, imprescindível a observância dos requisitos da técnica de

execução, sob pena de o treino se tornar contraprudecente e até,

potencialmente perigoso.

4.4.3. Saltos em Profundidade

É o exercício reactivo mais conhecido, mas também o mais exigente. A

sua utilização deve restringir-se a atletas muito bem treinados e deverá

ser o último exercício a ser utilizado. O número de repetições não deve

exceder as 10 e o número de séries pode variar entre três e cinco. O

intervalo de repouso dever ser sempre respeitado, apesar de poder parecer

muito grande e por vezes dispensável. Como já referimos, todo o treino

reactivo é essencialmente qualitativo e visa melhorar o padrão de

activação nervosa, pelo que todos os exercícios reactivos devem ser

sempre realizados sem fadiga. A selecção da carga de alongamento, i.e.,

a altura de queda dever ser feita individualmente. A forma mais rigorosa

consiste na determinação da altura de queda a partir da qual o atleta

consegue, no salto subsequente, atingir a maior elevação do centro de

gravidade. Um procedimento um pouco menos rigoroso, mas mais

expedito, consiste em seleccionar a altura de queda a partir da qual o

Page 360: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Força • 325

atleta, no salto subsequente, durante o contacto não toca com o calcanhar

no solo. Este pormenor de execução técnica, sugere que o atleta é capaz

de suportar a carga de alongamento, sendo possível passar rapidamente

da acção excêntrica para a acção concêntrica, sem que o deslocamento

angular seja muito grande, logo, sem contactar o solo com o calcanhar. O

contacto com o solo não deve ser nem muito rápido nem muito longo. A

duração máxima não deve, contudo, ultrapassar os 200 ms. O

deslocamento angular do joelho deve também ser reduzido e todo o

movimento deve ser sempre realizado com máxima intensidade. O tipo

de superfície não deve ser artificialmente alterado com a colocação de,

p.e., colchões de ginástica, com o objectivo de amortecer o impacto com

o solo. Este procedimento impede a observância de um requisito

fundamental: ter um contacto rápido e reactivo com o solo. Apesar de

termos referido que o deslocamento angular deve ser reduzido, se o

objectivo for localizar mais a acção muscular nos músculos da coxa

(vasto interno e externo e recto anterior da coxa), Bosco et al., (1981b)

propuseram que com uma maior flexão do joelho no momento de

chegada ao solo, se poderia realizar o SP com uma maior solicitação dos

músculos da coxa. Este procedimento é particularmente importante para

gestos desportivos em que o salto vertical envolve uma maior flexão do

joelho como, p.e., no salto de remate em voleibol. O controlo do tempo

de contacto com o solo associado ao tempo de vôo, permite uma

avaliação da qualidade do trabalho realizado. Em ambientes de treino um

pouco mais exigentes, sugere-se a utilização de uma plataforma de

contactos para monitorizar o treino dos atletas.

4.4.4. Exercícios para o Tronco e Braços

Como haviamos já referido, apesar da grande generalização do trabalho

reactivo ter ocorrido associada a exercícios para os membros inferiores, é

perfeitamente possível conceber situações de trabalho reactivo para os

membros superiores. A utilização de bolas medicinais, barra de

Page 361: Metodologia Do Treino Desportivo

326 • Metodologia do treino desportivo I !

musculação e outras pequenas resistências, podem ser usadas na maioria

dos exercícios. A lógica para a construção dos exercícios é o seguinte:

realizar um movimento que solicite um alongamento muscular, p.e., do

tricípete braquial, de forma a que a acção muscular seguinte seja uma

acção concêntrica desse mesmo músculo. A recepção e o rápido

arremesso de uma bola medicinal, constitui um exemplo de um exercício

reactivo para os membros superiores. Para uma situação

excepcionalmente exigente, pudemos considerar um exercício para os

membros superiores, com a mesma lógica do salto em profundidade. A

flexão de braços no solo, a partir de um pequeno ressalto, p.e., um banco

sueco, constitui uma forma de replicar para os membros superiores a

lógica de um salto em profundidade.

Page 362: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE IV

OS FACTORES DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 3

Estudo do factor físico desportivo

Secção B - Estudo sobre a resistência

Resp: Francisco Alves

Page 363: Metodologia Do Treino Desportivo

324 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo da Secção B do Capítulo 3 da Parte IV

Neste Secção estudaremos o factor físico desportivo no plano da

resistência. Com efeito, esta representa a capacidade de resistir

psiquica e fisicamente à instalação da fadiga e de recuperar rapidamente

dos efeitos produzidos por uma carga de treino. Neste contexto,

incidiremos a nossa reflexão sobre os factores condicionantes desta

capacidade, as formas de manifestação da resistência (participação do

sistema muscular, do regime de contracção muscular, da solicitação

metabólica e tendo por referência a situação competitiva) e os métodos

de treino da resistência (continuo, por intervalos e de competição ou

controlo).

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 11

Page 364: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 325

Parte IV

Os factores de treino

Sumário

Capítulo 3 - Estudo sobre o factor físico desportivo

Secção B - Estudo sobre a resistência

1. Definição de resistência

2. Objectivos da resistência

3. Factores determinantes da resistência 3.1. O sistema nervoso central 3.2. Capacidade volitiva 3.3. Adaptações aeróbias e anaeróbias

4. Formas de manifestação da resistência 4.1. Quanto à participação do sistema muscular

4.1.1. Geral 4.1.2. Local

4.2. Quanto ao regime de contracção muscular 4.2.1. Estática 4.2.2. Dinâmica

4.3. Quanto à solicitação metabólica 4.3.1. Resistência aeróbia 4.3.2. Resistência anaeróbia

4.4. Tendo como referência a situação de competição 4.4.1. Geral ou de Base 4.4.2. Resistência Específica

5. Métodos de treino da resistência 5.1. Método contínuo

5.1.1. Método contínuo uniforme 5.1.1.1. Método contínuo uniforme extensivo 5.1.1.2. Método contínuo uniforme intensivo

5.1.2. Método contínuo variado

5.2. Método por intervalos 5.2.1. Pausa incompleta - Treino intervalado 5.2.2. Pausa completa - Treino de repetições

5.3. Método de competição 5.4. Método de treino em circuito

6. Métodos de treino para os diferentes tipos de resistência

7. Treino da resistência nos jogos desportivos colectivos

Page 365: Metodologia Do Treino Desportivo

326 • Metodologia do treino desportivo I !

Bibliografia:

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Toronto. Pp. 292-302.

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Zintl, F. (1991) - Entrenamiento de la Resistencia. Barcelona, pp. 32-43, 88-

109, 110-118, 126-156, 159-173, 177-186.

Page 366: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 327

1. Definição de resistência

Não existe um conceito universal de resistência, visto que a particularidade da

carga cria perfis de manifestação variados, isto é, diferentes tipos de

resistência. Todavia, numa primeira análise, a resistência relaciona-se

fundamentalmente com a fadiga e a recuperação dos praticantes, influenciando

o rendimento segundo diversas vertentes: energética, coordenativa,

biomecânica e psicológica.

Segundo Bompa (1990), "a resistência pode ser definida como a capacidade

do organismo em resistir à fadiga numa actividade motora prolongada.

Entende-se por fadiga a diminuição transitória e reversível da capacidade de

trabalho do atleta". Zintl (1991), mais detalhadamente, define resistência

como "a capacidade de manter um equilíbrio psíquico e funcional o mais

adequado possível perante uma carga de intensidade e duração suficientes

para desencadear uma perda de rendimento insuperável (manifesta),

assegurando, simultaneamente, uma recuperação rápida após esforços

físicos".

Neste contexto, o desenvolvimento da resistência implica um adiar da

instalação da fadiga e/ou uma diminuição das suas consequências durante a

execução de um determinado exercício físico, possibilitando, ainda, a

optimização dos processos de recuperação no seguimento do esforço.

2. Objectivos da resistência

Segundo Zintl (1991), os objectivos da resistência são:

Page 367: Metodologia Do Treino Desportivo

328 • Metodologia do treino desportivo I !

manter durante o máximo tempo possível uma intensidade óptima ao

longo da duração pré-definida da carga (por exemplo, em muitos desportos

cíclicos de resistência);

manter ao mínimo as perdas inevitáveis de intensidade quando se trata de

cargas prolongadas (por exemplo, a maratona);

aumentar a capacidade de suportar as cargas de treino ou de competição

com um volume muito elevado, durante uma quantidade indefinida de

acções concretas (modalidades atléticas compostas por várias provas, jogos

colectivos, desportos de luta);

recuperação acelerada após aplicação das cargas (em treino e em

competição);

estabilização da técnica desportiva e da capacidade de concentração nos

desportos tecnicamente mais complexos (salto de trampolim, patinagem

artística, tiro, tiro com arco, etc.).

3. Factores determinantes da resistência

Os factores que afectam a resistência, enquanto qualidade física, são, segundo

Bompa (1990), de três níveis: do sistema nervoso central, da capacidade

volitiva, e das adaptações aeróbias e anaeróbias.

3.1. O sistema nervoso central

O trabalho uniforme com intensidade moderada desenvolve e fortalece a

actividade global do SNC, nomeadamente a coordenação neuro-muscular

específica da actividade motora utilizada. O trabalho de longa duração

realizado sob condições de fadiga crescentes aumenta a resistência das redes

nervosas aos estímulos indutores de "stress".

3.2. Capacidade volitiva

Implica a aptidão para:

Page 368: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 329

• atingir as "reservas de adaptação";

• aproveitar completamente o potencial de desenvolvimento de uma

carga;

• resistir à dor e ao desconforto que acompanham inevitavelmente os

estados elevados de fadiga.

3.3. Adaptações aeróbias e anaeróbias

O potencial energético do organismo de um atleta e o seu grau de adequação

às exigências específicas da competição estão directamente implicados, em

grande número de actividades desportivas, no sucesso competitivo, não

deixando de ser um importante factor influenciador em todas as outras. Em

termos gerais pode-se afirmar que estas adaptações:

• optimizam a eficácia técnico-táctica em situação de competição,

• permitem a estabilização do desempenho em prestações de carácter

anaeróbio (velocidade, p.ex.).

4. Formas de manifestação da resistência

As classificações existentes para a resistência como qualidade física

correspondem a quadros problemáticos diferentes do seu estudo, de relevancia

para a prática do treino desportivo desigual. Podemos sistematizar a qualidade

física resistência segundo quatro critérios fundamentais: o grau de participação

do sistema muscular (parcela da massa muscular total envolvida), o regime de

contracção muscular, a solicitação metabólica e tendo como referência a

situação competitiva específica.

4.1. Quanto à participação do sistema muscular

Tendo como critério de classificação a participação do sistema muscular

podemos distinguir dois tipos de resistência: a resistência geral e a

resistência local.

Page 369: Metodologia Do Treino Desportivo

330 • Metodologia do treino desportivo I !

4.1.1. Geral

Considera-se resistência geral quando estão envolvidos mais de 1/6 a 1/7

de toda a musculatura esquelética. Neste caso, os limites para a

actividade motora localizam-se, principalmente, ao nível dos sistemas cardiocirculatório e respiratório (absorção máxima de O2) e na

capacidade de utilização periférica de O2.

4.1.2. Local

Considera-se a resistência como local quando estão envolvidos menos de

1/6 a 1/7 de toda a musculatura esquelética. Como ponto de referência,

atente-se que a massa muscular de um membro inferior representa

aproximadamente 1/6 da massa muscular de todo o corpo. Este critério

de diferenciação baseia-se no facto de se ter averiguado

experimentalmente que, abaixo deste valor, os índices de adaptação

cardiovascular não têm qualquer influência no desempenho muscular

local prolongado (Zintl, 1991). A resistência local dependerá

fundamentalmente do grau de desenvolvimento da força especial, das

adaptações anaeróbias locais e da coordenação neuro-muscular

específica.

Aspectos particulares

• a resistência local tem pouca influência sobre a resistência geral de

carácter aeróbio, uma vez que o trabalho muscular de intensidade

superior a 25-30% de 1 RM só surge em exercícios em que o regime

de trabalho é de elevada intensidade;

• segundo HOLLMAN e HETTINGER (1980), este é o tipo de

resistência onde se podem encontrar valores superiores de progresso -

até 1000%, contra valores máximos de incremento de 40% para a

força máxima e para a resistência dinâmica geral e 15% a 20% para a

velocidade.

Page 370: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 331

4.2. Quanto ao regime de contracção muscular

Tendo como critério de classificação o regime de contracção muscular

podemos igualmente distinguir dois tipos de resistência: a resistência

estática e a resistência dinâmica.

4.2.1. Estática

Considera-se resistência estática quando o trabalho muscular é

isométrico. Pode ser geral ou local.

Algumas referências:

• tendo como referência uma contracção muscular voluntária máxima

uma percentagem inferior a 15% corresponde a um trabalho

metabólico de raiz aeróbia; entre 15 a 50% corresponde a um trabalho

misto (a oclusão progressiva dos vasos, devido à contracção, acarreta

uma limitação crescente da irrigação sanguínea); intensidade superior

a 50% corresponde a um trabalho aneróbio (hipóxia local).

Limites:

• fluxo de irrigação sanguinea (limitação crescente até à hipóxia

local);

• fadiga nervosa (esgotamento da substância de transmissão do

estímulo nervoso para a contracção muscular).

4.2.2. Dinâmica

Considera-se resistência dinâmica quando o trabalho muscular é

isotónico ou isocinético. Pode ser geral ou local.

Page 371: Metodologia Do Treino Desportivo

332 • Metodologia do treino desportivo I !

4.3. Quanto à solicitação metabólica

Tendo como critério de classificação a solicitação metabólica podemos

distinguir dois tipos de resistência: a resistência aeróbia, e a resistência

anaeróbia.

4.3.1. Resistência aeróbia

Considera-se resistência aeróbia quando o trabalho a realizar solicita a

fonte aeróbia para a produção de energia.

4.3.2. Resistência anaeróbia

Considera-se resistência anaeróbia quando o trabalho a realizar solicita

preferencial ou exclusivamente a fonte anaeróbia para a produção de

energia.

Tabela 5. Zonas de intensidade para o trabalho de resistência

Capacidade aeróbia (limiar anaeróbio) > 15' *

Potência aeróbia (VO2 máx.) 2' - 15'

Capacidade anaeróbia láctica (tolerância láctica) 1' - 8'

Potência anaeróbia láctica 20"- 45"

Capacidade anaeróbia aláctica 10" - 30"

adapt. de SKINNER e MORGAN (1985)

* Até aos 30', um indivíduo treinado pode trabalhar a 90-95% do VO2 máx. A partir desse limite, o consumo de O2 descerá para menos de 90% da sua potência máxima.

Um maratonista de alto nível pode trabalhar a 80-85% do VO2 max., durante mais de duas horas e a 70% até 4 horas.

4.4. Tendo como referência a situação de competição

Page 372: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 333

Por último, tendo como critério de classificação a situação de competição

podemos distinguir dois tipos de resistência: a resistência geral ou de base, e

a resistência específica.

4.4.1. Geral ou de Base

As características fundamentais do trabalho de resistência geral:

• é o de envolver o organismo no seu todo, por um período de tempo

prolongado;

• não depende da disciplina desportiva, mas facilita o sucesso em

vários tipos de tarefas em treino. Tem, portanto um elevado grau de

"transfer" positivo entre actividades desportivas diferenciadas;

• relaciona-se com a faculdade de suportar cargas de grande volume

ou com grande frequência, com a superação da fadiga em competições

de longa duração e com a recuperação rápida após treino e

competição.

Tomando como critério a identidade com a actividade de competição, e o

nível de exigência das fontes aeróbias envolvidas, podemos distinguir

três tipos de resistência de base: a resistência geral ou de base I, a

resistência de base II, e a resistência de base acíclica.

4.4.1.1. Resistência de Base I

Considera-se resistência de base I quando o trabalho a realizar é

totalmente independente da actividade específica de competição.

Características:

• resistência aeróbia geral com um nível de carga de média

intensidade;

Page 373: Metodologia Do Treino Desportivo

334 • Metodologia do treino desportivo I !

• promove uma capacidade aeróbia mediana (VO2 máx.= 45-

55ml/kg/min.), assim como o uso económico desta actividade (limiar anaeróbio entre 70 - 75% do VO2 máx.);

• é polivalente.

Objectivos

• manter ou recuperar a saúde ou a capacidade fisico-motora geral;

• criar, em desportos que não são de resistência, uma boa base

para o treino de outras capacidades físicas e de coordenação;

• incrementar a recuperação após cargas de treino e competição;

• tornar mais suportável a carga psíquica.

4.4.1.2. Resistência de Base II

Considera-se resistência de base II quando o trabalho a realizar é

dependente da actividade de competição (exercícios característicos).

Características

• resistência aeróbia geral com um nível de intensidade

submáxima; • promove uma elevada capacidade aeróbia (VO2 máx. > 60

ml/kg/min) e a sua utilização óptima (limiar anaeróbio entre 75 e 80% do VO2 máx.);

• solicita um metabolismo misto aeróbio-anaeróbio;

• relacionada com a modalidade.

Objectivos

Page 374: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 335

• criar uma adaptação global do organismo aos esforços típicos

das modalidades de resistência;

• estabelecer uma base elevada para o treino específico de

resistência;

• produz também adaptações musculares (coordenação

intermuscular, dinâmica muscular, aporte energético), assim como,

a melhoria dos sistemas regulados vegetativamente;

• activar novas reservas para maiores incrementos do rendimento;

• melhoria técnica no sentido de uma maior economia;

• aumentar a força de vontade e incrementar globalmente a

tolerância psíquica ao esforço.

4.4.1.3. Resistência de Base Acíclica

Considera-se resistência de base acíclica à capacidade de resistência

requerida em desportos colectivos e de confronto directo.

Características

• resistência aeróbia geral com cargas de intensidade média a

submáxima e alternância constante do tipo de solicitação

metabólica; • promove uma capacidade predominantemente aeróbia (VO2

máx. entre 55 e 60 ml/kg/min);

• solicita um metabolismo misto aeróbio-anaeróbio com picos

elevados de intensidade;

• alternância da actividade motora.

Objectivos

• criar a base para um treino amplo da técnica e da táctica;

• incrementar a capacidade de recuperação durante as fases de

carga menos intensa em competição;

• incrementar a tolerância psíquica ao esforço.

Page 375: Metodologia Do Treino Desportivo

336 • Metodologia do treino desportivo I !

4.4.2. Resistência Específica

A resistência específica é a forma de manifestação própria de um

determinado desporto. Diz respeito à capacidade de adaptação à estrutura

de carga de uma actividade desportiva em situação de competição e,

portanto, de alcançar um alto nível de rendimento sujeito às condições

temporais da especialidade.

Quanto maior for a resistência específica, construida a partir de uma

sólida base de resistência geral, mais facilmente o atleta poderá

ultrapassar diferentes tipos de pressão em treino e competição (por

exemplo: número de faltas técnico-tácticas ou mesmo disciplinares na

parte final de um jogo). A possibilidade de manter uma intensidade

óptima em competição depende de um complexo de factores que

incluem, para além das adaptações metabólicas, sistémicas e neuro-

musculares adequadas, uma elevada economia técnica e táctica e

características psíquicas determinadas.

Partindo de critérios de duração da carga, zonas de intensidade - FC, VO2, gasto energético - via metabólicas dominantes, podemos

diferenciar três tipos de resistência específica: a resistência de curta

duração, a resistência de média duração, e a a resistência de longa

duração (I, II, III).

4.4.2.1. Resistência de Curta Duração

Características

• Duração da carga: 30" - 2'

• Intensidade da carga: Máxima

• FC: 185-195

• % VO2 máx.: 100

• Anaeróbio (aláctico:láctico): aeróbio: 80 (65:35):20

• % fonte aláctica: 15 - 30

• % fonte láctica: 50

Page 376: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 337

• % fonte aeróbia (hidratos de carbono): 20 - 35

• % fonte aeróbia (lípidos): 0

Factores decisivos

• potência láctica

• tolerância láctica

• potência aeróbia

• nível de velocidade ou de força máxima

• técnica

• nível de activação (libertação de catecolaminas)

4.4.2.2. Resistência de Média Duração

Características

• Duração da carga: 2' - 11'

• Intensidade da carga: Máxima

• FC: 190-200

• % VO2 máx.: 100 - 95

• Anaeróbio (aláctico:láctico): aeróbio: 60 (40:60):40

• % fonte aláctica: 10 - 5

• % fonte láctica: 40 - 55

• % fonte aeróbia (hidratos de carbono): 40 - 60

• % fonte aeróbia (lípidos): 0

Factores decisivos

• potência aeróbia

• tolerância láctica

• reservas de glicogénio

• níveis de força ou velocidade específicos.

4.4.2.3. Resistência de Longa Duração

4.4.2.3.1. Resistência de Longa Duração I

Page 377: Metodologia Do Treino Desportivo

338 • Metodologia do treino desportivo I !

Características

• Duração da carga: 11' - 30'

• Intensidade da carga: Submáxima

• FC: 180

• % VO2 máx.: 95 - 90

• Anaeróbio (aláctico:láctico): aeróbio: 30 (20:80):70

• % fonte aláctica: 0

• % fonte láctica: 20 - 30

• % fonte aeróbia (hidratos de carbono): 60 - 70

• % fonte aeróbia (lípidos): 10

Factores decisivos

• potência aeróbia

• limiar anaeróbio

• tolerância láctica (níveis de lactatémia moderados)

• reservas de glicogénio (sobretudo muscular)

4.4.2.3.2. Resistência de Longa Duração II

Características

• Duração da carga: 30' - 90'

• Intensidade da carga: Submáxima

• FC: 170

• % VO2 máx.: 90 - 80

• Anaeróbio (aláctico:láctico): aeróbio: 10:90

• % fonte aláctica: 0

• % fonte láctica: 5 - 10

• % fonte aeróbia (hidratos de carbono): 70 - 75

• % fonte aeróbia (lípidos): 20

Factores decisivos

• limiar anaeróbio

• potência aeróbia

Page 378: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 339

• reservas de glicogénio (sobretudo muscular)

• oxidação de lípidos

• regulação térmica

4.4.2.3.3. Resistência de Longa Duração III

Características

• Duração da carga: > 90'

• Intensidade da carga: Média

• FC: 160

• % VO2 máx.: 80 - 60

• Anaeróbio (aláctico:láctico): aeróbio: 5:95

• % fonte aláctica: 0

• % fonte láctica: < 5

• % fonte aeróbia (hidratos de carbono): 60 - 50

• % fonte aeróbia (lípidos): 40 - 50

Factores decisivos

• limiar anaeróbio

• potência aeróbia

• oxidação de lípidos

• reservas de glicogénio e neoglicogénese

• regulação térmica

• equilíbrio hídrico e electrolítico

5. Métodos de treino da resistência

5.1. Método contínuo

O método continuo caracteriza-se por exercícios de longa duração sem

interrupção. O efeito de treino destes métodos baseiam-se nos constantes

processos de reajustamento bioquímicos e fisiológicos, sendo utilizados

preferencialmente nas modalidades cíclicas de longa duração (atletismo -

fundo e meio-fundo, ciclismo, canoagem, etc.). Para as outras modalidades,

Page 379: Metodologia Do Treino Desportivo

340 • Metodologia do treino desportivo I !

como é o caso dos jogos desportivos colectivos, é fundamentalmente

utilizado para desenvolver a resistência de base, durante os períodos

preparatórios dos planeamentos anuais de treino. O método contínuo do

treino da resistência pode ser divido em: método contínuo uniforme e

método contínuo variado.

5.1.1. Método contínuo uniforme

Características: o método contínuo uniforme é caracterizado:

* por esforços de longa duração e intensidade (velocidade) constante.

Principais adaptações:

* a economia gestual;

* a adaptação funcional dos sistemas orgânicos relacionados com o transporte de O2 (volume sistólico, cavidades cardíacas e

capilarização);

* a automatização do gesto (estabilização do esteriotipo motor

dinâmico);

* a tolerância ao trabalho monótono.

Limites:

* as reservas de glicogénio (especialmente nos regimes intensivos);

* a taxa de degradação dos substractos (hidratos de carbono e ácidos

gordos);

* ao nível estrutural - o sistema cardio-vascular e o volume de sangue

circulante.

Variantes: o método contínuo uniforme pode conter as seguintes variantes

de acordo com a dinâmica da carga envolvida:

* o método contínuo uniforme extensivo, duração 8volume) superior,

intensidade baixa a moderada; e,

Page 380: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 341

* o método contínuo uniforme intensivo, basicamente caracterizado

por um aumento da intensidade (maior exigência orgânica e mental),

com o correspondente decréscimo no volume.

5.1.1.1. Método contínuo uniforme extensivo

Intensidade da carga:

* 60 a 80 % da velocidade de competição;

* entre o limiar aeróbio e o limiar anaeróbio; * 45 a 65 % do VO2 máx; e,

* a FC = 125-160 pulsações/min.

Duração da carga:

* 30' até 2 horas

Objectivos:

* economia do rendimento cardio-vascular;

* treino do metabolismo lipídico;

* estabilização do nível de rendimento alcançado; e,

* aceleração da regeneração

5.1.1.2. Método contínuo uniforme intensivo

Intensidade da carga:

* 90-95 % da velocidade de competição;

* na zona do limite anaeróbio; * 60 a 90 % do VO2 máx.;

* FC = 140-190 bat/min.

Duração da carga:

* 30' - 60'

Objectivos:

Page 381: Metodologia Do Treino Desportivo

342 • Metodologia do treino desportivo I !

* treino do metabolismo dos hidratos de carbono;

* aumento das reservas de glicogénio;

* compensação da lactatémia em esforço; * aumento do VO2 máx. através da capilarização e do rendimento

cardíaco;

* aumento do limite anaeróbio;

* conservação de uma intensidade de carga elevada.

Aspectos específicos:

* a carga com uma intensidade correspondente a 140 pul/min.

implica volume sistólico suficiente para constituir um estímulo para

o aumento das cavidades cardíacas (PLATONOV);

* o regime intensivo é um estímulo adequado para a hipertrofia do

músculo cardíaco, o que pressiona, também, mais as adaptações

locais que o extensivo;

* o regime intensivo não deve ser utilizado mais de 3 vezes por

semana, senão o tempo dedicado à reposição das reservas de

glicogénio será demasiado curto;

* o método contínuo provoca aumento da rede de capilarização

mais acentuado estímulo ideal para esta adaptação parece consistir

na manutenção de elevados níveis de pressão sanguínea média e

grande velocidade de circulação durante um período mínimo de 30

minutos.

Tabela 6. Métodos continuos

5.1.2. Método contínuo variado

Capacidade funcional

Limiar anaeróbio ---- ------ -->> Limiar aeróbio

Designação Breve duração Média duração Longa duração Duração 20' - 30' 30' - 90' > 90' Regime de carga

Intensivo (80 % VO2)

---- ------ -->> Extensivo (50 % VO2)

FC (bat/min) > 170 150 - 170 130 - 150

Page 382: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 343

Características: o método contínuo variado é caracterizado por:

* esforços de longa duração, durante o qual se procede a variações de

intensidade.

A variação da intensidade pode ser determinada por:

* factores externos (perfil do terreno);

* factores internos (vontade do atleta);

* factores planeados (decisões de programação).

Objectivos:

* a adaptação à variação da solicitação metabólica;

* a capacidade de compensação da lactatémia durante as fases de

carga de intensidade baixa e média;

* a percepção e aprendizagem de ritmos diversos em variação

frequente;

* a capacidade de alterar ritmos de execução que é uma limitação

importante em muitas modalidades desportivas, inclusivamente de

carácter cíclico, onde esta capacidade faz parte da economia

energética da prestação;

* as mesmas adaptações que ocorrem com os métodos uniformes, no

que diz respeito ao sistema cardio-vascular, ao metabolismo e ao

sistema neuro-vegetativo, mas com menor importância.

Duração total:

* 20' a 2 horas

Intensidade:

* 140/145 - 175 FC máx.;

* 60 - 95 % da vel. de competição;

* entre o limiar aeróbio e a zona de acumulação inicial.

Page 383: Metodologia Do Treino Desportivo

344 • Metodologia do treino desportivo I !

5.2. Método por intervalos

O método de treino por intervalos caracteriza-se por exercícios onde o

organismo é submetido a períodos curtos, regulares e repetidos de trabalho

com períodos de repouso adequados. É utilizado quer nas modalidades

acíclicas, como é o caso dos jogos desportivos colectivos, quer nas cíclicas

para desenvolver a resistência específica, fundamentalmente durante os

períodos preparatórios específicos e competitivos dos planeamentos anuais

de treino.

O método por intervalos pode ser dividido em: método por intervalos com

pausas incompletas (treino intervalado) e método por intervalos com pausas

completas (treino de repetições).

5.2.1. Pausa incompleta - Treino intervalado

Características: método por intervalos com pausas incompletas (treino

intervalado) é caracterizado:

* por períodos de repouso que não permitem a recuperação completa

dos parâmetros cardio-circulatórios e ventilatórios (princípio da carga

lucrativa).

Principais adaptações:

* a ampliação do "âmbito funcional dos diferentes sistemas orgânicos"

* a estabilização dos padrões motores perante condições adversas

internas (fadiga)

* a tolerância ao desencadear de acções motoras apesar do incómodo

das sensações que acompanham estados elevados de fadiga.

Componentes do método de treino intervalado

* Período de esforço

Page 384: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 345

Os períodos de esforço são caracterizados pela sua duração, sendo

sempre referenciados a uma determinada intensidade solicitada,

embora em modalidades cíclicas seja habitual trabalhar com percursos

ou distâncias a percorrer. Para o treino intervalado pode apresentar-se

a seguinte classificação, adaptada de Zintl:

- períodos de esforco de curta duração I (15"- 45")

- períodos de esforço de curta duração II (45" - 2')

- períodos de esforço de média duração (2' - 8')

- períodos de esforço de longa duração (8' - 15').

Se a duração do esforço é inferior à situação de competição ou ao

parâmetro de duração padrão para um determinado objectivo, a

duração dos intervalos de repouso devem ser breves, de modo que o

exercício seguinte seja executado sobre uma base de fadiga. Neste

caso é a série que dá a medida e a orientação ao estímulo de treino.

Quando a duração do exercício é mais longa, as pausas podem ser

mais prolongadas, pois é em cada um dos exercícios que se produz o

efeito de treino, sem que intervenha com a mesma importância a acção

acumulada das cargas de treino. Neste caso é a repetição que dá a

medida e a orientação ao estímulo de treino.

* Intensidade

Um elemento essencial numa abordagem sistemática ao treino da

resistência é a determinação detalhada de níveis de intensidade. Cada

tarefa ou sessão de treino terá objectivos diferenciados no que diz

respeito ao impacto fisiológico procurado e são a duração e a

intensidade dos estímulos de treino propostos que permitirão cumprir

esses objectivos. Como sabemos, intensidade de um exercício pode

ser descrita em termos de kJ utilizados por unidade de tempo, percentagem relativa do VO2max ou da FCmax, nível de lactatémia

ou, nos desportos cíclicos, simplesmente controlando a velocidade de

Page 385: Metodologia Do Treino Desportivo

346 • Metodologia do treino desportivo I !

deslocamento ou a frequência do movimento em função do

desempenho máximo na distância ou tempo de esforço de referência.

A escala de intensidades proposta por Harre (1981), por exemplo,

distribui uma escala da qualidade do estímulo de treino entre os 30% e

os 105% da prestação máxima, com 6 categorias ou graus. Uma

terminologia deste género não nos dá, no entanto, qualquer

informação sobre o empenhamento metabólico envolvido no

exercício, uma vez que 90% de um esforço com a duração de 30

minutos, por exemplo, não tem, obviamente, o mesmo significado de

90% de um esforço de 30 segundos. Deste modo, no treino da

resistência será mais conveniente para o controlo das intensidades de

treino, a utilização de uma definição clara de zonas ou níveis de

intensidade com um significado metabólico objectivo e explícito.

Utilizando a terminologia já apresentada, podemos considerar quatro

níveis básicos de intensidade a utilizar no treino da resistência, que

podem expressar, igualmente, o objectivo funcional de uma

determinada tarefa de treino intervalado:

- limiar anaeróbio

- potência aeróbia

- tolerância lácica

- potência láctica

Em programas de treino onde a resistência é objecto de preparação

específica e constitui uma condicionante fundamental para o

desempenho competitivo é habitual aparecer uma distribuição mais

detalhada dos níveis de intensidade, proveniente do desdobramento

dos anteriores.

A consideração das intensidades de treino utilizadas no

desenvolvimento da resistência permite aceder a uma planificação do

Page 386: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 347

treino com uma base mais objectiva e quantificável, segundo

sequências de significado claro e justificável que permitam a

alternância, no microciclo, das cargas de alta e baixa intensidade para

que a compensação da fadiga seja realizada de um modo efectivo mas

que, ao mesmo tempo, se torne possível impôr uma estimulação

verdadeiramente significativa ao atleta.

Em termos práticos isto significa que o treinador, ao planear o

microciclo, define a quantidade de trabalho que pretende realizar em

cada zona de intensidade, concedendo depois a cada sessão de treino

uma determinada % do volume total para cada uma delas, de acordo

com a fase da época, as necessidades próprias de cada atleta e a

proximidade da competição (controlo circunstancial do factor

fadiga/compensação).

* Pausa

Os períodos de repouso que constituem a pausa no treino intervalado

não permitem a recuperação completa dos parâmetros

cardio-circulatórios e ventilatórios (princípio da carga lucrativa).

Pensou-se durante muitos anos que o facto de certos parâmetros

cardiovasculares, fundamentalmente o volume sistólico, apresentarem

valores acrescidos durante o início do repouso indicaria que as

principais adaptações se poderiam processar nesta fase. Com base

nesta concepção, entendia-se que a pausa deveria ter a duração

suficiente para o atleta atingir uma FC entre os 120 e os 130 bat/min.

Esta é uma interpretação limitativa do treino intervalado que

implicava trabalhar sempre a intensidades muito elevadas, de base

láctica, na verdade, o que talvez esteja na base da ideia que se

generalizou a partir de determinada altura de que este seria um método

agressivo para o organismo, passível, inclusivamente, de provocar

problemas cardíacos. Na realidade, o treino láctico de alta intensidade

Page 387: Metodologia Do Treino Desportivo

348 • Metodologia do treino desportivo I !

é, de facto agressivo, e o seu doseamento ao longo dos ciclos de treino

deve ser cuidadoso e bem adequado às características indviduais de

cada atleta. Não se pode, no entanto, generalizar esta característica

para o método do treino intervalado no seu todo.

A duração da pausa vai depender da duração de cada repetição e do

nível de intensidade em que se pretende trabalhar. O ponto

fundamental na prescrição da pausa para uma tarefa de treino

intervalado reside na possibilidade em manter a intensidade de esforço

proposta ao longo de todo o exercício. Neste sentido, procurar-se-á

utilizar a pausa mais curta possível que permita ao atleta cumprir o

objectivo da tarefa.

O regime da pausa pode ser activo ou passivo:

- Activo. Após esforços lácticos, consegue-se uma recuperação

mais eficiente através de um esforço cuja intensidade ronde os 60

% do VO2 máx.. A pausa activa inibe e reposição dos níveis

iniciais das reservas em fosfatos. O débito sistólico é mais alto não

só durante o período de esforço, mas principalmente durante o

período de recuperação ("Contra-esforço").

- Passivo quando se pretende enfatizar a solicitação do sistema

aeróbio e/ou do ATP-PC.

* Série

A série é um conjunto de períodos de esforço e de repouso

consecutivos agrupados com objectivos bem definidos em termos de

adaptação funcional. A divisão do volume de trabalho a realizar em

séries pretende fundamentalmente:

- melhorar a qualidade da tarefa de treino, permitindo ao atleta

trabalhar a níveis superiores de intensidade ou com uma melhor

resposta técnico-táctica;

Page 388: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 349

- aumentar o volume de treino sem fugir aos níveis de intensidade

prescritos;

- tornar mais variados os estímulos de treino.

Os quadros que se seguem pretendem expôr formas de organização e

combinação dos componentes do treino intervalado em função do

objectivo proposto, ou seja, do nível de intensidade em que se

pretende que o atleta trabalhe.

Tabela 7. Desenvolvimento do limiar anaeróbio

Tabela 8. Desenvolvimento da potência aeróbia

Período de esforço

Longa duração (8' - 15')

Média Duração (2' - 8')

Curta duração II (45" - 2')

Curta duração I (15" - 45")

Trabalho: pausa

1:1 a 1: 1/8

1:1/4 a 1: 1/12

1: 1/8 a 1: 1/12

1: 1/8 a 1: 1/12

Intensidade % vel. máxima FC (bat/min) [La] (mmol/l) VO2 (%VO2max)

80 - 90

140 - 170

2 - 4

75 - 90

75 - 90

140 - 170

2 - 5

75 - 90

65 - 80

140 - 170

2 - 4

75 - 90

65 - 80

140 - 170

2 - 4

75 - 90

Volume Total (duração)

> 30'

> 30'

> 30'

> 30'

Frequência Séries x (rep)

1 x (2 a 4)

2 a 3 x (4 a 12)

1 a 3 x (20 a 40)

1 a 3 x (30 a 60)

Período de esforço

Longa duração (8' - 15')

Média Duração (2' - 8')

Curta duração II (45" - 2')

Curta duração I (15" - 45")

Trabalho: pausa

1:1 a 1: 1/2

1:1 a 1: 1/4

1: 1/8 a 1: 1/12

1: 1/8 a 1: 1/12

Intensidade % vel. máxima FC (bat/min) [La] (mmol/l) VO2 (%VO2max)

> 90 > 170 6 - 8 > 90

85 - 90 > 170 6 - 8 > 90

75 - 90 > 170 6 - 8 > 90

75 - 85 > 170 6 - 8 > 90

Volume Total (duração)

< 45'

< 45'

8' a 12' por série

8' a 12' por série

Frequência Séries x (rep)

1 x (1 a 3)

3 a 5 x (2 a 8)

3 a 5 x (6 a 12)

3 a 5 x (12 a 20)

Page 389: Metodologia Do Treino Desportivo

350 • Metodologia do treino desportivo I !

Tabela 9. Desenvolvimento da tolerância láctica

Tabela 10. Desenvolvimento da potência láctica

5.2.2. Pausa completa - Treino de repetições

Características: método por intervalos com pausas completas (treino de

repetições) é caracterizado:

* por períodos de repouso que permitem a recuperação completa dos

parâmetros cardio-circulatórios e ventilatórios. A efectividade deste

Período de esforço Média Duração (2' - 8')

Curta duração II (45" - 2')

Curta duração I (15" - 45")

Trabalho: pausa

1:1 a 1: 2

1:1/2 a 1: 6

1: 1/2 a 1: 1/6

Intensidade % vel. máxima FC (bat/min) [La] (mmol/l)

95 - 99 máx. > 10

85 - 95 máx. > 10

85 - 90 máx. > 10

Volume Total (duração)

< 30'

< 30'

6' a 8' por série

Frequência Séries x (rep)

3 a 5 x (2 a 8)

1 a 3 x (3 a 12)

3 a 5 x (6 a 12)

Período de esforço Curta duração I (15" - 45")

Trabalho: pausa

1: 1 a 1: 6

Intensidade % vel. máxima FC (bat/min) [La] (mmol/l)

> 95 máx. > 6

Volume Total (duração)

< 20'

Frequência Séries x (rep)

1 a 3 x (3 a 12)

Page 390: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 351

método decorre das fases de carga altamente intensos durante os quais

se realizam todos os processos fisiológicos e mecanismos de

regulação até alcançar o nível funcional exigido.

Principais adaptações: deste método de treino são fundamentalmente:

*equivalente ao método intervalado de carácter mais intensivo;

*aumento da amplitude funcional complexa.

Componentes do método de treino de repetições

* método de repetições com períodos de esforço longos;

* método de repetições com períodos de esforço médios;

* método de repetições com períodos de esforço curtos.

Tabela 11. Método de repetições

Método de repetições com intervalos longos

Método de repetições com intervalos médios

Método de repetições com intervalos curtos

Intensidade submáx. a máx. 80-90 % V.C.

máxima 90-95 % V.C.

máxima 90-95 % V.C.

Duração 2'-3' 45"-60" 20" - 30" Pausa completa:10'-12'

(FC < 100 bat/min)

completa:8'-10' (FC < 100 bat/min)

completa:8'-10' (FC < 100 bat/min)

Volume 3-5 rep 4-6 rep 6-8 rep

5.3. Método de competição ou controlo

Características: método de competição ou controlo é caracterizado:

* por uma carga única, que requere o rendimento máximo do momento.

Variantes: o método de competição ou controlo pode contêr as seguintes

variações:

* maior duração, abrandamento da intensidade em relação à situação de

competição;

Page 391: Metodologia Do Treino Desportivo

352 • Metodologia do treino desportivo I !

* menor duração, aumento da intensidade em relação à situação de

competição.

Principais adaptações:

* solicitação da amplitude funcional complexa a um nível máximo; e,

* preparação directa para a competição

Tabela 12. Método de competição ou controlo

Intensidade máx. a supramáx. 95-100 % V.C.

Duração ±10-20 % da distância de competição

Pausa completa

6. Métodos intervalados versus métodos contínuos

1. Os métodos intervalados permitem que se alcance maior volume de

trabalho, em simultâneo com uma maior intensidade ( pode ser 2.5 vezes

superior ao que acontece num exercício contínuo, para uma mesma

lactatemia).

2. Muitas modalidades caracterizam-se por um esforço de tipo intermitente,

logo, os métodos intervalados permitem uma estimulação mais próxima da

velocidade de competição.

4. Os métodos intervalados podem ser utilizados para recrutar

especificamente as fibras de contracção rápida.

5. Ganhos similares no VO2 máx. nos dois métodos.

6. Os métodos contínuos são mais recomendados para o desenvolvimento da

capacidade central de transporte de O2 através de alterações adaptativas no

próprio músculo cardíaco.

7. Os métodos intervalados podem desenvolver de um modo mais selectivo

a capacidade do músculo extrair O2 e provocar níveis baixos de lactatémia

durante esforço submáximo (adaptações locais).

Page 392: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Resistência • 353

8. O débito cardíaco é ligeiramente superior no esforço intermitente do que

no esforço contínuo, havendo, no entanto, menor débito periférico, logo,

comparando com um esforço contínuo ao mesmo nível de VO2, há mais

pressão sobre os componentes central e periférico do sistema aeróbio.

9. Quando o intervalo de esforço e a pausa são curtos, a utilização de

glicogénio pode ser inibida e a utilização dos ácidos gordos favorecida.

10. Uma metodologia correcta combina os dois métodos. O

desenvolvimento óptimo de um tipo de resistência requer sempre uma

combinação óptima de vários métodos específicos. Isto não exclui, no

entanto, que durante certos períodos de preparação se apliquem

preferencialmente determinados métodos. Um factor essencial para a

selecção dos métodos é o objectivo do ciclo de treino em vigor.

11. O critério preferencial de selecção de um método para o

desenvolvimento da resistência são os seus efeitos biológicos. Para que as

decisões ao nível da programação sejam as mais adequadas é necessário

dominar:

a)- os factores decisivos para o rendimento do tipo de resistência em

questão;

b)- os efeitos principais do método de treino que se pretende aplicar.

Page 393: Metodologia Do Treino Desportivo

354 • Metodologia do treino desportivo I !

w

Page 394: Metodologia Do Treino Desportivo

PARTE IV

OS FACTORES DE TREINO DESPORTIVO

Capítulo 3

Estudo do factor físico desportivo

Secção C - Estudo sobre a velocidade

Resp: Jorge Vieira

Page 395: Metodologia Do Treino Desportivo

354 • Metodologia do treino desportivo I !

Conteúdo da Secção C do Capítulo 3 da Parte IV

Neste Secção estudaremos o factor físico desportivo no plano da

velocidade. Com efeito, esta representa a capacidade de efectuar acções

motoras em determinadas condições num mínimo de tempo, sendo

assim caracterizada por mudanças rápidas do estado de contracção e de

descontracção dos diferentes grupos musculares. Neste contexto,

incidiremos a nossa reflexão sobre os factores condicionantes desta

capacidade (nervosos, musculares, energéticos e volitivos), as formas

de manifestação da velocidade (reacção, execução aceleração, máxcima e

resistente), os métodos de treino da velocidade (continuo, por

intervalos e de competição ou controlo), e as bases metodológicas.

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Parte VII

Planeamento dotreino desportivo

PlaneamentoConceptual

Planeamento Estratégico

Planeamento Táctico

Estrutura doprocesso de treino

PeríodoPreparatório

PeríodoCompetitivo

PeríodoTransitório

Periodizacão dotreino desportivo

Microestrutura

Mesoestrutura

Macroestrutura

Parte VIII

Parte IX

O controlo dotreino desportivo

Metodologia do treino desportivo I Conteúdo Programático

Fundamentos doexercício de treino

Conceitos do treino desportivo

Factores do rendi-mento desportivo

O exercício de trei-no desportivo

Bases conceptuais exercício de treino

Bases de aplicaçãoexercício de treino

Bases de eficáciaexercício de treino

Factores do treino desportivo

O factor técnico desportivo

O factor táctico desportivo

O factor físico desportivo

Estudo sobrea força

Estudo sobre a resistência

Estudo sobre a velocidade

Estudo sobre a flexibilidade

O treinadorperfil e competências

Organigrama 12

Page 396: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Velocidade • 355

Parte IV

Os factores de treino

Sumário

Capítulo 3 - Estudo sobre o factor físico desportivo

Secção C - Estudo sobre a velocidade

1. A velocidade como capacidade elementar

2. Definição

3. Em que modalidades desportivas se manifesta a velocidade

4. Formas básicas de estruturação da velocidade 4.1. Velocidade de reacção 4.2. Velocidade de execução 4.3. Capacidade (velocidade) de aceleração 4.4. A velocidade máxima 4.5. A velocidade resistente

5. Factores de que depende a velocidade 5.1. Velocidade de propagação dos impulsos nervosos 5.2. Elevada quantidade de fibras de contracção rápida 5.3. Capacidade de recrutar um número elevado de fibras musculares 5.4. capacidade de alternância de contracção e descontracção muscular 5.5. A mobilização da vontade 5.6. Eficiência dos mecanismos bioquimicos 5.7. A qualidade técnica 5.8. Nível de mobilidade articular

6. Conceitos fundamentais no treino da velocidade 6.1. Programa temporal

6.1.1. Movimentos acíclicos 6.1.2. Movimentos cíclicos

6.2. transferência dos programas temporais

7. Orientaçõesmetodológicas para o treino da velocidade 7.1. Treino da velocidade elementar

7.1.1. Velocidade acíclica elementar 7.1.2. Velocidade cíclica elementar

7.2. Treino da velocidade complexa 7.2.1. Nos jogos desportivos colectivos e nos jogos de combate 7.2.2. Recomendações metodológicas

7.3. O treino da velocidade de reacção 7.4. Treino das capacidades de velocidade no sprint

7.4.1. Capacidade de aceleração 7.4.2. Velocidade máxima 7.4.3. Velocidade resistente

Page 397: Metodologia Do Treino Desportivo

356 • Metodologia do treino desportivo I !

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ZATSIORSKY, V., (1966) Les qualités physiques du sportif, Moscovo, Doc

INS nº685

Page 398: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Velocidade • 357

O objectivo central do treino desportivo é preparar os praticantes para a

obtenção dos seus melhores resultados, quer no âmbito individual quer

colectivo. O progresso do rendimento desportivo - quer individual quer

colectivo - realiza-se sobre uma base vocacional/genética que caracteriza o

próprio praticante. Esta ideia é frequente no que diz respeito ao treino da

velocidade. "Os sprinters nascem não se fazem" é a frase muito divulgada e a que

melhor pode ilustrar a suspeita generalizada de que a velocidade não é muito

permeável ao aperfeiçoamento.

Todavia, a velocidade é a capacidade motora mais importante do complexo de

pressupostos em que se baseia o rendimento desportivo. Com efeito, a

evolução e a tendência dos factores técnico e táctico dos praticantes expressas

muito especialmente pelas características das competições, sejam os resultados

obtidos através de grandezas mensuráveis ou por avaliações pontuais. A

velocidade participa intensamente no rendimento sinteticamente medido ou por

metros, por segundos, por quilogramas, por golos, por pontos, etc.

A performance final na generalidade das modalidades desportivas é em

primeiro lugar condicionada pela velocidade com que os praticantes executam

as suas tarefas. No fundo trata-se sempre de reagir mais rapidamente, de

realizar o movimento mais velozmente, para se antecipar e alcançar superação

a correr, saltar, lançar, interceptar, bater, levantar, virar, atacar (defender), etc.

Daqui resulta, evidentemente, uma dinâmica de carga na qual a velocidade se

acentua como factor condicionante do sucesso, associada, como é óbvio, às

demais componentes da estrutura complexa da performance desportiva.

As dúvidas existentes sobre a treinabilidade da velocidade têm a ver com a

relação custo - benefício, muito desfavorável para o praticante. Ao

investimento realizado no treino não tem correspondido uma evolução

proporcional do rendimento da velocidade, pelo menos em idêntica proporção

Page 399: Metodologia Do Treino Desportivo

358 • Metodologia do treino desportivo I !

à de outras capacidades motoras. Na base da evolução do rendimento

desportivo tem estado quase sempre o pressuposto de que tudo evolui em torno

do volume e da intensidade do treino. O volume, sobretudo, marcou toda a

última fase de desenvolvimento do treino desportivo. O treino da velocidade

orientou-se, na prática, por princípios idênticos ao do treino das outras

capacidades. Sabe-se hoje, porém, que a organização funcional que responde à

velocidade não se rege pelos mesmos princípios. É com base nesta afirmação

que se dará forma a esta introdução ao treino da velocidade.

1. Velocidade como capacidade elementar

A velocidade é uma das capacidades que constituem o complexo condicional -

coordenativo. À semelhança da força e da resistência a velocidade é

considerada uma dimensão motora dada a sua autonomia (ou independência)

relativamente às outras capacidades. Com um significado semelhante,

Bauersfeld e Voss (1992) designam "a velocidade como pressuposto elementar

do rendimento desportivo".

Estes autores definiram as características que quando reunidas caracterizam um

pressuposto elementar, a saber:

• é determinado e influenciado, de forma dominante, por um determinado

sistema funcional;

• é transferível entre movimentos estruturalmente semelhantes;

• tem significado para todos os movimentos (gestos) desportivos, estando

assim contido em todos os gestos desportivos;

• o seu grau de expressão não é influenciado pelo grau de expressão de

outros pressupostos do rendimento ainda que surja a eles associada no

movimento e com eles estabeleça relações;

• em rendimentos desportivos de alto nível não são compensáveis, isto é,

um grau de expressão insuficiente de uma capacidade não é compensável

por um outro pressuposto do rendimento desenvolvido acima da média;

Page 400: Metodologia Do Treino Desportivo

" Estudo do factor físico desportivo - Velocidade • 359

• necessita para o seu desenvolvimento, de um sistema, próprio, de m