PORTUGALA n. 14 * · à administração chinesa — no seguimento da revolução de 1974 que ......

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  • PORTUGALAn.o 14 * NOVEMBRO 2009 * semestral

    Noticirio MalacolgicoINSTITUTO PORTUGUS DE MALACOLOGIA

    Membro filiado da UNITAS MALACOLOGICA

    Avanar & Divulgarpor JOAQUIM REIS ................................. 2

    Breve histria do estudo da famliaConid em Portugal (1974-2009)por ANTNIO MONTEIRO ..................... 3

    Balano para o futuropor GONALO CALADO ........................ 8

    Gentica da espcie polimrficaCantareus aspersus(O. F. MLLER 1774)

    por ROLANDA ALBUQUERQUEDE MATOS ....................................... 9

    Resistncia fsica e danos na conchade ameijola (Callista chione):Contribuio para a minimizao

    dos impactos da pescacom ganchorrapor PAULO VASCONCELOS,

    ANTNIO MORGADO-ANDR,CARLOS MORGADO-ANDR& MIGUEL B. GASPAR ................... 19

    Efeitos das alteraes climticasna recuperao de uma populaode Hydrobia Ulv(Mollusca: Gastropoda)por PATRCIA CARDOSO ........................ 24

    Os fsseis de Santa Mariapor SRGIO P. VILA ............................. 29

    A Malacologia nos Aores:o ontem e o hojepor ANTNIO M. DE FRIAS MARTINS . 34

    A idade da malacofauna pliocnicada Bacia do Mondego (Portugal)e suas implicaespaleoceanogrficaspor CARLOS MARQUES DA SILVA

    & BERNARD LANDAU .................... 43

    Bermudas: no tringulo procura de opistobrnquiospor MANUEL ANTNIO E. MALAQUIAS 47

    NOTCIAS DO RECTNGULO 12por ANTNIO MONTEIRO .................... 50

    INFORMAES GERAIS

    Publicaes recentes .................... 52

    Reunies, Cursos e Exposies . 53

    Neste nmero

    Editorial ano de 2009, foi sem dvida um ano de muitos e positivosacontecimentos na vida do IPM, marcado sobretudo pela tomada deposse de uma Direco Nacional totalmente renovada, pelo sucessonas candidaturas a projectos nacionais de Investigao &Desenvolvimento financiados pela FCT, pela publicao de um

    livro no mbito da histria da Malacologia em Portugal (ver neste nmero pgina 52),e pelo recrutamento de um novo elemento para organizar e catalogar as colecescientficas da instituio.

    Este ano, marca igualmente o adeus da equipa editorial da Portugala, que nosltimos sete anos assegurou a publicao regular da newsletter. O ano de 2010,ir trazer uma nova Portugala, com uma equipa renovada, que imprimir, qui,um novo rumo publicao.

    Queria eu meu nome, como Editor, agradecer a todos os que contriburampara fazer deste projecto uma realidade; queria deixar aqui uma palavra de apreoespecial, ao ncleo da equipa que com a sua participao mais assdua tornou o projectopossvel, nomeadamente o Editor Grfico (M. M. Malaquias) e o autor da rubricaNotcias do Rectngulo (Antnio Monteiro).

    Neste ltimo nmero, bastante mais volumoso que o habitual, reunimoscontribuies vrias, de individualidades que ao longo dos ltimos anos tm mantidoa Malacologia bem viva no nosso pas. Que assim continue!

    Votos de um Bom Natal e de um Feliz 2010.O EDITOR

    O

  • 2 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    PORTUGALAn.o 14 * NOVEMBRO 2009 * semestralISSN 1645-9822 * Depsito Legal 210446/04

    Noticirio Malacolgicodo INSTITUTO PORTUGUS

    DE MALACOLOGIA

    Director: JOAQUIM REISSecretrio: MANUEL LOPES LIMAEditor: MANUEL ANTNIO E. MALAQUIAS

    Colaboramneste nmero:

    ANTNIO M. DE FRIAS [email protected]

    ANTNIO [email protected]

    BERNARD [email protected]

    CARLOS MARQUES DA [email protected]

    PATRCIA [email protected]

    GONALO [email protected]

    JOAQUIM [email protected]

    MANUEL ANTNIO E. MALA [email protected]

    PAULO [email protected]

    ROLANDA ALBUQUERQUE DE [email protected]

    SRGIO P. [email protected]

    Grfico: M. M. [email protected]

    O contedo dos artigos publicados da exclu -siva responsabilidade dos seus Autores

    O IPM apoiadopelo Fundo de Apoio Comuni -dade Cientfica, da Fundaopara a Cincia e Tecnologia

    INSTITUTO PORTUGUSDE MALACOLOGIA

    Zoomarine - E. N. 125 km 65Guia - 8201-864 ALBUFEIRA

    PORTUGAL

    Tel: 289 560 300 * Fax: 289 560 309 E-mail: [email protected]

    incontornvel neste final de ano fazer refernciaao livro recm-publicado da Dra. ROLANDA ALBUQUERQUE

    DE MATOS, sobre a vida e obra de JOS DA SILVA E CASTRO,

    um malaclogo portugus do sculo XIX cuja biografia

    era praticamente desconhecida. Um livro editado

    pelo IPM e que resulta do

    em penho inesgotvel da

    Dra. Rolanda, cuja con -

    tribuio para a Mala -

    cologia Portuguesa tem

    sido inestimvel ao longo

    de muitos anos, por vezes

    sem a merecida visibi -

    lidade. Assim se vai divul -

    gando o que se faz e o que

    se fez em Malacologia

    em Portugal, e o IPM ter

    sempre um forte empenho

    para que essa divulgao

    acontea, cada vez mais. O acesso informao de

    facto crucial para o avano da Cincia. Nesse sentido, a

    contribuio do novo cola borador do IPM Joo Monteiro,

    que se vai dedicar a organizar e catalogar a biblioteca

    e coleces para que sejam de fcil acesso e consulta, ser

    sem dvida significativa. Com a colaborao de todos,

    vamos tornar a Malacologia em Portugal mais acessvel

    e cativante!

    Avanar&Divulgar

    por JOAQUIM REISPresidente da Direco

  • NO tendo Portugal uma tradio muito forte no que respeita investigao malacolgica, a partir de meados do sculo XX perodo subsequente aos conhecidos trabalhos de AugustoNobre sobre a fauna portuguesa (1) e bem assim aos de Joo

    Fraga de Azevedo e a sua escola versando essencialmente aspectos deparasitologia e sade pblica (2) , pode parecer invulgar que, depoisde 1974, se tenha registado no nosso pas um grande interesse pelo estudoda famlia Conid, em particular com as populaes referentes a estafamlia para diversas localidades da costa ocidental africana. Sabendo-seque a memria dos homens curta e como muitas vezes difcilreconstituir a histria de acontecimentos pretritos, julgamos oportunoregistar aqui algumas linhas explicativas do que se poderia primeiravista considerar um desvio significativo em relao a um comportamentocorrente. Em parte, a coisa resume-se a um caso de serendipidade (3)e uma boa parte da histria tem a ver com a poltica internacional...

    Na realidade, tendo o nosso pas estabelecido, durante perto decinco sculos, diversas colnias em frica Cabo Verde, Guin, S. Tome Prncipe, Angola e Moambique e na sia Estado da ndia, Macaue Timor, verificou-se que, a partir da dcada de 1960, diversos movi -mentos polticos iniciaram longas e sangrentas lutas pela independncia,que acabariam por obter com excepo do Estado da ndia, anexadomuito antes pela Unio Indiana e de Macau, posteriormente entregue administrao chinesa no seguimento da revoluo de 1974 quederrubou o regime poltico que governara o pas durante vrias dcadas.

    Este estado de coisas teve duas importantes consequncias, do pontode vista malacolgico. Em primeiro lugar, durante os tempos de guerracolonial, muitos milhares de jovens foram incorporados nas forasarmadas portuguesas e mandados combater em frica ou em Timor;nessas regies tropicais, especialmente em Moambique, tiveram o seuprimeiro contacto com conchas exticas que despertou nalgunsdeles o desejo de coleccionar. Em segundo lugar, aps a indepen- dncia daqueles territrios, muitos portugueses verificaram que jno eram bem-vindos nessas regies, o que levou muitos milharesa retornar a Portugal, sendo que vrios coleccionadores trouxeramconsigo as suas coleces.

    Isto fez com que, em finais da dcada de 1970, tivssemos principalmente na regio de Lisboa um nmero que se podeconsiderar elevado de coleccionadores avanados e de coleces rela -tivamente importantes.

    Um outro aspecto que deve ser tido em conta para se compreenderparte da histria contempornea da Malacologia portuguesa foi que,

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 3

    por ANTNIO MONTEIRO

    Breve histriado estudo da famlia Conid

    em Portugal (1974-2009)

    (1) Para uma bibliografia exaustiva, ver otrabalho de Carlos Almaa Publi -caes do Prof. Dr. Augusto Nobresobre oceanografia biolgica, noBoletim da Sociedade Portuguesa de CinciasNaturais, 2 srie, 11: 15-25

    (2) Para uma bibliografia exaustiva, vera revista O Mdico, ano XXVII, vol.LXXVIII, n 1270, de 1 de Janeiro de1976

    (3) Neologismo adaptado, julgamos queprimariamente no Brasil, a partir doingls serendipity, que designa, de modogenrico, a circunstncia de se fazerquase por acaso, qualquer descobertainteressante. O termo serendipity foicriado em 1754 pelo escritor britnicoHorace Walpole (1717-1797), numacarta que dirigiu ao seu amigo HoraceMann. Nessa carta, Walpole explicavaque a palavra derivava de Serendip, queera um antigo nome rabe para a ilhade Ceilo (Sri Lanka) e que ele tinhaencontrado numa histria de fadasintitulada Os Trs Prncipes de Serendip,cujos protagonistas, ao longo das suasviagens, faziam descobertas inespe -radas, de factos que no procuravamespecificamente.

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    cerca de uma dcada mais cedo, o presidente do Centro Portugusde Actividades Subaquticas (CPAS), o arquitecto Jorge Albuquerque,era, por casualidade, coleccionador de conchas.

    Durante o seu mandato, o CPAS organizou um certo nmero deexpedies de mergulho a diversos pontos da costa ocidental de frica,especialmente ao arquiplago de Cabo Verde e costa de Angola. Duranteessas viagens, foram recolhidas numerosas amostras da fauna mala -colgica local, que foram trazidas para Lisboa.

    Um dos membros dessas expedies, antigo campeo de natao eexcelente amigo, era Herculano Trovo.

    No tendo quaisquer conhecimentos sobre conchas, Trovo ficoufascinado pela diversidade de populaes de Cones que tinham sidoencontradas em Cabo Verde e em Angola e, com a ajuda de um jovemmergulhador e coleccionador, Lus Pisani Burnay, comeou a estudar asamostras recolhidas, chegando rapidamente concluso de que vriasdelas no eram identificveis.

    Beneficiando de algumas condies tcnicas favorveis propor -cionadas pelo CPAS e inspirando-se em diversos trabalhos que leuavidamente, sobre a estrutura morfolgica dos dentes radulares dasespcies da famlia Conid, Trovo que tinha efectivamente umesprito inquisitivo, uma grande persistncia e uma habilidade manualque lhe permitiu dominar rapidamente diversas tcnicas laboratoriais iniciou assim um estudo aprofundado que culminou na publicao,em 1975, dos seus primeiros trabalhos, onde foi descrevendo diversasnovas espcies para a fauna angolana, tais como os Conus cepasi, nobrei,musivus, etc.

    Deve notar-se que, de incio, Herculano Trovo estava muitoconfiante nos seus mtodos, resultados e concluses. Infelizmente, porm,a reaco geral s suas publicaes no foi to entusistica nem tofavorvel quanto ele esperaria. Essa circunstncia ter-se- devido,muito provavelmente, ao facto de muitos dos leitores dos seusartigos, em diversos pontos do Globo, no terem informao adequadapara os avaliar correctamente; tambm ser bom lembrar queTROVO era, para a generalidade desses mesmos leitores fossem elesbilogos profissionais ou coleccionadores avanados, por vezes dereputao mundial um ilustre desconhecido, oriundo de um pas

    pequeno, obscuro e com poucastradies na rea. O caso que asnovas espcies que foram sendopublicadas no foram to bemrecebidas no Olimpo da nomen -clatura malacolgica como o nossoautor teria imaginado.

    TROVO ficou, pode dizer-se,desolado com tal acolhimento,ainda mais quando se demons -trou, sem margem para dvidas,que uma dos seus novos taxa por ironia uma daquelas sobreque menos dvidas impendiam, oConus amethystinus TROVO, 1975

    Herculano Trovo (1923-2001).

    Conus cepasi TROVO, 1975.

  • era simplesmente um sinnimodo C. carnalis SOWERBY, 1879.De uma postura de grandeconfiana, passou rapidamente auma acen tuada insegurana quelevou mesmo a que, depois doncleo inicial de trabalhos,Trovo tenha publicado poucomais. Pelo menos num caso,podemos teste munhar que tevepraticamente pronta, por mais dedez anos, a descrio de uma novaespcie, mas foi adiando sempre asua publicao, por sentir queprecisava de mais qualquer coisa,sempre mais qualquer coisa, que tornasse inabalveis as suas concluses.

    Houve que esperar cerca de vinte anos para ver essa descrita, noano 2000, pelos nossos bons amigos Emilio Roln, de Vigo, Espanha,e Dieter Rckel, de Eberbach am Neckar, Alemanha. Apropriadamente,os autores atriburam-lhe o nome de Conus trovaoi.

    Os trabalhos de Herculano Trovo marcaram assim o incio doestudo moderno da fauna malacolgica e especialmente da famlia Conidna frica ocidental.

    Logo aps a independncia da Repblica de Cabo Verde, em1975, Lus Burnay e Henrique Lichtenstein visitaram o arquiplago e lrecolheram numerosos exemplares de conchas de diversas famlias.O estudo dos materiais ento recolhidos foi resumido, em 1977, por LusBurnay e Antnio Monteiro, num pequeno livro (edio de autor). A essetrabalho inicial seguir-se-ia, j em 2005, a obra Malacological Fauna fromthe Cape Verde Archipelago, de que, at ao momento, foi publicada somentea primeira parte, dedicada s classes Aplacophora, Polyplacophora eGastropoda.

    Os esforos assim desenvolvidos, a partir da dcada de 1970, parao estudo e identificao das populaes provenientes de diversos pontosda costa ocidental de frica, entre as quais sempre se destacaram, pelasua abundncia e variabilidade, as amostras pertencentes famlia Conid,no podiam deixar de chamar a ateno de muitos outros coleccionadorese investigadores. Entre os que visitaram as ilhas de Cabo Verde,por exemplo, justo sublinhar (4) os nomes de Jos Pedro Borges,Francisco Fernandes, Guido Poppe, Dieter Rckel, Gonalo Rosa,Graham Saunders, Guilherme Soares, Manuel Jimenez Tenorio e outros,e entre estes dar especial relevo a Emilio Roln Mosquera, autor de largascentenas de artigos, muitos deles referentes costa africana. Houvetambm recolhas no Senegal (Paulo Granja, Gonalo Rosa, GuilhermeSoares, etc.), em S. Tom e Prncipe (Ildio Flix-Alves, Jos Faria e Silva,Guilherme Soares, etc.) e em Angola (Lus Albergaria Ambar e GuilhermeSoares, antes de 1974, depois Francisco Fernandes e, mais recentemente,Jos Rosado).

    Como natural, o arquiplago de Cabo Verde tem atrado um maiornmero de visitantes, j pela sua relativa proximidade da Europa, j pelomuito interesse da sua fauna malacolgica, onde se regista grande

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 5

    (4) Por ordem alfabtica de apelidos.

    Conus trovaoi ROLN & RCKEL, 2000.

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    variabilidade de espcies e elevadas taxas de endemismo, na famliaConid como noutras, como por exemplo Buccinid, representadapor numerosas espcies do gnero Euthria.

    Devendo salientar-se a boa harmonia geralmente reinante entretodos os participantes nesta extensa e multifacetada actividade derecolha, estudo e classificao, no surpreende que dela tenham resul -tado diversos trabalhos, muitos deles em regime de co-autoria.

    J em 1980, Dieter Rckel, Emilio Roln e Antnio Monteiro publi -caram Cone Shells from Cape Verde Islands a difficult puzzle, numa ediode autor. Nesse trabalho eram descritas diversas novas espcies.Muitas outras se lhes seguiriam, especialmente as que foram descritasem sucessivos trabalhos por Emilio Roln, e mesmo nos nossos diaso esforo de identificao e classificao de novas espcies no temparado, mormente atravs das diligncias de Manuel Jimenez Tenorioe de Carlos Afonso.

    Para alm dessa relativamente intensa actividade de estudo e inves -tigao, interessante salientar tambm que os nossos colec cionadorese comerciantes especializados se tornaram rapidamente nos principais quase exclusivos distribuidores de exemplares da famlia Conid,provenientes da costa ocidental africana, por todos os que, mundo fora,se interessam pelo assunto e por aquela famlia em especial.

    No aspecto comercial, em particular, j a extinta casa Tan-Tan,na Junqueira, em Lisboa, propriedade de Joaquim da Costa Torres,disps para venda, em finais da dcada de 1960, de um certo nmero deexemplares de Angola, precisamente dos que haviam sido recolhidos pelasexpedies organizadas pelo CPAS, muitos dos quais representandoespcies at a por descrever, como acima se explicou. Curiosamente, hque notar que do manuseamento desses exemplares resultou umacircunstncia a todos os ttulos desagradvel. O caso que muitas daspopulaes em questo foram recebendo nomes informais (como porexemplo alexandrinus, lilac, armatus, ficus, lineopunctatus,lobitensis, etc.), nomes que eram utilizados por Herculano Trovoe pelos que lhe eram prximos para mais facilmente distinguir as diversaspopulaes e lhes fazer referncia. Inadvertidamente, esses nomescomearam a ser conhecidos nos mais diversos quadrantes, a nvelinternacional, merc de vendas e trocas efectuadas poca. Daresultou que quando, em finais da dcada de 1970, a coleccionadoraamericana Sally Diana Kaicher lanou o seu projecto de publicao deuma espcie de pequenas fichas de identificao (quase em formato decarta de jogar), acabou por incluir ilustraes de diversas espcies deAngola, identificadas com esses nomes que nunca tinham sido objectode descrio nem de publicao formal. Mais ainda: se bem que asreferidas fichas no tivessem, partida, qualquer inteno de descriode novos taxa (tanto assim que no incluam nem descrio porme -norizada, nem comparao entre espcies afins, nem designao deexemplares tipo), a International Comission of Zoological Nomenclaturedeterminou ao que se sabe, por estreitssima margem na votaofinal que os nomes ali utilizados passassem a ser considerados comovlidos! A falta dos elementos acima referidos, porm, aconselhou a que,em trabalhos recentes (por exemplo, MONTEIRO, TENORIO & POPPE,2004) eles acabassem por ser tratados como nomina dubia.

    Bibliografia

    AFONSO, CARLOS M. L. & TENORIO, MANUELJIMENEZ, 2004. Description of a new off--shore species of Conus from the CapeVerde Archipelago (Gastropoda, Conid). La Conchiglia, 36 (310): 33-40.

    BURNAY, LUS P. & MONTEIRO, ANTNIO A.,1977. Seashells from Cape Verde Islands (1). 88 pp. Lisboa.

    BURNAY, LUS P. & MONTEIRO, ANTNIO A.,1988. Histria da Malacologia em Portugal,Publicaes Ocasionais da Sociedade Portuguesade Malacologia, n 12: 1-124.

    KAICHER, SALLY D., 1976-1977. Card catalogueof worldwide shells. Conid (part I-IV,cards # 1010-1434).

    MONTEIRO, ANTNIO, TENORIO, MANUELJIMENEZ & POPPE, GUIDO, 2004. A Con-chological Iconography: The Family Conid theWest African and Mediterranean species ofConus. ConchBooks, Hackenheim, 102 pp.,163 pls.

    PAES DA FRANCA, MARIA DE LURDES, 1957.Contribuio para o conhecimento dafauna malacolgica de Angola. Gasr -podes testceos. Trab. . Misso Biol. Mart.,13: 49-85.

    RCKEL, DIETER, COSEL, RUDO VON & BUR -NAY, LUS P., 1980. A new cone from CapeVerde Islands. La Conchiglia, 11 (130-131):10-11.

    RCKEL, DIETER & FERNANDES, FRANCISCO,1981. Conid from Angola. Part I. LaConchiglia, 13 (152-153): 3-5.

    RCKEL, DIETER & FERNANDES, FRANCISCO,1982a. Conid from Angola. Part II. LaConchiglia, 14 (154-155): 16-17.

    RCKEL, DIETER & FERNANDES, FRANCISCO1982b. Conid from Angola. Part III. LaConchiglia, 14 (156-157): 4-5.

    RCKEL, DIETER & FERNANDES, FRANCISCO,1982c. Conid from Angola. Part IV. LaConchiglia, 14 (164-165): 17-18.

    RCKEL, DIETER, ROLN, EMILIO &MONTEIRO, ANTNIO A., 1980. Cone Shellsfrom Cape Verde Islands a difficult puzzle. C174 pp., Vigo.

    ROLN, EMILIO, 1980. Descripcin de tres nue-vas especies del gnero Conus LINN, 1758(Mollusca: Gastropoda), procedentes delarchipilago de Cabo Verde. Boll. Mala-col., 16 (3-4): 79.94.

    ROLN, EMILIO, 1982. Endangered Conusspecies endemic to the Cape Verde islands. La Conchiglia, 14(150-151): 19-20.

    ROLN, EMILIO, 1985a. More on Cape Verdecones. La Conchiglia, 17 (194-195): 10-11.

    ROLN, EMILIO, 1985b. Aportaciones alconocimiento de los Conus de Cabo Verdepor las observaciones realizadas en acuario. Thalassas, 3 (1): 37-56.

    ROLN, EMILIO, 1986a. Descripcin de tresnuevas especies del genero Conus (Gas -tropoda) del Archipilago de Cabo Verde. Publicaes Ocasionais da Sociedade Portuguesade Malacologia, 6: 1-16.

    ROLN, EMILIO, 1987. Conus lugubris Reeve,1849 a valid species from the archipelagoof Cape Verde. La Conchiglia, 19 (222--223): 12-13.

  • Ainda no mbito comercial, ter sido Guilherme Soares atravsda sua firma Amonite, por volta da dcada de 1980 a comercializaros primeiros exemplares de qualidade, com identificaes correctase dados de localizao fidedignos. Mais tarde, Paulo Granja, depois PauloGranja e Gonalo Rosa e, mais recentemente ainda, Paulo Granja,na firma Deepn Reef e Gonalo Rosa, na firma Atoll Specimen Shells,tm apresentado aos coleccionadores uma seleco de praticamentetodas as espcies endmicas das ilhas de Cabo Verde e do Senegal.

    Modernamente, diversos comerciantes e numerosos colecciona -dores privados, dispondo de exemplares da costa ocidental africana,tm utilizado os diversos leiles que periodicamente se desenrolamatravs da Internet para propor para venda um sem fim de exemplaresda costa africana.

    No ficaria bem uma resenha da actividade que entre ns se temdesenvolvido nas ltimas dcadas, em torno da famlia Conid, sem umareferncia s espcies pertencentes fauna do Oceano ndico.

    Nesse campo, justo no esquecer os esforos desenvolvidos porAmarlio Ramalho para um melhor conhecimento da fauna deMoambique, nem o grande afluxo de material propiciador de novosestudos proveniente da actividade comercial de Csar Fernandes,Manuel Amorim e Paulo Granja. No entanto, a fauna moambicanano nos tem trazido um grande nmero de novas espcies para des -crever e, por conseguinte, o nmero de trabalhos que ultimamentelhe tm sido dedicados extremamente reduzido.

    O grande volume de artigos referentes s populaes da famliaConid presentes na frica ocidental e, em particular, os artigos deRCKEL E ROLN (2000; 2001), em que foram finalmente descritasdiversas espcies recolhidas no Sul de Angola, permitiu que, em 2004,Monteiro, Tenrio & Poppe publicassem a reviso The Family Conid the West African and Mediterranean species of Conus, integrada na obraA Conchological Iconography, editada pelo terceiro autor. Pela primeira vez,foram apresentadas numa s obra todas as espcies at ali descritaspara a zona geogrfica que vai do Mar Mediterrneo ao Sul de Angola.De referir, contudo, que, de ento para c, novos taxa se foram jacrescentando lista ento considerada.

    Se me permitida, a terminar, uma nota de carcter pessoal, noquereria perder a ocasio de referir o gosto e a honra que me tm sidodados por poder participar em boa parte das aces acima descritas,quer como coleccionador, quer como autor e co-autor de diversostrabalhos, nem de salientar as sinceras amizades que, por via dessamesma actividade, fui cimentando com todos os que acima foramcitados. Coleccionador h quase meio sculo, especializado, na medidadas minhas parcas possibilidades, na famlia Conid desde h talvez umpar de dcadas, tenho procurado, nos tempos mais recentes, contribuirpara a difuso de informaes sobre este interessantssimo grupo atravsda edio do boletim electrnico The Cone Collector (disponvel emwww.theconecollector.net, entre outros endereos). O grande quaseinesperado xito desta iniciativa, na qual tm tambm participadodiversos coleccionadores nacionais, com artigos diversos, revela clara -mente a apetncia de um nmero muito alargado de coleccionadoresde todo o Mundo pelo estudo dos Cones.

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 7

    ROLN, EMILIO, 1990. Descripcin de nuevasespecies y subespecies del gnero Conus(Mollusca, Neogastropoda) para el archi -pilago de Cabo Verde. Description ofnew species and subspecies of the genusConus (Mollusca: Neogastropoda) fromthe Cape Verde Archipelago. Iberus,Suppl. 2: 5-70.

    ROLN, EMILIO, 1992. La familia Conid (Mol-lusca: Gastropoda) en el archipilago deCabo Verde (frica Occidental). 654 pp.,PhD Thesis, University of Santiago deCompostela (unpublished).

    ROLN, EMILIO, 2005. Malacological Fauna fromthe Cape Verde Archipelago part 1 Polypla-cophora and Gastropoda 456 pp., ConchBooks, Hackenheim.

    ROLN, EMILIO & RCKEL, DIETER, 2000. The endemic Conus of Angola. Argo-nauta, 13 (2): 5-44.

    ROLN, EMILIO & RCKEL, DIETER, 2001. Theendemic Conus from Angola. 2. Descri -ption of three new species. Los Conusendemicos de Angola. 2. Descripcionde tres nuevas especies. Iberus, 19 (2):57-66.

    ROLN, EMILIO, RCKEL, DIETER & MON -TEIRO, ANTNIO A., 1983a. New observa-tions on Cape Verde cones, I. LaCon chiglia, 15 (172-173): 4-5.

    ROLN, EMILIO, RCKEL, DIETER & MON -TEIRO, ANTNIO A., 1983a. New obser -vations on Cape Verde cones, II. LaConchiglia, 15 (174-175): 16-17.

    TROVO, HERCULANO, 1975a. Contribuiopara o estudo dos moluscos gasterpodesda famlia Conid de Angola. Novas esp-cies de Conus Linn, 1758 de Angola(Mollusca: Gastropoda). Boletim do CPAS(unnumbered): 3-8.

    TROVO, HERCULANO, 1975b. Contribuiopara o estudo dos moluscos gasterpodesda famlia Conid de Angola. Novasespcies de Conus Linn, 1758 de Angola(Mollusca: Gastropoda). Boletim do CPAS,IV srie (2) : 9-15.

    TROVO, HERCULANO, 1978a. Contribuiopara o estudo dos moluscos gasterpodesda famlia Conid da frica ocidental.Nova espcie de Conus LINN, 1758 doSenegal (Mollusca: Gastropoda). Boletimdo CPAS, 4 (4): 9-10.

    TROVO, HERCULANO, 1978b. Contribuiopara o estudo dos moluscos gasterpodesda famlia Conid de Angola. Novasespcies de Conus LINN, 1758 de Angola(Mollusca: Gastropoda). Boletim do CPAS,4 (4): 11-20.

    TROVO, HERCULANO, 1979. Contribuio parao estudo dos moluscos gasterpodos dafamlia Conid da frica ocidental. Novasespcies de Conus LINN, 1758 doarquiplago de Cabo-Verde (Mollusca:Gastropoda). Amphitrite, 1 (1): 3-12.

    TROVO, HERCULANO, 1994. Alguns holotiposde Conus do C.P.A.S. Amphitrite, 3 (1)(3): 2.

    TROVO, HERCULANO & ROLN, EMILIO, 1986.Description of a new species for the genusConus (Mollusca: Gastropoda) from theCape Verde Islands. Publicaes Ocasionaisda Sociedade Portuguesa de Malacologia, 7: 9-15.

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    Balano para o futuro

    por GONALO CALADOEx-Presidente da Direco do IPM(2003-2009)AO longo dos ltimos oito anos, as pessoas que trabalharamcom o IPM remaram contra a corrente na perspectivade dinamizarem uma associao cientfica mpar. Com

    grande ajuda do Zoomarine, foi possvel refundar o IPM,com novos estatutos, nova sede e uma dinmica que nos levou a ir maisalm do que se espera de uma sociedade desta ndole. Destaco aqui todaa actividade de investigao que em Portugal est restrita ao meioacadmico, aos laboratrios do Estado e a muito poucas fundaese empresas. O IPM est envolvido actualmente em vrios projectosde investigao e acaba de ganhar um como instituio proponente,reforando a sua credibilidade como parceiro de pleno direito nosistema cientfico e tecnolgico portugus. Est envolvido emtrabalhos de atribuio do grau de Doutor e de Mestreem pareceria com universidades e mantm uma colecocientfica de referncia na rea da malacologia que esta ser finalmente catalogada. Como sociedade cientficatem promovido e colaborado na organizao de vrioscongressos nacionais e internacionais, alm de publicarregularmente esta Portugala, a qual recentemente teveum nmero especial ligado histria da malacologia.Mantm igualmente actualizada a nica bibliotecapblica de malacologia no nosso pas, assinando asprincipais revistas da especialidade. Por tudo isto, o IPMcontinua a ser procurado por investigadores nacionais eestrangeiros, quer para consulta de material e bibliografia, querpara apoio em campanhas de recolha de material deinvestigao.

    Orgulho-me de pertencer a este grupo de irredu t veismalaclogos que insistem em dar a este grupo to diver -sificado e to bem sucedido o merecido destaque numasociedade pautada pelo facilitismo vertebralista.Quero fazer um especial agradecimento equipaeditorial da Portugala, Manuel MartinhoMalaquias, Antnio Monteiro e Manuel An -tnio E. Malaquias pelo empenho incan svel em levar este projecto a bom porto. novaDireco desejo as maiores felicidades na suanobre misso.

  • UMA espcie polimrfica a que apresenta vrios morfos, ou sejaformas bem distintas morfologicamente, numa mesmapopulao. Observando sucessivas geraes dessa mesmapopulao, verifica-se que os diferentes morfos vo aparecendo

    em propores semelhantes, o que indica que no s devem estar emequilbrio com as condies ecolgicas da rea ocupada, mas tambmdevem necessariamente ter uma base gentica porque as suas carac -tersticas se mantm. Assim sendo, no conceito de morfo estar implcitauma natureza eco-taxonmica e gentica.

    Uma questo muito discutida e de no fcil resoluo a desaber qual a origem do equilbrio entre morfos e as caractersticas doambiente em que se encontram, mas tal equilbrio embora sujeito aevoluo verificadamente um facto. Os morfos podem representarmicroadaptaes, isto , adaptaes a detalhes de nichos ecolgicos decerta rea ou podem ser neutrais do ponto de vista da seleco naturalque vai tendo lugar nessa rea.

    Estudos da gentica de espcies polimrficas tm sido efectuadosem alguns caracis terrestres, nomeadamente o Cepa nemoralis e oCantareus aspersus.

    Iniciei o estudo da gentica de Helicdeos em 1974, tendo comeadocom cruzamentos de C. nemoralis. Pouco depois abandonei esta espciepor ter verificado atravs de extensa bibliografia sobre essa espcie queela tinha comeado a ser estudada h mais de duas dcadas, contem -pornea e independentemente em Frana e na Inglaterra, segundoo mtodo da gentica das populaes (cf., por exemplo, LAMOTTE, 1951;CAIN et al., 1968).

    Passei depois a interessar-me pelo o estudo de Cantareus aspersus,espcie que ainda no tinha sido estudada do ponto de vista gentico.O meu mtodo de estudo foi diferente, o da gentica clssica ou men de -liana. A principal diferena entre estes dois mtodos reside em que, noprimeiro, a caracterizao dos morfos e suas propores feita sobrepopulaes naturais, que, no entanto, tem por vezes de ser comple -mentado por cruzamentos apropriados; no segundo mtodo feita porobservao das descendncias sucessivamente obtidas de pares de proge -ni tores escolhidos. Por outro lado, preciso seguir observando os animaisdurante o seu desenvolvimento se se quiser ficar a saber quais so os verda -dei ros caracteres da concha, nomeadamente quanto a colorao de base e apadres de bandas. Em 1988, CAIN publicou um artigo de conjunto sobre gen -tica do polimorfismo em conchas de moluscos, onde so tidos em boaconta os meus resultados genticos e a hiptese que avancei sobre a adap -tabilidade dos morfos s especiais condies do ambiente (CAIN, 1988).

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    Gentica da espcie polimrficaCantareus aspersus (O. F. MLLER 1774)por ROLANDA ALBUQUERQUE

    DE MATOS

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    Embora em caracis o mtodo mendeliano parea ser mais dis -pendioso e moroso por necessitar espao considervel em instalaesapropriadas e muito trabalho para manuteno das culturas, a verdade que leva, para um mesmo perodo de tempo, a conhecimento maispormenorizado dos efeitos dos diferentes genes. No caso de aspersus, umhelicdeo facilmente cultivado em laboratrio, na natureza s se obtmuma gerao por ano, em cultura podem obter-se duas ou trs, porqueesta espcie responde a condies ptimas de alimentao e de ambienteencurtando significativamente a durao do seu ciclo vital.

    O estudo da gentica de C. aspersus, que implicou anlise das des -cendncias de cerca de 1.600 cruzamentos efectuados ao longo de duasdcadas, incidiu principalmente sobre as caractersticas pig mentares daconcha. Foram obtidos resultados que, cremos, podem ajudar aoconhecimento do polimorfismo, alm de outros de interesse prticopara a helicicultura intensiva, como sejam as condies ambientaisptimas e o tipo de alimentao apropriado para melhor rendimento.

    Diagnose da espcie. O Cantareus aspersus (O. F. MLLER 1774),o maior caracol terrestre portugus que chega a atingir 43 mm de di -metro, frequente em parques, jardins, vinhas e terrenos cultivados,onde pode causar grandes estragos. A concha mais ou menos globosa,por vezes cnica, com quatro e meia a cinco voltas, que aumentamrapidamente de largura; superfcie rugosa, tipicamente salpicada(aspergida) por manchas ou riscas claras, que lhe do o aspecto carac -terstico donde deriva o seu nome especfico. Abertura da concha grande,com bordo branco e espessado, revirado para fora nos adultos. Coloraomuito variada, tipicamente com bandas longitudinais escuras, que podemapresentar variados padres quanto a nmero, intensidade de pigmentaoe grau de fuso.

    Colorao da concha. As caractersticas pigmentares da conchadizem respeito a dois sistemas: cor de fundo ou de base e cor das bandas,a que se podem sobrepor caracteres estruturais, devidos a espessamentoscalcrios, como uma banda branca que percorre o equador da concha, afascia albata, e as manchas e riscas claras que interrompem a pigmentaodas bandas.

    Para as diferentes caractersticas pigmentares da concha foramindividualizados dezoito genes: dois apenas com efeitos sobre a coloraode base da concha; trs com efeitos conjuntamente sobre a cor da conchae bandas; doze apenas para as bandas; e um para a estrutura(ALBUQUERQUE DE MATOS, 1985). Estes efeitos podem referir-se a doistipos de hereditariedade: alternativo dual (Tipo I) e alternativo mltiplo(Tipo II). O primeiro, corresponde aos genes que produzem apenas doisfentipos: com ou sem o efeito nominativo; no segundo, esto os genes

    Fig. 1. Cantareus aspersus adulto. Face superiore inferior da concha do morfo mais comumna natu reza (forma tpica): coloraoacastanhada, com quatro bandas longi tu -dinais escuras e interrom pidas por riscasclaras.

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    em que o efeito nominativo mostra vrias alternativas (ALBUQUERQUE DEMATOS & SERRA, 1984a).

    Estes genes, seus efeitos e interaces, so sumariamente descritosem seguida. Pode parecer primeira vista que algumas das conchas foto -grafadas no correspondem ao efeito nominativo do gene onde estoinseridas; no entanto, todas as conchas representadas pertencem a des -cendncias obtidas em laboratrio, cuja constituio gentica foi testadaem mais uma ou duas geraes subsequentes.

    Genes para as caractersticas pigmentares da concha

    EFEITO APENAS SOBRE COLORAO DA CONCHA.

    C, para concha com uma s cor de base. Tipo II, srie de trs alelos,CA, CV e CC, para amarelo, vermelho e castanho. Heterozigotosintermedirios: CA CV amarelo-vermelho, CACC amarelo-castanho e CVCCvermelho-castanho. Vrios tons de cada alelo presentes em populaesnaturais. As seis possibilidades de colorao so melhor apreciadas quandoos caracis so jovens ou logo aps atingirem o estado adulto; com aidade, os adultos tendem a ficar com um tom geral acastanhado oupardo, porque continua a dar-se a tanagem do periostraco, ou cutculaque cobre externamente a concha (ALBUQUERQUE DE MATOS, 1984a).

    S-s, para parte superior da concha mais escura que a inferior. Tipo I,SS ou Ss, concha com manifestao do carcter; ss, conchas sem essecarcter. Vrios alelos de valncias diferentes. Alguma variabilidade deexpresso.

    Fig. 2. Em cima, conchas homozigotas: amarela, vermelha e castanha. Em baixo, conchas heterozigotas:amarela-vermelha, amarela-castanha e vermelha-castanha.

    Fig. 3. Concha amarela-castanha, sem bandas, com a parte supe -rior muito mais escura que a inferior e fascia albata larga.

  • EFEITO SOBRE COR DA CONCHA E BANDAS.

    A-a, para albinismo da concha. Tipo I, AA ou Aa, conchaspigmentadas; aa, conchas desprovidas de colorao (albinas). O albinismo episttico sobre qualquer colorao de base da concha e sobre apigmentao das bandas. Nas conchas albinas as bandas socompletamente despigmentadas (bandas hialinas) ou levemente rosadas(ALBUQUERQUE DE MATOS, 1984a).

    U-u, para cor uniformemente castanha-avermelhada e supresso dasbandas. Tipo I, UU ou Uu, conchas com pigmentao uniforme; uu,concha de qualquer outra cor e com bandas. Episttico sobre todos osoutros genes com excepo do gene para albinismo (ALBUQUERQUE DEMATOS, 1984b).

    Dfb, para diluio conjunta da cor de fundo da concha e dapigmentao das bandas. Tipo II, dois alelos caracterizados: Dfb0, o alelosem os efeitos nominativos; provavelmente dois outros alelos, Dfb1 e Dfb2,para reduo mdia e forte. Interaco entre os dois efeitos torna acaracterizao dos diferentes alelos difcil. Usualmente h tambmvariegao dos dois efeitos durante o desenvolvimento da concha. Provvelinteraco com albinismo. No foi possvel esclarecer devidamente aaco deste locus, e dos dois s para diluio da cor das bandas, porque

    Fig. 4. Conchas albinas: A, sem bandas; C e D, com bandas hialinas; B, E, F, com bandas depigmentao muito fraca. A cor amarela devida ao periostraco que reveste a parte calcria,branca, da concha.

    D E F

    A B C

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    Fig. 5. Vrios tons de colorao uniforme.

  • motivos fortes, a que fui completamente alheia, levaram a que labora t -rios onde decorriam os meus estudos tivessem de ser desocupados,impedindo, assim, a continuao dos estudos genticos.

    EFEITO SOMENTE SOBRE AS BANDAS.

    Bj-bj, para presena de bandas juvenis. Tipo I, Bj Bj ou Bj bj,determina o aparecimento de bandas pouco extensas na primeira metadeda volta a seguir protoconcha e que podem ser, ou no, logo seguidasdas bandas normais; bj bj, sem bandas juvenis.

    Br-br, para bandas retardadas. Tipo I, Br Br ou Br br, bandasaparecendo cerca do incio da 4 volta da concha; br br, bandas precoces,que aparecem cedo depois da protoconcha ou logo a seguir s bandasjuvenis, quando estas existem.

    M, para intensidade de pigmentao (melanizao) das bandas. TipoII, srie de cinco alelos, M0, M1, M2, M3 e M4, de expresso algo varivel.M0 determina completa ou quase completa ausncia de bandas pordespigmentao (diferente de ausncia de bandas devida a UU ou Uu);dominante ou quase sobre todos os outros alelos. M1, bandas quasedespigmentadas, tambm quase dominante sobre os trs alelos seguintesda srie, que tm manifestao intermdia entre si. M4, pigmentaomxima. Efeitos variveis segundo os modificadores, aparecimentoprecoce ou retardado das bandas e tipo destas.

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    Fig. 6. Conchas com diluio conjunta da cor de fundo da concha e da pigmentao das bandas.

    Fig. 7. esquerda, concha com bandas juvenis, logo seguidas de bandas definitivas precoces. Ao centroe direita, bandas juvenis ausentes e bandas definitivas retardadas, que se manifestam mais cedoou mais tarde conforme a largura e a intensidade de pigmentao. Efeitos de Bj e Br em vriasconchas de outras figuras.

    Fig. 8. Srie de intensidade de pigmentao das bandas.

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    Bt, para tipo de bandas quanto largura. Tipo II, srie de trs alelos,Bt1, bandas estreitas, Bt2, bandas de largura mdia, Bt3, bandas largas.Efeitos intermdios: o heterozigoto Bt1 Bt3 semelhante ao homozigotoBt2 Bt2, mas este no segrega outros tipos. O tipo das bandas interferecom todos os genes para fuso e para estreitamento e perda de bandas:as bandas largas favorecem a precocidade, as bandas estreitas favorecemo estreitamento ou a perda, e tambm o retardamento.

    Bf(23)-bf(23), para fuso das bandas 2 e 3. Tipo I, Bf(23) Bf(23), fusocompleta; Bf(23) bf(23), fuso incompleta, bandas mais ou menos aproxi madas;bf(23) bf(23), bandas livres, igualmente afastadas. Homozigotos e hete ro zigotos dis-tintos, mas interaco com o tipo de bandas e factores de estreitamento.Bandas estreitas favorecem a expresso de bf(23) bf(23) e bandas largas a expres -so de Bf(23)Bf(23). Este gene necessrio para expresso da fuso de todas as bandas.

    1 2 3

    4 5 6Fig. 9. Graus de expresso do tipo de bandas.

    7 8 9

    1 2 3

    4 5 6

    Fig. 10. Em cima, bandas 2 e 3 fundidas; ao centro, aproximadas; em baixo, separadas. Manifestaode outros genes: em 3 e 4, bandas juvenis logo seguidas de bandas precoces; em 5, bandasprecoces sem bandas juvenis; em 5, 7 e 8, diferente expresso de parte superior mais escura;todas, excepto a 6, com vrios graus de expresso da fascia albata.

  • Bf(234)-bf(234), para fuso das trs bandas medianas. Tipo I, Bf(234) Bf(234)e Bf(234) bf(234), bandas totalmente fundidas; bf(234) bf(234), bandas medianasseparadas. No necessita do alelo Bf(23) para se exprimir. Episttico sobreos outros tipos de fuso. A fuso pode ser mais ou menos forte segundoo tipo de bandas, bandas largas favorecendo a fuso. Interaco mtuacom Fa: fascia albata forte, menos fuso; fascia albata fraca, melhorexpresso da fuso.

    Bf(1-5)-bf(1-5), para fuso completa das cinco bandas. Tipo I, expressodo efeito nominativo apenas no duplo recessivo bf(1-5)bf(1-5), que, para semanifestar, necessita tambm da presena de pelo menos um alelo Bf(23),pelo que , pois, complementar da fuso (23). bf(23) bf(23) e Bf(234) soepistticos sobre bf(1-5) bf(1-5).

    Be-be, para bandas todas estreitadas. Tipo I, Be Be ou Be be, reduoda largura das bandas, por vezes at completo desaparecimento; be be,bandas no estreitadas. Expresso varivel segundo o tipo de bandas edos modificadores, especialmente com bandas de Tipo I, ou com bandas2 e 4 estreitadas.

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    Fig. 11. Expresso da fuso das 3 bandas medianas e vrios graus de interaco com a expresso defascia albata.

    Fig. 12. Conchas com fuso completa de todas as bandas e alguns exemplos de interaco com fascia albata.

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    Bp(2,4)-bp(2,4), para perda das bandas 2 e 4, ou estas muito estreitadas.Tipo I, Bp(2,4) Bp(2,4) ou Bp(2,4) bp(2,4), perda ou acentuado estreitamento dasbandas 2 e 4; bp(2,4) bp(2,4), bandas 2 e 4 no estreitadas. Expresso varivel,alelos de valncias diferentes presentes em populaes naturais. Expressomais evidente nos tipos de bandas 1 e 2 (estreitas ou de largura mdia).

    Bp(2-4)-bp(2-4), para perda ou estreitamento das bandas 2, 3 e 4. Tipo I,Bp(2-4) Bp(2-4) ou Bp(2-4) bp(2-4), perda ou estreitamento das bandas 2 e 4; porvezes recessivo, por vezes quase dominante; complementar relativamentea Bp(2,4); bp(2-4) bp(2-4), sem perda ou estreitamento de bandas.

    Perda somente da banda 3 pode, raramente, ser devida ao efeito deBe e o inverso, presena apenas da banda 3, pode ser possvel.

    BdV, diluio da cor das bandas para o vermelho. Tipo II, sriede pelo menos trs alelos, BdV0, BdV1 e BdV2, que causam diluio dapigmentao das bandas, por reduo cada vez maior do componentecastanho; BdV0, sem diluio; BdV2 BdV2, bandas nitidamente ver -melhas. Heterozigotos mais ou menos intermdios. Talvez mais alelosa distinguir.

    Fig. 13. Trs graus de estreitamento de bandas.

    Fig. 14. Estreitamento progressivo das bandas 2 e 4, at completo desaparecimento.

    Fig. 15. Dois aspectos de estreitamento e perda completa das bandas 2, 3 e 4.

    Fig. 16. Trs graus de diluio da pigmentao das bandas para o vermelho.

  • BdC, diluio da cor das bandas para o castanho. Tipo II, srie depelo menos trs alelos, BdC0, BdC1 e BdC2, que causam diluio dapigmentao das bandas, por reduo cada vez maior do componentevermelho. BdC0, sem diluio; BdC2 BdC2, bandas de cor amarelo-ocreclaro. Heterozigotos mais ou menos intermdios. Talvez mais alelosa distinguir.

    EFEITO SOBRE A ESTRUTURA DA CONCHA.

    Fa-fa, para fascia albata. Tipo I, Fa Fa ou Fa fa, com manifestao docarcter; fa fa, sem fascia albata. Alelos de diferentes valncias: os devalncia mais fraca produzem uma fascia juvenil, no completa; os devalncia forte, uma fascia muito espessa at abertura da concha.Interaco mutua com as bandas 2, 3 e 4 fundidas; melhor expresso combanda 3 presente.

    Como disse acima, pertencem estrutura da concha as manchas,traos e riscas transversais claras que do concha o seu aspecto tpico.Tentei por cruzamentos a partir de caracis de vrias origens distinguir efixar padres sem qualquer resultado. As descendncias no s noindicavam relao gentica como a variabilidade era enorme, desdeconchas sem qualquer formao clara alm da fascia albata (Fig. 18) atum complicado retculo (Fig. 19). Deve ser uma caracterstica polignicacom vrios modificadores envolvidos.

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    Fig. 17. Trs graus de diluio da pigmentao das bandas para o ocre claro.

    Fig. 18. Vrios graus de expresso de fascia albata. Ver tambm Fig. 3. As duas primeiras conchasno mostram qualquer tipo de ornamentao.

    Fig. 19. Alguns aspectos da ornamentao da concha.

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    Resultados e concluses

    Na literatura encontram-se referncias a determinados padrespigmentares da concha de C. aspersus, nomeadamente quanto a corde fundo, que estariam associados a um ou outro tipo de ambientenatural. No nosso estudo, feito em ambiente controlado, em quetemperatura, humidade e fotoperodo eram mantidos constantes,encontrmos todos os padres de cor de fundo da concha e debandas acima descritos, pelo que a concluso a tirar a de quehaver morfos mais bem adaptados que outros a diferentes tipos deambiente.

    Outros resultados do nosso estudo revelaram, tambm pela primeiravez, uma srie de caractersticas que muito provavelmente so decisivaspara originar e manter o polimorfismo: elevada mutabilidade, rpidaaquisio de infertilidade por endogamia e principalmente uma acentuadapropriedade combinatria dos genes mrficos ou frequente interacognica entre os caracteres que constituem os morfos. Todas estascaractersticas foram estudadas e os resultados publicados (ALBUQUERQUEDE MATOS & SERRA, 1984b, 1988). No presente trabalho feita umasinopse dos resultados obtidos quanto ao nmero de genes, seus efeitose interaces.

    Ainda no est publicado um estudo comparativo dos sistemasgenticos dos vrios helicdeos em que eles j so conhecidos. Noentanto, gostaria de salientar que, entre os vrios milhares de conchasde Cantareus aspersus observadas, naturais e de cultura, no encontreiuma s que mostrasse apenas a banda mediana. Conchas s coma banda mediana so muito frequentes nas populaes portuguesasde Cepa nemoralis, pouco frequentes nas de Theba pisana e raras nas deOtala lactea.

    Por outro lado, foi obtida uma concha onde a banda 3 era a nicabanda que faltava. Estas variaes sobre a banda 3 da concha deC. aspersus podero estar relacionadas com o efeito de modificadoressobre a expresso de genes de algum dos locus para perda debandas, Bp.

    Para ilustrao dos efeitos dos genes caracterizados em C. aspersus,foram colados sobre carto, juntamente com as respectivas frmulasgenticas, treze arranjos de conchas escolhidas entre as mais repre -sentativas dos efeitos dos vrios genes. As fotos apresentadas nopresente trabalho, pertencem a alguns desses arranjos, que foramguardados em caixas de exposio apropriadas e depositados no MuseuZoolgico da Universidade de Coimbra.

    Os mesmos arranjos de conchas, com nova apresentao, estoactualmente integrados na Exposio Comemorativa do Centenriode Darwin, organizada pelo Museu da Cincia de Coimbra.

    Tambm foram depositadas no Museu Zoolgico de Coimbraas conchas dos cruzamentos efectuados para esclarecimentoda gentica de C. aspersus juntamente com os respectivos protocolose ficheiros.

    Bibliografia citada

    ALBUQUERQUE DE MATOS, R. M. 1984a.Genetics of shell ground colour inHelix aspersa. I. Colour locus, uniformand their interactions. II. Albino, itsmutations and interactions Heredity(London), 53: 11-20 & 21-35.

    ALBUQUERQUE DE MATOS, R. M. 1984b.Mltiplos efeitos de uniforme emHelix aspersa e discusso da pleiotropiadeste gene. Brotria-Gentica, Lisboa,5: 147-160.

    ALBUQUERQUE DE MATOS, R. M. 1985.Variao intra-especfica, morfos e suadeterminao gentica em Helix aspersaMller 1774. Public. Ocas. Soc. Portug.Malac., Lisboa, N. 5: 15-30.

    ALBUQUERQUE DE MATOS, R. M. & SERRA,J. A. 1984a. Caracteres duais e mlti -plos em relao com o polimorfismode Helix aspersa. Brotria-Gentica, Lis -boa, 5: 161-l79.

    ALBUQUERQUE DE MATOS, R. M. & SERRA,J. A. 1984b. Taxonomic poly mor phismand intrinsic factors in Helix aspersa.Brotria-Gentlca, Lisboa, 5: 181-220.

    ALBUQUERQUE DE MATOS, R. M. & SERRA,J. A. 1988. Ce que la gntique a faitet peut faire pour I hliciculture.Brotria-Gentica, Lisboa, 9: 18-62.

    CAIN, A. 1988. The scoring of polymor-phic colour and pattern variation andits genetic basis in molluscan shells.Malacologia, 28: 1-15.

    CAIN, A. J., SHEPPARD, P. M. & King, J.M. B. 1968. Studies on Cepa. I. Thegenetics of some morphs and varietieson Cepa nemoralis (L.). PhilosophicalTransactions of the Royal Society ofLondon, ser. B, 253: 383-396.

    LAMOTTE, M., 1951. Recherches sur lastructure gntique des populationsnaturelles de Cepa nemoralis (L.). Bul-letin Biologique de France et de Belgique,Suppl. 35, 239 pp.

  • Aameijola (Callista chione) (Fig. 1) uma espcie explorada comer -cialmente em Portugal, Espanha, Frana, Itlia e Grcia. EmPortugal, a ameijola mais abundante na costa sudoeste, sendoalvo de uma pescaria com ganchorra exercida por uma frota de

    vinte e quatro embarcaes, com comprimento fora-a-fora entre nove ecatorze metros, potncia entre 62 hp e 130 hp, e tripulaes de trs a cincopescadores.

    Devido crescente importncia econmica da pescaria de ameijolaem Portugal, tm sido desenvolvidos diversos trabalhos sobre estapescaria (ex: selectividade da ganchorra, capturas acessrias, impacto da

    arte de pesca nas comunidades bentnicas) e sobre a biologia da espciealvo (ex: ciclo reprodutivo, idade e crescimento). Durante estes estudos,constatou-se que uma fraco significativa das ameijolas capturadasapresentavam danos na concha, revelando a necessidade de identificar osfactores que provocam os danos e deste modo tentar mitigar o problema.Com este objectivo em mente, desenvolveram-se experincias paraquantificar a fora necessria para danificar as conchas de C. chione durantea pescaria com ganchorra e recolheu-se informao crucial para oaperfeioamento do desenho tcnico da arte de pesca, de modo a reduziros danos nos bivalves e consequentemente minimizar a mortalidadeindirecta por pesca.

    Os exemplares de C. chione foram capturados com ganchorra(Fig. 2a) ao largo da Arrbida (Pennsula de Setbal). Os lances de pescaexperimentais foram acompanhados por mergulhadores que filmaram apassagem da ganchorra (Fig. 2b) e recolheram as ameijolas com com -primento inferior ao tamanho mnimo de captura (TMC = 60 mm), queatravessaram a grelha metlica e ficaram expostas no trilho da ganchorra.Os exemplares danificados foram analisados para a avaliao dos danos

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 19

    por PAULO VASCONCELOS1*,ANTNIO MORGADO-ANDR2,

    CARLOS MORGADO-ANDR2& MIGUEL B. GASPAR1

    1 Instituto Nacional de RecursosBiolgicos (INRB, I.P.) / IPIMAR,

    Avenida 5 de Outubro s/n,P-8700-305 Olho, Portugal.

    2 rea Departamental de EngenhariaCivil (ADEC), Instituto Superior

    de Engenharia (ISE),Universidade do Algarve (UAlg),

    Campus da Penha,P-8005-139 Faro, Portugal.

    * Tel.: +351 289 700500;Fax: +351 289 700535;

    E-mail: [email protected]

    Resistncia fsica e danos na conchada ameijola (Callista chione):

    Contribuio para a minimizao dos impactosda pesca com ganchorra

    Fig. 1. Ameijola (Callista chione).

  • 20 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    infligidos pelas operaes de pesca, enquanto que os indivduos intactosforam utilizados para a medio da resistncia da concha.

    As conchas foram sujeitas a dois testes distintos de medio daresistncia da concha: 1) testes de compresso, destinados a reproduziremo impacto directo dos dentes da ganchorra; 2) testes de compactao (comas conchas envolvidas por uma camada homognea de areia), destinadosa simularem a compactao do sedimento por aco do pente de dentesda ganchorra durante o arrasto.

    A fora suportada pelas conchas de ameijola foi muito inferiornos testes de compresso (580 318 N, intervalo = 391743 N) com -pa ra ti vamente aos testes de compactao (3265 1046 N; intervalo:10685831 N), reflectindo o efeito suavizante da camada de areia e adissipao da fora compactacional na superfcie da concha. Estes testesrevelaram que C. chione possui uma concha forte e resistente, confirmandoque as foras geradas na pesca com ganchorra so muito considerveise devem aumentar com a instalao progressiva de motorizaes maispotentes na frota comercial, com as consequentes implicaes em termosdo impacto da pesca e danos nos bivalves.

    Aps as operaes de pesca e os testes de resistncia da concha,identificaram-se as principais reas danificadas e os padres de fracturadas conchas, tendo-se utilizado um esquema de classificao dos danos(score 1: dano 25%; score 2: 25% < dano 50%; score 3: 50% < dano75%; score 4: dano > 75%) (Fig. 3). As anlises multi-dimensionais declassificao (dendrograma de agrupamento) e ordenao (diagrama deordenao) das reas danificadas e dos padres de fractura detectaram aexistncia de dois grupos, um com as amostras dos testes de compresso

    Fig. 2. A) Representao esquemtica da gan -chorra; B) Imagem subaqutica docom por tamento da ganchorra duranteo arrasto.

  • e outro com as amostras da ganchorra e dos testes de compactao(Fig. 4a,b). Estes resultados sugerem que a maioria dos danos provocadosnas conchas de C. chione ocorrem ao nvel do sedimento, devido compactao da areia e dos bivalves exercida pelo pente de dentes daganchorra, e no devido ao impacto directo dos dentes da ganchorra nasconchas. Com efeito, durante passagem da arte de pesca pelo fundoforma-se uma zona de compactao do sedimento em frente da boca daganchorra, onde a areia e os bivalves so comprimidos e direccionadospara o interior da ganchorra.

    Adicionalmente, foi computorizada uma rplica da ameijola,atravs da utilizao de parmetros morfomtricos da concha deexemplares de diversas classes de tamanho. Para o efeito, realizaram-semedies lineares (comprimento, largura e altura da concha e espessurada valva), em permetro e em arco, de modo a reproduzir a formae volume do bivalve (Fig. 5a). Com este conjunto de parmetrosmorfomtricos desenvolveu-se um modelo tridimensional de C. chione

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 21

    Fig. 3. Distribuio de frequncias das reas da -nificadas nas conchas de ameijola (valvasdireita e esquerda) durante a pesca comganchorra, testes de compresso e com -pac tao (AD - antero-dorsal, PD -- postero-dorsal, AV - antero-ventral,PV - postero-ventral).

  • 22 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    (Fig. 5b), sujeito a foras simuladas atravs do Mtodo dos ElementosFinitos (MEF), empregue para avaliar as reas de tenso e traco nassimulaes experimentais (testes de compresso e compactao).

    A visualizao da distribuio espacial das foras atravs da aplicaodo MEF no modelo 3D da ameijola revelou que as foras de compressoconcentraram-se em torno da rea de maior convexidade da concha,coincidindo com o ponto de aplicao da carga compressiva (Fig. 5c),enquanto que as foras de compactao dispersaram-se por toda asuperfcie da concha, tendo as maiores presses e tenses ocorrido emzonas mais prximas do bordo da concha (Fig. 5d). Estas simulaescorroboraram a informao sobre as reas mais danificadas e os padres

    Fig. 4. Cluster e MDS ilustrativos das simi -laridades entre as amostras de amei jola(ganchorra, testes de compresso e com pac -tao): A) reas danificadas; B) Pa dresde fractura (VD - valva direita, VE -- valva esquerda).

    Fig. 5. A) Representao esquemtica dos par -metros morfomtricos utilizados no desen -volvimento do modelo 3D da amei jola. Sn- medies lineares (comprimento, largurae altura da concha e espessura da valva),An - medies em arco, Pn - medies empermetro; B) Modelo tridimensional daconcha da ameijola sujeito a foras simu -ladas atravs do MEF; C) Simu laode um teste de compresso; D) Simu laode um teste de compactao. (colo raesmais escuras indicam reas sujeitas amaior tenso e traco).

  • de fractura observados nos bivalves sujeitos aos testes de resistncia daconcha. Com efeito, a concentrao da fora compressiva com pa ra ti -vamente disperso da fora compactacional explica a menor diversidadede padres de fractura observada nos testes de compresso em relao aostestes de compactao.

    As presentes experincias forneceram informao valiosa para oaperfeioamento do desenho, construo e funcionamento da ganchorra.Uma soluo hipottica poder passar pelo aumento do comprimentoe ngulo dos dentes da ganchorra, reduzindo e distribuindo diferen -ciadamente a fora de compactao no sedimento (mais intensa no fundoe mais suave junto superfcie). Isto permitir forar o movimento daareia para cima, diminuir a compactao dos bivalves no sedimentoe facilitar a sua entrada na grelha metlica da arte de pesca. Estesmelhoramentos da ganchorra podero reduzir a danificao dos bivalvese minimizar a mortalidade indirecta por pesca, contribuindo para umaexplorao sustentvel do recurso pesqueiro.

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    A Malacologia nas Artes

    Chafariz da Travessa Teixeira Jnior,ao Calvrio, Lisboa (1852). Possveldese nho de MALAQUIAS FERREIRALEAL, na altura arquitecto da cidade,a quem tambm se atribui o Chafarizdo Largo da Princesa (Portugala,n. 5, Abril 2005). Em belezado comum grande vaso, na parte superior,recheado de motivos marinhos, sobretudo,conchas e bzios. Fotos de M. M. MALAQUIAS

  • 24 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    AS zonas costeiras so dos ecossistemas mais produtivos da Terrae em vrios locais esto sujeitas a uma grande variedadede factores de stress, de origem antropognica, tais comoa poluio e a eutrofizao. Actualmente, estes ecossistemas

    fazem face a um factor de stress adicional, as alteraes climticas (STRUYFet al. 2004). Estas causam impacto nos habitats costeiros atravs da subidado nvel do mar, aquecimento e aumento da frequncia de eventosclimticos extremos, tais como tempestades, cheias e ondas de calor.Neste estudo exploramos o impacto das interaces dos diferentesfactores de stress (antropognicos e naturais) na ecologia do esturio doMondego, especificamente ao nvel de dois aspectos chave da flora efauna, a macrfita Zostera noltii e o gastrpode Hydrobia ulv (Fig. 1).Durante os ltimosvinte anos, este sis te -ma desenvolveu umprocesso de eutro fi -zao (i.e. cres ci -mento acelerado dealgas causado poren ri que cimento dagua em nutrientes)que conduziu a umdeclnio da qualidadeambiental do es tu -rio, nomeadamentesubstituio de pro -du to res primrios,de gra dao da qualidade de gua e aumento da turbidez e face a estasituao foi implementado em 1998 um programa de gesto que incluiumedidas para diminuir a carga de nutrientes, proteco fsica do banco deZ. noltii e melhoramento do hidrodinamismo (CARDOSO et al. 2005, 2008;LILLEB et al. 2005, VERDELHOS et al. 2005; DOLBETH et al. 2007). Poroutro lado, simultaneamente, tem-se registado um aumento datemperatura mdia do ar de 0.15C por dcada de 1931 a 2005 e umamaior frequncia de ondas de calor na ltima dcada (ex. em 2003 e 2005)(IM Instituto de Meteorologia). Tambm, a frequncia de eventos decheia tem aumentado nas ltimas dcadas (SANTOS et al. 2002).

    Local de estudo. O esturio do Mondego, localizado na costaAtlntica de Portugal (4008N, 850O) compreende dois braos, nortee sul. Foram seleccionadas duas reas distintas, como locais de

    Efeitos das alteraes climticasna recuperao de uma populaode Hydrobia ulv (Mollusca: Gastropoda)

    por PATRCIA CARDOSOIMAR CMA(Marine and Environmental ResearchCentrem, Department of Zoology,University of Coimbra,3004-517 Coimbra, Portugal)E-mail: [email protected]: +351 239837797;Fax: +351 239823603

    Fig. 1. Hydrobia ulv.

  • amostragem ao longo do brao sul: o banco de Z. noltii, junto embocadura do esturio e a rea eutrofizada, localizada mais a montante(Fig. 2).

    Alteraes do clima regional. A anlise dos valores de precipitaosazonal acumulada para o centro de Portugal, revelou que a frequnciade eventos de cheia aumentou substancialmente nos ltimos trinta anos(Fig. 3A). Tambm, a frequncia e intensidade de anos secos temaumentado no mesmo perodo, comparativamente aos trinta anosanteriores (Fig. 3B).

    Biomassa vegetal. A biomassa da macrfita Z. noltii diferiusignificativamente antes e depois da implementao das medidas de gestoem 1998. No perodo pr-gesto, a biomassa de Z. noltii sofreu um grandedeclnio, ao qual se seguiu uma recuperao gradual aps 1998. Porm, noInverno de 2001/2002, uma seca extrema teve um impacto negativo noprocesso de recuperao, conduzindo a um novo declnio. Posteriormente,nos anos seguintes, outros eventos extremos, como a onda de calor de

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 25

    Fig. 2. Localizao das reas de amostrageme evoluo do coberto de Zostera noltiino brao sul do esturio do Mondego.

  • 26 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    2003 e a seca extrema seguida de onda de calor em 2005, parece terparado o processo de recuperao da macrfita. Relativamente aosfenmenos de cheia, estes parecem ter afectado menos a planta do queos eventos de seca, dado que estes ltimos promovem uma subida dosvalores de salinidade, que por sua vez pode afectar a sobrevivnciada planta (Fig. 4).

    Fig. 3. A) Frequncia de eventos de cheia(assumindo valores superiors a 50% damedia de Inverno) para a regio centro dePortugal de 1940-2005. B) ndicede seca para a regio centro de Portugalde 1940-2005.

    Fig. 4. Variao da biomassa total de Z. noltii.

    A)

    B)

  • Hydrobia ulv. A abundncia e biomassa de H. ulv sofreramalteraes marcantes durante o perodo de estudo, tendo sido observadasdiferenas signi ficativas entre os perodos pr- e ps-gesto. No bancode Z. noltii, de 1993 a 1995, a biomassa de H. ulv manteve-serelativamente constante (50-100 gm-2). Seguindo o declnio de Z. noltii,a biomassa de H. ulv sofreu uma reduo de uma ordem de grandeza.Aps a implementao das medidas de gesto, H. ulv comeoua recuperar at ao Outono de 2000. Contudo, as fortes cheias de2000/2001 causaram o posterior declnio da populao (Fig. 5A).

    Posteriormente a este evento climtico, a seca extrema teve um impactonegativo adicional. Em 2002, a espcie recuperou, mas os eventosextremos seguintes (ex. onda calor de 2003, seguida de seca extrema em2005) retardaram o processo de recuperao. As cheias parecem ter tidoum impacto negativo directo, atravs da remoo de parte da populao,enquanto as secas e ondas de calor parecem ter tido um efeito indirectoatravs do declnio do banco de Z. noltii.

    Na rea eutrofizada, de uma forma geral a populao de H. ulvdeclinou ao longo do perodo de estudo (Fig. 5B).

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 27

    Fig. 5. Variao da densidade e biomassa deH. ulv nas duas reas de amostragem.A) banco de Z. noltii; B) reaeutrofizada

    A)

    B)

  • 28 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    Concluses. Os ecossistemas costeiros esto sujeitos amltiplos factores de stress que geralmente no operam inde -pendentemente, mas geralmente interagem para produzir efeitoscombinados na biodiversidade e funcionamento do ecossistema(VINEBROOKE et al. 2004, DOLBETH et al. 2007), tal como obser -vado no esturio do Mondego. Nas ltimas duas dcadas pudemosobservar dois padres distintos, o primeiro correspondente aoperodo de eutrofizao (1993-1998) e o segundo relacionado com afase de recuperao, ps-gesto (1999-2005). Para alm doenriquecimento orgnico, o esturio do Mondego tem estado sujeitoa sucessivos eventos climticos extremos (cheias, secas e ondas decalor), que tiveram um forte impacto negativo em dois componenteschave do sistema estuarino.

    Hydrobia ulv apresentou diferenas claras na sua estruturapopulacional antes e depois da implementao das medidas degesto. No banco de Z. noltii durante o processo de eutrofizao,a densidade e biomassa diminuram abruptamente em concordnciacom o declnio da macrfita. No perodo ps-gesto, a populaode H. ulv pareceu recuperar gradualmente at ao Inverno de2000/2001, altura em que o aparecimento de sucessivos epis -dios climticos extremos (cheia de 2000/2001, seca extrema de2001/2002, onda de calor de 2003) retardou a sua recuperao.Este padro bastante semelhante ao da macrfita Z. noltii.Esta espcie tambm apresentou sinais de recuperao apsa implementao das medidas de gesto at ao Inverno de2001/2002, quando a seca extrema e consequentementevalores elevados de salinidade (> 30) estiveram associados aoseu declnio. Em 2002 observou-se uma ligeira recuperaoque foi interrompida pelos eventos extremos seguintes (ondade calor de 2003 seguido de seca e onda de calor em 2005). Assim,os eventos extremos parecem afectar os diferentes componentesdo ecossistema estuarino de forma distinta. Enquanto as cheiasafectaram directamente a populao de H. ulv, elas noafectaram directamente a biomassa de Z. noltii. Por outro lado,episdios de seca, atravs dos seus efeitos na salinidade,afectaram directamente a biomassa de Z. noltii, que por suavez teve efeitos secundrios na dinmica de H. ulv (CARDOSOet al. 2008).

    Conclumos, que durante o perodo de eutrofizao do esturiodo Mondego, os eventos climticos extremos contriburam paraa degradao geral do esturio, enquanto durante a fase derecuperao, esses mesmos episdios retardaram o processo derecuperao, significativamente. Estas observaes vm reforara ideia de que mltiplos factores de stress operando consecutivamentepodem actuar sinergeticamente de forma a diminuir a estabili-dade geral do sistema. A perda de biodiversidade aps umfactor de stress pode levar ao declnio da resilincia do sistemaa impactos adicionais, retardando a recuperao do mesmopara o seu estado original (SCHEFFER et al. 2001, VINEBROOKEet al. 2004).

    Referncias bibliogrficas

    CARDOSO, P. G., BRANDO, A., PARDAL, M.A., RAFFAELLI, D. & MARQUES, J. C.2005. The resilience of Hydrobia ulvpopulations to anthropogenic andnatural disturbances. Marine EcologyProgress Series 289, 191-199.

    CARDOSO, P. G., RAFFAELLI, D., PARDAL,M. A. 2008. The impact of extremeweather events on the seagrass Zosteranoltii and related Hydrobia ulv popula-tion. Marine Pollution Bulletin 56,483492.

    DOLBETH, M., CARDOSO, P. G., FERREIRA,S. M., VERDELHOS, T., RAFFAELLI, D.& PARDAL, M. A. 2007. Anthro-pogenic and natural disturbanceeffects on a macrobenthic estuarinecommunity over a 10-year period.Marine Pollution Bulletin 54, 576-585.

    LILLEB, A.I., NETO, J. M., MARTINS, I.,VERDELHOS, T., LESTON, S., CARDOSO,P. G., FERREIRA, S. M., MARQUES, J. C.& PARDAL, M. A. 2005. Managementof a shallow temperate estuary tocontrol eutrophication: the effect ofhydrodynamics on the systems nu -trient loading. Estuarine Coastal andShelf Science 65, 697-707.

    SANTOS, F. D., FORBES K., MOITA & R.2002. Climate Change in Portugal.Scenarios, Impacts and AdaptationMeasures - SIAM Project, GradivaPublishers, Lisbon, Portugal, 456 p.

    SCHEFFER, M., CARPENTER, S., FOLEY, J. A.et al. 2001. Catastrophic shifts inecosystems. Nature 413, 591-596.

    STRUYF, E., VAN DAMME, S. & MEIRE, P.2004. Possible effects of climatechange on estuarine nutrient fluxes: acase study in the highly nutrifiedSchelde estuary (Belgium, The Nether-lands). Estuarine Coastal and ShelfScience 60, 649-661.

    VERDELHOS, T., NETO, J.M., MARQUES, J.C. & PARDAL, M. A. 2005. The effectof eutrophication abatement on thebivalve Scrobicularia plana. EstuarineCoastal and Shelf Science 63, 261-268.

    VINEBROOKE, R. D., COTTINGHAM, K. L.,NORBERG, J., SCHEFFER, M., DODSON,S. I., MABERLY, S. C. & SOMMER, U.2004. Impacts of multiple stressors onbiodiversity and ecosystem func -tioning: the role of species co-tole -rance. Oikos 104, 451-457.

  • EMBORA sejam conhecidos desde o sculo dezasseis so citadosnas Crnicas de Gaspar Frutuoso (1983) os fsseis de SantaMaria somente foram objecto de estudo cientfico a partirdos trabalhos pioneiros de BRNN (1860), HARTUNG (1860)

    e MORELET (1860), os quais tiveram continuidade com os artigos de REISS(1862), HARTUNG (1864) e MAYER (1864). Durante o sculo vinte, ointeresse por parte da comunidade cientfica teve altos e baixos, tendosido publicados um total de dezanove artigos cientficos, com um mximonas dcadas de 1950 e 1960. A viragem do milnio marca o recrudescerdo interesse cientfico sobre este tema, o qual se traduz em dezoito artigospublicados at ao final de 2009, dos quais catorze so da autoria deelementos ou colaboradores do MPB (Marine Palaeo Biogeography workinggroup) (Fig. 1). A histria detalhada da paleontologia em Santa Mariapode ser consultada em MADEIRA et al. (2007).

    Os fsseis de Santa Maria adquirem relevncia a partir de 1999-2000,com uma srie de trabalhos de campo efectuados por elementos do MPBem Santa Maria. Em 2002 teve lugar a primeira expedio cientficaPalaeontology in Atlantic Islands. Estas expedies (2002, 2005, 2006,2007, 2008 e 2009) reuniram na ltima dcada em Santa Maria mais detrinta investigadores internacionais e foram as principais responsveispor, de forma definitiva, atribuir Ilha de Santa Maria (e aos Aores),importncia internacional no contexto da investigao cientfica da(paleo)biogeografia do sector nordeste do Atlntico.

    De facto, quem quiser formular hipteses relativamente aospro cessos de disperso, colonizao e especiao das ilhas ocenicas queformam o Arquiplago dos Aores, mais cedo ou mais tarde sentirnecessidade de incluir a dimenso temporal na sua perspectiva evolu tiva.O registo fssil esparso e descontnuo no tempo mas, uma vez que

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 29

    Os Fsseis de Santa Maria

    por SRGIO P. VILA1,21 MPB (Marine PalaeoBiogeography

    working group), University of the Azores2 Departamento de Biologiada Universidade dos Aores

    Fig. 1. Trabalhos cientficos sobre os fsseis deSanta Maria, publicados nos ltimos 150anos (MADEIRA et al., 2007).

  • 30 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    factual um fssil um facto que no admite contestao permitetestar hipteses, algumas delas produzidas atravs de indcios ouinterpretaes, por vezes com reduzida evidncia cientfica.

    Em Santa Maria, so conhecidas cerca de quinze jazidas fsseis comidades do final do Miocnicoincio do Pliocnico, entre 7 a 5 Ma (milhesde anos), e trs jazidas mais recentes, do Plistocnico, com idades entre os130.000-117.000 anos (Fig. 2). As jazidas Miocnicas da Malbusca, Cr

    e Pedra-que-Pica so as mais interessantes do ponto de vista cientfico,ao passo que as jazidas da Pedreira do Campo e Figueiral soparticularmente importantes, do ponto de vista didctico e de divulgaocientfica (Fig. 3). As jazidas Plistocnicas da Prainha e da Praia do Calhauso particularmente apropriadas pois o seu fcil acesso de molde apermitir a futura visitao guiada por guias credenciados. Estas jazidasfazem parte do projecto A Rota dos Fsseis, o qual engloba cinco trilhos

    Fig. 2. Algumas das jazidas Mio c ni cas / Plio -cnicas (a laranja) e Plistocnicas (a verde)de Santa Maria (adaptado de MADEIRAet al., 2007).

    Fig. 3. A caminho da jazida da Malbusca, du -rante a 6. expedio cientfica Pa -laeon tology in Atlantic Islands, emJunho de 2009.

  • pedestres propostos pelo MPB para explorao turstica em Santa Maria,estando os contedos entretanto produzidos relacionados com apromoo e conservao da biogeodiversidade e do patrimniopaleontolgico desta ilha (Fig. 4).

    Os grupos fsseis mais bem representados nas diversas jazidas soas algas calcrias, os invertebrados marinhos (moluscos, equinodermes,crustceos, briozorios, ostracodos, foraminiferos, esponjas), e verte -brados marinhos (selceos pelo menos cinco espcies de tubares soconhecidas peixes sseos e cetceos) (Fig. 5). Em certos locais (ex: Praia

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 31

    Fig. 4. Trilho pedestre de A Rota dos Fsseis:Macela - rainha - Praia Formosa(MEDEIROS et al, in prep.).

    Fig. 5. Fsseis mais representativos, encontradosem Santa Maria. A Somatofssil deClypeaster altus, um equinodermeMiocnico recolhido na jazida da Pedra-que-Pica; B Somatofssil de Gigan -topecten latissimus, um moluscobivalve recolhido na jazida Miocnicada Malbusca; C - Somatofssil de uma

    costela de um cetceo da famlia Balnopterid, recolhido na jazida Miocnica da Cr;D Somatofssil de dente de tubaro recolhido na jazida da Pedra-que-Pica; E Somatofssilde crustceo, a craca endmica Zullobalanus santamarinsis, recolhido na jazida da Pedra-que-Pica.

  • 32 PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009

    do Calhau, Pedra-que-Pica, Malbusca 2) so evidentes rastos de des -locao de animais ou estruturas de bioeroso e de bioturbao (Fig. 6).

    O acesso a alguns destes locais somente se consegue efectuar porbarco, da a necessidade de utilizao de meios navais aquando dasexpedies Palaeontology in Atlantic Islands. O apoio do Clube Naval deSanta Maria e dos seus skippers Armindo Mooroco e Marco Cabral, desde2002 que o garante da segurana no transporte de todos os cientistasenvolvidos no trabalho de campo (Fig. 7).

    Fig. 6. Icnofsseis. A - Rastos de deslocao de equinodermes najazida da Pedra-que-Pica; B Estruturas de bioturbao:galerias escavadas por vermes tubcolas, jazida da Malbusca;C marcas de bioeroso em valva de Gigantopectenlatissimus).

    Fig. 7. Transporte dos elementos das expediesPalaeontology in Atlantic Islandsnas embarcaes do Clube Naval deSanta Maria, para trabalhos de campona jazida da Pedra-que-Pica.

  • Para alm dos trabalhos cientficos publicados, deve realar-seo esforo efectuado pelos membros do MPB na promoo dosfsseis de Santa Maria, os quais so um recurso que pode e deveser explorado de forma sustentvel. Neste sentido, todas as expe -

    dies tm sido filmadase fotografadas, daquitendo resultado notciasna comunicao socialescrita nacional (Pblico,Dirio de Notcias, Correioda Manh, Expresso, Viso,Jornal I) e regional (Cor -reio dos Aores, Dirio dosAores, Aoriano Oriental,Dirio Insular, O Baluarte,Atlntico Expresso, TerraNostra, Aorianssima), bemcomo nas rdio (RdioRenascena, RDP, TSF,Rdio Atlntida, Asasdo Atln tico) e nastelevises (RTP e SIC)(Fig. 8). O re sul tado detodas as expe dies foiresumido num livro dedi vul gao cien tfica in -ti tulado Aores o Impriodos Fsseis (Fig. 9).

    PORTUGALA - n. 14 - Novembro 2009 33

    Bibliografia

    BRNN, H. G., 1860. Die fossilen Restevon Santa Maria, der sdlichsten derAzorischen Inseln. In: HARTUNG, G.(Ed.), 1860. Die Azoren in ihrer usserenErscheinung und nach ihrer geognostischenNatur, 350 pp. Verlag von WilhelmEngelmann, Leipzig.

    FRUTUOSO, G., 1983. Livro Terceiro dasSaudades da Terra. Instituto Cultural dePonta Delgada, clxxviii+300 pp.,Ponta Delgada.

    HARTUNG, G., 1860. Die Azoren in ihrerusseren Erscheinung und nach ihrer geo -gnos tischen Natur, 350 pp. Verlag vonWilhelm Engelmann, Leipzig.

    MEDEIROS, A. R., SILVA, S., CORDEIRO, R.,AMEN, R., FREIRE, P. & S. P. VILA(in prep). Proposta de um novo trilhopedestre para A Rota dos Fsseis naIlha de Santa Maria: Macela - Prainha- Praia Formosa.

    MORELET, A., 1860. Notice sur lHistoireNaturelle des Aores suivie dune descriptiondes Mollusques terrestres de cet Archipel,216 pp., 5pls. J.-B. Baillire et Fils,Paris.

    Fig. 8. Filmagens das expedies Palaeon to -logy in Atlantic Islands em traba hosde campo na jazida Miocnica da Cr.

    Fig. 9. Capa do livro Aores o Imprio dos Fsseis, daautoria de SRGIO VILA & PEDRO MONTEIRO(2009).

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    OS primrdios da Malacologia Aoriana, como os de muitasoutras reas da histria natural do arquiplago, esto ligadosa visitas espordicas de investigadores que por estas ilhaspassavam em projectos que os levavam a outras paragens,

    ou ento como subproduto de outros interesses que ali os traziam.No , pois, de admirar que o primeiro molusco endmico aoriano,Bulimus [=Napus] pruninus, descrito pelo norte-americano AUGUSTUS A.GOULD em 1846 ao estudar o esplio da misso do capito CHARLESWILKES, tenha sido indicado como pertencendo provavelmente Amricado Sul. De modo semelhante, o estudo por GUILIELMO DUNKER (1853)dos resultados da expedio do alemo Dr. GEORGE TAMS, que escalouo Faial em 1841 a caminho da Guin, deram origem uma magra lista demoluscos terrestres aorianos, sem acrescentar novidades endmicase misturando origens com a restante coleco do doutor alemo pelosvrios arquiplagos a que aportou. Outro Alemo, J. C. ALBERS, descreveuem 1852 trs espcies novas, recolhidas no ano anterior numa curtaparagem de trs dias em So Miguel: Helix [=Leptaxis] azorica, Bulimuscyaneus [Napus pruninus] e Glandina azorica [=Cochlicopa lubrica (O. F.MLLER, 1774)]. A esta lista de trabalhos espordicos poderamos acres -centar o de FORBES (1852) sobremoluscos recolhidos no Faial porMacgillivray na expedio Rat tles -nake e a descrio de Helix migue lina[=Oxychilus miguelinus] e Helix volu tella[=Oxychilus volutella] por L. PFEIFFER(1856), com base em exemplares dacoleco de H. CUMINGS.

    A primeira expedio mala col -gica aos Aores foi a dos natu ralistasfranceses ARTHUR MORELET e HENRIDROUT, de Abril a Setembro de 1857. excepo de So Jorge, os doisnaturalistas percorreram os Aores,tendo apenas DROUT visitado Corvoe Flores. Apressaram-se, ainda em1857, a publicar doze espcies novasque ali encontraram, guardando paramais tarde, em livro, um relato maiscompleto de suas viagens. DROUT,que tratou sobretudo dos moluscosmarinhos, publicou duas memrias em

    por ANTNIO M. DE FRIASMARTINS

    CIBIO Centro de Investigaoem Biodiversidade e Recursos Genticos,CIBIO-Aores, Departamentode Biologia, Universidade dos Aores.

    A Malacologia nos Aores:o ontem e o hoje

    Paratipo de Bulimus [=Napus] pruninusGOULD, 1846, depositado no National Museumof Natural History, Smithsonian Institution.Foi o primeiro molusco endmico dos Aores a serdescrito..

  • 1858 e uma terceira, mais desenvolvida, em 1861. MORELET, por seu lado,publicou em 1860 aquela que ainda hoje obra de referncia da Mala -cologia terrestre aoriana; ali so mencionadas sessenta e nove espcies,trinta e duas das quais endmicas. Juntamente com MORELET e DROUT,o gelogo alemo GEORGE HARTUNG esteve vrios meses os Aores,tendo recolhido, no processo, uma quantidade de conchas terrestres, queem 1858 foram objecto de relatrio por A. MOUSSON, que aproveitouo ensejo para completar a lista de vinte e duas espcies recolhidas porHARTUNG com sete outras de provenincia vria.

    O conhecimento mais alargado da fauna malacolgica dos Aoresdespertou comentrios de vrios estudiosos em outros campos da cincia.Assim, a ausncia de moluscos de gua doce nos Aores, constatada jpor MORELET (1860), foi retomada por A. MILNE-EDWARDS (1885), queenumera setenta espcies para o arquiplago, trinta e seis das quaisendmicas; este naturalista francs debrua-se com pormenor sobreaspectos de zoogeografia para concluir que os Aores so os picosemersos de um vasto continente, agora afundado. O mesmo temafoi abordado por W. KOBELT em 1896, que estendeu as suas comparaesa mbito Macaronsico.

    A efervescncia cientfica do final do sculo XIX estendeu-setambm aos Aores e sua malacologia, e FRANCISCO ARRUDA FURTADO(1854-1887) foi o naturalista aoriano que entusiasticamente assumiua tarefa de estud-la. A sua curta existncia apenas permitiu antevero ambicioso programa por ele esboado para tal estudo, quer pelaabordagem anatmica que se propunha (FURTADO, 1880, 1882a, b) querpelo plano de investigaes que delineou e que consta do esplioPapis de Arruda Furtado, depositado na Faculdade de Cincias daUniver sidade de Lisboa (MARTINS, 1989b). Correspondeu-se amplamentecom o mundo cientfico, inclusive com CHARLES DARWIN (NEVES, 1957;LUS ARRUDA publicou, em 2002 e 2008, a extensa correspondnciacientfica e obra cientfica deste primeiro malaclogo aoriano). ARRUDAFURTADO (1881) foi o primeiro a registar a presena de moluscosde gua doce nos Aores (Physa teneriff Mousson [=Physella acuta(Draparnaud)]). MILNE-EDWARDS (1885), porm, no teria tidoconhecimento de tal registo quando abordou a zoogeografia doarquiplago, nem durante a sua visita a So Miguel em 1883, inte -grado na expedio do Talisman, havia aparentemente contactado

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    Oxychilus (Atlantoxychilus) riedeliHAUSDORF, 1993. Endmico de Santa Maria.

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    o naturalista aoriano. JULES DE GUERNE (1887), naturalista queacompanhou a terceira expedio do Prncipe Alberto do Mnaco a bordodo Hirondelle, descreveu do Faial o bivalve de gua doce Pisidium dabneyi[P. casertanum (POLI, 1791)]; THODORE BARROIS (1896) registou, paraSo Miguel, este bivalve dulaqucola sob o nome de P. fossarinum Clessin.O especialista alemo em lesmas, HEINRICH SIMROTH, visitou demo -radamente a ilha de So Miguel, tendo da resultado a publicao de vriostrabalhos (1888a, b; 1891) sobre os limacdeos, ariondeos e virtrindeosdo Arquiplago.

    Os moluscos marinhos do Arquiplago haviam recebido ateno porparte de ROBERT MACANDREW (1856) e, sobretudo, de HENRI DROUT(1858). Foram, porm, as expedies do Prncipe Alberto I do Mnaco,no final do sculo XIX, que grandemente contriburam para o conhe -cimento da fauna malacolgica marinha do Arquiplago, sobretudo dasprofundidades ocenicas. Destaque-se que o primeiro dos mais de setentafascculos que compem a extensa obra daquelas Campagnes Scientifiquesfoi sobre os moluscos marinhos dos Aores (DAUTZENBERG, 1889). Emtrabalhos de mbito mais alargado, descrevendo os resultados dasCampagnes que intersectaram a rea dos Aores, RUDOLPH BERGH(1892, 1899) tratou dos opistobrnquios, LOUIS JOUBIN (1895, 1900)dos cefalpodes, A. VAYSSIRE (1904, 1915) dos heterpodes e pterpodese DAUTZENBERG (1927) dos moluscos em geral. DAUTZENBERG &FISCHER (1897) continuaram o estudo dos resultados das campanhas,publicando-as em outro contexto.

    AUGUSTO NOBRE (1924, 1930), um dos mais conceituados mala -clogos portugueses, visitou em 1919 sete das nove ilhas (exceptuandoSanta Maria e Corvo), tendo, na sua publicao de 1930, produzido umalistagem relativamente completa dos moluscos dos Aores; se bem quetenha includo registos novos, no acrescentou, todavia, descries deespcies novas. O conhecimento mais completo da fauna malacolgicaaoriana, na esteira da minuciosa reviso iniciada por WOLLASTON em1878 e continuada por MILNE-EDWARDS (1885) e KOBELT (1896), permitiua FISCHER-PIETTE (1946) uma integrao mais objectiva desta numenquadramento Macaronsico; a se discute o significado da presenade espcies dulaqucolas em ilhas ocenicas e criticam-se as explicaesque propunham a ligao dos Aores a um continente desaparecido(GERMAIN, 1913, 1924).

    Leptaxis caldeirarum (MORELET &DROUT, 1857). Restringido s imediaesda caldeira das Sete Cidades, So Miguel.

  • Pode afirmar-se que a viragem da Malacologia Aoriana para uma abor -dagem anatmica se iniciou com a reviso de quinze espcies de Zonitidpor ADOLF RIEDEL (1964), com base numa coleco da expe dio sueca daUniversidade de Lund em 1957, chefiada por PER BRINCK e ERIC DAHL.

    Foi, porm, a publicao de Land & Fresh-Water Molluscs of theAzores, por WIM BACKHUYS em 1975, que proporcionou aos estudiososda Malacologia terrestre do arquiplago um manual revisto e actualizado;o resumo histrico at aqui apresentado decalca-se fortemente nessapublicao. Inevitavelmente, o trabalho de BACKHUYS, na sequncia daabordagem anatmica utilizada por RIEDEL, descobriu grupos de ende -mismos que proporcionaram uma investigao ulterior sistemtica eapoiada. O nmero de espcies e subespcies subiu para noventa e nove,das quais trinta e nove endmicas.

    Em 1988 teve lugar, no Museu Carlos Machado, o primeiroEncontro de Malaclogos Portugueses, que de 4 a 6 de Maro reuniutrinta e cinco investigadores nacionais; as actas foram publicadas noBoletim da Sociedade Afonso Chaves, Aoreana (MARTINS, 1989a). Umpequeno ncleo de Malacologia havia sido formado, no ano anterior,no Departamento de Biologia, com a ambio ingnua de estudartodos os aspectos relevantes da Malacologia do Arquiplago. Desde cedoa ingenuidade foi dando lugar ao entusiasmo e iniciou-se um programa depreparao acadmica de especialistas em ecologia, morfologia funcionale sistemtica molecular, de modo a proceder-se a uma abordagemintegrante da Malacologia. O Encontro de Malaclogos Portuguesesproporcionou as necessrias ligaes nacionais, na altura com umaSociedade Portuguesa de Malacologia estabelecida e um Instituto Por -tugus da Malacologia nascente. A desejada ligao internacional foiiniciada com a realizao, ainda em 1988, do primeiro Workshop Inter -nacional de Malacologia, numa organizao conjunta da SociedadeAfonso Chaves e do Departamento de Biologia da Universidade dosAores. Na antiga capital da ilha, aproveitando a recm-instituda ReservaAmbiental do Ilhu de Vila Franca do Campo, de 11 a 24 de Julhoreuniram-se nomes sonantes da Malacologia (BRIAN MORTON, HongKong University; RICHARD HOUBRICK, Smithsonian; RUTH TURNER,Harvard; ROBERT BULLOCK, University of Rhode Island; TERRYGOSLINER, Califrnia Academy of Sciences; STEPHEN HAWKINS,Liverpool University; SERGE GOFAs, Musum dHistoire Naturelle deParis; WIM BACKHUYs, Leiden) juntaram-se ao grupo de jovens aprendizesde malaclogos e, num laboratrio improvisado, prepararam trabalhosque foram publicados em Actas (MARTINS, 1990). A ideia do workshop foiincutida por BRIAN MORTON, que em Hong Kong utilizava essa estratgiapara desenvolver o conhecimento de variadas reas da histria naturallocal. O sucesso dessa primeira iniciativa, e na sequncia de um convite deBRIAN MORTON para participarmos num workshop em Hong Kong e aaprender como se poderia melhorar o evento, levou realizao, em 1991,de um segundo workshop em Vila Franca do Campo que, mantendoembora o ncleo forte da Malacologia, alargou a participao a outrasreas da biologia marinha. Os quarenta participantes originaram trabalhosque foram publicados em Actas (MARTINS, 1995b). No s se alargavao mbito da investigao cientfica como se criava um ambiente de culturacientfica naquela Vila micaelense.

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    Os primeiros projectos do ncleo de Malacologia tinham uma fortecomponente aplicada, sobretudo relacionada com o problema da fas -ciolose, atendendo a que o hospedeiro intermedirio do parasita opulmonado de gua doce Galba truncatula (O. F. MLLER, 1774). Dessesestudos resultaram levantamentos exaustivos da fauna malacolgicadulaqucola das ilhas afectadas (MARTINS, 1991a). O Departamentode Biologia tinha, ento, uma forte componente de Luta Biolgica; assim,e porque o problema da fasciolose era tratado deste modo em outrospases, desenvolveu-se investigao no controlo biolgico de G. truncatulaatravs de predao por moluscos zonitdeos. Sendo este o grupo commaior expresso endmica no arquiplago, criou-se a necessidade de oestudar em maior profundidade. As provas acadmicas foram orientadas,deste modo, para as vertentes ecolgica, de morfologia funcional e desistemtica molecular do zonitdeo endmico Oxychilus (Drouetia) atlanticus(MORELET et DROUT, 1857) (ver CUNHA, 1991, 1999; BRITO, 1992b;RODRIGUES, 1995, 2000). Concomitantemente uma srie de trabalhos cien -tficos foram sendo produzidos (BRITO, 1992a; RODRIGUES et al., 1998;RODRIGUES & GMEZ, 1999; GMEZ & RODRIGUES, 2000; MEDEIROS et al., 2000;CUNHA et al., 2001) e estgios de licenciaturas foram dirigidos naquela rea(COTA, 1994; MARQUES, 1998; REBELO, 1999; LOPES, 1999), aprofun -dando-se deste modo conhecimentos e criando-se sentimento de escola.

    Havia-se estabelecido, no Departamento de Biologia, o costumede fazer uma expedio de Vero a outra ilha que no So Miguel.Criavam-se assim oportunidades para um rastreio mais alargado e apro -fundado da composio malacolgica terrestre das vrias ilhas. Os resul -tados constam dos Relatrios publicados pelo Departamento (MARTINSet al., 1989, 1990, 1991, 2006; CUNHA et al., 1993, 2008). Grande partedas observaes assim feitas constituiu matria fundamental parao projecto de cartografia da fauna e flora do arquiplago (BORGES et al.,2005; CUNHA et al., 2005), que se tornou um marco essencial para estudosque integrem a distribuio do biota Aoriano (CAMERON et al., 2007).

    Desde cedo se descobriu o potencial do arquiplago comolaboratrio natural para o estudo da evoluo (MARTINS, 1993) e aassociao da histria vulcanolgica das ilhas como referncia necessriaao entendimento dos processos evolutivos apareceu bem cedo (MARTINS,1991b). Tornou-se necessrio proceder primeiro a uma reviso siste m -tica que ainda est longe de concluda, frequentemente descrevendo

    Oxychilus (Drouetia)